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Full text of "Revista archaeologica"

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THE  J.  PAUL  GEITY  MUSEUM  LIBR/ 


REVISTA 

ARCHEOLOGICA 


E  HISTÓRICA 


PUBLICAÇÃO   AIENSAL 


PROPRIETÁRIOS    E    REDACTORES: 

A.  C.  BORGES  DE  FIGUEIREDO 

Bibliothccario  da  Sociedade  de  Geographia  de  Lisboa 
E 

M.  ALEXANDRE  DE  SOUSA 

Ofticial  do  exercito 


VOLUME 

1887 


LISBOA 
Typographia  de  Adolpho,  Modesto  &  C.^ 

FORNECEDORES  DA  SOCIEDADE  DE  GEOGRAPHIA 

Rua  Nova  do  Loureiro,  2.5  a  43 

18  8; 


THb  J.   PAUL  GETTY  CENTÇR 


NDICE 


XYIII 


VIII 


Pag.       Est. 

Aiimlclo  roínaiio 70        x 

Aiilijíiiidadfs  de  Montemór-0-novo 129 

Antiguidades  pheiíicias  na  Península 175 

Ao  leitor 1 

Ara  romana  dcscolicrta  em  Castro  Daire fi2        ix 

Arclieoloj,'ia  :  iiiijiorlancia,  estudo,  notas  varias 1,  l."i,  4o  líiG 

Arciíitíícto  lie  Odiveilas  (O  primeiro) lio        xvi 

Balsa  ( perto  de  Tavira) ;J3 

Beja 18o 

Bencatel 100 

Bihliographia 80,  96,  128,  159  17o 

Brigantium  (o  supposto)  em  (>astro  de  Avellãs 8o 

Bronze  (objectos  d?)  —  na  Hispanlia lo 

Calcos  (modo  de  tirar) 16 

Castro  Daire  í  Ara  romana  descoberta  em) 52        ix 

Ceitis  de  D.  Allbnso  v KJG 

Chinfrans  de  D.  AíTonso  v;  vej.  Real. 

Cippo  funerário  romano  descoberto  em  Vizeu 81        xii 

Citaina 39 

Constiluiçõcs 10  182 

Conslituições  do  arcebispado  de  Lisboa,  decretadas  por  D.  João  Es- 
teves de  Azambuja  ( 1102-1114) 10,  28,  60,  77        94 

Descobertas  arcbeologicas lo 

Descobertas  em  Pompeia  (Novas) 31 

Dias  egypcios  (os) 6o 

Dinfieiro  de  D.  Saiicbo  ir 57 

Duas  inscripçõos  de  Olisipo o 

Edade  de  pedra  ;  na  Guadalupe 6  9 

Elvas  (Três  monumentos  epigraphicos  d') 97 

Epigrapbia  : 

de  Olisipo o 

de  Tuy 17 

de  Balsa 33 

de  Citánia 43 

de  Faro 47         93 

de  Mertoia 64 

de  Castro  D.iire 52        rx 

num  tijolo 76        xi 

de  Vizeu 81 

de  Castro  de  Avellãs 8o 

de  Sacoias 92 

tle  Elvas 97  135 

de  Bencatel 100 

(Epitapbio  do  século  xii) 109 

de  Montemór-o-novo 113  129 

de  Odiveilas 147 

de  Duas  Egrejas  (Miranda  do  Douro) lo9 

de  Beja 18:i 

Epitaphio  do  século  xii 109 

Escuipturas  em  madeira,  da  Guadalupe 8 


IX 

I 


r 

III-VI 
VI  i 
VIII 

IX 


xir 


XVI,  XIX 


Pag. 

Est. 

166 

XVIII 

45 

49 

6 

8 

64 

IX 

129 

índice 


Espadins  ile  D.  AlTonso  v 

Estudos  nrcheoloííioos  om  Portugal  (os) 

Geoiírifia  áral)i'  de  Portujral  (La) 

Guadaluix'  pivliislorica  (A) 

ídolos  da  Guadalupe 

Inscriprão  clirislã  dcscoliorla  em  Mcrtola 

Inscripção  de  Moiiteiuór-o-novo.   113 

Lei  de'í8  de  ai!oslo  de  1721  relaíiva  á  conservação  dos  monumen- 
tos arelipoio^tricos  (extracto) 46 

Mais  um  monumento  rpjgraphico  de  Bencatel 100 

Mealha  de  D.  AlTonso  i 27 

Mecia  Lopes  de  llaro  (D.) 161       184 

Modo  d"  tirar  calcos  de  inscripções 16 

Montemór-o-novo 129 

MonuMieiitos  de  Balsa     33 

Monumentos  epigrapi  ieos  de  Beja 185 

Monumentos  epigrapliicos  de  Tuy _._ 

Monumentos  históricos 156 

Notas  sohre  a  toponymia  portuguezi 102 

Numismática  poi  tugueza : 

mealha  de  1).  Atíonso  i 

diniieiro  de  D.  Sancho  ii 

fracções  de  real  de  D.  João  i 

reaes  de  I).  João  i 

reacs  hrancos  de  D.  Duarte 

reaes  grossos  e  meios  reaes  ou  chinfrans  de  D.  AíTonso  v 

espadins  e  ceitis  de  D.  Allbnso  v 

Numismaíica  romana  : 

Vli  BS  HUM  A  B  E  ATA .- 10        ii 

Óbidos,  vej.  Constituições  e  Visitação. 

Odivellas 145      177   xvi,  xix 

Pedra  formosa  (A)  da  ('itania 42 

Pom|ieia  (Novas  descobertas  em) 31 

Porco,  sua  importaiicia  cultual 53 

Pretiistoria  :  A  Guadalupe  prehistorica 6 

Primeiro  architecto  de  Odivellas  (o) 145        xvi 

Qu'>stionario  archcologico HO 

Heal  —  Fracções  de  real  de  D.  João  i 72        xi 

reaes  de  1).  João  i 83        xii 

reans  brancos  de  D.  Duarte 117        xiv 

reaes  grossos  e  meios  reaes  ou  chinfrans  de  D.  AíTonso  v 133        xv 

S.  João  do  Mocharro  d'Obidos,  vej.  Constituições  e  Visitação. 

Silex :  —  (Armas  e  utensílios)  na  Guadalupe 7 

»  ■>  na  Hispanha 15 

Supposto  Brigantiuíu  em  Castro  de  Avellãs  (o) 85 

Tijolo  do  século  xvi 76        xi 

Toponymia  [)orfugneza  (Notas  sobre  a) 102 

Três  monumentos  epigraphicos  d'Elvas  e  do  seu  termo 97       136 

Túmulos  em  Pompeia 31 

Uma  moeda  rara 10        il 

Visitação  á  egreja  de  S.  João  do  Mocharro  dObidos,  por  D.  Jorgeda 

Gosta,  em  14  de  fevereiro  de  1467 119,  137       152        xvii 

Visitação  á  egreja  de  S.  João  do  Mocharro  d'Obidos,  por  D.  João, 
Itispo  de  Gaíim,  em  nome  do  arcebispo  de  Lisboa,  aos  2  de  ju- 
nho de  1473 169 


17 

III-VI 

177 

XIX 

102 

27 

VI 

57 

IX 

72 

XI 

83 

XII 

117 

XIV 

133 

XV 

166 

XVIIt 

REVISTA 

ARCHEOLOGICA 

E  HISTÓRICA 

AO  LEITOR 

O  conhecimento  das  gerações  que  passaram,  mostrando- 
nos  as  pliases  que  tem  percorrido  a  liumanidade  na  sua  evo- 
lução continua,  dá-nos  a  explicação  de  muitas  das  circum- 
stancias  de  meio  e  de  modo  em  que  vi^'emos. 

Esse  conliecimento  do  antigo  —  a  arclieologia  —  não 
consta  limitadamente  da  noção  de  objectos  materiaes  que 
chegaram  até  nós,  ou  de  que  ha  memoria;  mas  é  constituido 
pelo  conjuncto  de  todas  as  noticias  que  se  i)ossam  obter 
acerca  dos  diíferentes  povos,  sobre  sua  origem  e  suas  mi- 
grações, seus  caracteres  physicos  e  sua  linguagem,  sobre 
stus  costumes  e  usos,  sua  industria  e  commercio,  como  so- 
bre suas  artes  e  monumentos,  suas  instituições  e  suas  crenças. 

Vasto  como  é  este  ramo  da  sciencia,  não  é  dado  a  um 
só  homem  o  poder  tractal-o  em  todas  suas  partes.  Algumas 
d'ellas  requerem  a  cooperação  d'outros  ramos  scientiíicos, 
dos  quaes  nem  todos  attingiram  ainda  o  conveniente  estado 
de  perfeição,  e  alguns  exigem  um  estudo  especial  muito 
complexo  e  transcendente,  absorvendo  de  tal  modo  o  tempo 
que  não  dão  logar  a  outros  trabalhos.  Dissemos  que  a  ar- 
cheologia  é  não  uma  sciencia,  mas  um  ramo  d'ella.  E  que  a 
sciencia  é  una,  mas  tem  variadas  manifestações ;  é  estas,  na- 
turalmente e  de  tal  modo  estão  entre  si  ligadas,  que  nenhuma 
pôde  tornar-se  independente  das  outras.  E  nessa  solidarie- 

Rev.  Arch.  e  HiST.,  I,  N."  I — Jan.  18S7,  I 


BEVISTA    ARCHEOLOGICA 


dade  incontestável,  é  nesse  principio  geral  de  harmonia  e  de 
ordem  qiTe  reside  a  força,  a  grandeza  da  sciencia. 

Se  todos  os  ramos  da  arclieologia  estivessem  já  devida- 
mente estudados,  poderia  aproveitar-se  esse  conjiincto  de 
materiaes  para  com  o  seu  auxilio  se  compor  definitivamente 
a  historia  comparada  do  passado.  Mas  são  ainda  muito  in- 
complectos  na  maior  parte  os  trabalhos  archeologicos  par- 
ciaes,  e  o  grande  arcliivo  da  terra  contém  ainda  muitos  e 
muitos  documentos  desconhecidos  que  talvez  um  dia  virão 
lançar  luz  sobre  muitas  e  graves  questões  que  hoje  subsis- 
tem irresolvidas. 

lia  ainda  na  actualidade  pessoas  que,  pretendendo  ser 
tidas  como  illustradas  e  presumindo-se  muito  intendidas  no 
desinvolvimento  da  humanidade,  perguntam  qual  a  impor- 
tância de  ir  desenterrar  uma  inscripeao  truncada,  um  frag- 
mento de  lâmpada,  uma  moeda  meio  safada;  qual  a  impor- 
tância d'um  pedacinho  de  vaso  domestico  de  vidro  ou  louça; 
que  perguntam  qual  o  interesse  de  saber-se  ao  certo  se  uma 
povoação  assentava  um  decimo  de  milha  distante  da  sua  si- 
tuação actual,  se  sempre  uma  localidade  teve  o  mesmo  nome 
ou  designação  diversa. 

«Que  importa?  Bárbaros!  —  respondeu  A.  Herculano  — 
Importa  a  arte,  as  recordações,  a  memoria  de  nossos  pães, 
a  conservação  de  coisas  cuja  perda  é  irremediável,  a  gloria 
nacional,  o  passado  e  o  futuro,  as  obras  mais  espantosas  do 
intendimento  humano,  a  historia  e  a  religião.»  Que  importa? 
Importa  o  conliecimento  do  estado  da  industria  e  da  arte  das 
gerações  passadas,  importa  o  conhecimento  dos  usos  e  cos- 
tumes dos  liomens  d'outras  edades,  importa  a  noticia  das  re- 
lações commerciaes  entre  os  povos  que  nos  precederam,  im- 
porta a  noção  do  desinvolvimento  intellectual,  moral  e  reli- 
gioso da  gente  que  passou,  importa  a  informação  de  tudo 
que  existiu  antes  de  nós,  do  que  preparou  o  estado  presente 
das  coisas,  importa  a  causa  da  civiHsação  actual,  importa  a 
origem  da  sociedade  d'hoje. 

Outra   gente  ha  também  que  intende  ser  hoje  em  dia 


K    IIISTUJUCA 


ocioso  tractar  novamente  assumptos,  de  ([ue  se  occiíparam 
antigos  escriptores,  pela  razão  de  que  estes,  tendo  vivido 
mais  próximos,  do  cpie  nós,  d'aquillo  de  que  falaram,  tinham 
obrigaí^ão  de  ser  melhor  informados  do  que  as  modernas  ge- 
rações. Os  que  pensam  de  tal  guiza,  ou  têm  a  simplicidade  de 
crer  que  todos  os  antigos  auctores  foram  sensatos  e  todos  de 
inteira  seriedade  e  irreprehensivel  honestidade  scientifica,  ou 
sào  tcTo  ingénuos  que  julgam  uma  profanação  corrigir  os 
dislates  e  verberar  as  falsidades  de  embusteiros  como  fr. 
Bernardo  de  Brito,  como  1).  Nicolau  de  Santa  lyiaria,  e  ou- 
tros mais.  Para  esses  a  historia  serve,  não  para  nos  instruir 
das  phases,  das  evoluções  por  que  tem  passado  a  humani- 
dade, não  para  alargar  o  circulo  dos  nossos  conhecimentos  e 
conduzir-nos  á  verdade ;  serve,  sim,  para  affagar  as  vaida- 
des ineptas  com  desconcertos  de  toda  a  sorte,  para  conser- 
var estacionários  os  espíritos  fracos  sob  paral}'sadoras  in- 
fluencias. Para  esses  a  historia  é  como  que  um  romance, 
onde  aos  personagens  ideados  se  attribuem  qualidades  con- 
vencionaes,  onde  os  factos  são  mero  producto  do  capricho 
d'unia  imaginação  jjoi'  vezes  enferma ;  em  vez  de  ser  uma 
narrativa  veridica,  onde  os  homens  apparecem  sob  o  seu  as- 
pecto real,  com  sua  Índole  própria,  com  seus  vícios  e  virtu- 
des, com  seu  caracter  emfim,  e  onde  os  factos  são  effeitos 
de  causas  operando  em  circumstancias  determinadas. 

Felizmente  que  alguns  espíritos  illustrados  vão  protes- 
tando contra  esse  erróneo  modo  de  considerar  a  historia, 
contra  esse  desprezo  ou  indifferentismo  j^ela  archeologia.  Di- 
gnos dos  maiores  louvores  são  elles.  E  é  com  satisfação  que 
nós  registamos  o  facto  de  alguns  prelados  haverem  instituído 
em  seus  seminários  um  curso  de  archeologia;  cabe  a  honra 
da  ideia  e  da  })rimeira  execução  ao  Ex.'""  e  Bev.'""  Bispo  de 
Beja,  digno  successor  do  í Ilustre  Cenáculo. 

As  considerações  que  ficam  expostas,  e  de  cuja  verdade 
estamos  convictos,  nos  movem  a  publicar  a  lievista  Archeo- 
logica  e  Histórica^  destinada  a  vulgarisar  as  noticias  de  todo 
O'  género  que  digam  respeito  ás  antiguidades  e  outros  assum- 
ptos históricos,  despertando  assim  o  gosto  por  estes  estudos. 


REVISTA    AKCIIEOLOGICA 


Demais,  por  muitas  vezes  temos  ouvido  algumas  pessoas 
estudiosas  queixarem-sc  da  falta  em  Portugal  d'um  reposi- 
tório arclieologico  e  histórico,  de  publicação  regular,  onde 
tenham  cabimento  quaesquer  breves  descripções,  notas  e 
communicações  do  que  se  váe  descobrindo.  Ficará  preenchi- 
da essa  grande  lacuna  com  a  Revista  Archeologica  e  Ilistorica^ 
na  qualseràoincluidos  os  artigos  com  que  nos  queiram  obse- 
quiar aquelles  que,  assim  em  Portugal  como  no  estrangeiro, 
trabalham  conscienciosamente  nestes  assumpos. 

Procuraremos  sempre  melhorar  esta  publicação;  e,  se 
ella  merecer  a  acceitação  do  publico,  dar-lhe-hemos  maior 
desinvolvimento. 

Uma  secção  bio-bibliographica  dará  com  toda  a  pon- 
tualidade noticias  precisas  das  j^ublicações  ríícebidas  pela  re- 
dacção, e  dos  seus  auctores. 


A  Redacção. 


E    HISTÓRICA 


DUAS  INSCRIPÇíJES  DE  OLTSIPO 

Em  17!)7,  o  ncgocianlo  Francisco  Josó  da  Silva  fez  edificar  o  pré- 
dio (hoje  iiileiranieiile  reformado)  da  csfiuiiia  do  largo  de  Santo  Antó- 
nio para  o  da  Sé  de  Lisboa.  Por  essa  occasião  enconlraram-se  dnas 
lapides  com  iiiscripções  romanas,  de  que  tomou  copia  José  Anastácio 
da  Costa  e  Sá. 

O  padre  Manuel  da  Gama  Xaro  publicou  as  duas  inscripções,  se- 
gundo a  copia  de  (]osla  e  Sá,  nos  Ainincs  da  Sociedade  Arc/ieologica 
Luzilana  ()J,4li),  precedendo-as  d'uma  breve  indicação  da  sua  prove- 
niência. Dos  Annaes  transcreveu-as  l.evy  Maria  Jordão  na  deforme 
obra  que  intitulou  Pni-tuf/uUae  Inscriptiones  Romanae,  obra  que  mos- 
tra com  evidencia  a  ineptidão  epigrapliica  do  seu  auctor.  Vêem  a  pag. 
197,  n.  4)38;  e  pag.  t2l8,  n.  498. 

Posteiiormenle  foram  as  mesmas  inscripções  publicadas  no  vol.  II 
do  Corpus  Inscriplionum  Lalinanim  (n.  :200  e  2^0),  pelo  illustre  sá- 
bio allemão,  o  sr.  professor  Emilio  Hubner,  o  qual,  á  falta  d'outro  sub- 
sidio seguiu  o  transumpto  dos  mencionados  Annaes. 

Finalmente,  incluiu-as  na  sua  Lishod  Antiga  o  sr.  visconde  de  Cas- 
tilho (vol.  I  da  segunda  parte,  pag,  9i2-93),  anlecedeudo-as  da  seguinte 
informação  : 

«O  Diário  de  Noticias,  de  Lisboa,  de  11  de  julho  corrente,  de  1882, 
mencionava  isto  :  numas  obras  que  no  prédio,  a  Santo  António  da  Sé, 
no  largo,  esquina  da  travessa  de  Santo  António  da  Sé  estava  fazendo 
a  companhia  de  Credito  Predial,  appareceu,  ao  derrubar  se  uma  parte 
do  muio  que  separa  o  quintal  do  pateo  da  cocheira,  uma  caveira  num 
vão  do  mesmo  muro ;  e  esse  vão  lapava-o  uma  lapide  com  esta  in- 
scripção. . .  E  a  pequena  distancia,  no  muro,  outra  lapide. . .» 

Vendo  eu  esta  noticia  na  obra  do  distincto  escriptor,  dirigi-me  á 
Caixa  de  Credito  Predial  ou  IJanco  Ilypothecario,  e  sollicitei  do  d'gnis- 
simo  vice-governador,  o  ex."'°  sr.  conselheiro  Lourenço  António  de  Car- 
valho, licença  para  tirar  calcos  das  inscripções.  Com  a  maior  prom- 
ptidão  e  amabilidade  s.  ex.'^  me  facultou  o  ver  as  lapides  e  tirar  cal- 
cos, e  aqui  reitero  os  meus  agradecimentos  pelo  obsequio  recebido. 

As  lapides,  cuja  espessura  é  de  cerca  de  O, ""00,  tèein :  uma  (a  de 
Oplatino)  0,'";í4  de  largo  e  O, '"31  de  alto;  a  outra  é  quadrada,  me- 
dindo cada  lado  0,'°:il. 

É  pena  que  os  operários  (segundo  se  cré)  se  entretivessem  a  lim- 
par com  um  prego  ou  navalha  as  letlras ;  não  se  p(jde  porém  levantar 
duvida  alguma  sobre  a  aulhenticidade  (Kestes  monumentos,  em  que 
se  encontram  ainda  vestígios  intactos  da  gravura. 

Embora  esta  noticia  seja  acompanhada  do  fac-simile  das  inscripções^ 
aqui  as  transcrevo. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


A  inscripção  da  lapide  que  Lapava  o  vão,  onde  se  achou  a  caveira, 
ú  a  seguinte  : 

D  V  i\I       y 

CAEGILIVSOP 
TATINVS    r     AN    XXN    Vii 
H   r    S  E  V   I  V  L  V   O  R  N  E 
COGNATO    OPTI 

''      F  A  G      C  V  K      '' 

D{iis)   M{jnibus).  Caeciliiis  Ofl.Ttimis,  an{noriim)  XXXVII,  h(ic)  siiiiis) 
e{st).  Jiil{iiis)  Orne  cognato  opli{nio)  fjc[iiiuJu})i)  cur{M'it). 

A  outra  inscripção  é  esta: 

D      V      M 

IVL  V  SEVERA  A/ 
L  V  V  H  Y  SE  V  I  V  L 
ORNE  r  M  A  T  R  I 
PIENTISSIxMAE 
^    FEG  I  T    ^ 

D[iis)  M{anibus).  Jtil{ia)  Severa,  an{norwn)  LV,  h(ic  s{iia)  e{sí).  Jiil{ius) 
Orne  matri  pientissimae  fecit. 

Como  se  vê,  ambos  os  monumentos  foram  mandados  fazer  por  Jú- 
lio Orne:  um  dedicado  a  sua  mãe  Júlia  Severa,  outro  ao  seu  parente 
Caecilio  Optatino. 

Borges  de  Figukiredo. 


A  GUADALUPE  PREIIISTORICA 

Se  é  interessante  o  estudo  da  vida  da  geração  que  antecedeu  á  actual, 
para  as  compararmos  e  prevermos  mais  do  que  por  uma  phantasia  da  ima- 
ginação, quaes  serão  as  proporções  e  a  vitalidade  das  raças  que  nos  hão 
de  seguir  amanhã;  se,  por  uma  progressão  comparativa  de  raça  para  raça, 
de  geração  para  geração,  desde  que  a  historia  nos  ilhimina,  podemos 
apontar  a  raça  que  amanhã  ha  de  succumbir,  e  a  que  á  custa  d'esta 
ha  de  desenvolver-se,  revolvendo  o  seio  da  terra,  liei  depositaria  do 
retrato  e  do  modo  de  ser  das  gerações  que  absorveu,  poi"que,  com  as 
cinzas  (Tessas  gerações,  guardou  os  seus  mais  preciosos  Ihesouros,  os 
documentos  mais  incontestáveis  da  sua  civilisação  e  dos  seus  costu- 


E   HISTÓRICA 


mes,  tem  o  homem  investigador  maior  campo  de  acção,  e  pôde  en- 
contrar os  elos  partidos  e  occultos,  que  a  historia  não  conhece,  d'essa 
cadeia  extensissiiua  da  hinnanidado,  que  ainíhi  nãu  tem  assigiialada  para 
a  sciencia  o  sou  princi[)io,  nem  é  possível  deniaicar-lhe  o  íini. 

Se  allraenle,  por  conseguinte,  é  o  estudo  das  raças  ijue  a  historia 
nos  descreve,  ainda  a(|uellas  sobre  que  está  feita  toda  a  luz,  é  muito 
mais  interessante  investigar  os  traços  deixados  pelo  homem  prehisto- 
rico,  principalmente  nas  ilhas  onde  as  misturas  de  raças  eram  mais 
dilliceis  nos  primeiros  tempos  da  humanidade. 

O  sr.  manjuez  de  Nadaillac  estudou  e  fez  ha  pouco  tempo  a  descri- 
pção  da  explendida  collecção  obtida  pelo  sr.  Guesde  nas  Antilhas, 
descripção  que,  pela  sua  importância,  mereceu  a  allenção  da  França 
que  ultimamente  se  tem  entregado  cuidadosamente  a  estudos  archeo- 
logicos.  O  sr.  de  Nadaillac  diz: 

Encontram-se  nas  Antilhas  os  traços  de  duas  raças  distinctas  que 
existiram  nos  séculos  anteriores  á  descoberta  da  America. 

Os  habitantes  das  grandes  Antilhas  e  da  ilha  liahama  eram  bran- 
dos e  timidos  e  foram  promptamente  exterminados  pelos  hispanhoes. 

Nas  pequenas  anlilhas  viviam  os  Caraibas,  guerreiros  ferozes  e  tal- 
vez anlhropophagos;  tèm-os  descripto  e  representado  como  uma  bella 
raça,  de  alta  estatura,  nariz  aquilino,  pelle  trigueira,  olhos  ligeiramente 
obliíjuos,  e  os  cabellos  longos,  duros  e  ásperos. 

Esta  raça  também  desappareceu.  Restam  d'ella  apenas  alguns  des- 
cendentes no  Nicarágua,  nas  Guyanas,  e  na  bacia  do  Orenoque. 

O  sr.  de  Nadaillac  altribue  aos  antepassados  dos  Caraíbas  as  peças 
da  collecção  do  sr.  Guesde  recolhidas  em  Guadalupe,  Dominica,  Mar- 
tinica, Santa  Luzia,  Porto  Hico  e  São  Domingos. 

Estas  peças  são  machados  e  cutellos  de  silex,  d'uma  espécie  de 
esmeralda,  de  mármore,  e  todos  geralmente  dum  trabalho  notável, 
obtido  pelo  friccionamento  com  outras  pedras. 

Encontram-se  em  Guadalupe,  em  todas  as  altitudes,  tanto  nas  costas 
como  no  interior,  objectos  fabricados  pelos  homens.  Uns,  são  extrema- 
mente pequenos  e  parecem  ter  sido  destinados  a  uma  raça  de  anijes; 
outros,  pelo  contrario,  são  de  grandes  dimensões  e  não  poderiam  ter 
servido  senão  para  homens  (fuma  força  e  d'uma  estatura  excepcional. 

Alguns,  pelo  grosseiro  do  trabalho  parecem  indicar  uma  industria 
nascente;  outros  são  comparáveis  aos  mais  bellos  machados  dinamar- 
quezes  e  são  polidos  com  uma  arte  que  certamente  iião  poderia  ter 
sido  excedida ;  e  para  conseguir  esla  perfeição  foi  de  certo  preciso  ao 
homem  longo  tempo  e  numerosas  tentativas. 

Os  machados  apresentam  todas  as  formas  imagináveis;  tanto  são 
compridos  e  estreitos,  como  curtos  e  largos:  o  seu  gume  é  sempre 
muito  fino. 

Acha-se  também,  na  Guadalupe,  o  que  os  francezes  chamam  nos  cel- 
tas casse-létc,  ferramentas,  buris,  mãos  de  gral  ou  pisadores  de  pedra. 


8  KEVISTA   AHCnKOLOGICA 

Os  Caraíbas  serviam-se  também  de  madeira.  Gostavam  dos  orna- 
mentos como  todos  os  selvagens ;  e  traziam  pesadas  argolas  dependu- 
radas nas  orelhas  como  durante  muito  tempo  trouxeram  os  mexicanos 
e  os  peruvianos. 

Certos  machados  ou  achas  eram  ao  mesmo  tempo  ornamentos  e 
amuletos. 

O  machado,  symbolo  da  força,  era  entre  todos  os  povos  primitivos 
rodeado  d"um  respeito  supersticioso.  Achamol-o  esculpido  nus  baixos 
relevos  babylonicos,  nas  pedras  sagradas  da  Bretanha,  nas  cavernas 
neolithicas  da  França. 

O  sr.  de  Nadaillac  cita  um  objecto  curioso  desenhado  num  liloco 
de  carbonato  de  cal  crystallisado  que  se  suppõe  ter  sido  um  idolo, 
como  grande  numero  dos  que  se  encontram  nas  Antilhas,  e  dos  quaes 
os  mais  singulares  damos  em  seguida. 

Um,  em  pedra  vulcânica  de  còr  escura,  de  quasi  um  metro  de  al- 
tura, figurando  um  homem  estendido  de  costas,  os  braços  unidos  ao 
corpo,  a  cabeça  coberta  com  um  casquete  ou  solidéo  e  as  orelhas  dis- 
tendidas coiii  pezados  ornamentos. 

Outro  mostra  uma  íigura  humana  tendo  ao  lado  outra  figura  com 
apparencia  de  macaco. 

«Teremos  ahi,  diz  o  sr.  de  Nadaillac,  um  argumento  em  favor  do 
nosso  conimuni  antepassado  e  teria  tido  Darwin  precursores  entre 
os  humildes  selvagens?» 

Este  idolo,  é  feito  de  barro  cozido  e  parece  ser  importado,  porque 
os  Caraíbas  desconheciam  a  arte  da  olaria. 

As  figuras  esculpidas  em  madeira  são  mais  notáveis  ainda. 

lima  d'ellas,  de  altura  de  1,"'08,  é  notável  pelas  grandes  argolas 
fixas  ás  orelhas  e  por  manilhas  que  apertam  a  parte  superior  dos  braços. 

Outra  peça  de  altura  de  O, '"78,  representa  dois  homens  assentados 
sob  um  docel  ou  parasol.  As  costas  da  cadeira  são  cobertas  de  orna- 
mentos, círculos  coticentricos  ouespiraes.  Os  homens  trni  barretes  bor- 
dados que  lembram  especialmente  os  dos  índios  que  habitam  o  valle 
central  dos  Estados-Unidos. 

Tiras  de  panno  lhes  cingem  apertadamente  as  barrigas  das  pernas. 
Irving  refere  que  em  10  de  novembro  de  1493,  Colombo  teve  um 
combate  com  os  indígenas  de  Santa  Cruz,  em  que  estes  foram  derro- 
tados e  se  retiraram  deixando  muitos  dos  seus  sobre  o  campo. 

«Os  seus  cabellos,  descreve  o  grande  navegador,  eram  compridos 
e  rijos,  os  olhos  pintados,  o  que  augmentava  a  ferocidade  das  suas 
physionomías  e  os  braços  e  as  pernas,  muito  comprimidas  por  faxas 
de  panno.  estavam  desmedidamente  inchadas.» 

Os  Caraíbas  foram  no  seu  principio  navegadores;  quando  entra- 
ram em  relações  com  a  Europa  tinham  já  duas  espécies  de  embarca- 
ções. Conservam-se  alguns  exemplares  Jeslas,  principalmente  das  que 
eram  cavadas  no  tronco  do  tlnuja  gigantea,  no  museu  de  Washington  ; 


K    IIISTOIilCA 


lima  (lestas  embarcações  não  leni  menos  (1(;  s(3sst!nla  prs  de  compri- 
mento. 

íl  mnilo  interessante  estudar  tanto  as  csciilplnras  fcilas  nos  t)lo- 
cos  cliamados  errantes,  Ião  numerosos  nas  duas  Américas,  como  as 
esculpturas  feitas  sobre  as  rocbas. 

iMicontram-se  no  Novo  México,  Colorado.  Arizona,  (iualeinala,  Ni- 
carágua, Holivia.  Ciuvaua,  Hiazil  e  na  Uepuldica  Argentina.  Na  Guada- 
lu[)e  eiicontiani-se  tanibcm:  mas  estas  esculpturas  são  mais  numero- 
sas na  ilha  de  S.  Vicente  que  foi  o  ulliuio  refugio  dos  Caraibas. 

O  sr.  de  Nadailiac  reproduziu  uma  íjue  viu  num  bioco  errante  de 
muitas  toneladas.  Os  ornamentos  d'esle  bloco  não  tèm  nenhuma  si- 
gnificação, que  se  possa  inletprelar  boje. 

Km  resumo,  o  homem  picliislorico  da  Guadalupe  não  6  senão  uma 
das  numerosas  ramilicações  duma  raça  vigorosa  e  guerreira  que  es- 
tendeu o  seu  domínio  sobre  muitas  das  peipienas  Antilhas  e  sobre  al- 
gumas partes  dos  continentes. 

A  sua  arte  grosseira  tem  todos  os  caracteres  que  se  encontram 
habitualmente  nos  povos  que  tiveram  o  sile\  por  primeira  arma,  e  o 
sr.  de  Nadailiac  diz  com  muita  razão: 

«Não  conlieço  na  longa  historia  da  humanidade  facto  mais  notável 
do  que  esta  analogia  constante  do  génio  do  homem  alravez  do  espaço, 
analogia  á  analyse  da  qual  se  não  podem  subtrair  os  observadores, 
mesmo  os  mais  superíiciaes. 

Quer  se  tomem  os  silex  aparados  ou  simplesmente  lascados,  pro- 
venientes da  França,  da  Hespanha,  da  Algéria  ou  do  Cabo,  da  Prata 
ou  da  Califórnia,  e  se  misturem  ao  acaso,  desafio  a  vista  mais  exer- 
citada a  classificar  cada  um  delles,  segundo  a  sua  proveniência.  Acon- 
tece o  incsmo  com  as  ferramentas  ou  armas  neolitliicas,  com  as  obras 
de  barro  mais  ou  menos  primitivas;  em  to  la  a  parte  vemos  o  mesmo 
trabalho,  em  toda  parte  reconhecemos  as  mesmas  formas,  os  mesmos 
processos  de  fabricação.  Sem  duvida  causas  permanentes  ou  cau- 
sas accidentaes  retardaram  ou  avançaram  em  cada  região  o  desenvol- 
vimento da  nossa  raça ;  a  iidbiencia  do  cliína,  a  força  da  vegetação, 
a  visiiihnnça  do  mar,  a  [)resença  na  su[)erfii'ie  do  solo  de  silex  ou  de 
rochas  metamorphicas,  suscepliveis  diim  polido  mais  ou  menos  bri- 
lhante, a  ausência  da  terra  aproveitável  á  olaria,  e  outras  causas  mate- 
riaes,  tèm  desempenhado  um  papel  mais  ou  menos  importante  :  mas 
como  resultado  final,  S('mpre  e  em  toda  a  parte,  as  mesmas  necessi- 
dades crearam  os  mesmos  meios,  para  as  satisfazer.» 


M.  Alkxanoiu::  dk  SorsA. 


10  REVISTA    AliCHEOLOGICA 


UMA  MOEDA  RARA 

Pertencente  á  curiosa  classe  dos  bronzes  romanos  que,  sem  nome 
de  imperante,  tèm  por  inscripção  v  R  B  S  ROMA,  C  O  N  S  T  A  N- 
TiNOPOLis  ou  POPVLVS  R  O  M  A  N  V  s,  e  cuja  data  de 
cunliagem  ainda  não  ponde  com  [)recisão  ser  determinada,  possuo  uma 
espécie  muito  iiileressanle.  Considero  rara  esta  moeda,  porque  não  u 
encontro  mencionada  polo  sr.  Cohen,  na  sua  excellente  obra  sobre  as 
moedas  cunhadas  durante  o  império  romano,  nem  me  consta  que  haja 
sido  já  mencionada  em  revista  alguma  numismática. 

A  moeda  de  (]ue  trato  é  uni  pequeno  bronze,  do  modulo  terceiro 
da  escola  de  Alionnet,  e  cuja  discripção  é  como  se  segue  (Est.  ii): 

V  R  B  s  ROMA  BEATA  —  Busto  de  Roma,  com  capacete  e 
couraça,  voltado  para  a  esquerda. 

ií.  —  A  loba  aleitando  Rómulo  e  Remo;  por  cima,  no  campo,  (ves- 
tígios de)  coroa  entre  duas  estrellas;  no  ex :    r    #    q 

É  interessantissima  esta  moeda  pelo  qualificativo  junto  ao  nome 
da  capital  do  império  romano  —  VRBS  ROMA  beata— ,  a 
feliz,  a  bemaventurada  cidade  de  Roma. 

Conjecturo  que  a  emissão  d"estas  moedas  coincidiu  com  a  d'a- 
queiroutras  que  tèm  a  inscripção  BEATA  TRANQVILLITAS, 
as  quaes  foram  em  minha  opinião,  com  todas  as  probabilidades  cunha- 
das durante  os  nove  annos  de  paz  que  decorreram  de  1314  a  323.  lia 
uma  moeda  de  Crispo  (Cohen,  vol.  VI,  192,  31),  com  o  reverso  de 
BEATA  TRANQVIELITAS,  a  qual  foi  Cunhada  no  seu  se- 
gundo consulado,    c  r  i  s  P  v  s    n  .  c  .    c  o  S  .  1 1   (1074/321). 

BoiíGES  DE  Figueiredo. 


CONSTITUIÇÕES  DO  ARCEBISPADO  DE  LISBOA 
decretadas  por  D.  João  Esteves  dAzanibnja  (1402 — 1414) 


ADVEIirrjEIVCI^ 

Dosdí!  os  primeiros  lonipos  do  christianismo  tiveram  os  t)ispGs  a  faculdade  de 
ordenar  o  que  julgavam  fonvenientc  para  a  manulon(^'ão  da  reliiíiào,  quer  com 
respeito  ao  clero  seu  suitordiíiado,  (pu-r  no  tocante  aos  seculares.  Cítm  o  camiidiar 
dos  tempos,  ausímenlaridíj  o  numero  d'essas  ordenações  especiaes,  naturalmeiUe  se 
foram  ajnntanílo  atí-  formarem  corpo  de  leiíislaçfio  |)or  (pie  cada  dioC(!se  se  re- 
ííia.  Demais  os  concílios,  tanio  «^eraes  como  [»articulai'es,  lizeram  sempre  determi- 
nações paja  regular  o  que  dizia  i'espeito  ás  coisas  da  egreja  e  ainda  outras.  As 
consliluigões  dos  bispados  sào  portanto  quasi  tào  antigas  como  o  clirislianismo,  e 


E   IIISTOniCA  1  1 


.1  (;|iocli;i  fiii  (|ii(!  nllas  começaram  a  formar  collcrção  não  [todo  ser  precisamente 
detcrmiiiatla.  Lun  tios  coiicilios  (|ii('  m;iis  innuiram  nos  cosiiimcse  na  (lisci|tlina  do 
clero  foi  o  de  Constantinopla  (in  Trulloj  celebrado  em  WA  e  (|iie  é  tamijem  cha- 
mado iiuiniscxliiin. 

Como  (|(ier  ponun,  que  seja,  o  que  c  incontestável  é  que  não  são  as  constitui- 
ções— nossa  li'}íislação  reliiíiosa,  do  século  \vi  -uma  consequência  do  concilio 
tridentin(t.  como  se  tem  allirmado.  O  concilio  di*  Trento  aliriíi  aijs  i;{  di;  dezemliro 
d(!  liilo  e  fechou  a  4  de  ejínal  mez  do  anuo  di;  loCtiJ  c  já  em  loál  se  iinhlicavam  as 
"Oníxtilnirõcs  do  hispado  de  Cuindirii.  Aipielh;  celi-hre  concilio  não  podia  inllnir  na 
elal)ora(;ão  d"uma  obra  pulilicada  vinte  e  (|ualro  annos  antes.  E  esses  corpos  de 
legislação  reli.uiosa,  qw.  desde  loál  começaram  a  correr  pela  imprensa,  não  são 
mais,  do  (|ue  collecções  de  antii;as  conslituiçòes,  devidamente  ordenadas  e  dis- 
postas, convenientemente  revistas  e  reíundidas,  redigidas  maisapuradamente,  co- 
mo obra  de  (pie  a  lypoííraphia  ia  apodiMai-se. 

Muitos  artiííos,  porém,  dessas  ordenações  foram  conservados  integralmente, 
como  já  corriam,  conforme  se  verá  daá  Cuiislitnirõfs  do  arcebispo  de  Lisboa  D. 
João  Estev(!s  d'Azambuja,  (pie  hoje  são  [lela  primeira  vez  publicadas. 

Estão  inf(!lizmenl((  imUiladas  estas  constituições,  faltando-lhes  o  linal,  onde  es- 
tava a  data,  a  assignatura  e  o  logar  do  sello  /mas  nenliuma  duvida  podt-  haver 
ác(!rca  da  pessoa  ([ue  as  decretou,  pelos  dois  seguintes  motivos  .  Km  primeiro  lo- 
gar, a  lettra  do  manuscripto  é  do  meado  do  xv  século,  e  o  documento  tem  todos 
os  caracteres  de  authenticidade  ;  em  segundo  logar.  tendo  havid(j  até  o  anno  de 
IíjOO  apenas  duis  arcebispos  (;m  Lisboa  do  nome  de  João,  e  referindo-se  o  legis- 
lador ao  seu  antecessor  arcebiítpo  D  João,  este  é  necessariamente  D.  João  Aniies, 
bispo  desde  i;{83,  elevado  ao  archi(M»i^C(»pHdo  em  VM.Ví.  São  provavelmente  estas 
as  constituições  manuscriptas  de  1403:,  citadas  por  Viterbo  [Elucid.  v.  Tirhidhos). 
O  volumoso  manuscripto  d"onde  foi  separada  esta  constituição  e  f|ue  tinha  por 
Ululo— Lino  das  visitarõcs  do  igreja  de  São  João  do  Mocliarro  d' Óbidos— íh- a  for- 
mado d'uma  enorme  (piantidade  de  cadernos  e  folhas  soltas,  documentos  já  origi- 
nacs  já  ap(igi'aphos,  abrangendo  o  lapso  de  tempo  decorrido  desde  1447  a  l"ii3U,  e  na 
maior  parle  visitações.  Osoutios  documentos,  exceptuada  mais  uma  constitni(;ão, 
eram  alçarás,  recibos  dos  emolumentos  de  visitantes  e  certificados  da  publicação 
d:ellas.  Esta  copia  da  egreja  do  Mocliarro  d'Obid'os  é  de  boa  lettra  do  século  quinze, 
salvo  as  poucas  epigraphes  que  vão  transcriptas  em  itálico,  e  (jue  parecem  do  sé- 
culo iurnediato. 

Num  tralialho  que  estou  preparando,  não  só  é  commentada  detidamente  esta 
constituição,  mas  outras  e  ainda  algumas  visitações  inéditas  de  summo  interesse  para 
o  conhecimento  dos  costumes  e  doestado  do  ;-lero  iiortuguez  naedade  media. 

Por  hoje  limito-me  a  publicar  este  antigo  documento,  iiueressante  a  muitos 
respeitos,  jirecedendo-o  do  indice  dos  titulos,"e  conservandolhe  a  orthographia  e 
as  irregularidades  grammaticaes. 

B.  de  F. 

índice  dos  títulos 

1-Preambulo  ou  intróito. 

2-da  publicação  annnal  das  constituições  ao  clero. 

3-ila  iiistrucção  do  clero. 

4-das  attribuições  do  arcebispo. 

o-do  vestuário  ecdesiastico. 

(j-dos  beiKííicios  ecciesiasticos. 

7-das  oblações  c  oífertas. 

8-d(is  demandadorcs  e  embusteiros. 

y-da  assistência  dos  clérigos  nas  suas  egrejas. 
10-da  residência  dos  priores  e  vigários  na  quaresma, 
li-dos  clérigos  extranhos  á  diocese. 


1^  KEVISTA   ARCIIEOLOGICA 

d2-cla  coti  vi  vencia  tio  cliristãos  com  jiulous  e  moiros. 
i;}-d;is  relaçOos  d(í  oliristãos  com  judeus  o  moii'os. 
li-das  cita(;õcs  c  demandas  coiilru  pessoas  ecclosiasticas. 
lo-das  avenças. 

Ití-de  apeniioramento  dos  ol)jectos  do  cullo. 
17-do  arrendanienlo  do  pt;  d"altar. 

18-da  laculilad''  de  o  prior,  reitor  ou  vigário  dispijr  em  testuiiiMiLo  de    melade 
dos  liens  moveis  (]ue  liver  e  houver  das  rendas  da  sua  egreja. 

lO-dos  ajiisies.  emprazamentos  ompliiteulicos  e  outros  contractos. 

20-do  recebimento  dos  dizimos  das  terras. 

2i-da  conlissão. 

22-do  substalielecimento  de  funcções. 

23-da  falta  de  alguns  priores  não  irem  fora  da  villa  levar  a  communlião. 

2'i-das  feiíicerias  e  supersti(^'ões. 

2o-do  mesmo  assumpto. 

20-das  barregãs. 

27-da  feiliceria  e  superslições. 

28-do  mesmo  assumpto. 

29-da  alcovitaria. 

30-do  caipido  pelos  mortos. 

31-do  trabalho  nos  domingos  e  dias  santificados. 

32-das  danças  nas  egrejas. 

33-das  feiras  em  certos  dias  santificados. 

3i-do  jejum  em  certos  dias  santificados. 

3o-do  jogo  de  dados  em  certos  tlias. 

3G-de  uso  de  remédios  de  judeus  ou  moiros,  etc. 

37-dos  casaiinMitos. 

38-da  venda  de  carnes  aos  domingos  antes  da  missa, 

39-dos  barregueiros. 

40-da  guarda  do  dia  de  Santa  Iria  em  Santarém. 

41-do  cumprimento  das  constituições. 

42-da  comparência  no  synodo  archiepiscopal. 

43-da  obrigação  de  haverem  cada  egreja  copia  das  constituições. 


CONSTITllÇOES 

1  In  nomine  patris  et  filii  et  spiritiis  sanli  et  virginis  glorinse  sue 
malris  et  heati  apostnii  Johauis  eiiaiioellisíe  et  bealisiiiii  inartiris  vi- 
çeruMi  ])atioiii  nostri  Nus  dom  Johaiii  jier  inefce  de  dons  e  da  santa 
igreja  de  rroina  arçebis[)0  da  iniiy  nobre  e  senpre  liall  cidade  de  lix- 
boa,  desejando  de  os  nossos  sobjeytos  seerem  insinados  e  rregidos  em 
aquellas  coiisa.s  que  pertencem  e  fazem  mester  a  saúde  das  suas  al- 
mas e  booni  Ucgimento  de  todallas  egreias  moesteyros  c  albergarias 
da  (bla  ndadi!  e  ar('ebis[)ad()  de  conselho  e  consentimento  do  nosso 
davam  e  cabiido  e  da  outra  crelizia  do  dito  arcebispado  consirando 
como  per  nossos  antezesores  jjispos  e  per  dom  Joham  arcebispo  a 
quem  deus  perdooee  íoram  bordenadas  fetas  algumas  constituições 
sobre  as  ditas  cousas  as  qiiaaes  nom  eram  sabidas  per  todos  nem  gar- 
dailas  como  diviam,  poróm  (pieiendo  nos  |)or  ireuerença  dos  ditos 
nossos  aiileresores  e  por  as  ditas  constituições  sereui  em  sy  muy  boas 
e  honestas  que  lodos  as  soubessem  e  gardassem  examinamollas  e  es- 


E    IJISTUKICA  13 


colli(3inos  algumas  as  quaos  nos  pari'(;ftrom  millior  spííii:)i]o  os  tempos 
de  hora  que  eram  miiy  coiminliaiíees  e  íezcmos  e  eslabullecemos  c  lior- 
(lenamos  otilras  de  iiouo  as  (jiiaaes  queremos  e  mandamos  qne  sejam 
conpiidas  e  gaidadas  daipii  em  diante  pella  guiza  rjue  os  sobre  ditos 
6  per  nos  1'oiam  liordcnadas  e  Ictas. 

2  liem  porquanto  s(!gundo  direito  em  cada  hum  arrel/ispado  e  bis- 
pado deue  em  cada  huum  anuo  seer  feto  ajuntamento  de  toda  a  clelizia 
a  fazer  sinado  em  o  quall  se  pubriquem  as  constiluiçõnes  fetas  e  se 
ordenem  outros  se  com[)rir  de  se  fazer  e  sse  determinem  duuidas  e 
conleníhis  que  outro  ssy  am  os  crehgos  e  os  leygos  nos  casos  de  que 
a  egreia  perteenç^-e  a  jurdiram  e  i)or  (pie  outrossy  segundo  huma  con- 
stitui(^'am  do  bispo  dom  Joliam  chi  soehiantes  que  depois  Iby  arcebispo 
de  braagaa  se  em  a  dita  ciilade  auia  de  fazer  o  dito  sinado  em  homce 
de  juniio  em  dia  de  sambarnabas  porém  nos  ho  hordenamos  que  daqui 
em  (hante  em  cada  huum  ano  se  faça  em  a  dita  cidade  aos  b  dias  do 
dito  mes  pêra  no  dia  seguinte  que  he  de  sam  Joiíam  ante  portam  la- 
tinam começarem  ho  sin"ado  e  eslem  em  elle  per  três  dias  seguintes 
se  tanto  fezer  mester  e  traga  cada  huum  sua  sobripilliza  e  porem  man- 
damos que  lodollos  priores^Reytores  e  vigários  e  capellaães  perjjetuas 
que  teniiam  cura  dahnas  e  rracoyros  e  beneficiados  das  egreias  do 
dita  cidade  e  arçebis[)ado  posto  que  per  nossas  letaras  e  vigayros  nom 
sejam  chamados  em  cada  liuuiii  anno  se  trabalhem  e  laçam  em  tall  guisa 
como  persoallmente  cheguem  a  dita  cidade  aos  ditos  cinquo  dias  do 
dito  mes  e  em  caso  que  sejam  embargados  per  emfermidade  ou  outro 
lidimo  empedimento  emvieem  seos  procuradores  pêra  no  dia  seguinte 
com  eiles  seer  começado  perante  nos  ou  per  nossos  socesores  ou 
per  outros  a  quem  for  comilido  per  nos  ou  per  elles  o  dito  sinado 
continuado  e  acabado  atee  os  dytos  dias.  e  os  que  o  assy  nom  fezerera  ou 
se  nom  escusarem  per  alguma  rrazam  lidina  fiquem  citados  pêra  pa- 
recerem dy  a  huum  mes  perante  nos  ou  nossos  socesores  e  nom  pa- 
recendo que  o  arcebispo  possa  proceder  contra  elles  segundo  seu  boo 
aluidrio  e  o  que  sobre  dito  he  dos  rraçoeyros  que  mandamos  virem 
entendemos  que  sejam  das  egreias  onde  forem  rresidentes  de  dous  acima 
e  que  destes  possa  escolher  o  prior  huum  quall  emtender  que  pêra  ello 
he  mais  perteencente  o  quall  asy  escolheto  per  elle  seja  thindo  de  viir 
com  elle  sob  a  dita  pena  a  custa  sua  e  dos  outros  rraçoeyros  e  os  dous 
ou  mais  se  os  hy  ouuer  fiquem  pêra  seruir  a  egreia. 

3  Item  por  quanto  a  todos  os  creligos  espiciallmente  aos  das 
hordens  sacras  e  os  rraçoeyros  e  beneticiados  perteençe  muito  de 
seerem  emsinados  e  sabedores  em  aquellas  cousas  que  lhe  perteençem 
e  sam  thiudos  de  gardar  em  sy  e  emsinar  aos  outros  porem  estabel- 
lecemos  e  ordenamos  que  todollos  que  ora  somos  hordenados  de  hor- 
dens sacras  ou  em  benefícios  curados  ou  outros  sinplizes  e  forem 
abilles  e  autos  e  despostos  pêra  ello  se  trabalhem  daqui  em  diante 
de  aprenderem  gramática  pêra  per  eila  entenderem  o  que  rrezarem 


14  REVISTA   ASCHEOLOGICA 

e  leerem  ou  o  quanto  pêra  oficiarem  e  fazerem  e  ajudarem  a  fazer 
os  oficios  (jiuinos  da  santa  egreia  por  que  llie  foram  dados  os  benefí- 
cios e  de  aprenderem  a  dita  gramática   ou  canto  mandamos  que  se 
trabalhem  todos  os  sobre  ditos  de  aprenderem  em  lall  guisa  que  na 
primeira  visitaçam  que  se  fezer  depois  do  segundo  sinado  achemos 
que  Irabalharom  os  ipie  pêra  ello  forem  despostos  de  aprender  as  di- 
tas sciencias  ou  cada  huuaia  delias  sob  pena  de  seerem  priuados  dos 
benefícios  que  ouuerem  pêra  os  auerem  outros  que  saybam  as  ditas 
ciências  e  os  possam  seruir  como  deuem  e  sam  thiudos  e  sob  a  dita 
pena  mandamos  aquaes  quer  priores  vigayros  e  outros  quaes  quer  que 
teuerem  cura  dalmas  que  se  trabalhem  de  saberem  bem  e  conprida- 
mente  quaes  e  quantos  sam  os  artiigos  da  fie  e  os  sacramentos  da 
santa  egreia  e  preceptos  da  lley  e  as  sele  obras  da  misericórdia  e  os 
sete  pecados  principaaes  e  mortaaes  e  que  pendença  deuem  fazer 
aqueiles  que  os  cometem  e  quaaes  e  quantos  sam  os  casos  a  nos  prin- 
cipalmente rresaruados  pêra  os  saberem  e  se  non  trometerem  de  absol- 
uer  delles  saluo  quando  lhes  per  nos  spiçiaimente  forem  comitidos  e 
por  os  creligos  auerem  aazo  e  se  despocerem  railhor  a  saber  as  di- 
tas cousas,  liordenamos  e  estabellecemos  que  non  seja  nenhum  do 
nosso  arcebispado  rreçebudo  pêra  aver  hordens  sacras  on  beneficio 
sinplez  saluo  sabendobendo  (sic)  bem  cantar  ou  seendo  gramático  e  pêra 
auer  beneficiio  curado  que  sayba  as  ditas  sciencias  e  mais  os  ditos 
artigos  da  ífe  e  as  e  as  (sic)  outras  cousas  sobre  ditas  que  perten- 
ce de  saber  aqueiles  que  teem  rregimenlo  e  cura  dalmas  e  non  sa- 
bendo as  ditas  sciencias  e  cousas  que  non  possa  auer  beneficiio  nem 
seer  em  elle  confirmado. 

4  Item  os  casos  de  que  a  nos  perteençe  a  asoluiçam  ou  aqueiles 
que  pêra  ello  nosso  poder  teen  sam  estes  que  se  seguem  primeira- 
mente aqueiles  que  fazem  ou  cometem  sacrillegio  assy  como  furtar  em 
na  egreia  ou  abrilar  ou  furtar  cousas  sagradas  ou  descontar  a  egreia 
ou  quem  jaz  com  molher  de  hordens  ou  quem  na  egreia  faz  foi-nizio. 
Item  aqueiles  que  husam  do  corpo  deos  ou  da  crixma  ou  doutra  cou- 
sa sagrada  em  feytiços  ou  outras  cousas  como  non  deuem.  Item  aquei- 
les que  husam  de  sorteiros  ou  dminhadeyros  e  que  fazem  escriptos 
pêra  chamar  os  demónios.  Item  aqueiles  que  cometem  peccado  contra 
natura  assy  como  com  animallias  e  per  outra  maneira  Item  aqueiles 
que  jazem  com  aquellas  que  bautizaram  ou  de  confissom  ouuirom  I- 
tem  a(]uellas  que  ham  filhos  de  outrem  e  nom  de  seus  maridos  e  os 
dam  aos  maridos  |)or  seus  filhos  e  fazemnos  poivm  erdeyrios  em  pre- 
juízo dos  filhos  lidimos  Item  aijuelles  (|ue  jazem  com  judias  ou  com 
mouras  ou  aquellas  que  jazem  con  judeos  ou  com  moros  Item  aquei- 
les qu(!  jazem  com  virgeens  per  força  ou  per  engano  Item  aqueiles 
que  jazem  com  Uelligiosas  Item  aqueiles  que  casam  em  graao  defeso 
assy  como  com  parentes  on  cunhados  ou  com  madrmhas  ou  com  afi- 
lhados ou  com  outras  pessoas  contra  defesa  da  egreia  ou  com  ellas 


E   HISTOIíK'A  15 


liam  companhia  Item  aíjuelles  que  falsam  lelaras  ou  seellos  ou  outras 
escripluras  do  saulo  padre  Item  aquelles  que  sam  excomungados  de 
mayor  excumiuiliam  Item  aquelles  que  cometem  per  cal  quer  guisa 
que  seja  simoiiia.  Item  acjuelles  que  poõce  logo  com  maa  vontade  pêra 
fazer  dapuo  em  paães  ou  em  outra  cousa  Item  a(pielles  que  crêem  a 
outrem  alguma  herisia  Item  afjuelles  que  sam  homicidas  de  fato  ou 
de  objeto  ou  de  conselho  sem  inditidimento  de  seu  corpo  Item  aquel- 
les que  fazem  alguma  cousa  para  a  molher  nom  em[)renhar  Item 
aquelles  que  ferem  seu  padre  ou  sua  madre  Item  aípioilcs  (jue  feerem 
no  cimiterio  sagrado  aciiute  Item  acpielles  que  dizem  mal  de  deos  e 
dos  seos  santos  ou  ho  rrenegam  e  descrêem  a  que  chamamos  brasfe- 
madores.  Item  aquelles  que  dizem  testimunho  falso.  Item  aquelles  que 
sam  perjuros.  Item  a(]uelles  que  leuam  armas  ou  outras  cousas  defes- 
sas  aos  mouros.  Item  aijuelles  (]U(í  filliam  ordens  como  o  non  deuem  ou 
per  salto  leyxando  humas  e  tomando  outras  ou  sem  licença  de  seu  bis- 
po. Item  aquelles  (jue  bautizam  seos  lilhos  próprios  sen  neçesidade  ou 
os  teem  nas  fontes  quando  os  bautizam  ou  crixmam.  Item  aquelles  que 
prometem  castidade  ou  voto  e  vaão  comtra  elle  ou  ho  britam  ou  ho  nom 
comprem  ou  lio  nom  lêem.  Item  aquelles  creligos  que  cellebram  na 
egreia  antredita  ou  dizem  missa  depois  que  comem  ou  bebem.  Item 
aquelles  que  sam  husureyros.  Item  aquelles  que  sam  excumungados  e 
lhe  mandam  que  se  saiam  da  egreia  e  nom  querem  tornando  ho  ofi- 
çiio  diuino.  Item  os  creligos  que  dizem  missa  aquelles  que  sabem  que 
pubricamente  excumungados.  Item  aquelle  que  emtra  em  ordens  con- 
tra vontade  de  sua  es[)osa  com  (pie  já  ouue  companhia.  Item  quaes 
quer  que  fezerem  ou  forem  contra  estas  nossas  presentes  constitui- 
ções e  cada  huuma  delias  e  as  nom  gardarem  como  em  ellas  he  con- 
thiudo. 

(Continua). 

DESCOin^^RTAS  AliCHEOLOGlCAS 

As  descobertas  archeologicas  feitas  ao  poente  de  Cáceres,  nas  pro- 
ximidades da  estrada  velha  que  segue  i)ara  a  villa  de  Arroyo  dei 
Puerco,  onde  se  descobriram  ha  tempos  os  ex-volos  de  bronze  á  deusa 
indigena  Atalcina  Turibigense,  foram  :  diversos  machados  de  pedra, 
fragmentos  de  ulensilios  de  bronze,  uma  cabeça  occa  de  mulher  tos- 
camente lavrada,  e  vários  bocados  de  cerâmica,  taes  como  ladrilhos  de 
forma  cubica  collocados  em  sentidos  oppostos,  sendo  o  mais  nolavel 
do  thesouro,  uma  pequena  taça  de  bronze  de  25  milimetros  de  altura, 
em  cuja  face  anterior  estão  encrustados  em  prata  dois  caracteres  ibero- 
lusitanos,  análogos  aos  das  moedas  autónomas  de  Évora  e  de  Salacia 
(Alcácer  do  Sal). 

(Da  Correspondência  de  Espana). 


16  liEVISTA    ARCJIKOLOGICA 

MODO  DE  TIRAR  CALCOS  DE  INSCRIPÇÒES 

A  redacção  ficará  exlremamenle  reconhecida  a  todas  as  pessoas 
que,  no  interesse  da  sciencia,  a  qnizerem  obsequiar  com  quaesquer 
noticias  de  ruinas.  monumentos  e  descobertas  arclieologicas.  Essas  no- 
ticias deverão  conter,  além  d"uma  breve  mas  precisa  descripção  do 
objecto,  indicação  do  local  exacto  onde  existe  ou  foi  encontrado. 

Esperando  ver  coirespondido  o  seu  convite,  e  como  é  possivel  que 
nem  todas  as  pessoas  de  boa  vontade,  que  Ih.e  desejem  ser  agradá- 
veis, estejam  acostumadas  aos  trabalhos  epigraphicos,  aqui  indica  o 
modo  de  tirar  calcos  das  inscripçijes  que  lhe  queiram  communicar. 

1.°  Limpar  bem  a  pedra,  e  taval-a  com  esponja,  lendo  cuidado 
em  não  deixar  agua  na  cavidade  das  letlras. 

2.°  Emipianto  a  pedra  está  húmida,  applicar  sobre  ella  uma  folha 
de  papel  molhado,  fazendo  com  que  ella  adhira  á  pedra  em  todas  as 
partes  sem  formar  rugas.  O  papel  deve  ser  bem  forte,  mas  de  pouca 
colla  ;  é  próprio  o  pa[)el  forte  de  impressão. 

3.°  Logo  que  o  papel  adhira  á  pedra,  bater-lhe  em  cima  com  uin 
escova  de  pello  grosso  (escova  de  lustrar  calçado),  até  que  se  amolde 
ao  cavado  de  todas  as  leltras,  e  que  toda  a  inscripção  fique  perfeita- 
mente visivel.  No  caso  de  romper-se  o  papel  nas  cavidades,  cobrir  os 
buracos  com  pedaços  de  papel  húmido,  que  se  soldam  facilmente  com 
algumas  pancadas  de  escova.  Retirada  a  folha,  quando  está  meio  en- 
xuta, deixal-a  seccar  complelamente,  extendendo-a  numa  su[)erficie 
plana,  collocando  o  cavado  das  leltras  para  baixo.  Se  o  monumento  é 
muito  grande  para  ser  coberto  por  uma  só  folha  de  papel,  empregam- 
se  duas  ou  mais  (numerando-as),  de  modo  que  uma  folha  cubra  sem- 
pre uma  linha  estam[)ada  noutra.  Estando  bem  secco  o  calco,  pôde 
enrolar-se  ou  dobrar-se ;  no  ultimo  caso  devem  as  dobras  coincidir 
com  as  entrelinhas. 

4.°  Deve  indicar-se  a  lápis,  no  alto  de  cada  calco,  a  proveniência, 
a  data  e  o  nome  da  pessoa  que  o  tirou. 

Convém  acompanhar  os  calcos  da  medida  em  metros  e  centímetros 
(allura,  largura,  espessura)  da  lapide;  das  indicações  da  sua  natureza 
(mármore,  calcário,  ele);  da  altura  e  largura  da  inscripção  e  dimen- 
são das  leltras;  dos  ornatos  e  emblemas,  ou  figuras,  e  dum  fac-simile 
das  leltras.  L^m  desenho  de  todo  o  monumento  c  de  grande  utili- 
dade. 

Outros  processos  ha  para  reproduzir  as  inscripções,  mas  o  que 
fica  indicado  é  o  melhor  i)ara  as  inscripções  lapidares. 

A  pholographia  duma  inscripção  (ou  d^oulro  monumento)  é  tam- 
bém muito  importante,  pela  sua  natural  fidelidade. 


E   HISTÓRICA  17 


MONUMENTOS  EPIGRAPHICOS  DE  TUY 

I 

Numa  caria  dirigida  ao  meu  amigo  sr.  dr.  Manuel  Ferreira  Ribei- 
ro, com  data  de  7  de  novembro  ultimo,  e  publicada  em  o  n.''  10  das 
Colónias  Portuguezas  de  t20  do  mesmo  mez,  dizia  eu  o  seguinte : 

«Satisfazendo  ao  seu  desejo  de  que  eu  interpretasse  algumas  in- 
scripções  que  me  apresentou  por  copia,  vou  communicar-ihe  o  resul- 
tado do  meu  estudo.  As  copias,  em  litliographia,  fazem  parte,  sem 
duvida,  dalguma  obra  impressa  e  bispanbola,  como  se  deprehende  da 
assignatura  do  desenhador,  ol)ra  que  desconheço;  por  esta  circum- 
slancia,  não  seria  de  extranhar  recusar-me  eu  a  patentear  a  minha  opi- 
nião acerca  das  inscripções  (pois  assim  o  desejaj,  sem  ver  o  livro  onde 
foram  decerto  já  tratadas,  por  isso  que  poderia  ser  victima  de  qual- 
quer sorte  de  mystdicação;  sendo-me,  porém,  communicadas  pelo  meu 
amigo  as  inscripções,  não  tenlio  diivida  alguma  em  lhe  dar  a  conhe- 
cer f)  modo  como  ;is  interpreto,  dando-lhe  ao  mesmo  tempo  toda  a  li- 
berdade para  publicar  integralmente  esta  minha  carta,  se  o  julgar  con- 
veniente. Em  todo  o  caso,  tenho  a  observar  que  a  interpretação,  que 
dou  das  inscripções,  deve  ser  sempre  aferida  pelas  copias  lithogra- 
phadas  que  me  confiou,  e  de  nenhum  modo  relativamente  aos  origi- 
naes,  que  não  vi  nem  sei  onde  param.  Assente  isto,  eis  o  que  tenho 
a  dizer-lhe  acerca  das  inscripções,»  etc. 

Como  se  vê,  não  tinha  conhecimento  da  obra  a  que  pertenciam  as 
estampas ;  tinha  me  porém  sido  dicto  que  se  havia  levantado  questão 
entre  vários  escriptores  hispanhóes  sobre  o  modo  de  interpretar  as 
inscripções,  e  que  se  me  pedia  o  meu  voto,  no  intuito  de  ver  se  elle 
concordava  com  o  dos  gregos  ou  com  o  dos  troianos. 

Correspondendo  ao  honroso  convite,  manifestei  o  meu  parecer 
acerca  dos  lettreiros,  apresentando  a  interpretação  que  lhes  dei,  se- 
gundo as  regras  da  hermenêutica  epigraphica,  creio  eu. 

Havendo  sido  publicada  a  minha  carta  em  Í20  de  novembro,  julguei 
eu  que  me  seriam  desde  logo  manifestadas  as  obras  em  que  se  ha\ia 
tratado  a  questão,  o  que  era  correcto  e  natural ;  mas  o  facto  é  que 
só  muitos  dias  depois  me  foram  entregues  os  dois  livros  seguintes: 
Recuerdos  históricos  de  occidente.  Contestacion  d  los  Recuerdos  de  uii 
viaje  de  los  snrs.  P.  Fidel  Fila  ij  D.  Aureliano  Fernández  Guerra,  por 
D.  Joaquin  Fernández  de  la  Granja  e  La  ciudad  de  Tuij  la  fundo 
Diomedes  de  Elolia,  pelo  mesmo  auclor.  Conheci  então  que  á  primeira 
d" estas  obras  pertenciam  as  estampas  que  me  haviam  sido  communi- 
cadas. Da  leitura  d'ambos  os  livros  fiquei  bem  inteirado  das  opiniões 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N."  2  —  Fev.  1SS7.  2 


48  REVISTA   AUCHEOLOGICA 

do  sr.  D.  Joaquim  de  la  Granja  ;  mas  muito  imperfeitamente  da  dos  aca- 
démicos srs.  D.  Aureliano  Guerra  e  P.  Fita.  Felizmente  vo  dia  immediaio 
áquelle  em  que  recebi  os  livros  de  la  Granja,  fui  obsequiado  com  os 
Ilcciíerdos  de  mi  viaje  a  Santiago  de  Galicia,  por  el.  P.  Fidcl  Fita  y 
ColomtK  fi  D.  Aureliano  Fernúndez  Guerra,  (]ue  este  ultimo  sábio  me 
oflereceu  em  seu  nome  e  no  do  seu  collal)orador,  ao  saber,  por  inter- 
venção do  nosso  commum  amigo  sr.  D.  Eduardo  Saavedra.  que  eu  dese- 
java conhecer  o  livro  que  motivara  a  questão.  Se  não  fosse  a  e.xtrema 
obsequiosidí:de  d"estes  respeitabilissimos  sábios  hispanhóes,  com  cuja 
amizade  sobremodo  me  honro,  só  muito  imperfeitamente  conheceria  a 
questão,  em  que  o  sr.  D.  Joaquim  de  la  Granja  se  empenhou.  A  razão 
da  demora  em  me  serem  manifestados  os  livros  d'este,  bem  como  o 
não  me  serem  communicadas  as  obras  dos  seus  contrários,  foi.  segundo 
me  consta,  o  ter  desagradado  ao  sr.  la  Granja  a  interpretação  que 
eu  dei  ás  inscripções,  por  não  concordar  com  a  que  elle  lhes  dá  (I)  E  isto 
é  confirmado  pelo  facto  de  se  recusar  a  enviar-me  um  calco  ou  pho- 
tographia  da  inscripção  sobre  que  principalmente  ha  disputa  (a  de 
C  A  E  P  O  L  ),  documento  indispensável,  por  sua  absoluta  fidelidade, 
para  a  definitiva  interpretação  d'uma  palavra  pelo  menos.  Todas  as 
instancias  para  conseguil-o,  feitas  durante  mais  d'um  mez  pela  oíli- 
ciosa  intervenção  do  sr.  Ferreira  Ribeiro,  foram  baldadas.  Essa  recu- 
sa, porém,  já  me  não  causou  admiração,  pois  também  aos  srs.  D.  Aure- 
liano Guerra  e  P.  Fita  não  foi  permittido  tirar  calco  d'esse  lettreiro, 
como  na  obra  dos  dislinctos  académicos  se  lê  a  pag.  92,  col.  1.*: 
«Resulta  ser  idêntica  ai  original  la  copia  de  La  Cueva,  pues  la  con- 
frontamos con  el  mismo  libro  á  la  vista;  medimos  el  sillar  y  los  cara- 
cteres; nos  convencimos  de  haber  sido  abierto  el  letrero  en  la  edad 
augustea;  y  cuando  nos  aprestàbamos  à  obtener  calco,  para  que  se 
grabára  después,  he  aqui  se  presenta  el  duefio  de  la  casa,  reprende 
ai  inquilino  que  atento  y  benévolo  nos  habia  franqueado  la  entrada,  y 
se  muestra  muy  cuidadc-so  de  celar  á  los  ojos  de  las  personas  en- 
tendidas aquella  piedra  de  que  él  no  entendia  una  palabra.  Ni  raos- 
trándole  nosotros  cn  el  manuscrito  de  La  Cueva  exactísimamente  co- 
piado el  epígrafe,  y  teniéndole  ya  de  nuestra  propia  mano  reprodu- 
cido  también,  comprendiò  que  semejanle  calco  ni  enchia  ni  vaciaba: 
Pêro,  ^  quién  no  tiene  sus  flaquezas?»  Eu  teria  ido  a  Tuy,  para  exa- 
minar a  inscripção,  se  não  estivesse  certo  de  que  a  digressão  seria 
baldada. 

Sciente  hoje  da  opinião  dos  contendores,  e  embora  desconheça 
ainda  uma  obra  anonyma  que  foi  publicada  em  resposta  á  primeira 
do  sr.  D.  Joaquim  de  la  Granja  *;  e  porque  não  pude  dar  ao  assumpto  o 
necessário  desinvolvimento  na  minha  carta,  destinada  a  ser  publicada 

1  Apunfes  Históricos  sobre  la  antigiiedad  de  Tuy  por  D.  xi.  N.  P.,  citados  por 
D.  J.  de  la  Granja  no  seu  livro  La  ciudad  de  Tuy. 


E   HISTÓRICA  19 


num  jornal  de  Índole  inleiramenle  alheia  ao  assumpto,  vou  de  novo 
tratar  desse  objecto,  principalmente  com  o  fim  de  tornar  a  questão 
bem  conhecida,  podendo  resultar  d'isso  o  apuramento  da  verdadeira 
interpretação  das  epigraphes.  Segnirei  aíjui,  (juanto  ás  inscripções,  a 
mesma  ordem  em  que  se  encontram  na  alludida  carta. 

II 

Uma  das  inscripções  contém  um  voto  dedicado  a  Marte.  O  livro 
Rectierdns  de  nn  viaje  apresenta  esse  lettreiro  (segundo  um  calco)  do 
modo  como  vae  representado  na  estampa  lu,  n."  1  a;  e  o  livro  do  sr. 
Ia  Granja  dá-o  da  maneira  que  se  vè  na  mesma  estampa,  n.°  1  b,  de- 
clarando ser  esse  o  verdadeiro  fac-simile  K  É  tão  grande  a  dilTerença 
entre  uma  e  outra  fignra,  que  se  pôde  aíTirmar  que  uma  delias  é  in- 
fiel. Não  podendo  averigual-o,  passo  a  dizer  o  que  se  me  oíTerece 
acerca  da  inscripção,  em  presença  do  estudo  comparado  das  duas  co- 
pias. 

Osr.  P.  Fidel  Fita  interpreta:  «Sagrado  á  Marte  Cariocieco.  Pusole 
Ilispanio  Ironión,  en  debido  cumplimienlo  de  su  voto»-;  e  approxima 
o  sobrenome  Cariocieco  do  de  Coroliaco  também  dado  a  Marte  numa 
inscripção  do  condado  de  SiiíTolk  ^.  Não  me  deterei  a  discutir  tal  ap- 
proximação,  que  me  parece  justa  quanto  á  terminação;  mas  pondero 
sempre  que  essa  terminação  é  muito  frequente  na  nossa  península, 
como  se  vô  dos  seguintes  nomes  e  sobrenomes  de  divindades  célti- 
cas: Abiafelaesiiraecm  (C.  I.  L.,  ii,  2324),  Aegiamunmecus  {Ibid., 
2523),  Bmenasecus  (Ibid.,  303),  Bniweanabaraecus  {Jbid.,  683),  etc. 
Parece-me,  porém,  que  se  deve  ler  Cairiocieco  e  não  Cariocieco,  pois, 
mesmo  no  caso  de  ser  mais  exacta  a  representação  do  calco,  ainda 
ahi  se  acha  prolongada  superiormente  a  haste  vertical  do  R,  no  que  o 
gravador  quiz  sem  dúvida  representar  o  l.  No  que  respeita  ao  nome 
do  dedicador,  é  maior  a  diíTerença  entre  as  copias.  Na  do  calco  não 
ha  vestígios  de  leltra  inicial  de  prenome,  apparecendo  só  o  nome  e  o 
cognome.  O  nome  é  hispanius.  Quanto  ao  cognome,  lé-se  no 
caíco  I  R  o  N  I  O  e  no  desenho  F  R  O  N  T  o  .  Embora  o  primeiro  não 
repugne  de  modo  algum,  sou  inclinado  a  crer  que  a  lapide  tinha  ou 
tem  o  nome  muito  vulgar  de  Fronto;  e  que  o  calco  não  reproduziu 
exactamente  as  hastes  horizontaes  do  F  e  do  T,  que  muitas  vezes  eram 
mal  definidas  e  que  podem  estar  apagadas.  Em  todo  o  caso,  o  dedi- 
cador é  um  só  indivíduo,  e  não  dois  como  imagina  o  sr.  D.  Joaquim 
de  la  Granja  *. 

1  Recuerdos  históricos  de  occidente  p.  89. 

2  Recuerdos  de  un  viaje,  p.  93,  col.  2. 

3  C.  1.  L.  VII,  93  a. 

*  Recuerdos  históricos,  p.  90. 


20  EEVISTA   ARCIIEOLOGICA 


III 

A  inscripção.  que  se  encontra  na  estampa  iii,  n.°  2,  nem  é  inter- 
pretada pelosr.  la  Granja,  nem  (Vella  se  fala  nos  Uecnerdos  de  un  viaje. 
O  sr.  la  Granja  diz  unicamente  acerca  delia  :  «es,  pues  la  qne  aparece 
en  la  siguienle  lâmina,  cuya  esplicacion  dejamos  á  los  sábios  epigrafis- 
tas.  Por  la  espalda  y  en  el  centro  tiene  (a  pedra)  estas  dos  leltras  c  O, 
que  parecen  aludir  à  cônsules  y  en  el  fondo  tocando  casi  el  basamen- 
to  o,  acaso  óptimos»  ^  Como  se  vè,  nem  mesmo  tentou  lèl-a,  indo 
só  topar  com  as  lettras  sobredictas,  que  nada  ou  quasi  nada  lhe  po- 
diam dizer. 

E  todavia  não  apresenta  diííicuidade  alguma  a  leitura  d'esta  in- 
scripção. O  monumento  c  um  marco  milliario,  que  a  estampa  repre- 
senta por  dois  lados.  A  sua  leitura  é : 

2  M  P  c  A  E  5 

^  A    M  E  S  5  . 

Q-    T  R  A   dec. 

p-  f-   /NVIc/0 

5         A  V  G-   P  o  )!  /. 

MAX-    t  r 

pOT  •    III 

Isto  é:  [I]mp{erat07'i)  Cae[s{ari)  G]a{io)  Mes[s{;io)']  Qivinto)  Tra{ia- 
nó)  [Decaio)  p{io)  f(elici)  i]nvi[ct]o  avgivstó)  p[ont{ífici)]  inaxijmó)  [tr{i- 
bimicia)  p']ol{estaUí)  III,  a  que  naturalmente  seguia  consiUi  11  p.  p.  e 
as  indicações  itinerárias  competentes.  É,  como  se  vc,  um  milliario  do 
imperador  Decio;  e  o  poder  tribunicio  III  leva  a  assignar  ao  monu- 
mento a  data  de  250. 

As  leltras  M  E,  que  se  vêem  junto  á  base  do  marco,  não  apresen- 
tam sentido;  é  provável  que  no  original  estivesse  m.  P.  {millia  pas- 
suum). . .  As  lettras  c  O,  que  se  encontram  no  lado  posterior  da  pe- 
dra (conforme  a  estampa  indica),  podem  ser  a  continuação  da  inscri- 
pção, e  nesse  caso  deve  ler-se  COs.  Os  signaes  Q  O'  Q"^  se  vêem 
junto  da  base,  nada  querem  dizer  em  minha  opinião;  foram  provavel- 
mente feitos  posteriormente  á  inscripção. 

Comparem-se  com  este  outros  milliarios  de  Decio  que  se  encon- 
tram já  publicados  no  C.  I.  L.,  u,  4809,  4812,  4813,  4957;  e,  d'ahi 
resultará,  creio,  o  considerar-se  como  inédito  aquelle  que  íica  acima 
mencionado. 

1  Ibid.,  p.  9i. 


E   HISTÓRICA  24 


IV 

Eis-me  agora  chegado  ao  monumento  epigraphico  cuja  interpreta- 
ção maiores  (lilliculdades  olíerece,  e  do  qual  apresenta  a  estampa  iv 
um  exacto  fac-simile,  segundo  o  livro  do  sr.  la  Granja.  Na  obra  dos 
srs.  V.  Fita  e  U.  Aureliano  Guerra  vem  fielmente  transcripta  a  inscripção. 

Examinemos  as  interpretações  dadas  por  P.  Fita  e  la  Granja;  e 
comecemos  por  a  d'aquelle,  visto  que  foi  quem  primeiro  sobre  ella 
deu  parecer.  Attribuo  a  interpretação  só  ao  sr.  P.  Fidel  Fita,  porque  da 
exposição  feita  a  p.  93  dos  Rccufrdos  de  un  viaje,  evidentemente  se 
collige  que  foi  este  académico  quem  deu  a  interpretação,  e  não  o  seu 
collaborador. 


A  inscripção  diz: 

C AE  P  O  L 
CONV 

TI-  CLAVDI 

CHOBRA 
5  AVREA. 

E  eis  a  interpretação  do  sr.  P.  Fita:  «Es  muy  verosímil  que  hayan 
de  leer-se:  Caepol. . .?  comi  Ti{berii)  Claudi{i)  [l{iberto)]  Chobraima- 
ra)  Áurea  [pos{uil)].  «Á  Gaepol Conu,  liberto  de  Tibério  Cláu- 
dio César,  erigió  este  monumento  Cobrámara,  Áurea.»  El  Museo  de 
Pestb,  en  Hungria,  posee  una  inscripcion,  donde  vemos  el  nombre 
céltico  femenino  Cobrámara. —  Ephemeris  epigraphica,  n,  375.»  *  Mu- 
tilada como  está  a  pedra  e  a  inscripção,  ha  campo  vasto  para  inter- 
pretações. Não  sendo  possível  haver  certeza,  só  se  podem  apresentar 
hypotlieses,  mais  ou  menos  verosimeis.  A  do  disiincto  académico  não 
me  parece  das  mais  verosimilhantes. 

O  sr.  D.  Joaquim  de  la  Granja  tem  opinião  muito  diversa.  Pretende 
yêr  em  gaepol  uma  palavra  «Cepol  (Kepol)  nombre  helénico  ó 
Etrusco»  ^  (que  approxima  do  grego -/.ioa?./,).  Sobre  c  O  N  v,— depois  de 
apresentar  o  alvitre  de  ahi  se  poderem  vêr  as  lettras  que  se  encon- 
tram no  exergo  de  varias  moedas,  CONOB  (CONstantina  ou  CONstan- 
tinopla),  que  alguns  quizeram  lèr  Civitates  Omnes  ^ostrae  Obediant  Be- 
neraliotie;  — opina  que  c  O  N  v  é  «aqueila  C  O  V  N  A  que  Bricio  lleva 
à  las  orillas  dei  Tajo  cuando  estaba  á  las  dei  Mino,  la  ciudad  esclare- 
cidisima  de  los  Celtas  en  la  antigua  Ibéria,...  Hé  aqui,  pues,  segan 
nosolros,  la  ciudad  y  capital  de  los  antíguos  Cántabros  domados  por 

*  Reciierdos  de  un  viaje,  p.  93,  col.  1.' 
2  Recuerdos  históricos,  p.  84. 


22  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Augusto».  Quanto  a  c  ii  o  B  R  A  e  a  v  R  E  A,  diz  :  «Pudo  suceder 
muy  bien...  que  Tuy  liabiendo  sido  una  ciudad  grande  y  cabeza  de 
Província,  como  dice  Sandoval,  y  capital  de  los  Gravios,  segun  Ptolo- 
meo,  obedeciesen  á  ella  muclias  ciudades  áun  algunas  dei  Africa  Cesa- 
riana donde  babia  pueblos  denominados  Cliobra  Auria  y  tambien  Tuden- 
ses  nombrados  por  Plínio  y  Nebrija,  tau  gran  latino  como  profundo 
helenista».  ^ 

0  sr.  D.  Joaquim  de  la  Granja  considera  o  lettreiro  completo,  pois 
diz  na  pag.  142  do  seu  livro  Ciudad  de  Tuy:  «No  de  otro  modo  está  la- 
brada  la  piedra  que  contiene  la  inscripcion  c  A  E  P  O  L  G  O  N  V  la- 
brada  por  el  frente  y  no  por  detrás  conociéndose  áun  por  el  lado  dere- 
cho  en  que  terminan  sus  letras  colosales  el  roce  de  pico  y  senales  cla- 
ras de  cemento;  viniendo  de  dos  cosas  que  en  esta  arista  terminaba  la 
inscripcion  indicandolo  tambien  el  punlo  puesto  en  la  palabra  Aureay>. 

É  inadmissível  que  a  inscripção  esteja  completa;  basta  attentar  na 
disposição  das  suas  elegantes  lettras,  para  se  conhecer  que  ella  não  ter- 
minava alli,  mas  continuava  noutra  pedra  (ou  outras  pedras),  que  es- 
tava ligada  á  que  existe  por  esse  mesmo  cimento  de  que  encontrou 
vestígios.  Em  inscripção  tão  bem  trabalhada,  e  da  epocha  que  a  forma 
da  letlra  lhe  assigna,  nenhum  gravador  praticava  o  contrasenso  de  abrir 
as  lettras  junto  da  aresta  da  pedra,  quando  tinha  espaço  de  sobejo 
para  dispol-as  symetricamente.  O  ponto,  que  a  estampa  accusa  depois 
de  áurea,  também  nada  quer  dizer ;  o  ponto  entre  as  lettras  dos  mo- 
numentos epigraphícos  separa  as  palavras,  ou  indica  abreviatura. 

Salvo  melhor  parecer,  disse  e  repito,  este  monumento  é  um  titulo 
sacro.  Em  c  o  N  v  pôde  ver-se  a  palavra  c  O  N  v  [e  N  T.],  conventus, 
a  que  devia  seguir-se  um  locativo,  como  asturicensis,  bracarauguslani, 
caesaraugustani,  etc.  D'aqui  se  infere,  sendo  tal  a  leitura  da  segunda 
linha,  que  a  palavra  ou  palavras  da  primeira  eram  nomes  de  uma  ou 
mais  divindades  tutelares  do  convento,  divindades  ás  quaes  Ti.  Glaudi... 
fez  dedicação. 

C  H  O  da  quarta  linha  pôde  facilmente  ser  a  primeira  syllaba  de 
cohortis,  d'onde  resulta  o  completar-se  a  palavra  immediata  d'este 
modo:  B  K  Kcaraugiislanae.  Neste  caso,  Ti.  Glaudi...  faria  parte 
da  cohorte  como  mdes,  praefectus,  ceiUurio,  dtiplaris,  etc. 

Dadas  estas  hypotheses,  pôde  restituir-se  a  inscripção  do  modo  que 
segue : 

Jeo  ?  C  A  E  P  O  L  et.  génio 

G  O  N  Ví?n/.   hcensis? 

TI-  GLAVDIV5  ....?....  pme/f 
CHOXiRAC  a  ravgvs  tau. 
5  AVKEA.eA'.  voto.sacrvvi. 

1  Ihid.,  pag  83. 


E    HISTÓRICA  23 


Como  se  vê  do  desenho  da  pedra  na  estampa  iv,  o  c  de  c  A  K  P  o  L 
está  mesmo  sobre  a  aresta  da  piidra.  donde  se  deve  coricliiir  que  ou 
a  pedra  (bi  cortada  ou  emendada  com  outra  por  defeito  (jue  liiilia,  não 
sendo  provável  que  o  gravador  em  inscri[)ção  tão  bem  trabalhada  fosse 
abrir  a  letlra  sobre  a  aresta,  quando  o  espaço  lhe  não  faltava.  Prova 
de  que  a  inscripção  ei^ualmente  está  incompleta  do  lado  opposto,  é  vèr-se 
também  o  I  de  c  L  A  V  D  l  sobre  a  aresta  da  direita.  Assim,  ou  o  pe- 
daço (jue  falta  da  pe(h-a  continha  outra  syllaba  ou  syllabas  da  palavra 
C  A  E  1^  O  ]..  ou  alli  se  lia  a  palavra  deo. 

Com[)leto  a  primeira  linha  com  as  palavras  et  ç/enio,  a  exemplo 
de  muitas  outras  inscripções  conhecidas;  como:  Dii  dmcr/iie  Gcniasqne 
loci  {C.  I.  L.,  lu,  3il8):  dii  militares  et  Genius  bei  (Jbid.,  3í72);/m- 
piter  óptimas  máximas  et  geaias  manicipii  Flavii  Neviodani  {Ibid., 
3919);  Génio  Convenf.  asluricensis  (C.  J.  L..  ii.  4072);  etc,  etc. 

Em  uma  inscripção  {C.  1.  L.,  ui,  1773)  muito  importante  lê-se:  Dia- 
nae  .  Neniores  \  Sacrcm  \  Ti  .  Clavdivs  .  Clavdi  \  anvs  .  Praef  .  Coh  . 
1 1  Bracar  .  Avgvst  \  Ex  .  voto  .  svsrep  .  de  svo  . 

Não  se  pôde  dizer  que  este  Ti.  Cláudio  Claudiano  seja  o  Ti.  Clau- 
di. . .  da  inscripção  de  Tny;  mas  não  se  pôde  deixar  de  notar  a  coin- 
cidência dos  nomes  e  a  de  fazerem  um  e  outro  parte  duma  cohorte 
bracaraugustana.  O  cognome  do  dedicador  da  inscripção  de  Tuy  era 
segundo  a  minha  opmião  uma  palavra  de  poucas  lettras,  como  Celer, 
Silo.  Orne.  etc. 

Quanto  á  palavra  A  V  R  E  A  pôde  facilmente  succeder  que  na  pe- 
dra se  não  distingam  já  as  hastes  horizontaes  que  ligadas  ao  ultimo 
A  formariam  o  monogramma  /E :  pôde  ser  que  por  lapso  o  gravador 
não  gravasse  o  e,  e  pôde  ser  uma  abreviatura.  Eu  vejo  nessa  palavra 
um  nome  próprio  da  cohorte  indicada  na  quarta  linha.  Esta  cohorte 
se  chamava  aarea  ou  aareana,  como  outras  tinham  outras  designa- 
ções. Havia  uma  Coh.  I  Uispnnoram  Aariana  (C.  I.  L..  m,  D  xxiv,  p. 
867),  e  uma  ala  também  assim  denominada  {Ibid.,  5899).  Nada  obsta 
a  que  a  cohorte,  mencionada  na  inscripção  de  c  A  E  P  o  L.  tivesse  a 
designação  de  A  v  R  E  A  [  E  ]  ou,  melhor,  A  V  R  E  A  [  N  A  E  ] .  Deixo 
de  apresentar  outras  hypolheses  muito  plausíveis,  quanto  a  esta  pala- 
vra, pois  sô  o  exame  do  monumento  ou  duma  pholographia  as  pode- 
rá confirmar. 

Permillarn-se-me  ainda  algumas  considerações  acerca  da  disposição 
das  palavras  da  inscripção:  considerações  não  feitas  para  confirmar 
era  absoluto  a  minha  leitura,  mas  explicativas  delia. 

Entre  as  diversas  circumstancias,  a  que  se  deve  attender  quando 
se  procede  á  restituição  d'uma  inscripção,  é  uma  das  principaes  a 
disposição  das  lettras  e  das  linhas  que  a  compõem,  pois  da  exacta  de- 
terminação do  comprimento  das  linhas  se  tiram  frequentes  vezes  con- 
sequências que  esclarecem  o  sentido  e  conduzem  ao  apuramento  da 
verdade. 


24  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

No  caso  sugeito,  sendo  indisculivel  a  mutilação  do  monumento,  po- 
de suppôr-se  que  d'elle  resta  ou  exactamente  metade,  ou  uma  porção 
menor. 

Ku  creio  que  do  monumento  existe  um  pouco  menos  de  metade. 
As  razões  que  para  isso  tenho  e  que  vou  dar,  implicam  a  razão  de  não 
considerar  a  parte  existente  como  exacta  metade. 

De  todas  as  cinco  linhas  se  conhece  o  começo,  menos  da  primeira; 
e  facilmente  se  deprehende  da  disposição  d'ellas  que  nos  seus  finaes 
devia  haver  a  mesma  correspondência  que  nos  princípios  se  nota, 
attendendo  ao  tamanho  das  lettras  e  á  disposição  symetrica  das  linhas. 
Tomando  c  O  N*v  como  as  primeiras  lettras  de  conventiis,  e  sendo 
geralmente  a  abreviatura  d'esta  palavra  nos  textos  epigraphicos  c  O  N  v 
ou  convent;  e  além  d'isso  devendo  naquella  mesma  linha  ter 
sido  inscripto  o  nome  próprio  (Jo  convento,  muito  dilllcilmente  se  en- 
contrará alguma  d  essas  desiiínações  locativas  que,  mesmo  em  abre- 
viatura, occupe  somente  um  espaço  egual  ao  occupado  por  aquellas 
quatro  lettras. 

Na  terceira  linha,  considerando-se  T  l .  C  L  A  v  D  l  como  prenome 
e  nome  não  do  imperador  Tibério  mas  d"outro  individuo,  facilmente 
se  conclue  que  alli  se  devia  seguir  o  cognome,  o  qual,  só  se  muito 
curto  fosse,  poderia  ser  comprehendido  num  espaço  menor  que  o  que 
subsiste  da  linha;  e  digo  menor,  porque,  sendo  a  abreviatura  epigra- 
phica  de  Claudius  c  L  ou  c  L  A  v  D  ,  e,  não  podendo  haver  dúvida  so- 
bre a  existência  na  pedra  do  i  depois  do  D  ,  este  nome  estava  escripto 
por  inteiro  na  inscripção,  indo  a  ultima  syllaba  occupar  um  espaço 
necessariamente  maior  do  que  o  occupado  pelas  lettras  TI  do  começo 
da  linha.  Pôde,  porém,  succeder  que  na  pedra  estivesse  T  I  .  G  L  A  V- 
D  I  ,  abreviatura  de  que  ha  exemplo. 

Na  quarta  linha,  flinicilmeute  se  pôde  lèr  outra  coisa  que  não  se- 
ja coliorlis  hracaraugiistanae.  (3ra,  a  forma  ordinária  da  abreviatura 
d'a(]uelle  nome  locativo  era  bracar.AVGVST;  pelo  que  era 
impossível  conter-se  o,  que  falta,  num  espaço  egual  ao  que  comporta 
as  seis  lettras  que  subsistem. 

Passemos  agora  á  primeira  linha.  Qualquer  que  seja  a  interpreta- 
ção que  deva  dar-se  ás  lettras  c  A  E  P  o  L  ,  é  inquestionável  que  o 
que  da  lapide  se  perdeu  não  comportaria  mais  de  três  lettras,  não  po- 
dendo razoavelmente  (creio  eu)  admittir-se  que  a  parte  que  falta  d'es- 
te  lado  ainda  excedesse  a  porção  que  existe  na  parte  inferior  do  mo- 
numento. Por  isso  intendo  que  ou  alli  havia  a  primeira  syllaba  do  no- 
me, ou  a  palavra  D  E  O  ,  separada  de  c  A  ]•:  P  O  L  pelo  espaço  cor- 
respondente a  uma  letlra.  Assente  isto,  a  primeira  linha  devia  conti- 
nuar, na  pedra  perdida,  até  exceder  as  linhas  seguintes  d'uma  quan- 
tidade egual  á  excedente  no  começo;  e  neste  caso  três  hypotheses  se 
apresentam :  ou  o  nome  do  deus  era  muito  comprido ;  ou,  em  seguida 
á  primeira,  era  mencionada  outra  divindade  (nesse  caso  a  primeira  pa- 


E  HISTÓRICA  25 


lavra  seria  diis);  ou  alli  se  lia  et  ijcriio.  Por  molivo  de  exemplos,  que 
abimdauí,  oplo  por  que  a  primeira  líiilia  terminasse  com  as  |)alavras 
K  T  (i  K  N  I  O  ,  o  que  melhor  (jue  outra  phrase  se  combina  com  as 
palavras  da  linha  immediata. 

Na  ultima  linha  fiz  a  leitura  que  fica  apontada,  lendo  presentes 
muitos  exemplos;  talvez,  quanto  á  ultima  [)alavia  áurea,  eu  modiíi- 
casse  a  minha  opinião  á  vista  do  monumento,  ou  em  presença  d'um 
calco  ou  duma  photographia,  como  já  disse. 

Na  estampa  v  se  pôde  examinar  o  processo  que  empreguei  para 
a  restituição  d'esta  epigraphe. 


Juntamente  com  as  estampas  das  três  inscripções  romanas,  que 
deixo  mencionadas,  me  foi  entregue  outra  que  vae  reproduzida  fiel- 
mente na  estampa  vi.  para  eu  dar  a  interpretação  dos  leltreiros  que 
contém.  O  sr.  D.  Joaijiiim  de  la  Granja  diz  no  seu  primeiro  livro,  rela- 
tivamente á  primeira  (est.  vi,  n.''  \):  «Se  halla  sobre  una  grau  piedra 
cuadrilonga,  que  todo  su  aspecto  es  de  una  losa  sepulchral  y  en  mé- 
dio de  signos  y  otros  ornamentos  ai  parecer  pontificales ;  por  lo  que 
creemos  que  el  difunto.  á  juzgar  por  aquel  epitáfio,  era  talvez  obispo 
de  época  remota  (!j».^  Os  signaes  e  ornamentos  são,  além  d'outios,  a 
cruz  e  o  swastika ;  e  o  epitaphio  claramente  se  reconhece  dizer  que 
sob  aquella  campa  repousava,  não  um  bispo,  mas  uma  mulher  chris- 
tã  chamada  Modesta,  nome  vulgarissimo  na  península  pyrenaica: 

HIC • REQVIESLET 
^MODESTA 

Estão  conjunctos  o  E  T  da  primeira  linha,  do  mesmo  modo  que  o 
T  A  da  segunda  :  reqmescet  em  vez  de  requiescit. 

A  outra  inscripção,  que  se  vé  na  estampa  vi,  n.°  2,  é  considerada 
pelo  sr.  la  Granja  «de  dificil  explicacion,  salvo  la  opinion  de  los  sábios, 
pues  que  algunos  caracteres  parécennos  ser  etruscos,  arcádicos  ó  pe- 
lásgicos»!  2 

Não  é  preciso  ser  sábio  para  interpretar  esta  inscripção.  Na  allu- 
dida  carta  ao  sr.  Ribeiro  disse  eu  a  respeito  d'ella  : 

«É  também  de  lapide  sepulchral  o  fragmento  de  inscripção  que 
acompanha  a  antecedente  na  mesma  lamina.  As  únicas  três  palavras 
que  alli  se  vêem  estão  escriplas  da  direita  para  a  esquerda  ;  foi  isto 
erro  do  copista  ou  desenhador  lithographo,  ou  eíTectivamente  no  ori- 

1  fíccuerdos  históricos,  p.  102. 

2  IbiJ. 


2G  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

ginal  se  encontra  assim?  Este  ultimo  caso  não  seria  único.  Gomo  quer 
que  seja,  as  palavras  que  se  lêem  na  inscripção  são  estas,  postas  no 
sentido  directo  : 

>i<   l  hic  i 

P A  TR  V V 


D  D  I  •; 

que  interpreto:  hic.  [rerjuiescet] patrvv[s] D[i]d[ac]i, . .  As 

leltras  ATR  formam  um  monogramma. 

Ao  terminar,  não  posso  deixar  de  insistir  na  observação  que  a 
interpretação,  quedou  das  inscripções,  deve  ser  unicamente  aferida  pe- 
las estampas  que  apresento  fielmente  copiadas  das  obras  que  citei,  e 
nunca  com  os  originaes  que  nunca  vi.  Esta  observação  é  para  algum 
ditoso,  a  quem  o  possuidor  dos  monumentos  permitta  examinal-os  di- 
rectamente ou  por  meio  de  copia  autlientica  (calco  ou  pliotographia). 
É  para  lastimar  o  haver  ainda  hoje  pessoas  que,  apez;u"  de  instruí- 
das, levadas  pelo  desejo  de  fortalecer  ou  coníh-mar  uma  opinião,  sub- 
traem ao  exame  das  pessoas  intendidas  no  assumpto  documentos  inte- 
ressantíssimos de  que  ellas  nada  percebem.  O  que  digo  não  involve 
censura,  mas  apenas  uma  simples  affirmação.  Ninguém  ha  que  possa 
ser  egualmente  sabedor  em  todas  as  matérias  :  é  por  isso  que  ha  es- 
pecialistas. Ora  eu,  reconhecendo  no  sr.  D.  Joaquim  Fernandez  de  la 
Granja  uma  variada  inslrucção,  considerandoo  mesmo  muito  erudito. 
Dão  posso  todavia  deixar  de  notar  que,  decerto  por  a  ellas  se  não  ter 
dedicado,  é  completamente  infeliz  nas  suas  interpretações  epigraphi- 
cas  ;  chegando  a  considerar  como  fazendo  parle  da  inscripção  de 
ARQVIVS  ViRTATz  etc.  {C.  I.  L,  II,  2435)  a  palavra  astnim,*^ 
que  á  frente  d'ella  foi  posta  para  indicar  simplesmente  que  no  alto  da 
lapide  estava  gravada  uma  estrella. 

Das  duas  obras  do  sr.  D.  Joaquim  de  la  Granja  vè  se  (]ue  o  auctor 
está  empenhado  em  fazer  ascender  Tuy  a  uma  alta  antiguidade,  dan- 
do-lhe  como  fundador  a  Diomedes  de  Elolia,  no  que  ha  tanta  verdade 
como  em  ter  sido  Olisipo  fundada  por  Ulysses.  Este  empenho  de  pre- 
tender dar  a  uma  povoação  remota  antiguidade,  e  querer  que  fosse 
um  heróe  o  seu  fundador,  ò  sempre  desculpável,  se  não  louvável,  em 
um  íilho  da  terra  que  se  exalça ;  mas  é  uma  empreza  muito  dillicil  e 
sobre  tudo  perigosíssima. 

Borges  de  Figueiredo. 
1  Ibid.  p.  123. 


E  HISTÓRICA  27 


NUMISMÁTICA  PORTUGUP^ZA 
Mealha  de  I).  Aiíuiisu  I 

Tem  havido  divergências  e  duvidas  entre  os  numisnialas  portugue- 
zes  SC  I).  Alíoiiso  1  cmilioii  a  moeda  d(í  billião  chamada  Miuilha. 

Embora  Fernão  Lopes,  Severim  de  Faria,  Viterbo  e  outros  escri- 
ptores  digam  que  a  Mi-al/ia  era  a  metade  cortada  da  moeda  chamada 
Dinheiro,  o  que  não  duvidamos  (jue  assim  acontecesse  em  algumas  épo- 
cas, nós  acompanhamos  os  escri|)tores  que  entendem  que  a  mealha  foi 
uma  moeda  de  ciuiho  e  [)ezo  especial  e  a  de  menos  valor  cunhada 
n'esta  época.  Estamos  de  accordo  com  o  sr.  Teixeira  de  Aragão  n'este 
ponto  e  acreditamos  que  D.  AHonso  1  e  seu  filho  D.  Sancho  cunhassem 
uma  moeda  de  metade  approximadamente  do  pezo  do  Dinheiro,  a  que 
chamaram  Mealha. 

Confirma  nos  n"esta  opinião,  a  noticia  das  moedas  que  com  esse 
nome  cornam  em  Leão  e  Caslella  no  tem[io  (\e  D.  Alíunso  1;  os  documen- 
tos existentes  de  compras  e  vendas  d"a(|uella  época  em  que  se  citava 
com  frequência  a  Mealha  para  preenchimento  duma  dada  quantia  e  não 
é  provável  que  se  partisse  sempre  uma  moeda,  dando  um  nome  em- 
bora correspondente  á  fracção,  o  que  seria  um  capricho,  apenas  para 
ser  citado  na  maioria  das  vendas.  Além  dx-stes  argumentos  (jue  nos 
parecem  de  força,  a  variante  que  hoje  apresentamos  à  Mealha  com  o 
n."  3  da  est.  ii  citada  pelo  sr.  Aragão,  prova  que  esta  foi  moeda  e  da 
qual  houve  mais  d'uma  cunhagem  ou  fabricação. 

A  Mealha  que  apresentamos  na  est.  n.°  vi  embora  não  esteja  em 
perfeito  estado  de  conservação  pode  ler-se  perfeitamente.  A  legenda  diz: 
—  )í<  REX  ALFOSVS  —  Cruz  equilateral  cantonada  por  quatro  pon- 
tos denti-o  d'um  circulo. 

IV i^o R T (  V G )  A  LI E— Escudo  com  um  ponto  no  centro.  Do  lado 

de  fora  do  escudo  dois  triângulos,  um  em  cada  lado  ao  meio  do  escudo 
e  por  baixo  de  cada  triangulo  um  ponto.  Tanto  o  escudo  como  os  triân- 
gulos e  os  pontos  estão  dentro  dum  circulo. 

As  diíTerenças  entre  esta  moeda  e  a  n."  3  do  sr.  Aragão,  são  : 

No  anverso  a  do  sr.  Aragão  tem  Rex  Afosu,  emquanto  que  a  nossa 
tem  Rej-  Alfosns. 

Nu  reverso— a  primeira  tem  dentro  do  escudo  uma  cruz  e  na  le- 
genda Portugal;  e  na  nossa  podemos  ver  claramente  dentro  do  escudo 
um  [)onto,  e  a  legenda  tem  Porlvgalie. 

Com  quanto  estas  differenças  não  parecessem  grandes  em  outro 
qualquer  reinado,  no  de  D.  Aflonso  I  tudo  quanto  seja  levantar  a  ponta 
do  veu  que  occulta  o  seu  systema  monetário  e  esclarecer  alguns  pon- 
tos sobre  que  ainda  ha  duvidas,  tem  inconte.^tavel  importância  e  foi 
esta  consideração  que  nos  levou  a  apresentarmos  a  descripção  d"esta 
moeda  que  adquirimos  ha  poucos  dias. 

M.  Alexandre  de  Sousa. 


28  KE VISTA   ARCHEOLOGICA 

CONSTITUIÇÕES  DO  ARCEBISPADO  DE  LISBOA 
Decretadas  por  I).  Joã»  Esteves  de  Azambuja  (^'Ii02-l/rl4) 

(Continuado  de  pag.  15.) 

5.  Item  porquanto  antre  as  outras  cousas  (]ue  mais  perteencem  aa 
onesteduiade  [sic)  crelical  assy  lie  que  os  creligos  moormeiite  os  das 
hoi'deiis  sacras  ou  beneficiados  mostrem  de  fora  em  nas  vestiduras  co- 
roa e  cirçiliio  que  deuem  trazer  a  linpeza  e  boa  composiçam  que  bam 
dauer  dentro  em  nas  vontades,  porém  estabelleçemos  e  hordenamos 
que  todollos  creligos  de  bordens  sacras  e  beneficiados  de  xb  em  xb 
dias  façam  talbar  os  cabellos  em  maneira  de  ciribom  e  topete  e  rrapar 
as  coroas  e  barbas  em  tal  guisa  que  sejam  conboçidos  por  creligos  e 
possam  cellebrar  e  fezer  os  diuinos  oficios  linpamente  e  sem  escandallo 
alguum  e  esta  meesma  maneira  em  quanto  tange  ao  cirçilbo  topete  e 
coroa  mandamos  que  gardem  e  tenbam  os  creligos  de  bordens  meno- 
res e  os  que  sam  e  forem  casados  com  buma  molher  virgem  se  dos 
priuilegios  da  egreia  quiserem  gouuir  e  porque  alguns  dos  sobre  ditos 
creligos  delles  por  louçainba  e  outros  por  lhe  nom  aprazer  de  seerem 
conbiçidos  por  creligos  mandam  fazer  as  coroas  tam  pequenas  que  adur 
lhe  parecem  e  as  escondem  sob  os  cabellos;  porém  bordenamos  que  os 
dos  ordens  sacras  ou  beneficiados  as  tragam  e  mandem  fazer  segundo  a 
cantidade  e  forma  a  juso  escrita  e  os  das  bordens  meores  ou  casados 
segundo  outrosy  a  cantidade  per  nos  a  juso  diuisada  e  nom  fazendo  el- 
les  fazer  as  ditas  coroas  cirçilhos  e  barbas  aos  teni)os  sobre  ditos  e 
segundo  a  dita  maneyra  mandamos  aos  priores  das  egreias  e  priostes 
em  virtude  de  obediência  e  sob  pena  de  excomunhom  que  os  benefi- 
ciados ou  de  ordens  sacras  que  o  asy  nom  fezerem  os  nom  contem 
nem  lhe  dem  parte  dos  fruitos  que  nos  ditos  benefiçios  ouuerem  nem 
lhe  consentam  que  cellebrem  os  diuinos  oficios  em  quanto  assy  anda- 
rem desordenados  e  mandamos  que  aquelles  que  asy  perderem  por 
asy  andarem  desordenados  que  os  ditos  priores  de  cada  huma  das 
egreias  hu  esto  acontecer  bo  arecadem  e  façam  poer  em  ornamentos 
em  na  fabrica  da  egreia  sua  e  nom  ho  fazendo  elles  asy  que  se  torne 
e  o  aja  a  fabrica  da  egreia  cathedrall  e  se  os  creligos  solteyros  de  or- 
dens meores  nom  trouuerem  coroas  segundo  a  cantidade  a  juso  escri- 
pta  depois  de  buum  mez  da  pubricaçam  d'estas  constituiçones  (sic)  dehy 
em  diante  em  (juanto  asy  nom  trouuei-em  as  ditas  coroas  e  cirçilhos 
nom  sejam  rrecebidos  como  autores  em  juizo  ecrlcsiastico  nem  secul- 
lurall  e  se  os  de  feito  Recebei'em  nom  valha  a  sentença  (pie  jior  elles 
for  dada  nem  sse  faça  per  ella  execuçam.  Item  quanto  tange  as  vesti- 
duras dos  ditos  creligos  benefiçiiados  e  de  ordens  sacras  mandamos 
que  as  tragam  taaes  (pie  sejam  perteencentes  a  seos  estados  e  que  nom 
sejam  de  panno  uer"de  nem  ucrmclho  nem  de  duas  moetades  nem  bar- 
radas nem  farpadas  nem  mais  cúrias  (pie  ataa  mea  perna  nem  Iam  lon- 
gas que  varram  pello  chão  nem  fendidas  pellas  hilhargas  nem  detrás 


E   IIISTOKICA  20 


saluo  os  que  teuercm  bosUis  em  (jiie  caii.iliiucin  e  (jiie  (iniiiido  as  assy 
líMicrein  (jue  as  ))Ossam  trazer  delias  íciididas  hiiurn  palmo  e  meo  e 
(|ii('  de  diaiilo  rts  pussaiii  Ica/cr  (elididas  dons  palmos  ainda  (jiie.  uom 
lenham  beslas  nem  Irai^am  mancas  de  jiellonya  nem  j^nrgneyras  Iam  al- 
ias (|ne.  |)assem  aalem  do  j)escon)  e  que  as  mani^as  delias  acolinliadas 
ou  anchas  i)assem  de  ires  palmos  nem  trayam  gibões  abolados  na  gor- 
gueyra  com  coidooes  ou  lacas  nem  tenham  mangas  mais  largas  que 
Inunn  i)almo  e  meo  nem  mantnnes  abertos  salno  (juando  canalgarem 
e  (|ne  destes  (|ue  hora  teem  leitos  possam  hiisai-  ataa  o  segundo  sinado 
nem  tragam  ca[)eyret(,'s  abotoados  nem  de  bicos  altridos  e  (jne  [)assem 
(i(i  li"es  palmos  e  se  alguuns  dos  ditos  beiieliciados  ou  de  ordens  sa- 
cras trouerem  as  ditas  bisliduias  per  nos  defesas  depois  de  huum  mes 
desta  consliluiçam  sejam  punidos  segundo  dito  he  quando  ti-ouerem 
circilho  nem  coroa  e  se  depois  desta  i)iim(!Íia  pena  ti'Ounereni  as  ditas 
rroupas  e  trajos  deflesos  os  nossos  vigaircjs  e  nieyrinhos  lhas  possam 
en  coutai"  {sic)  e  demandallos  e  leualas  pei'a  ssy  jtor  perdidas  e  quanto 
tange  que  nom  tragam  pano  uerde  e  uermelho  nem  de  duas  meetades 
nem  barradas  nem  farpadas  nem  çapatos  verdes  nem  uermelhos  nem 
llorados  e  fazendo  ho  conlrayro  mandamos  que  se  coroas  (sic)  Irouerem 
taaes  trajos  que  os  nossos  vigairos  e  aljiibeyio  e  nieyrinhos  as  possam 
encoutar  e  demandallos  por  ellas  e  leuallas  como  dito  he  demais  que 
taaes  creligos  em  (juanto  taaes  pannos  e  trajos  trouuerem  nom  sejam 
rreçebidos  como  autores  em  juizo  ecclesiastico  nem  secullar  e  se  os 
de  feito  rreceberem  (|ue  nom  valha  a  sentença  que  por  elles  for  dada 
nem  se  faça  i)or  ella  execuçam  pois  se  descontentam  depois  da  nossa 
costiluiçam  e  amoestaçam  de  trazer  vestiduras  e  trajos  (lue  nom  per- 
teençem  a  onestidade  da  ordem  (\ne  tomai'om. 

6'.  Item  porquanto  os  beneíicios  ecclesiasticos  sam  diuudos  aquelles 
que  nas  egreias  vigiam  e  servem  e  faz  {sic)  seja  que  o  creligo  que  por 
aquelle  tenpo  serue  ao  altar  delle  dena  de  uiuer  e  per  experiência 
certa  sabemos  que  alguuns  rraçoeyros  das  egreias  da  dita  cidade  e  ar- 
cebispado despoendo  e  leyxando  os  ofícios  diuinos  por  os  quaaes  Ibes 
sam  dados  os  beneficiios  ecclesiasticos  e  desejando  Iam  soltamente  auer 
os  proueytos  temporaaes  leuam  logo  e  rreçebem  ao  começo  do  anno 
todas  suas  rrações  dos  frutos  das  egreias  bonde  sam  lienefiçiados  en- 
teyramente,  os  quaaes  lhes  deniam  seer  dados  e  deslribuidos  pello  an- 
no e  meses  e  domaas  e  dias  delle  asy  como  seruirem  ou  seruissem  e 
depois  que  os  assy  leuam  e  rreçebem  absentamsse  e  amooram-se  das 
ditas  egreias  de  que  os  assy  leuam  e  nom  curam  de  as  seruir  nem 
fazem  em  ellas  rresidençia  por  que  acho  sejam  thiudos,  poièm  man- 
damos e  estabelleçemos  que  em  nas  egreias  em  que  os  rraçoeyros  par- 
tem os  fruttos  com  os  priores  rreytores  e  vigaii'os  e  a  parte  que  acom- 
teçer  aos  beneficiados  e  rraçoeyi-os  seja  posta  em  celleyro  comuum  ou 
em  outro  lugar  em  que  fiellmenle  seja  gardada  e  pelo  prioste  seja  sua 
rraçon  e  parte  a  cada  huum  rraçoeyro  por  aquelles  dias  que  seruir  e  asy 


30  BEVISTA   ARCHEOLOGICA 

como  SLMiiir  em  esta  guisa.  s.  que  feita  a  irepartiçam  e  sabudo  quanto 
■  amouta  de  pam  e  vinho  a  cada  huma  rraçam  per  lodo  o  anuo  tanto  lhe 
dem  em  cada  hnum  mes  conpeçando  de  contar  a  j)artiç.am  do  pam  per 
sam  joham  baptista  e  do  vinho  per  samiyuell  e  as  outras  cousas  vindas 
e  fruclos  (pie  se  gnrdcm  e  se  nom  podem  sejam  partidas  antre  elles  ou 
uendidas  asy  como  ho  prioste  com  os  rraçoeiros  da  egreia  virem  (jue  mais 
cumi)re  consirando  senpre  ho  mais  pi'Oueito  da  egreia  e  o  ditopriostre  des- 
tribua  e  rrejiarta  as  ditas  meunças  e  frutos  os  dinheiros  por  (pie  forem  uen- 
didos  tam  sollamente  antre  os  rraçoeyros  que  na  dita  egreia  seruirem 
per  as  domaas  e  pei-  os  dias  (]ue  na  dita  egreia  seruirem  como  dito 
he  cobrando  o  (pie  lhes  amonta  a  cada  luium  i)er  todo  ho  anuo  e  nas 
egreias  em  (jue  os  rraçoeiros  e  priores  e  vigairos  e  outros  quaaes  quer 
ou  seus  procuradores  (?)  dam  e  ministram  aos  rraçoeyros  os  fructos 
das  suas  Harões  hordenamos  e  mandamos  (pie  lhas  nom  dem  nem  mi- 
nistrem em  outra  guisa  senam  tam  sollament.)  pellos  meses  e  domaas 
e  dias  que  seruirem  em  nas  egreias  afora  aipielles  (pie  forem  escusa- 
dos per  infermidade  ou  justa  e  rrazoaueJi  necessidade  corporall  ou 
por  manifesto  (í  evidente,  proueyto  da  egreia  ou  se  nos  ou  nossos  so- 
çessores  ou  algum  outro  que  o  de  direito  possa  fazer,  mandamos  dar 
os  fruitos  das  ditas  Rações  a  alguum  ou  a  algunns  que  esteuerí^m  em 
estudo  ou  [lor  outra  alguma  e  assynada  rrazam  )iorèm  por  que  pode- 
ria acontecer  que  o  [)ani  e  vinho  nom  poderia  tam  bem  seer  gardados 
nos  celleyros  c  adegas  como  compria  porém  se  os  rraçoeyros  e  benefi- 
ciados quiserem  feitas  as  rrepartizões  rreçeber  as  rraçõoes  e  dar  fia- 
dores que  as  seruam  nom  sernindo  que  as  tornem  e  emtreguem  pêra 
as  auer(3m  os  que  as  seruem,  mandamos  ([ue  lhas  entreguem  e  dem 
como  derem  fiança. 

7.  Outro  sy  hordepnamos  mais  e  mandamos  que  as  obradas  e  quaes- 
quer  ofertas  e  obrações  que  vêem  aas  egreias  por  os  uiuos  ou  com  os 
finados  e  esso  medes  os  que  uierem  a  oytauo  e  tercesimo  dia  e  ao  an- 
uo que  sejam  anudas  por  destrdjuições  e  partidas  tam  sollamente  an- 
tre aíjuelles  que  seruirem  nas  ditas  egreias  e  aas  oras  e  hoficios  em 
que  e  por  que  se  derem  aos  que  forem  presentes  e  interesentes  e 
absentes  nom  ajam  delias  parte  saluo  se  forem  escusados  por  alguma 
enfermidade  corporall  ou  outro  lidimo  embargo;  e  o  que  nom  for  as 
matinas  perca  ho  terço  do  (pie  ouuer  e  essomedes  por  as  outras  oras 
do  dia  que  se  dizem  pella  manham  perca  outro  terço  se  a  ellas  nom  for 
e  outro  terço  i)ella  nooa  e  vésperas  e  compctras  (sic)  e  as  ditas  cousas 
sejam  partidas  depois  das  veesperas  e  competras  ditas  e  aja  cada  hiium 
como  mei-çeo  e  como  dito  he  e  a  parte  dos  que  nom  uierem  ajamna 
os  í|ue  forem  presentes  e  interesentes  e  ausentes  pêro  queremos  que 
os  ditos  beneficiados  sejam  escusados  das  matinas  hnum  dia  da  se- 
mana afora  ho  domingo  e  festas  dobrezes  e  que  no  sejam  a  todallas 
oras  do  dia  pêro  ho  dia  que  se  sangrarem  ou  tomarem  alguma  menzinha 
e  os  priores  e  rreytores  e  vigairos  que  derem  ou  mandarem  dar  a  ai- 


E   HISTÓRICA  31 


gunns  os  frnitos  dos  ditos  beneficiios  o  os  priosles  que  contra  esta 
nossa  constituiçam  os  derem  saluo  pella  guisa  e  maneira  que  dito 
auemos  e  esso  medes  os  rracoeyros  fjue  os  Receberem  ou  a('Uf)a- 
i"em  por  tall  que  sejnm  punidos  em  aquillo  em  que  pecarem  man- 
damos (pie  percam  todo  aipiillo  (|ue  n"eceh(;rem  e  onuerem  e  outro 
tanto  os  priores  e  priosles  (|ue  llio  derem  e  na  parte  das  olíertas  e  obra- 
das e  do  oytauo  e  lerçesimo  dia  e  anno  e  dos  aniuersarios  os  ditos 
priores  e  rreytores  e  vigayros  e  priostes  que  as  derem  doutra  guisa 
e  mandarem  dar  e  essomedes  os  rraçoeiros  que  as  rreceberem  e  le- 
uarem  saluo  como  dito  ha  [nw  lio  dia  em  que  as  derem  ou  mandarem 
dar  ou  leuarem  ajam  a  pena  sobredita  e  asy  cada  uez  que  o  fezerem  e 
do  que  assy  perderem  em  anblos  (sic)  quasos  aja  ametade  a  fabrica  da 
egreja  em  que  asy  forem  beneliciados  e  a  outra  metade  a  fal)rica  da  see. 
S.  Item  ponpianto  os  demandadores  e  ychacoruos  dos  quaes  al- 
guns enganando  mentem  em  dizendosse  seerem  huuns  e  sam  outros  e 
em  suas  pregações  propoeem  e  dizem  muylas  abusooes  por  o  tal  que 
enganem  os  sinplizes  e  tirem  e  leucm  delles  per  sotill  e  enganoso  en- 
genho ouro  prata  dinheiros  pão  e  vinho  e  quall  quer  outra  cousa  que 
podem  tirar  e  taaes  como  estas  buscam  e  demandam  as  suas  cousas 
([ue  nom  dem  por  deus,  mas  por  os  ghanhos  temporaaes  e  pellas  di- 
tas abusões  (pie  asy  propooee,  A  censura  ecciesiastica  be  feta  vill  (sic) 
quanto  aa  oupiniom  dos  homens  e  aautoridade  das  classes  da  egreia  he 
lançada  em  desprezamento  e  periigo  das  almas  e  escamdallo  de  mui- 
tos i)orem  querendo  nos  aas  ditas  abusooes  e  mallicias  refrear  e  es- 
tabelleçendo  mandamos  que  os  priores  reitores  vigairios  perpétuos  das 
egreias  da  dita  cidade  e  arcebispado  e  os  procuradores  delles  e  os 
rracoeyros  e  outros  beneficiados  nom  rrecebam  nem  ouçam  algum  de- 
mandado ou  ychacoruo  nas  egreias  e  lugares  seus  saluo  se  leuarem  let- 
tras  apposlolicas  ou  nossas  cartas  conhecidas  em  as  quaes  faça  meençom 
(pie  nos  vimos  as  ditas  letras  apposlolicas  e  as  examinamos,  Nem  os 
leyxem  nem  consentam  dizer  nem  propoer  algua  outra  cousa  salvo  as 
endulgençias  e  perdoanças  ou  rremissooes  conthyudas  nas  ditas  leta- 
ras  apposlolicas  ou  nossas  cousas  conhicidas  e  certas  e  sejam  ainda 
percibidos  e  anisados  qiiaaes  (juer  creligos  que  nom  sejam  fauoraueeys 
nem  presumm  ser  aos  ditos  demndadores  e  ychacoruos  contra  as  ditas 
constituições  canónicas  e  esta  nossa  em  periigo  das  suas  almas  por  o 
tall  (jue  os  ditos  demandadores  lhes  dem  parte  do  gaanho  que  assy 
ganharem  e  os  que  contra  esto  fezerem  mandamos  que  paguem  huum 
marco  de  prata  pêra  a  obra  da  see.  (Continua.) 


NOVAS  DESCOBERTAS  EM  POMPEIA 

Da  mesma  forma  que  em  i720,  um  camponez  abrindo  um  fosso 
descobriu  a  existência  de  Ilercolanum  sob  as  cidades  modernas  de 
Resina  e  de  Portici,  o  proprietário  dum  vinhedo  a  leste  do  amphithea- 


32  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

tro  de  Pompeia  descobriu,  nos  fins  do  anno  passado,  procedendo  aos 
seus  trabalhos  agricolas,  uma  estrada,  guarnecida  de  túmulos  na  di- 
recção da  cidade  morta  para  Vocera.  Começaram  já  as  escavações,  mas 
não  poderam  ainda  por  falta  de  capitães  tomar  grande  desenvolvimento. 
Comtudo,  já  encontraram,  a  meio  kilometro  de  Pompeia,  por  baixo 
de  uma  secção  de  10  melros  de  pedra  pomes  e  de  duas  camadas  de 
cinzas,  uns  cincoenta  metros  da  antiga  estrada  romana,  com  pavimento 
de  beton  e  com  uma  pequena  flecha  no  centro  para  permittir  o  escoa- 
mento das  aguas.  Dos  dois  lados  ha  uma  espécie  de  banquetas  de  terra, 
onde  se  acham  sete  túmulos  já  desentulhados,  quatro  dum  lado  e  três 
do  outro,  collocados  a  seguir  e  tão  próximos  que  se  a  disposição  fòr  a 
mesma  até  á  cidade,  o  trabalho  promette  ser  muito  importante.  Os 
túmulos  estão  alinhados  todos  com  a  estrada  e  os  mais  recuados  tem 
á  frente  uma  balaustrada  que  restabelece  o  alinhamento  e  occupa  uma 
porção  de  terreno  reservada  provavelmente  a  futuros  túmulos  de  família. 

Cada  um,  lorma  um  i)equeno  moiuimento  architectonico  feito  de  ti- 
jolo e  cal,  estucado,  ornado  de  columnas  e  de  estatuas,  tem  nichos  para 
collocar  urnas  cinerarias,  e  abobadas  por  baixo  para  as  ossadas. 

Estes  tumnios  serviam,  facto  singular,  de  logarde  aííixação  de  annun- 
cios;  estão  cobertos  com  grosseiras  inscripções  vermelhas,  feitas  a  pin- 
cel, que  encerram  factos  insignificantes  para  conhecimento  geral;  um  d"es 
tes  annuncios  diz:  «quem  achou  um  cavallo  que  fugiu,  pôde  entregal-o 
em  casa  do  ferrador  de  Vocera,  na  ponte  do  Sarno,  do  lado  de  Stabia. 

N'outro,  as  paredes  do  tumulo  tem  numerosos  nomes,  gravados  pe- 
los rapazes  e  pelos  namorados  daquella  época;  por  baixo  duma  d'es- 
tas  inscripções,  em  que  se  entrelaçam  dois  nomes,  lêem-se  as  seguin- 
tes palavras:  «Lembras-tef» 

As  inscripções  fúnebres  propriamente  dietas,  as  estatuas  e  os  or- 
namentos estão  depositados  próximo  do  logar  das  escavações  n'uma  ca- 
bana, excepto  a  maior  das  efíigies  que  estendida  sobre  um  montão  de 
cinzas  serve  para  segurar  a  barraca  em  que  dormem  os  operários. 

As  estatuas  são  evidentemente  retratos:  reconhecem-se  n'ellas,  um  an- 
cião de  lábios  grossos,  um  rapaz  de  cabeça  grega,  uma  matrona  de  as- 
pecto carregado  com  profundas  linhas  aos  cantos  da  bocca,  uma  rapariga 
com  ares  affectados.  As  cabeças  tem  ainda  vestigios  de  côr  e  a  julgar 
pelo  grosseiro  do  trabalho  foram  pintadas.  Em  quanto  ás  ossadas,  não 
foram  achados  intactos  senão  os  craneos  que  tem  todos  entre  os  den- 
tes o  obulo  do  costume  carcomido  pelo  azinhavre. 

Detalhe  curioso,  as  urnas  cinerarias  tem  um  orifício  na  tampa  com 
um  pequeno  tubo  por  onde  se  lançavam  as  libações.  Não  se  ponde  ainda 
determinar  precisamente  a  época  d^estes  monumentos,  mas  parece  se- 
rem coevos  de  Jidio  César  e  de  Tibério;  isto  é,  tem  aproximadamente 
dois  mil  annos.  Quaesquer  outras  informações  que  possamos  colher  no 
jornal  francez  d'onde  extraímos  estas,  communicaremos  aos  leitores. 

M.  Alexandre  de  Sousa. 


E  niSTOKICA  33 


MONUMENTOS  DE  BALSA 
(perto  de  Tavira) 

Quando  eu  publiquei,  lia  quasi  viule  arinos,  o  segundo  volume  do 
Corpus  Jnscriplioniun  Laliiurnmi  (em  18GÍ)),  o  segundo  capitulo,  des- 
tinado aos  monumentos  epigrapliicos  da  antiga  Balsa,  e  impresso  já 
em  1806,  não  podia  produzir  senão  dois  números  (13  e  14),  nenhuili 
dos  quaes  continha  o  nome  lomano  da  povoação.  Pouco  tempo  depois 
recebi,  graças  á  obsequiosidade  do  sr.  Augusto  Soromenlio,  o  opús- 
culo do  meu  illustre  amigo  sr.  S.  P,  M.  líslacio  da  Veiga,  l^uios  lial- 
senses,  etc.  (Lisboa  1800,  30  pp.  8.").  O  sr.  Veiga  alcançou  depois  o 
mérito  immortal  de  haver  fundado  o  Museu  do  Algarve,  e  o  mundo 
scientifico  espera  impacientemente  a  sua  grande  obra  sobre  as  anti- 
guidades préhistoricas  e  históricas  d"esta  parte  tão  interessante  de 
Portugal,  obra  annunciada  pelo  auctor  no  seu  pequeno  mas  interes- 
sante volume  sobre  as  antiguidades  de  Mertola  K  Do  opúsculo  do  mes- 
mo auctor  acerca  de  Balsa  pude  eu  tirar  duas  outras  iuscripções  in- 
teressantes d'esta  povoação,  as  quaes  publiquei  nas  addenda  do  vo- 
lume do  Corpus.  Uma  terceira  e  uma  quarta,  publicadas  depois  pelo 
sr.  Teixeira  d'Aragão  no  seu  Ihialorio  suhre  o  cemiteriu  romano  desco- 
berto pro.rimo  da  cidade  de  Tavira  (Lisboa,  1808,  8.°),  foram-me  for- 
necidas pelo  sr.  Soromenho.  Muitos  annos  depois,  o  mesmo  Sorome- 
nho  enviava-me  as  copias  de  três  iuscripções  importantes,  relativas  ao 
circo  de  Balsa;  publiquei-as  na  Ephemeris  epigraphica.  Se  a  estas  se 
juntarem  mais  cinco  ou  seis,  e  entre  ellas  uma  grega,  publicada  pelo  sr. 
Veiga,  pela  maior  parte  inéditas,  mas  dum  valor  insigniílcante  (excepto 
uma),  e  ainda  outras  muitas  mutiladas.  Iodas  reunidas  então  no  Mu- 
seu do  Algarve,  o  capitulo  de  Balsa  toma  um  aspecto  inteiramente  novo. 

Antes  de  inserir  este  capitulo  no  Supplemento  ao  vol.  ii  do  Cor- 
pus, que  estou  preparando,  será  agradável  aos  leitoies  da  Revista,  ver 
reunidas  aqui  as  mais  importantes  d"essas  iuscripções.  Ueixo  de  parte  as 
inscripções  simplesmente  funerárias,  cujo  valor  scientifico  é  pequeno. 

•1.  Altar  de  pedra  calcaria,  achado  no  cemitério  da  Torre  d' Ares; 
no  Museu  do  Algarve  em  Lisboa.  Lettras  (alt.  O^^M)  do  segundo  sé- 
culo, muito  elegantes.  Calco  enviado  pelo  sr.  Veiga,  e  verificado  por 
mim  no  original  em  1881.  Texto  inédito. 


[ApoÍ]\li:U  I  Aiig{iisto)\  Speratits  \  Bjíls{eiL<!Íuni)  disp{en- 
sator)  I  animo  li[b{cns)\  \  po\_s{iiit)\. 


AVG 

SPERATVS 

BAI.S-Í3ISP  A  Apollo  Augusto  Sperato,  ao  serviço  da  cidade  de  Bal 

ANTMO  ■  IJ^b         sa  como  dispensador,  erigiu  de  bom  grado  este  altar. 


PO 


1  Memoria  das  antiy.  de  Mertola,  etc,  Lisboa,  1880  (190  pp.j,  8.°,  com  uma  planta. 
Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N."  3  —  ^L\Kço  1887. 


34  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

No  fim  da  primeira  linha  deve  ler  havido  n  por  ni.  O  D  do  dis- 
pensator  tem,  no  traço  vertical,  outro  pequeno  traço  obliquo,  que  in- 
dica o  uso  da  abreviatura.  Os  dispensalorcíi  da  cidade  eram  servi  pu- 
hlici.  Este  pequeno  altar  de  Apollo  pode  ter  tido  ou  não  collocação 
num  templo  dedicado  á  mesma  divuidade;  mas  também  não  é  impos- 
sível o  ter  existido  em  Balsa  um  templo  de  Apollo. 

2.  Altar  de  pedra  calcaria,  achado  em  1750  e  ainda  existente  no 
plinto  do  púlpito  da  egveja  de  N^  S/'  da  Luz,  tnna  légua  de  Tavira. 
Calco  enviado  pelo  sr.  Veiga,  segundo  o  qual  eu  corrigi  algumas  pe- 
quenas particularidades  do  texto,  editado  no  Corpus,  vol.  ii,  n.°  13. 
Lettras  sem  elegância  (alt.  O, '"03),  do  fim  do  segundo  século  ou  do 
começo  do  terceiro. 

FORTVNAE     •     AVG    •  Fortiinae  Aug[usiae)  \  Sacrum.  \  Annius  Pri- 

SACR  •  viithnis  \  ob  honorem  \  sexvir{atus)sui,  \  edi- 

ANNIVS    •    PRIMITIX^VS  to  barcarum  \  certamine  et  \  pugihnn,  sportu- 

O  B    •    H  O  N  O  R  E  M  lis  \  ctiam  civibus  \  datis  \  d{e)   s{ua)  p[ccu- 

5       IIIIII    ■    VIR   •   SVI  •  nia)  d{omnn)  diat). 
EDITO    BARGARVM 

CERTAMINE  -ET-  Consagrado  á  Fortuna  Augusta.  Annio  Pri- 
PVGILVM  •  SPORTVLIS  mitivo,  pela  honra  que  obteve  do  sevirato, 
ETIAM  -CIVIBVS  depois  de  ter  cxhibido  um  combate  de  bár- 
io DATIS  •  cas  e  de  athletas,  e  também  depois  de  ter 
D  •  S  •  P  •  D  •  D  •  distribuído  dadivas  aos  cidadãos,  deu  este  al- 
tar, erigido  á  sua  custa. 

O  combate  de  barcas,  exhibido  pelo  rico  cidadão  Annio  Primi- 
tivo, que  todavia  não  era  da  ordem  dos  decuriões  ou  senadores  da  ci- 
dade, mas,  como  de  origem  não  livre,  somente  sévir  dos  Augustales 
(collegio  de  libertos,  instiluido  para  o  culto  dos  imperadores),  eíTe- 
cluar-se-hia  no  rio,  e  o  dos  athletas  no  circo  mencionado  nas  inscripções 
que  seguem.  A  palavra  barca,  provavelmente  de  origem  phenicia,  pa- 
rece encontrar-se  neste  documento  pela  primeira  vez  na  litteratura 
antiga.  A  Fortuna,  como  fonte  das  riquezas  do  doador,  é  muito  jus- 
tamente honrada  por  elle. 

3 — 5.  Três  inscripções  relativas  ao  circo  de  Balsa.  Lages  calca- 
rias, encontradas  na  Quinta  das  Antas,  na  margem  do  Guadiana.  Let- 
tras muito  estreitas  e  mwito  elegantes  do  segundo  século;  na  primeira, 
de  ali.  de  0"\0();  na  segunda  Ó'",03  a  0"',0'i ;  na  terceira,  fragmenta- 
da, de  0™,1.  Esta  ultima  inscripção  está  numa  peça  de  epistylo.  Cal- 
cos enviados  pelo  sr.  Veiga;  não  vi  os  originaes,  que  debalde  procu- 
rei no  Museu  do  Algarve.  Os  textos  estão  publicados  na  Ephemeris 
epigraphica,  vol.  iv,  1881,  p.  G,  n.*'  1  —  3. 


E   HISTÓRICA  35 


3.  C   •   LICINIVS  •  BADIVS         Gliius  Licinius  Badiíts  \  podiínn  circi p{edes) 
PODIVM  •  CIRCI  •  P  •  C  •        c{entinn)  \  sua  impensci  d{omim)  d^at). 
SVA  •  IMPENSA  •  D  •  D  • 

Gaio  Licínio  Badio  mandou  fazer  á  sua  cus- 
ta cem  pés  do  podiínn  do  circo,  como  dom  á  cidade. 

4.  T  (J)  CASSIVS  •  CELER         Titus  Cassius  Celer] podiínn  circi  \  pedes  c{en- 

PODIVM-CIRCI  tiiiii)  I  sua  impensa  \  d(omnn)  d{at). 
PEDES  •  G  • 

SVA  -IMPENSA  Tito  Cassio  Celer  fez  á  sua  custa  cem  pés  do 

5  D  •  D  podiuin  do  circo,  como  dom  á  cidade. 


^-    CVM   •    ANT^ 


.  .cum  anteipagmentis J  et  st  atuis. 


Não  é  raro  o  encarrega rem-se  alguns  cidadãos  ricos  ou  magistra- 
dos do  municipio  de  mandar  fyzer^  á  sua  custa,  certas  porções  dos 
edifícios  públicos,  para  facilitarem  a  construcção  d'clles.  liadio  é  um 
cognome  raro.  O  podiíim  é  a  parle  mais  baixa  da  cavea  do  circo,  de 
construcção  massiça,  logar  reservado  ás  pessoas  de  distincção;  os 
doadores  ahi  tinham  também,  de  certo,  seus  togares.  O  episiylo  co- 
roava provavelmente  o  portal,  exterior  ou  interior  do  edifício.  A  sua 
inscripção  exlendia-se  por  muitas  pedras,  cujo  numero  pode  ter  sido 
de  doze  ou  mais  ainda;  e  as  lettras,  muito  grandes,  devem  ter  produ- 
zido bom  effeilo.  O  fragmento  duma  das  pedras  contém  apenas  ura 
resto  da  phrase  do  verso, — que  o  doador  (ou  doadores)  tinham  for- 
necido á  parte  do  edifício,  construída  à  sua  custa,  os  aníepagmenta,  isto 
é,  as  peças  d'architectura  destinadas  a  revestir  as  faces  exteriores. 
Não  se  pode  supprir  antis;  porque  a  lettra  seguinte  ao  t  não  foi  cer- 
tamente um  I,  mas  sim  um  k.  Demais,  as  antae,  ombreiras  de  porta, 
ainda  que  possíveis  também  num  circo,  correspondem  melhor  a  um 
templo.  Estou  certo  de  que  as  investigações  do  sr.  Veiga  designarão 
o  local  preciso,  onde  assentava  o  circo  de  Balsa. 

f).  Grande  pedestal  (ali.  1"',24,  larg.  O™, 5i2)  de  pedra  calcaria,  en- 
contrado em  18GG  entre  o  povoado  de  Santa  Luzia,  meia  légua  de  Ta- 
vira, e  a  frerjiiezia  da  Senhora  da  Luz,  seis  kilomelros  de  Tavira,  na 
Quinta  da  Torre  d' Ares;  no  Museu  do  Algarve.  Lettras  não  muito  ele- 
gantes e  como  pintadas  do  segundo  século  (cerca  do  tempo  do  impe- 
rador Commodo).  da  altura,  nas  linbas  1  a  5,  de  O"', 04;  nas  linhas  6 
a  IO,  de  0'",035;  e  nas  linhas  II  a  17,  de  O™, 02.  Copia  enviada  pe- 
los srs.  Francisco  Raphael  da  Paz  Furtado  e  Veiga;  calco  tirado  por 
mim  próprio  em  I88I.  Editado  pelo  sr.  Veiga,  Povos  Balsenses,  p.  Io, 
e  no  Corpus,  vol  ii,  n.°  4089. 


30 


REVISTA  ARCHEOLOGICA 


i5 


T    •   RVTILIO    •    GAL 

TVSCILLIANO  • 
Q    •    RVTIL    •    RVSTI 
CINI  •  FIL   •   T  •   MAl 
LII   •    MARTIALIS 

NEPOTE-  INHO 
N  O  R  E  M  •  E  O  R  V  M 

AMICI 
CVR  •  L  •  PACC  •  MARCI 
ANO  •  ET  ■  L  ■  GELL  •  TVTO 


L  •  PACC  • 

BASILLVS 

P  •  RVTIL  • 

ANTIGONVS 

T  •  MANL  • 

EVTYCHES 

T  •  MANL  • 

EVTYCHIO 

L  •  MECLON  • 

CASSIVS 

P  V  B  L  I  C  I  V  S 

•    ALEXANDER 

LAETILIANVS     * 

B  A  L  S  E  N  S  I  V  M 

Tiio  Rutilio  Gal{cria)  \  Tuscilliano,  \ 
Qiiinti  Rutil{ii)  Ritsti  \  cini  fil{io),  Tito 
Man  I  ///  Martialis  \  nepoti,  in  ho  |  norem 
eoriim  \  auiici,  \  ciir(aiitibiis)  Lúcio  Pac- 
c{ió)  Marci  \  {ano)  et  Lúcio  Gell{io)  Tu- 
to,  I  Lucius  Pacc[ius)  Basillus,  \  Publius 
Rulil{ius)  AnliffomiSy  \  Titus  Manl{ius)  Eu- 
iyches,  \  Titus  ALvxl{ius)  Eutychio,  \  Lu- 
cius Meclon{ius)  Cassius,  \  Publicius  Ale- 
xander,  \  Laetilianus  Balsensium. 

A  Tito  Rutilio  Tuscilliano,  da  Tribu 
Galeria,  filho  de  Quinto  Rutilio  Rusticino, 
sobrinho  de  Tito  Manlio  Martial ;  erigiram 
em  honra  d'elles  a  sua  estatua,  os  amigos, 
sob  o  cuidado  de  Lúcio  Paccio  Marciano 
e  de  Lúcio  Gellio  Tuto,  (cujos  nomes  se- 
guem). 


Tuscilliano  e  seus  antepassados,  que  vêem  honrados  com  eile,  são 
pessoas  de  boa  família,  apparenlemente  da  ordem  dos  decuriões  (em- 
bora não  lhes  seja  attribuida  magistratura  algimia),  e  egualmente  o 
são  os  dois  amigos,  que  se  encarregaram  da  execução  da  estatua  do 
fallecido  e  do  respectivo  pedestal.  Mas,  dos  amigos  enumerados  no 
fim,  seis  são  libertos,  o  septimo  um  escravo.  São  prova  disso,  quanto 
aos  cinco  primeiros,  os  seus  cognomes  gregos,  excepto  Lúcio  Meclo- 
nio  Cassio;  o  qual,  todavia,  se  fosse  de  melhor  condição  social  que  os 
quatro,  teria  sem  duvida  collocado  o  seu  nome  em  primeiro  logar. 
Publicio  Alexandre  tem  nome  como  liberto  dum  publicum,  isto  é, 
d'uma  communidade,  d"um  templo,  etc;  ignoramos  qual  a  communi- 
dade  indicada,  mas  o  provável  que  seja  a  própria  cidade.  Laetiliano 
era  um  dos  servi  publici  da  cidade  de  Balsa,  como  o  dispensador  do 
n.°  1.  Eu  já  falei  acerca  dos  Publici  e  apresentei  exemplos  delles  na 
Ephemeris  epigraphica,  vol.  ii,1875,p.  89.  Linha  6  iNHO|NOREM 
está  escripto  sem  interpuncção,  segundo  o  uso  frequente  de  unir  a 
preposição  ao  seu  substantivo. 

7.  Pedestal  encontrado  e  conservado  com  o  precedente,  e  um  pou- 
co maior  que  elle  (ali.  l'",4(),  larg.  0"',()0);  altura  das  lettras  0'".:J3  a 
O^^jOi;  ellas  são  menos  elegantes  que  as  do  n.°  6,  mas  parecem  ser 
d'uma  época  não  muito  mais  antiga  (do  tempo  de  Marco  Aurélio,  pou- 
co mais  ou  menos).  Descoberto  e  editado  com  a  inscripção  preceden- 
te. Calco  tirado  por  mim  em  1881. 


E    IILSTOKICA 


37 


T  •  MANLIO 
TFQVIRFAV 
STINO  •  BALS  • 
MANLIA  •  T  •  F  ■ 
F  A  V  S  T  I  N  A 
SOROR  •  FRA 
TRI  •   piíssimo 

Tf-  VIR  -ir 

DD 
EPVLO  •  DATO 


Tito  Maiilio  I  Titi  f(ilio)  Qiiir(ina)  Fau  \  stino  Bal- 
s{ensi)  I  Manlia   Titi  f{ilia)  \  Faiistina  \  soror  fra  \ 
íri piissimo,  \  duumviro  bis,  \  d{edit)  d{edicavit)  |  epu- 
lo  dato. 

A  Tito  Manlio  Faustino,  filho  de  Tito,  da  Tribu 
Quinina,  Manlia  Faustina,  filha  de  Tito,  sua  irmã,  ao 
irmão  piissimo,  duas  vezes  duumviro,  deu  este  mo- 
numento, inaugurando-o  com  um  banquete  publico. 


Manlio  Faustino,  um  dos  personagens  importantes  da  cidade,  como 
o  indica  o  seu  cargo  iterado  de  primeiro  magistrado^  ciiama-se  Bal- 
sensis,  isto  é,  cidadão  de  Balsa.  Mas  é  duvidoso  que  elle  tenha  nasci- 
do em  Balsa,  pois  indica  como  sua  tribu  a  Quirina,  que  estava  muito 
espalhada  na  Ilispanha,  mas  que  íião  parece  ter  sido  a  tribu  dos  fi- 
lhos de  Balsa.  Porque,  numa  inscripção  descoberta  em  1742  no  sitio  de 
Torrejão,  freguezia  de  lialeizão,  perto  de  Beja,  um  certo  Gaio  Blossio 
Saturnino  se  chama  da  tribu  Galeria,  et  Neapolitatms  Afer  Areniensis, 
Íncola  Balsensis  (C.  I.  L.,  vol.  ii,  n.°  105).  Como  elle  é  natural  de 
Neapolis  em  Africa  (Nebel-Kedim,  perto  de  Carthago;  vede  C.  I.  L., 
vol.  VIU,  p.  12o),  cidade  atlribuida  á  tribu  Arniensis,  a  Galeria  éa  de 
Balsa,  d'onde  elle  era  incola,  habitante,  porém  não  civis,  cidadão.  Da 
Galeria  era  effectivamente,  como  vimos,  Tito  Rutilio  Tuscilliano,  do  n.'*  6. 

8.  Cippo  de  pedra  como  mármore,  descoberto,  do  mesmo  modo 
que  os  dois  precedentes  n.°'  G  e  7,  em  1868,  na  Quinta  da  Torre 
d" Ares,  junto  á  egreja  da  Luz;  no  Museu  do  Algarve.  Lettras  mais  ele- 
gantes que  as  dos  dois  monumentos  precedentes,  de  altura,  na  pri- 
meira linha,  de  C^jOi,  e  descendo  até  0'",02  na  ultima.  Publicado  pe- 
lo sr.  Teixeira  d"Aragão,  relatório,  etc,  p.  10,  e,  segundo  uma  copia 
ministrada  por  Soromenho,  no  Corpus,  vol.  ii,  n.°  4990^.  Calco  ti- 
rado por  mim  em  1881. 


IVLIAE(J?  TlBç^F  (ÍjMAR 
CIAE  •  GEMINAE<i) 
AMICAE  •  OPTIMAEcJ? 
L-QVINTIVS  cJ?PRISCION 
CVM  •  CALLAEA  T-  F  •  SEVERINA 
ET  •  QVINTIA  •  AVITA  •  FIL  •  D  •  D 

tio  Priscio  com  Calléa  Severina,  filha  d 
filha,  deu  e  dedicou  este  monumento 


Iidiae  Tib{erii)  f{iliae)  Mar  \  ciae 
Gerniuae,  \  amicae  optiniae,  \  Lucius 
Qiiintius  Priscion  \  cum  Callaea  Titi 
J{ilia)  Severina  \  et  Qiiintia  Avitaf{i- 
lia)  d{edit)  d{edicavit). 

A  Júlia  Mareia  Gemina,  filha  de  Ti- 
bério, sua  melhor  amiga.  Lúcio  Quin- 
e  Tito,  (sua  mulher),  e  Quincia  Avita,  sua 


38  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Jiilia  Mareia  Gemina,  íillia  d'um  Tibério  Júlio,  que,  segundo  estes 
nomes,  deve  ter  obtido  o  direito  de  cidadão  romano  pelo  imperador 
Tibério,  e  d'uma  Mareia,  era  cerlamenle  lambem  duma  familia  nobre 
de  Balsa.  O  seu  amigo  L.  Quintio  Priscion,  cujo  cognome  tem  uma 
forma  grega  (Ilptoxíov,  em  vez  de  iV^sc/o),  como  não  junta  o  nome  do 
páe,  parece  ter  sido  íillio  d"um  liberto.  O  nome  da  fannlia  de  sua  mu- 
lher, Callaea,  ó  raro,  e,  ao  que  parece,  de  origem  não  romana. 

Não  repetirei  aqui,  como  já  disse,  os  textos  de  mais  sete  inscri- 
pções  funerárias  encontradas  em  Balsa  ou  nos  seus  immediatos  arredo- 
res. Mas  vou  dar  a  lista  alpliabelica  dos  nomes  das  pessoas,  que  são 
mencionadas  nessas  inscripçDes. 

Aemilia  Chaeris 

Albia  Nereis 

Cçiluricus  Lupatus 

Caturica  Agatemera,  sua  mulher 

E(lius,  em  vez  de  Aelius,  ou  Flavius)  Caturicus 

Domitius  Festus 

G.  Flavius  Relatus 

Q.  Flavius  Seranus 

Anliochis,  Euenus,  Ploce,  Talianus,  Ires  dos  quaes  (excepto  Plo- 
ce)  se  encontram  numa  iuscripção  funerária  escripta  em  grego  (Sr. 
Veiga,  Povos  Balsenses,  p.  2G). 

Se  a  estes  nomes  se  juntarem  os  que  se  acham  em  algumas  das 
outras  inscripções,  principalmente  nos  números  6  e  8,  observar-se-ha, 
embora  a  estatística  seja  muito  incompleta,  uma  certa  preponderância 
do  elemento  grego  na  classe  inferior  dos  habitantes.  Esta  observação 
é  plenamente  confirmada  pela  nomenclatura  dos  habitantes  de  Faro 
(Ossonoba),  e  d'outras  cidades  de  commercio  marilimo  no  resto  da  pe- 
nínsula. As  cidades  romanas  do  interior  de  Portugal  apresentam  sob 
este  ponto  de  vista  um  aspecto  muito  differente.  Gom  feições  d'este 
género,  leves  sim,  mas  bem  fundadas  nos  monumentos,  a  imagem  da 
antiga  cidade  de  Balsa  recebe  uma  certa  vida  individual,  que  só  os 
factos  mencionados  nos  outros  monumentos  epigraphicos  lhe  não  da- 
riam. As  instituições  municipaes,  o  circo  e  os  seus  jogos,  o  culto  dos 
deuses,  etc,  tinham  adíjuirido,  na  época  do  mais  intenso  desinvolvi- 
menlo  da  civilisação  romana  das  provincias,  quer  dizer,  no  segundo  e 
no  terceiro  século,  uma  certa  uniformidade. 

Quando  o  sr.  Veiga  nos  houver  dado  a  planta  da  cidade  de  Balsa 
e  dos  seus  monumentos  históricos,  as  inscripções  aqui  reunidas  mi- 
nistrarão, em  certo  modo,  o  material  de  personagens  com  que  povoar 
esse  recinto  monumental. 

Berlim,  janeiro  1887. 

E.  IIÚBNEn. 


E    HISTÓRICA  39 


CITANIA 

Tendo  sido  convidado  pelo  sr.  Martins  Sarmento  para  tomar  parte 
na  excursão  ao  Monte  da  (Vilania,  e  corres|)ondeiido  a  um  dever  de 
cortezia  e  gratidão,  cumpre-me  dizer  rapidamente  as  injpressões  que 
recebi  durante  as  três  horas  que  gastámos  a  percorrer  aquellas  famo- 
sas ruinas  e  as  observaçíjes  que  me  sugeriram  os  objectos  alli  encon- 
trados pelo  seu  illuslrado  explorador. 

A  historia  da  invasão  dos  dillerentes  povos  antigos  nas  Ilespanhas 
até  aos  piimeiros  séculos  da  era  christã  é  bastante  confusa,  e  a  no- 
ticia dada  por  alguns  escriptores  das  cidades  que  floresceram  em  taes 
epochas  no  território  portuguez.  quando  não  fabulosa,  tem  por  base  a 
tradição,  que  não  resiste  a  uma  critica  rudimentar. 

Nos  paizes  mais  illustrados  as  tiadições  são  sempre  tidas  em  lo- 
gar  mui  secundário,  procurando  íirmar-se  a  opinião  em  documentos 
authenticos,  sendo  considerados  dos  mais  positivos  os  fornecidos  pela  nu- 
mismática e  pela  epigraphia,  o  que  tem  tornado  importantíssimos  es- 
tes dois  ramos  da  archeologia. 

Deixando  as  epochas  mais  remotas,  os  geographos  antigos  são  quasi 
unanimes  em  dizer  que  a  Hespanha  fora  habitada  por  duas  raças  dis- 
linctas,  a  dos  celtas  e  a  dos  iberos,  formando  diversas  Iribus,  que  se 
ligaram  entre  si,  dando  origem  aos  [)ovos  denominados  celtibericos. 
Mais  tarde  fundaram-se  no  litoral  varias  colónias  e  feitorias,  sendo 
gregas  as  das  costas  do  Mediterrâneo  e  phenicias  as  do  sul  e  sudoes- 
te. A  maior  parte  das  tribos  cellibericas  e  as  das  colónias  gregas  e 
phenicias  cunharam  moeda  própria  para  seu  uso,  no  periodo  de  quasi 
dois  séculos  antes  da  era  de  saphar,  que  marca  a  submissão  da  Hespa- 
nha aos  romanos. 

As  legendas  das  moedas  cellibericas  são  formadas  por  caracteres 
pouco  conhecidos,  apesar  de  muito  estudadas  por  vários  sábios,  dis- 
liuguindo-se  entre  elles  Fulvius  Ursinius,  Florez,  Velasquez,  Hum- 
boldt,  Boudard,  Saulcy,  Ileiss,  António  Delgado,  que  ainda  nao  po- 
deram,  apesar  das  suas  engenhosas  combinações,  dar-lhe  a  verdadeira 
interpretação. 

Estes  interessantes  monumentos  encontram-se  em  abundância  ao 
nordeste  da  Península,  em  pouca  quantidade  no  centro  e  raríssimas  ve- 
zes no  território  do  moderno  Portugal. 

Em  seguida  á  destruição  de  Numancia  foi  a  Hespanha  declarada 
província  romana.  Os  conquistadores,  desde  .lulio  César  até  Calígula, 
concederam  a  algumas  cidades  com  o  titulo  de  colónia  ou  mumcípio, 
o  privilegio  de  se  regerem  por  leis  especiaes  e  de  cunhar  moeda  de 
cobre  para  seu  uso;  e  só  depois  de  prohibido  o  seu  fabrico  é  que  fo- 
ram introduzidos  em  grande  quantidade  os  bronzes  romanos. 

As  povoações,  hoje  incluídas  no  nosso  território,  que  cunharam 
moedas  com  legendas  latinas,  ficam  todas  ao  sul  do  Tejo. 


40  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

Nas  ruínas  da  Citania  tem-se  encontrado  as  seguintes  moedas  : 

Em  prata: 

Denario  que  o  sr.  Martins  Sarmento  oíTereceu  ao  sr.  Miguel  Osório, 
de  Coimbra,  e  que,  infelizmente,  este  cavalheiro  perdeu.  Em  um 
calco  que  vi  coníiece-se  o  typo  das  moedas  celtibericas  — cabeça  de 
cabelio  encarapinhado;  no  reverso  o  cavalleiro  de  lança  enristada  e 

por  baixo  'T  14  9-  Esta  legenda  está  incompleta  e  a  ser  exacta  a  co- 
pia, como  devemos  suppôr,  o  começo  destoa  das  que  se  tem  publi- 
cado. 

Estas  peças  numismáticas  são  imitação  do  systema  monetário  usa- 
do pela  republica  romana,  havendo  até  algumas  forradas  como  os  de- 
narios  das  famílias  consulares,  emittidos  nos  últimos  vinte  annos  do 
século  VII  de  Roma  (173  a  153  antes  de  J.  C.) ;  e  por  tal  circum- 
stancia  não  podemos  deixar  de  lhe  atlribuir  uma  data  posterior. 

Em  cobre  appareceram : 

Um  grande  bronze  de  Emérita  Augusta  (Merida):  TI-  C  A  E  S  A  R 
AVGVSTVS  PONT-  MAX-  IMP-  — Busto  laureado  de  Tibé- 
rio à  esquerda,  il).  avgvsta  —  emérita  escripto  em  duas 
linhas  na  porta  da  cidade,  sede  do  convento  cmeritense. 

Metade  de  um  bronze  de  Calagurris  Júlia  (Calahorra)  vendo-se 
distinctamente  parte  da  cabeça  de  Augusto  e  as  lettras  M/  N  (Mu- 
nicipium).  1^.  O  quarto  posterior  do  boi,  e  por  cima,  em  duas  linhas 
II-  V  I  R  -  — C  •  M  R  -  C. . .  (//  Viris  Caio  Mário  Capitone.  . .). 

Metade  de  outro  bronze,  de  Celsa  (Velilla  de  Ebro),  divisando-se 
parte  do  busto  de  Augusto  e  as  letras. .  v  S  T  V  S  •  i"^.  O  quarto  pos- 
terior do  boi  e  as  iniciaes  c  •  v  -  l  -  gel-  (Colónia  Victrix  Júlia 
Celsa)  AM  F  E  S. . .  (Manias  Festas). 

Um  bronze  de  Turiaso  (Torazona):  imp-  AVGVSTVS  PA- 
TER PATRIAE — Busto  laureado  do  imperador  á  direita,  i^.  m- 
GAECIL-  SEVERO  G-  ^AL  -  AQVILO  TVRIASO  {Mar- 
co  Caecilio  Severo,  Caio  Valério  Aquillo);  no  campo,  dentro  de  uma  co- 
roa de  loiro,  TT  v  l  R  • 

Os  três  últimos  bronzes,  com  20  a  28  millimetros  de  diâmetro,  per- 
tencem á  Tarraconense  e  ás  cidades  que  formavam  parte  do  convento 
caesaraugustano. 

As  duas  metades  dos  bronzes  de  Calagurris  e  Celsa,  pela  regulari- 
dade do  corte,  parecem  ler  sido  partidas  para  servirem  nas  peque- 
nas transações  ou  trocos. 

Descobriram-se  mais  quatro  medianos  bronzes,  três  completa- 
mente apagados ;  no  restante  percebe-se  o  busto  de  Hadriano  tendo 
no  reverso  uma  figura  de  pé,  á  direita,  junto  a  uma  insígnia  militar, 
6  na  orla  as  letras ...  v  G  v  S . . . 

As  moedas  que  acabo  de  descrever  pertencem  a  localidades  co- 
nhecidas, excepto  a  celtiberica  de  prata;  e  são  em  pequeno  numero  re- 
lativamente á  superfície  explorada.  Esta  escacez  pode  explicar-se  ou 


E   HISTÓRICA  41 


pela  raridade  do  dinheiro  no  commercio  d'aquelle  povo,  ou  em  resul- 
tado de  guerra,  e  porque  o  inimigo,  logrando  escalar  as  minaliias,  sa- 
queasse e  arrazasse  a  povoação.  As  casas  enlulliHdas  cí»m  o  material 
derribado,  e  a  p.irte  iníerior,  (pie  resta,  em  perfeita  conservação,  as 
peças  de  cerâmica  todas  feitas  em  pedaços,  e  estes  muito  dispersos;  a 
estatua  de  granito  que  se  encontrou  partida  e  os  bocados  bastante  dis- 
tanciados, a  falta  de  objectos  preciosos,  são  importantes  indicios  que 
autorisam  esta  su[)posição. 

A  fortaleza  do  local  justifica  de  sobra  o  procedimento  dos  vence- 
dores, que,  por  prevenção,  não  quizeram  deixar  pedra  sobre  pedra. 

Mas  não  são  só  as  moedas  que  nos  atlestam  uma  epoclia  já  adian- 
tada da  civilisação  romana.  As  imiralhas  de  pedras  soltas,  (pie  alli  ob- 
servamos, com  três  metros  de  espessura,  foram  de  certo  construidas 
para  resistir  a  possantes  maipnnas  de  guerra:  e  a  conuuunicação  en- 
tre a  parte  fortificada  e  as  margens  do  rio  Ave  fazia-se  por  uma  via 
urbana  ou  oppidana  toda  calçada,  que  indica  pelo  menos  epocha  ro- 
mana. 

As  habitações,  que  estão  todas  dentro  do  recinto  das  muralhas, 
são  pela  maior  parte  redondas,  de  peqneno  diâmetro,  edificadas  com 
pedaços  de  granito  bem  faceados  e  bem  dispostos  para  lhe  dar  re- 
gularidade e  solidez.  Algumas  têem  o  pavimento  coberto  de  pequenas 
lages ;  noutras  apenas  uma  pedra  marca  o  centro,  e  muitas  destas 
casas  estão  metlidas  num  espaço  mais  ou  menos  quadrangular  for- 
mado também  por  paredes  de  granito.  Estas  paredes  (jue  restam  apre- 
sentam a  altura  da  1  melro  a  1,50  sem  signal  de  porta  no  maior  nu- 
mero, o  que  faz  suppôr  ser  a  commnnicação  pela  parte  superior,  ser- 
vindo, talvez,  alguma  escada  portátil. 

As  habitações  são  separadas  {)or  estreitas  vielas,  em  que  duas  pes- 
soas a  par  caminham  com  (lifficuldade.  havendo  uma  com  o  dobro 
da  largura  e  que  augmenla  no  meio  formando  uma  espécie  de  íri- 
vhmí. 

A  abundância  de  granito  naquella  região  explica  o  seu  emprego 
exclusivo  nas  edificações  urbanas,  e  ainda  hoje  por  aquelles  arredores 
se  construem  casas  com  idêntico  material  e  systema. 

Determinar  a  origem  da  povoação  que  nos  legou  aquellas  ruinas  é 
querer  ir  muito  além,  quando  a  (Jas  que  existem  florescentes,  é,  na 
maior  parte,  obscura,  precisando  os  esciipiores  da  idade  u.edia,  para 
lhe  augmentar  a  prosápia,  arranjar-1'ie  um  principio  mais  ou  menos 
fabuloso  e  ás  vezes  até  ridículo. 

Verificado  que  dois  ou  ires  penedos,  que  alli  se  encontram,  toma- 
ram a  actual  posição  por  accidenles  natiiraes,  e  que  não  possuem  ca- 
racterísticos (ie  dolmens,  não  se  tpndo  achado  instrumento  algum  de 
pedra  lascada  ou  polida^  ou  quaesqiier  outros  vestígios  da  epocha  pre- 
hislorica,  parece  ao  meu  illustrado  amigo  o  sr.  Nery  Delgado,  cuja 
competência  é  reconhecida  e  justamente  considerada,  que  não  deve- 


42  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

mos  procurar  iiaquellas  minas  uma  origem  muito  remota,  opinião  com 
que  me  conformo  plenamente. 

Acceitando  mesmo  á  [)(jvoaçrio  uma  existência  anterior  ao  dominio 
romano,  não  posso  em  presença  dos  signilicalivos  vestígios  alli  en- 
contrados deixar  de  attribuir  o  seu  máximo  desenvolvimento  á  influen- 
cia civdisadora  d'esse  grande  povo  que,  caminhando  na  vanguarda  do 
progresso,  levava  com  a  vicloria  das  suas  legiões  as  sciencias,  as  ar- 
tes e  a  industria. 

A  occupação  dos  romanos,  nas  terras  que  lioje  constituem  o  con- 
tinente do  remo  porluguez,  não  foi  pacilica ;  os  povos  lutaram  contra 
o  beneficio  civilisador  que  liies  impunha  ao  mesmo  tempo  o  jugo  da 
escravidão.  A  historia  conta  as  proezas  de  Viriato  e  de  outros  que 
heroicamenie  defenderam  a  pátria,  e  é  de  crer  que  muitos  dos  usos  e 
costumes  d'aquelles  povos  indígenas  passassem  intactos  atravez  dos 
diversos  domínios  extranhos. 

O  esclarecido  explorador  das  ruínas  mandou  reconstruir  e  comple- 
tar duas  das  taes  casas  circulares,  que  estavam  situadas  no  cume  da 
montanha,  e  ahi  archivou  os  mais  interessantes  objectos  tirados  das 
escavações.  Siirprehende  a  aggiomeração  d'aquelles  confusos  vestígios 
de  gerações  que  ha  tantos  séculos  passaram,  e  para  os  estudar  re- 
quer-se  além  da  competência  scientifica  detido  exame  no  local  das 
próprias  ruínas.  Futuras  descobertas,  como  o  cemitério  da  povoação, 
que  não  dev^erá  ficar  longe,  é  que  podem  fornecer  mais  subsídios  para 
confirmar  as  hy[)otheses  estabelecidas. 

Recorrendo  á  memoria  e  aos  apontamentos  que  tomei  posso  dizer: 

A  chamada  pedra  formosa,  que  está  collocada  horizontalmente  no 
centro  de  uma  das  casas  reconstruídas,  foi  encontrada  no  fim  do  sé- 
culo XVIII  ou  principio  do  xix,  e  transportada  para  o  poço  da  011a, 
onde  se  conservou  até  ser  levada  em  1818  para  o  adro  da  egreja  de 
Santo  Kstevam  de  Briteiros,  d'onde  o  sr.  Martins  Sarmento  conseguiu 
fazel-a  conduzir  para  o  cume  da  montanha.  É  de  granito  amplibolico 
abundante  nai|uelles  sítios,  apresentando  a  forma  de  uma  mitra  com 
o  ápice  quebrado;  mede  em  altura  uns  três  metros  e  na  sua  maior 
largura  pouco  mais.  A  face  principal  é  coberta  de  lavores  toscos  mas 
regulares,  lendo  aos  lados  diias  faxas  de  ornatos,  que  a  alguém  pare- 
cei'am  letras  numeraes,  apezar  de  reproduzidos  no  lado  opposto,  como 
aconttíce  com  os  outros  desenhos. 

Na  parte  postei  ior  da  pedra  e  em  cima,  á  esquerda,  está  uma  espécie 
de  inonogramnia  que  se  não  ponde  ainda  decifrar.  Julgamos  ser  esta 
grande  pedra  um  monumento  tumular  da  epocha  romano-bysantína, 
tendo  a  posição  vertical,  servindo  o  arco  em  aberto  para  a  íntroduc- 
ção  dos  restos  mortaes,  e  os  reservatórios  e  conductos  praticados  no 
bordo  para  se  deitarem  os  líquidos  das  libações. 

Além  d'um  cíppo  que  tem  em  uma  das  faces  os  caracteres  que  se 
vêem  na  est.  viiin."  1,  existem  mais  duas  inscripções  lapidares  romã- 


E  HISTÓRICA  43 


nas,  uma  muito  apagada  que  parece  formada  por  abreviaturas  que  se 
não  tem  podido  ler,  e  a  outra  tem  escriplo : 

c  O  R  O  ^E  R  I 
C  M.I 
D  o  M  U  S  • 

A  pedra  eslá  mutilada  e  tem  por  baixo  e  ao  lado  ornamentaçno. 

0  nome  de  Cauiali  parece  pertencer  a  alguma  faunlia  iuiporlante 
da  Galicia ;  encoutra-se  em  vários  pedaços  de  cerâmica  achados  nas 
ruinas.  por  a  seguinte  forma  c  AA..  -  C  AA..  l,  em  outros  vôem-se  as 
letras  Ãc  ou  /RG  (argilla?)  e.  um  fragmento  tem  /RG  C  AA_>  (argilla 
de  Camali  ?). 

Na  supeificie  de  um  penedo  e  de  varias  pedras  acliam-se  grava- 
dos os  symbolos  e  letras  que  vão  reproduzidos  na  est.  vui  n.°*  2 — 7. 

No  logar  de  Viulió,  pi'oximo  á  villa  de  Chaves  descobriu-se  no  sé- 
culo passado  uma  lapide  designando  um  Camalus,  fdlio  de  Bruno,  e 
em  Friães,  termo  de  Montalegre,  existia  um  cippo  com  a  iuscripção  Ca- 
malus Mihois  LiiiuHs. . .  ^  Na  inscripção,  que  appareceu  em  S.  Mar- 
tinho de  Diime,  vem  mencionado  outro  Camalu  filho  de  Melgaeco  '^. 

Os  fragmentos  de  pedra  lavrada  tirados  do  entulho  pareceram-me 
indicar  epochas  distinctas;  assim  as  duas  figuras  escuipturadas,  a  que 
Contador  de  Argole  chamou  Salyros,  e  a  estatua  de  mulher  com  os 
braços  unidos  ao  corpo,  são  similhantes  na  matéria  e  no  trabalho  ás 
duas  estatuas  de  granito  existentes  no  jardim  dAjuda,  encontradas 
próximo  a  Moiílalegie,  ([ue  pela  rudeza  das  formas  teem  feito  sus- 
peitar origem  celta,  mas  confrontadas  com  outra  idêntica,  que  se  con- 
serva em  casa  da  sr.^  Cazado  em  Vianna  do  Castello,  tendo  nas  co- 
xas uma  inscripção  fiuieraria  latina,  levaram  o  sr.  Hiibner,  em  pre- 
sença de  taes  caracteres,  a  marcar-lhe  a  sua  fabrica  no  primeiro  sé- 
culo do  chrisliauismo.  Na  Galliza  tem-se  encontrado  outras  similhan- 
tes mas  sem  inscripção. 

As  pedras  lavradas  revelam  cerlo  progresso  artístico  e  são  da 
maior  impuilaiicia  para  a  historia  dos  povos  que  alli  habitaram.  Não 
se  podem  adinitlir  como  ornamentos  dos  edifícios  simples  e  acanhados 
até  hoje  descobertos,  e  inculcam  pertencer  a  algum  monumento  sum- 
ptuoso, talvez  templo. 

A  inlluencia  bysantina  nas  terras  ao  norte  de  Portugal,  durante  a 
monarchia  wisigoda  nas  llespanhas,  é  saliente  pelo  grande  numero  de 
cidades  que  alli  cunharam  moeda,  ficando  nas  terras  do  sul,  como 
excepção,  Évora. 

1  Contador  de  Argole  —  Mem.  do  arcebispado  de  Braga,  tom.  1."  til.  1.°  pag. 
294  e  tom.  2."  pag.  507. 

2  E.  liiibiier — Noticias  archeologicas  de  Portugal,  trad.  de  A.  Soromenho, 
pag.  75. 


44  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Em  cobre  e  bronze  acharam-se  varias  peças  como  —  fibnlae,  gin- 
glymi,  açus  comatoriae  ou  crinales,  pedaços  de  torques,  armillae,  bra- 
cfiiales,  iuaures,  ele. 

Appareceram  alguns  instrumentos  de  ferro,  mas  muito  deteriora- 
dos pela  oxydação. 

Encontraram-se  também  bocados  de  vidro,  e  uma  porção  de  con- 
tas de  pedra  verde  clara,  furadas  e  arredondadas  irregularmente,  que 
parecem  ter  servido  de  amuletos. 

Entre  a  immensidade  de  objectos  do  uso  domestico  e  ornamentos, 
torna-se  notável  uma  pequena  cabeça,  de  typo  egypcio,  com  a  itifida 
de  longas  faxas,  como  se  representava  a  deusa  Isis  e  usavam  as  ves- 
taes.  Os  agricultores  tinham  o  costume  de  suspender  nas  arvores  pe- 
quenas cabeças  parecidas  com  esta,  acreditando  que  o  lado  do  campo, 
para  onde  o  vento  as  tivesse  mais  tempo  voltadas,  seria  o  mais  pro- 
ductivo  em  fructos.  Na  cabeça  encontrada  na  Citania  falta  o  furo  ou 
argola  para  se  atar  o  fio- 

Em  cerâmica  achou-se  immensa  quantidade  de  bocados  que  mos- 
tram ter  sido  fabricados  na  roda  e  cozidos  ao  fogo.  Alguns  teem  or- 
natos simples  e  outros  são  de  barro  saguntino.  A  maioria  dos  frag- 
mentos pertenciam  a  vasos  pequenos  e  delgados,  mas  também  se  en- 
contram pedaços  de  amphoras  e  de  telhas,  tegulae  e  imbrices,  deno- 
tando pela  pequena  quantidade  de  cacos  d'estas  ultimas,  que  nem  to- 
das as  casas  eram  cobertas  de  telha  mas  de  colmo. 

Dispersas  pelas  minas  encontram-se  pequenas  mós  de  mão,  lages 
com  furo,  que  parecem  servir  para  rodar  o  espigão  de  porta,  e  uma 
pedra  do  comprimento  de  um  metro  e  a  forma  mais  ou  menos  cylin- 
drica,  que  se  me  figurava  supporte  de  mesa  ou  banco. 

Da  etymologia  de  Citania,  se  vem  de  Cinania,  de  Gitania  ou  de 
Sisania,  nada  posso  dizer  por  não  me  julgar  competente. 

No  cume  da  montanha,  junto  a  uma  ermida  de  S.  Romão,  de  con- 
strucção  relativamente  moderna,  encontraram-se  varias  sepulturas  á 
superfície  da  terra,  que  por  um  dinheiro  de  D.  Affonso  iii  alU  achado 
denotam  ser  posteriores  ao  reinado  d'este  monarcha. 

O  assumpto  é  vasto  e  embaraçado,  pessoa  mais  competente  deci- 
frará estes  enigmas  do  passado ;  eu  só  peço  : 

1.°  que  se  tire  a  planta  das  minas  hoje  conhecidas  por  Citania, 
para  se  continuarem  com  regularidade  as  explorações. 

2."  que  se  organise  um  mappa  designando  os  logares  com  as  rui- 
nas  da  povoação  e  marcadas  as  vias  romanas. 

Estes  dois  trabalhos  estabelecerão  um  systema  methodico  para  a 
exploração  e  estudo. 

Concluímos  prestando  sincera  homenagem  ao  sr.  Dr.  Martins  Sar- 
mento pela  muita  dedicação  e  superior  intelligencia  com  que  tem  di- 


E   HISTÓRICA  45 


rigido  a  exploração,  e  pela  explendida  maneira  como  inaugurou  em 
Portugal  as  conferencias  archeologicas,  adquirindo  jús  á   considera- 
ção puíjlica  por  Ião  relevantes  serviços  prestados  á  sciencia  e  ao  paiz. 
9  de  abril  de  1877.  i 

A.  C.  Teixeira  de  Aragão. 


OS  ESTUDOS  ARCHEOLOGICOS  EM  PORTUGAL 

Nada  mais  natural,  e  attraclivo  até,  para  os  portuguezes,  depois 
de  haverem  adquirido  o  dominio  pacifico  do  seu  bello  e  glorioso  paiz, 
que  o  dedicareni-se  ao  exame  de  tantos  vestígios  de  antiguidade,  que 
alastram  o  solo  d"esse  mesmo  paiz  a  que  ficaram  chamando  sen  pelo 
direito  de  conijuisla  a  injustos,  além  de  bárbaros,  invasores.  O  instin- 
cto  da  curiosidade  innocente  devia  leval-os  a  recompor  a  historia  e  geo- 
graphia  da  Lusitânia,  de  que  Portugal  ficava  sendo  representante  nato  : 
devia  estimulal-os  fortemente  a  emprehender  esse  estudo,  porque 
era  também  honra  sua  crear  uma  historia  antiga  e  nobilitante  do  seu 
torrão,  fazendo-a  remontar  até  os  Phenicios. . .  ;  e  para  isso  não  po- 
dia jamais  omitlir-se  a  investigação  dos  monumentos  derrocados,  es- 
tatuas mutiladas,  columnas  partidas,  capiteis  desfeitos,  estradas  aban- 
donadas ou  gastas,  moedas  soterradas,  etc. 

Mas  a  cultura  intellectual  dos  portuguezes,  mais  aífeilos  então  a 
manejar  as  armas  do  que  a  lidar  com  as  letras,  estava  mui  longe  de 
prestar  o  devido  apreço  aos  3studos  archeologicos.  Pode-se  dizer 
com  verdade  que  antes  do  eborense  xVndré  de  Rezende  ninguém  fez 
caso  do  estudo  de  nossas  antigualhas,  salvo  com  o  fim  de  lhes  apro- 
veitar os  materiaes  para  construcções  novas. 

Foi  com  eíTeito  no  meio  do  século  xvi  que  em  Portugal  se  encetou 
o  estudo  da  archeologia,  percorrendo  o  mencionado  Rezende  o  nosso 
paiz  para  resenhar  vestigios,  tirar  copias  de  inscripções,  recolher  la- 
pides e  moedas,  e  confrontar  depois  esses  vestígios  com  as  geogra- 
phiaS;,  historias  e  itenerarios  romanos:  donde  resultou  a  sua  obra  — 
De  antlquitatibus  Lusitaniae  em  quatro  livros. 

Fez  muito  Rezende  num  paiz,  em  que  nada  se  linha  ainda  escri- 
pto  sobre  a  matéria  subjeita ;  mas  a  sua  obra  não  podia  deixar  de  ficar 
imperfeita,  como  obra  de  ensaio,  que  não  tinha  precedentes  a  dar-lhe 
auxilio. 

Fr.  Bernardo  de  Brito  na  Mnnarchia  Lusitana,  o  cónego  d'Evo- 
ra  Gaspar  Barreiros  na  Corographia  d' alguns  lagares,  e  poucos  mais 
se  deixaram  então  abalar  da  iniciativa  de  Rezende;  mas  eis  que  adeca- 

1  Foi  nesta  data  escripto  o  artigo  do  distincto  numismata,  mas  é  pela  primeira 
vez  hoje  publicado.  Não  era  escusada  esta  advertência,  por  só  se  inserirem  artigos 
inéditos  n«  IUvista  Archeologica  e  Histórica  —  N.  da  R. 


46  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

dencia  das  leiras,  que  não  podia  deixar  de  se  derivar  do  perdimento 
da  nossa  autonomia  politica,  paralysa  aquelles  primeiros  impulsos 
dados  ao  movimento  dos  espíritos  para  se  estudarem  na  arclieologia  os 
nossos  antigos  tempos.  Só  depois  de  restaurada  a  monarcliia  portu- 
gueza  e  já  bem  consolidada  no  tempo  d'el-rei  D.  João  v,  resurgiram 
os  estudos  históricos  e  arclieologicos,  então  protegidos  pelos  poderes 
públicos.  Este  rei  inslitue  a  Academia  Real  da  Historia  Portugueza, 
para  ajudar  a  qual  promulga  a  lei  de  28  d'agosto  de  '17!21,  em  que 
estatúe  o  seguinte : 

«Hei  por  bem  que  daqui  em  diante  nenhuma  pessoa  de  qualquer 
estado,  qualidade  e  condição  que  seja,  desfaça  ou  destrua  em  todo, 
nem  em  parte,  quahpier  edifício  que  mostre  sor  d'aquelle  tempo  (dos 
phenicios,  gregos.  ronuDios,  etc.)  ainda  que  em  parte  esteja  arruinado, 
e  da  mesma  sorte  as  estatuas,  mármores  e  cippos,  em  (|ue  estiveram 
insculpidas  figuras,  ou  tiverem  letreiros  Phenicios,  Gregos,  Romanos, 
Gothicos  e  Arábicos,  ou  laminas,  ou  chapas  de  qualquer  metal  que 
contiverem  os  dictos  letreiros  ou  caracteres;  como  outro  sim  medalhas 
ou  moedas,  que  mostrarem  ser  d'aquelles  tempos,  nem  dos  inferiores 
até  o  reinado  do  Senhor  Rei  D.  Sebastião;  nem  encubram  ou  occultem 
alguma  das  sobredlctas  cousas;  e  encarrego  as  Gamaras  das  Cidades 
e  Villas  d'este  Reino  tenham,  muito  particular  cuidado  em  conservar 
e  guardar  todas  as  antiguidades  sobredictas  e  de  similhante  qualidade 
que  houver  ao  presente  ou  ao  deante  se  descobrirem;  e  logo  que  se 
achar  ou  descobrir  alguma  de  novo,  darão  conta  ao  Secretario  da  dieta 
Academia  Real  para  eíle  a  communicar  ao  Director  e  Censores  e  mais 
Académicos,  etc.)» 

Esta  lei  (posto  que  em  vigor  ainda  hoje,  segundo  creio)  não  tem 
sido  observada  pelas  Gamaras  e  pessoas  particulares ;  se  o  fora,  de 
certo  que  a  historia  do  nosso  paiz  nos  tempos  da  civilisação  romana 
estaria  muito  melhorada:  é  comtudo  irrecusável  o  louvor  ao  rei  que 
a  sanccionoU;,  porque  mostrou  os  seus  bons  desejos  nesta  matéria  por 
palavras  e  por  obras. 

Gomquanto  porém  se  finasse  muito  joven  a  Academia  fícal  da  His- 
toria Porlugneza.  è  fora  de  duvida  que  ella  resurgiu  melhorada  na 
Academia  íieal  das  Sciencias  em  tempo  da  Rainha  D.  Maiia  I,  e  que 
esta  corporação  tem  feito  muito,  ainda  que  muito  lhe  resta  a  fazer,  na 
matéria  em  questão.  As  suas  Memorias  são  um  grande  repositório  de 
estudos  archeologios  e  teem  estimulado  os  extranhos  áquelle  vene- 
rando grémio  scientifico  e  litterario  —  a  emprehender  similhanles  es- 
tudos. 

É  verdade  que  muitos  olham  ainda  hoje  com  desdém  para  as  an- 
tignalhas  e  para  quem  faz  caso  delias ;  mas  outros,  melhor  avisados, 
lhes  dão  o  devido  apreço,  considerando  que  são  —  monumentos  indis- 


E    HISTÓRICA  47 


pensáveis  parn  se  poder  escrever  coíii  segiirançn  a  historia  da  nossa 
antiga  civilisaçiio.  Historia  sem  inonmnenlos  é  como  contahilidade  sem 
documentos.  Itegistrem-se  pois  aquelles;  sejam  analysados  e  devi- 
damente apreciados  á  Inz  de  uma  critica  racional;  e  com  isso  adean- 
taremos  o  conhecimento  da  primeira  colonisação  do  nosso  paiz. 

Para  esta  empreza  minto  relevava  o  apparecimento  de  uma  revis- 
ta SNÍ  ijenrris,  o  (]ue  somente  agoia  tem  logar:  é  a  fíi'risl(i  Arr/icolof/ica 
e  Uhiorka.  Mais  vale  tarde  do  (jne  nnnca.  Ella,  como  empreza  aces- 
sível a  todos  os  escriptores  doutos,  facilitará  a  puhlicação  de  trabalhos 
novos,  como  os  que  em  nossos  dias  publicou  o  malogrado  dr.  Augus- 
to Filippe  Simões,  como  tem  p(il)licadoo  auclor  dos  Esimlos  históricos  e 
arclipolofficos  de  I*ortngal,  o  sr.  Ignacio  de  Vilhena  Barbosa,  e  outros 
eruditos  contemporâneos. 

Os  srs.  Párochos  poderiam,  se  quizessem.  cooperar  muito  nesta 
obra,  resenhendo  cada  um  os  monumentos  antigos  das  localidades  em 
que  vivem,  e  assim  poderia  fazer-se  uma  idéa  exacta  do  (]ue  já  exis- 
tiu de  notável  entre  nós  e  ainda   existe  digno  de  contemplar-se. 

Saúdo  pois  com  prazer  esta  publicação,  desejando  muito  que  ella 
viva  e  prospere  progressivamente,  sendo  archivo  de  quantas  antiguidades 
se  descubram  neste  reino,  e  dando  cabimento  ás  descobertas  realisadas 
no  estrangeiro,  que  por  ahi  costumam  jazer  confundidas  nos  jornaes 
diários,  que  se  occupam  de  mil  cousas. 

Bencatel,  23  de  janeiro  de  1887. 

P."  Joaquim  J.  da  R.  Espanca. 


EPIGRAPHIA 

Devo  á  obsequiosidade  do  sr.  Estacio  da  Veiga  o  poder  inserir  aqui 
uma  inscripção  mutilada  sim  mas  simimamente  importante.  O  distiii- 
cto  archeologo  levou  a  sua  amabilidade  até  procurar-me  para  me  dar 
conhecimento  delia,  mostrando-me  um  calco  que  obteve,  destinado  ao 
nosso  communi  amigo  dr.  HiJbner. 

A  lapide  calcarea,  que  conttMU  a  inscripção,  existe  em  Faro,  no  Lar- 
go da  Sé,  a  uns  três  metros  do  chão,  servindo  de  cunhal  no  angulo 
nordeste  ao  fundo  externo  da  capella  do  Santíssimo,  onde  o  sr.  Veiga 
a  descobriu  em  1883.  Altura  0,"';}8,  largura  0,"'48.  As  lettras  muito 
imperfeitas  e  pouco  profundas  parecem  da  decadência. 

AVGG/////    .'////// 

AVR    •    VRSINVS  •    VPP.- 

PROVINC    LVSITANIf 

Nesta  inscripção.  provavelmente  honorifica,  parece  ver-se  na  primeira 


48  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

linha  vesligio  dum  segundo  G,  que  me  traz  á  ideia  a  formula pro ma- 
gnifu-enda  savculi  dd.  nu.  Aiigg.  e  similliautes ;  pelo  calco  não  pude 
Verificar  se  o  resto  da  primeira  linha  loi  ou  não  martellado;  mas  pare- 
ceu-me  ver  vestigios  duma  lellra  (a  parte  inferior  dumvou  d'umN). 
Na  segunda  linhali  dislinclamente  A  V  R  •  VRSINVS  •  v  p  p  •  Não 
notei  signal  de  lellra  antes  de  Aiir. ;  e,  comquanto  o  calco  o  não  ac- 
ciise  com  [)erfeição,  creio  que  depois  do  segundo  p  estaria  um  ponto 
ou  um  <i>,  porém  não  lellra  alguma.  Na  terceira  linha  perfeitamente  se 
lè  Pivvinc{iae)  Lusilcude.  A  ullima  leltia  mais  pequena  occupa  aparte 
superior  da  linha ;  e  por  baixo  delia  notei  um  traço  que  pode  ser  ou 
a  primeira  haste  d'um  A,  ou  parte  dum  ponto  triangular.  No  primei- 
ro caso,  estaria  a  palavra  escripta  com  o  diphtongo  ae,  que  o  lapi- 
cida  dis[)Ozera  verlicalmente  por  falta  de  espaço;  no  segundo,  teria 
empregado  o  simples  e=ae,  o  que  é  frequentissimo.  Inclino-me  ao 
primeiro  caso. 

Curiosa  e  importante  pela  menção  da  província  da  Lusitânia,  é-o 
lambem  pelo  nome  do  dedicador. 

O  nome  de  Ursino  só  se  encontra  na  península  (vol.  ii  do  C.  1.  L.) 
numa  inscripção  de  Ba  reino,  Sul.  Ursifw  (n.°  4587);  e  p  feminino  cor- 
respondente numa  de  Liria,  Lie.  Ursimi  (n.°  3805).  É  menos  raro  o 
nomeUrsiano.  Em  uma  inscripção  de  Itálica  appareceum  Aurélio  Ursiano 
n{iro)  eÇgrcgio)  (n.°  1 1 15);  e  em  duas  de  Emérita  um  C.  Júlio  Ursiano 
(n.°  54o)  e  um  L.  Mar.  Ursiano  (n.°  578).  Pode  succeder  que  o  nome 
da  inscripção  de  Faro  fosse  Ursiono,  estando  conjunclo  o  A  com  o  N. 
As  leltras  v  P  P  que  terminam  a  segunda  linha  creio  deverem  ser 
interpretadas  formando  sentido  com  as  palavras  da  ultima  linha ;  vindo 
pois  a  ser  esta  a  leitura :  Aur{dius)  Ursitms  ou  Ursiamis  v{ir)  ^{erfe- 
clissimus)  piraeses)  prorinc{iae)  LusHmii[a]e.  Esta  formula  assigna  á 
inscripção  uma  epoclia  posterior  a  Constantino  Magno  (Cf.  C.  L  L. 
vol  n,  "n.°'  4104  —  4108).  Uma  inscripção  de  Emérita  (n."  481)  do  anuo 

de  315  contém  a  menção  G-  svLPicivs   s-  vpppl  cJp; 

outra  de  Tarragona  (n.°  4104)  do  anno  de  288  a  289  diz: 

POSTVM-LVPERCVS-V-PERF 
PRAES-    PROV    •    HISP    •    CIT 
etc. 

Espero  opportunamente  dizer  alguma  coisa  mais  acerca  d'este  mo- 
numento infelizmente  incompleto. 

Borges  de  Figueuíedo. 


E    HISTÓRICA  49 


LA  GEOGRAFÍA  ÁKABE  DE  PORTUGAL 

Sin  menospreciíir  los  trabajos  de  D.  José  António  Conde,  que  no 
luvo  á  su  alcance  mas  que  la  edición  dei  compendio  dei  Edrisi,  ni 
siquiera  la  traducción  de  la  obra  completa  de  este  geógrafo,  lleva- 
da  á  cabo  por  el  Gaballero  Jaubert,  es  lo  cierto  que  la  geografia  ára- 
be de  nneslra  península  no  se  ha  podido  esludiar  de  una  manera  for- 
mal hasta  que  el  inolvidable  Dozy  publico  en  180G  su  Descripiioíi  de 
VAfrique  et  de  VEspagm,  con  el  texto  original  y  la  traducción  copio- 
samente anotada.  No  es  esta  la  única  obra  que  se  conoce,  y  aiin  que 
se  ha  impreso,  de  geografia  árabe,  pêro  es  sin  disputa  la  mas  com- 
pleta y  mcjor  redaclada,  y  debe  ser  por  eso  el  principio  y  funda- 
mento de  lodo  trabajo  crítico  que  dirija  a  ilustrar  en  este  sentido  la 
historia  de  Espana  y  de  Portugal.  Por  eso  la  tomamos  como  punto 
de  partida  de  los  estúdios  de  geografia  árabe,  que  como  ensayo  so- 
metemos  ai  mas  ilustrado  juicio  de  los  eruditos  portugueses. 

Según  el  sistema  geográfico  dei  Edrisi,  el  território  de  la  actual 
nación  portuguesa  queda  dividido  en  dos  de  los  grandes  climas  geo- 
gráficos, el  cuarto  y  el  quinto,  separados  proximamente  por  las  aguas 
dei  Mondego.  Solo  lo  perteneciente  ai  clima  cuarto  abraza  la  publica- 
ción  de  Dozy,  y  esa  extensión  se  reparte  en  três  distritos  ó  climas 
provinciales. 

El  mas  meridional  abraza  todo  el  Algarbe,  con  la  parte  Sur  dei 
Alentejo,  y  coincide  con  el  término  de  Beja  dei  moro  Rasis,  dividido 
por  Yacut  en  los  dos  de  Beja  y  Osonoba.  Dozy  lee,  aunqne  con  duda, 
el  nombre  de  esta  província  Alfacr  {f^^ ),  que  significa ;>oíy;Tia,  pêro 
Conde  y  Jaubert  enlienden  y  escriben  Alfúgar  (y^^ )  6  sea  las  Des- 
embocaduras,  y  cuadra  bien  con  la  situación  entre  las  bocas  dei  Gua- 
diana y  la  dei  Sado  en  la  ria  de  Setúbal.  Edrisi  menciona  de  este  cli- 
ma las  ciudades  de  Mértola  ( i-^jl-^ ),  Silves  ( '--Át, ),  Cacella  ( i-lí=^  ), 
Tavira  ( '^j^}.  Santa  Maria  de  Algarbe  (  vi;*^'  hj^  c,-^  )  que  es 
Faro,  y  Sagres  ( (J^y^  )•  Cita  también  el  Cabo  dei  Oeste,  ó  de  S. 
Vicente  {^j^^  òj^)  ^^"^  ^^  famosa  Iglesia  dei  Cuervo  ( J^--r^ 
>^'^^^i-^^ ),  donde  persevero  el  culto  Cristiano  durante  todo  el  tiempo  de 
la  dominación  muslimica. 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N."  4  —  Abril  1887.  4 


30  EEVISTA   ARCHEOLOGICA 

El  puerlo  que  se  denomina  Garganta  dei  Bincôn  ( '^_J^^  v^aU. ), 
a  20  millas  de  Silves  y  18  de  Sagres,  es  sin  diida  la  ria  de  Lagos,  y 
creo  que  si  se  lee  Asinesin  el  território 'que  Dozy  llama  de  ach-Chin- 
chin  (  ijr^^^  ),  donde  se  haliaba  Silves,  no  cabra  duda  de  que  debe 
interprelarse  como  Tierra  de  los  de  Sines  (mejor  dicho  ^^;^--iu;iJ i  ), 
descendientes  de  los  antiguos  Cynesios. 

Al  Norte  y  por  la  parle  interior  corria  el  clima  dei  Alcázar,  que 
ocupaba  gran  parle  dei  Alentejo,  y  algo  de  la  Beira  y  la  Extremadu- 
ra.  En  ese  clima,  que  corresponde  ai  distrito  de  Badajoz  de  Yacut  y 
à  los  de  Badajoz  y  Exilania  de  Uasis,  tenia  Portugal  las  cindades  de 
Évora  ( 2j^L)  ó  '^jj^,  ),  Yelves  (  ^iX  )  y  el  Alcázar  de  Abu  Déniz 
(^'b  ^1  j^  )  que  es  Alcácer  do  Sal.  Si  el  autor  no  se  ha  equi- 
vocado ai  colocar  entre  Alcântara  y  Saptarén,  sobre  el  rio  Tajo,  los 
Puentecillos  de  Mahmud  (  ^j^  ^J^  ),  parece  que  este  punto  deberia 
corresponder  á  Abrantes,  único  donde  desde  liempo  inmemorial  se  sa- 
be que  haya  habido  puenle.  Mas  si  se  considera  que  la  palabra  cân- 
tara significa  también  para  nuestro  geógrafo  (pag.  166  dei  texto  ára- 
be) murallòn  ó  arrecife,  podrá  mas  bien  imaginarse  que  se  habla  dei 
embarcadero  de  Villa  velha  de  Ródão,  en  el  camino  de  Niza  á  Cas- 
tello  Branco. 

Vallada,  en  el  Uano  de  Azambuja,  daba  nombre  á  otro  clima 
(  iljbU! )  que  coincidia  con  los  términos  de  Lisboa  y  Santarén  de  Ra- 
sis.  Además  de  Lisboa  (  '^j^^  )  y  Santarén  ( ^ji,/^  )  ya  dichas, 
Edrisi  menciona  en  esta  comarca  á  Cintra  ( »y^  )  y  Almada  ( ^j'^=^ 
jj*i!  )  é  indirectamente  à  Setúbal  ai  hablar  de  su  rio  (jiJ^  j^  )• 

Los  orientalistas  portugueses  que  quieran  profundizar  la  parte 
correspondiente  ai  quinto  clima  geográfico  pueden  consultar  el  texto 
árabe  que  en  1865  publique  en  el  Bolelin  de  la  Sociedad  Geográfica 
de  Madrid  (T.  18,  p.  229).  Alli  veràn  que  el  território  português  cora- 
prendido  en  este  clima  se  divide  en  otras  três  porciones.  La  primera 
va  desde  el  Mondego  (  ^^-^-^  )  ai  Vouga,  que  denomma  rio  de  Botão 
(y^ji  ),  confundiendo  la  corriente  principal  con  la  de  su  afluente  el 
Sertoma,  cosa  no  poço  frecuenle  en  autores  antiguos;  y  es  de  notar 
además  que  Edrisi  tiene  por  sistema  titular  los  rios  dei  N.  de  Espana 


E   HISTÓRICA  51 


por  alguna  localidad  de  su  nacimiento.  Nombra  por  aqui  la  ciudad  de 
Coimbra  (  ^j^  )  y  el  caslillo  de  Montemor  o  velho  (jj^  w>^  ).  El 
teri  ilorio  entro  el  Vouga  y  el  Duero  (  »;Jj->  )  es  para  el  autor  propia- 
mente  ia  lierra  de  Portugal  (  J^'^.-»  j^j^ )  y  en  ella  debe  caer  el  des- 
conocido  (jLx^  ),  que  se  ha  querido  ideutificar  a  Yiseo,  alterando  sin 
fundamento  los  puntos  diacriticos,  y  que  en  mi  sentir  ha  de  ser  No- 
jões,  antes  Nojães,  aldea  de  la  feligresia  de  Real,  concejo  de  Castello 
de  Paiva,  junto  ai  Duero,  donde  hay  muchos  vestígios  antiguos. 

Por  ultimo  viene  el  espacio  entre  el  Duero  y  el  Mino  (y^* ),  en 
cuya  corriente  hay  una  islã  con  su  castillo,  que  aunque  se  escribe 
Í9^^'  ,  creo  que  por  las  razones  que  muy  pronto  expondré  debe 
leerse  l'i^j^\  ,  y  es  la  Boega,  todo  ello  considerado  enlonces  como 
parte  de  Gahcia. 

Lo  mas  oscuro  de  la  geografia  árabe  portuguesa  es  el  itinerário 
de  Coimbra  à  Santiago  de  Compostela.  Para  entenderlo  creo  preciso 
suponer  que  Edrisi  va  desde  Coimbra  à  buscar  un  camino  muy  fre- 
cuentado,  el  cual  desde  Lisboa  se  dirigia  à  Santiago  por  Viseo  y  Bra- 
ga, y  entonces  hallo  el  primer  descanso  ( -vM  ^n  Avo,  à  45  quilóme- 
tros ai  N.  E.  de  Coimbra.  La  otra  jornada  ( »^j  ó  s^j  )  la  en- 
cuentro  en  San  Miguel  de  Outeiro,  à  10  quilómetros  ai  0.  de  Viseo, 
en  el  camino  de  S.  Pedro  do  Sul.  Otra  jornada  mas  se  pone  hasta 
empezar  la  tierra  propia  de  Portugal,  cuyo  âmbito  da  otro  dia  de  via- 
je, ai  cabo  dei  cual  se  pasa  en  barcas  el  Duero  frente  à  una  aldea 
( jli  xjjj  hjs  )  que  reduzco  à  Vdiaboa  de  Quires,  a!  E.  de  Penafiel. 
Después  dice  el  texto  que  se  echan  dos  jornadas  hasta  el  castillo  de 
i^ljjí  en  el  Mino  y  otras  dos  desde  alli  à  Tuy.  Como  esto  es  ab- 
surdo, creo  que  hay  aqui  una  equivocación  procedente  de  la  erudición 
clásica  dei  autor.  El  caslillo  de  '^^^y^^  es  el  de  Braga,  situado  efe- 
ctivamente à  igual  distancia  entre  Tuy  y  el  Duero;  pêro  Edrisi  vió 
que  Tolomeo  da  Ia  misma  latilud  à  Braga  que  à  la  boca  dei  Mino,  y 
como  sabia  la  existência  de  la  islã  Boega  (  ^l^J^  ),  facilmente  creyó 
tener  aqui  una  errata,  y  escribiendo  j  por  j  hizo  una  sola  cosa  de  la 
isla  y  de  la  ciudad. 

Esto  es  todo  lo  que  dei  famoso  geógrafo  árabe  se  puede  sacar  res- 


52  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

pecto  à  lo  que  hoy  comprende  Ia  nación  portuguesa,  y  ai  darlo  ai  pú- 
blico en  este  ilustrado  periódico  me  propongo  solamente  iniciar  entre 
los  doctos  de  ese  pais  una  discusión  crítica  que  ilustre  tan  importante 
asunto. 

Madrid  28  de  febrero  de  1887. 

Eduardo  Saavedra. 

ARA  ROMANA  DESCOBERTA  EM  CASTRO  DAIRE 

Entre  os  mais  interessantes  objectos  que  possue  o  Museu  do  Car- 
mo, de  Lisboa,  tem  um  dos  primeiros  logares  uma  ara  portátil  roma- 
na, descoberta  em  1877,  quando  se  procedia  a  escavações  para  as- 
sentamento dos  alicerces  d  uma  ponte  sobre  o  rio  Pavia,  em  Castro 
Daire. 

Esta  pequena  ara,  que  mede  de  altura  0'",30^  de  largura  O™, 12,  e 
de  espessura  0"\10,  tem  apenas  duas  faces  despidas  de  gravuras:  são 
a  posterior  e  inferior. 

Na  parte  superior  tem  o  focus,  ou  cavidade  onde  se  queimavam  os 
perfumes  e  se  faziam  as  libações;  mas  não  tem  o  conducto  por  onde 
se  escoavam  os  líquidos.  Na  face  esquerda  tem  gravadas,  dispostas 
verticalmente  em  duas  linhas,  as  lettras 

A 
pR 

ae 

T 

com.o  melhor  se  pôde  vêr  na  estampa  ix.  Na  face  direita  distingue-se 
uma  figura  de  homem,  de  lança  em  punho,  fazendo  lembrar  esses  sol- 
dados que  se  vêem  nos  pequenos  bronzes  do  baixo  império  com  a 
inscripção  GLORIA  EXERClTVS;na  base  da  ara.  doeste  mes- 
mo lado,  parece  ter  havido  ornamentação  hoje  indistincta.  Na  face  prin- 
cipal, apparece  a  meia  altura  do  monumento,  e  em  grosseiro  relevo, 
um  quadrúpede  cuja  forma  mal  definida  deixa  incerteza  sobre  se  hou- 
ve intenção  de  representar  os  caracteres  distinclivos  da  masculinidade 
ou  os  da  maternidade;  parece  todavia  ter  maior  grau  de  probabilida- 
de o  primeiro  caso.  Por  cima  d'esta  figura,  em  gravura  como  tudo  o 
mais,  lè-se  v  O  T  v,  e  por  baixo  a  R  o  L ;  finalmente  na  base  do  mo- 
numento e  ainda  na  face  anterior  ha  as  lettras  a  S  . 

A  forma  e  proporções  da  ara  são  elegantes,  sem  sairem  da  vul- 
garidade. Nola-se,  porém,  no  monumento  uma  grande  rudeza,  assim 
na  esciilptura  como  no  traçado  das  lettras,  que  são  pouco  profundas; 
nota-se  além  d'isso  alguma  incúria  na  symetria. 


E   HISTÓRICA 


O  quadrúpede  não  está  bem  dislincto  (e  parece  nunca  ter  sido  bera 
definido)  para  que  se  possa  aííirmar  sem  ponderações  a  sua  espécie ; 
todavia  concorrem  nelle  traços  caracteristicos,  que  mais  o  approximam 
do  poi'CO  ou  do  javali,  do  que  doutro  qualquer  animal.  O  conjunclo 
da  figura,  a  configuração  da  cabeça  e  cauda,  parece-me  que  excluem 
toda  a  dúvida. 

Por  duas  vezes  appareceu  já  em  publicações  porluguezas  o  dese- 
nho d'esta  ara,  acompanhado  de  interpretações  de  suas  figuras  e  in- 
scripções:  primeiramente  no  Boletim  da  Associação  dos  Arc/iiíeclos  Ci- 
vis e  Arc/icol.of/os  Porlugwzcs  (série  2.*,  t.  iii,  n.°  4);  em  segundo  lo- 
gar  no  periodico.de  Vizeu  O  Liberal  (n.°  2;j,  de  3  de  outubro  de  1885). 
Ambos  os  desenhos  estão  imperfeitos;  porque  não  conservam  ao  mo- 
numento as  proporções  devidas,  e  dão  incorrectamente  as  figuras  e 
as  inscripções. 

O  auctor  do  artigo  do  Boletim  reproduz  as  seguintes  leituras  de 
dois  individuos: 

1.*— VoT(um)  U(ovit)  Ard...  a  s(e)  apr(o)  AT(tacto). —  Fez  este 
voto  Ardil . . .  por  ter  alcançado  (morto)  um  javali. 

2.^ —  APR(i)  A(nnuo)  T(empore)  voTu(m)  ARD(enti)  A(nimo)  s(olulem). 
—  Voto  de  um  javali  no  tempo  de  um  anno,  cumprido  com  animo  ar- 
dente. 

Estas  interpretações  que  não  resistem  á  critica,  comquanto  seja 
admissível  haver  na  inscripção  lateral  allusão  ao  javali,  foram  feitas 
na  supposição  de  que  na  mesma  inscripção  não  havia  a  leltra  e  (que, 
apezar  de  bem  visível,  ninguém  leu  antes  de  mim,  que  eu  saiba),  e  de 
que  a  segunda  palavra  da  face  principal  era  ARD... 

O  artigo  do  Liberal  reproduz  as  mesmas  incorrecções,  ficando  as- 
sim prejudicadas  as  diversas  leituras  que  propõe  (quanto  á  face  ante- 
rior: Voto  Ardiae  Junonis  (sic).  Voto  à  cidade  de  Ardea,  etc;  e  quanto 
à  face  lateral:  A.{ram)  p  R{opriam)  A  T{que). . .,  etc.) 

Feita  a  descripção  do  monumento  e  apontadas  as  interpretações 
que  tèem  dado  aos  lettreiros — ^  interpretações  inacceitaveis  perante  as 
regras  da  epigrapliia, —  passo  a  apresentar  algumas  considerações  que 
me  suggere  o  atlento  exame  da  ara. 

O  porco  era  sacrificado  pelos  povos  aryanos,  que  o  consideravam 
como  symbolo  da  fecundidade.  Este  animal  apparece  frequentemente 
mencionado  entre  as  victimas  consagradas  ás  divindades,  principal- 
mente ás  consideradas  como  tutelares  da  maternidade,  dos  animaes  e 
da  fecundidade  d'estes.  É  bem  conhecido  o  sacrificio  romano  de  pu- 
rificação, designado  pelo  nome  de  suovctaurilia,  em  que  eram  immo- 
lados  um  porco,  um  carneiro  e  um  toiro.  Abundam  nos  escriptores 
gregos  e  latinos  as  menções  do  sacrificio  do  porco.  Na  Iliada,  d'entre 


54  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

outras  passagens,  citarei  o  sacrifício  d'ura  javali  em  honra  de  Júpiter 
e  de  Apollo  (//.  xix.   197): 

KcCTUpOV Tap.SctV    Au   t"   'Hs)dr>)   T£. 

Na  Odtjsséa  fala-se  da  immoiação  d'nma  porca  gorda  de  cinco  an- 
nos  {0(h/s.  XIV,  419): 

Ot  õ'  vv  eii-nyov  (xylx  77Íwva  Tcevraé-criçov. 

A  Maia  sacrificava-se  uma  porca  prenhe,  como  refere  Macrobio: 
«Sus  praegnans  mactabatur  Maiae»  {Sat.  i).  Aos  Lares  menciona  Ho- 
rácio um  sacrifício,  em  que  apparece  o  incenso,  os  fructos  e  a  porca 
{Carm.  ni,  24): 

Nascente  luna,  riistica  Philide, 
Si  ttmre  placaris,  et  liorna 
Fruge  Lares,  avidaqae  porca .  . . 

O  mesmo  poeta,  na  ode  23  do  mesmo  Mvro,  allnde  ao  sacrifício  do 
varrasco;  e  noutra  parte  aponta  o  sacrifício  do  porco  feito  á  Terra, 
com  a  ideia  da  fecundidade  {Epist.  ii,  1): 

Tellurem  porco,  sylvarem  lacte  piabant. 

Ovidio,  que  nos  diz  muito  acerca  das  victimas  consagradas  aos 
deuses,  nas  Metamorphoses  (I.  xv),  fala  noutra  obra  da  immoiação  da 
porca  a  Ceres  {Fast.  i) : 

Prima  Ceres  gravidae  gavisa  est  sanguine  porcae, 
Ulta  suas  inerita  caede  nocentis  opes. 

Phornuto  (Annaeus  Cornutus),  no  commentario  de  natura  deortim, 
é  explicito  nas  razões  d'esta  ultima  consagração  (^/í?  CcrenO:  (^ycuai  <5'uç 
èyy.-jlj.cvxz  A-/iu.-/,Tcpt,  tz/xw  ctx.stMç.  xò  TroÀúycvov /.at  éjaú//,-/)rTCV  xat  TcXsatpspov 
T:cc^iG-y.v-:z;:  «Immolam  muito  convenientemente  a  Ceres  porcas  pre- 
nhes, por  causa  da  fertilidade  da  terra,  fácil  producção,  e  complecta 
madureza». 

A  porca,  no  dizer  de  Varrão  e  de  A.  Gellio,  era  \'\cl\mt\  prapcida- 
nea,  isto  é,  a  que  se  sacrificava  primeiro  que  as  outras,  ou  a  (|ue,  an- 
tes da  colheita  dos  fructos  devia  iinmolar  quem  não  tinha  prestado  to- 
das as  honras  fúnebres  a  alguém  da  sua  fainilia;  diz  Gellio  (Noct.  Alt., 
ív,  6):  «Porca  etiam  praecidanea  appellata,  quam  piaculi  gratia,  ante 
fruges  novas  captas  immolari  Cereri  mos  fuil,  si  qui  familiam  funes- 
tam aut  non  purgaverant,  aut  aliter  eam  rem,  quam  oportuerat,  pro- 
curaverant». 

Deixando  de  produzir  mais  citações  litterarias,  por  não  cançar  o 


E    HISTÓRICA  35 


leitor,  passo  aos  monumentos  epigraphicos  em  qne  se  faz  menção  do 
sacníicio  do  porco,  os  qnnns  ahiiiidain  em  quasi  lodos  os  volumes  do 
Corpus  Inscripiionum  Lalinanim.  Mas,  para  não  alongar  este  artigo, 
adduzirei  aqui  unicamente  os  que  se  encontram  no  vol.  ii,  relativo  á 
península,  e  que  são  os  seguintes: 

Numa  inscnpção  (C.  /.  L.,  ii.   n."  3820),  é  a  porca  consagrada  á 
deusa  tutelar  da  gravidez  e  do  parto: 

DIANA  E  MÁXIMA  E 
VACCAM  OVEM  ALBAM  PORCAM 


Noutra  descoberta  em  Oh)ilcn  (Porcnna)  é  mencionado  o  sacrifício 
d'um  javali  e  de  trinta  porcos  ao  génio  do  município  {C.  1.  L.,  ii, 
n.°  2120): 

c •  cornelivs  •  g  •  f 
c  •  n  ■  gal  •  gaeso  •  aed 
flamen-  iivir-  mv 
nigipípontifigI 
5     g • gornel- g aes0 

F    •    SÁGERDOS 

genímvnigipI 
scrofam  •  gvm 

P  O  R  G  í  S    •   T  R  I  G  l  N 
IO    T  A  •  I  M  P  E  N  S  A  •   P  S  O 
R  V  M  ci)  D  •   D 
PONTIFEX 


«O  nome  moderno  de  Porcnna  (pondera  judiciosamente  o  meu 
amigo  Adolpho  Coelho)  parece  relacionar-se  com  um  culto  em  que  o 
porco  tinha  muita  importância,  ou  memorar  uma  industria  local,  se 
não  se  prefere  considerai  o  como  uma  alteração  de  Obokona,  Bolcona, 
devida  a  uma  falsa  analoi-ía».  ' 

Note-se  mais  com  respeito  particularmente  ao  javali  que  elle  foi  o 
emblema  da  nacionalidade  gaiileza,  durante  todo  o  período  chamado 
drnídico;  collocavam-no  no  alto  das  signas  militares.  O  mesmo  suc- 
cedia  entre  os  Germanos,  os  Illyríos  e  os  Celtiberos  ^. 

1  Ad.  Coelho,  Sur  les  cultes  ■péninsulaires  antérieurs  à  la  dominaíion  romaine 
no  Compte-rendu  de  la  9."  sess.  dn,  Coiigr.  intern.  d'anthr.  et  d'arch.  préhist.  en 
1880. 

2  Vid.  Delgado,  Monedas  autónomas  de  Espana. 


56  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Entre  as  tradições  populares  muitas  ha  relativas  ao  porco  *,  as  quaes 
demonstram  a  sua  importância  cultual  em  outras  épocas  de  que  nos 
restam  documentos  preciosos;  em  Sabroso  encontraram-se  estatuas  de 
porcos,  como  em  Segóvia  e  noutras  partes  da  península.  Em  Murça, 
no  adro  duma  egreja  existe  uma  estatua  de  anmial  suino,  que  é  bem 
conhecida  pelo  nome  de  Porca  de  Murça.  Em  Bragança,  a  base  do  pe- 
lourinho é  também  uma  estatua  de  porco,  de  dois  metros  de  compri- 
mento e  sessenta  e  cinco  centímetros  de  largura  ao  meio  do  corpo. 
Ainda  ha  poucos  dias  tive  occasião  de  examinar  esta  ultima,  notando- 
Ihe  na  parte  anterior  da  cabeça  uma  enorme  depressão  ou  cavidade, 
cuja  serventia  não  sei  explicar.  Vi  também,  mas  de  noite  e  muito  ra- 
pidamente a  porca  de  Murça,  não  podendo  por  isso  assegurar  se  tem 
egual  cavidade  na  fronte;  parece-me  que  sim. 

Não  admira  pois  que  na  ara  descoberta  em  Castro  Daire  appareça 
a  figura  do  porco,  que  alli  foi  gravada  em  virtude  da  superstição  ou 
crença  de  propiciar  a  divindade  a  quem  o  monumento  foi  dedicado. 
O  figurar  no  monumento  o  javardo  não  implica  necessariamente  (co- 
mo se  tem  julgado)  menção  de  lucta  com  aquelle  animal. 

A  leitura  da  inscripção  da  face  principal,  que  preoccupou  os  que 
têem  descripto  o  monumento,  é  fácil  em  meu  intender.  Leio:  Votu{m) 
Arol.  Aíra)  S{alulis).  Voto  feito  a  Arol. . .  Ara  de  Salvação. 

Arol...  é  certamente  um  nome  de  divindade  peninsular  a  nós 
desconhecida,  como  tantas  outras  mencionadas  em  inscripções,  e 
que  se  podem  vèr  no  Corpus.  A  terceira  lettra  doesta  palavra  tem 
sido  considerada  um  d;  e  na  verdade  é  muito  pouco  curva  na  parte 
esquerda,  parecendo  effecti vãmente  a  haste  vertical  do  D.  Apezar  do 
detido  exame  feito  no  original  e  em  fidelíssimos  calcos  tirados  por  mim 
em  chumbo  e  papel,  não  posso  decidir-me  abertamente  pelo  D  ou  pelo 
O.  Todavia,  considerando  bem  quanta  a  rudeza  da  escriptura,  ponde- 
rando que  a  lettra  seguinte  é  sem  duvida  um  L  fazendo  com  todas  as 
probabilidades  parte  integrante  da  palavra,  e  que  por  tanto  daria  (no 
caso  de  d)  a  ligação  descommunal  d  l,  inadmissível  sem  similar,  es- 
tou convencido,  em  quanto  não  apparecer  exemplo  com  que  se  com- 
pare, de  que  a  palavra  é  Arol. . .  e  não  Ardi.  Os  que  tiverem  relu- 
ctancia  em  acceitar  esta  leitura,  por  causa  da  incorrecta  forma  do  o, 
6  adduzirem  para  comparação  o  redondo  o  de  v  O  T  v,  ponham  em 
parallelo  os  dois  v  v  d'esta  ultima  palavra,  os  dois  A  A  (um  sem  tra- 
vessa), e  attenlem  na  configuração  geral  das  lettras,  o  que  tudo  lhes 
dirá  que,  sem  termo  de  comparação,  não  se  pode  decidir  se  o  abri- 
dor quiz  representar  o  D  ou  o  o. 

Quanto  á  inscripção  lateral,  direi  que  é  para  mim  um  perfeito 
enigma.  Na  supposição  de  que  a  ara  fora  effectivamente  dedicada  a 

1  Cf.  L.  de  Vasconcellos,  Tradições  populares  de  Portugal,  e  Ad.  Coellio,  Re- 
vista de  Etimologia. 


E  HISTÓRICA  o7 


uma  divindade  em  consequência  do  [)erigo  que  alguém  correra  na 
caça  ou  encontro  d'um  javali  (jue  conseguira  matar,  occorreu-ine  que 
a  leitura  seiúa  A  P  k  A  !•:  •  'lX.s7/y;r/-,s7t'.sj ;  mas  no  estado  actual  do  meu 
estudo  também  considero  de  todo  o  ponto  inadmissivel  tal  interpreta- 
ção. Antes  me  inclino,  por  motivo  de  exemplos,  a  que  algumas  d'a(piel- 
las  leltras  (senão  todas)  são  as  iniciacs  dos  nomes  do  dedicador  da 
ara.  Aijuellas  seis  leltras  prestam-se  a  muitas  combinações  e  irUer- 
pretações,  d"entre  as  quaes  raras  serão  acceitaveis.  E  caso  de  repetir: 
«posso  dizer  o  que  não  é;  mas  não  posso  dizer  o  que  é». 

O  que  torna  mais  interessante  este  pequeno  momimento,  além  do 
nome  de  divindade  nelle  mencionado,  é  o  ser  mais  um  documento  re- 
lativo á  importância  cultual  do  porco  entre  alguns  dos  antigos  babi- 
tanles  da  peninsúla  pyrenaica. 

Março  1887. 

BOUGES  DE  FlGLi:UUiDO. 


NUMISMÁTICA  PORTUGUEZA 
D.  Sauclio  II 

Não  está  ainda  hoje  averiguado  nem  é  muito  provável  que  com 
precisão  se  possa  determinar  no  futuro,  qual  foi  o  systema  monetário 
e  quaes  as  vaiiedades  de  moeda  que  foram  cunhadas  no  reinado  do 
infeliz  monarcha  D.  Sancho  II,  depois  dos  incansáveis  exforços  sem  re- 
sultado ellicaz  feitos  pelo  sr.  Alexandre  Herculano,  nas  suas  cuidado- 
sas investigações  para  a  Historia  de  Porlugal.  e  das  pesquizas  feitas 
anteriormente  por  Viterbo  para  o  seu  Elucidário. 

Ambos  referem  documentos  e  leis  onde  vêem  mencionados  os  no- 
mes de  algumas  moedas  correntes  neste  reinado,  mas  todos  estes 
subsidies  são  insuíTicientes  para  se  formar  um  critério  exacto  das  moe- 
das fabricadas  e  do  systema  monetário  de  Portugal  desde  [•2.XÍ  até 
1248  anuo  em  que,  exilado  em  Toledo,  falleceu  D.  Sanlio  II. 

Sabe-se  que  D.  Aífonso  I  ou  por  gratidão  ao  metropolitano  de 
Braga,  que  lhe  prestou  auxilio  na  guerra  contra  sua  mãe  D.  Thereza 
ou  para  conquistar  as  boas  graças  e  favor  do  clero,  que  então  coroava 
e  deslhronava  os  monarchas,  D.  Alfonso  I  concedeu  á  Sé  metropolitana 
de  Braga,  o  privilegio  perpetuo,  da  fabricação  de  moeda,  e  dos  respe- 
ctivos proventos  de  senhoriagem,  no  anuo  de  1128.  Comtudo,  parece 
que  D.  Aífonso  lambem  mandou  cunhar  moedas  apezar  de  ter,  segun- 
do Viterbo,  abdicado  aquelle  direito  na  Sé  de  Braga. 

Leva-nos  a  esta  supposição  a  variedade  de  moedas  com  o  seu  nome, 
e  que  pela  fabricação  não  podem  ser  de  nenhum  dos  Affonsos  seus 
descendentes. 


58  REVISTA    ARCHEOLOGICA 


Segundo  diz  Vilerbo  no  seu  Elucidário  tom.  2."  pag.  144  em  26 
de  dezembro  de  1238.  chegaram  a  um  accordo  em  Guimarães,  sobre 
a  cedência  do  privilegio  anteriormente  feito  á  Sé  de  Braga,  D.  San- 
cho 11.  o  arcebispo  e  o  cabido  d"esta  Sé. 

Isto  quer  dizer  apenas  que  não  foi  revogado  o  privilegio  ou  que, 
se  o  foi,  D.  Sancho  11  o  restabeleceu.  O  que  parece,  porém,  é  que 
D.  Sancho  reagni  contra  a  abdicação  dos  seus  direitos  sobre  a  fabrica- 
ção de  moeda  e  que  foi  preciso  o  accordo  de  Guimarães  para  a  Sé  de 
Braga  continuar  no  usofructo  desta  prebenda.  Se  o  conservou  ou  res- 
tabeleceu é  claro  que  a  Sé  de  Braga  continuou  fabricando  moedas. 

Não  se  distinguem  duma  maneira  irrecusável  os  cimlios  que  per- 
tenceram a  D.  Sancho  II  e  os  que  pertenceram  ao  seu  avô  D.  Sancho  I. 
Mas  este  facto  ainda  tira  talvez  a  sua  explicação  de  ter  sido  a  mesma 
Sé  de  Braga  que  fabricou  a  moeda  num  e  noutro  remado,  que  foram 
próximos  um  do  outro  e  interrompidos  apenas  pelos  12  ânuos  do  rei- 
nado de  D.  Affonso  11.  E  embora  os  cunhos  não  fossem  eguaes,  eram 
eguaes  as  legendas  porque  o  nome  do  monarcha  era  o  mesmo. 

Viterbo  no  tom.  1."  pag.  38,  174  e  332  diz  que  Affonso  II  e  D. 
Sancho  11  usaram  do  seu  numero.  Em  nenhuns  sellos  nem  moedas' 
se  encontram  as  indicações  dos  números  destes  monarchas,  o  que 
ainda  até  certo  ponto  nos  explica  o  facto  de  ser  a  Sé  de  Braga  que 
fabricava  a  moeda,  e  que  pela  rotina  e  pela  não  reflexão  sobre  a  conve- 
niência de  distinguir  os  dois  monarchas  homonymos,  ia  apenas  fazen- 
do modificações  nos  cunhos,  augmentando  o  numero  dos  escudos  de  1 
para  4  e  5,  mas  diminuindo-lhes  os  tamanhos  visto  conservar-se  apro- 
ximadamente egual  o  diâmetro  das  moedas  do  mesmo  nome  e  valor. 
Em  cada  novo  cunho  era  copiada  fielmente  a  legenda. 

É  talvez  por  este  motivo  que  o  sr.  Teixeira  de  Aragão,  na  impos- 
sibilidade de  assignalar  por  documentos  históricos  as  moedas  que 
pertenceram  a  D.  Sancho  I  e  a  D.  Sancho  11,  dá  ao  primeiro  reinado 
as  moedas  que  tem  um  só  escudo  grande,  e  ao  segundo  as  que  tem 
quatro  e  cinco  escudeles. 

É  uma  maneira  racional  de  fazer  a  distribuição  entre  os  dois  rei- 
nados até  que  um  dia  esie  ponto,  embora  seja  pouco  provável,  possa 
ser  rectifii'ado  por  dociiiiieiitos  que  se  encontrem  e  que  ilhminem  as 
duvidas  com  que  luctam  todos  os  ruunismatas  na  classificação  de 
moedas  com  a  legenda  de  D.  Sancho. 

O  consciencioso  numismata  Lopes  Fernandes  conheceu  apenas  cinco 
typos  de  moedas  de  bilhão  com  o  nome  de  D.  Sancho,  as  quaes  se  não 
atreveu  a  classificar. 

Estes  cinco  typos  vêem  descriplos  pelo  sr.  Teixeira  de  Aragão  na 
est.  11,  tom  1.''  da  sua  obra  (^  Descri pção  geral  e  liisloria  das  moedas 
cunhadas  com  o  nome  dos  reis,  regerdes  e  governadores  de  Portngah, 
com  os  n.°^  2  e  3  do  reinado  de  D.  Sancho  I  e  com  os  n.°^  1,  3  e  4 
do  reinado  de  D.  Sancho  11;  havendo  no  4."  uma  pequena  differença 


E    HISTÓRICA  39 


que  consiste  em  ler  os  cinco  escndeles  da  mnedn  indicudn  pelo  sr.  Ara- 
gão iHTia  arriieila  no  centro  de  cada  escndete.  É  até  possível  ()iie  não 
existisse  essa  diíTerença  e  que  apenas  a  moeda  de  Lopes  Fernandes 
estivesse  menos  clara. 

Este  escriptor  diz  qiie  os  dois  typos  que  elle  prinx^iro  mf^nciona, 
6  que  são  os  n."^  2  de  U.  Saiiclid  1  e  1  de  D.  Siiiiciío  11  conldiine  a 
referencia  que  fizemos  ao  livro  do  sr.  Aragão,  llie  parece  pertence- 
rem a  U.  Sancho  I,  por  serem  os  lypos  ujais  grosseiros. 

Como  os  leitores  poderão  ver  na  obra  do  sr.  Aragão  este  dislinc- 
to  ntniiismala  classificou  de  Sancho  II  ii.°  1  a  moeda  (|ue  Lopes  Fer- 
nandes attiibuia  a  IJ.  Sancho  I,  e  de  Sancho  1  como  o  n."  IJ  a  que  Lo- 
pes Fernandes  attribuia  a  Sancho  IL 

Os  outros  Ires  ty[)os  rpie  o  sr.  Aragão  apresenta  no  reinado  de 
Sancho  II  não  foram  cotdiecidos  por  Lopes  Fernandes. 

Ucfcrimo-nos  já  á  classificação  racional  feita  pelo  sr.  Aragão  at- 
tribuindo  as  moedas  de  bilhão  d  um  escudo  a  D.  Sancho  I  e  as  de  4 
e  5  escudetes  a  I).  Sancho  II. 

Acceitamos  esta  classificação,  mas  vamos  mais  longe.  Para  isto 
basta  confrontar  as  moedas  dos  dois  reinados.  Estudaíido  as,  vè-se  que 
as  primeiras  seriam  de  facto  as  dum  escudo  grande,  e  (|ue  de|)ois, 
em  modificações  successivas  as  moedas  passariam  a  ter  qualio  escude- 
tes e  finalmente  cinco. 

Mas  ainda  neste  ponto  não  consistiram  somente  as  modificações; 
e  isso  não  refere  o  sr.  Aragão  attenla  a  (U"dein  que  dá  ás  moedas  de 
D.  Sancho  II  e  á  mealha  que  sob  o  n."  4,  inserta  no  te.\to,  atlribue  a 
D.  Sancho  L 

Em  seguida  ás  moedas  dos  escudos  grandes,  deviam  ter  sido  fabri- 
cadas as  dos  (juatro  escudetes,  a  chfio  como  no  n."  2  de  U.  Suncho  II, 
e  n."  4  de  D.  Sancho  L  descriplo  no  texio,  com  a  denominação  de  mea- 
lha: seguindo-se  a  do  n.°  I  de  Sancho  II,  depois  a  do  n.°  :\  do  mesmo 
reinado,  já  com  os  4  escudetes  (como  lhe  chamamos)  vnsadofi,  seguin- 
do-se a  do  n."  O  com  cinco  escudetes  vasa(lo<  e  a  cruz  floreada  e  can- 
tonada  por  dois  pontos:  depois  ainda  a  do  n."o  com  reverso  mais  orna- 
mentado, porque  a  cruz  é  cantonada  por  i  rosetas  em  logar  de  2  pon- 
tos, como  se  encontra  na  do  n.°  G:  e  finalmente  a  do  n.°  4  em  tjue  os  5 
escudetes  além  de  vasados.  tem  cada  um  no  centro  uma  airiiella  ou 
ponto,  o  que  indica  a  leniiem-ia  para  os  cinco  pontos.  í]ue  tiveram  todos 
os  cinco  escudetes  do  reinado  seguinte  de  AíTonso  111,  e  que  continua- 
ram a  ser  ornamentação  das*  moedas  e  sellos  nos  outros  reinados,  e 
que  D.  Fernando,  ciicumscreveu  mais  lanh;  por  um  escudo  gramle  e 
encimou  d  urna  coroa  real,  form;mdo  o  distinclivo  ipie  [lassúu.  com  pe- 
quenas alterações  de  forma,  a  todos  os  nossos  munarchas  como  symbolo 
da  realeza. 

Portanto  entre  as  moedas  de  um  escudo  e  as  de  escudetes  ra.sarfos 
mesmo  sem  os  pontos  houve  indubitavelmente   uma  transicção  re[)re- 


60  REVISTA   AUCHEOLOGICA 

sentada  pela  dos  esciidetes  a  cheio  qne  progressivamente  passaram  do 
numero  de  quatro  a  cinco. 

Se  esta  transicção  fez  parte  do  fim  do  reinado  de  D.  Sancho  I  ou 
principio  do  de  D.  Sancho  II  não  o  podemos  dizer,  mas  acompanha- 
mos Lopes  Fernandes  que  allribuiu  estas  moedas  pela  sua  fabricação 
a  D.  Sancho  I. 

Assim,  a  ordem  que  dariamos  ás  moedas  descriptas  pelo  sr.  Ara- 
gão, relativas  aos  dois  Sanchos,  se  nos  permiltisse  esta  liberdade  a 
consideração  (jue  sentimos  por  este  illustre  numismata,  seria : 

D.  Sancho  I,  n.°*  1,  2,  3,  como  se  acha  na  est.  11,  accrescentados 
com  os  n.°^  4  e  5  que  seriam  os  n.°  2  e  1  que  se  encontram  na  mesma 
estampa  como  pertencendo  a  D.  Sancho  II;  e  a  este  monarcha  daria- 
mos os  n.°^  3,  O,  5  e  4,  que  segundo  o  nosso  modo  de  ver  é  a  ordem 
chronologica  da  fabricação  das  moedas  neste  ultimo  reinado. 

Possuimos,  porém,  uma  moeda  que  pelo  seu  cunho  collocamos  en- 
tre os  n.°^  3  e  (5  da  serie  que  vimos  de  referir  relativa  a  D.  San- 
cho II. 

Esta  moeda  é  no  anverso  perfeitamente  egual  á  do  n.°  3  de  D.  San- 
cho II  (sr.  Arag..  est.  II).  No  reverso  é  que  difere  em  ter  a  cruz  can- 
tonada  por  quatro  crescentes  ou  meias  luas,  com  as  convexidades  vol- 
tadas para  o  eixo  da  cruz  (est.  ix). 

REX  SANCll  —  Quatro  escudetes  vasados,  formando  cniz,  den- 
tro de  um  circulo;  por  fora  d"este  a  legenda, 

í^  PO-RT-VG-AL-  —  Cruz  simples  cortando  a  legenda,  e  se- 
parando duas  leltras  em  cada  quadrante;  no  meio  um  circulo  e  dentro 
d'esle  e  em  cada  quadrante  um  crescente  com  a  convexidade  voltada 
para  o  eixo  da  cruz. 

Esta  moeda  se  não  é  um  typo  completamente  novo,  é  comtudo 
uma  variante  importante  e  que  vem  esclarecer  um  pouco  o  reinado  de 
D.  Sancho  II. 

M.  Alexandre  de  Sousa. 


CONSTITUIÇÕES  DO  ARCEBISPADO  DE  LISBOA 
Decretadas  por  D.  João  Esteves  (I'Azambuja  (1402-1414) 

[Continuado  de  pag.  31) 

.0  Item  como  quer  que  os  santos  cânones  mandem  que  os  priores 
Reylores  e  Vigairos  perpétuos  raçoeyros  e  outros  beneliciiados  façam 


E    HISTÓRICA  61 


rresidencia  persoall  em  suas  egreias  e  beneficiios  assy  como  deiiem  e 
sam  tliiu(Jos  e  nom  perteence  ao  !)eneficiiado  aalcm  de  Ires  doinaas  au- 
senta rsse  do  seu  hen(!Íicio  em  pêro  muylos  Irespassedores  da  vonta- 
de dos  ditos  santos  cânones  e  coslitni(;r)es  se  nam  contentam  nem 
querem  e  menos  prezam  fazísr  rresidencia  nos  ditos  seus  beneficiios  pella 
quall  razom  o  culto  e  diuino  oliciio  he  migoado  e  se  seguem  nniilos  pe- 
riigos  das  almas  e  grau  dapno  e  perda  e  deti'imento  das  egreias,  po- 
rem estabellecemose  mandamos  que  todos  e  cada  huos  priores  e  Rey- 
tores  e  vigairos  perpétuos  e  rraçoeiros  e  outros  beneficiados  das 
egreias  da  dita  cidade  e  arcebispado  trabalbem  e  procurem  fazer  Re- 
sidência pessoal  contbinuadamenle  cada  liuum  em  sua  egreia  e  beneficio 
saluo  sse  per  alguma  guisa  sejam  ou  forem  priuilligiados  ou  da  nossa 
licença  sejam  ao  presente  ou  forem  ao  depois  \)ov  algua  Hazam  escu- 
sados por  alguum  tempo  da  dita  rresidencia  e  se  alguns  dos  ditos  be- 
nefiiciados  sam  absentes  dos  ditos  beneficiios  por  tall  que  se  tornem  a 
fazer  e  contbinuam  aa  dita  rresidencia  damos  dons  messes  despaços 
aquelles  que  estam  no  senhorio  de  purtngall  e  aaos  outros  (jue  sam 
absentes  fora  do  dito  senhorio  seis  meses  o  quall  espaço  lhe  asinamos 
por  termo  perentorio  a  que  uenham  fazer  rresidencia  nos  ditos  bene- 
fícios e  sse  ao  dito  termo  ou  tempo  nom  uieerem  nos  de  sentença  cu- 
raremos de  proueer  ou  curaremos  de  fazer  que  seja  proueudo  aas  di- 
tas egreias  rraçõoes  e  beneficiios  daquelles  que  rrecusarem  de  viir 
fazer  a  dita  rresidencia  a  pesoas  ydonias  que  ellas  siruam  e  façam 
rresidencia  assy  como  os  direitos  querem  e  mandam. 

IO  Item  hordenamos  que  postoque  os  priores  e  vigairos  tenham 
cura  e  encarrego  das  aimas  tenham  de  nos  ou  de  nossos  vigários  li- 
cença pêra  sse  absentarem  dos  seus  beneficios  que  notn  enbaigandoa 
dita  licença  sejam  thiudos  de  fazer  residência  em  ellas  na  coreesma  e 
conpeçarem  (sic)  na  primeira  somana  e  estarem  hy  atee  que  todos  seus 
freegueses  sejam  confessados  e  nom  ho  fazendo  elles  asy  que  a  licen- 
ça que  teverem  seja  rrevogada  e  demais  que  dem  por  penna  pêra  a  fa- 
brica da  egreia  huum  marco  de  prata. 

11.  Item  porquanto  muitos  creligos  estranhos  e  nom  conhicidos 
doutras  cidades  e  arcebispados  e  bispados  dos  quaaes  alguuns  asy 
como  enfames  ou  criminosos  fogem  dos  próprios  luguares  donde  sam 
naturaaes  e  chegam  ameude  a  dita  cidade  e  arcebispado  e  sem  seen- 
do  examinados  ante  como  denem  seer  esso  medes  sem  nossa  licença 
ante  auuda  presumem  de  dizer  e  cellebrar  missas  aos  quaaes  creligos 
estranhos  nom  devem  de  lligeyro  creer  que  sam  iiordenados  e  proueu- 
dos  aas  hordens  sacras  posto  que  o  afirmem  per  seu  próprio  juramen- 
to porem  por  tirar  e  auitar  muitos  periigos  que  se  desto  seguem  es- 
tabelleçemos  que  os  creligos  das  cidades  e  arcebispados  e  bispados 
alheos  nom  sejam  rreçibidos  pêra  cellebrar  ssem  nossas  leiras  e  car- 
tas pubricainente  nas  egreias  da  dita  cidade  e  arcebispado  pêro  que- 
rendo os  ditos  creligos  cellebrar  secretamente  que  lhes  dem  lugar  pe- 


62  BEVISTA   AKCIIEOLOGICA 

ra  poderem  fazer  por  três  dias  e  mais  nora  esso  meesmo  deíTende- 
mos  t|iie  iienhiiiins  creligos  da  dila  rjdjide  e  arcebispado  ou  bispado 
a  lhes  iiom  presumam  dizer  nem  cellebrar  missa  sem  nossa  licença  es- 
piciall  em  oratórios  [trinados  ou  em  casas  de  leygos  que  nom  ajam  li- 
cença do  |)adie  sanlo  ou  nossa  pêra  peta  (síc)  alleuanlar  aliar  em  que 
se  diga  missa  e  os  creligos  que  o  conlrayio  fezerem  sejam  presos  em 
quanU)  for  nossa  merçee  e  dos  nossos  soçesores  e  de  mais  o  que  fo- 
rem das  cidades  e  arcebispados  e  bispados  alheos  de  hy  em  diante  ja- 
mais nunca  sejam  rrtçebidos  em  dila  nossa  cidade  e  arcebispado  pê- 
ra cellebrar  os  diuinos  oíiciios  e  esso  medes  defendemos  de  todo  em 
lodo  (pie  liuus  monges  e  conigos  rreganles  {sic)  e  quaaes  outros  Rel- 
ligosos  {sic)  das  ditas  ci.iades  e  bispados  alheos  aos  quaaes  a  clautra 
(m)  avia  de  seer  vida  prazer  e  sollar  nom  sejam  rrecebidos  aalem  de 
três  dias  pêra  cellebiar  os  diuinos  oíiciios  na  dila  nossa  cidade  e  ar- 
çebi>padu  e  os  priores  Reitores  vigários  rraçoeyros  que  os  rrecebe- 
ren  aalem  do  dito  lenpo  asabendas  nas  ditas  suas  egreias  contra  es- 
ta nossa  constilnição  sejam  presos  alee  nossa  mercee  e  os  thisourey- 
ros  que  llies  derem  calez  e  velimenla  percam  os  sallayros  que  aviam 
dauer  aijuelle  anno  das  egreias  e  demais  sejam  punidos  assy  como 
nos  e  os  arçebis()os  que  pello  tempo  forem  virem  que  he  aguisado. 

12.  liem  querendo  nos  e  desejando  miiilo  de  iremover  e  lirar  a 
famihaiidade  ou  participação  doestada  e  e  (sic)  auorreçida  a  qual!  al- 
guns nom  boos  xpaaos  e  x|)taas  nom  aborrecem  nem  ham  uergonha 
de  fazer  com  os  judeus  e  com  os  mouros  em  doesto  da  santa  ffe  ca- 
tollica  e  grane  escandallo  dos  xpaaos  em  dapno  e  dispêndio  das  suas 
almas  slabelleçendo  defendemos  que  os  xpaaos  nom  moriem  nem  pre- 
sumam de  morar  com  os  judeus  e  mouros  em  suas  casas  pêra  os 
seruireni  conlhinuadamenle  nem  curem  as  xpaas  os  íillios  delles  em 
as  casas  delles  nem  foia  delias  nem  vaao  as  vodas  dos  judeus  e  mou- 
ros nem  os  conuidem  os  xpaaos  pêra  suas  casas. 

13.  Item  como  quer  que  assy  seja  que  os  judeus  na  judaria  e  os 
mouros  na  mouraria  denam  de  morar  apaslados  dos  xpaaos  pêro 
muitos  delles  ahigam  e  alquiam  moradas  e  casas  anlre  os  xpaaos  e 
anire  ellos  moram  em  ollas  e  o  que  pior  he  muitos  xpaaos  mouidos 
per  cohiiça  por  (pie  lhes  dem  maiores  preços  que  os  xpaaos  lhes  alu- 
gam suas  casas  e  alguns  xpaaos  e  xpaas  moram  e  presumam  de  morar 
nas  jiidai  ias  e  mourarias  das  ((/^íff(?i)  cousas  se  geera  grande  escandallo 
aos  outros  xpaaos  e  aos  que  o  fazem  se  segue  grande  periigo  dijs  al- 
mas porem  (pierendo  nos  rremediar  e  tirar  os  ditos  escandallos  e  pe- 
riigo>  dereiídemos  que  onde  ouner  jiidarias  e  mourarias  apartadas  que 
os  xjiaaos  lhes  nom  aluguem  as  casas  (pie  teiierem  fora  delias  pêra 
em  ellas  morarem  nem  façam  as  sobreditas  cousas  todas  e  cada  bua 
delias  e  (|uaaesqner  xpaaos  ou  xpaas  que  o  conlrayro  das  sobreditas 
cousas  ou  cada  bua  delias  fezerem  poemos  em  elles  ou  em  cada  hnum 
delles  sentença  de  excummunhom  da  quall  nom  sejam  asollulos  saluo 


E   HISTÓRICA  G3 


satisfazendo  primeiro  do  nosso  mandado  ou  no  ailifío  da  morte  pêra 
aqiielles  que  os  confessarem  e  se  nos  lugares  unúc.  noni  ouuer  jiida- 
rias  ou  niourarias  apartadas  onde  os  judeus  e  mouros  viuerem  íinlre 
os  xpaaos,  inand;unos  que  lhes  nom  coíiseiilam  (jue  em  praça  nos  dias 
do  domingo  e  festas  que  sejam  de  gardar  de  títda  obra  laurem  nem 
liusem  dos  seus  mesteres  e  ollicios  nem  cozam  neui  assem  nem  comam 
carne  em  pnbrico  em  na  coresma  e  sestas  feyras  e  em  nos  oulios  que 
os  x[)aai  s  sam  lliiudos  de  jejuar  e  nom  comam  cai'ne  e  se  o  contra- 
rio fezerem  os  ditos  judeus  ou  mouros  que  assy  viuerem  antre  os  xpaaos 
nos  lugares  onde  nom  teuerem  judarias  e  niourarias  aj)artadas  man- 
damos aos  priores  das  egreias  em  cujas  freguisias  se  eslo  fezer  que 
da  parte  de  deos  re(]ueyram  as  justiças  dos  lugares  que  lho  nom  con- 
sentam  e  que  mandem  a  seos  fregueses  sobre  pena  de  excommu- 
nliom  (pie  nom  partici[)em  com  os  que  o  assy  fezerem  e  os  escu- 
munguem  de  facto  sse  neçesario  llbr  e  os  que  sse  nom  quiserem  cas- 
tigar da  participaçam  dos  sobre  ditos  judeos  ou  mouros  que  em  os 
dias  e  fesstas  laurarem  em  praça  ou  cozerem  ou  asarem  ou  come- 
rem carne  em  os  dias  que  os  xpaaos  deuem  jejuar.» 

14.  Item  porquanto  aquelles  que  querem  citar  ou  demandar  deuem- 
nos  citar  perante  ho  juiz  de  seu  oiiciio  e  esso  medes  os  juizes  que 
ham  jurdiçam  e  teem  vara  e  poderio  de  julgar  deuem  husar  da  sua 
jurdiçam  iam  somente  em  aquelles  quasos  que  sam  da  sua  jurdiçam 
nas  cousas  delles,  porem  estabelleçemos  e  mandamos  que  todos  assy 
clérigos  como  leygos  que  presumirem  de  citar  e  demandar  e  trazer  os 
clérigos  contra  a  liberdade  da  egreia  perante  os  juizes  saguaes  (57c) 
era  os  casos  de  que  a  nos  pertence  o  conhicimento  e  de  que  nos  e  nossos 
antecessores  steuermos  em  posse  de  conhecer  ou  conira  outra  pessoa 
ecciesiastica  ou  tomarem  os  bees  dos  ditos  clérigos  assy  ecciesiasticos 
como  profanos  e  mundanos  oucupar  e  tomar  fezerem  per  |)0(lerio 
leygall  ou  per  sua  autoridade  própria  por  que  nos  somos  prestes  fazer 
conprimento  de  direito  e  de  justiça  a  cadahuum  de  taes  clérigos  e  beens 
Anemos  e  maiidamos  que  os  que  o  conlrayro  fezerem  e  contra  o  que 
dito  he  forem  preseuerando  alem  de  três  em  demandar  os  ditos  creli- 
gos  e  rrelligiosos  depois  que  allegarem  (]ue  sam  laaes  pessoas  e  o  pro- 
uarem  por  seer  notório  ou  per  outra  maneira  que  ipso  facio  encorram 
em  sentença  de  excummuidiom  e  ejam  excnumouigados  ademos 
ainda  mais  e  defendemos  que  os  alquaydes  algaziis  jí//zes  moidomos 
ou  oulios  quaesquer  oíiiciaaes  ou  seos  homens  se  nan»  trenielam  nem 
persumam  de  sse  tremeter  de  castigar  nem  punir  nem  corrcger  os  ex- 
cessos dos  creligos  rreligios(JS  a  nos  súbditos  contra  os  sanids  cânones 
em  prejuízo  da  liberdade  ecciesiastica  e  esso  medes  defendemos  que 
nom  penhorem  os  creligos  nem  façam  penhoras  nem  os  encimtem 
nem  tomem  nem  ocupem  nem  façam  ocupar  nem  tomar  os  beens  del- 
les nem  mandem  prensar  em  as  casas  dos  creligos  de  hordens  sacras 
ou  beneíiciiados  que  de  tall  encarrego  segundo  direito  sam  excusados 


64  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

saluo  se  esto  se  fezer  onde  elRei  for  e  per  seu  espiciall  mandado  e 
quaaesqner  qne  o  contrayro  fezerem  ipso  facto  encorram  em  sentença 
de  excommunliom. 

(Continm). 

INSCRIPÇÃO  CHRISTÃ  DESCOBERTA  EM  MERTOLA 

O  meuillustre  amigo  o  sr.  Prof.  Iliibner,  que  já  se  dignou  honrar 
as  paginas  desta  Revista,  communicou-me  ha  pouco  uma  inscripção 
que  um  amigo  liie  enviara  de  Mertola.  Esta  inscripção,  até  hoje  iné- 
dita, está  esculpida  numa  lapide  de  mármore,  ait.  {""jáO,  larg.  0'",48. 

(o  texto  entre  duas  pi- 
lastras) 

P    SIMPLICIVS  SÍ777plichis  I  pr{es)b{yteru)s  fainii  \  lus 

p  p  T)  c   A  "p  A  M  V  ^^'  vixit  I  an{i20s)  LVIIII  \  requievit  in  \ 

ç^         ,  „  pace  d{omi)ni   die   \    VIII  kal{eijdas)  se- 

ATv-rj.xTTTTTT^  ptci}!  1  òfes  evã  I  DLXXV. 

SRKyVliiVliiiN  Q  presbytero  Simplício,  servo  de  Deus, 

rACii    UlNivJJ  viveu  cincoenta  e  cinco  annos.  Descançou 

VIII  KAL  SEPTEM  na  paz  do  Senhor  a  25  de  agosto  de  537. 

B  R  E  S    *    E  R  A  era  575 
dLXXV  *  p.  C.  537 

«Estes  textos  do  século  vi  —  diz  o  sábio  epigraphista  —  são  muito 
curiosos;  o  presente  tem  o  mérito  de  dar  pela  primeira  vez,  segundo 
parece,  a  abreviatura  p  rb  S  (por  prb  ou  p  r  s  B  T),  equivalente 
a  prrsbfj.terus  por  preshyler,  que  é  a  forma  regular.  Mas  presbj/tenis  é 
o  antecedente,  em  baixo  latim,  de  presbytero,  que  é  a  forma  da  pala- 
vra nas  linguas  românicas.» 

Esta  inscrijição  é  uma  das  mais  antigas  que,  da  época  christã,  se 
téem  encontrado  em  Portugal. 

Do  fac-simile,  que  se  vê  na  estampa  ix,  reproduzido  duma  photo- 
graphia  devida  á  obsequiosidade  do  sr.  João  Zink,  residente  perto  de 
Mt^rtola,  verá  o  leitor  a  forma  e  disposição  dos  caracteres  da  inscri- 
pção, que  a  composição  typographica  não  poude  reproduzir- 

Borges  de  FicuEmEDO. 


E    HISTOKICA 


OS  DIAS  EGYPCIOS 

Não  me  proponho  Iraclar  o  assumpto,  que  daria  para  um  volume, 
da  historia  da  superstição  conhecida  pehi  designarão  de  dias  aziagos, 
dias  egypcios,  ele:  contento-me  com  dar  a  lume  algumas  notas  lo- 
madasno  curso  das  minhas  leituras  á  busca  de  dados  para  outros  es- 
tudos de  maior  interesse  para  mim. 


«Ha  já  bastantes  annos  achei  os  restos  de  uma  superstição  no  Mi- 
nho, de  que  lenho  eml>;d(le  buscado  hoje  descobrir  signaes,  e  que  me 
parece  seria  oiiiinda  dessa  defe/.a  entre  os  romanos  de  casarem  du- 
rante as  festas  [)arentaes.  Tinha-se  por  um  agoiro  lerrivel  casar  nuns 
certos  Ires  dias  do  mez  de  fevereiro;  mas  haviam  esquecido  quaes 
eram  esses  dias.  e  por  isso  as  famílias  mais  precatadas  não  consen- 
tiam que  alguns  dos  seus  casasse  dentro  do  dito  mez,  com  medo  de 
que  fossem  topar  com  os  malfadados  dias.  Eu  já  algures  fallei  d'esta 
superstição,  (]ue  tem  caido  no  esquecimento.»  D.  Maria  Peregiina  de 
Sousa.  Nota  30  aos  FílHus  d  Ovídio,  traducção  de  A.  Feliciano  de  Cas- 
tilho, liv.  iij,  tomo  I,  p.  377  s. 

É  evidente  nessa  tradição  um  vestígio  da  superstição  semi-popu- 
lar  dos  dias  aziagos  dos  mezes  e  do  anno. 


«Pronoslico  dos  dias  críticos  de  cada  hum  anno  segundo  os  Astró- 
logos, e  tem  31  dias. 

As  pessoas  que  enfermarem  em  estes  laes  dias  tarde  se  levanta- 
rão, e  se  sararem  será  com  mais  trabalho,  e  em  os  taes  dias  se  ca- 
sarem não  viverão  mais  tempo  casadas,  nem  será  leal  sua  molher,  nem 
se  quererão  bem,  e  quem  comessar  caminho  de  sua  caza  para  outra 
terra  negociará  mal,  e  irá  com  perigo  que  lhe  succedão  desastres  em 
pessoa,  ou  fazenda,  e  nos  taes  dias  lodo  o  tratto  de  comprar  e  ven- 
der succedem  muito  mal. 

Os  dias  criticos  são  os  seguintes: 

15—20 


Janeiro 

tem  sette  dias 

1-2-3-0-11 

Fevereiro 

tem  Ires  dias 

1  -7-8 

Março 

tem  quatro  dias 

15—10—17—18 

Abril    ' 

tem  dous  dias 

7—15 

Mayo 

tem  Ires  dias 

2—7—20 

Junho 

tem  hum  dia 

6 

Julho 

tem  dois  dias 

13—15 

Agosto 

tem  dous  dias 

18-20 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N.o  5  —  Maio  1887. 


66  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Setembro  tem  dous  dias  13—20 

Outubro  tem  dons  dias  G  -7 

Novembro  tem  dous  dias  13 — 17 

Dezembro  tem  dous  dias  6 — 7. 

Como  estes  taes  dias  ba  três  muito  mais  preversos,  que  são  o  de 
13  de  Outubro,  e  de  18  de  Setembro,  e  de  18  de  Agosto.  Também 
ha  três  segundas  feiras  muito  perigozas  para  os  que  tem  Iratto  com 
molberes  a  meyas.  A  primeira  segunda  feira  de  Abril,  em  a  qual  se 
perderão  as  cidades  de  Sodoma  e  Gomorra  e  guardesse  em  tal  dia  de 
atlos  dezonestos  com  molheres.  E  a  primeira  segunda  feira  de  Agos- 
to: porque  em  tal  dia  nasceo  Caym:  a  terceira  segunda  feira  he  a  pri- 
meira de  Setembro  porque  em  tal  dia  nasceu  Judas  Scarioth,  o  qual 
commetteu  a  mayor  maldade  que  se  ha  visto  em  o  Mundo,  pois  ven- 
deo  a  Christo  Nosso  Senhor.»  Obras  varias,  mss.  Bibl.  Nac.  de  Lis- 
boa. E— 3— 29,  foi.  G7. 

3. 

As  obras  da  edade  media  offereccm  numerosas  provas  da  crença 
nos  dias  perigosos.  Paul  Meyer  communicou  no  Jahrbuch  fúr  roma- 
msche  niiá  enijUsche  Literatur,  vii,  49—31,  e  na  Bomania,  vi,  4 — 6, 
extractos  de  calendários  medievaes  com  a  indicação  dos  dias  egypdos 
ou  aziagos.  O  sábio  romanista  envia  o  leitor  para  a  memoria  de  M.  J. 
Loiseleur,  Lcs  joiírs  cgyptiejis.  leurs  varialions  dans  les  calendriers  dii 
moijen-áge.  Mem.  de  la  Soe.  des  Antiq.  de  France,  t.  xxxiii,  1873. 

Eis  um  dos  referidos  extractos  {Jahrbuch,  vii,  49 — 30): 

«Les  mestres  ky  cest  arl  cumtrouverent  et  anumbrerent  les  mau- 
ves  jours  et  les  perilous  qui  sunt  en  Tan;  et  ki  unkes  en  nul  de  ces 
jours  en  enfermeté  cherra,  ja  ne  resourda;  et  qui  veage  emprendra 
ja  ne  retournera,  et  qui  besogne  emprendra  ja  bien  ne  chevira,  et  qui 
femme  espousera,  hastivement  departirunt  et  ensemble  en  doulour 
vivrunt;  c'est  à  savoir  xunj.  jour  par  an,  c'est  à  savoir: 

En  .Tenvier  sunt  vij :  le  premier,  le  secund,  le  quart,  le  quint,  le 
dime,  le  sesime,  le  disenouvisme. 

En  Fevrier,  le  tiers,  le  sesime,  le  diseutime. 

En  Ahirs,  le  tiers,  le  quinsime,  le  sesime,  le  diseutime. 

En  Avril,  le  secunt,  le  sime,  le  unsime. 

En  Mai,  le  quart,  le  setime,  le  quinsime,  le  sesime,  le  vintime. 

En  .luing,  le  secunt,  le  quart,  le  setime. 

En  Juil,  le  secunt,  le  sesime,  le  disenouvime. 

En  Aoust,  le  secunt,  le  disenovime,  le  vintime. 

En  Septembre,  le  secunt,  le  sesime,  le  diseutime. 

En  Octembre,  le  secunt,  le  quart,  le  sime. 


E   HISTÓRICA  67 


En  Novembre,  le  secunt,  le  quinsime,  le  vintime. 

En  Decembrc,  le  tiers,  le  quart,  le  sime,  le  qninsime. 

De  ces  jours  se  gard  chascun  sage  hornme,  si  lera  que  sage.» 

Um  livro  francez  Ij  I)ra;jon  rou{/e  ^  oíTerece  a  p.  89  uma  Table 
des  jours  hcureu.r  et  malheurcnx,  em  que  os  últimos  divergem  bastante 
dos  indicados  nas  passagens  transcriptas. 


«Ainda  se  encontram  em  uso,  mas  raramente  os  calendários  per- 
pétuos que  indicam,  por  exemplo,  para  cada  mez  os  dias  infelizes: 
Janeiro  I.  "1.  \\.  4.  6.  II.  1:2.;  Fevereiro  1.  17.  18.;  Marco  14.  16.; 
Abril  10.  17.  IT).;  Maio  7.  S.:  Junho  17.;  Julho  17.  21.;  Agosto  20. 
21.;  Septembro  10.  18.;  Oulubio  0.;  Novembro  6.  10.;  Dezembro  6. 
11.  15.»  Volksthãmlic/ies  aus  Sonnenherg  in  Meiniger  Obeiiande  von 
August  Schleicher.  Weimar,  1858,  4.°,  p.  140. 

5. 

«Ha  no  anno  42  dias  reprovados.  São: 

O  1.2.  6.  17.  18.  de  Janeiro. 
O  8.  16.  17.  de  Fevereiro. 

O  3.  12.  1.3.  15.     de  Março. 
O  1.  3.  15.  17.  18.de  Abril. 
O  8.  10.  17.  30.     de  Maio. 
0  1.7.  de  Junho. 

O  1.  5.  6.  de  Julho. 

O  1.  3.  17.  20.      de  Agosto. 
O  1.  2.  15.  30.       de  Septembro. 
O  11.  17.  de  Novembro- 

O  1.  7.  11.  de  Dezembro. 

Crê-se  com  relação  a  estes  três  dias: 

1.  Toda  a  creança  que  nascer  num  destes  dias,  ou  não  viverá 
muito  tempo  ou  será  ^perseguido  por  pobreza  e  desgraça. 

2.  Os  que  casam  num  destes  dias,  ou  se  separam  em  breve  ou 
vivem  em  contenda. 

3.  Quem  se  melte  a  caminho  num  d'estes  dias,  padecerá  damno 
ou  no  corpo  ou  na  fazenda. 

4.  Não  se  deve  em  nenhum  d'estes  dias  começar  construcção,  atre- 

1  Paris,  Chez  tous  les  Libraires,  1838,  peq.  in-lS." 


68  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

lar  gado  novo,  que  deva  ficar  para  criação,  nem  semear  ou  plantar. 
A  tudo  o  que  se  começar  sobrevirá  desgraça. 

Entre  os  mencionados  42  dias  lia  cinco  particularmente  infelizes, 
a  saber:  o  3.  de  Março,  o  17.  dAgosto,  o  1.  2.  e  ÍJO  de  Se[)tembro. 
lia  também  três  dias  em  que  nenhum  homem  deve  sangrar-se,  por- 
que se  alguém  o  faz  morre  necessariamente  dentro  de  oito  dias.  Es- 
ses dias  são:  o  1.  dAbril,  em  que  nasceu  o  vermelho  Judas;  o  \. 
d'Agosto,  em  que  o  diabo  foi  lançado  no  inferno,  e  o  1.  de  Dezembro 
em  que  foram  arrasadas  Sodoma  e  Gomorrha.—  As  creanças  que  nas- 
cerem num  destes  dias  raro  vingarão  e  morrerão  de  má  morte.»  Sit- 
ten,  Biàiuiche  und  Meinungen  cies  Tirolers  Volkes.  Gesammelt  und  he- 
rausgegeben  vou  Ignaz  v.  Zingerle.  Innsbruck,  1871,  S.°,  p.  200-201. 

C. 

Nas  Observations  on  the  popular  Antiquities  of  Great  Britam,  de 
John  Brand,  vol.  ii,  44-51  (ed.  1875)  ha  muitos  dados  relativos  aos 
dias  aziagos. 

«No  calendário  prefixado  ao  resumo  da  Chronica  de  Graflen  (1365) 
os  dias  aziagos  são  conforme  á  opinião  dos  astrólogos:  Janeiro,  1,  2, 
4,  5,  10,  15,  47,  29  muito  aziagos.  Fevereiro  26,  27,  28  aziagos;  8, 
10,  17  muito  aziagos.  Março  16,  17,  20  muito  aziagos.  Abril  7,  8, 
10,  20,  aziagos;  16,  21  muito  aziagos.  Maio,  3,  6  aziagos;  7,  15,  20 
muito  aziagos.  Junho  10,  22,  aziagos;  4,  8  muito  aziagos.  Julho  15, 
21  muito  aziagos.  Agosto  1,  29,  30  aziagos;  19,  20  muito  aziagos. 
Septembro  2,  4,  21,  23  aziagos;  6,  7  muito  aziagos.  Outubro  4,  16, 
24  aziagos;  6  muito  aziago.  Novembro  5,  6.  29,  30  aziagos;  15,  20 
muito  aziagos.  Dezembro  15,  22  aziagos;  6,  7,  9  muito  aziagos.» 
Brand,  1.  c.  p.  48. 

Do  mesmo  modo  que  com  relação  a  esses  dias  aziagos  havia  di- 
vergência mais  ou  menos  considerável,  assim  não  se  chegou  a  accor- 
do  com  relação  aos  três  dias  mais  perigosos  do  anuo 

Nos  Preceitos  deixados  por  Lord  Burghley  ao  seu  filho  (1636)  es- 
ses três  dias  terríveis  são:  1.  A  primeira  segunda  feira  d'Abril,  dia 
em  que  Cuiui  nasceu  e  seu  irmão  Abel  foi  assassinado.  2.  A  segunda 
feira  d'Agosto,  dia  em  que  Sodoma  e  Gomorrha  foram  destruídas.  3. 
A  ultima  segunda  feira  de  Dezembro,  dia  cm  que  nasceu  Judas,  que 
foi  traidor  de  Nosso  Senhor.  Brand.,  I.  c. 


Um  livro  de  circulação  popular  na  Ciiina  Meridional,  chamado 
hwanfj-li-lHng-slíH,  dá  um  largo  catalogo  dos  dias  propícios  c  perigo- 
sos. Dennys,  IVie  Folk-lore  of  China,  p.  29-31,  onde  se  acha  um  ex- 
tracto. 


E    HISTOKICA  00 


8. 

A  seguinte  nota  (rum  livro  muito  interessante  *  para  os  folkloris- 
tas,  mas  coniiecido  apenas  d  um  ou  outro  d'enlre  elles,  dá-nos  noticia 
da  tradição  na  Índia : 

«If  the  12'!'  day  of  tlie  Mon's  a.í^e  fali  on  a  Sunday,  the  in''  on  a 
Monday,  the  5"'  on  a  Tuesday,  the  ii'"'  on  a  Wednesday,  the  O"'  on  a 
Tbursday,  lhe  8i'i  on  a  Friday,  lhe  O^''  on  a  Saturday,  Ihese  days  are 
accounted  uniucky.  On  the  contrary,  if  the  H'''  fali  on  a  Simday,  lhe 
9^''  on  a  Monday,  lhe  O"'  on  a  Tuesday.  the  3'"''  on  a  Wednesday, 
the  Qt'»  on  a  Thursday,  tlie  i:{'i'  on  a  Friday,  the  14"'  on  a  Saturday, 
Ihese  days  are  esteemed  lucky.  In  general,  the  \^^  day  of  lhe  moon's 
age,  the  4t'',  fit"',  lhe  SHi,  lhe  OH»,  the  11^1»,  lhe  líáf',  lhe  14tii  and 
lhe  13'!»  are  esteemed  uniucky,  uniess  Iheir  ill  luck  be  corrected  by 
the  day  of  lhe  week  according  to  the  above  table.  On  the  contrary 
the  2'i«^i,  lhe  :'A,  the  7t'',  the  ÍOfi  and  the  i;i"i  are  esteemed  lucky.» 
T/ie  Adcenturcs  of  the  Gooroo  Par  amar  Um:  A  Tale  in  the  TamuI  Lan- 
guage;  accompanied  by  a  Translation  and  Vocabulary,  logether  wilh 
an  Analysis  of  the  first  Slory.  By  Benjamin  Babington,  of  the  Madras 
Civil  Service.  London,  J.  xM.  Riciíardson,  i3,  Coríihill,  18iJ2,  4.°,  xii 
243  pp.  Nota  *  a  p.  82. 

9. 

Cerca  de  Ires  annos  depois  de  estar  escripto  o  que  precede,  foi 
publicado  na  Revista  do  Minho,  t.  i,  p.  80  (1885)  o  seguinte,  transcri- 
plo  (segundo  o  articulista)  dum  caderno  copiado  por  um  homem  do 
povo  da  Ilha  de  S.  Miguel: 

Memoria  dos  dias  do  ãno  projndiciaes,  para  comprar,  vender,  via- 
jar, cazar,  mudar  de  caza,  ele. 

«Três  dias  ha  no  ãno  horrives  e  venenosos  que  são:  a  primeira 
segunda  feira  de  Abril,  porque  nella  morreu  Judas;  a  primeira  se- 
gunda feira  de  Agosto,  porque  nella  matou  Caim  a  seu  irmão  Abel; 
a  primeira  segunda  feira  de  Novembro,  porque  nella  foram  arrasadas 
duas  cidades  —  Sedoma  e  Gamorra.» 

Dias  aziagos 

Janeiro  é  a  —2,  4,  M,  Io,  26,  30. 
Fevereiro  é  a  — 4,  M,  15,  20,  16. 

1  Ha  nello,  por  exemplo,  uma  versão  da  famosa  facécia  dos  ovos  de  burro. 
Depois  d'isto  escripto  saiu  uma  traduccão  das  referidas  Aventuras,  feita  em  alle- 
mão  por  H.  Õsterley  e  aceompanhada  de  notas  comparativas,  no  n.°  i  da  Zeit- 
schrift  fúr  vergleichende  Literaturgeschichfe  (Out.  1886). 


70  REVISTA   AUCHEOLOGICA 

Março  é  prefeito  em  todos  os  dias. 
Abril  é  a  —  7,  11. 
Junho  egual  a  março. 
Agosto  é  a  — 23,  i->9,  31. 
Setembro  é  a  —  17,  19. 
Outubro  é  a —  1,  G,  8. 
Novembro  é  a  —  G,  7,  11. 
Dezembro  é  a —  1,  G. 

A  tradição  de  que  me  occupo  é  das  que  não  se  transmittera  se- 
não com  o  auxilio  da  esci'ipta ;  isto  explica-nos  como  se  perdeu  no 
Minho  (n.°  1).  A  fonte  d^eUa  6  erudita  como  a  de  tantas  outras,  que, 
apezar  disso,  servem  a  monomaniacospara  reconstrucções  etluiicas. 

F.  Adolpho  Coelho. 


AMULETO  ROMANO 

Na  mina  de  S.  Domingos,  próximo  de  Mertola,  encontrou-se,  quan- 
do começou  o  desmonte  a  céo  aberto,  um  curioso  amuleto,  de  que  me 
deu  noticia  o  meu  amigo  sr.  João  Zink. 

Este  amuleto,  evidentemente  de  fabrica  romana,  e  que,  segundo 
parece  dever  deduzir-se  das  suas  dimensões,  era  destinado  talvez 
para  uso  de  animaes  domésticos,  como  com  outros  talismans  ainda 
hoje  se  pratica,  pela  sua  forma  geral  e  pelas  partes  que  o  constituem 
lorna-se  grandemente  notável  e  suggere  varias  considerações.  As  par- 
tes de  que  se  compõe  são:  uma  íiga  e  um  phallus,  oppostos  entre  si, 
outro  phallus  pendendo  naturalmente  sobre  o  scroto,  e  uma  argola  na 
parte  superior. 

Parece  á  primeira  vista  um  tiiplice  amuleto;  mas  examinando-o 
attentamente  e  reíleclindo  na  disposição  relativa  das  suas  partes,  che- 
ga-se  ao  convencimento  de  que  muitos  talismans  quiz  alli  representar 
o  fabricante,  por  meio  da  combinação  d'a(juelles  que  ficam  indicados. 

São  muito  diversos  os  talismans  que  desde  as  mais  remotas  eda- 
des  se  empregam  como  meio  de  defesa  contra  extranhas  influencias. 
Distinguem- se  entre  elles  o  sig/w-saimão  (signum  Salomonis) ;  a  cniz; 
a  argola;  o  corno  de  boi  e  o  de  carneiro;  a  nwia-laa,  a  mão,  a  follia 
de  trevo,  a  espada  (estes  se  encontram  entre  os  dixes  ou  crepundia 
dos  romanos) ;  etc. 

No  amuleto,  que  forma  o  objecto  d'este  artigo,  predominam  os  ta- 
lismans buscados  no  culto  phallico,  de  que  tantos  vestígios  ainda  hoje 
abundam  por  Ioda  a  parte,  e  de  que  tantos  restam  no  nosso  paiz,  laes 
como  os  marcos,  frades,  ou  picotas,  os  pães  de  S.  Gonçalo  (claramente 
designados  em  Guimarães  pelo  nome  vulgar  dos  orches),  as  figas.  xVlli 


E   HISTÓRICA  71 


se  vè  o  phnlliis  ou  elemento  masculino,  e  do  lado  opposlo  a  firja  ou 
elemento  feminino;  o  primeii'0  correspondente  ao  paramanlha  (in- 
strumento masculino),  o  segundo  correspondenlií  ao  arani  (instrumen- 
to feminino),  cuja  ÍVicção  reciproca  |)roduzia  o  fogo,  meio  de  produ- 
cção  que  se  comparava  como  acto  da  geração  e  por  consequência  com 
a  vida.  A  estes  dois  princii)aes  talismans  (juiz  o  fabricante  juntar 
ainda  outro,  o  penis,  que  na  parle  inferior  se  vô  sobre  o  scrolo.  Não 
será  talvez  muito  arriscado  considerar  esta  parte  do  amuleto  como 
representando  o  producto  rcsullanlc  da  fecundidade  syndjolisada  nos 
dois  elementos  já  mencionados.  Não  admira  que  ao  conjunclo  dos 
symbolos  da  geração  se  aggregasse  uma  representação  dos  órgãos  ge- 
nilaes  masculinos,  significando  um  novo  elemento  gerador,  tomado 
como  emblema  da  producção. 

Na  disposição  symetrica  da  figa  e  do  pliallus  facilmente  se  reco- 
nhece que  houve  a  intenção  de  representar  a  nieia-h(a,  outro  talisman 
muito  antigo,  que  váe  prender-se  com  o  culto  dos  astros  ou  sabeisnio. 
Convém  recordar  a  existência  do  culto  lunar  entre  alguns  povos  da 
península,  como  aponta  Strabão  *,  e  advertir  que  numerosas  supersti- 
ções populares  conservam  vestígios  d^elle  -. 

Na  argola  (jue  encima  o  anmlelo,  e  que  era  indispensável  para  a 
suspender,  vejo  mais  alguma  coisa  do  que  esta  simples  serventia.  A 
argola  é  considerada  talisman,  por  isso  se  pendura  ella,  com  outros 
amuletos,  ao  pescoço  das  creanças.  Sem  entrar  na  averiguação  e  dis- 
cussão do  seu  symbolismo,  pondero  que  a  nimia  regulaiidade  da  for- 
ma contribue  para  que  eu  veja  naqueila  argola  um  emblema,  lendo  o 
artista  aproveitado  alé  essa  parte  indispensável  do  objecto  para  for- 
mar oulro  symbolo,  no  intuito  de  accurauiar  o  maior  numero  possível 
de  talismans. 

Ainda  outra  intenção  parece  revelar-se  na  configuração  geral  do 
amuleto.  No  que  vou  dizer  não  lenho  o  intuito  de  ridiculisar  um  ob- 
jecto ou  symbolo  venerado,  nem  a  a[)proximação  quti  faço  implica  ir- 
reverência para  com  alguma  crença.  Qual([uer  que  seja  o  meu  modo 
de  pensar,  não  tenho  por  empreza  o  combater  quaesquer  ideias  reli- 
giosas; e,  quando  a  tal  fosse  obrigado  por  algumas  circumstancias, 
não  o  faria  nesta  Revista  que  jamais  será  liça  de  controvérsias  dogmá- 
ticas e  polemicas  rehgiosas,  mas  sim  cam[)o  aberto  ás  discussões  scien- 
tiíicas  conducentes  ao  estabelecimento  ou  determinação  de  verdades 
históricas.  Creio,  pois,  que  as  diversas  partes  que  formam  este  complexo 
amuleto  foram  dispostas  com  a  intenção  de  representaiem  uma  cruz, 
intenção  lalvez  mesmo  inconsciente  do  i)rincqjio  que  symbolisava, 
mas  sem  dúvida  filha  d'uma  crença  recebida  tradicionalmente.  Effe- 
ctivamente  entre  a   configuração   do  amuleto    e   a   forma   da   cruz 

1  Geogr.  m,  1,  4. 

2  Vej.  Leite  de  Vasconcellos,  Tradições  populares  poríuguezas. 


72  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

egypcia  ou  asada  (em  hieroglipho,  ankh,  o  vivo),  eaiblema  da  vida,  ha 
uma  grande  correlação.  E,  sabido  como  é  que  a  cruz  {sioastika)  sym- 
bolisa  desde  uma  remotíssima  edadeofogo  e.  por  comparação  dos  in- 
strumentos geradores,  a  geração,  ávida,  não  repugna  de  modo  algum 
que  houvesse  ainda  o  intuito  de  juntar  os  elementos  geradores  de  mo- 
do a  representarem  o  principal  symbolo  da  existência. 

São  estas  considerações  que  me  suggeriu  o  demorado  exame  do 
amuleto.  É  natural  que  algumas  pessoas  julguem  que  me  deixei  arras- 
tar pela  phantasia;  mas,  para  essas,  ponho  aqui  uma  reflexão  que  não 
devem  deixar  de  ponderar;  é  a  seguinte:  O  homem,  quando  sob  a 
influencia  duma  crença,  tende  sempre  a  reunir  a  maior  somma  de 
meios  de  defesa  contra  as  entidades  que  o  atlerrorisam  ou  que  con- 
sidera simplesmente  adversas;  do  mesmo  modo  que  tende  a  accu- 
muiar  todas  as  ideias  e  factos  que  se  lhe  deparam,  amoldando-as  ao 
principio  que  defende. 

Abril  de  1887. 

Borges  de  Figueiredo. 


NIBÍISMATICA  PORTUGUEZA 

D.  João  I 

O  reinado  de  D.  João  I  foi  de  todos  os  da  monarchia  portugueza 
talvez  aquelle  em  que  a  moeda  teve  maior  depreciação. 

Não  consta,  que  D.  João  I,  quer  nos  dezeseis  mezes  de  regedor  e 
defensor  do  reino,  desde  5  de  dezembro  de  1383  dia  em  que  matou  o 
conde  Andeiro  privado  de  sua  cunhada  a  rainha  D.  Leonor,  até  6  de 
abril  de  1385  em  que  foi  eleito  rei  de  Portugal  nas  cortes  reunidas 
em  Coimbra,  quer  desde  esta  data  até  ao  hm  do  seu  reinado,  14  de 
agosto  de  1433,  cunhasse  moeda  de  ouro.  Na  prmieira  época  do  seu 
reinado  corriam  varias  moedas  de  ouro  estrangeiras,  principalmente 
a  dobra  cruzada,  a  dobra  mourisca  e  o  franco  d^ouro  tendo  já  quasi 
desapparecido  as  portuguezas  do  reinado  anterior,  de  D.  Fernando, 
denominadas  dobras  pé-tarra  e  dobras  gentis  por  causa  das  grandes 
despezas  feitas  com  a  guerra, 

A  moeda  de  prata  e  de  cobre  cunhada  n'este  reinado  foi  também 
insignificante.  O  sr.  Teixeira  de  Aragão  cita  ^  apenas  quatro  moedas 
de  prata  cunhadas  por  este  monarcha,  sendo  Ires,  n.°^  1,  á  e  3  do 
I  vol.  est.  VII,  cunhadas  quando  ainda  era  regente  e  defensor  do  reino, 
como  accusam  as  legendas,  isto  é,  entre  os  annos  1383  e  1383  e  todas 
de  prata  de  ÍJ  dinheiros  com  a  denominação  de  real,  e  a  quarta,  que  é 

^  Discripruo  fjn-nl  e  histórica  das  moedas  cunhadas  em  nome  dos  reis,  regentes 
e  governadores  de  Portugal. 


E  HISTÓRICA  73 


O  n.°  4  tia  mesma  estampa,  cunhada  já  depois  de  eleito  rei,  pezando 
aproximadamente  o  mesmo  que  as  anteriores,  tendo  a  mesma  deno- 
minação, ou  a  de  leal,  mas,  sendo  de  niellior  prata  [lorque  era  de  10 
dinheiros. 

Todas  as  outras  moedas  cuiihad.-is  n"este  reinado  sfio  de  hilhHo  ou 
prata  muito  baixa,  p(3la  grande  poirão  de  liga  que  lhe  era  addicionada. 
De  cobre  conhecem-se  apenas  dois  ceitis. 

A  moeda  de  prata,  como  vimos  começou  por  ser  de  O  dinheiros, 
mas  nas  cunhagens  subsequentes  pelas  grandes  reducções  na  quanti- 
dade de  prata  (jue  o  monarcha  foi  mandiindo  fazer  (jara  atti-nder  ás 
extraordinárias  despezas  da  guerra,  [)or  cansa  da  successão,  contra 
João  I  de  Castella,  casado  com  U.  Beatiiz  íilha  de  D.  Fernando,  de  9 
dinheiros,  chegou  nas  moedas  cunhadas  de  1409  a  141.J  a  ser  a  prata 
de  1  6  de  V2  dinheiro. 

Por  isto  se  vè  a  depreciação  que  teve  a  moeda,  sendo  preciso  para 
attender  ás  reclamações  do  povo,  mandar  publicar  D.  .loão  1,  á  pro- 
porção que  alterava  a  liga  das  moedas,  que  lhes  diminuía  o  peso  ou 
lhes  dava  maior  valor,  leis  que  determinavam  a  forma  de  paga- 
mento e  a  relação  das  novas  moedas  com  as  antigas.  O  povo  nos 
seus  contractos  também  arbilrav;!  valores  á  nova  moeda  com  relação 
á  antiga. 

As  moedas  di;  prata  dos  reinados  anteriores,  que  correram  n"este, 
foram  os  diuhciri)^  alfoNsis.  barbudas,  graves,  pilaríes  e  rmes. 

Embora  a  historia  monetária  deste  reinado  não  seja  ainda  com- 
pletamente clara,  pelos  elementos  dispersos  e  incomplelos  deixados  pelo 
chronista  do  reinado  de  D.  João  I,  Fernão  Lopes,  pelos  que  se  encon- 
tram na  Ilisforia  Gcncalugica,  e  ainda  pelos  subsídios  fornecidas  pela 
CoUccção  de  Cortes  da  Academia  e  pelo  Elucidário  de  Vilerbo  pôde  fa- 
zer-se  uma  ideia  geral  do  systema  monetário  complicado  d'este  reinado, 
mas  não  se  pôde,  porém,  descer  a  minuciosidades,  quando  faltam  as 
noticias  de  muitas  moedas,  que  as  chronicas  não  trazem,  accres- 
cendo  ainda  que  o  texto  destas  nas  suas  parles  mais  importantes  está 
por  tal  forma  truncado  e  cheio  de  erros  que  não  é  fácil  tarefa  decifral-o 
como  acontece  com  o  de  Fernão  Lopes.  O  livro  de  D.  Duarte  também 
não  está  certo  e  portanto  ha  n"estc  reinado  ainda  alguns  pontos  uuiito 
escuros,  e  ignorância  sobre  algumas  moedas  como  as  que  vamos  cilar. 
O  sr.  Teixeira  de  Aragão  não  conheceu  as  moedas,  que  vamos  des- 
crever, nem  Lopes  Fernandes  também  se  referiu  a  ellas. 

Este  reinado  numariameute  fallatido,  precisa  um  estudo  mais  com- 
pleto do  (jue,  os  até  agora  feitos,  embora  o  sr.  Aragão  traga  com  re- 
lação a  elle  um  trabalho  já  dt^senvolvido.  Este  estudo  é  obra  para  maior 
fôlego,  que  nos  propomos  apresentar  mais  tarde;  por  agora,  limiíanio- 
nos  a  descrever  as  duas  moedas  novas  que  possuímos,  fazendo  sobre 
ellas  algumas  considerações,  porque  entendemos  que  tendo  dado  duas 
moedas  portuguezas  do  principio  da  monarchia  pertencentes  á  nossa 


74  EE VISTA   ARCHEOLOGICA 

collecção,  devíamos  seguir  uma  ordem  quaulo  possível  chronologica, 
que  facilitasse  a  procura  a  qualquer  estudioso  ou  curioso  que  nos 
quizesse  ler. 

As  ;36  moedas  descriptas  pelo  sr.  Teixeira  de  Aragão  como  per- 
tencentes a  D.  João  I  estão  agrupadas  pela  seguinte  forma  numa  ta- 
beliã annexa  á  descripção  do  !'einado: 

«Do  n."  l  a  3  rcacs  de  praia  de  10  soldos  e  de  9  dinheiro  cunha- 
dos de  1383  a  1385  quando  D.  João  ainda  era  regedor  e  defensor  do 
reino  com  o  pezo  de  04  grãos.» 

N."  4  —  Hcal  d(>-  praia  ou  leal  cunhada  depois  de  rei,  com  o  peso 
approximado  dos  anteriores. 

«N.'^  3  a  7  —  Reaes  de  10  soldos  de  2  dinheiros  lavrados  em  1386 
com  o  peso  de  61  ^^70. 

«N."*  8  a  11 — Moedas  de  10  reaes  ou  reaes  brancos  mandados  cu- 
nhar em  1415,  de  bilhão  ou  prata  baixa,  de  lei  de  V2  a  3  dinheiros  e 
pezo  de  64  grãos».  Esta  depreciação  máxima  foi  motivada  pela  neces- 
sidade de  atlender  ás  despezas  com  a  conquista  de  Ceuta,  havendo  já 
quatro  annos  que  estava  feita  a  paz  definitiva  com  Castella. 

«N.°'  12  a  \1  — Reaes  de  3  V2  libras  de  1398  a  1408,  de  lei  de 
1  V2  dinheiros,  pezando  31  '^^jm  grãos. 

«N.^^  {^  e  \'d—Rmes  de  10  soldos  lavrados  de  1387  a  1391,  com 
1  Ya  dinheiros,  com  o  pezo  dos  anteriores. 

«N.^'  20  a  22 — Meios  reaes  cruzados,  lavrados  de  1409  a  1415  de 
de  lei  de  1  dinheiro,  com  o  pezo  de  38  *Vi20  grãos. 

«De  23  a  34  —Reaes  de  10  soldos  de  1392  a  1397,  de  lei  de  2  di- 
nheiros com  o  pezo  de  25  ^^Viso.» 

N.°^  35  e  36  —  Ceilis  exclusivamente  de  cobre. 

Ora  na  descripção  que  destas  moedas  faz  no  texto,  diz  o  sr.  Tei- 
xeira de  Aragão  que  a  do  n.°  26  peza  16  grãos;  a  do  n."  27,  13;  a 
do  n.°  28,  16;  a  do  n."  29,  12;  a  do  n.°  30,  14  grãos;  etc. 

Como  podem  portanto  estas  moedas  todas  de  cunho  variado  pe- 
zando tão  pouco,  sem  que  accusem  estarem  gastas  a  ponto  de  produ- 
zirem estas  difíerenças,  serem  reaes  de  10  soldos  lavrados  entre  os 
annos  de  1392  a  1397,  que  deviam  ter  o  pezo  de  23  *^Vi8o.  grãos? 

Ha  forçosamente  engano  e  algumas  d"estas  moedas  não  podem  ter 
a  denominação  de  reaes,  mas  sim  a  de  fracções  de  reaes  com  ou  sem 
outra  denomiiiaçrio  especial;  ou  houve  ainda  outra  cunhagem  com  pezo 
inferior  e  outra  lei  (jue  lhe  disse  respeito  e  que  os  chronistas  e  docu- 
mentos existentes  não  citam. 

E  mal  se  comprehende  que  tendo  sido  lavradas  estas  moedas  en- 
tre os  annos  de  1392  a  1397,  e  havendo  depois  d'este  periodo  de  fa- 
bricação, mais  três,  de  moedas  divei-sas,  como  reaes  de  3  */2  libras 
de  1398  a  1408,  vieios  reaes  cruzados  de  1409  e  1415  e  reaes  bran- 
cos, em  1415,  a  depreciação  da  moeda  fosse  n"a(iuella  época  tão  grande, 
melhorando  de  condicções  nas  subsequentes  cunhagens,  quando  as 


E    HISTÓRICA  75 


necessidades  da  guerra  com  Hespanha  e  o  enorme  dispêndio  da  con- 
quista de  Ceula  que  agravavam  muito  as  condições  económicas  do  paiz 
deviam  levar  o  monarclia  a  aggravar  lambem  cada  vez  mais  as  coiidic- 
ções  da  liga,  e  do  [leso.  sahcudo-se  como  s.e  sabe,  que  foi  a  cuiibagem 
da  moeda  a  sua  pruicipal  receita. 

Lopes  Fernandes  *  cliama  ás  moedas  que  o  sr.  Aragão  traz  na  sua 
obra  com  os  n.°^  23,  á8  e  129  fracções  de  reaes,  e  traz  além  d  estas  uma 
outra  moeda  que  o  sr.  Aiagão  não  cita  no  seu  livro.  —  As  outras  d"este 
grupo,  que  o  sr.  Aragão  descreve,  L.  Fernandes  não  conheceu. 

As  nossas  moedas  |)ertencem  a  este  grupo  que  chamaremos  como 
Lopes  Fernandes  fracções  de  reaes. 

Dissemos  que  a  moeda  do  sr.  Aragão  que  mais  se  aproximava  das 
duas  que  vamos  descrever  era  a  do  n."  'ili  que  se  acha  ali  descripta 
como  segue : 

«  >i<  1 II  N  S  X  D  E  I  X  G  R  A  X  R  E  X  X  P  O  R  T  •  Dentro  de  um 
circulo  loi-mado  por  quatro  arcos,  as  quinas. 

íí).  >i<  A  D  I  V  T  O  R  I  M— N  O  S  T  R  V  N  .  No  centro  I  H  N  s ;  por 
cima  entre  dois  pontos  a  coroa  real;  em  baixo  lambem  no  meio  de 
dois  pontos,  L.  Em  três  exemplares  escolhidos  veriíicámos  o  peso 
de  -O  a  30  grãos.  Meio  real  cruzado.  B. —  C.» 

Este  indo  real  cruzado  é  engano  typographico  e  deve  ser  real  de 
10  soldos  segundo  vemos  na  synopse  a  que  já  nos  referimos. 

A  nossa  1.^  moeda  é: 

►I<  I  H  N  S  *  DEI  #  G  R  A  C  I  A  # —  No  centro  dum  circulo  pon- 
tuado I  H  N  S,  tendo  um  ponto  ao  meio  e  superiormente;  [lor  cima  en- 
tre duas  cruzes  a  coroa  real;  em  baixo,  l  também  no  meio  de  duas 
cruzes. 

ít)  >i<  I  H  N  S  #  D  E  I  #  G  R  A  C  I  A  *  R  .  —  Dentro  de  um  circulo 
pontuado  oito  arcos,  em  grupos  de  dois  a  dois,  ligados  por  um  ílo- 
rão,  e  dentro  destes  as  quinas  portuguezas.  Vide  est.  xi,  n.**  l. 

A  segunda  moeda  é: 

>í<lHNSo  DEI»  GRA»  REX»  — No  centro  de  um  circulo 
pontuado  i  HN  S  lendo  um  ponto  ao  meio  e  superiormente;  por  cima 
a  coi'òa  real^  em  baixo  l  entre  dois  pontos. 

í<)^PORTVGALlEi  ET  %  A.  —  Dentro  de  um  circulo 
pontuado,  quatro  arcos  ligados  por  quatro  arruelas  e  dentro  destes 
arcos  as  quinas  portuguezas.  Vide  est.  xi,  ii.°  2. 

Comparando  o  primeiro  d'estes  dois  typos  novos  com  o  real  de  10 
soldos  acima  descripto,  vé-se  que  a  ornamentação  do  cunho  é  egual, 
dilteiindo  apenas  em  o  typo  novo  ter  aos  lados  da  coroa  e  do  L  cru- 
zes em  logar  de  pontos.  Na  legenda  é  ({ue  a  dilTerença  é  importautis- 
sima. 


Memoria  das  moedas  correntes  em  Portugal. 


76  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

No  novo,  é  substituído  o  a  D  l  v  T  O  R  i  M  N  o  S  T  R  v  N  ou  cor- 
rectamente A  D  I  V  T  O  R  I  V  AI  N  O  S  T  R  V  M  ,  coiuo  tem  todas  as 
moedas  d'este  reinado,  á  excepção  dos  n.°*  20,  'ál  e  i22  meios  reaes 
cruzados,  e  29,  30  e  31    suppostos  reaes  de  10  soldos,  por  IHNS 

DEIGRACIAR. 

N'estes  números  ([ue  nao  tem  o  adivtorivm  o  cunho  é 
completamente  outro. 

O  segundo  typo  (pie  apresentamos  tem  então  variantes  mais  impor- 
tantes.—A  legenda  adivtorivm  é  substituída  pela  continua- 
ção da  legenda  do  anverso  portvgalie  ET  A,eas  quinas 
em  logar  de  estarem  dentro  de  oito  arcos  ligados  dois  a  dois,  estão 
denti'o  de  (piatro. 

A  [)rim('iia  das  moedas  peza  21  grãos  e  a  segunda  14.  Estas  duas 
moedas  além  de  serem  diversas  das  descriptas  pelo  sr.  Aragão,  diííe- 
rem  também  essencialmente  entre  si,  no  tamanho,  legenda  e  cunho. 

Podíamos  ter  citado  vários  outros  exemplares,  pertencentes  a  este 
reinado  em  (pie  as  legendas,  sendo  as  mesmas  na  essência,  differem  com- 
tudo  em  estarem  umas  mais  completas  do  ipie  outras.  Isso  não  importa 
um  typo  novo,  mas  apenas  variantes  insignificantes  na  fabríca(;ão  irregu- 
lar da  mesma  moeda  e  por  isso  não  accusamos  estas  dífíerenças  como 
também  não  indicamos  a  variedade  de  signaes  occultos  que  se  encon- 
tram na  moeda  do  mesmo  cunho. 

Das  moedas  que  tem  a  nossa  collecção  pertencentes  a  este  reina- 
do, stó  estes  dois  typos  novos  e  por  serem  novos,  prenderam  a  nossa 
attenção  e  hão-de  interessar  certamente  os  colleccíonadores. 

M.  Alexandre  de  Sousa. 


TIJOLO  DO  SÉCULO  XVI 

O  tijolo  que  se  \ò  representado  na  estampa  xi  existe  no  Museu  do 
Carmo.  Segundo  informações  alli  colhidas  foi  elle  encontrado  em 
Alemquer  ou  circumvisinhanças  (Pesla  villa.  1^^  curioso  [)ela  inscripção 
que  tem,  e  que  se  reconhece  ter  sido  feita  com  um  ponteiro  de  qual- 
quer natureza,  antes  de  secco  o  barro.  A  inscripção  é  a  seguinte: 

esle  ligollio  Jir 
de  fernãdalua 
res 

Este  Fernando  Alvares  ou  Fernão  Alvares  foi  o  fabricante  que 
marcou  a  sua  obra.  ou  o  destinatário  que  nella  quiz  o  seu  no^ne?  Ou 
será  tal  insctipção  apenas  o  resultado  diim  breve  entretenimento? 

Em  (jualquer  dos  casos,  pela  forma  da  leltra,  o  tijolo  d  dos  prin- 
cípios do  século  XVI. 


E    IIISTOKICA  77 


CONSTITUIÇÕES  DO  ARCEBISPADO  DE  LISBOA 

Decrcladas  por  D.  João  Esteves  (I'Azaml)iija  (1402-14 li) 

{Coulinnadu  de  piKj.  64} 

15  liem  poniu;inlo  nas  cousas  espiriluaes  num  (Joue  seer  feia 
preylisia  nem  aiieença  desonesta  pêro  se  depois  (jue  forem  feias  e 
cellebradas  as  ditas  cousas  ('S|)irituaaes  aliíiinia  roíisa  for  dada  aaquel 
que  as  cellebr.ir  pêra  ajuda  de  seu  uiaiiliuuenlo  liçilameiíle  e  com 
rrazam  lio  pode  tomar  e  celebrar  porem  defendemos  aos  sacerdotes 
e  a  todos  os  outros  creligos  que  nom  façam  aueenças  nem  preytisias 
por  dinlieiros  nem  por  alguma  outra  cousa  lemporall  por  dizerem 
missas  e  prezentes  ou  por  outros  oficiios  diuinos  e  sse  aipielles  (jue 
as  missas  ou  outros  olicios  diuinos  mandarem  fazer  e  cellebrar  nom 
satisfezerem  com  alguma  cousa  e  tall  demanda  for  presente  os  nos- 
sos uigairos  e  oliciiaaes  mandamollies  que  elles  aluidrem  aquillo  que 
os  ditos  creligos  aguisadamente  podem  merecer  e  for  acustumado  de 
liie  darem  que  logo  sem  dellonga  e  figura  de  juizo  lho  façam  pagar 
quando  diserem  taaes  missas  ou  ofícios. 

10  Item  porfjuanlo  as  cousas  santas  nom  deuem  ser  apenhoradas  a 
algum  leygo  saluo  em  grande  necessidade  porem  estabelleçemos  e  sob 
pena  de  excommunliom  mandamos  que  os  Reytores  uigairos  e  outros 
creligos  do  nosso  arcebispado  nom  vendam  nem  apenhoremnem  alheem 
as  cousas  hordenadas  e  deputadas  ao  ocullto  (.s/f)  e  diuino  oficiio  asy 
como  liuros  calleçes  vestimentas  e  outros  ornamentos  quaaesquer  nem 
llias  compre  alguém  nem  rrecebam  em  penhor  nem  precurem  de 
seerem  alheadas  doutra  guisa  poemos  sentença  de  excommunhom  e 
aquelles  que  o  penhor  rreçeberem.  declaramos  ajnda  e  determinamos 
taaes  vendições  e  apenhoramentos  e  emaiheamentos  seerem  nenhuns 
e  de  nenhum  vallor  e  os  que  assy  emalhearem  mandamos  que  sejam 
denunciados  por  cxcumungados  aataa  {sic)  que  as  ditas  cousas  em- 
alheadas  vendidas  apenhadas  {sic)  sejam  entregues  aas  egreias  e  assy 
merçeram  auer  beneficiio  de  al)soIhiçam  resaruando  a  nos  o  poderio 
de  despensar  sobre  as  ditas  cousas  quando  rrazam  e  aguisado  for  e 
moormente  con  aquelles  que  seruem  a  nos  e  aa  nossa  egreia  cathe- 
drall  e  aos  nossos  coonigios  {sic}  e  os  outros  creligos. 

17  Item  por  quanto  os  priores  Reytores  e  vigairos  que  teem  as  cu- 
ras das  almas  arrendam  aas  vezes  pei'  sua  autoridade  própria  os  pees 
dos  altares  das  suas  egreias  e  beneficiios  a  leygos  e  por  que  taaes 
rrendeyros  fazem  e  demandam  aos  fregueses  cousas  per  as  quaaes 
os  fregueses  e  beneficuados  e  capellaães  das  egreias  sam  escandalli- 
zados  e  maltrautados  porém  defendemos  aos  ditos  priores  Reytores  e 
vigairos  que  os  nom  arrendem  per  sua  própria  autoridade  e  sse  per 
alguum  delles  o  contrayro  for  feto  mandamos  que  perca  aquillo  por 


78  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

que  o  arrendarem  e  que  aja  as  Rendas  daquell  anno  a  obra  da  sse 
ficando  a  terça  parte  pêra  fabrica  daquella  egreia  em  que  assy  forem 
arrendados. 

18  Item  por  darmos  aazo  que  os  Reytores  das  egreias  acrecentew 
e  conseruem  de  milhor  vontade  as  cousas  delias  stabelleçemos  que 
cada  buum  prior  Reytor  e  viiiairo  possa  despoer  e  ordenar  asy  como 
lhe  apronuer  ao  (empo  da  sua  morte  dametade  dos  beens  moneys 
que  teuer  e  ouuer  das  Rendas  da  egreia  de  que  lie  prior  Reytor  vi- 
gairo  pagadas  as  diuadas  em  que  for  obrigado  e  o  que  for  thiudo  de 
pagar  per  os  bens  da  egreia  ou  vigairya  que  teuer  e  sse  perventura 
a  egreia  teuer  uinlias  herdades  que  o  prior  vigairo  adubar  laurar  ou 
aproueytar  per  ssy  aa  sua  custa  e  ao  tempo  da  sua  morle  as  vinhas 
herdades  forem  a[)roueitada  (sic)  lauradas  semeadas  em  tal  guissa  que 
os  fructos  se  possam  apanhar  sem  mais  adobiio  que  laaes  fructos 
posto  que  a[)anhados  nom  sejam  ao  tempo  da  morte  do  prior  ou  ui- 
gairo  ajam  amelade  e  que  possam  delles  despoer  os  fezerem  e  apro- 
ueytarem  ante  que  morressem  como  dito  he  que  se  faça  dos  que  thi- 
nham  em  poder  e  a  outra  meetade  aja  ho  soçessor. 

19  Item  stabelleçemos  que  os  priores  Reitores  ou  vigairos  das 
egreias  da  dita  cidade  e  arcebispado  nom  façam  preytisia  ou  empra- 
zamento emphitiotico  ou  qualquer  outro  contrauto  dos  beens  da  rraiz 
das  ditas  egreias  nem  hobriguem  nem  apenhem  (sic)  alguma  cousa 
dos  ditos  beens  nem  façam  permudaçam  nem  feryza  das  possissõoes 
delias  sem  nossa  licença  e  mandado  espiciall  e  doutra  gujsa  fazendo 
elles  ou  cada  huum  delles  o  contrayro  mandamos  que  as  preytisias 
emprazamentos  contrautos  obrigações  apenhoramentos  ennhalheamen- 
tos  permudações  feyras  ou  trautos  sejam  nenhuns  e  irritos  pêra  es- 
se feto.  e  nom  seja  per  elles  feto  algum  dapno  as  ditas  egreias  e 
aquelles  que  taaes  apenhoramentos  e  obrigações  emlhamentos  (sic) 
permudações  canybos  (sic)  fezerem  ssem  nosso  mandado  espiciall  se- 
jam os  ditos  contrautos  nenhuns  e  ssejam  constrangidos  de  pagar  e 
entregar  per  seus  beens  todollos  dapnos  e  perdas  que  sse  aas  ditas 
egreias  seguirem  de  taaes  contrautos. 

20  Item  como  assy  seja  que  alguuns  nossos  antecessores  de  boa 
memoria  stabellecessem  e  mandassem  sob  pena  de  excommunhora 
que  os  Reytores  priores  vigairos  e  outros  creligos  nom  recebessem 
nem  leuassem  dizimas  das  terras  nom  limitadas  a  seus  beneficiios  ou 
que  nom  fossem  lauradas  per  seus  fregueses  e  essomedes  aquelles 
que  trouuessem  as  ditas  terras  nom  pagnassem  dizimas  delias  aal- 
guuns  sem  seu  espiciall  mandado  e  nom  embargando  esto  muylos  fe- 
zerom  e  fazem  o  contrayro  Receberom  e  leuaram  as  ditas  dizimas  em 
escandallo  de  muitos  e  periigo  das  suas  almas,  porém  estabelleçemos 
e  mandamos  a  todollos  priores  Reytores  e  vigairos  e  a  todollos  ra- 
çoeyros  e  creligos  arendadores  e  teentes  suas  vezes  que  gardem 
a  dita  constiluiçam  feia  per  os  ditos  nossos  antecessores  e  nora  vaao 


!•:  iiisroniCA  79 


conlra  ella  vm  nenlmina  guissa  e  nom  prosumam  flaqui  em  diante 
rroçiiher  nem  demandar  per  ssy  nem  per  outrem  dizimas  das  terras 
nom  limitadas  aas  suas  egreias  ou  sse  nom  forem  lauradas  per  seos 
fregiiesscs  ou  (h;  heens  (juo  perleençam  aas  capellas  e  alhcrgarias  fjue 
sejam  liedylicidas  em  suas  egieias  ou  frei^uisias  ssem  nossa  licença 
e  esi)içiall  mnndado  e  quaaes  quer  que  desslo  fezerem  o  contrayro 
que  tornem  aquillo  que  asy  receberem  con  outro  tanto  e  que  esto  aja- 
mos nos  011  (jiiallquer  ouiro  a  quem  perteenrer  per  direiío. 

21  Item  [)()r(|M(;  muytas  vezes  por  mingoa  t;  niiiligcncia  do  pastor  o 
lobo  come  a  ouelha  e  os  pecados  dos  ,sul)(Jitos  por  culijas  e  negligen- 
cia dos  prellados  lhes  liam  de  seer  demandados  das  suas  maaos  no  dia 
do  juizo,  porém  querendo  nos  nos  gardar  de  tanto  e  laam  grande  pe- 
riigo  stabellecemos  que  todallas  pesoas  conigos  e  outros  beneficiados 
em  nossa  egreia  cathedi^all  de  lixboa  e  os  reytores  priores  vigairos 
das  egreias  da  dila  cidade  e  arcebispado  que  teuerem  cura  dalmas  al- 
de  menos  liiima  vez  no  anuo  se  confessem  a  nos  (?  aos  arcebispos  de 
lixboa  que  per  os  lenpos  forem  ou  a  outrem  do  nosso  ou  do  seu  espi- 
ciall  mandado  e  os  raçoeyros  e  fregueses  se  confessem  a  seos  reyto- 
res e  vigairos,  ssaluo  em  aquelles  casos  em  que  de  direito  a  nos  de- 
uem  sser  remitidos  e  emviados  per  os  ditos  reitores  e  vigairos  e  em- 
quanto  vagar  a  egreia  di;  lixboa  e  em  todallas  sobre  ditas  pessoas  vaão 
per  suas  conilissõoes  ao  vigaii'o  ou  vigairos  que  forem  postos  na  see 
vagante. 

22  Item  mandamos  e  defendemos  a  todollos  priores  reytores  e  vigai- 
ros das  egreias  da  nossa  cidade  e  arcebispado  que  cura  dalmas  que 
lhes  per  nos  ou  per  nossos  anleçessoi'es  he  comitida  (jue  a  nom  come- 
tam nem  presumam  aalem  de  liuum  mez  de  comeler  a  alguum  outro 
sem  nossa  licença  e  mandado  espiciall  e  se  presumirem  de  facto  fazer 
o  contrai]'o  desto  mandamos  que  assy  os  que  tomarem  as  ditas  curas 
como  aquelles  que  as  receberem  contra  esta  nossa  presente  constitui- 
çam  paguem  senhos  meos  marcos  de  prata  pêra  a  obra  da  ssee  e  se- 
jam punidos  segundo  aluidro  do  arcebispo  e  nom  embargando  esto  rre- 
uogamos  taaes  encomendas  ou  comissões  fectas  aliem  do  dito  lenpo 
de  huum  mez  pêra  as  ditas  pesoas  e  auemollas  por  nenhumas  porque 
taaes  costituições  e  sob  estaliilicidas  nom  podem  de  direito  legai-  nem 
absoluer  os  fregueses  das  ditas  egreias  [lera  as  ditas  comisõoes  obsor- 
ragações  e  assy  almas  dos  ditos  freguezes  sam  per  elles  enganadas  por 
o  que  por  as  ditas  comissõoes  nom  ouueram  nenhum  poderio. 


{Continua). 


80  REVISTA    ARCHEOLOGICA 

BIBLIOGRAPHIA 

Estudos  eborenses  (Historia,  Arte,  Archeologia),  por  Gabriel  Pe- 
reira. 1'iiblicação  mensal  —  8.*^  Evoi'a,  edil.  Pereira  Abranches. 

Docr.MHNTos  iiisToiticos  DA  CIDADE  DE  EvoíiA,  pelo  niesoio.  Publi- 
cação por  assignatura,  4.°— Évora,  1/''  parte,  (í)  fascículos)  1883-86. 

Poucas  povoações  portuguezas  são  tão  ricas  em  antiguidades  e  no- 
ticias como  Évora,  e  poucas,  como  ella,  tem  sido  objecto  de  estudos 
conscienciosos  de  pessoas  competentes. 

O  sr.  Gabriel  do  Monte  Pereira,  a  quem  já  se  devia  uma  interes- 
sante série  de  opúsculos,  onde  reuniu  grande  parte  das  informações 
que  nos  deixaram  os  auctores  da  antiguidade  acerca  da  peninsula  ibé- 
rica, e  ainda  outros  trabalhos  históricos  e  litterarios,  emprehendeu  a 
publicação  dos  Estudos  Eborenses,  repositório  de  memorias  de  todas, 
as  ed.ides  relativas  á  importante  cidade.  Estão  já  publicados  nove 
opúsculos  que  são  (pela  oi"(lem  do  seu  apparecimento):  \.°  O  mostei- 
ro de  Nossa  Senhora  do  Espinheiro;  2.°  Évora  romana,  1.^  parte:  O 
templo  romano.  As  inscripções  lapidares;  3.°  A  Casa  pia.  O  ediíicio 
do  collegio  do  Espirito  Santo  da  Comi)anhia  de  Jesus,  fundado  pelo 
cardeal  rei  em  l.jol.  A  egreja.  A  instituição  da  Casa  pia  em  '1836 ; 
4.°  Lóios;  3.°  Bibliotheca  publica;  C.°  Conventos,  l.'"^  parte:  Paraiso, 
Santa  Clara  e  S.  Bento;  7.°  Delias  artes;  8.°  e  9.°  As  Vésperas  da 
Restauração. —  Em  todos  estes  estudos  se  notam  as  grandes  aptidões 
do  auclor  e  a  sua  constante  applicação;  e  alli  se  encontram  colligidas 
preciosas  noticias. 

Os  Documentos  históricos  da  cidade  de  Évora  contêm:  documentos 
dos  séculos  xii  a  xiv;  extractos  referentes  a  1350-1450;  posturas  mu- 
nicipaes  do  século  xiv ;  regimento  da  cidade  em  tempo  de  D.  João  i. 

Esta  publicação  é  d'aquellas  cuja  importância  ninguém  pode  des- 
conhecer ;  e  não  hesitamos,  do  mesmo  modo  que  á  antecedente,  em 
consideraí-a  como  um  relevante  serviço  prestado  pelo  sr.  Pereira  á 
historia  pátria. 

Permitta-se-nos,  porém,  que  façamos  duas  ol)servações  acerca  dos 
Documentos:  a  primeira  é  que  muito  augmentariam  o  interesse  da  pu- 
blicação algumas  notas  topographicas,  históricas,  ethnographicas,  ar- 
cheologicas  c  económicas,  a  exemplo  do  que  fez  o  sr.  Ayres  de  Cam- 
pos nos  seus  óptimos  índices  dos  documentos  da  Camará  Municipal  de 
Coimbra;  a  segunda  é  que  muito  facilitará  a  consulta  d'este  livro  um 
Índice  analytico  das  matérias  ou,  ao  menos,  um  Índice  alphabetico  dos 
documentos.  Quanto  a  esta  ultima  observação,  é  [)ossivel  que  o  auctor 
tencione  dar  o  Índice  analytico  no  íim  da  2.*  parte,  que  os  estudiosos 
anceiam  por  vèr  publicada. 


E  HISTÓRICA  81 


CTPPO  FUNERÁRIO  ROMANO 
(lescolicrlo  em  Vizcu 

Km  princípios  de  março  ullimo,  ao  proceder-se  á  demolição  d'uma 
parede  interior  duma  casa  na  rua  de  S.  Luis,  antigamenli;  chamada 
da  Regueira,  em  Vizeii,  casa  em  (|ue  liabila  o  sr.  dr.  José  Barbosa  de 
Carvalho,  descobriu-se  um  cip|)o  funerário  romano,  de  gi"anilo,  do 
qual  obsequiosamente  me  deu  noticia  e  me  enviou  [)hotogra[)hia  o  meu 
amigo  sr.  Conde  de  l^rime,  a  quem  reitero  aqui  os  meus  agradeci- 
mentos cordialissimos. 

A  estampa  \m,  que  reproduz  com  toda  a  exactidão  a  photographia, 
dispensa  a  descripção  minuciosa  do  moiinmenlo.  (jue  consta  duma 
íigura  de  mulher  vestida  de  túnica  íianjíida,  infclizmtnite  mutilada  na 
parte  superior,  e  duma  inscripção.  No  jornal  O  Commercio  de  Vizeu, 
11."  80,  de  abril,  foi  já  pelo  sr.  Toro  dada  representação  do  monu- 
mento em  gravura  de  madeira  e  a  inscripção  lida  no  geral.  Mas  a  gra- 
vura não  era  exacta  quanto  ás  proporções  do  monumenlo,  nem  quanto 
á  reproducção  das  lellras.  O  cip[)o  mede  0"',í)0  de  alt..  0"\4()  de  larg., 
0"\30  de  expes.  média. 

A  inscripção  diz: 

Jigiim 

de  mulher  lCa\esae    Viriati  s[ervae),  [^j)i\norwn  XXX,  -uncimis 

^SAE  •  VIRIATI  S  Rcb(urrits)  malri  f(adiindinn)  c{wavit). 

.t;J|NORVM  •  XXX  Monumcntu  elevado  a  Cacsa,  serva  de  Viriato,  falleci- 

-.ONCINVS   •    RLB  jj^  ,-,3  ^dade  de  trinta  annos.  Longinus  (?)  Reburrus  man- 

MATRI  •  P  •  C  jQy  fazei- o  em  honra  de  sua  mãe. 


O  nome  Caesae  encontra-se  em  uma  inscripção  da  Itália  (C.  /.  L., 
IX,  n.°  *  !28:}0).  dado  todavia  como  de  leitura  incerta;  porém  noutras 
inscripçôes  da  Itália  (C.  /.  I.,  i,  n.**  I08j  da  Gallia  Cisalpina,  \C.  I. 
L.,  \,  n.°'  í.jO  e  018)  e  de  Palma  (C.  /.  L.,  11,  n.'' 3088)  enconlra-se 
o  diminutivo  Caesida  cujo  positivo  é  sem  duvida  Cacsa,  Cacsiis  en- 
contra-se numa  inscripção  de  Obidco  (C.  I,  L.,  11,  n.°  2126;  Rev.  Ardi., 
p.  oú).  Proponho  pois  esta  leitura  do  primeiro  nome. 

ViiiatHs  é  nome  vulgar  na  península:  e  vista  a  importância  que 
tal  nome  tem  para  nós,  por  assim  se  chamar  o  capitão  que  symbolisa 
a  resistência  dos  lusitanos  ao  poder  de  Roma,  aqui  reuno  os  diver- 
sos monumentos  epigraphicos  peninsulares  que  conheço,  onde  esse 
nome  se  lè. 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N.»  6  —  Junho  1887.  6 


82  KEVISTA   ARCHEOLOGICA 


l. —  Em   Santo   Cruz  de  la   Sierra  (Tiii'galium)  descobriu-se  nni 
cippo  com  este  leltreiro  {(L  1.  L.,  u,  ii."  084): 

\'  I  R  I  A  T  V  s 

T  A  N  C  I  N  1    •    F 
H    •    S    •    K 

i.— Em   Coiia  lia-se   em  nua  piedra  de  canteria  no  tnuy  grande 
ilbid..  n."  791): 

\'  I  K  1  A  T  V  S 

:í. —  Em  GasliiiN  (Valle  de  Eaiia,  próximo  de  Estellam)  se  desco- 
briu mais  a  segiiiiile  dbid.,  u.'^  láUTO): 

protome  feminae 

mundus  inuliebris 

D  •  M  •■  AI  •  BVTVRRA  •  BIRIATI  Fl 

LIA    A/  •  X  X  X  •  H  .  S 

taitrus  procwreus 

4.-- No  sitio  de  Avellor  (perto  de  Braga)  descobiiii-se  ainda  a  se- 
giiiiile  iniporlaiite  inscripção  ilbid.,  n.*^  2435) : 

astriDU 
A  R  Q  V  I  V  S 
V  I  R  I  A  T  / 
3  •  AgRWpAe 
H  •  S  •  çjj  E  S  T 
3  M  E  L  G  A  E 
CVS  •  PELISTI 
MONIME  n  t  v  m 
CO 


Gonfronlem-se  ainda  as  seguintes  inscripções,  todas  descobertas 
na  península  (C.  I.  L.,  m:  VIRIACIVS  (n."  001),  VIR  IO 
i  n."**  425;)  e  42r)()).  v  1  R  I  A  (n."  425()).  VIRIA  A  C  T  E  (n.°'  Mr\ 

3774;;  e  vej;un-se  lambem  os  números  lUUO,  2OU0,  392't.  e  ainda 
333,  além  d  outros. 

O  nome  da  terceira  linba  —  o  N  c  l  N  v  s  (e  não  Onceivs,  como  o 
sr.  Toro  leu,  julgando  ver  na  lapide  ires  III)  não  me  paiece  comple- 


E    IIISTOKICA  83 


clu.  Talvez  se  devesse  ler  [L]i)n[(j]inus.  O  cognome  lirhurrns,  muito 
vulgar,  apparece  iiuulia  Hiscri[)(;ãu  de  Vizeu  {C.  L  L.,  n,  ri.'*  411;: 

V  A  L  E  k  I  O 
i<   !•:   B   V    R 

RO  ■  AN  •  XVII 
R  A  T  líR-  E  T 
5       M    A     l"    1-:    R 
F  •  C 

A  descoboita,  em  Vizeu,  duma  iuscripção  com  o  nome  de  Viriato 
deve  [)ara  mintas  pessoas  ser  mna  conliiinaçâo  de  antigas  lendas. 
Quem  assiíu  o  acreditai-,  advirta  •lue  houve  muitos  Virialos  ;  e  (jue 
ainda  não  está  em  didjnitivo  assente  (pie  o  antigo  llarminio  corres- 
ponda á  monlaniia  cliamada  Serra  da  Estrella. 

BouGES  DE  Figueiredo. 


NUMIS.AIATICA  PORTUGUEZA 
D.  João  I 

Bem  diziamos  nós  no  o.*^  numero  da  [\i'i  isln  Arc/iroloi/ica,  quando, 
fazendo  algumas  considerações  sobre  a  nuuiaiia  do  reinado  de  D. 
João  1,  e  procurando  juslilicar  com  razões  obvias  a  dL'nomma(;ão  de 
fracções  de  rcaes  que  dêmos  a  duas  moedas  novas,  não  as  encoipo- 
raiido  num  grupo  conliecido  talvez  injustiíicadamenle  com  outra  de- 
nominação, aHiiuiavaindS  (pie  a  historia  monelai  ia  desie  reinado  iiTio 
era  ainda  C(»iii[)letamente  clara  e  conhecida  poripie  íallavam  as  noti- 
cias de  muitas  moedas  que  as  chiouicas  e  mais  documentos  existentes 
não  citavam. 

Duas  moedas  novas  vem  corroborar  a  nossa  asserção  respectiva- 
mente á  falia  de  noticias  deste  leinado. 

Estas  duas  moedas  |)reciosas  e  únicos  exemplares  que  conhecemos, 
em  bom  estado  de  conservação,  pertencentes  á  collecção  do  dislinclo 
numismata  e  nosso  amigo  o  sr.  Júdice  dos  Santos,  cavalheiro  que  lam- 
bem concorreu  para  augmenlar  d'uma  maneira  considerável  os  impor- 
tantes trabalhos  e  a  noticia  desenvolvida  que  <j  sr.  Aragão  dá  sobre 
moeiias  porluguezas,  facultou  ao  nosso  estudo  as  suas  moedas  para 
d'ellas  darmos  uma  descri()ção. 

Uma  delias  pertence  ao  grupo  dos  reaea  de  3  Va  libras  e  é  uma  va- 


84  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

riedade  iniporlaiilo  do  real  que  sob  o  n."  13,  est.  viii,  tom.  I,  o  sr. 
Aragão  descreve  na  sua  obra. ' 

A  outra,  pelo  cunho,  não  deveria  pertencer  a  nenhum  dos  grupos 
citados  no  nosso  anterioi"  artigo  sobre  este  reinado. 

O  seu  reverso  assimelhase  um  pouco  no  anverso  do  real  de  lu  soldos 
desciipto  pelo  sr.  Aragão*  sob  on."  2  deste  reinado,  dilíerindo  apenas 
na  legenda  que  é  de  rei  e  não  de  regente  e  em  ler  um  P  em  logar  dum 
L:  o  anverso  dá  uma  ideia  do  anverso  do  real  de  3  Va  libras,  com  n.° 
16,  mas  com  a  legenda  que  tem  o  reverso  desta  moeda  e  também  só 
iruma  linha.  A  coiòa  é  essencialmente  diíTerente.  Em  resumo,  esta 
moeda,  é  um  lypo  completamente  novo  e  querendo  agrnpala,  talvez 
que  á  falia  de  melhores  elementos  e  de  melhor  opinião  se  podesse 
por  emquanto  classificar  de  real  de  10  soldos. 

O  real  de  3  */2  libras  do  n.°  43  com  que  comparamos  a  primeira 
moeda,  é  descripto  pelo  sr.  Aragão,  pag.  201,  tom.  I,  como  segue: 

«  >í<  J  o  H  N  s  *  DEI  *  G  R  A  Cl  A  *  RE  X.—  No  centro,  den- 
tro dum  circulo  foimado  por  oito  arcos  IHNS;  por  cima  a  coroa 
real  e  por  baixo  E,  lendo  immediatamente  por  baixo  da  coroa  um 
ponto,  com  uma  cruzeta  de  cada  lado. 

1^.  A  D  JUTOR  lUM  °  N  O  s  T  R  u  M  =  Q  u  i  —  Quinas  cantona 
das  por  quatio  castellos.  Real  de  H  */-2  libras,  B.  —  II^OOO  réis.»  Vide 
est.  XH. 

A  nova  moeda  é: 

>Í<J0HNS*DEI*GRACIA*REX*P.  —  Dentro  d'um  cir- 
culo pontuado,  e  no  centro  de  dezeseis  arcos,  em  grupos  de  dois  a 
dois,  ou  oito  arcos  duplos  ligados  por  oito  arruelas,  i  n  N  S  tendo  por 
cima  a  coroa  real  e  pnr  baixo  L  entre  duas  rosetas  ou  florões. 

R.  ^  I  H  N  S  *  D  E  I  *  G  R  A  G  1  A  *  R  E  X  *  A  L  ;.— UentrO  dum 

circulo  pontuado  os  cinco  escudos  das  quinas  collocados  em  cruz  e 

esta  canlonada  por  quatro  castellos.  Peza  r)6  grãos. 

Comparando  estas  duas  moedas  vè-se  que  a  nova  tem: 

Na  legenda  do  anverso  a  inicial  da  palavra  Portugal  que  a  outra 

não  apresenta,  e  o  e  entre  dois  florões. 

No  reverso  a  legenda  é  completamente  diversa  porque  em  logar 

de  AD  J  UT  O  R  I  U  M  °  N  o  S  TRIIM    tem    1HNS#DEI#GRA- 

C  i  A  *  R  E  X  *  A  E  . 

Parece- nos  que  esta  moeda  merecia  bem  ser  descripta  pela  legen- 
da do  reverso  que  é  totalmente  diversa  da  similar  de  cunho  descri- 
pta pelo  sr.  Aragão. 

A  segunda  moeda  é: 

>íi  A  I)  J  u  T  O  R  I II  M  *  N  O  s  T  R  E  N  #  Q  u  I .  —  Deutro  dum 
escudo  pontuado  e  no  centro  de  seis  arcos  duplos,  ihns  com  um 

'  Descripção  geral  e  histórica  das  moedas  cunhadas  em  nome  dos  reis,  regentes 
e  governadores  de  Portugal. 


K    HISTÓRICA 


85 


[loiílo  ii;i  parle  superior,  tendo  por  r/ima  a  corôn  real:  por  hnixf»  a 
lei Ira  i»  . 

\\.yíi    IIINS     I)  K  I     (]  \<  A    R  K  X    POR    11    (i  AI.    Al..— Deil- 

Iro  fruiu  circulo  poiUiiarJo  e  no  meio  de  (|ualro  duplos  arcos  ogivaes 
eslão  as  cinco  quinas  em  cruz  e  no  lado  inferior  e  esquerdo  um  i>. 

O  reverso  que  dá  uma  ideia  geral  dos  rcacs  ilr  10  soldos  e  rcars 
hraHCOs,  não  é  comtudo  egual  a  nenhum  delles  na  legenda,  e  nenhum 
dos  cunhos  do  Porlo  tem  só  um  i>  ao  lado  es(juerdo  do  escudo  infe- 
rior. Tem  as   lellras  i»  o  aos  lados  d"esse  escudo. 

Só  o  real  de  regente  com  o  ii.°  á  da  est.  7,  tom.  I."  da  olua 
do  sr.  Aragão,  que  é  cunho  de  Lisboa,  tem  um  L  no  lado  esquerdo 
inferior  da  moeda  em  vez  de  i.i?  como  tem  lodos  os  outros  rmes  de 
lo  soldos  fabricados  em  I/isboa. 

O  anverso  dillere  com[)letamenle  dos  nuics  de  KJ  soldos  e  rcoes 
brancos.  A  legenda  é  incompleta  e  só- numa  linha.  IHNS  não  está 
immedialamente  no  cenlro  do  circulo  pontuado  como  nos  reaes  de  lo 
soldos,  mas  no  centro  de  seis  duplos  arcos  de  circulo. 

Este  numero  de  seis  duplos  arcos  é  completa  novidade,  porque 
em  todos  os  rrars  de  lo  soldos,  rmes  brancos  ou  reaes  de  S  *  2  libras. 
o  numero  de  arcos  duplos  é  de  oito  ou  de  quatro  e  nunca  de  seis. 

A  coroa  é  também  especial  e  diíTerente  da  de  todas  as  moedas 
descriptas  pelo  sr.  Aragão.  Parece  mostrar  a  Iransicçáo  entre  as  duas 
coroas,  de  regente  e  de  rei.  que  como  se  observa  nas  respectivas 
moedas  são  differentes. 

Esta  moeda  está  á  llor  do  cunho  e  pesa  00  grãos. 

Esperamos  que  hão-de  ir  apparecendo  mais  elementos  para  o  es- 
tudo completo  d'este  remado,  e  se  por  emquanto  não  podemos  fazer 
acerca  d'elle,  como  ninguém  pôde,  allirmações  em  absoluto  com  re- 
lação ao  seu  systema  monetário,  lemos  ao  menos  o  cuidado  de  ir  col- 
ligindo  escrupulosamente  todas  as  notas  illucidalivas  que  podemos  ob- 
ter para  darmos  mais  tarde  um  estudo  quanto  possível  completo, 
como  prometlemos  no  nosso  artigo  anterior. 

M.  Alexandre  de  Sousa. 


O  SUPPOSTO  BEIGANTIUM 

em  Castro  de  AvelJãs 

Ao  passo  que  nos  demais  paizes  da  Europa  muito  se  tem  traba- 
lhado e  continuamente  se  trabalha  para  o  exacto  conhecimento  da  sua 
geogr.iphia  antiga,  em  Portugal  tem  sido  completamente  descurado 
tão  importante  objecto.  Não  ignoro  que,  desde  Rezende,  alguns  au- 
clores  lêem  dissertado  mais  ou  menos  extensamente  sobre  a  geogra- 
phia  antiga  do  território  hoje  portuguez,  e  que  muitos  d'elles  preten- 


8C  EEYISTA   AECHEOLOGICA 

deram  fazer  identificações  de  antigas  povoações  com  outras  modernas; 
mas,  se  por  vezos  nalpumas  dessas  idenlificações  foram  felizes,  quasi 
sempre  claiidicaiam.  Diogo  Mendes  de  Vascoiicellos  nos  seus  scltnlia 
a  l^ezeiíde  foi  duma  notável  infelicidade;  de  Biito,  provado  como 
está  sei"  falsaiio,  nada  direi;  Faiia  e  Sousa  conlinuoti  aniigos  erros 
do  mesmo  modo  (]iie  mais  tarde  outros  o  fizeram,  como  J.  Baptista 
de  Castro  e  Luiz  (lardozo;  e  quanto  ao  pequeno  livro  do  padre  Nas- 
cimento. J\íapi)a  breve  (In  Litsilania  cuiliga,  não  é  elie  mais  do  que 
uma  '•ongloliação  de  tudo  o  que  os  antigos  escriplores  porliiguezes 
disseram,  sem  qu(3  fosse  discutido  coiivenienlemenle.  A  par  destes 
auctores  que  citei  e  d'outros  semelhantes,  apparecem  todavia  escri- 
ptoies  verdadeiramente  notáveis,  que,  com  quanto  por  causas  inlie- 
rentes  ás  epoclias.  em  que  viveram,  nem  sempre  poderam  com  toda 
a  verdade  tratar  alguns  pontos  da  nossa  geogiai)liia  antiga,  todavia 
meiecem  a  nossa  consideração  por  seu  sabei'  e  pelo  seu  espirito  crí- 
tico. São  elles  principalmente  Gaspar  Barreiros,  na  sua  C/iorogra- 
p/ua  (Vaíguiis  lagares,  e  Gaspar  Estaco,  nas  suas  Varias  antiguidades 
de  Portugal.  Depois  d"esses  vem  o  académico  Manuel  de  Faria  e  o 
Padre  Viterbo:  e  mais  perto  de  nós  J.  da  C.  Neves  e  Carvalho  Por- 
tugal e  o  dr.  A.  F.  Simões. 

É  principalmente  aos  estrangeiros  que  nós  devemos  os  melhores 
estudos  acerca  da  geographia  anliga  e  medieval  do  nosso  paiz.  Depois 
dos  largos  e  importanies  trabalhos  do  célebre  agostinho  ÍIenri(]ue 
Florez,  bem  conhecido  de  todos  que  se  entregam  a  estudos  archeolo- 
gico-historicos,  outros  trabalhos  existem  Ja,  quer  inéditos  quer  [)ubli- 
cados.  Em  Ilispariha.  os  meus  respeitabilissimos  amigos,  D.  Anielia- 
no  Fernandez  Guerra  y  Orbe  e  D.  Eduardo  Saavedra,  da  Acadeutia 
Espahola  e  da  Real  Academia  de  la  Historia,  téem  já  tratado  da  {^eo- 
giaphia  antiga  da  Península:  o  primeiro  d"estes  sábios,  bd)liolhecaiio 
da  primeira  d'a(]uel!as  ac.idemias  e  .anlitpiaiio  da  segunda,  eslá  empe- 
nhado ha  mais  de  53  annos  (desde  '1833),  em  esludos  profundíssimos 
sobre  a  geographia  e  hislor  ia  de  ílispanha  antiga :  o  segundo,  distin- 
ctissimo  escriplor  e  archeologo,  e  crnsumado  arabista,  também  em 
muitos  trabalhos  de  alia  valia  se  tem  occupado  da  geogia|iliia  j)enin- 
snlar,  tanto  lomana  como  árabe.  con)0  os  leitores  da  lieristu  tive- 
ram já  occasião  de  apreciar.  Na  vMk manha  o  sábio  di'.  Emilio 
Iliibner,  meu  respeitadíssimo  amigo,  íamliem.  não  só  em  escriplos 
especiaes,  mas  no  segundo  volume  do  Corpus  hiscriptionum.  Latiiia- 
runi  tiala  com  a  proíiciencia  que  o  mundo  scienlifico  lhe  recoidiece 
de  muitos  pontos  da  nossa  geographia  anliga. 

Não  citarei  outros  escriptores,  e  limitar-me-iiei  a  observar  que 
sendo  por  um  lado  extremamente  honroso  para  nós  que  homens  illus- 
Ires  como  os  snpra-cilados  se  occupem  de  nossas  coisas,  por  outro 
lado  é  lastimável  que  nós  os  portuguezes  tão  pouco  trabalhemos,  sem 
preconceitos,  no  que  é  nosso. 


E    IIISTOKICA 


87 


É  devida  ao  íjiiasi  nada  (Iik;  possuimos  feilo  por  nós  acerca  de 
nossas  antiguidades,  e  ao  geral  desconliecinientn  do  (pie  exlranhos  lêem 
prodnzido  sobre  ellas.  a'  ignorância  de  innilos  pontos  da  nossa  geo- 
grapliia  antiga,  e  a  não  resohirão  de  vários  problemas  (pie  concerntím 
a  ella  e  á  historia.  I^or  isso  muitos  e  mnilos  dislates  por  abi  coirem. 
pondu-se  elles  princii)almente  ein  evidencia  quando  o  acaso  faz  com 
que  se  abram  os  archivos  da  terra,  patenteando  nos  antigos  monu- 
mentos. , 

lia  poucos  mezes,  em  noticias  espalhadas  por  muitos  jornaes  do 
paiz.  divulgou-^e  a  descoberta  dumas  rumas  im|)orlanlissimas  peito 
de  Castro  ('le  .\vellãs,  e  que  pela  visinhança  da  cidade  de  liragança 
foram  logo  indicadas  como  os  restos  do  antigo  tírigcmlium.  Começan- 
do a  ser  exploiadas  as  ruinas  pelo  professor  de  francez  do  lyceu  de 
Bragança,  o  sr.  José  Henriques  l'inheii-o,  por  conta  da  sociedade  Mar- 
tins Sarmimtn,  de  Guimarães,  e  como  era  possível  que  houvesse  utili- 
dade em  que  a  exploração  fosse  feita  por  conta  do  governo,  visto  exi- 
mo os  docuuKMitos  importantes  que  a  antiguidade  nos  legou  não  de- 
vem em  boa  razão  ir  augraenlar  collecções  particulares  tanto  de  na- 
cionaes  como  de  estrangeiros,  mas  ficarem  pertencendo  ao  Kstado,  para 
se  formarem  museus  aonde  esses  moinimentos  se  conservem  conve- 
nienlemenlo,  servindo  aos  estudiosos  para  suas  investigações  e  aos  de- 
mais para  seu  ensinamento,  iionrou-me  o  illuslre  Presidente  do  Conselho 
de  Ministros  e  Ministro  do  reino  com  a  missão  de  ir  fazer  o  reconlie- 
cimento  das  alludidas  ruinas.  Dei  cumprimento  á  incumbência  e  apre- 
sentei em  tempo  competente  o  meu  relatório,  (jue  creio  vae  ser  pu- 
blicado. 

O  local  das  ruinas  é  numa  pequena  collina  que  fica,  p_ara  o  poen- 
te, a  cavalleiro  da  pobríssima  pov()a(:rio  de  Castro  de  Avellas. 

Os  principaes  vestígios  de  edilicação  que  alli  lia,  (piasi  na  extremi- 
dade oriental  do  oiteiro,  são  quatro  plintos  do  granito  que  abunda 
naquellas  regiões,  os  quaes  se  acham  alinhados  na  direcção  NS,  e 
apenas  á  profundidade  de  um  metro  approximadamenle.  Junto  do 
ultimo  plinto  da  parte  do  sul  enoonlram-se  restos  de  antiga  parede 
seguindo  para  o  poente,  formando  angulo  recto  com  o  alinhamento 
dos  plintos;  e  no  lado  opposlo.  ao  noite  e  também  junto  do  ullimo 
plinto,  pareceu-me  notar  vestígios  de  parede  parallela  á  outra.  Segun- 
do consta,  foram  encoiitiados\illi  um  capitel  e  uma  base  de  columna, 
da  ordem  toscana.  Nem  nos  plintos.  nem  nos  alludidos  restos  de  co- 
lumna ha  coisa  que  decida  a  considerar  a(]uellas  reli(piias  como  pura- 
mente romanas;  pois  que  tanto  podem  ter  pertencido  a  um  edificio 
elevado  pelo  grande  povo,  como  a  uma  construcção  medieval,  o  que 
não  pode  ser  em  absoluto  prejudicado  pelo  appaiecunento  naquelle 
sitio  de  muitos  fragmentos  de  tijolo  e  de  telha  de  rebordo.  O  que  e 
indubitável  é  (jue  S(')bre  aquelles  (pialro  plintos  assentavam  outras  tan- 
tas columuas.  Se  a  construcção  é  romana,  pode  crer-se  que  o  edificio 


88  REVISTA   ARCHEOLOGICA 


foi  um  prosíf/Ios,  a  cujo  pronaos  pertenceram  os  quatro  plintos;  se  a 
i-onstrucç.ão  é  medieval,  foi  necessariamente  um  pequeno  templo  ou 
capella,  de  cujo  alpendre  íizeriim  parle  os  restos  encontrados.  O  edi- 
ticio  linha  como  com  dilliciildade  pude  observar,  a  sua  fronlaria  vol- 
tada ao  oriente,  o  que  podeiia  militar  a  favor  da  orig(.'m  romana 
daquelles  restos;  pois,  se  o  templo  fosse  cluislão,  seria  orientado  de 
levante  a  poente,  conforme  a  lei  seguida  na  edade  média ;  mas  isto  é 
iiíSulViciente  para  uma  altirmativa. 

Varias  ossadas  descobertas  a  alguns  melros  do  distancia  d'aquel- 
las  ruinas,  a  cerca  de  meio  metro  de  profundidade  estavam  incomple- 
tas 6  nenhuma  importância  tinham.  Nas  sepulturas  não  se  encontrou 
objecto  algum  que  podesse  ministrar  subsidios  á  etlmographia;  nal- 
gumas, alguns  pedaços  de  schislo  cobriam  as  caveiras,  mas  nas  res- 
tantes (excepto  uma),  encontraram-se  os  ossos  sem  resguardo  de  qual- 
quer natureza.  Na  sepultura  que  exceptuei,  appareceram  duas  lapi- 
des romanas  ladeando  parte  d'um  esqueleto,  dois  cippos  funerários, 
sem  duvida  aproveitados  pelo  enterrador  ou  pela  familia  do  defuncto, 
com  o  piedoso  fim  de  resguardar  os  restos  morlaes  alli  depositados. 
Os  cippos  não  estavam  na  sua  posição  natural,  ao  alto,  mas  colloca- 
dos  no  sentido  do  comprimento,  indicando  bem  claramente  o  fim 
para  que  alli  os  haviam  posto.  Num  desses  cippos,  que  tem  d'alto 
0"',70  e  de  largo  0"\33  pude  ler : 

B  L  O  E  N        Bloenae oae  {filiae  ?)  anniontm)  LX. 

M  ///li  O 

.E  A  N  N         Monumento  elevado  a  Bloena,  tilha  de    .  .  .  .oa, 

l,  X  fallecida  na  edade  de  sessenta  annos. 

Teremos  nesta  inscripção  exemplo  do  facto,  pouco  commum,  de 
ser  a  filiação  somente  indicada  pelo  nome  da  mãe? 

No  outro  cippo  apenas  se  pode  distinguir  a  edade  da  pessoa  fal- 
lecida e  vestígios  d'algumas  letras  do  seu  nome : 

////////////  I  M  O 

/////^///I ////// 

/////XXV 

O  mencionado  sr.  Pinheiro  liga  grande  importância  ao  achado  d'es- 
sas  ossadas,  e  está  couvencido  de  que  houve  alli  um  extenso  cemité- 
rio, d'onde  concluo  a  existência.  na(|uelle  sitio,  duma  grande  povoa- 
ção. Está  complectamente  illudido.  As  sepulturas  não  remontam  á 
epocha  romana;  demonstram-n'o  as  lapides  romanas  alli  encontradas, 
por  isso  que  é  um  contrasenso  suppôr  que  pessoas  d'então  fossem 
expoliar  brutalmente  dos  monumentos  as  sepulturas  dos  seus  conci- 


E  HISTÓRICA  89 


(ladãos  pura  com  olles  grosseiramente  ladear  o  cadáver  d'onlro.  Por 
oulio  lado,  o  achado  das  ossadas  de  modo  algum  dtve  causar  admi- 
ração, sabendo-se  da  existência  na(|nelle  sitio  de  uma  antiga  egreja 
ou  ca|)-3lla  de  S.  Sebastião.  Ainda  hoje  em  muitas  parles  de  Portu- 
gal os  ciiterramcnlos  se  fazem,  como  é  saljido,  nos  adros  das  egre- 
jas;  e  lá  mesmo  em  (^aslro  de  Avellãs  tèem  (illes  logar  no  limitado 
espaço  de  terreno  (|ne  existe  por  detraz  da  egreja,  recinto  separado 
dum  lameiro  por  um  pequeno  muro.  Ora  é  naturalíssimo  e,  com  re- 
speito ao  tempo,  perfeitamente  regular  que  o  adro  ou  circumvisinhan- 
ças  da  egreja  de  S.  Sebastião  hajam  sido  logai-  de  enterramentos,  e 
(jue  os  christãos  tenham  lançado  mão  de  monurnenlos  de  passadas 
gerações  para  os  utilisarem  nas  suas  sepulturas.  Na  constrncção  da 
alludida  egreja  empregaram  se  como  maleriaes  cippos  e  outras  pe- 
dras de  trabalho  romano.  Não  se  pôde  pôr  isso  em  duvida  em  vista 
(la  informação  que  nos  deixou  Sampaio';  e  não  causa  extranheza  por- 
que em  [)lena  ednde  média  ao  procedcr-so  a  qualquer  edificação  — 
habitação,  templo,  muralha,  torre  — a[)roveitavam-se  sempre  as  lapi- 
des romanas  que  em  abundância  se  encoidiavam  por  toda  a  parte: 
porque,  estando  essas  pedras  já  apparelhadas,  só  havia  o  simples 
trabalho  do  seu  assentamento.  Frequentemente  essas  cantarias  eiam 
coUocadas  de  maneira  que  seus  relevos  ou  inscripções  ficassem  occul- 
tos.  quasi  sempre  com  o  fim  de  apresentar  á  vista  uma  superficie 
lisa,  mas  algumas  vezes  (principalmente  em  construcções  religiosas) 
no  intuito  de  fazer  desapparecer  iodo  o  vestígio  do  paganismo.  Quan- 
to a  considerar-se  aquelle  conjuncto  de  sepulturas  como  um  extenso 
cemitério  c  vèr  as  cousas  com  vidro  de  augmenlo;  e,  ainda  que  assim 
fosse,  suppôr  que  existiu  naquelle  local  uma  grande  povoação,  por 
aquelle  motivo  sô,  é  mera  plumtasia.  Os  romanos  tinham  suas  sepul- 
turas fora  das  povoações^  á  beira  das  estradas. 

Appareceram  nas  insignificantes  minas  que  se  suppõe  serem  as 
dos  alicerces  da  antiga  egreja  algumas  lapides  romanas,  umas  parti- 
das, outras  com  as  inscripções  apagadas,  e  três  túmulos.  Dois  d"esles 
(que  não  vi  porque  o  dono  da  propriedade  os  fez  transportar  para 
sua  casa,  d'alli  distante,  apenas  achados)  não  tinham,  segundo  me  as- 
segurou o  sr.  Pinheiro,  inscripção  nem  relevo  algum.  Quanto  ao  outro, 
que  este  sr.  recolheu  num  pateo  de  sua  casa,  tem  epigraphe,  mas 
tão  deteriorada,  que  não  me  foi  dado  lel-a  apezar  dos  grandes  esfor- 
ços que  para  esse  ílm  empreguei;  concorreu  também  para  o  mau  re- 
sultado das  minhas  tentativas  a  péssima  posição  em  que  estava  o  mo- 
numento quasi  encostado  a  um  muro,  sem  eu  conseguir  que  elle  fosse 
posto  em  posição  conveniente.  Tem  esse  monumento  dois  metros  de 
comprido  e  cincoenta  e  seis  centímetros  de  diâmetro;  foi  primitiva- 

'  Francisco  SaiTipaio.  Memoria  sobre  as  nditas  do  Mosteiro  de  Castro  de  Avel- 
'lis. . .  in  Memorias  de  í.itfcratnra  Portugiieza,  vol.  v,  pagg.  258-26;]. 


90  UEVISTA   ARCIIEOLOGICA 


mente,  creio  eu,  iiiii  mnrco  miliaiio  circular  que  escavaram  para  ser- 
vir dl.'  sepuichro  ou  sarco{)hago.  As  letras  tèem  oito  cenlimelros  de 
altuia;  pude  ai)euas  lèi'  com  segurança: 

• .  •  P  O  S [divi  Hadrijui  ne]pos  ?..  . 

...  1)  I  \'  I     T  R  A divi  Tra\jani  proncpos  ?|  •  •  • 

Além  dalgumas  lapides  inteiramente  illegiveis,  descobriu-se  nas 
recenlíís  escavações  um  cippo  mutilado,  de  O'", 35  de  alt.  e  0"',^9  de 
larg.,  tendo  a  roseta  symbolica  na  parte  superior  e  esta  inscripção: 

M  A  E  C  I  o 
CORNELIO 


Os  fragmentos  de  cerâmica  encontrados  naquelle  oiteiro  são  in- 
teiramente insignificantes.  De  cobre,  appareceram  uns  inaures  e  insi- 
gnincantes  IVagmenlos  impossiveis  de  determinar.  Não  tem  appareci- 
do  moedas  alli,  senão  muito  rai'amente;  e  não  sei  se  romanas. 

Os  jornaes  noticiaram  o  a()parecimento  de  objectos  preliisloricos 
naquelle  sitio.  O  citado  sr.  I'inlieiro  mostrou-me  elTectivamente  um 
pedaço  de  pedra  calcaiea  avermelhada,  rolado  e  paitido  numa  das 
extremidades,  que  o  mesmo  sr.  julga  ser  um  machado  de  pedra  da 
epocha  neolilhica. .. 

No  relatório  que  apresentei  a  S.  Ex.-'  o  Ministro,  disse  eu  o  se- 
guinte: 

«Que  no  oiteiro  de  Castro  de  Avollãs  assentasse  o  Brigantium  Fla- 
vium  ou  mesmo  o  Brif/ai'ciiim  de  que  falam  FMinio  e  Piolomeu  é  de 
todo  o  ponto  insustentável  perante  as  iidbrmações  que  a  antiguidade 
nos  legou.  Que,  porém,  tenha  havido  por  aquellas  proximidades  um 
oppidum  Uvigantium  ou  Briganfia  não  é  hypothese  (]ue  deva  repellir- 
se.  attendendo  ao  actual  nome  de  Bragança  e  ix  enorme  quantidade  de 
homouymos  geograpliicos  na  penmsula  [lyrenaica.  Mas,  quando  dada  es- 
ta hypothese,  esse  oppiílain  ou  ciriías  não  assentou  no  oiteiío  de  Cas- 
tro. Alli,  e  estendeiKlo-se  talvez  para  os  lados  de  Gostei  (o  que  futu- 
ras explorações  poderão  resolver),  demorou  uma  população  romana 
ou  roinanÍ3ada  que  é  conhecida  na  hi.stoiia  pelo  nome  de  Zoelas.  Na 
egreja  de  C.astro  de  Avellãs  existiu  até  ha  bem  poucos  ânuos  uma  la- 
pide com  a  seguinte  inscripção  summamenle  importante: 


D  E  O 
A  E  R  N  O 

O  R  D  O 
ZOELAR 
5        EX  VOTO 


E    HISTÓRICA  91 


«Esta  iiisciiprno.  o  iiiiico  inomimeiílõ  lapidar  em  que.  juntamente 
com  o  nume  de  uma  divindade  peninsular,  era  m('nfi()n;i(la  a  ordem  dos 
Zoelas,  essa  pedra  (jue  os  secuios  respeitaram,  foi  destrnida  lirutal- 
mente  ha  alguns  annos  por  um  individuo  de  nome  Assis  rpie  a  lians- 
formou  num  vaso  destinado  a  adornar  llie  a  sepultura,  fazendo  des- 
ap()ai'tn'.er  inlíiii-anHUiti!  lodo  o  vcsligio  da  impoi  tantissima  insci  ijirno. 

«Deixar  de  loiMJisar  no  oileiro  a  oiíIo  Znrlcniin,  romo  um  monu- 
mento-inlelizmenle  perdiíln.  hoje  o  coidirma.  paia  ver  naquelle  le- 
gar um  lirií/nnnioii  ainda  desconliecwlo,  é  querer  liictar  contra  a  razão 
e  a  eritica.  No  Oiip/is  Iiiscripliiiii/nii  Lutiiuiridii,  vol.  ii,  n."*  lidOS  e 
!2()01),  vêem  in-crlas  duas  inscripç^-ões  (]ue  se  perdei"am  e  ainda  a  se- 
guinte (n."  i2íil)7),  (|ue  foi  transportada  duma  [)arede  vellia  do  antigo 
mosteiro  de  (lastro  de  Avellãs  [)ara  a  parede  de  uma  casa: 

palma  palma 

Dr:o  A  ER 

N  O  M 

«Este  monumento  (nlt.  0"\:ií ;  larg.  O-". 275;  lellras  alt.  0'",0G)  foi 
tirado  pelo  cilado  sr.  Pinheiro  da  parede  em  que  se  achava,  com  destino 
á  Sociedade  Martins  Saiimuito.» 

No  recinto  em  que  se  fazem  os  enterramentos,  existe  ainda  uma 
lapide  marmórea  peifeitanjeide  conservada  (altura  l™,45;larg.  O"", 41; 
lettras  ali.  0"',05),  com  a  seguinte  inscripção: 

palma 
palma  pali>ia 

D          M  Diiis)  M^anilyiis).  Proculcio  Gracili  (filio),  an- 

P  R  O  C  V  L  !•:  I  O  norum  LV.  S{ii)  l(ibi)  t(erra)  l(evis). 

GRACILI  Aos  deuses  dos  mortos.  Monumento  elevado  a 

A\/  N  O  R  V  M  L  V  l^roculeio,  tillio  de  Gracilo,  fallecido  na  edade  de 

3             S  T  T  1.  cincoenta  e  cinco  annos.  Seja-te  a  terra  leve. 

Temos  nesta  epigraphe  exemplo  da  omissão  da  palavra  filitis. 

Creioque  lodos  esses  monumentos  epigraphicos.  encontrados  naquel- 
la  localidade,  são  restos  da  antiga  povoação  (licKs,  pagus  ou  ciriíns, 
mas  talvez  não  appidum)  da  onhi  Zofhniiiii.  Esta  opinião  já  expendida 
pelo  citado  Sampaio,  pelo  auctorisado  Viterbo  *,  e  pelo  meu  amigo  sr. 
Emilio  llubner,  é  a  única  acceitavel. 

'  Elucid.,  s.  V.  Bemquerenra. 


Dá  REVISTA  ARCHEOLOGICA 


No  caso  em  que  o  moderno  nome  de  Bragança,  como  indiquei 
acima,  nos  conserve  memoria  d"nma  antiga  povoação  romana,  de  no- 
me Hriíiantium  oii  antes  Brif/antia,  ella  de  certo  não  era  situada  no 
silio  de  (lastro  de  Avellãs.  Na  falta  de  outros  dados,  não  deve  des- 
[irezar-se  a  tradicção.  embora  esta  seja  muito  íallivel.  Ora  é  constan- 
te a  indicação  Iradiccional  de  que  antigamente  a  cidade  era  perto 
do  Sabor,  ao  NE  da  actual  povoação.  Já  Viterbo  *  mencionava  ves- 
tígios de  i-uinas  nas  margens  daquelle  rio  e  eu  creio  ter  reconhecido 
alguns  indícios. 

Toda  a  região  transmontana  está  por  explorar  ainda  no  que  re- 
speita á  archeologia,  com  grande  prejuízo  da  historia  e  da  geographia 
antiga.  A  duas  léguas  de  Bragança,  para  o  NE,  existe  uma  pequena 
e  pobre  povoação,  Sacoias.  e  próximo  d'ella  uma  collina  onde  tem 
appparecido  grande  (luantidado  d(^  inscripçues  lapidares  e  muitos 
outros  objectos  interessantes,  lia  alli  muitos  vestígios  de  povoação 
romana.  Eis  duas  das  inscripções  alli  descobertas,  que  existem  hoje 
em  Sacoias: 

1.  Cippo  funerário  (alt.  !'",();  larg.  0"',4)  com  a  roseta  symbolica 
na  parte  superior : 

1)      <t>      M  Diiiò!)  M{anibiis).  Flau  Festi /(ilio)  annioruni) 

F    L   A   O  A'XA'.  S{it)  t{ibi)  t{erra)  l{evi.s). 

F  E  S  T  I  F  Aos  deuses  dos  mortos.  Monumento  elevado  a 

AAA/XXX  Flao,  filho  de  Festo,  íallecido  na  edadede  trinta 

3          STTI  annos.  Seja-te  a  terra  leve. 

O  nome  Fcsln  é  bem  conhecido;  e  o  de  Flao  (cf.  Flavo  e  Flávio) 
tem-se  encontrado  em  inscripções  da  península  (C.  I.  L.,  u,  n.°' 202?) 
e  2774). 

2.  Lapide  (alt.  V'','M:  larg.  O'". 3)  com  a  seguinte  epigraphe;  sem 
vestígios  alguns  d'outras  lettras  ou  signaes: 
A  li  R  O        Arro  Cloii[thts  ?) 

C  I.  O  V      a(iumo)  l(ibens)? 
A  L 

O  nome  Arro  encontra-se  numa  inscripção  de  Segóvia  (C.  J.  L., 
I!,  n.''  27.'i5) :  D  •  M  •  s  ■  A  R  R  O  N  I  S  ,  etc. 

Uo  pouco  que  se  tem  encontrado  no  oiteiro  de  Castro  de  Avellãs, 
sem  documentos  epigra[)hicos  e  sem  informações  que  nos  deixassem 
os  escriplores  da  antiguidade,  é  verdadeiramente  por  mera  pbantasia 
que  se  pode  ter  dito  (jue  alli  assentara  o  antigo  Brigantium.  A  povoa- 

'  Lor.  cil. 


E   HISTÓRICA 


93 


ção  d'esle  nome  que  IHolomeii  cila  ^  O/acJtcv  Bpiyávncv,  era  situada 
junto  d"uníi  grande  golplio  ou  porto  de  mar  h  tw  ^j.£yá//.)  hu.vA,  a  (|ual 
lambem  é  mencionada  por  l)i(jn.  Não  pode  pois  este  o/y/;/V///m  estar  si- 
tuado no  meditei  raiieo.  Ouanlo  a  uma  antiga  Brujantia  já  fica  apon- 
tado o  seu  logar  piovavel. 

São  ainda  hoje  desconhecidas  as  situações  de  muitas  e  muitas  ou- 
tras povoações  antigas,  cujos  nomes  nos  revelam  os  auctoies  gregos 
e  lalinos,  e  que  existiram  em  todo  o  leniloiio  hoje  portnguez.  Quem 
sabe  onde  eram  situadas  Klcoboris,  Talabiig.i.  Iníeranmium,  ."\h'dobri- 
ga,  Cehobiiga  e  tantas  outras?  Só  lun  estudo  ciilico  ujuito  piofundo, 
auxihado  pela  descoberta  de  novos  documentos  epigraphicos  poderá 
resolver  varias  d'essas  questões  cuja  impoilancia  seria  ocioso  de- 
monsli'ar.  Mas  os  poderes  públicos  podem  auxiliar  nniilo  a  sciencia 
promovendo  ou  ao  menos  coadjuvando  exploiações  em  vaiios  pontos 
do  nosso  paiz.  Por  toda  a  parle,  mesmo  nas  regiões  aonde  já  foram 
executadas  explorações,  muilo  ha  que  fazer.  Mas  princi|)?lnienle  as 
provindas  do  Alinho,  Traz-os-Monles  e  as  duas  Heiías  contèem  ainda 
milhares  de  preciosidades,  que  trabalhos  melhodicos  fariam  conhecer. 


Bo[<r.[<:s  dií  Fhjueíhldo. 


EPIGRAPHJA 

iVej.  pcifl.  41— 4H) 

Monsenhor  Pereira  Holto,  de  Faro.  obsequiou-me  com  algumas  ob- 
servações acerca  da  iulerprelação  que  dei  da  inscripção  de  A  \'  \<  ■ 
V  R  S  I  \  \  s  •  Quanto  á  primeira  linha,  diz  que  na  lapide  ao  G  se  se- 
gue um  J.,  inteiprelando  {Auyinsli  l[ib('rtus).  Num  calco  em  chumbo, 
que  me  enviou,  vejo  eíTectivamente  alguns  vestigios  de  ieltras,  mas 
tão  pouco  explícitos  que  não  posso  decidir-me  sobre  ellas.  Pelo*  que 
respeita  á  segunda  linha,  dizia-me  Monsenhor  Bolto  na  sua  primeiía 
carta  que  «Depois  do  íá."  p  da  2.''  linha  o  baixo  relevo  que  o  calco 
deve  acusar  não  é  ponto  de  escripta,  mas  orifício  da  mesma  pedra: 
advertindo  ainda,  que  ao  2."  p  evidentemente  se  segue  um  i  » ;  e 
neste  supposlo,  lia  :  NUvem)  P^iibiicei  Pio??/)  Mussil).  Posteriormente 
enviou-me  tarnbem  dessa  parte  da  inscripção  um  calco  em  chumbo, 
de  cujo  exame  resultou  o  (içar  eu  peifeiiamejite  illucidado  acerca  do 
que  alli  está  escripto.  O  que  eu  tomara  no  calco  em  papel  por  nm 
ponto  triangular  ou  um  i>  é  uma  lettra,  um  R,  de  que  se  não  vê 
toda  a  curva  superior  por  estrago  da  pedra,  mas  em  que  se  distingue 
perfeitamente  o  angulo  formado  pelas  duas  hastes  convergentes  Uga- 

'  Geogr.,  u,  G,  4. 


94  liEVISTA  ARCHEOLOGICA 

do  á  hasle  vertical,  deste  modo  R.  Assim,  deve  ler-se:  \{ir)  V{erfe- 
clissimus)  PU(tíí'.st'ò^),  etc. 

Eis  novamente  a  inscripção  rectificada : 

^VGG/  I  /  I  /  I  I  l  I  I  /  I 

AVR    •    VRSINVS    •    VPPR 

P  R  O  VI  N  C    L  V  S  I  T  A  N  I  f 

IJoilGES  DE  FlGUIClUEDO. 


CONSTITUIÇÕES  DO  AKCEBISPADO  DE  LISBOA 

Dccreladas  por  D.  João  Esteves  (l'Azambuja  (1402-1414) 

{Contlmiado  de  pag.  70'\ 

23  Item  por  quanto  per  rr.ilnçam  de  mnytos  aprendemos  e  seja- 
mos ceilelicado  (jne   niiiylos  piiores   i"eytoies   e   vigairos  e  ptiostes 
da  egfeias  da  dita  cidade  e  aiçidjispado  tiom  querem  liir  conunuiigar 
os  enfermos  fora  das  villas  e  casleHos  Ini  estam  as  egreias  em  luga- 
res alloiigados  e  ri'emolos  a  (pie  sse  estende  {sic)  as  fieguisias  das  di- 
tas egreias  que  sam  grandes  e  delíiisas  dizendo  que  noin  podem  aalla 
liyr  sem  grande  trabalho  e  peiiigo  de  leuar  o  corpo  do  saluador  com 
lume  e  cum  aijuella  liourra  (pie  deue  sseer  Irautadu  e  leuado,  porém 
nos  consirando  que  o   corpo   do   saluador  e   i'remidor   Jlm  x°  em 
que  está  a  saluaçam  e  saúde  dos  xpaãos  deve  sseer  leuado  com  gran- 
de hoiirra  e  rreuerençia  porem  de  (sic)  e  por  que  os  que  quei"em  a 
cumunhom  nom  morrerem  ssem  ella  e  a  rreceberein  como  com|)re  aa 
saúde  das  suas  almas   siabellecemos  que  quando  algimm  rreylor  ou 
outro  a  que  perleençer  líor.  rrequerido  pura  liir  comungar  lora  das 
villas  6  lugares  lionde  as  egreias  cujas  ÍÍVegiiisias  sam  os  que  reque- 
rem a  cumunhom  que  os  sobreditos  priores  ou  oiilros  a  (]iie  peiteen- 
cei"  possam  em  este  caso  na  casa  do  que  ouuer.de  rrecebei'  a  dita  co- 
munhom  ou   em   outra   daipielle  lugar  sse  íor  mais  honesto  leuantar 
altar  e  cellebrar  em  elle  e  consagrar  a  ostia  pêra  comunhom  e  dalla 
ao  enlíermo  segundo  a  irurma  e  maneira  acuslumada. 

(jiie  nom  façom  sorlcs  nem  encjnlaiiwnlos. 

24  Item  iioso  antecessor  dom  joiíam  da  boa  memoiia  a  que  deus 
perdoee  arcebis[)o  (pie  foy  da  dita  cidade  fez  e  ordenou  estas  consti- 
tuições que  sse  segiKun  [)rimeiiainei!le  (]ue  nenhun;  nom  liuse  de  sor- 
tes nem  dagoyros  nem  de  encantamentos  nem  de  escunjurrim  (sic)  nem 
chamar  espirilus  mallinos  nem  de  trazer  escripturas  nem  nominas  em 
(pie  ssejain  escriplas  pallanras  maas  e  desonoslas  com  tigiiras  nem 
canrantaras  ou  com  nomes  e  pallauras  que  nom  possam  sseer  enlen- 


E   HISTÓRICA  95 


(lidas  nem  arliadas  nas  sanlas  escr  iplinas.  IUmti  per  clle  (Toy  e  per  os 
nossos  antecessores  stabelliriílo  ipic  jcjuaassein  anballas  lesslas  de 
sain  vicenle. 

que  7unn  façam  cercos  peia  c/iaiitar  os  ilemonios. 

2õ  liem  (jue  nenhum  nom  fezesse  circo  pêra  chamar  os  demónios 
011  pêra  ssaher  as  consas  escoiuhdas  ou  pêra  fazer  íiiij^imenlos  ernpee- 
ciinees  [)er  (pie  sse  (K^monslrain  e  sayham  as  consas  (pie  ain  de  vyr 
e  IToy  per  elle  posta  senlen(^^'i  de  excomnnhoni  em  lotJos  os  (jue  fezes- 
sem  eslas  e  hnzassem  delias.  20'  liem  líoy  per  elle  posta  senteriíja  de 
excomunhom  em  as  barregãas  manlindas  dos  liomens  casados  e  dos 
creligos  de  ordens  sacras  ou  IjenefuMados  e  dos  i  relligiosos  e  por  fpie 
os  (pie  as  (lilás  cousas  fazem  e  liusam  delias  [tecain  graiiemente  e 
sse  segue  dos  dilos  maaos  pecados  gr.uides  (l.ipnos  e  perdas  assy  das 
almas  como  dos  corpos  e  heens  (pn;  os  liomeMS  liam,  porem  nos 
(juanlo  aos  dilos  casos  das  conslilinções  feitas  pei'  o  dito  nosso  an- 
teíjessor  poemos  senlença  de  excomunhom  em  os  (|U(>  as  ditas  cou- 
sas ITezeiem  segundo  sse  conlem  em  as  ditas  conslitui(;ões. 

que  110111  ponhoin  iiiaão  as  crianças 

27  liem  se  conthinha  em  as  ditas  constilui(;ões  que  nenhuma  pessoa 
nom  posse  (sic)  maão  em  oulrem  em  maneiía  de  veedt-yia  (;U  henze- 
deyra  ou  emcanladeyra  nem  husasse  de  ydollalria  fazendo  ou  di- 
zendo algumas  cousas  que  perteencem  mais  a  parle  do  inmigo  da  li- 
nhagem huiiian;ill  qiie  a  deus  e  aos  seus  santos  e  era  outro  ssy  def- 
fesso  que  nenhuum  nom  íosse  a  taaes  veedeyros. 

(jiie  nom  lancem  sortes  nem  augoas,  nem  ponham  call  as  porias. 

28  Item  se  conthynha  em  ellas  que  nom  cantassem  mais  nem  to- 
massem agoas  nem  lan(;assem  hy  sortes  nem  dessem  janeyras  nem  lan- 
çassem call  aas  portas  em  lenç-am  que  por  as  darem  ou  rrecebessem 
(sic)  emlendessem  de  avermilhor  annoou  mez  e  nom  as  dando  ou  rre- 
cebendo  pyor  e  que  nom  gardassem  os  dias  azinhagos  nem  a  terça 
ííeira  creendo  que  hunm  dia  he  milhor  e  de  millior  viloiia  (jue  outro. 

que  nom  vsem  dakovelaria  nem  (ezes^in  ao  domiiiijo  nenhum  ser- 
viço. 

20  liem  era  conlliiudo  nas  dilas  visitações  (ju  constituições  que  ne- 
nhuum nom  husasse  de  alcouveylaria  emí^luzendo  molher  viuua  ou  ca- 
sada ou  moça  virgem  pêra  corruçam  e  desonestidade.  30  Item  que 
nenhuum  nom  i)raadasse   nem  sse  carpisse  pellos  morlos. 

81  liem  ijue  nenhuuui  nomseriiisse  nem  lizesse  oulra  obra  de  ser- 
uidom  em  os  dias  dos  domingos  e  festas  slabilliçidas  por  rreuerencia 
de  deus  e  da  sua  madre  e  dos  oulros  santos  os  quaaes  a  egreia  man- 
da gardar  de  toda  a  obra.  32  Item  que  nom  cantassem  nem  danças- 
sem nem  balhassem  nem  Irebelhassem  nos  mosteiros  e  egreias  can- 
tos  danças  e  trebelhos  desonestos  nem  em  a  festa  de  sam  vicenle. 

que  nom  façam  feiras  aos  dias  santos  nem  joguem  dados. 

33  liem  que  nas  festas  de  jhu  x"^  e  de  sanla  maria  e  dos  appos- 


96  REVISTA  AUCHEOLOGICA 

tollos  e  de  sam  joham  se  iiam  fezesse  feyra  em  caso  que  as  festas 
acontecessem  no  dito  dia  da  feyra  e  que  fezesse  no  dia  seguinte. 
34  Item  era  conlhiudo  em  ellas  que  jejuassem  as  fesstas  de  santo 
anlonliinho  e  de  sam  jorge.  5õ  liem  que  nom  jugassem  os  dados  des- 
de véspera  de  nalall  ataa  oyto  dias  andados  de  janeiro.  86  liem  que 
nom  tomassem  meezinlia  de  judeu  nem  de  homem  outro  fora  da  ley 
nem  comessem  suas  viandas  nem  os  chamassem  aas  suas  doores. 

{Conlimm). 


i^IBLlOGRAPHlA 

Anneis.  Estudo  por  A.  C.  Teixeira  de  Aragão.  Lisboa,  1887  — 
8.°,  est. 

Ninguém  ha,  mais  ou  menos  dado  aos  estudos  archeologicos  e  es- 
peciahnenle  á  numismática  poi-lugueza,  que  desconheça  o  nome  do 
sr.  Teixeira  de  Aragão,  cirurgião-mihtar,  professor  de  hygiene  na  Es- 
cola do  Exercito,  e  por  isso  wmVa  mais  diremos  por  agora,  senão  que  o 
distincto  numismala  acaba  de  pubhcar  um  curioso  opúsculo  acerca  do 
anml.  Neste  opúsculo,  encontram-se  em  23  paginas  muitas  conside- 
rações sobre  este  adorno  antiquíssimo,  e  noticias  de  vários  anneis 
mais  ou  menos  notáveis  existentes  em  Portugal,  sobresaindo  entre  el- 
les*dois;  um,  pertencente  ao  sr.  Eslacio  da  Veiga,  composto  d'uma 
cornalina  engastada  em  oiro,  na  qual  se  vè  gravada  uma  breve  in- 
scripção  árabe;  outro,  pertencente  ao  auctor  do  opúsculo,  de  prata 
doirada,  lambem  com  cornalina  engastada.  Nesta  vò  se  uma  figura  de 
homem  em  meio  corpo,  com  coiôa  real,  tendo  na  mão  esquerda  uma 
palma  e  na  direita  uma  cruz  radiada;  na  orla  do  engasie  leu  o  sr. 
Aragão  y_o  — A  — O;  no  aro,  dos  dois  lados  do  sinete  vê-se  um  Y 
coroado,  como  se  encontra  nas  moedas  de  D.  João  h,  a  quem  é  attri- 
buido  o  annel. 

Este  trabalho  do  sr.  Aragão  é  muito  interessante;  é  pena,  porém, 
que  o  auctor  haja  dado  tão  pouco  desenvolvimento  a  um  assum|)to  (|ue 
lhe  proporcionaria  ensejo  de  patentear  os  seus  conhecimentos.  Porque 
na  verdade  muitas  oulras  e  importanlissimas  noticias  nos  poderia  dar 
acerca  desta  espécie  de  adorno,  que  como  o  torquex  ascende  a  uma 
remotíssima  antiguidade. 


E    HISTOHICA 


97 


TRÊS  ]\Í0NUMENT0S  EPIGRAPITICOS 
D'ELVAS,  E  DO  SEU  TERMU 

0  meu  amigo  o  sr.  F.  R.  da  Paz  Fiirlado,  grande  amador  de  an- 
tiguidades, des('ol)riu  ha  tempos  em  Klvas  as  três  inscripções  roma- 
nas, de  que  vou  dar  noticia,  e  que  serão  novidade,  segundo  julgo, 
para  a  maior  parle  dos  leitores  da  lierisfa,  por  não  haverem  eílas^si- 
do  ainda  publicadas  em  l*oilugal. 

1  — encontrada  num  quintal  da  lUia  de  S.  Vicente,  junto  a  um 
poço;  hoje  na  liihliolheca  da  Camará  Municipal. 

G     •    I   V   L   I    O     G  A  L   1^  O  G\r/o  Jiilio  Gallo,  emerite{n)si  vete- 

EMERITeSI    VeTeR>JO  rano  L{e)g{ionis)   SepWnae   Gemime 

LG-VII-G-F-sTlPENDIS  Felicis,  stipendi{i)s  emeritis,  annornm 

E  M  E  R  I  T  I  S  •  A  /W  •  L  X  X  septuaginta.  H(ic)  s{itus)   e{st).   S{it) 

5     H  •  S  •  E  S  •  TtL  •  IVLIA  •  PRIMA  ^"*')    ^i<^f>'^)  Uevis).  Júlia  Prima,  li- 

LIB  •  ET  •  CONIVX  ■  PATRONO  */^''^'^)  ^^  '^''""''*''  P^i^ono  benemeri{tó) 
BENEMERI  •  D  •  P  •  S  •  F  • 


d(e)  p{ecunia)  s{ua)  f(ecit). 
Monumento  elevado  a  Gaio  Júlio 
Gallo,  emeritense,  veterano  da  Legião  Septima  Gemina  Feliz,  que  complectou 
legitimamente  o  serviço  militar,  fallecido  na  edade  de  setenta  annos.  Aqui  está 
sepultado.  Seja-te  a  terra  leve.  Júlia  Prima,  liberta  e  cônjuge,  mandou  fazer  á 
sua  custa  este  monumento  em  honra  do  seu  patrono  benemérito. 

Temos  nesta  inscripção  exemplo  d'um  militar  que  complectou  legi- 
timamente o  serviço,  e  obteve  portanto  a  honeslam  missmtem  slipimdiis 
emerilis.  É  a  primeira  inscripção  encontrada  em  território  portuguez 
em  que  esta  fórmula  se  encontra. 

2  — Encontrada  no  estabulo  da  herdade  das  Terras  da  Aldeia,  po- 
voação de  Santa  Kulalia,  concelho  de  Elvas. 


D  f  M  »•  S 

M  CLODIVS  IV  LI 

N  V  S    A  N  N    XXi 

H  »-  S  r  E  r  S  »•  T  í-  T  r  L  »-| 

giíttus    5TITVS    CLODlYSpaícra 
MODESTVS    ET 
BLESIDIENAMAR 
CELLA  P  r  ET  M  FILIO 
PIÍSSIMO  r  F  '■  C 


Diiis)  (Manibiis)  S(acnon). Mar- 
cus Clodius  Juli\_a\nus,  ann{oruin) 
A'A'/[/],  li{ic)  s{itus)  e{st).  S{it) 
t[ibi  t(erra)  Uevis).  Titus  Clodius 
Modestus  et  Blesidiena  Marcella 
p{ater)  et  m{ater)  filio  piissimo 
/[aciendum)  c{uraverunt). 

Monumento  consagrado  aos  deu- 
ses dos  mortos. Marco  Clodio  Julia- 


no, fallecido  na  edade  de  vinte  e 
dois  annos,  aqui  está  sepultado.  Seja-te  a  terra  leve.  Tito  Clodio  Modesto  e  Ble- 
sidiena Marcella,  pae  e  mãe  do  fallecido,  cuidaram  em  levantar  este  monumento 
á  memoria  de  seu  piedosissimo  filho. 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N.°  7 — Julho  1887.  7 


98  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

Os  symbolos  gravados  nas  faces  lateraes  do  montimenlo  indicam 
pertencer  o  fallecido  á  classe  sacerdotal.  Na  terceira  linha  havia  talvez 
mais  uma  unidade  além  daquella  de  que  restam  vestígios;  numero 
maior  não  poderia  conter-se  no  espaço  partido,  segundo  observou  o 
sr.  Furtado. 

3 — Descoberta,  ao  sul  da  cidade,  no  casal  da  herdade  do  Fal- 
cato,  junto  do  caminho  de  Évora  para  Badajoz. 

COMINIAr  M  rFrAVITA  Cominia  Marci  f{ilia)  Avita,  an- 
A  N  N  O  R  ave  *  ave  V  1 1 1 1  nor{um)  VIIII,  h{ic)  s{ita)  e{sí).  T{e) 
HrS»-E»-T'-R»'PrDr  SrT'-  T  >■  L  r{ogo)  p{raeteriens)  d{icas)  s{it)  t{i- 
M  '•  C  O  M  I  N  I  V  S  »-  G  L  E  M  E  N  S  bi)  í{erra)  l{evis).  Marcus  Cominius 
5  V  I  B  I  A  '^  M  r  F  »•  AVITA  Clemens  Vibia  Marci  f{ilia)  Avita 
FILIAE    '•   FACIENDVM   '-     CVRAR    filiae  faciendum  curar{unt). 

Cominia  Avita,  filha  de  Marco, 
fallecida  na  edade  de  nove  annos,  aqui  está  sepultada.  Rogo-te,  viandante,  que 
digas  :  Seja-te  a  terra  leve.  Marco  Cominio  Clemente  e  Vibia  Avita,  filha  de 
Marco  Vibio,  cuidaram  em  mandar  fazer  este  monumento  em  honra  de  sua 
filha. 

Na  segunda  linha  a  folha  de  hera  que  separa  as  palavras  é  ladea- 
da de  duas  pombas.  A  formula  Te  rogo,  praeteriens,  dicas:  sit  libi 
terra  levis  é  muito  vulgar  na  península,  seguindo-se  as  mais  das  vezes 
immediatamente  ao  h  •  s  •  E  •  Encontra-se  ora  expressa  unicamente 
pelas  iniciaes,  como  na  inscripção  presente,  ora  escripta  por  exten- 
so. Esta  fórmula  apparece  modificada  de  muito  variadas  maneiras, 
subsistindo  todavia  sempre  a  ideia  inicial  de  rogativa,  feita  ao  trans- 
eunte, de  proferir  o  sacramental  ST-T-L-  Eis  as  variantes  que 
se  lém  encontrado  na  peniusula : 

Numa  inscripção  de   Gadix   lê-se  (C.   /.  L.,  u,  n.^  1728):  te- 

rogo-praeteriens-cvm|legis-vt-dJcas- 
SIT-TIBI-T-L<i);  uoutra  da  mesma  localidade,  esta  leve  vaiian- 
le  (Ibid.,  n."  1853)  :te-  rogo-praeteriens-cvm| 

LEGAS-ET-DIGAS-S-T-T-L- 

Numa  inscripção  de  Linares  (Castulo)  apparece  (Ibid.,  n.°  3296): 

ie  PRECOR  •  PRAETERIENS  •  D 
I  CITO  •  T  •  L  • 

8  noutra  de  Trigueros  (Ibid.,  n.°  952): 
siovis  •  IIS  • 

PRAIITIIRIIIS  •  LIIGII 
SITTIBITIIRALIIVIS 

onde  ha  exemplo  do  e  representado  por  dois  ii. 


E   HISTÓRICA  99 


Noutras  e[)igra|)lies  o  prupleriens  ê  subsliltiido,  quer  por  trans- 
grcdiens,  como  muna  de  Sevilha  (IhiiL,  u."  lá^í);:  TK  •  ROGO  • 
TRANSg^rEJlENSjDlCAS  S-T-T-L;  quer  por  discedens, 
como  se  vè  num  lellreiro  de  Cadix,  que  o  leitor  curioso  não  desgos- 
tará de  vêr  ai]ui  transcripto  integralmenle  {lOid.,  n."  I82lj: 

AVE 
HERENNIA  •  CROCINE 
CARA  •  SVEIS  ■  INCLVSA  •  HOC  •  TVMVLO 
CROCINE  •  CARA  •  SVEIS  •  vjxl  •  EGO 
ET  •  ANTE  •  ALIAE  •  vIXERE  •  PVELLAE 
IAM  •  SATIS  •  EST  •  LECTOR  •  DISCEDENS 
DICAT  •  CROCINE  •  SIT  •  TIBI  ■  TERRA 
LEVIS  •  VALETE  •  SVPERI 

Encontra-se  o  praetcriens  também  subslituido  pela  phrase  qui  trans- 
is; como  numa  iiiscripção  de  Conimbriga  (Ihid.,  i\.° 'ÒG9):  DIC -RO- 
GO |  Q  v  l  •  T  R  A  N  S  I  S  I  S  I  T  •  T  I  B  I  •  T  E  R  R  A  I  L  E  V  I  S ;  ap- 
parecendo  mais  desmvoivida  noutra  de  Valera  de  Arriba,  Valeria  {Md., 
n."  3181): 

.  .  . STTL 

FREQVENS  VIATOR 

S^PE  QVI  TRrJSIS  LEGE 

NATVS  PRO  TE  SVM 


Esta  rogativa  apparece  ainda  mais  periphrastica  numa  inscripção 
em  verso  descoberta  em  Merida  {Ibid.,  n."  538): 


TV  QVI  CARPIS  ITER  GRESSV 
PROPERANTE  VIATOR  SÍSTE 
GRADV  QVAESO  QVOD  PETO  PARVA 
MORA  EST  ORO  VT  PRAETERIENS 
DICAS    STTL 

Outra  periphrase  num  monumento  infelizmente  mutilado  de  Vil- 
ches,  cuja  lettra  é  do  primeiro  século  {Ibid.,  u.°  3256): 


tW  '  ME-  PRAETEREENS-  N.... 

.  .MNIS  •  E  •  NUMERIS- 

iam,  q\l\  -  LEGISTI  -  DIC  •  Sit  ■  tibi  ■  terra  ■  levis 


100  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Algumas  vezes  também  a  formula  foi  simplificada  reduziíido-se  a 
DIGITE  QVI  LEGETISSTTL,  como  SC  vê  em  inime- 
rosas  inscripções  (Ibid.,  ii."'  o0ri8,  1034,  1512.  1487,  M2G.  ele);  e 
esta,  por  seu  turno  an)pliíicada,  do  (]ue  dou  os  seguintes  exemplos. 
Um  epitaphio  de  Ilispalis  tem  {Ibid.,  n."  1235): 


QVISQ   I  EGIS   TITVLVM  SENTIS  QVAM  VIXERIM   PARVOM 
HOC   PETO  NVNC  DICAS  SIT  TIBI   TERRA  LEVIS 

outro  de  Salpensa  (Facialcazar?),  da  sepultura  d'um  Pfjlades  (.Ibid., 
n.°  1293): 


DIGITE  •  QVI  •  LEGITIS  •  SOLITO  •  DE  •  MORE  •  SEPVLTO 
PRO  •  MERITIS  •  PYLADES  •  SIT  •  TIBI  •  TERRA  •  LEVIS 

Se  não  fosse  meu  propósito  o  apresentar  somente  as  variantes  pe- 
ninsulares da  formula,  muitas  outras  poderia  produzir,  visto  abunda- 
rem ellas  nas  demais  regiões  que  fizeram  parte  do  império  romano, 

Borges  de  Figueiredo. 


MAIS  UM  MONUMENTO  EPIGRAPHICO 
DE  BENCATEL 

Temos  felizmente  uma  Revista  especial  em  que  registrar  o  appare- 
cimento  de  mais  um  cippo,  para  se  não  perder  a  memoria  d'elle.  De- 
pois, ou  desappareça  ou  não  a  lapide,  não  se  perde  já  o  documento, 
que  assim  fica  bem  archivado  para  os  séculos  vindouros. 

Historiemos  a  descoberta.  No  principio  de  março  fazia-se  o  alquei- 
ve  d'um  ferragial  da  Herdade  do  Freire,  situado  entre  o  monte  (casa 
da  berdade)  e  o  poço  de  que  alli  bebem.  Um  dos  arados  revolveu 
uma  lágea  de  mármore  branco  talbado,  que  o  conductor  da  parelha 
de  muares  desenterrou  para  a  examinar,  pondo-a  em  seguida  de  par- 
te. Lembrando-se  depois  de  que  poderia  a  dieta  lapide  servir  para  so- 
bre ella  se  moerem  tintas,  deu  noticia  do  seu  descobiimeiílo  ao  car- 
pinteiro do  convento  de  Montes  Claros,  cuja  é  a  lavoura  do  Freire;  e 
sendo  levada  para  alli  num  carro  a  21  de  maio,  casualmente  soube 
disso  o  administrador  d'aquella  casa  e  lavoura,  o  sr.  António  Joa- 
quim Coelho,  que,  vendo  palavias  latinas  escriplas  nella  e  conhecen- 
do ser  um  monumento  de  aiiligiudades  romanas,  mandou  recolher  a 
pedra  para  me  ser  mostrada  no  dia  seguinte,  em  que  havia  de  ter  lo- 


E    HISTÓRICA  lUl 


gar  lia  egreja  do  convento  a  íesla  annual  de  Nossa  Senhora  da  Luz, 
sendo  eu  o  orador  da  festividade.  Apenas  a  vi,  logo  a  interpretei;  e 
pedi  ao  sr.  Coelho  que  ma  cedesse  e  enviasse  para  minha  casa  era 
Bencatel;  o  que  elíeituou  prompta  e  obsequiosamente  no  domingo  se- 
guinte. É  [)ois  minha  a  lápide  e  pode  ser  analysada  por  quem  o  pre- 
tender. Eis  as  suas  dimensões:  alt.  0'".4:j;  larg.  O"', 52;  espes.  mé- 
dia (r,7. 

Diz  o  leltreiro,  era  caracteres  de  quatro  centímetros  nas  primeiras 
quatro  linhas  e  de  dois  centímetros  nas  lestantes: 

L  •  AVRELIVS  •  L  •  F  Luciíis  Aurelius  Lucii  fiilius)  Flaus,  ann{orum) 
FLAVS  •  ANN  •  XXX^  XXXV,  h{ic)  s(iíus)  e(st).  S[ií)  t(ibi)  i{crra)  l{e- 
H-S-E-S-T-T-L  vis).  Pater  d{e)  s[iio)  p{onendinn)  c{uravit). —  Pu- 
PATER  -  D  •  S  •  P  •  G  bliiis  Aurelius  Aiger,  ann{oruvi)  X...,  h{ic)  siitus) 
5     p-AVRELivs-NiGER     e{st).  S{it)  t[ibi)  t(erra)  l{evis). 

ann--^//h  -s-e-s-t-t-l        Aqui  jaz  Lúcio  Aurélio  Flao,  fallecido  com  trin- 
ta e  cinco  annos  de  edade.  A  terra  lhe  seja  leve. 
Seu  páe  lhe  mandou  pôr  este  monumento  a  sua  custa. —  Aqui  jaz  Publio  Auré- 
lio Niger,  fallecido  na  edade  de  . . .  annos.  A  terra  lhe  seja  leve. 

Algum  tempo  depois  de  enterrado  Lúcio  Aurélio,  houve-se  por 
bem  accomodar  outro  cadáver  na  mesma  sepultura ;  e,  porque  ainda 
sobejava  espaço  dentro  da  moldura  do  cippo,  accrescentaram  ao  epi- 
taphio  primitivo  o  de  P.  Aurélio.  * 

A  pedra  é  branca,  de  calcáreo,  porém  mais  grosseiro  que  o  de 
Montes  Claros  ;  o  que  mostra  ser  cortado  para  aquellas  bandas  do 
Freire,  que  é  visinlio  da  serra  d'Ossa,  onde  começa  a  haver  granito 
somente,  assim  como  dahi  para  baixo. 

U3matarei  este  artigo  com  duas  observações. —  Piimeira:  Deve 
cônsul lar-se  o  diccionario  Portugal  antigo  e  moderno  de  Pinho  Leal, 
coutiiuiado  pelo  meu  prezadíssimo  amigo  o  dr.  Pedro  Augusto  Fer- 
reira, abbade  de  Miiagaya,  no  aitigo  de  Villa  Viçosa,  a  que  pertence 
Bencatel,  e  o  d'este  mesmo  titulo,  dt^nde  constam  os  monumentos  ro- 
manos conhecidos  ao  tempo  da  publicação.  Enconlram-se  alii  as  co- 
pias do  cippo  de  Júlia  Avita,  da  ara  de  Fonlanu  e  Fontana,  e  da 
campa  chrislã  de  Domicia,  etc.  A  Herdade  do  Freire  está  situada  a  5 
kilometros  da  aldeia  de  Bencatel,  para  a  parte  do  sul,  juncto  á  mar- 
gem esquerda  do  Luciféce,  onde  em  tempo  dos  romanos  só  haveria 
herdades  {villae)  como  hoje  ha.  A  povoação  central  era  onde  agora 

*  Publio  Aurélio  Niger  era  uni  irmão  mais  novo  de  Lúcio  Aurélio  Flao,  como  o 
indica  o  gentilicio;  Lúcio,  como  primngcnito,  recebeu  o  prcnome  do  pae,  o  que 
geralmente  acontecia.  Publio  Nii^er  fallcceu  lalvez  muito  moço  e  ainda  quando  se 
estava  a  gravar  o  cpitapliio  do  irmão,  ficando  o  moíuimento  commum  aos  dois 
falltícidos,  que  o  páe  reuniu  na  mesma  sepultura. — B.  de  F, 


102  REVISTA    ARCHEOLOGICA 

assenta  esta  mesma  aldeia  de  Bencatel,  abrangendo  porém  aqiiella 
uma  área  muito  mais  extensa.  * 

Segunda:  Se  eu  não  fora  dedicado  aos  estudos  archeologico>,  per- 
der-se-hia  o  cippo  agora  descoberto,  como  em  diversos  tempos  se 
perderam  muitissimos,  de  que  tradicionabuente  ouço  fazer  menção. 
Conviria  pois  que  se  promulgasse  uma  lei  que  obrigasse  os  municipios 
a  remunerar  com  qiiaesquer  quantias  as  pessoas  que  lhe  apresentas- 
sem monumentos  antigos.  Nesse  caso,  com  a  mira  no  interesse  mone- 
tário, visto  que  só  assim  podemos  approveitar  alguma  cousa  que  ap- 
pareça,  aquelles  que  descobrissem  qualquer  antigualha  a  levariam  lo- 
go à  auctoridade. 

Bencatel,  2  de  junho  de  1887. 

P."  Joaquim  J.  da  R.  Espanca. 


NOTAS  SOBRE  A  TOPONYMIA  PORTUOUEZA 

I 

É  obvio  que  ao  homem  se  impoz  muito  cedo  a  necessidade  de  dis- 
tinguir os  diversos  logares,  que  conhecia,  por  meio  de  nomes,  do 
mesmo  modo  que  a  de  individualisar  os  seus  similhanles  e  todos  os 
objectos  que  o  cercavam.  Os  monosyllabos,  que  constituíram  os  pri- 
meiros vocal)uios,  segundo  se  observa,  exprimiam  apenas  ideias  con- 
cretas; mas  em  bi'eve,  começando  o  homem  a  applical-os  a  muitos 
objectos  em  consequência  da  sua  faculdade  de  i^eneralisação,  esses 
termos  passaram  a  representar  a  principal  qualidade  commum  a  es- 
ses mesmos  objectos.  Conservando  os  termos  uma  significação  geral, 
e  portanto  sem  particularisarem  ou  especialisarem  um  objecto,  expri- 
miam ideias  invariavelmente  relativas  ás  coisas  physicas.  Tornando-se, 
porém,  gradualmente  mais  complexo  o  pensamento,  mais  complicada 
se  tornou  a  linguagem,  e  as  palavias,  sem  perderem  a  sua  primitiva 
significação,  principiaram  a  ser  empregados  em  sentido  abstracto,  não 
naturalmente  mas  por  metaphoras. 

Forçado  pois  pela  necessidade  de  individualisação  e  em  virtude  da 
sua  faculdade  generalisadora,  começou  o  homem  a  applicar  aos  diffe- 
rentes  logares  da  terra  os  nomes,  que  formavam  o  seu  vocabulário, 
e  que  designavam  outros  objectos.  Entrado  neste  caminho,  a  derivação  e 
a  metaphora,  a  associação  das  ideias  e  a  phantasia  produziram  o  resto. 

Originariamente  significativos,  lêem  pois  os  nomes  de  logares  uma 
origem  variadíssima:  procedem  dos  diversos  accidentes  do  terreno, 
da  sua   natureza  e  eslado;  da  posição  da  localidade,  das  suas   con- 

*  A(|uel!as  paragens  eratn  provavelmente  oceupadas  por  uma  civitas  cujo  no- 
me por  emquanto  é  desconhecido. — R.  dk  V. 


E   HISTÓRICA  103 


dições  climatéricas,  da  sua  fauna,  flora  e  mineraes;  das  curiosida- 
des naliiraes;  das  habitações  e  conslrucções  de  lodo  o  género;  de 
toda  a  espécie  de  produclos  arlislicos  e  industriaes,  como  de  objectos 
do  uso  domestico  e  agricola ;  de  nomes  de  pessoas  e  de  suas  d(;ibrml- 
dades,  como  de  sua  posição  social ;  dos  nomes  de  povos  que  habita- 
ram estável-  ou  temporariamente  uma  localidade ;  dos  factos  históri- 
cos; das  tradições  religiosas;  de  antigos  sanctnarios ;  etc,  etc. 

Torna-se  hoje  impossivel  descobrir  a  etymologia  de  muitos  nomes 
locativos,  pelas  modiíicações  extraordinárias  por  que  elles  tèem  passa- 
do, e  ainda  [)ela  ignorância  em  que  se  está  de  innumeraveis  particula- 
ridades linguisticas  dos  povos  que  os  estabeleceram.  Todavia,  de  mui- 
tas outras  designações  de  logares  se  conhecem  as  origens;  e  algu- 
mas delias  são  da  mais  alta  importância,  seja  qual  for  o  ponto  de 
vista  sob  que  forem  consideradas. 

Algumas  etymologias  topon}  micas  são  extremamente  interessantes. 
Em  varias  obras,  entre  as  quaes,  apezar  de  muitas  imperfeições,  tem 
logar  distincto  o  trabalho  de  Salverte  ^  se  podem  ver  as  etymologias 
de  muitíssimos  nomes  geographicos.  Aqui  limitar-me-hei  a  apontar, 
como  exemplo,  alguns  cuja  origem  é  sobremodo  curiosa. 

O  nome  Dakcliiuas,  por  que  os  brahmanes  designam  os  paizes  si- 
tuados ao  sul  da  península  gangetica,  quer  dizer  juiizes  situados  a  di- 
reita 2,  proveniente  de  que  elles  se  orientavam  com  relação  ao  levante; 
e  o  nome  athapaska  Achichillacnchoen  quer  dizer  lorjar  onde  os  homens 
choram  porque  a  agua  é  vermelha.  ^ 

E(j!/pto  deriva  da  phrase  lla-Ka-Phtah:  (a  cidade  de  Phtah'),  pela 
qual  os  egypcios  designavam  a  grande  ]Memphis*;os  gregos  transfor- 
maram aquella  phrase  no  nome  de  Atyvr:Tcç,  que  passou  a  todas  as 
línguas  eiu'opeas.  A  ilha  de  Cos,  pátria  de  Hippocrates  e  de  Apelles, 
é  chamada  pelos  turcos  Sta?Ko,  nome  que  provém  de  os  gregos  di- 
zerem ir  a  Cos  £i;  zr,v  Ku,  o  que  os  marinheiros  extrangeiros  enten- 
deram por  Stenco  ou  Sianco.  Se  este  fado  não  tivesse  similares,  po- 
deriam levantar-se  algumas  objecções;  mas  ha  mais  os  seguintes 
exemplos  todos  de  antigas  localidades  gregas: 

Lemnos:  ú;  zw  AÃfj.vo)  (ir  a  Lemnosj,  Stalimene; 

Dia:  £ii  Ty,v  Ata  (ir  a  Dia),  Standia; 

Uyzancio:  siç  Tr,v  tzóIvj  (ir  á  cidade)  Slambul. 

O  ultimo  exemplo  friza  bem  a  importância  da  capital  do  império 
do  Oriente  que  era  para  aquellas  regiões  a  cidade  por  excellencía, 


1  Exsai  historique  et  philosophique  sur  les  noms  dliommes,  de  petiples  et  de 
lieux,  consideres  priucipalement  dans  leurs  rappovts  avec  la  civilisation,  par  E. 
Salverte.  Paris,  18-24. 

2  Maurv,  Im  lerre  et  1'homme,  p.  545. 

3  1(1..  ibid.,  p.  569,  not.  1. 

*  Maspero,  Histoire  ancienne  des  peuples  de  VOrient,  1.  I,  c.  2. 


104 


REVISTA   AECHEOLOGICA 


correspondendo  portanto  a  alludida  expressão  á  nossa  moderna  ir  á 
capital,  ir  á  cidade. 

II 

Seria  não  só  curiosa,  mas  summamente  interessante  a  disposição 
methodica  de  todas  as  designações  locativas  portuguezas  dorigem  co- 
nhecida e  ainda  daqiiellas  cuja  significação  se  presume.  A  historia, 
como  a  ethnographia,  a  archeoiogia  como  a  linguistica,  se  enriquece- 
riam com  o  estudo  de  todos  esses  elementos  convenientemente  con- 
densados; dispersos,  como  estão,  não  podem  ser  utilisados  devidamente. 

Unicajnente  como  subsídios  para  esse  trabalho  vou  apresentar  por 
grupos  alguns  termos  locativos  mais  notáveis,  cuja  significação  é  co- 
nhecida ou  probabilissima.  Creio,  porém,  dever  precedel-os  da  lista, 
muito  breve  e  muito  incomplecta,  dalguns  exemplos  da  procedência 
das  variadas  designações  de  legares ;  é  a  seguinte  ^: 


Natureza  do  terreno:  Areeiro,  Bar- 
rosa, Gandara,  Insua,  Várzea... 

Accidentes  do  terreno:  Algar,  Co- 
vão, Lomba,  Valle,  Portella, 
Fraga... 

Estado  do  terreno:  Alqueive. . . 

Posição  da  localidade:  Foz-Côa, 
Ribamar,  Porto,  Entre-Aguas, 
Traz-os-Montes. . .  ^ 

Fauna:  Cegonheira,  Coelheira,  Lei- 
tões, Colmeal,  Andorinha. . . 

Flora:  Ameeiro,  Ameal,  Nogueira, 
Alçaria,  Lirios.  . . 

Florestas :  Bouça,  Souto,  Carva- 
lhal, Castanheira. . . 

Curiosidades  naturaes:  Fei'venças, 
Fonte-quenle. . . 

Habitações  e  outros  edifícios:  Ca- 
sal, Castello,  Torres,  Paço,  Mos- 
teiro, Egreja,  Grijó. . . 


Conslrucções  d,'utdidade  publica : 
Ponte,  Fonte-Arcada. . . 

Estabelecimentos:  Azenha,  Adega, 
Venda,  Fornos,  Pisão... 

Santos:  Sangalhos  [San  Gallius], 
Sanjumil  [San  GemW],  et  passim. 

Nomes  de  pessoas:  Moncorvo  [Mem 
Corvo], Viegas  [Ibn-Egas],eípas- 
sim . 

Posição  social:  Cavalleiros,  Car- 
voeiro, Mestras,  Promotor,  Bes- 
teiros. Sargento-mór. .  . 

Deformidade  ou  defeito  pessoal :  Bei- 
çudo, Orelhudo,  Gigante,  Ga- 
gos... 

Povos  habitadores :  Moura,  Mouris- 
co, *Lordemão^. . . 

Factos  históricos :  Batalha,  Conten- 
da. Campolide,  Matança,  *Povo- 
lide... 


1  i\as  listas  que  vão  seguir-se,  c,  quer  dizor  «casal»;  h-,  «herdade»;  /„  «lo- 
gar»;  m.,  «monte»;  </.,  «quinta»;  s.,  «sitio».  A  lettra  duplicada  indica  haver  mui- 
tos loçtares  d'esse  nome.  ()  *  denota  ser  duvidosa  a  procedência. 

2' Cf.  Yamuto  (Yamaato)  «atraz  dos  montes»,  nome  da  província  japoneza 
onde  se  estabeleceu  o  mikado  em  710  a.  C.  (Maiiry,  op.  cií.,  p.  i)'M). 

5  Parece-me  que  esta  desi<;naçào  locativa  conserva  memoria  dos  homnis  do 
norte,  os  Normandos,  que  nos  antigos  documentos  sào  chamados  Norinanos,  Lo- 
thornanos,  Lormanos,  Laudomanes,  'Leodomanes.  Sobre  as  invasões  normandas  na 


E  HISTÓRICA 


105 


Objectos  (lo  uso  domestico:  Cântaro, 
*Malga... 

Objectos  vários:  Cruzes,  Hebolo, 
Signo-Saiinão. . . 

Gestos:  Alça-penia,  Alça-pé,  Mira- 
olhos. . . 

Vias  de  commiinicação :  Estradas, 
Carreiros. . . 

Demarcações  e  monumentos :  Mar- 
co, Padrão. . . 


líf/drof/raphia:  Uibeira,  Fonte,  La- 
goa". .  . 

Geoloíjia:  Lage,  Pedras  ásperas, 
Barro  branco. .  . 

Mineralogia:  Ouro,  *Prala,  *Go- 
bre . . . 

Astronomia :  Serra  da  Estrella,  Es- 
Irella,  Estella. . . 

Etc,  etc. 


{)  Toponyinia  pleonastica  (designações  locativas  cumpostas,  que 
apresentam  redundância,  ou  em  que  o  segundo  termo  reforça  mais  ou 
menos  o  sentido  do  primeiro) : 


Agro-Chão,  6  l. 

Agua- Levada,  2  l. 

Aramenha    [*Er-mino]    (Hermi- 

nio),  //. 
Bicalto,  s. 
Cabeço-Alto,  /. 
Campo-Chão,  /. 
Campo-Liso,  /. 
Campo-Raso,  2  l. 
Chão  Terreiro,  /. 
Corgo  d'Agna,  /. 
Coval-Chão,  s. 
Lage-Pedrinha,  /. 
Monte  Alminho  [*Er-mino],  m. 
Monte  Arminio  ['^Er-mino],  m. 


*Monte-Allo,  passim 
*Montes  Altos,  2  /. 
Monte  do  Outeiro  *, 
Monte  Erguido,  /. 
MontOulinlio,  c. 
Monte-Serro,  /. 
Monteserros,  /. 
Outeiro-Montinho,  /. 
Onteiros-Altos,  2  l. 
Pedras-Lages,  2  l. 
Pico-Allo,  /. 
Uiba-Rio,  2  l 
Ribeiro  d'Agua,  /. 
Serro-Alto,  ^3  l. 


passim. 


2)  Toponyniia  antithética  (denominações  locativas  compostas,  cujos 
termos  apresentam  antinomia) : 


Agro-Villa,  2  /. 
*Leiras-Covas,  /. 
Lomba-Chã,  c. 


Monte  Campeno,  s. 
Monte  Chão,  /. 
Vai  Serrão,  2  l. 


península,  vej.  Mooyer,  Die  Einfnllen  des  Normannen  in  die  pyrenaische  Halbin- 
sel.  Miinster,  1881.  (Ha  uma  versão  port.  de  G.  Pereira);  Viterlto,  Elucidário,  3. 
vv.  Lnudniwines  e  Keiniso:  tMorez,  Esp.  Sagr.,  t.  xl,  f.  40:{;  Cliron.  Goth.  apud 
Port.  Mon.  Hist.,  Srript.,  vol.  i,  p.  9 ;  S.  Rosendi  vila  et  miracula,  ibiil.,  p,  3o  e  36; 
Port.  Mon.  Hist..  Dipl.  et  Cliart.,  vol.  i,  p.  61. 

1  Deve  advertir-se  que  |)rin('ipalniente  no  sul  do  reino  a  palavra  monte  designa 
frequentemente  «casa  de  lierdado». 


406 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


3)  Toponymia  monumental  (nomes  de  logares  derivados  de  monu- 
mentos megalitliicos  e  congéneres): 


Antas 

Anta,  passim. 
Antas,  passim. 
Anleiras,  .<. 
Antella,  2  l. 
Antellas,  /. 
Antinlia,  q. 
Pedra  d" Anta,  l. 
*Pedra  do  Altar,  /. 

Menhirs 

Parafita  [Perafita],  3  l. 
Pedra  Alçada,  c.  e  s. 
*Pedra  Alta,  3  l. 
Pedra  Empinada,  s. 
*Pedra  Firme,  2  l. 
Pedra  Fita,  /. 
*Pedra  Longa,  /. 
*Pedra  Vedra,  /. 
*Pera  Longa,  c. 
*Pera  Picota,  q. 
Perafisa,  /. 
Peraíisos,  /. 
Perafita,  2  l 

Alinhamentos 

Pedras  Alçadas,  /. 
*Pedras  Altas,  c  e  s. 
*Pedras  Bastas,  /. 


*Pedras  Juntas,  s. 
*Penedos  Altos  ,  2  L 

Marcos 

Marco,  passim. 
Marco  Alto,  h. 
Marco  Branco,  s.  e  h. 
Marco  Giande,  2  l. 

Mamoas 
Fieis,  5  /. 
Fieis  de  Deus,  5  l. 
Madorra,  passim. 
Mamoa,  passim. 
Moronço,  alg.  l. 

Pias 
Pias,  passim. 
Chão  das  Pias,  s. 

Pedras  vacillantes 

Falperra  [Falsa-pedra],  9  l. 
Pedra  Cavalleira,  /. 
Pedra  Encavallada,  c. 
*Pedra  da  Paciência,  s. 
*Perramedo  [Pedra-medo],  s. 
Peravanas,  2  l. 
*  Penedo  da  Mó,  l. 
*Penedo  que  falia,  /. 


4)  Toponymia  religiosa  (nomes  locativos  que  toem  ^a  origem  em 
antigos  sanctuarios): 


Agua  Santa,  /. 
Aguas  Santas,  5  /. 
Altar  do  Trivim,  s. 


Altares,  /. 

Alto  da  Santinha,  serro. 

*Bussaco  *,  m. 


'  Ad.  Coellio,  Rev.  d'Ethnologia,  p.  147  not. 


E    HISTÓRICA 


107 


*Hiissacos,  .s\ 

Cabeça  Santa,  /. 

Chã  das  Santas,  /. 

Clião  dos  Santos,  /. 

Fão  [1<';miiis],  /. 

Fonttí  Santa,  pa^^sini. 

Fontes  Santas,  /. 

Logo  de  Dens,  2  l. 

*Moch3rro  [Mons  Sacrus],  .s\ 

Moinho  Santo,  /. 

Moita  Santa,  /. 

*Monchiqne  *,  m.  e  /. 

Monjove  [Mons  Jovis],  m. 

Monsanto,  4  s. 

Mo n são,  5  s. 

*iVloiisari'os  [Mons  Sacrus,]  /. 

Monte  da  Santa,  /. 

Monte  dos  Santinhos,  /. 

Monte  dos  Santos,  /. 

Monte  Santo,  2  l. 

Monte  São,  /. 

*Sandomil,  /. 

Santa,  5  l. 

Santães,  /. 

Santagões,  /. 

■*Sanlalha,  /. 

Santão,  2  l. 

*Santar,  S  l. 


*Santarinho,  /. 

Santas,  2  l. 

Santinha,  4  l. 

Santinho,  4  I. 

Santissirni),  /. 

Santo,  17  l. 

Santomil,  /. 

Sanfin  *[San  FeiixJ,  /. 

Sanfins  [San  Félix],  //. 

Sanflppo  [San  Fihppe],  /. 

Sangalhos,  S  l. 

Sangens,  /. 

Sangemil,  /. 

Sanhoane  [San  Johanne],  S  L 

Sanjumil.  /. 

Sanjurge,  /. 

Sanoane,  /. 

Santo  Sidro  [Santo  Isidro],  l. 

Santoro,  [Sanctorum],  /. 

Santornm  2  /. 

Santos,  8  /. 

Santosinhos,  /. 

Sanlidhão,  /. 

S.  Noane,  /. 

S.  Noanne,  /. 

Vai  Santo,  /.  e  s. 

Vai  do  Santo,  /. 


Gomo  se  vô,  são  muito  incompletas  as  listas  que  precedem;  mas 
advirta-se  que  foi  meu  único  intuito  apresental-as  apenas  como  uma 
modesta  contribuição  para  o  estudo  da  lopouymiM  portugueza,  estudo 
cuja  importância  é  de  lodo  o  ponto  evidente. 


Lisboa,  26  de  maio  de  1887. 


Borges  de  Figueiredo. 


Id.,  ibid. 


108  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

CONSTITUIÇÕES  DO  ARCEBISPADO  DE  LISBOA 
Decreladas  por  D.  João  Esteves  d' Azambuja  (1402-1414) 

[Coutinuado  de  pag.  96\ 

que  sse  tiom  casem  sse  nom  em  face  da  egreia  e  que  nom  vendam 
carnes  nem  viandas  ao  domiiígo 

37  Item  era  delesso  que  iienhiiimi  nom  casasse  sse  iiam  em  face 
de  egreia  e  passadas  as  amoslações  per  três  domyngos  pêra  sse  sa- 
ber se  ha  liy  alguiim  embargo  a  sse  nom  fazer  o  casamento. 

38  Item  era  delfesso  que  nom  uendessem  carnes  nem  outras  uian- 
das  ao  domingo  atee  que  sayssem  das  missas  e  pregaçam. 

dos  barregueiros 

30  E  por  quanto  em  a  mayore  parle  das  suas  constituições  eram 
posstas  sentenças  de  excomunliom  em  aquelles  que  o  contrayro  fezes- 
sem  e  porque  as  suas  ditas  sentenças  de  excomurdiom  nom  soomente 
empeeçem  e  legam  aquelles  que  as  encorrem  e  que  sam  postas,  mas 
ainda  empeeçem  e  legam  (sic)  aquelles  que  con  elles  participam,  porém 
querendo  nos  a  esto  proiier  por  saúde  das  almas  dos  nossos  subiey- 
tos  rreuogamos  as  sentenças  de  exconumbom  postas  e  contliiudas  nas 
dilas  constituições  e  cometemos  nossas  uezes  a  lodos  os  priores  e 
curas  do  nosso  arcebispado  que  possam  absoluer  quaesquer  dos  seus 
freguezes  que  atee  ora  em  ellas  encorreram  e  nom  endjargando  que 
sy  ora  rreuogamos  as  ditas  sentenças  de  excomunbom  pêro  ponjuan- 
to  as  ditas  constituições  sam  boas  e  honestas  e  fetas  segundo  direito 
porém  de  consenlimenlo  e  consselho  do  nosso  cabiido  as  aprouamos 
e  rretificamos  a  lodallas  cousas  em  ellas  conlhiudas  tirando  as  dilas 
senlenças  de  excomunbom  as  quaaes  queremos  que  nom  aiam  daqui 
em  diante  liigar  affora  nos  ditos  ti'es  casc.s.  s.  feyticeyros  adiuinha- 
deyros  aguireyros  sorteyros  feeticeyros  et  cetera  das  barregaas 
manthiudas  pubricamenle  per  os  casados  e  creligos  beneficiados  ou 
dordens  sacras  e  rrelligiosos  sse  as  leuerem  notoriamente  comssigo 
nas  casas  em  que  morarem  e  uiuerem  e  em  esto  caso  soomente  he 
nossa  tençam  que  elles  encorram  em  sentença  de  excomunliom  e  no 
ieiuum  das  uesperas  danballas  festas  de  sam  uicente  por(|ue  nestes 
cassos  nom  he  nossa  lençam  rreuogar  as  ditas  sentenças  de  excomu- 
nhom  mas  de  as  aprobar  e  rreteficar. 

que  guardem  santa  eiriia 

40  Item  queremos  e  estabelleçemos  que  os  da  villa  e  arcediagado 
de  Santarém  gardem  as  festas  de  Santa  Eirea  de  toda  a  obra  e  façam 
festa  doblez. 

que  gardem  os  corregedores  esfas  constituições 

41  Outrossy  queremos  e  rrogamos  ao  corregedor  e  justiças  e  rre- 
gedores  desta  cidade  e  dos  outros  lugares  deste  arçel)ispa(lo  tpie  fa- 
çam comprir  e  gardar  as  ordenações  e  statutos  que  sobre  algniuis  dos 
ditos  casos  per  elios  forem  fetos  punindo  os  que  contra  elles  fezerem 


E    HISTÓRICA  109 


seçrundo  sse  em  ellas  contém  em  tall  giiissa  que  os  estatutos  e  proui- 
mciitos  per  elles  fetos  e  confirmados  per  nosso  senhor  elHey  sejam 
conipridamente  cardados  e  postos  em  execnçam  assy  como  cnmpre  a 
seruiiu)  de  dens  e  proll  das  suas  almas. 

que  os  crdií/os  rua  sscijiiros  o  simulo 

42  Item  seguramos  todollos  crcdigos  que  vierem  ao  nosso  sinado 
quando  e  em  quallfjuer  tempo  que  lio  fezermos  que  uenham  seguros 
e  nom  seiam  presíjs  nem  rrclliiudos  per  nos  i'em  per  nosso  niandado 
nem  per  nossos  vigairos  e  oCíicinaes  nem  [)er  seu  mandados  isici  por 
algumas  (luerellas  de  inalleílcios  e  excessos  que  delles  aiam  ados  (sic) 
esso  medes  que  nom  seiam  demandados  nem  citados  por  nenhumas 
diua  das  nem  contrautos  nem  outras  cousas  ataa  que  tornem  a  suas 
casas  e  beneíicios. 

(jue  uiíuuhnn  cspreuer  estas  constituições 

48  Item  (juerenios  e  mandamos  em  virtude  de  obediência  c  sob 
pena  de  excomunliom  que  todollos  priores  e  vigairos  perpétuos  e  ra- 
çoyros  da  dita  cidade  e  arcebispado  cada  lium  em  sua  egreia  façam 
e  mandem  esprever  estas  nossas  constituições  em  seus  linros  atee  seis 
messes  por  nom  podei^em  alegar  e  pretender  algumas  excusaçonees 
e  pêra  sse  em  ellas  enformarem  assy  que  cada  huma  egreia  as  tenha 
escriptas  e  os  priores  e  vigairos  que  o  nom  quizerem  fazer  mandamos 
que  pague  cada  huma  egreia  huum  marco  de  prata  pêra  a  obra  da  see. 


{Falta  o  resto) 


EPITAPHIO  DO  SÉCULO  XII 

No  Museu  do  Carmo  conserva-se  uma  pequena  lapide  (alt.  O™,  18; 
larg.  O"',!'),  acerca  de  cuja  proveniência  não  ponde  colher  informa- 
ções exactas,  tendo  a  seguinte  inscripção,  com  muitas  abreviaturas  e 
leltras  conjunctas,  e  de  que  se  pode  ver  o  fac-sinille  na  est.  xm. 


V  ;  I  D  U  S  ;  I  N  li  I  í  :  o  B  1 1  T  ;  V"  Jdits  l{a)n{ua)rii  obiit 

D  I  D  A  G  V  S      •:      MONIZ:  Didacus  Mom:f  cui{u)sa{n)i- 

CVS     :     A  I  A      ;      REQES;  {m)a  req(ii)iesmeret.E{r)a 

MERET  ;  E  ;  iM  ;■  CG  :  XX  ]  IX  ;  Eral22g    MCC  XXIX.Aspice  q{ii)ia 

5    ASPIGE:qa;QD:   "ÍL  S  \  p.C.iigi    q{tio)d  su^l7l)eris.Me}ne{u)- 
F  Y  l  [  Sí    -QD  ■  S  V    \    E  R  l  S  [  to  m(e)i;  or[a]te pro  me. 
M  E  M  ET  O   •:    M  r  ;    O  R  •  T  E  •:  A   o  de  janeiro  falleceu 
PR  O  \  ME    \                                                         Diogo  Moniz,cuja  alma  me- 
rece descanço.  Era  de  1229. 

Medita  :  pois  o  que  tu  és,  já  eu  o  fui ;  e  o  que  eu  sou,  tu  o  serás.  Lembrai-vos 

de  mim  ;  orae  por  minha  alma. 


•110  KE VISTA  ARCHEOLOGICA 

Esta  reflexão  ijiiod  es  fui  et  quod  sum  eris  encontra-se  frequente- 
mente, com  mais  ou  menos  variantes,  em  epitaphios  e  outras  epigra- 
phes  medievaes  e  ainda  posteriores.  Anteriormente  aos  vandalismos 
que  ha  uns  vinte  ânuos  quasi  sem  iulerrupção  tèem  sido  praticados  na 
malta  do  Bussaco,  via-se  por  cima  da  porta  interior  da  Portai  ia  de 
Coimbra  uma  caveira  sobre  dois  ossos  cruzados,  representando  o  X 
inicial  grega  de  Christo.  Por  baixo  lia-se  numa  pequena  lapide: 

Ó  TU^   MORTAL,   QUE  ME  VÊS 
REPLETE  RIÍM  COMO   líSTOU  : 
KU  JA   FUI  O  QVE  TU  ÉS, 
E  TU  SIÍRÁS  O  QUE   EU   SOU. 

Os  dois  últimos  versos  são  uma  fidelissima  traducção  da  formula 
latina  da  inscripção  sepulcliral  de  Diogo  Moniz. 

Borges  de  Figueiredo. 


QUESTIONÁRIO  ARCHEOLOGICO 

A  redacção  da  Revista  Arclieologica  e  Histórica,  desejando  por  lodos 
os  modos  fomentar  o  desinvolvimento  dos  estudos  archeologico-histo- 
ricos  em  Portugal,  e  sendo  um  dos  primeiros  passos  a  dar,  para  at- 
tingir  esse  fim,  o  tornar  bem  conhecidos  os  monumentos  de  todas  as 
epochas  que  ainda  restam,  muitos  dos  quaes  são  ainda  ignorados,  e  ou- 
tros se  acham  imperfeitamente  descriptos,  roga  aos  assignautes  d'esta 
publicação,  e  a  todas  as  deuiais  pessoas  que  tiverem  d'ella  conheci- 
mento, que  tomem  na  devida  consideração  o  seguinte 

QUESTIONÁRIO 

I 

Monumentos  megalithicos: — Anta  ou  dolmen  (larga  e  grande  pedra  sus- 
tentada, em  geral,  horizontalmente  por  outras  verticaes);  Antella  e 
lambem  talvez  anlinha  (sepultura  quadrilonga  formada  por  varias 
pedras  lateraes,  tapada  com  outras  pedras,  coberta  ou  não  de  ma- 
môa);  Mamòa  ou  màmoa  (montículo  artificial  de  terra,  encimado  ás 
vezes  por  um  menhir):  Meuhir  (grande  pedra  collocada  vertical- 
mente, como  obelisco);  Alinhamento  (men/iirs  ou  simples  pedras  for- 
mando uma  ou  mais  linhas);  (7ro//i/(^67i  (circulo  formado  por  íí/fy^/^/r^ 
ou  pedras  levantadas);  Pedra  haloiçante  (pedra  collocada  sobre  ou- 
tra ou  outras,  equilibrada  de  modo  que  mais  ou  menos  facilmente 
se  faz  oscillar);  Pias  (sepulturas  abertas  em  rocha). 

Nome  da  povoação,  freguezia  e  concelho? 


E   HISTÓRICA  m 

NonH!  (lo  lo(*;il  onde  exisle  o  momimento? 
Delcrmiiiiirrio  ('x;i('t;t  iressu  local? 
Nome  parliciilar  por  (juc  é  conliecido  o  monumento? 
Proprietário?  * 

Coiulicções  ou  estado  em  que  se  acha? 

Orientarão:  para  (|uo  lado  (norte,  snl,  oriente,  poente)  estão  vol- 
tadas as  suas  faces  principaes,  ou  em  que  sentido  se  extende? 

Dimensões:  diâmetro,  comprimento,  altura,  laigura  (em  metros)? 

Que  inscripções  tem? 

Que  gravuras  ou  esculptui'as  tem? 

Que  noticias,  tradições,  lendas  ou  superstições  se  lhe  referem? 

11 

Templos  antigos,  egrejas,  capellas ;  mosteiros,  conventos;  castellos,  tor- 
res; casas  antigas,  aniphithealros,  tiwatros;  banhos  antigos;  necro- 
poles. 

Nome  da  povoação,  freguezia  e  concelho? 

Nome  do  local  onde  existe  o  edifício? 

Determinação  exacta  do  local? 

Nome  particular  do  edifício  ? 

Proprietário? 

Amtjito  do  edifício  (em  metros)? 

Altura  absoluta  (em  metros)? 

Que  jnscripções  tem? 

Que  escuiptnras  ou  gravuras  tem? 

Que  noticias,  tradicções,  lendas  ou  superstições  se  lhe  referem? 

111 

Aqueductos,  arcos;  coltimnas,  estatuas;  túmulos;  cruzeiros,  pad  rões,  pe- 
lourinhos; fontes,  cisternas;  pontes,  vias  romanas;  minas,  caminhos 
subterrâneos. 

Nome  da  povoação,  freguezia  e  concelho? 
Nome  do  local  onde  existe  a  construcção  ou  monumento? 
Determinação  exacta  do  local? 
Nome  particular  da  construcção  ou  monumento? 
Proprietário? 

Dimensões  da  edificação  ou  monumento,  extensão,  altura,  largura, 
diâmetro,  circumferencia,  profundidade  (em  metros)? 
Que  inscripções  tem? 

*  Se  pertence  ao  eslado,ao  concelho,  a  um  est  abelecimento  publico  ou  particular? 


112  REVISTA   AECHEOLOGICA 

Que  esciiIplLiras  ou  gravuras  tem? 

Que  noticias,  tradições,  lendas  ou  superstições  se  lhe  referem? 

IV 

Epigraphia:  inscripções  em  edifícios,  monumentos,  túmulos,  roche- 
dos, cippos,  ele,. 

Nome  da  povoação,  fregnezia  e  concelho? 
Nome  do  local,  edifício  ou  monumento  onde  existe  a  inscripção? 
Determinação  exacta  do  local  ? 
Nome  particular  do  monumento? 
Proprietário  ? 

Dimensões  do  monumento  :  altura,  largura,  diâmetro,  circumferen- 
cia,  espessura  (em  metros)? 

Que  noticias,  tradições,  lendas  ou  superstições  se  lhe  referem? 


Moedas  mitigas  {romainus,  celtibericas,  wisigothicas,  hispano-arabes,por- 
tuguezas,  etc);  armas,  alfaias:  amalelos;  moveis;  objeclos  de  uso  do- 
mestico e  outros  (que  se  tornem  notáveis  por  sua  antiguidade,  ou 
por  sua  forma). 

(Calco,  desenho,  ou  photographia,  acompanhado  (quando  seja  pos- 
sível) da  indicação  da  proveniência  e  do  nome  do  proprietário. 


MODO  DE  TIRAR  CALCOS  DE  INSCRIPÇÕES 

Inscripções  lapidares  (Vej.  pag.  16). 

Inscripções  ou  gravuras  em  objeclos  melallicos,  em  marfim,  em  ma- 
deira, em  pedras  tinas,  etc. 

Servir-se-ha  de  papel  levemente  collado  e  fino,  mas  resistente,  de 
cera-de-cartucheira,  e  de  cora  branca,  molle,  ou  obreia. 

Fixará  o  pape!  sobre  o  objecto  por  meio  da  cera  molle  ou  obreia; 
e  esfregará  todo  esse  papel  com  a  cèra-de-carluclieira  até  que  as  par- 
tes planas  fiquem  ennegrecidas;  a  gravura  apparecerá  em  branco,  des- 
tacando-se  perfeitamente. 

Pode  empregar-se,  em  vez  da  cera-de-carlucheira,  plombagina  em 
pó,  applicada  com  uma  boneca  do  modo  que  fica  indicado. 

Para  copiar  sinetes  ou  gravuras  em  pedras  finas,  o  melhor  pro- 
cesso é  reproduzil-os  em  lacre. 


E   HISTÓRICA  113 


INSCRIPÇÃO  DE  MONTEMOR-0-NOVO 

A  inscripr^o  fiincriíria  úe  MonUMiiúr.  <|ue  eu  |)iihli(|iiei  sugiiiido  os 
textos  eulão  conhecidos,  sobreliido  o  de  Varei  la,  no  Corpus  Jnscr.  Lat., 
vol.  II,  ii/'  1^2,  a[)reseiila  unia  lingiiaiíem  Ião  sini(ular,  e  conlèin  uma 
(juanlidade  de  coisas  Ião  [loiico  inlelJiiiiveis,  (jU(!  havia  todo  o  funda- 
inenlo  para  duvidar  da  aulhenlicidadí!  das  copias  feitas  sobre  ella  por 
pessoas  conscienciosas,  mas  que  não  eram  e|)igra|)hislas.  Em  1871),  o 
sr.  Gabriel  Pereira,  o  consciencioso  e  patriótico  aiiti(iuario  d"Evora,  en- 
viou-me  um  desenlio  do  moniunenlo,  i\\u'  eu  próprio  não  tinha  podido 
vêr.  Esse  desenho,  feito  com  muila  exaclidão,  contêm  todavia  alguns 
erros  de  leitura  que  augmentavam  as  minhas  duvidas.  Eu  estava  já 
disposto  a  acreditar  que  toda  a  inscripção  havia  sido  retocada  por  uma 
mão  inexperiente.  D'estas  duvidas  me  tirou  a  extrema  obsequiosidade 
do  meu  excellente  amigo,  um  dos  editores  d'esta  Revista,  o  qual  se 
torna,  cada  vez  mais  o  verdadeiro  preservador  da  epigraphia  romana 
em  Portugal.  Elle  me  enviou  excellenles  calcos  da  inscri[)ção,  de  que 
trato,  «(ue  me  collocain  em  estado  de  íixar-lhe  o  texto  com  toda  a  de- 
sejável segiu-ança.  Não  pode  haver  a  menor  duvida  sobre  a  authenti- 
cidade  úo  monumento;  ninguém  em  Poi-tugal.  nem  o  próprio  Resende, 
teria  sido  ca[)az  de  coni[)ol-a.  Mas,  o  (jiie  é  singular,  o  texto  assim  fi- 
xado otíerece,  todavia,  á  interpretação  dilTiculdades  qiiasi  insuperá- 
veis. É  por  esta  razão  que  eu  o  apresento  aos  leitores  d  esta  liecisla, 
afim  de  que,  se  for  possível,  nós  consigamos  chegar  á  solução  dessas 
diíTiculdades,  aviribas  nniíis» 

A  lai)ide  calcarea,  que  desde  muitos  annos  ainda  hoje  está  na  pa- 
rede exterior  do  adro  da  ifjrcja  matriz  de  Nossa  Senlwra  do  Bispo,  fron- 
teira d  Camará  Manicipal,  em  Montemòr-o-novo,  tem  de  largura  r",20, 
e  daltura  0"\30.  Está  dividida  por  frisos  elevados  em  três  compar- 
timentos, sendo  o  do  centro,  que  é  três  vezes  mais  largo  que  os  ou- 
tros, aquelle  que  conlèni  a  inscripção.  Os  dois  comparlimenlos  late- 
raes  eram,  originariamente,  ornados  ajienas  de  algumas  reiíresentações 
d"utensilios  em  baixo-relevo,  mas  não  continham  lettras.  Tèein-nas 
presentemente,  é  certo,  ambos  os  dois;  mas  estas  lettras  são  d  um  ca- 
racter evidentemente  de  todo  o  ponto  differente  do  da  inscripção  do 
meio.  É  o  caracter,  muito  bem  conhecido,  das  numerosas  inscripçoes 
christãs  de  Portugal  e  dllispanha.  do  v°  ao  vi°  século.  Para  não 
termos  ao  deanle  de  nos  occupar  desses  textos,  alheios  ao  objecto 
principal  d'esta  noticia,  aqui  os  insiro,  ajuntando  que  o  da  parte  late- 
ral á  esquerda  do  espectador,  perdeu,  ao  seu  lado  esquerdo,  um  pe- 
queno pedaço,  que  pode  ter  contido  três  ou  quatro  lettras  o  máximo. 
Estes  textos  não  tèem  sido  observados  (mas  talvez  desprezados  inten- 
cionalmente) pelos  anteriores  editores  da  inscripção;  só  o  sr.   Pereira 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N.o  8  —  Agosto  1887.  8 


e  no  da  direita 


114  KEVISTA    ARCHKOLOGICA 

OS  copiou.  Todavia  o  (jiie  elle  leu  não  concorda  inteiramente  com  a 
licção  dos  calcos.  Esíes  dão,  no  compartimento  da  esquerda 

II  ■■  M  I  ■£  dTTi  c> 

fa  W  L  I     TH 
SEHX    IDVS 

Ti  S  •  A     B  I  L  If 
E  I  E  R  V         (T 

Comprehendo  apenas  algumas  palavras  da  parte  da  esquerda:  [m] 
nomine  ã(omi)m  \  [fa]miíli  X[rist)i....  seiía  idns.  As  lellras  da  parte 
inferior,.  .  .sctia,  parecem  ser  o  final  d'um  nome,  o  áo  famuim  Cliristi, 
sepultado  alli  nos  Idos  de  certo  mez,  cujo  nome,  assim  como  as  in- 
dicações da  era,  foi  omitlido  pelo  gravador  da  inscripção,  sem  que 
d'isso  saibamos  as  razões.  Não  comprehendo  nada  do  texto,  que  se 
encontra  no  compartimento  da  direita,  tes  a  bille  et  (ou  ei)  enint.  Ob- 
servo que  as  lettras  bille  (segundo  parece)  téem  uma  forma  dif- 
ferente  das  outras  d"este  compartimento  e  do  da  esquerda.  Mas  não 
poderia  dar  lhe  qualquer  interpretação  provável;  esperemos  o  Édipo 
que  nos  ha  de  resolver  este  enigma. 

Os  ornatos  em  baixo-relevo,  que  occupam  o  meio  dos  dois  com- 
partimentos lateraes,  em  que  se  acham  as  inscripções  christãs,  de  que 
acabamos  de  tratar,  são: 

á  esquerda:  a  esquadria  com  o  prumo,  a  libclla  cum  perpendículo, 

á  direita :  dois  instrumentos  de  forma  singular,  que  não  posso  pre- 
cisar bem.  Creio  que  é  um  malhete  e  um  escopro.  Estes,  com  a  esqua- 
dria, compõem  a  mais  usual  ferramenta  do  canteiro.  Já  falei  das  suas 
representações  muito  fre(]uentes  nos  monumentos  fúnebres  romanos, 
nos  meus  Exempla  scríplurae  epigraphicae  lathtae,  (Berlin,  1885,  in 
foi.,  supplemento  do  Corpus  Inscr.  Lat.),  p.  xxx  e  segg.  O  sentido 
geral  destes  ornatos  é  o  mssmo  que  o  da  ascia,  tão  frequente  nas 
inscripções  da  Gallia.  Isto  é,  elles  mostram  ao  espectador  que  o  mo- 
numento foi  expi'essamente  erigido  para  os  defuuctos  alii  indicados,  e 
que  não  foi  euipregado  por  ouli'as  pessoas:  numa  palavra,  que  elle 
é  um  monumento  novo. 

Passemos  agora  á  inscripção  da  parte  central.  A  formula  sepul- 
chral,  que  constitiie  a  primeira  linha  do  texto,  encontra  se,  em  lettras 
mais  pequenas,  na  oiia  siipriioi'  da  la[)i(le.  As  lettras  das  cinco  linhas 
restantes,  da  altura  de  4  centimetros  (exceptuadas  as  da  ultima,  que 
só  téem  35  millimetros),  são  bem  traçadas  o  muito  dislinctas.  Apre- 
sentam as  formas,  muito  elegantes,  do  fim  do  segundo  século  da  nossa 


E    HISTÓRICA 


H5 


era,  ou  do  principio  do  terceiro,  epoclia  dos  imperadores  Cominodo  ou 
Seiltiinio  Severo.  Os  poiílos  são  l)em  formados,  IriariKular.^s,  e  não 
faltam  em  neiílinm  dos  locares  em  (|iie  se  espera  eiicoiilral-os.  Podem 
coiiiiiarar-se,  para  o  eslylo  [jaleographico  das  lellras,  os  specimeiís  de 
differeiíles  textos,  todos' proveiiieiíles  da  [)eiiinsiila  ibérica,  dados  nos 
meus  Exempla  sob  os  números  4i:{  a  448,  658  e  659.  Eis  fuialmente  o 
texto : 


D 


iVlEMORlAEG-F-  CALGHISIAE-  FLAM 
PROV  •  LVSIT  •  IT  •  FIl.  •  PIISSIM  •  P:T  •  MAR  •  L  •  F 
SIDONIAENEPTDVLGETAPONLV 
5  PIANO  •  MAR  •  MEREIT-  FABRIC  •  QVA  •  MISER  •  MA 
TER  •  IVN  •  LEONICA  •  K ARIS  •  SVIS  •  ET  •  SIBI 

a  que  eu  propoiíiio  a  seguinte  leitura: 

D(is)  M{anibiis)  S(acrum).  \  Memorize  [ ]  G(ciii)  fiiliae)  Calchisiae, 

flamUnicae)  \  provi inciae)  Lusit{amae),  [it{em)?]  fiUiae)  piissim(ae), 

et  ALir{iae)  L{ucii)  f\iliae)  \  Sidoni.ic,  mpt(i)  diilc(i)s{svnae), 

et  Apon{io)  Lu  \  piano,  mar{ito)^ 
merent[ibiis)  fabnc{am)^  quaim)  iniscr(a)  ma  j  ter  Jiin(ia)  Leonica  karis  suis  et 
sibi  [/ffJí]. 

A  maior  parte  dos  nomes  de  família  dos  personagens  nomeados 
neste  texto,  embora  haja  entre  elles  alguns  raros,  corresponde  ás  leis 
da  nomenclatura  romana  da  boa  epoclia,  tão  bem  conhecidas  em  ge- 
ral. Aponio  Luinano,  o  marido  da  muliíer  nomeada  em  primeiro  jogar, 
sua  filha  Maria  Sidónia,  a  mãe  Jfiiiia  Leonica.  todos  tèem  todavia  so- 
brenomes muito  raros  ou  ainda  únicos.  A  mulher  nomeada  em  pri- 
meiro logar,  a  flaminica  da  província  (sacerdócio  bem  conhecido,  afi- 
nal), não"  tem  íiomeii  genliliciHm,  mas  tem  um  sobrenome  não  menos 
raro  do  que  os  dos  outros  membros  da  sua  família;  nao  me  recordo 
de  haver  lido  noutra  paite  um  nome  como  Calcliisia.  Eu  tinha  outr"ora 
julgado  que  a  palavra  wnnoriae  havia  sido  mal  lida,_e  que,  em  seu 
logar,  haveria  um  nomen  gentile.  Mas  esti  palavra  é  tao  clara  e  certa 
como  todas  as  outras  nesta  singular  inscrípção.  As  lettras  G  •  F  (nao 
C  •  F)  da  segunda  linha  são  o  mais  claras  possível;  não  podem  signi- 
ficar senão  Gaii  filia.  Resta  pois,  como  único  meio  de  interpretação, 
suppôr  que  o  nome  de  família  desta  Calcitisia,  filha  dum  Gaio,  foi 
omiltído  pelo  lapicida. 

Que  o  gravador  provinciano  não  comprehendeu  bem  o  texto,  que 
lhe  havia  sido  dado  para  sculpir,  prova-se  com  outro  erro  na  linha 
terceira:  L  v  s  I  T  •  I  T  .  Poisque  me  parece  quasi  certo  que  o  i  T não 
é  uma  abreviatiu-a,  demais  muito  i)ouco  commum,  de  item  (o  que  da- 


116  REVISTA    ARCHEOLOGICA 


ria  um  sentido  granimalical,  mas  que  é  apenas  uma  addiçao  supér- 
flua), mas  sim  iim  erro  de  repetição,  causado  pelo  l  v  S  l  T  prece- 
dente. 

É  verdade  lambem  que  o  systema  das  abreviaturas  d'este  texto 
Dão  é  o  que  já  se  conhece  de  tantos  outi"os  exemplos  da  boa  epoclia. 
Âdmitte-se  o  f  L  A  M  •  P  R  O  v  •  L  v  S  l  T  ,  onde  se  espera  antes 
F  L  A  M  I  N  1  c  A  ,  para  distinguir  do  Jlcmmi  a  mulher  deste.  A  abre- 
viatura L  V  S  I  T  deu  origem  a  um  erro,  a  repetição  da  syllaba  i  t  ; 
como  já  fica  observado.  Todas  as  outras  abreviaturas  (excepto  D  •  M  • 
S  ,  G  •  F  ,  L  •  F  ,  F  I  L  )  não  são  as  conmiuns,  que  toda  a  gente  com- 
prehende.  MAR  significa  na  terceira  linha  Maria,  na  quinta  nunilus. 
As  abreviaturas  mais  singulares  e  mais  obscuras  são  as  das  palavras 
FABRlC-QVA  na  quinta  linha.  O  sr.  Mommsen,  no  segundo  vo- 
lume do  Corpus,  tinha  suspeitado  que  o  Q  V  A  poderia  ser  a  abrevia- 
tura, conhecida  pelas  inscri|)Çues  sepulchraes  doutras  regiões,  de  (/(iii) 
v{ij:it)  a(/mos).  Mas,  além  de  faltar  o  numero  dos  annos,  esta  fornuila 
está  aqui  deslocada.  Só  tenho  uma  explicação  a  propor.  As  palavras 
de  que  se  trata  não  podem  conter  um  cargo  ou  uma  designação  qual- 
quer relativa  a  Apo})io  Lvpiano  o  Jlamcn  da  província  (porque  sua  mu- 
lher era,  como  se  viu,  a  /lauiiiuca),  princii)a!mente  porque  as  palavras 
manito)  merenHi)  as  separam  de  seus  nom^'s.  Resta  pois  unicamente 
suppòr  que  fabrica  é  a  designação  do  niunnmento  sepulchral.  que  a 
pobre  mãe  lunia  Leonica  tinha  erigido  aos  defuntos  da  sua  famiiia. 
Fabrica,  na  baixa  latinidade,  significa  já,  como  nas  línguas  românicas, 
um  edifício  quahpier.  Trebellio  Pollion,  o  historiador  dos  Augustos,  na 
vida  dos  dois  Gallienos  (5,  ti)  fala  dum  tremor  de  terra,  que  teve  lo- 
gar  em  20i2  de  Cli.,  quo  mola  mullm  fabricae  devoratae  sunt  cuni  ha- 
bitatoribus.  Palladio,  o  auctor  do  de  re  rústica,  emprega  o  termo  no 
mesmo  sentido  (i  7,  4  e  9,  i2).  Ambos  estes  sao,  é  certo,  auctores  do 
quarto  século ;  mas  nada  obsta  a  crer  que  elle  fosse  já  usado  na  lin- 
guagem do  povo,  no  segundo  século,  e  ainda  antes.  Entre  os  nomes 
numerosos  e  variados,  que  se  encontram  applicados,  nas  inscripçoes 
funerárias,  nos  túmulos,  como  domus,  aedijicium  e  similhantes,  tere- 
mos a  contar,  daqui  em  deante,  também  a  palavra  fabrica.  O  sr.  Ad. 
Coelho,  do  fundo  dos  seus  vastos  conhecimentos  das  linguas  români- 
cas, poder-nos-ha  ministrar,  provavelmente,  exenqilos  do  uso  da  pala- 
vra fabrica  no  sentido  geral  de  edifício  ou  de  monumento. 

O  redactor  pi-ovinciano  do  texto  que  nos  occupa,  ou  o  próprio  can- 
teiro, a  (juem  estava  confiado  o  trabalho  de  o  sculpir,  deixou  de  dar  à 
oração  relativa.  (]ue  começa  por  Q  v  A  ,  o  seu  verbo;  fecit,  ou  facieri' 
dum  curavit.  È  uma  omissão  pouco  grave,  comparativamente  ás  outras 
faltas,  que  o  mesmo  texto  nos  apresenta.  Q  v  A  por  ova  M  é  uma 
forma  da  escriptuia  rústica  nuiilo  cominum.  Sabe-se  que  o  m  final  do 
accusativo  foi  frequentemente  omiltido  em  latim,  já  nos  antigos  tem- 
pos da  republica  romana. 


E   HISTÓRICA  117 


Eis  pois  como  eu  penso  que  deve  ler-se  e  explicar-se  o  singular 
texto  da  iiiscriprão  de  Monleniór-o-novo.  Ella  nos  ensina  que  lá  mes- 
mo, no  campo,  entre  os  praodia  rmtica  dos  Romanos  de  boa  posirão, 
houve  |)i)r  Ioda  a  parle  nioinnnenlos  Tiincrarios  duma  ctTla  im|)orlan- 
cia,  como  era  sem  duvida  o  de  Apnuio  LiipUuin  e  de,  (Uikhisia,  o  //«- 
men  e  a  flaminica  da  província,  no  liiii  do  segimdo  século,  e  da  sua 
família. 

IkTlin,  Jiillio  1887. 

E.   HiJBNER. 


NUMISMÁTICA  PORTUGUEZA 
D.  Diiarlfi 

No  infeliz  e  curto  reinado  do  sábio  e  virtuoso  príncipe  D.  Duarte, 
foi  dimímila  a  cunhagem  de  moeda,  quer  nos  reíiramos  aos  cinco  ly- 
pos  geraes  conhecidos,  quer  á  quantidade  de  moeda  fabricada  de  cada 
typo. 

O  primeiro  typo  é  o  escudo  de  ouro.  bonita  moeda,  de  que  se  co- 
nhece hoje  só  um  exemplar  e  que  o  nosso  proverbial  e  criminoso  des- 
leixo consente  que  continue  fazendo  parte  duma  collecção  em  Cope- 
nhague. 

Querendo  estudar  a  historia  natria  em  qualquer  ramo,  e  sob  qual- 
quer aspecto,  é  triste  dizelo.  precisamos  ir  mendigar  ao  estrangeiro 
o  favor  de  nos  mostrar  o  que  é  nosso!  Que  os  particulares  eudjora 
favorecidos  da  foituiia  deixem  os  nossos  monumentos  e  relíquias  his- 
tóricas nas  mãos  dos  estrangeiros,  não  os  adquirindo  convenientemente 
ou  até  vendendo-lh'os.  não  nos  admira,  visto  o  ignorante  indifferentís- 
mo,  com  que  alguns  membros  da  família  portugiieza,  tão  degenerada, 
olham  para  estes  pergaminhos  legados  por  nossos  maiores,  porque 
não  são  de  enfunadas  e  equívocas  nobíliarchías,  porque  não  dão  di- 
reito a  um  brazão  darmas,  mas  porque  dão  a  todos  o  direito,  sem 
dístíncção  de  nomes,  de  se  chamarem  filhos  desses  heroes  de  faça- 
nhas (piasí  mythologicas,  d"esse  punhado  de  homens  que  aquinhoaram 
para  si,  o  que  ha  de  mais  brilhante  na  historia  europea,  o  que  ha  de 
mais  venerando  na  civilisação  d  "um  povo  que  nasce  dos  sen.^  próprios 
esforços,  que  se  emancipa,  que  se  impõe  ao  mundo  como  o  primeiro 
sob  todos  os  aspectos  e  que  junca  a  sua  estrada  luminosa  de  constan- 
tes tríumphos,  de  padrões  de  gloria  e  de  louros  immarcessiveis.  Que 
fatal  desgraça  peza  sobre  Portugal,  que  occupa  hoje  de|)ois  de  vu  sé- 
culos o  nadir  dessesol  brilhante  dos  tempos  áureos  da  monarchia  por- 
tugueza.  E  os  pygmeusde  hoje,  íillios  d'esses  gigantes  de  outr'ora.  no 
fim  do  século  dezeuove,  esmagados  talvez  pelo  pezo  das  glorias,  ador- 
meceram, na  estrada  do  progresso,  emquanlo  que  o  estrangeiro,  ávido 


H8  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

d'estas  riquezas,  deslumbrado  por  estes  inapreciáveis  lliesoiiros,  es- 
preita o  depositário  delles,  e  quando  este  se  volta  do  somno  da  im- 
becilidade para  o  da  indilíerença,  o  estrangeiro  diziamos,  passa  por 
elle  carregado  de  preciosidades,  e  com  o  riso  sarcástico  do  despiezo 
atira-llie  algum  ouro,  para  pagar-lhe  a  criminosa  indolência. 

Mas  se  os  particulares  commettem  esta  falta,  os  governos  commet- 
tem  um  crime  porque  tem  a  mesma  respons.djilidade  individual,  e 
tem  a  collectiva  e  moral,  como  administradores  de  bens  que  não  são 
seus  ou  exclusivamente  seus. 

Os  nossos  governos  lazem  lembrar  os  antigos  administradores  dos 
morgados,  que  (juando  estes  eram  néscios,  os  outros  por  via  de  re- 
gra, eram  delapidadores  ou  perdulários. 

É  ao  governo  a  quem  compete  a  iniciativa  de  impedir  a  todo  o 
custo  que  saiam  do  paiz  os  nossos  monumentos  de  (jualquer  ordem, 
fira  este  acto  os  interesses  menos  legítimos  de  quem  ferir,  e  adquirir 
por  quali]uer  preço  os  (jue  se  acbam  dispersos  nos  vários  museus  pú- 
blicos e  particulares  da  Europa.  É  mostrando  ao  povo  os  nossos  ve- 
lhos padrões  sempre  virentes  de  gloria,  esses  documentos  irrecusá- 
veis do  que  foi  a  nossa  grandeza,  do  que  foi  a  nossa  actividade,  que 
poderemos  educar  a  nação  e  tornal-a  apta,  senão  para  trilhara  estra- 
da luminosa  do  passado,  ao  menos  para  lhe  dar  inn  exemplo  salutar, 
e  bom  conselho,  obstando  a  que  ella  renegue  os  seus  princípios  ou  es- 
queça o  que  deve  a  si  mesma. 

Feitas  estas  considerações  sobre  o  primeiro  typo,  passamos  a  fallar 
do  segundo  typo  (jue  é  o  Leal,  de  prata,  moeda  também  muito  rara  e 
que  o  sr.  Teixeira  de  Aragão  descreve  como  pertencente  á  collecção 
do  sr.  Abílio  Augusto  xMartins,  residente  em  Coimbra. 

O  terceiro  typo  geral  è  o  Real  Branco,  de  bilhão,  cunhos  de  Lis- 
boa e  Porto,  moedas  também  raras,  e  das  quaes  vamos  apresentar 
duas  variantes,  que  pelo  menos  indicam  differentes  cnnliagens,  devi- 
das á  incansável  amabilidade  do  nosso  amigo  e  grande  colleccionador 
o  sr.  Júdice  dos  Santos. 

O  quarto  typo  é  o  Ceitil,  de  cobre,  também  cunhos  de  Lisboa  e 
Porto,  moeda  ainda  hoje  não  muito  rara. 

O  quinto  typo  é  o  lieal  Preto,  de  que  por  emíjuanlo  não  conhece- 
mos senão  o  cunho  de  Lisboa,  e  de  (jue  ap[)arece  grande  quantidade 
relativamente  ás  outras. 

Os  dois  exemplares  de  Reaes  Brancos,  citados  pelo  sr.  Aragão  são: 
o  de  Lisboa,  est.  xiv,  íig.   1. 

«►!<. . .  V  A  R  1)  S§  . .  .  —  Quinas  n'um  circulo  ogive. 

RJ...  D  I  V  T  O...  I  VN  I  NOS  T...  — C  I  |  F  E  C  I  T  C  E  L  V  * 
—  Escripto  em  dois  círculos;  no  cam[)0  G  coroado;  á  esijuerda  l  (Lis- 
boa), com  um  signal  occullo  por  cima.  l*eza  80  grãos.  lieal  Branco. 
B.—  10.000  réis.  D 


K    HISTÓRICA  119 


O  do  Porlo.  csl.  XIV,  fig.  ^. 

«O  mesiiio  anverso  do  ;Hilt!iiof. 

1^.  ^  A  D  .1  V  T  O  R  I  V  M  N  O  S  T  R  V  N  g  Q  V  —  F  E  C  I  T  § 
CKVM  i  E  §  T  RA.  —  No  cainpo  G  coroaiJo,  a  direita  p  (Forlo). 
Peza  80  grãos,  lieal  Branco.  B.— 10:000  réis.» 

As  variaiiles  que  apresentamos  são: 

A  priin(3ira  esl.  xiv,  íig.  'A,  (jiie  é  de  Lisboa,  temos  es(!iidos  muito 
mais  peípieiios,  embora  a  moeda  conserve  no  lodo  o  mesmo  lamanlio. 
As  únicas  duas  leltras  que  estão  claras  no  anverso  são  D  O .  Kste  o 
é  um  erro  de  fabricação,  mas  está  legível,  e  siibstitue  o  primeiro  v  da 
palavra  E  D  V  A  R  D  V  S  i]iie  tem  todas  as  moedas  deste  reinado. 

No  reverso  as  dilíereiu-as  mais  importaiiles  que  tem  da  similhar 
desciipla  pelo  sr.  Arai;ão.  consistem  em  ler  o  L  á  direita  e  não  á  es- 
querda, e  ser  o  lypo  de  letlra  mais  miúdo  e  mais  bordado. 

O  estado  da  moeda  não  nos  permilte  mais  minuciosa  analyse. 

A  segunda  variante  é  cunho  do  Porlo.  est.  xiv,  ílg.  4.  nãoesláem 
perfeito  estado  de  conservação,  mas  vè  se  que,  como  a  moeda  anterior, 
tem  o  lypo  de  lellra  mais  miudo  e  o  p  do  reverso  indi''alivo  da  fabri- 
ca á  esquerda  do  G  em  logar  de  estar  á  direita  como  no  exemplar 
descripto  pelo  sr.  Aragão. 

Além  desles  exemplares,  lemos  outros  lambem  em  nosso  poder 
que  apenas  divergem  dos  indicados  [)elo  sr.  Aragão,  em  lerem  diver- 
sos signaes  occullos  e  diversamente  collocados.  e  serem  as  legendas 
mais  ou  menos  completas  do  (jue  as  destas  moedas  a  que  nos  refe- 
rimos. 

Estas  variantes,  consideramoi  as  insignificantes  e  por  isso  não  da- 
mos os  seus  desenhos. 

M.  Ali:xa.nduI':  di-:  Sousa. 


VISITAÇÃO  Á  EGREJA  DE  S.  JOÃO  DO  MOCRARRO 

D'OBIDOS 

por  D.  Jonjc  da  Cosia,  era  14  de  fevereiro  de  li67 


^D  VE  IÍ>T  li:  ]VC  I A 

Eiilre  os  tloeuinpiitos  que  formavnm  o  codiee  iiilitiilailo  Livro  ihis  Visilnrões  da 
Egreja  de  S.  João  do  Mocliarro  d' Óbidos,  a  que  uie  referi  já  a  pag.  11  (i'esta  Revista, 
tornava-se  uotavol  o  que  váe  publicar-se.  a>sim  por  shi"  umi  dos  mais  anliir'is  speci- 
mens  d'esta  espécie  ^\^'  docuuifntds.  como  pt*la  assignalura  que  o  fecha.  Ellectiva- 
mente  o  nome  di'  D.  Jorge  da  (>osla.  geraluieule  mais  couliecido  p^-lo  tituii»  de  "Car- 
deal de  Alpedrinha»,  é  um  dos  mais  cdebres  na  historia  pátria.  Este  grande  amigo  de 


120  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

D.  AfTonso  v  assumiu  as  funcções  de  arcebispo  de  Lisboa  em  1460;  e  pelos  annos  de 
1470  a  1477  liigiu  para  Roma,  receoso  do  desagrado  de  D.  João  ii.  Em  Garcia  de 
Resende  se  pode  ler  a  anecdota  das  pedrirdias  de  que  o  prudente  e  fino  arcebispo 
receou  a  pancada. 

Esta  visitação  (que  occupa  dezoito  e  meia  folbas  de  papel  de  formato  in-4.°)  é 
muito  importante  [)or  nos  dar  a  conliecer  o  estado  e  costumes  do  clero  naquella  epo- 
cha  (passrm);  pela  penitencia  imposta  aos  que  se  casavam  secretamente  {t.  9);  pelas 
ordenanças  relativas  ás  romarias  e  danças  nas  egrejas  {t.  10);  pelas  determinações 
relativas  aos  leiticeiros  (í.  17)  e  aos  judeus  (í.  29) ;  etc. 

Falia  infelizmente  no  íim  o  sello  de  cera  vermelha,  de  que  ha  vestigios,  junto 
do  qual  leviam  estar  consignadas  as  verbas  do  pagamento  da  visitação,  que  também 
desappareceram  pnr  ter  sido  rasgado  o  papel. 

Ao  mesmo  códice  pf^rtenceu  outra  visitação  do  archiepiscopadu  de  D.  Jorge,  e  em 
seu  nome  feita  em  2  de  junho  de  1473.  por  D.  João,  Bispo  de  Çalim,  em  cujos  títulos 
se  acham,  no  gerai  repetidas^  e  frequentemente  pelas  mesmas  palavras,  as  ordenações 
contidas  na  visitação  pessoalmente  etfectuada  pelo  arcebispo.  Os  titules  da  do  bispo 
de  Çafim,  que  não  se  encontratu  na  de  D.  Jorge,  e  algumas  variantes  de  importância, 
formarão  como  que  um  appendice  ao  documento  que  hoje  começa  a  publicar-se. 

B.  de  F. 

índice  dos  títulos 

1 — Intróito 

2 — Admoestações  geraes  sobre  a  cura  d'almas 

3 — que  hatitisem  ssrus  filhos  a  oiito  dias. 

4 — que  se  confessem,  des  a  dominga  primeira  dephifania  atees  a  guareesma- 

5 — que  tragam  escriptura  piibrica  como  ssom  confessados 

6 — que  os  creJigos  sse  confesem 

7 — como  sse  deuem  de  confesar  os   raçociros  e  capeUaaes  de  missa  em  todas  (?) 
três  festas 

8 — como  nom  deuem  de  fazer  casamento  ssem  serem  primeiramente  apregoados 

9 — a  pena  que  am  os  leigos  que  sse  casam 
10 — como  liam  de  sseer  hungidos 

11 — como  deuem  de  ensinar  o  pater  noster  e  ave  maria  e  os  preceitos 
1'^—como  sse  am  de  dizer  as  misas  dos  anniversarios 

13 — como  sse  am  de  rre partir  os  anniversarios  cu  benesse  aquelles  que  pressente 
está  (sic)  ante  três  dias 

14— cowío  liam  de  fazer  huum  linro  de  tombo  de  tndoUos  beens  da  egreia 

lo — como  ham  de  fazer  duas  cliaues  darca  das  esoipturas 

i6—como  nom  am  de  cantar  na  egreia 

17 — dos  feiticeiros  e  deuinhadeiros 

18 — como  liam  de  fazer  prioste  benefiriiaclo  e  nom  leigo 

19 — como  sani  comitidos  os  casos  pontificaees  a  prior  e  vigairo 

20 — que  sayam  sobre  or,  finados 

21 — que  nom  arrendem  seus  benefiçUos 

'^'i  —  que  nom  façam  rontraufos  infilioticos 

23 — que  nom  arrendem  quintaaes 

24 — que  nom  acudam  aos  ausentes  com  seus  boneficiios 

2o — que  cantem  as  oras  apontadamente 

26 — que  nom  vauo  aos  domingos  fora 

27 — como  o  benefiçiiado  nom  dixer  misa  page  cincoenta  réis 

28 — que  non  firam  snymentos  ao  domingo  nem  festa 

29 — que  nom  tomem  nenliuum  pulcu  em  sua  casa  pêra  seer  xpaãos  (sic)  ataa  tem- 
po certo 

30 — como  fiirnn  dinis  no  roro  druein  de  rrezar 

31 — ccnno  os  priudrgiados  am  de  leiíar  seus  beneficias 

32 — titidu  dos  creligus  que  sse  nom  faliam 


E   HISTÓRICA  121 


33— titulo  das  misas  das  capellas 

34— f/os  barregneiros 

35 — dos  que  som  casados  caUaáamente 

36 — como  o  prioste  nom  deue  de  entregar  os  fructos  aos  heneftdiados 

37 — titulo  da  esmolla  de  sam  virente 

38 — os  que  nom  ieiuarem  a  véspera  de  sam.  virente 

39 — que  nom  seia  ironimo  ssenom  creligo  de  misa 

40 — que  nom  sirua  hum  creligo  ssoomente  dons  hencfiçiios 

íi  —  como  sse  deue  de  soterrar  o  creligo  na  egreia 

42— f/os  dias  do  estatuto  e  dos  qtie  nom  seruem  seus  henefiçiios 

43 — que  sse  confesem  os  creligos 

44 — que  venham  os  fregueses  aos  domingos  e  festas  a  egreia 

45 — que  repartam  os  reçoeiros  as  idas  (sic)  e  trintairos 

46 — que  nom  digam  misas  nas  hermidas 

47 — que  ponham  as  constituições  sinodaes 

48 — das  penas  do  meirinho 

49 — que  nom  empenhem  nenhuuns  hornamentos 

50— Indicação  do  pessoal  da  egreja 

51— /í/?//o  da  prata 

b'^— titulo  das  vestimentas 

53 — titulo  dos  liuros 

54— Sobre  varias  obras  a  fazer  na  egreja  (preambulo  ao  tilulo  seguinte) 

55 — Sobre  varias  obras  a  fazer  na  egreja 

56 — Sobre  reparos  a  fazer  na  egreja  de  S.  Silvestre  dos  Francos 

57 — Sobre  reparos  a  fazer  na  egreja  de  Bombarral 

58 — Sobre  o  pagamento  da  presente  visitação. 

VISITAÇÃO 
su.in  ioam  dobiclos 

/  Doiíi  Jurge  pei^  merçee  de  deus  e  da  santa  igreia  de  romã  arce- 
bispo de  lixboa  A  todosllos  beneficiados  ecciesiaslicos  persoas  e  assy  a 
todo  oiili-o  poboo  da  dieta  cidade  e  arçel)ispado  saúde  em  Iliíl  x"  nos- 
so remidor  e  saluador  que  de  todos  lie  verdadeyra  saúde  e  saluaçam 
porque  segundo  a  sagrada  escriplura  nosso  senhor  deus  fundou  esta 
sua  millilante  igieia  'aa  semelhança  daquella  igreia  triumphante  da 
quall  postoque  elle  sem  outro  meo  seia  pastor  e  gouernador  assy  pa- 
ro a  mantém  em  sua  bordem  e  gouernança  que  os  anios  e  esprituos 
bemauenturados  de  mais  diuindade  ahimiam  e  teem  huum  modo  de 
reger  os  de  meeo  e  os  de  mennos  e  os  das  mais  bayxas  ierachias  dou- 
trinandoos  e  emsinnandoos  daqitelles  mistérios  e  diiiinaaes  sagredos 
que  am  do  senhor  deus  a  quem  sam  mais  cheguados  e  assy  receben- 
do mais  hime  dos  outros  todos  e  iuntamente  louuam  ho  senhor  deus 
do  que  he  sua  gloria,  a  saber,  bemauenlurança  em  pêra  a  qual  nos 
outros  os  homeens  fomos  criados  bonde  por  assy  seer  em  esta  milli- 
lante igreia  que  ho  aiuulamenlo  dos  liees  xpaãos  aa  maneiía  daquella 
em  que  ha  toda  perfeyçam  deus  hordenou  ho  santo  padre  assy  como 
vigayro  geeraal  representante  sua  persoa  pêra  reger  e  gouernar  de  si 
pos  em  ella  |)relados  per  (jue  a  outra  crelizia  e  todos  os  fiees  xpaãos 
aiam  de  seer  rregidos  e  gouernados  em  maweyra  que  lodos  uiuentes 


I2á  REVISTA    ARCHEOLOGICA 

em  carne  que  elle  comprou  per  seu  priçioso  sangue  lenham  leix  per 
que  saybam  o  que  lhe  conuem  kzcr  por  sua  sahiaçam  das  quaaes  leix 
e  guaida  delias  os  dictos  prellados  sani  encarreguados  aos  (piíiees  lie 
diclo  per  xpõ  (pie  dem  de  |)acer  aas  suas  ouelhas  porem  desejando 
nos  que  lodos  nossos  siibdilos  e  de  (pie  carrego  teemos  seiam  per 
nossa  regra  cerlos  do  que  pêra  assy  seruirem  o  senhor  deus  liam  de 
fazer  Iraballiamos  de  visitar  persoallmenle  ho  nosso  diclo  arcebispa- 
do de  que  nos  deus  deu  carrego  enupiaulo  sua  uontade  ílbr  e  viindo 
nos  as  cousas  geeraaes  achamos  que  se  denem  ao  menos  de  guardar 
estas  que  sse  sseguem  porque  das  espi(;iaaees  na  iliin  de  a  visita(;am 
sse  liara  mençam  as  quaees  mandamos  conprir  a  igieia  de  sam  ioliam 
que  i)esoalmente  visitamos  presente  pêro  aiines  vigairo  e  os  beneficia- 
dos cuios  nomes  abaxam  (sic)  seram  declarados. 

2  Item  Primeyramente  vos  mandanmos  e  obssecramos  per  viçera 
mininie  dey  noslri  cpie  consirees  ho  grande  ciiyihulo  (pie  per  deus 
e  vosso  prellado  uos  he  dado  e  comitido  acerqua  da  cura  ^Jas  almas 
dos  nossos  líreguezes  em  como  sooees  thiudo  de  dardes  conto  delias 
a  deus  em  no  estreyto  iuizo  que  seiaaes  mny  diligente  e  solliçito  em 
proiieerdes  vosso  holigio  (pie  uos  lie  emcomendado  per  deus  como  di- 
clo he  e  minstreres  a  vossos  Itregueses  os  sacramentos  da  santa  igreia 
em  esliluidos  (sic)  e  feclos  em  ella  por  rremedio  e  saluaçam  das  almas 
dos  xpaãos  eseendo  uos  achado  nigligenle  e  rremisso  acerqua  da  dieta 
cura  aalem  da  dieta  penna  que  ante  deus  mereçees  per  vossa  nigli- 
gençia  e  sseerem  demandadas  as  almas  dos  sobretlictos  de  vossas 
maãos  que  per  vossa  culpa  perecerem  vos  será  dada  em  preste  lall 
penna  lenporall  (jue  bem  senlirees  e  seia  emxemplo  a  uos  e  escarmen- 
to aos  outros. 

que  bautisem  sem  filhos  a  of/lo  dias 

S  Item  porquanto  ho  santo  bpatismo  {sic)  he  priii(;ipio  efítindainen- 
lo  dos  outros  sacramentos  da  santa  igreia  nos  conuem  vos  darmos 
rregra  como  oaiaaes  (ie  fazer  e  a  maneira  que  nelle  aiaaes  de  teenr  {sic) 
porem  vos  mandamos  que  daqui  em  diante  constrangaaes  vossos  fre- 
gueses e  lhes  mandees  que  do  dia  que  lhes  nascerem  seus  filhos  alee 
oyto  dias  os  Iraguam  a  bajitizar  a  (bta  nossa  igreia  e  uom  lhes  con- 
siiitaaes  que  os  em  outros  lugares  baptizem  saluo  em  caso  de  ueçesi- 
dade  nom  podendo  hir  a  dieta  igreia  e  uom  lhes  tomarees  mais  com- 
padres daquelles  que  som  maiuiados  nas  constiluyíjões  antigas  sob  as 
pennas  em  ellas  conthiudas  e  se  algunns  ho  nom  (piiserem  fazer 
constrangedeos  per  ('ensura  ecciesiaslica  (pie  o  façam  e  (puírendo  durar 
em  sua  conluma(;ia  lazedeo  saber  a  nosso  uigaiio  no  espiíitiiall  e  tem- 
porall  [)era  remidiar  a  ello  com  direclo  to-.iiando  ao  mo(;o  dons  lio- 
meens  e  hiima  molhei"  e  a  moça  duas  molhcres  e  hiiiini  liomen. 

fjue  se  confessem  des  a  dominga  primeira  da  phifania  alees  a  qua- 
reesma 

4  Item  vos  mandamos  que  na  primeira  dominga  depois  daphifa- 


E    HISTÓRICA  123 


nia  ainouesleus  nossos  fregueses  e  seus  filhos  e  filhas  mancebos  e 
mariCL-has  de  sele  aiiiios  [)t!i"a  cirna  (jiie  alee  coieesina  scyumle  sse 
venliaiii  coiiíessai'  a  nos  on  a  onlrem  que  os  absoluer  possa  com  nos- 
sa licença  e  nos  mostrem  como  sani  confessados  conslrangedeos  pêra 
ello  per  çensnra  ecciesiaslica  e  assy  uos  Iraballiaae  qne  ante  do  dicto 
lenpo  sseiatn  conífessados  porípie  em  pnreza  e  fora  de  pecado  [)Ossam 
no  tempo  santo  da  coreesma  fazer  pendenças  frnctnosas  pêra  snas  al- 
mas e  sse  alee  lio  dicto  tein|)()  flbi-em  alginms  renees  a  sse  nom  con- 
fessarem mandade  lio  rooll  delles  ao  dicto  vigayro  pêra  ello  esto  re- 
medear  e  constranger  que  sse  confessem  per  lall  maneira  que  quinta 
ITeira  de  cea  e  ao  domingo  da  páscoa  possam  comungar  lio  corpo  de  iliu 
x°  assy  como  de  directo  som  thmdos  e  uos  mandamos  que  assy  como 
os  conslrangees  peia  confinsam  os  coiistianguaees  pêra  i  receberem  a 
cominnliom  porque  a  todo  sam  (hiiidos  em  cada  liuum  annosaluosse 
lhe  per  uos  for  niandadoquepor  estou  çe  (s/c)  nom  recebam  a  dita  co- 
mnnhom  e  sse  algunm  de  vossos  fregueses  com  coraçam  emdurado 
quiser  estar  em  sua  perlia  e  nom  receber  os  dictos  sacramentos  sse 
a  morte  tomar  na  dieta  perfia  nom  lio  irecebadas  em  vossa  igreia  nem 
çimiterio  delia  nem  lhe  façaaees  algiium  lioligo  de  xpaão  pois  qne  a 
santa  igreia  quer  que  taaees  como  estes  careçam  da  ecciesiastica  sse- 
pnllura  e  viuendo  em  sua  perfia  nom  os  reçebaes  em  vossa  igreia  e 
posto  qiH)  seiam  confessados  nom  sendo  comungados  e  morrendo  co- 
mo (lido  he  nom  nos  reçebaes  a  dicla  sepultura  comodi(to  he  e  viuen- 
do nom  os  reçebaaes  em  a  dicla  igreia  poiquanto  de  necessário  som 
Ihiudos  de  recebíír  em  cada  hunm  anuo  estes  dons  sacramentos  de  ne- 
cessário e  fazee  em  cada  hinnii  anno  caderno  em  que  escrepuaaes  os 
ditos  fi'egueses  pêra  sal)erdes  caaes  sam  a(juelles  (|ue  sse  confessam 
e  (pniaes  nom.  O  re(;tor  que  neslo  for  nigligente  que  pague  nnll  reaes 
e  sse  for  seu  logo  teente  pague  quinhentos  pêra  nossa  chancelaria  e 
aalem  do  que  neste  capitulo  he  conthiudo  mandamos  que  sse  gnarde 
em  lodo  ha  forma  da  nossa  caila  que  acerqua  do  rreçeber  destes  sa- 
cramentos he  passada  cnio  irellado  mandamos  que  se  ponnha  na  ffim 
de  cada  hiima  visilaçam. 

(jiie  tragam  cscripfiira  propica  (sic)  como  ssom  confessados 
õ  Item  por  (piaiito  per  verdadeyra  enformaçam  achamos  que  al- 
guuns  que  se  nom  querem  confessar  a  seus  priores  e  curas  tingindo 
que- se  confessam  a  algnuns  religiosos  on  a  outros  sacerdotes  e  mos- 
tram aluaraaes  qne  parecem  seer  fectos  ou  assynados  per  taaes  con- 
fessoi'es  nom  ho  seendo  e  assy  passam  e  andam  contra  mandamento 
da  santa  igreia  emdurenlados  em  seus  pecados  muitos  annos  em  gran- 
de daniio  e  condepnaçam  de  snas  consciências  ao  que  a  nos  connem 
proveer,  porem  querendo  nos  a  ello  dar  aquelle  remédio  a  nos  posi- 
uell  mandamos  a  todos  os  priores  vigairos  e  curas  do  nosso  arcebis- 
pado (jue  nom  recebam  nem  aiam  por  confessados  algnuns  de  seus 
fregueses  saluo  aquelles  que  a  elles  se  confessarem  ou  lhes  mosti-a- 


124  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

rem  propicas  (sic)  scriptiiras  como  ho  sam  oii  uiiia  voz  que  lhe  sseia 
(licto  per  aipielles  confessores  que  os  confessarem  e  doutra  guisa  nom 
de  He  aliiaraaes  algutins  que  llies  moslrem  puslo  que  pareçam  seer 
fecins  pellos  coiillessores  nelles  coiiUiindos  como  diclo  lie  anle  ssem 
embargo  delles  proceda  contra  os  dictos  sens  fregtiesses  segundo  lhe 
per  nos  lie  mandado  nesta  nossa  visitaçam  sob  penna  per  nos  posta. 
a  saber,  de  paguarem  mil!  reaes  os  que  em  esto  nigligenles  ííurem. 

qfii',  os.crellgos  se  confessem 

O  liem  achamos  (|uod  dollentes  rreferimus  que  alguuns  creligos 
de  missa  da  dieta  cidade  e  arcebispado  nom  temendo  deus  nem  con- 
siraiido  a  qiiam  alto  inistimabelle  mistério  som  chamados  e  em  quanta 
pureza  e  linpeza  deueuem  (sic)  de  receber  e  tractar  ho  santo  sacra- 
mento do  copo  (sic)  e  sangue  de  nosso  senhor  Ihu  x°  andam  por 
miiytos  dias  e  anos  que  sse  nom  confessam  e  o  pior  que  he  aalguuns 
nom  sam  achados  confessores  e  segundo  aigmimas  presuncõees  nun- 
ca foiam  confessados  e  sem  uergonha  de  deus  e  temor  da  sua  iustiça 
rrecebcm  cada  dia  com  pouca  reuerença  o  corpo  de  deus  em  grande 
dapno  e  perigoo  de  suas  conçiençias,  e  querendo  nos  a  esto  rreme- 
diar  por  o  seruiço  de  deus  e  bem  de  suas  almas  mandamos  aos  so- 
bredictos  que  olhem  em  suas  conçiençias  sse  em  ellas  teuerem  alguum 
escurpollo  que  os  embarguegue  (sic)  a  o  nom  receberem  e  por  que 
mall  peccado  entendemos  (jue  alguuns  sem  embargo  de  nosso  manda- 
do (]uiserem  hiisar  do  que  dantes  husauam  mandamos  a  uos  ou  a 
quem  vosso  carrego  teuer  que  coslraiiguaes  vossos  beneficiados  e  ca- 
pellãaees  (]ue  em  vossa  igreia  seruiiem  seendo  de  missa  que  cada 
huum  mes  nos  façam  certo  como  sam  confessados  e  nom  ho  fazendo 
assy  nom  os  consintaaes  que  mais  celebrem  em  uossa  igreia  e  fazee 
per  tal  maneira  que  hiso  medes  .facaaes  em  cada  huum  mes  e^  que 
dees  booin  recado  quando  per  ello  uos  for  dedemandado  (sic)  e  seen- 
do uos  nigligente  aceripia  do  que  dilo  he  queremos  que  por  uossa  ni- 
gligençia  paguees  [lor  cada  hiima  vez  que  esto  nom  conprirdes  duzen- 
tos reaes  brancos. 

como  sse  deitem  de  confesar  os  raçoeiros  e  capeilãaes  de  missa  em 
todos  (?)  Ires  festas 

7  Item  sse  em  a  dila  nossa  igreia  teuerdes  beneficiados  e  capel- 
liíaes  (pie  nom  sseiam  de  missa  ou  outros  alguuns  seriiidores  delia 
mamlamosuos  sob  a  dieta  [)enna  que  os  constranguaees  que  per  na- 
tall  páscoa  pititicosle  façam  certos  como  sam  confessados  e  comunga- 
dos e  nom  ho  fazendo  elles  assy  os  beneficiados  nom  recebam  de  seus 
benefii'ios  alguuma  cousa  atee  (pie  se  confessem  e  coinungiKím  e  os 
capídlftees  nom  consintaaees  em  nossa  igreia  assy  como  dicto  he  e  por 
as  dietas  Ires  ffestas  Ifaçam  assy  certo  todos  aos  vigaii-os  das  comar- 
cas como  compriram  ho  (pie  aqui  mandamos  e  os  dictos  vigairos  cer- 
liliijuem  dello  nossos  uisiladores  quando  uierem  sob  penna  de  paga- 
rem de  sua  casa. 


E  HISTÓRICA  125 


comn  tioin  th-iwm  th'  fazer  cdsamenlo  sscm  serem  primeiramente 
ap)-c(/0(i(l()s 

ò'  Ileiíi  |)on|iie  al«,Mniiii;is  vezes  aquece  que  alguuns  reyrutes  e  ou- 
tros crerigos  fazem  alguuus  casamentos  iiom  fazendo  primeiramente 
as  soleni(i;i(los  (|ue  os  derectos  (]uerem  e  ao  depois  sse  acham  laaes 
eml)argf)S  peiíiue  sse  laaes  casameulos  desfazem  e  queieiido  nos  a 
eslo  neinediar  e  conlraiiar  a  laaes  perigos  mandamosuos  que  daipii 
em  diante  nom  façaaes  nem  consintaaes  em  vossa  igreia  e  freguisia 
seerem  fectos  taaes  casamentos  atees  que  ante  per  três  domingos 
sseiam  ao  pobno  deniuiçiados  e  declarados  denunciando  as  persoas 
que  am  de  casar  e  mandando  aao  [)oIjoo  sol)  penna  de  excomunliam 
que  (piem  algutim  embargo  souber  antre  as  diclas  persoas  per  que 
casados  noui  possam  seei'  que  uenlia  a  nos  dizer  ou  aa(juelle  que  nos- 
so lugar  leuer  e  quando  os  ouuerdes  de  receber  seiam  rrecibiiJos  aa 
p(;rta  da  igreia  nossa  asy  como  he  costume. 

a  pena  ijue  am  os  leigos  que  sse  casam 

U  liem  achamos  (]ue  alguuns  leygos  da  (bela  cidade  e  arcebispado 
nou)  esguardand  em  como  os  sanlos  sacramentos  da  igreia  deuem 
seer  dados  e  nnnistrados  aos  íiees  xpãos  pellos  sacercerdotes  {sic) 
que  som  ministros  e  regedores  delia  aos  quaaes  per  deus  e  pella  di- 
eta igreia  he  conlhiuda  {sic)  a  ministra(^-am,  delles  sse  mouiam  con  te- 
meraiia  au(la(;ia  de  fazerem  casamentos  em  lugares  priuados  em  suas 
casas,  indo  em  lall  fazer  conlia  os  sanlos  cânones  e  delerminaçam  da 
santa  igreia  pella  quail  cousa  sseguem  muytas  vezes  que  os  maaos 
maridos  e  taaes  molheres  neguam  os  dictos  casamentos  em  grande 
dapno  de  suas  almas  e  conçiençias  e  porém  querendo  nos  a  esto  pro- 
iieer  e  remediar  com  oportuno  rremedio  per  esta  presente  amoesta- 
mos  e  mandamos  aos  diclos  leygos  de  qualquer  estadí»  e  condiçam 
que  seiam  que  do  dia  que  lhes  esta  visitaçam  for  publicada  por  três 
canónicas  amoeslaçõees  e  termo  preciso  ou  que  delia  noticia  ouuerem 
alee  Ires  dias  os  quaes  lhe  nos  damos  por  as  diclas  Ires  canónicas 
dessislam  sua  temerária  piesunçam  e  nom  façam  mais  os  diclos  ca- 
samentos, e  fazendo  elles  ho  conlrairo  passado  ho  diclo  leinio  quere- 
mos que  ipso  facto  emcorram  em  sentença  de  excomunliam  assy  os 
noyuos  como  as  outras  persoas  que  presente  forem  a  quall  nos  em 
elles  poemos  nestes  escriplos  da  qnall  excomunliam  nom  possam  seer 
absolutos  saluo  per  nos  ou  per  cada  luium  de  nossos  vigairos  gee- 
raees  de  lixboa  e  santarem  segundo  ho  arcediago  em  que  íoiem  ou 
pellos  vigairos  pedanneos  das  uigarias  e  comarcas  e  averam  sua  ab- 
solluçam  neesta  maneira  e  em  oulra  nom  e  damos  pêra  ello  poder,  a 
saber,  que  os  noyvos  e  os  que  os  receberem  eslem  ante  de  seer  ab- 
solutos três  domingos  aa  porta  da  igreia  de  fora  em  quanto  diserem 
as  missas  da  terça,  a  saber,  toda  a  missa  descalços  com  senhas  siluas 
ao  collo  grossas  descubertas  em  lall  guisa  que  pareçam  ao  pooboo  to- 
do e  as  três  (?)  cada  huma  seu  domingo  pello  dito  modo  e  doutra 


i26  REVISTA    ARCHEOLOGrCA 

guisa  nom  e  se  pervenlura  os  sobreditos  vigairos  forem  reqiiiridos 
que  lhes  mudem  estas  pendenças  em  outras  e  llies  parecer  que  o  de- 
uem  fazer  ()or  alguuma  causa  que  os  a  ello  mnua  dammollies  poder 
e  autoridade  que  lhes  ()0ssam  mudar  a  dieta  peuua  em  esta.  a  saber, 
que  os  uoyuos  e  aquelles  que  os  receberem  paguem  cada  huum  cin- 
coenta  rreaes  peras  obras  meretoí/as  que  per  nos  forem  hordeuadas 
e  as  testemuidias  vinte  cada  hunm  e  satisfecto  a  esto  per  callqucr  dos 
sobre(Uctos  modos  os  possam  absoluer  e  doutra  guisa  nom  e  ffazendo 
quallquer  ho  coiitravro  dos  dictos  vigairos  poemos  no  que  ho  con- 
trayio  fezer  sentença  de  escomunhom  em  estes  escriptos  da  quall 
nom  possa  seer  absolluto  senam  per  nos  e  a  higreia  em  que  ba  des- 
lar  com  as  dietas  siluas  será  aquella  em  cuia  ffreguisia  os  dictos  noi- 
uos  uiuerem  e  aquelle  que  teuer  aura  [síc)  da  dieta  igreia  lhes  lance 
as  dietas  siluas  ao  quall  mandamos  sob  penna  de  exc.omimhom  em  a 
quall  ipso  facto  encorra  que  uerdadeiramenle  per  seu  escripto  cerle- 
fique  dello  ho  vigairo  que  os  assy  ha  dabsoluer  e  sse  for  creligo  o 
que  lall  casamento  fezer  pague  quitdientos  reaes  do  nosso  aliube. 
conin  /iam  de  sseer  luingicJos 

10  Item  porque  todo  ffiell  xpãao  des  que  nem  aos  annos  da  dis- 
cripçam  be  thiudo  de  receber  os  sacramentos  da  igreia  necessários 
pêra  sua  saluaçam  anlre  os  quaees  ho  postomeiro  delles  he  a  ultima 
unçam  porém  uos  mandamos  que  amoestee  nossos  fregueses  que  quan- 
do os  deus  deste  mundo  quiser  leuar  rrecebam  ho  dicto  sacramento 
6  vos  seede  bem  dilligente  a  lho  dar  seendo  uos  requirido  dando-lhes 
a  entender  em  vossos  sermõoes  e  preegações  ha  uirlude  do  dicto  sa- 
cramento e  quanta  graça  deus  ffaz  aaquelles  que  bo  recebem  e  assy 
os  animarees  a  o  auerem  de  receber  e  porque  a  este  sacramento  he 
neçesario  olio  dos  enfermos  sem  ho  quall  nom  pode  seer  fedo  vos 
mandandamos  (,s/í")  que  do  dia  de  páscoa  atee  quinze  dias  a  mais  tar- 
dar vaades  pellos  olleos  e  crixma  aquelles  lugares  donde  os  soees 
auer  e  trageeos  a  vossa  igreia  sob  penna  de  duzenios  reaes  brancos. 

como  dcuem  de  ensinar  o  palcr  j/oster  e  ave  maria  e  os  preceitos 

11  liem  porque  achamos  que  muitos  xpãaos  nom  sabem  lio  pater 
nosier  e  a>ie  maria  e  o  credo  in  deum  que  som  oiaçõees  de  neçesi- 
dade  e  as  deuem  saber  pêra  com  ellas  adorarem  a  deus  e  a  virgem 
maria  sua  madre  e  creerem  as  cousas  conlhiudas  nos  artigos  da  san- 
cta  ífe  calollica  vos  mandamos  que  em  todollos  domingos  do  anuo  aa 
missa  do  dia  depois  da  oferta  digaaes  nniy  pasamente  (sic)  per  ma- 
neira que  os  fregueses  uos  possam  bem  entender  as  dietas  oraçõees 
aos  sobre  dictos  e  no  auento  e  na  coreesma  depois  da  dieta  olferta 
Ihts  dizees  mais  os  dez  preceitos  da  ley  com  suas  conlrariadades  del- 
les declarandollios  uos  ho  millior  e  mais  comjjridamente  que  uos  deus 
ministrar  e  as  hobras  da  misericórdia  por  que  as  saybam  e  as  com- 
[)ram  e  os  sete  pecados  morlaaes  per  o  (pie  os  conheçam  e  sse  guar- 
dem delles  e  os  sele  sacramentos  da  igreia  fectos  e  emestituidos  (sk) 


E   HISTÓRICA  1  27 


em  cil.i  [M)r  o  salii.iram  dos  xpãnos  e  os  dooes  do  cspirilii  snnio  e  as 
uirliidcs  lli('ol(i}:aaes  e  as  cardcaaes  assy  como  nos  per  nos  forem 
mostradas  e  mandamos  aos  diclus  íregiieses  sob  pemia  de  excomu- 
nliom  que  nem  lazendo  iios  o  que  dicto  lie  que  noilo  escrepuam  e  fa- 
çam saber  pcra  nos  tornarmos  a  ello  com  directo  e  nos  darmos  aquel- 
la  iirande  pcinia  (pie  j)ell(»s  nom  saberdes  nem  emsiiiardes  merecees. 

conin  ssc  ani  de  dizer  as  uiissas  dos  mivirersairos 

12  Item  acbamos  que  alyuuns  leigos  mouidos  de  piedade  e  por 
bem  de  suas  almas  leixam  seus  beens  aas  igreias  por  llie  seerem  fe- 
ctos  mnylos  dias  seus  aniuersarios  assy  como  llies  foy  liordenado  e 
os  bencliçiados  sam  mnit(j  diligentes  pêra  leceberem  as  lendas  d()s 
dictos  jieens  e  os  aniuersarios  nom  sse  fazem  assy  como  lie  mandado 
da  ipiall  cousa  sse  segue  maao  emxempllo  ao  poboo  e  pequena  uon- 
tade  de  bem  fazer  aas  igreias  e  o  pior  que  lie  detrimento  aas  almas 
dos  sobre  dictos  que  es[)eram  no  purgatório  pellas  aiiidas  dos  sacrifí- 
cios e  esmollas  dos  uiuos.  e  querendo  nos  a  esto  rremediar  manda- 
mos uos  que  façaaes  vos  c  vossos  beneficiados  os  aniuersarios  que 
uos  foram  leixados  pois  levaaes  as  rendas  delles  em  aqiielies  dias  em 
que  se  am  de  fazer  sse  nam  forem  embarguados  por  domingos  ou 
festas  e  quando  forem  embargados  ante  ou  depois  no  dia  seguinte 
per  lall  maneyra  cpie  nom  fiquem  por  dizor  e  dizee  vos  ou  quem  di- 
ser  a  missa  ao  domingo  ao  poboo  os  nauersarios  {sic)  que  forem 
naqiiella  somaiia  emcomendarees  ao  dicto  poboo  que  roguem  a  deus 
pella  alma  desse  que  leixou  a  igreia  a  lall  possisom  por  seu  aniuer- 
sario  e  sse  hi  esleuer  alguum  de  seu  linliaie  que  uenlia  em  tal  dia 
uer  como  sse  íTaz  o  dicto  nauersario  se  quiser,  e  a  maneira  que  anees 
de  teer  em  fazer  os  aniuersarios  ssera  esta  direes  aa  ves[i('ra  do  dia 
em  que  lia  de  seer,  véspera  e  matinas  dos  mortos  e  no  dia  depois 
das  matinas  do  dia  direes  as  laudes  dos  finados  e  a  missa  aa  ora  da 
primeira  de  reíjuiem  e  sse  souberdes  a  ssepultura  daquelle  ou  da- 
quella  cuio  ho  nauersario  ffor,  e  hirees  sobre  ella  com  cruz  e  agoa 
benta  dizendo  responsso  sobre  a  coua  ou  sepultura  e  os  dictos  nauer- 
sarios sse  ganharam  per  esta  guisa,  a  saber.  Iiiinm  terço  a  véspera  e 
as  matinas,  outro  terço  as  matinas  do  dia  do  nauersario  e  laudes  dos 
mortos,  e  oulro  terço  a  missa  com  saimento,  e  nom  fazendo  uos  os 
dictos  nauersarios  como  aqui  lie  liordenado,  defendemos  e  mandamos 
ao  prioste  da  dieta  igreia  que  uos  nom  de  delles  cousa  alguma  sob 
penna  de  iazer  liuiiin  mes  em  nosso  alinbe  e  defendemos  a  vos  que 
ho  nom  recebaaes  e  o  dicto  prioste  noIlo  faça  saber  pêra  nos  des- 
poermos  dos  dictos  nauersarios  aqnello  que  emiendermos  pêra  ser- 
uiço  de  deus  e  bem  das  almas  daquelles  que  os  leixaram. 


{Continua). 


128  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

BIBLIOGRAPHIA 

BuLLETTLNO  Dl  AuciiEOLuciiA  CiusTiANA  dei  (^ommeiídatore  Giovan- 
ni  BaíUsta  de  Rossi.  Série  Quarta.  Anuo  Quarto.  N."'  1,  "2,,  3,  4.  Ro- 
ma, 188G:  fig. 

Esle  exfolleute  boletim,  cuja  troca  com  a  Revista  no  mais  subido 
apreço  leni  e  recoiiliecida  agradece  a  redacção  d'esla,  é  um  dos  me- 
lhores repositórios  archeologicos  que  se  publicam.  O  nome  do  seu  il- 
luslre  Redactor,  respeitadíssimo  por  todos  quantos  o  conhecem  por 
seus  innumeros  e  im[)ortantissimos  trabalhos  e  por  suas  allissimas 
(jiialidades  pessoaes.  l)cisla  para  dar  a  esta  publicação  um  interesse 
enorme,  uma  auctoridade  incontestável.  De  modo  que,  quem  quizer 
com  passo  seguro  estudar  não  só  a  archeologia  christã,  mas  ainda 
muitas  outras  espécies  da  vasta  e  diílicilima  sciencia  da  antiguidade, 
deve  consultar  as  sabias  memorias  devidas  á  penna  do  sr.  Com.'^°''  de 
Rossi.  muitas  das  quaes  sairam  á  hiz  no  Bollettino  de  Archeologia 
Cristiana. 

O  volume  correspondente  ao  anno  de  1886  consta  dos  seguintes 
artigos: 

Conferenze  di  archeologia  Cristiana  (actas),  pelo  sr.  Orazio  Maruc- 
chi,  secretario: 

II  maiísoko  degli  Urami  cristiani  a  s.  Sebastiano  sidrAppia. 

L epigrafia  primitiva  priscilliana,  ossia  le  iscrizioni  incise  sul  mar- 
mo  e  dipinte  siille  tegole  delia  regione  primordiale  dei  cimitero  di  Pris- 
cilla,  com  Appendice. 

Os  dois  últimos  estudos,  em  que  continuam  a  evidenciar-se  o  fino 
espirito  e  a  luminosa  observação  epigraphica  do  sr.  Com. '•'''■  de  Rossi, 
bem  como  o  seu  saber  vastíssimo,  são  d'aquelles  que  bastariam  para 
lhe  firmar  a  reputação,  se  com  muitos  e  maiores  monumentos  não 
houvesse  já  enriíjuecido  a  Itália  e  a  sciencia. 

A  assignatura  pode  fazer-se,  pelo  preço  annual  de  liras  11,50, 
sendo  dirigidos  os  pedidos  ao  sr.  Giuseppe  Gatli,  Perla  Direzione  dei 
Bultettino  di  Archeologia  Cristiana,  Piazza  d'Aracoeli,  17,  in  Roma. 


E  mSTORICA  129 


INSCRIPÇÃO  DE  MONTEMOR-O-NOVO 

(Nota) 

Examinando  .linda  uma  vez  os  desenhos  da  inscripção  de  Monte- 
mór-o-Novo,  qne  devo  á  obzeijuiosidade  do  sr.  Gal)riel  1'ereira,  pare- 
ce-mo  tjiie  o  texto  das  duas  inscripeões  chrislãs,  que  a  ladèam,  deve 
ser  ap[)roxima(lamente  o  seguinte  (p.  114  da  lievi.sta): 

[/«]  nomine  d(onn)ni 
[fa]  tniili  Chr{  is  li) 
[Si]scua[}i]dus 

[et]  lesabille 
[/]e[c]«-í'      nt 

lesabille  seria  ísabdla. 
Herlin.  l'i  setembro  1887. 


E.  IliJBNER. 


ANTIGUIDADES  DE  MONTEMOR-O-NOVO 

A  propósito  do  artigo  do  sr.  dr.  Eniilio  Iliibner  sobre  a  inscripção 
de  Calcliisia  que  se  acha  em  Montemór-o-Novo,  artigo  pubhcado  no 
anterior  niunero  d"esta  Ik'visla,  e  para  satisfazer  ao  convite  da  digna 
redacção,  venho  resumir  algumas  noticias  arclieologicas  d  aquelia  villa 
alemtejana,  onde  ha  poucos  mezes  estive  em  commissão  de  serviço 
pubhco. 

Antes  de  mais  agradeço  mui  reconheeido  as  palavras  amáveis  com 
que  o  erudito  professor_da  Universidade  de  Berlim,  a  quem  nós  os 
estudiosos  portuguezes  tanto  devemos  em  licção  e  exemplo,  honra  o 
meu  nome  obscuro. 

Achando-me  em  Monlemór-o-Novo  em  commissão  assaz  demorada, 
que  me  deixava  por  dia  algumas  horas  vagas,  empreguei-as  no  meu 
antigo  habito  de  indagação  archeologica  ou  liistorica.  O  caslello,  o  an- 
tigo recinto  fortificado,  a  villa,  o  seu  termo,  teem  que  vèr;  o  archeo- 
logo  occupa  bem  uns  três  dias  percorrendo  aquelles  campos  acciden- 
lados,  vestidos,  no  aro  da  povoação,  por  extensos  olivaes,  cercados 
por  bastos  montados  d'azinho  e  sobro  de  grande  importância. 

O  castello  encima  um  alteroso  monte  de  forte  declive.  É  um  re- 
cinto fortiíicado,  triangular,  tendo  uns  800'"  no  lado  maior  que  olha  o 
norte.  Dentro  estava  a  antiga  povoação,  hoje  umas  terras  maninhas, 
formadas  de  entulhos  e  caliças;  resta  o  edificio  que  foi  mosteiro  de 
freiras,  agora  asylo  de  meninas;  duas  egrejas  em  abandono,  doutra 
apenas  as  paredes;  para  o  lado  da  villa,  que  se  alastra  alvejante  na 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N."  9  —  Setembro  1887.  9 


130  REVISTA    ARCHEOLOGICA 

baixa  ao  norte  do  cerro,  ergiie-se  a  torre  do  relógio;  e  no  vértice  do 
recinto  triangular  para  o  Imlo  do  sul,  exactamente  onde  a  escarpa  é 
mais  Íngreme  e  o  accesso  mui  dillicil,  está  o  palácio,  uma  ruina  admi- 
rável, com  suas  alias  muralhas  em  quadrado,  fortalecidos  os  ângulos 
por  fortes  cubellos.  Conservam-se  a  leste  e  oeste  do  castello  duas  tor- 
res formidáveis,  chamadas,  na  historia  e  na  tradição  popular,  do  Anjo, 
e  da  Md  hora. 

Examinei  detidamente  o  castello  e  julgo  poder  aventar  algumas 
novidades.  Não  é  medieval,  não  tem  uma  ogiva  nem  um  arco  mouris- 
co; as  janellas  das  torres  e  do  palácio  são  rectangulares,  ou  de  volta 
redonda;  as  portas  de  grossa  silharia  bem  faciada.  e  de  volta  redon- 
da também:  a  entrada  principal,  ainda  perfeitamente  conservada,  é  ro- 
mana em  todas  as  linhas;  a  barbacan  do  norte  parecc-me  árabe,  pela 
disposição  e  construcção.  A  alvenaria  é  tal  que  alguns  pannos  da  nui- 
ralha  e  cubellos  tombaram  inteiros.  O  (jue  todavia  merece  mais  atten- 
ção  é  o  palácio,  assim  designado  na  tradição  e  ainda  no  actual  fallar 
do  povo;  não  é  o  paço  nem  a  alcáçova,  nem  a  menagem ;  é  ainda  na 
integra  a  palavra  latina.  O  ediíicio  internamente  soíTreu  modificações, 
no  exterior  tem  puro  aspecto  romano. 

Visitei  em  outubro  de  1886  um  edifício  isolado  e  ignorado  que  me 
forneceu  algumas  bases  de  compai-ação;  é  o  castello  de  Vallongo,  an- 
tigamente castello  real,  como  apparece  designado  em  documentos  dos 
séculos  XV  e  xvi.  Pica  próximo  da  villa  de  Montoito,  ^  kilometros  a 
poente. 

Imagine-se  um  quadrado  de  ()0'"  de  lado,  formado  por  espessas 
muralhas;  nos  cantos  fortes  cubellos;  um  d"esles  mais  amplo,  com 
suas  divisões,  é  a  habitação  principal.  A  porta  voltada  a  nascente. 
Dentro  do  recinto,  encostadas  ás  muralhas,  algumas  casas,  um  forno. 
Um  dos  torreões  ampliado  com  uma  construcção  de  silharia  que  pa- 
rece prisão.  Como  está  miiiio  isolado,  ninguém  tem  ido  ali  buscar  ma- 
terial ;  acha-se  admiravelmente  conservado.  É  um  exemplar  curioso, 
digno  de  estudo.  A  porta  principal,  a  construcção  fundamental,  o  as- 
pecto, são  romanos.  O  torreão  foi  reconstruído,  e  outro  accrescentado 
com  um  pequeno  edifício  ogival.  Mais  tarde  encostaram  barracas  ou 
casas  baixas  que  teem  portas  mouriscas.  Como  as  chuvas  descarna- 
ram as  paredes,  vè-se  claramente  a  successão  da  construcção. 

E  juntando  esta  lição  a  outros  elementos  convenci-nie  de  que  o  pa- 
lácio, as  grandes  torres,  a  entrada  principal  do  castello  de  Montemór-o- 
Novo  são  de  origem  romana.  A  inscripção  de  (^alcliisia  estava  no  adro 
da  egreja  Matriz;  e  chegando  esta  a  ruina  con)i)leta  foi  removida  para 
a  parede  fronteira  á  Camará  Municipal. 

Registemos  outro  facto;  na  egreja  próxima  áo  palácio  ha  inscrip- 
ções  pouco  notáveis;  mas  n'uma  casa  aiuiexa  o  pavimento  é  formado 
por  antigas  cabeceiras  de  sepulturas,  pedras  que  na  idade  médii  col- 
locavam  em  volta  dos  templos  marcando  as  covas;  uma  parte  adelga- 


E   HISTÓRICA  131 


cada  ou  espigão  entrava  no  solo,  «^"itra  parle  circular,  lavrada  com  a 
cruz,  sobresaliia;  na  cgreja  da  Atalaya,  lernno  de  Pombal,  ainda  ha 
pouco  vi  duas  d  eslas  [)edras  cn  plave.  Algumas  teem  oaljiha  e  o  ome- 
fja,  a  maior  parle  apenas  a  cruz. 

Sahiudo  da  villa  pela  eslrada  nova  para  Évora,  a  uns  4  kilomelros, 
vè-se  á  esfjuerda  a  (jiiinla  da  Amoreira  da  Torre,  um  edifício  grande 
com  sua  torre  mui  saliente:  e  olhando  á  direita,  a  200  metros  (Ja  es- 
trada, n  um  cabeço,  entre  matto  curto,  bem  visivel,  está  um  dolmen; 
é  a  anta  da  courella  dos  Touraes.  Tem  seis  esteios  erguidos,  a  meza 
ou  pedra  superior  no  seu  logar;  mais  de  2'"  daltura  e  4  de  diâmetro; 
vesligios  da  galeria,  como  de  costume,  voltada  a  nascente. 

Uma  carreteira  passa  pioxima  da  anta  e  vai  descendo  o  declive, 
corta  a  ribeira  e  segue  para  a  casa  da  Amoreira  da  Torre.  Eu  ia  visi- 
tar esta  casa  porque  me  haviam  contado  o  seguinte.  Esta  propriedade 
pertenceu  á  casa  d" Aveiro.  Um  certo  conde  de  S.  Cruz,  commendador 
mór  de  Mertola,  era  amador  de  arte  e  antiguidades,  e  trouxe  com 
grande  despeza  de  Aleitola  para  a  sua  quinta  de  Montemor,  a  Amo- 
reira, onde  residia  habitualmente,  estatuas  romanas,  lapides,  etc.  O 
povo  de  Montemor  por  occasião  do  atlentado  contra  el-rei  D.  José, 
correu  à  quinta  dos  Aveiros,  quebrou,  destruiu  brazões,  moveis,  etc. 
6  decapitou  o  marqucz  e  a  marqueza.  Na  lenda  actual  lia  confusão  en- 
tre o  caso  dos  Aveiros,  e  um  mais  antigo,  muito  ligado  á  historia  da 
villa,  do  tempo  de  João  2.°  É  lacto  ter  o  povo  assaltado  a  quinta  ; 
apeou,  não  partiu,  os  brazões  da  casa  d"Aveiro,  que  eu  lá  os  vi  a  um 
canto  de  certa  oííicina,  depois  de  afastados  uns  molhos  de  vides  sec- 
cas.  O  meu  problema  era  o  seguinte:  o  povo  destruiria  tudo?  não 
restaria  fragmento  de  estatua  ou  de  lapide? 

Talvez  queira  vèr  as  figuras  do  marqnez  e  da  marqueza,  disse-me 
o  caseiro  éepois  de  termos  percorrido  inutilmente  o  palacete,  o  jar- 
dim, as  oíTicHias;  e  levou-me  a  uma  casa  aonde  fiquei  por  alguns  mo- 
mentos enlevado.  Os  marq/irzes  decapitados  são  duas  estatuas  roma- 
nas, as  mais  perfeitas,  mais  elegantes,  de  mais  nobre  arte  que  temos 
em  Portugal,  duas  estatuas  collossaes,  de  mármore,  sem  cabeças,  nem 
mãos,  mais  de  2'"  daltura,  homem  e  mulher,  as  roupagens  finas,  lin- 
damente lançadas,  de  óptima  execução.  É  possivel  que  viessem  de  Mer- 
tola assim  mutiladas,  porque  André  de  Rezende  falia  de  um  achado  im- 
portante do  seu  tempo,  natjuclia  villa,  de  formosas  estatuas  infeliz- 
mente truncadas. 

Em  terras  da  herdade  das  Commendas,  do  sr.  Oliveira  e  Silva,  por 
occasião  de  certo  trabalho  agrícola,  appareceram  algumas  antiguida- 
des; o  dono  mandou  excavar  e  abrir  valias  naquelle  sitio  para  reco- 
nhecer o  terreno,  e  descobriu  então  restos  de  paredes,  de  aqueductos, 
e  bastantes  cerâmicas,  utensílios,  ferramentas :  alguns  objectos  de 
bronze,  fibulas,  argolas;  muitas  de  ferro:  provavelmenie  restos  de 
uma  exploração  agrícola,  e  também  talvez  metallurgica.  São  vulgares 


J32  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

OS  restos  de  exploraçees  mineiras  no  Alemtejo,  onde  abundam  os  jazi- 
gos de  cobre,  de  feiTO,  de  maiiganez.  Nas  minas  aclnaes  reconhecidas 
mi  exploradas  enconlrain-se  sempre  vestígios  de  trabalho  mui  remoto, 
pre-romanoe  romano.  Km  pontos,  existem  verdadeiros  montes  de  esco- 
rias, em  outros  indícios  claros,  para  o  olhar  ethicado,  de  terias  enor- 
memente revolvidas,  sem  apparecer  todavia  vestígio  algum  romano. 
Onde  apparecem  grandes  tanques,  aqueductos,  moendas  (não  sendo 
em  margem  de  ribeira)  e  Tornos,  [)õde  alíirmar-se  terem  existido  ex- 
plorações metaliurgicas. 

A3kilometros  ao  norte  de  Montemor,  á  esquerda  e  cerca  da  estrada 
que  segue  para  iMòra,  eleva-se  um  cerro  com  sua  ermida  no  alto,  dedi- 
cada a  Santo  André. 

Dizem-me  ser  templo  dos  mais  antigos  d\iquelles  sítios.  No  Alem- 
tejo  são  raros  os  templos  anteriores  á  monarchia,  tão  frequentes  nas 
Beiras,  no  Minho  e  em  Traz-os-Montes.  São  conhecidas  inscripções  S2- 
pulcraes  chiislans  de  alta  antiguidade,  mas  bem  raros  os  templos  onde 
OS  fieis  oravam  nos  tempos  gothicos  e  no  domínio  árabe.  Eram  pro- 
vavelmente pobres,  humildes  conslrucções,  que  desappareceram  pela 
ruina  ou  soítreram  reconslrucção  tal  que  lhes  apagou  lodos  os  caracte- 
res primitivos. 

Com  grande  curiosidade  entrei  no  pequeno  cerrado  povoado  de  oli- 
veiras que  antecede  a  ermida.  Um  templo,  antigo  sem  duvida  ao  pri- 
meiro olhar,  agora  concertado,  rebocado;  denotando  porém  nas  linhas 
exteriores  uma  reconstrucção  e  ampliação  bem  remota.  A  porta  é  ogi- 
val ;  dentro,  o  [)rimeiro  arco  também  ogival ;  era  o  espaço  do  primitivo 
alpendre  que  incorpoiaram  no  templo  para  o  fazer  mais  comprido.  O 
segundo  arco  de  volta  redonda,  de  rude  silharia,  assentando  em  co- 
lumnas  baixas,  grossas,  de  capiteis  cúbicos  mui  toscos,  com  ornamen- 
tação vegetal  rudimentar ;  os  arcos  que  seguem  são  eguaes  ;  a  capella 
mór  reconstruída  no  estylo  golhico.  Tem  razão  a  tradição;  é  um  ro- 
mano modificado  pelo  gothico. 

Teve  esta  ermida  sua  confraria  e  albergaria  com  a  invocação  de 
Santo  André  ;  albergaria  para  romeus  e  peregrinos,  e  depois  para  láza- 
ros ou  gafos. 

Existe  a  copia  do  primitivo  estatuto  ou  compromisso  no  lombo  do 
Hospital,  no  archivo  da  Santa  Casa  da  Misericórdia.  É  mna  copia  não 
muito  lie!  lavrada  no  século  xvi.  Foi  publicada  com  alguns  erros  con- 
sideráveis nos  «Estudos  do  município  de  Montemór-o-Novo».  E  a 
reproducção  do  antigo  compromisso  dos  homens  bons  d'Evora  que 
foram  a  .lerusalem  (Documentos  históricos  da  cidade  dEvora,  pag.  .38). 
Como  Évora  conmiunicou  ás  povoações  alemlejanas  o  seu  foral,  e  os 
seus  juízos  e  costumes,  assim  lambem  lhes  deii  a  norma  das  suas  ins- 
tituições pias.  O  compromisso  da  antiga  confraria  dos  Ovalheiros.  ere- 
cta na  albergaria  de  N.  Senhora  da  Graça,  de  Vianna  dapar  dAlvito 
(Vianna  do  Alemlejo),  é  lambem  fundado  no  estatuto  eborense. 


K    IIISTOUICA  133 


Esta  Misericórdia  do  Monleinôr  lein  uni  arcliivo  opulento  ;  e  é  muito 
notável  a  sua  salla  das  sessões,  o  seu  as|)t,'clo  aiitij^^o.  sem  Cíjusa  íjuc 
disparate,  a  m  Mza  e  cadeirado  pegado,  sobre  a  cadeira  do  provedor  o 
oratório  de  armário,  um  grande  triptico.  os  viUlos  ou  bandeiras,  de  tela 
pintada  a  óleo,  sus[)ensas  nas  paredes  ;  o  cofre  na  sua  caixa  de  már- 
more branco  com  umas  grossas  trancas  de  ferro  cruzatlas,  com  cadea- 
dos ;  o  tecto  de  abobada  pintada  a  fresco  ;  e  formosas  cadeiras  de 
espalíJar,  de  couro  lavrado,  ao  longo  das  paredes.  É  opulento  lambem 
o  aicbivo  municipal  otide  vi  nrailos  documentes  do  século  xv. 

G.  Pkheiha. 


NUMlSxAíATICA  POUTUGUEZA 

I).  AíToiíso  V 

Não  tencionamos  entrar,  senão  por  incidente,  na  bistoria  pouco  bri- 
lhante do  reinado  deste  aventureiro  e  leviano  monarcba.  A  nossa  mis- 
são é  restricta  e  visa  apenas  auxiliarmos,  quanto  couber  nas  nossas 
forças,  alguns  novos  e  inexperientes  colleccionadores  de  moedas  anti- 
gas, em  Portugal.  !•]  Ímprobo  o  nosso  trabalho,  reconhecemol-o,  de- 
pois do  dislincto  numismata,  o  sr.  dr.  Teixeira  de  Aragão,  cuja  com- 
petência não  nos  peza  reconhecer,  ter  desenvolvidamente  tractado 
das  moedas  portuguezas  na  sua  Descripção  geral  e  histórica  das  moe- 
das cunhadas  em  nome  dos  rcij,  regentes  e  governadores  de  Portugal. 
Mas  se  é  Ímprobo  o  nosso  trabalho  e  ingrata  a  nossa  tarefa,  mais  fá- 
cil é  a  concessão  da  indulgência  que  pedunos  para  qualquer  deficiência 
ou  erro  de  apreciação  que  possamos  commetter. 

É  importante  o  trabalho  do  sr.  Teixeira  de  Aragão,  agora  mais 
do  que  nunca  o  reconhecemos.  Mas  a  numismática  ou  a  diplomática 
numária  é  uma  sciencia,  e  como  tal  nã(>  está  dieta  a  ultima  palavra, 
É  uma  sciencia  positiva,  mas  precisa  de  interpretações  de  moedas,  de 
textos  e  de  leis,  de  apreciações  de  factos  e  de  documentos  de  toda  a 
espécie,  de  raciocínios  ás  vezes  tão  pouco  seguros  que  ninguém  pôde 
ter  a  preteução  de  ter  dicto  a  ultima  palavra,  de  ter  feito  o  ultimo 
trabalho.  Quem  algum  trabalho  fizer  no  intrincado  labyiintho  da  nu- 
mária porliigue/.a.  que  tão  abandonada  tem  jazido  entre  nós.  presta 
indubitavelmente  um  serviço  ao  paiz,  e  este  serviço  será  tanto  maior 
quanto  mais  desinteressado  fur. 

D'este  reinado  vieram-nos  paiar  ás  mãos,  quer  como  propriedade 
nossa,  quer  como  obsequio  do  nosso  bom  amigo  o  sr.  Júdice  dos  San- 
tos, exemplares  de  moedas  que  divergem  dos  citados  pelo  sr.  Teixei- 
ra de  Aragão,  podendo  d'entre  estes,  considerar-se  alguns  como  ty- 
pos  completamente  novos  e  outros  como  importantes  variedades. 


134  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

Para  a  descripção  d'elles  seguiremos  como  até  aqui  a  ordem  chro- 
nologica  ou  de  importância  numária,  dada  pelo  sr.  Aragão  no  seu  tra- 
tado, sempre  que  o  nosso  modo  de  apreciar  ou  a  maior  facilidade  da 
descripção  nos  não  obrigue  a  divergência. 

Vamos  descrever  dois  rcaes  grossos  com  as  coroas  de  Portugal  e 
de  Castella,  ires  meios  reaes  ou  chinifrans,  três  espadins  e  algims 
ceitis.  Um  dos  meios  que  adoptámos  para  facilitar  a  comparação  das 
variantes  com  os  typos  citados  pelo  sr.  Aragão,  foi  o  de  desenhar  as 
duas  moedas,  fazendo-as  acompanhar  das  respectivas  descripçues. 

O  sr.  Aragão  dá  sob  os  n.°'  7  e  8  do  reinado  de  D.  AÍIonso  v, 
vol.  I,  est.  X,  dois  reaes  grossos,  com  as  armas  de  Portugal  e  Castella, 
dinheiro  que  serviu  para  commemorar  a  infausta  e  leviana  aventura  da 
reunião  dos  sceptros  de  Castella  e  Leão  ao  de  Portugal,  e  o  conlracla- 
do  casamento  de  AlTonso  v  com  sua  sobrinha  D.  Joanna,  a  eirellente 
senhora,  por  morte  de  Henrique  iv  de  Castella. 

As  moedas  descriptas  pelo  sr.  Aras^ão  são:  a  primeira,  —  est.  xv, 
fig-  1. 

«>í<    ALFONSVS°     DEI!     GRACIE!    REX=    GASTE.— 

Escudo  com  as  quinas  sobre  a  cruz  de  Aviz,  orladas  por  dez  castel- 
los,  em  volta  ires  anneis». 

«r!.  >í<  A  L  F  O  N  S  V  S  :  DEI:  G  R  A  C  l  A  !  R  E  A'  ^  C  A  S  T  E.— 
Armas  de  Castella  e  Leão.  Pesa  68  grãos.  Real  grosso.  A\  de  11  di- 
nheiros e  4  grãos —  10:000  réis». 

Uma  das  moedas  do  sr.  Júdice  dos  Santos  é  uma  variante  deste 
typo,  vide  est.  xv,  fig.  2. 

>i<   ALFONSVS":   DEI;    GRACIA;    REX;    CAS.—  EsCudo 

com  as  quinas  sobre  a  cruz  de  Aviz,  cii'cundadas  por  dez  castellos  e 
por  fora  destes,  três  arruellas,  uma  de  cada  lado  e  outra  por  cima. 

Tl.   ^  A  L  F  O  N  S  V  S  ;    D  E  I  :    GRACIA;    R  E  G  I  S  ;   C  A  S  T  .  — 

Escudo  com  as  armas  de  Castella  e  Leão,  e  por  cima  c  (Castella). 

Peza  09  grãos,  Real  grosso. 

A  diflerença  d'estas  duas  moedas  consiste  principalmente  no  texto 
das  legendas  e  na  lettra  d'ellas,  e  em  ter  no  reverso  sobre  o  escudo 
de  castello,  um  c. 

O  segundo  real  grosso  mencionado  pelo  sr.  Aragão,  est.  xv,  íig.  3,  é : 

«>í<ALFONQ  HIINTIS  ^REIS  ^CASTELE  ^E   LEONEES. 

—  O  mesmo  escudo  com  a  cruz  de  Aviz,  mas  tendo  por  cima  um  p 
(Portugal)  entre  dois  armeis. 

\\.  >í<alfonqvintis:reis:castele:e  lionees. 

—  Escudo  com  as  armas  de  Castella  e  Leão;  por  cima  entre  dois  au- 
neis  c  (Castella).  Peza  07  grãos.  Real  grosso.  A\  de  11  dinheiros  e  4 
grãos  -  10:000  réis». 

A  segunda  moeda  que  também  pertence  ao  sr.  Júdice  tem:  — 
est.  XV,  íig.  4. 

^alfonsvs;  qintvs:   reis;  castele  .— Escu- 


E    IIISTOUKA 


135 


do  com  as  quinas  sobre  a  cruz  de  Aviz,  circundadas  por  dez  caslel- 
los  e  aos  lados  uma  arruela ;  por  cima  um  p  (1'orlugal)  no  meio  de 
oulras  duas  arruelas. 

k.  ^  A  L  F  o  N  S  V  S  :  ()\N  T  V  s  ;  H  K  I  s  :  C  A  S  T  !•:  I.  K  :  L  K  .— 
Escudo  das  aiinas  de  (>asl('lla  e  Leão,  com  o  mesmo  mmiero  de  ar- 
ruelas e  na  mesma  disposição,  lendo  por  cima  do  escudo  C  (Caslella). 
Peza  06  grãos.  lieal  (jvosso. 

Estas  duas  moedas  ultimas  são  também  difTerentes  nas  legendas, 
como  póile  ser  facilmente  observado. 

No  meio  irai  (jrosso  ou  liiinifrcnn  as  dillerenças  são  muito  maiores. 

O  descripto  pelo  sr.  Aragão,  vol.  i,  est.  x,  e  que  nós  re[)ioduzi- 
mos,  est.  XV,  fig.  5,  é: 

«^AI.  FONSVS;  QVINTI:  REGIS;POIi.  —  Quinas. 

Ri.  ^  ADJVTORIVM  ^NOSTRVMMN  :  N  O  M  I  N  —No  Cen- 
tro A  entre  dois  anneis,  por  cima  uma  grande  coroa  e  por  baixo  L 
(Lisboa).  Peza  ^9  grãos.  Meio  real  ou  chimfram,  Á\  de  11  dinlieiros. 
—  1:000  réis.» 

A  este  meio  real  podemos  apresentar  três  variantes  importantes 
da  mesma  fabrica  de  Lisboa.  Fazemos  esta  observação  da  fabrica  de 
Lisboa,  poripie  na  obra  do  sr.  Aragão  vem  também  descripto  um 
meio  real  com  armas  de  Castella  parecendo  ler  ali  sido  fabricado. 

Se,  como  é  nosso  dever,  considerarmos  o  anverso  da  moeda  o  lado 
que  tem  o  nome  do  monarcha,  ou  o  mais  importante^  só  uma  das  Ires 
variedades  (jue  vamos  a|)resentar  pôde  ler,  como  no  sr.  Aragão,  por 
anverso  a  face  da  moeda  que  tem  os  cinco  escudos.  E  esta  moeda 
pôde  ler  o  mesmo  anverso,  porque  tem  o  nome  do  monarcba  nas 
duas  legendas. 

A  primeira  das  nossas  moedas  é:  —  est.  xv,  fig.  6. 

>í<  A  L  F  O  N  s  V  s  :  QVINTI  :  R  E  G I  s  :  p .  —  No  cenlro  a  entre 
dois  anneis;  por  cima  uma  grande  coroa,  e  por  baixo  L  (Lisboa). 

Ri.  >í<  ADJVTORIVM  ;  N  O  S  T  R  V  M  ;  I N  .  —  As  cinco  quinas 
porluguezas  em  cruz.  Peza  '28  grãos.  Meio  real  grosso  ou  chimfram. 

Além  de  peípienas  diíTerenças  nas  legendas,  comparando  este  exem- 
plar com  o  da  tig.  5,  vè-se  que  houve  troca  completa  d"ellas,  por- 
que a  legenda  que  estava  do  lado  da  coroa  passou  para  o  das  quinas. 

O  segundo  meio  real  de  que  vamos  fallar  é  realmente  exquisilo. 
Nenhuma  das  duas  legendas  principia  ao  alto  da  moeda,  logar  que 
n'esla  devia  ser  indicado  pela  posição  da  coroa  ou  das  quinas.  A  le- 
genda do  reverso  varia  mniio,  e  está  imperfeita,  notando-se  que  o  a 
de  ADJVTORIVM  está  voltado,  como  se  vê  na  est.  xv,  fig.  7. 

»í<alfonq:uintvs  :  reis-,  p.  —  a  coroa,  o  a  e  o  l 
com  a  disposição  do  n.°  anterior. 

l"^.  V  D  J  \'  T  o  R  I  V  M  :    D  N  Q  :   Q  V  I  F  E  C  I  T  :  C  E  L  .  —  As 

quinas  porluguezas.  Peza  20  grãos. —  Meio  real  ou  chimfram. 

O  terceiro  exemplar  c  um  lypo  completamente  novo,  tem  o  nome 


136  REVISTA  ARCIIEOLOGICA 

do  monarcha  nas  duas  legendas,  e  por  isso  dissemos  que  podia  ler  o 
mesmo  anverso  do  meio  real  desciipto  pelo  sr.  Aragão. 

Está  peiltíita  a  impressão  do  cunho,  est.  xv,  fig,  8. 

^ALFONSVS;  QViNTi:  REGlSiPOR.  —  As  qui- 
nas porluguezas. 

^.  >í<  A  L  F  O  N  s  V  s  :  Q  V  I  N  T  I  :  REIS  ;  p  O  R  T  .  —  Gran- 
de coroa  por  cima  dum  a,  que  lem  um  annel  de  cada  lado,  e  por 
baixo  um  l  indicativo  da  fabrica  (Lisboa  i.  Peza  ^6  grãos.  Meio  real  ou 
chimfvam. 

O  lacto  do  nome  do  monarcha  estar  repetido  nas  duas  legendas  e 
estas  não  serem  eguaes,  porque  uma  tem  regis  por  ea  outra 
REIS  P  o  R  T ,  auctorisa-nos  a  a[)resentar  a  moeda  como  um  novo 
cunho,  e,  segundo  julgamos,  até  aqui  desconhecido. 

(Conlinua).  M.  Alexandre  de  Sousa. 


TRÊS  MONUMENTOS  EPIGRAFICOS 
D^ELVAS,  E  DO  SEU  TERMO 

(Resposta  a  um  artigo  auoiijmo) 

Em  0  n."  677  do  periódico  O  Elvense,  de  28  de  julho  ultimo,  foi 
publicado  um  artigo,  para  que  chamaram  ha  poucos  dias  a  minha  at- 
tenção. 

Nesse  artigo,  referindo-se  o  auctor  anonymo  aos  monumentos  d'El- 
vas  que  descrevi  a  pag.  97  da  Revista,  aCíirma  que  o  sr.  Francisco 
Raphael  da  Paz  Furtado  não  foi  o  descobridor  das  três  lapides^  como 
eu  notei,  e  que  ellas  não  eram  inéditas  em  Portugal. 

A  estas  asserções,  respondo  com  as  seguintes  palavras  da  carta 
que  aquelle  meu  amigo  me  dirigiu  em  5  de  julho  de  I88G,  envian- 
do-me  as  copias  das  inscripções:  —  «Permitta-me  V.  que  eu  lhe  offe- 
reça  a  copia  de  três  lapidas  inéditas  |)oi'  mim  descobertas  em  Elvas 
quando  alli  residi,  e  das  quaes  dei  conhecimento  a  Mr.  liubner.»  — A 
estas  palavras  accrescentarei  as  seguintes: 

Asseverando  o  sr.  Paz  Furtado  ter  descoberto  as  lapides,  e  não 
tendo  o  artigo  do  Elvense  assignatura  alguma  que  o  abone,  continuo  a 
considerar  o  sr.  Paz  Furtado  como  descobridor  delias,  emquanto  se 
não  demonstrar  o  contrario. 

Quanto  a  considerar  as  lai)ides  meditas  em  Portugal,  foi  isso  de- 
vido á  indicação  dada  (como  se  acaba  de  ver)  pelo  sr.  Paz  Furtado, 
que  decerto  ignorava,  como  eu,  que  ellas  haviam  apparccido  no  perió- 
dico O  Elvense  de  25  de  dezembi"o  de  1880  e  no  de  23  de  janeiro  de 
1881,  segundo  se  diz  no  artigo.  O  auctor  anonyino  devia  rellcctir  em 
que  eu  não  tinha  obrigação  de  conhecer  O  Elvense,  nem  os  seus  artigos. 


E  HISTÓRICA  137 


No  qiití  respeila  ;i  dizer  so  iio  arliiío  (|ii():  —  «Manda  a  verdade  en- 
Irelaiilo  (iiir  se  di-ça,  (jiie  Ibi  o  sr.  l'a/-  Furtado  (|iiimii  ohltive  do  sr. 
Iliibiier,  dislincLoarcheologo  priissiaiio,  a  coiii[)lecla  dccilVarão  (raijuel- 
las  iiiscriprões»,— lenho  a  responder  que  a  inlerprela(;âo  das  Ires  lapi- 
des de  que  se  Irada  é  Ião  fácil,  que  não  precisei  de  auxilio  alheio  para 
iiitendel-as  e  explical-as.  Só  (piem  ignora  os  mais  simples  elementos 
de  epigra[)liia,  como  parece  ignorai  os  o  auclor  do  artigo,  é  que  po- 
deria deixar  de  ler  a(piellas  inscii|)cões. 

Tenho  ainda  a  lemhrar  ao  articulista  (jue  o  signatário  d"eslas  li- 
nhas não  é  o  único  |)roprietario  e  redactor  da  presente  Revista,  mas 
que  tem  por  collega  o  distincto  numismata  sr.  M.  Alexandre  de  Sousa, 
o  que  lhe  esíjueccMi  mencionar  apezar  de  ser  tão  amante  da  verdade. 
E  por  ultimo  observo-llie  (lue  os  artigos  anonymos  não  se  admittem 
em  questões  scientiíicas,  nem  teem  fé  para  a  reivindicação  de  qual- 
quer direito  ou  i)rioridade. 

Borges  de  Figueiredo. 

VISITAÇÃO  Á  EGUEJA  DE  8.  JOÃO  DO  MOCHARRO 

D'OBIDOS 

por  D.  Jonje  da  Cosia,  em  14  de  fevereiro  de  li67 

(Continuado  de  pag.  121) 

como  ssc  am  de  rreparlir  os  anniiicrsairos  ou  benesse  drjuetles  que  pre- 
sente esta  (sic)  aníe  três  dias 

13  Item  achamos  (jue  alguuns  beneíiciados  das  dietas  igreias  da 
dieta  cidade  e  arcebispado  nom  embargando  que  moradores  seiam  nos 
lugares  onde  teem  seus  benefícios  sam  tanto  nigligentes  no  seruiço  de 
deus  que  poucas  vezes  vaam  as  dietas  igreias  onde  assy  som  benefi- 
(jiados  e  ipierem  leuar  os  fructos  de  seus  benefícios  assy  como  sse 
conthiiiiiadamente  seruissem  e  o  pior  i\w  lie  que  som  bem  dilligentes 
aas  dietas  igreias  nos  dias  em  que  hy  ha  benesses  ou  aniuersarios  e 
leuam  suas  paites  em  detrimento  daíjuelles  que  comtiniiadamente  bem 
seruem  e  porque  nom  conuem  a  razam  e  dereyto  (jue  aquelles  que 
mall  seruem  alam  de  seer  higuaaes  na  repartiçam  de  premio  de  seu 
seruiço  maao  aipielles  que  bem  seruem,  mandamos  a  nos  que  façaaes 
guardar  a  constitiiiçam  do  cardeall  (pie  sse  começa  causatur  e  quanto 
he  aos  nauersarios  e  benesses  mandamos  ao  prioste  da  dieta  igreia 
que  os  nom  de  {sic)  saluo  aa(]uelles  que  per  três  dias  ante  do  nauersario 
ou  benesse  e  per  três  dias  depois  vieerem  as  dietas  igreias  e  a  outras 
oras  ca/íonicas  e  o  que  esstes  perderem  aiam  aquelles  que  forem  pre- 
sentes aos  dictos  nauersarios  e  benesses  e  esto  meesmo  se  guarde  nos 
consales  {sic)  que  ho  aiam  os  que  presentes  esteuerem  e  fazendo  o 
prioste  ho  contrairo  queremos  que  iaça  dous  messes  em  nosso  aliube 


138  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

fazendo  pendença  de  sua  pouca  obediência  e  o  beneficiado  que  algu- 
ma cousa  leuar  do  que  diclo  he  lornaiiho  ha  em  tresdobro. 

('()///()  ham  ih'  fazer  liuum  liiiro  de  tombo  de  todollos  beens  da  egreia. 

14  liem  achamos  (jue  por  nigligençia  e  maao  aazo  dos  reylores  e 
beneficiados  das  higreias  as  possissoonos  e  beens  delias  s.se  danificam 
e  vaam  cada  dia  ai)erder  por  nom  seerem  por  elles  requiridos  da 
(juall  cousa  ssegne  ditrimento  do  culto  diuino  que  destruído  ho  ten- 
porall  mall  sse  repairara  e  podeia  manleer  ho  espirituall,  porem  uos 
mandamos  tjue  do  dia  desta  visitaçam  atee  huum  atmo  façaaes  fazer 
huum  liuro  de  prugaminho  e  escrepuer  em  eile  todallas  possisooes  e 
erdamentos  de  (jnallquer  maneira  que  seiam  que  a  dieta  vossa  igreia 
pertenceerem  desinando  os  lugares  onde  cstam  e  as  confi'ontaçõees 
com  quem  partem  e  aquelias  perssoas  que  os  trazem  e  por  quantos 
preços  e  fazee  bem  guardar  ho  dicto  liuro  pêra  uos  per  elle  regerdes 
em  uossas  vidas  e  os  que  despos  vos  vierem  acharam  rrecadaçam  per 
onde  possam  saber  as  possissões  e  eredamentos  da  dieta  igreia  e 
ahinda  que  bem  sseia  fazersse  o  dicto  liuro  como  dicto  he  per  os  di- 
ctos  beens  e  erdamentos  seerem  aproueytados  e  nom  sse  danificarem 
por  negligencia,  mandamos  uos  que  uos  e  huum  beneficiado  per  seu 
anuo  visitees  as  dietas  possisotjes  e  erdamentos  e  os  façaaes  correger 
e  rrepayrar  per  tall  guisa  que  seiam  melhorados  e  nom  peiorados,  e 
mandamos  ao  beneficiado  que  uos  rrequirirdes  que  vaa  comuosco  e 
nom  se  scusse  sob  pena  de  duzentos  reaes  brancos  e  vaa  cada  huum 
seu  anuo  como  diclo  he  por  todos  saberem  as  dietas  possisooes  e  er- 
damentos e  seendo  uos  gcerqua  dello  nigligentes  queremos  que  por 
cada  vez  que  nom  fezerdes  a  ssuso  dieta  visitaçam  pagues  mill  reaes 
brancos  e  esso  mesmo  uos  mandamos  que  façaaes  escrepuer  todollos 
beens  e  eherdamentos  (s/c)  das  capellas  edificadas  em  vossa  igreia  de- 
sinando os  lugares  e  confrontações  como  suso  diclo  he  posto  que  na 
ministraçam  delias  nom  pertença  a  uos  e  seinm  postos  os  dictos  beens 
e  erdamentos  no  dicto  liuro  pêra  sse  nom  aelhearem  o  que  fazee  sob 
a  dieta  pena  a  quall  uos  nom  será  quite  ffazendo  uos  o  contrayro. 

como  ham  de  fazer  duas  chaues  darra  das  escriptnras 

lõ  Item  achamos  que  em  muitas  igreias  da  dieta  cidade  e  arce- 
bispado nom  ha  arca  commua  em  que  suas  escriptnras  possam  ser 
gardadas  e  assy  cada  huum  beneficiado  leua  pêra  sua  casa  as  dietas 
escritui"as  como  lhes  apraz  e  nunca  as  mais  traz  nem  torna  e  per- 
denssem  (sic)  e  i)or  tall  aazo  as  diclas  igreias  perdem  seus  direitos  e 
querendo  nos  a  esto  rremediar,  mandamos  a  uos  e  a  vossos  beneficia- 
dos que  doie  atee  huum  anuo  ponhaaes  em  a  dieta  igreia  huma  boa 
arca  bem  rrija  e  forte  com  duas  fechaduras  e  teende  uos  huma  chaue 
e  o  mais  antigo  beneficiado  outra  per  tall  maneira  que  uos  nom  abraaes 
sscm  elle  nem  elle  ssem  uos  a  dieta  arca  e  metede  nella  todallas 
escriptnras  que  pertencerem  aa  dieta  igreia  e  di  si  {sic)  nom  seiam  ti- 
radas sse  nam  quando  íTor  necesario  e  acabado  lio  huso  pêra  que  fo- 


K    HISTÓRICA 


131» 


rein  tiradas  mandamos  nos  que  logo  ateo  x  dias  selam  tornadas  a  di- 
eta arca  onde  estauam  e  nom  as  tornando  atee  os  dictos  x  dias  que 
lios  damos  por  Ires  amostaçõoes  e  teimo  preciso  em  estes  escriptos 
poemos  em  nos  sentenra  de  excommnnliom  na  qiiall  rpieremos  que 
cmcorraaes  [)assado  lio  (lido  tempo  sse  lio  contrayro  íezerdes  e  nom 
poendo  a  dieta  arca  como  per  nos  he  mandado  (|ii(3remos  qn<í  por  pe- 
na pagues  mill  ireaes  brancos  o  quanto  lie  as  igreias  de  Tora  posto 
que  o  [irior  ou  rreytor  as  tenha  em  sua  casa  em  arqiia  sobre  ssy  que 
doutra  consa  nom  se  na  (sic). 

como  tioui  (ini  df  niiiUiv  na  cgrem 

Kl  Item  achamos  per  enformaçam  de  muitos  rreytores  e  benefi- 
ciados que  allguims  xpãaos  muytas  vezes  prometem  romarias  e  vigil- 
lias  a  algumas  igreias  e  lugares  religiosos  por  seerem  ante  deus  ou- 
uidos  por  algumas  peticõees  que  fazem  pellos  rogos  dos  santos  em 
cuias  igi-eias  e  lugares  fazem  as  dietas  romarias  e  vigillias  e  nom  es- 
guardando  elles  em  como  as  igreias  e  lugares  religiosos  som  fetos 
pcra  em  elles  ouuir  orar  e  pidirmos  em  elles  deuotamente  ao  senhor 
deus  que  ouça  nossas  peticõees  e  nos  outorgue  ho  que  lhe  pidimos 
que  seia  seu  seriiiço  e  saliiacam  das  nossas  almas  e  em  taaees  roma- 
rias e  vigílias  cantam  dentro  nas  dietas  igreias  cantigas  mundanaaes 
e  de  muytas  vaydades  aas  qiiaes  nom  conuem  pêra  taaes  lugares  e 
saltam  e  balliam  e  fazem  iogos  desonestos  os  quaes  pouco  vee  a  pre- 
posílo  per  que  as  dietas  vigilias  e  romarias  prometeram  e  por  que 
taaes  romarias  e  vigilias  sam  liofensas  de  deus  e  ditrimento  da  rreli- 
giam  xpãa,  mandamos  e  defendemos  aos  nossos  fregnezes  sob  pena 
de  excomunliom  que  eesem  de  fazer  em  as  dietas  igreias  e  lugares 
taaes  romarias  festas  e  vigillias  e  nom  cantem  nem  balhem  nem  fa- 
çam iogos  desonestos  como  dieto  he  e  fazendo  ho  contrayro  manda- 
mos aas  (sic)  curas  que  lhe  publiquem  este  capitulo  evitem  por  es- 
commungados  e  sse  algiiuns  quizerem  fazer  vigilias  e  rromarias  nos 
dictos  lugares  nom  lho  defendemos  fazendoas  assy  como  deus  quer 
com  humildade  e  sillençio  e  denota  oracani  e  conçiençia  linpa  e  assy 
empetraram  de  deus  ho  que  lhe  dereytamente  demandarem  e  sse  al- 
guum  for  nigligente  a  pubricar  e  os  avitar  {sio  pague  por  cada  vez 
çem  rreaes  pêra  a  nossa  chancelaria. 

dos  fetiçeirns  c  deuinhadeiros 

17  Item  por  quanto  achamos  ([ue  os  feytiçeyros  e  diuinhadeiros 
escantadores  beenzedeyros  egoyreyros  e  sorteyros  sam  escumungados 
pella  constiíuiçam  sinodall  mandamosuos  sob  pena  de  excumunhom 
que  denuncies  e  |)rouiquees  por  escomungados  aquelles  e  aqiiellas  que 
notoriamente  em  vossa  IVeguisia  de  taaes  artes  husarem  per  tantas 
vezes  atee  que  conheçam  seu  pecado  e  ssciam  dignos  de  beneficio  de 
absoluçom  e  de  seerem  restituydos  a  partic/paçam  dos  fiíees. 

como  ham  de  fazer  priostc  bcne/içiado  >'  nom  leigo 

18  Item  mandamos  gecralmente  em  todo  nosso  arcebispado  que 


140  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

façam  priosles  beneficiados  em  suas  igreias  ou  Iiiçonimo  {sicj  ssc  ho 
elles  euleger  quizei-em  sob  pena  de  mill  rreaes  pêra  nossa  chancelaria 
e  que  este  priosle  lenha  carrego  de  re(]uerer  todollos  íi'uclos  e  de- 
mandallos  da  dieta  ígreia  que  andarem  presente  ho  vigairo  e  que  a 
custa  de  todos  se  contentem  os  escripuãaes  e  procuradores  e  que 
este  meesmo  tenha  carrego  de  reíjue/Trem  todallas  cousas  da  dieta 
igreia  e  cousas  (pie  sentir  por  honrra  e  proueyto  delia  sob  pena  de 
pagar  em  dobro  (jualipier  cousa  (pie  sse  aa  sua  mingoa  perder  e  sob 
a  (Jicta  pena  mandamos  que  ffaçam  thesoureiro  crehgo  ao  menos  de 
hordeens  memores. 

como  sam  com  ií idos  os  casos  pontificaces  a  prior  e  vigairo 

19  Item  cometemos  os  casos  pontificaaes  aos  i)riores  vigairos  ra- 
çoeyros  e  capellãaes  de  cura  sahio  sete  acostumados  nas  cartas  de 
cura.  a  saber.  Iiomiçidio  voluntário  fora  de  guerra  comitido,  e  auer 
alheo  sobnegado  que  passe  de  çem  rreaes,  inceudiio,  sacrilegiio,  per- 
cussam  de  creligo  em  que  nom  aia  norme  eleisom  {sic),  e  dizimas 
iiom  paguadas  onde  deuer  e  excumunhom  maior  os  quaes  resaruamos 
pêra  nos  ou  pêra  quem  nosso  lugar  teuer. 

qm  sayam  sobre  os  finados 

W  Item  mandamos  que  todallas  segundas  fieiras  ou  domingos 
saiam  sobre  os  finados  darredor  da  igreia  com  cruz  e  augoa  benta  se- 
gundo custume  antiigo  sob  pena  de  xx  reaes  pêra  o  meyrinho  e  sse 
aa  segunda  fieira  for  ffesta  sayam  outro  dia  da  somana  em  guisa  que 
nom  falleçam. 

que  nom.  arrendem  seus  benefimos 

21  Item  porquanto  achamos  que  muytos  beneficiados  do  dicto  nos- 
so arcebispado  arrendaiiam  seus  benefícios  e  sse  hiam  onde  lhes  apra- 
zia deixando  suas  igreias  e  freguisias  soos  o  que  nom  auemos  por 
bem  fecto,  porém  mandamos  que  nenhuum  dos  sobredictos  nom  a  ren- 
dem sseu  beneficiio  sem  nossa  licença  ou  de  quem  nosso  lugar  teuer 
e  sse  for  prior  ou  vigairo  ho  que  ho  contrairo  fezer  por  cada  vez  pa- 
gue mil  ireaes  pêra  nossa  chancelaria  e  o  ra(;oeiro  iii'  reaes. 

({ue  nom  façam  contraulos  infiiioticos 

22  Item  geerallmente  mandamos  em  todo  nosso  arcebispado  que 
os  beneficiados  das  igreias  delle  nom  façam  contrautos  iníitioticos  dos 
beens  e  erdades  delias  sem  primeiro  andarem  em  pregam  pellas  pra- 
ças e  lugares  pubricos  per  esi)aço  de  xx  dias  os  quaaes  acabados  aiam 
licença  e  autoridade  nossa  ou  de  quem  nosso  lugar  teuer  e  esta  li- 
cença preceda  e  seia  primeiro  fecta  que  os  estromentos  (|ue  sse  aj^o- 
ra  acustumain  a  fazer  pellos  beens  e  ffazendo  o  contrairo  pague  cada 
huum  beneficiado  mill  rreaes  e  que  lall  contrauto  nom  sseia  nenhuum. 

qui'  nom  arrendem  qiiinlaacs 

2H  Item  sob  a  dieta  pena  mandamos  aos  sobre  dictos  que  nom  ar- 
rendem (juintaaes,  herdades  nem  possisõoees  da  dieta  igreia  de  dous 
annos  pêra  cima  sem  primeiramente  andarem  em  pregam  pellas  pra- 


E   HISTÓRICA  14i 


ças  e  lugares  piibricos  per  espaço  de  xh  dias  os  qnaes  acabados  os 
arrendem  a  (iiieiii  lhes  por  elles  mais  (l(;r. 

qufí  nom  acnihnii  aos  (insciitcs  ann  se/is  hcitv/iciios 

24  Item  mandamos  gíseralmenle  em  lodo  nosso  arcebispado  que 
nom  acudam  aos  abzenles  sob  pena  de  excnmnnhom  com  os  fruclos 
de  seus  beneíiçios  poslo  (|ue  digam  (jne  sam  priuilegiados  e  que  per 
bem  de  seus  pri^í/legios  os  denem  ain.T,  amenos  de  nos  nom  nermos 
seus  pri?<degi()s  e  anerem  caria  de  nos  oii  alguum  mandado  pêra  ello. 

que  canlfiu  as  oras  aponladanwale 

20  Item  mandamos  (jiie  cantem  as  oras  apontadamente  e  ssem 
arrnído  e  que  tenham  a  ellas  sobri[)illizas  sob  pena  de  paguarem  de 
cada  huma  vez  (jue  na  [sic)  nom  teuerem  xx  rreaes  pêra  o  meyrinho. 

fjue  fioiíi  vaão  aos  tloniii/f/os  fora 

20  Item  pon|uaiito  achamos  que  os  sobre  dictos  leixauam  suas 
igreias  aoos  domingos  e  Ifestas  e  hiam  dizer  missas  fora  onde  lhes 
aprazia  mandamos  a  quall  quer  beneíiçiado  que  nos  dictos  for  dizer 
missa  fora  e  leixar  sua  igreia  soo  por  cada  huma  vez  pague  P  rreaes 
pêra  nossa  chancelaria  salno  hindo  alguma  capella  da  dieta  igreia  que 
seia  obrigado. 

como  o  benefiçiiado  nom  dixer  misa  page  cincoenla  réis 

27  Item  achamos  que  no  dicto  arcebispado  avia  algumas  igreias 
em  que  sse  nom  diziam  as  missas  aos  domingos  e  dias  das  somanas 
segundo  costume  e  que  sse  auiam  de  dizer,  mandamos  que  qualquer 
creligo  ou  beneficiado  qne  domairo  (sic)  Ifor  e  ei^rar  de  dizer  missa  no 
domingo  que  pague  I'*  reaes  e  por  cada  dia  da  somana  xxx  pêra  as 
obras  piedosas. 

que  nom  façam,  saymenlos  ao  domingo  nem  festa 

28  Item  geerallmente  mandamos  em  todo  nosso  arcebispado  que 
nom  façam  saimentos  aos  domingos  e  festas  pellas  manhaas  nas  igreias 
delles  por  quanto  (jue  por  os  saimentos  sse  assy  fazerem  nos  dictos 
dias  se  estornavam  os  diuinos  oíliçios  em  suas  igreias  e  sse  nom  fa- 
ziam como  diuiam  e  fazendo  ho  contrairo  por  cada  vez  paguem  i' 
reaes  pêra  as  obras  piadosas  e  esto  sse  nom  emlenda  nas  igreias  de 
fora  onde  nom  ha  ssenam  hunm  soo  capellam. 

que  nom  tomem  nenhuum  judeu  em  sua  casa  pêra  seer  xpãaos  (sic) 
ataa  tempo  certo 

29  Item  porquanto  alguuns  xpãaos  cuydando  qne  ÍTazem  alguum 
grande  seruíço  do  deus  tomam  em  suas  casas  alguniis  indeus  e  mou- 
ros assy  homens  como  molheres  e  logo  como  dizem  que  (|uerem  sseer 
xpãaos  sem  mais  sserem  catezizados  nem  sem  outra  licença  nem  dili- 
beraçam  de  tempo  os  fazem  bautizar  ou  os  baptizam  {sic)  e  depois  per 
tenpos  ia  sse  muitas  vezes  aconteçeeo  que  foram  a  castella  e  a  outros 
reynos  e  sse  íornanam  aa  ley  de  qne  dantes  eram  em  que  he  pouco 
seruiço  de  deus  e  vitupério  da  santa  Ife  calollica  e  menospreço  do 
santo  sacramento  do  baptismo  e  grande  prazer  a  todos  os  daqueila 


442  REVISTA  ARCUEOLOGICA 

ley  que  dello  sam  sabedores,  porém  querendo  nos  ouuiar  e  tornar  re- 
médio n  tanto  malleemfamia  mandamos  aos  priores  das  igreias  de  todo 
nosso  arcebispado  vigairos  perpétuos  capellãaes  e  beneficiados  delle 
em  virtude  de  obediência  e  sob  pena  de  excumunhom  que  daqui  em 
diante  nom  baptizem  nem  consintam  bautizar  a  alguuns  dos  dictos  in- 
íiees  a  menos  de  ssee rem  cerlos  que  esteuei"am  dias  com  alguum 
xpãao  que  os  ensinasse  os  artigos  da  nossa  santa  íTe  calollica  e  as 
asperezas  delia,  e  quando  persistir  em  sua  boa  temçam  e  todavia  dí- 
ser  que  quer  sseer  xpãao  com  maior  honra  e  solemnidaí/í"  que  seer 
possa  sem  outra  conidigam  ou  caulclla  sseia  fecto  xpãao  por  que  a 
houelha  que  era  perdida  toirnousse  ao  currall. 

como  forem  dous  no  coro  deuem  de  rrezar 

30  Item  mandamos  aos  priores  e  beneficiados  de  todallas  igreias 
que  tanto  que  dous  delles  forem  iuntos  no  coro  pêra  as  matinas  logo 
anbos  comecem  a.s  oras  de  santa  maiia  e  os  outras  que  depois  vie- 
rem conlliinuem  com  elles  sem  mais  tomar  outras  atee  que  as  dietas 
horas  de  santa  maria  sseiam  de  todo  acabadas  e  as  matinas  do  dia  e 
assy  as  vésperas  e  que  rezem  todos  iuntos  e  nom  cada  huum  per  ssy 
apartado  e  bem  apontado  ssem  nenluium  delles  pairrar  nem  fazer 
ieyto  nem  esguar  que  ffaça  aos  outros  toruaçam  nem  passear  per  o 
coro  emquanlo  as  oras  durarem  e  esto  lhes  mandamos  que  cumpram 
assy  sob  pena  descumunhora. 

como  os  priuilcgiados  am  de  leuar  seus  benefícios 

Hl  Item  achamos  que  alguuns  beneficiados  presentes  de  alguumas 
igreias  sse  agrauauam  dizendo  que  os  absentes  priuilcgiados  levauam 
ho  frntlo  dogrosso  de  sseus  benefícios  e  nom  lhe  paguauam  os  cus- 
tos de  que  ho  prioste  rreçebe  grande  perda,  porem  querendo  nos  a 
ello  proueer  mandamos  que  qualquer  prioste  de  cada  huma  igreia  da 
dieta  cidade  e  arcebispado  que  assy  como  teuer  os  fruttos  e  rrendas 
da  dieta  igreia  pêra  partir  anlre  os  beneficiados  assy  lho  rrequeyra 
antee  biii°  dias  os  custos  que  aa  dieta  riepartiçam  peitencer  e  quall 
quer  delles  que  paguar  nom  quiser,  mandamos  que  tome  tantos  dos 
fructos  da  dieta  rrepartiçam  e  os  venda  logo  per  que  possa  seer  en- 
ti'egue  dos  custos  que  nella  fezer  e  mais  nom  e  assy  nas  outras  re- 
partições atee  que  todo  sseja  entregue  do  (pie  por  cada  huum  uender. 

titulo  dos  creiigos  que  sse  nom  faliam. 

32  Item  porquanto  achamos  que  cm  algumas  igreias  alguuns  be- 
neficiados (loordens  sacras  e  ainda  sacerdotes  de  missa  que  sse  nom 
fallauam  huuns  com  os  outros  e  çelebrauam  missas  coin  grande  can- 
rrego  de  suas  conçiençias  e  querendo  nos  a  ello  proueer  como  somos 
th?'udo  por  saluaçam  de  suas  almas  mandamos  ao  prior  e  Ihesourciro 
daquella  igreia  e  de  quall  (|uer  igr(!ia  da  dieta  cidade  e  arcebispado 
que  aos  sacerdotes  (jue  sse  nom  fallarem  nom  dein  vestimenta  i)era 
dizerem  missas  na  dieta  igreia  atee  que  nom  seiain  reconciliados  e  sse 
lha  ho  prior  der  pague  1'  rreaes  pêro  {sic)  ho  cepo  de  sam  vicente  e 


E   HISTÓRICA  143 


O  thesonreiro  1"  peia  o  dito  cv\ío  e  innis  seia  preso  no  alinhe  e  lio  (jue 
iiom  íínr  de  missa  assy  Ijciieliçiado  como  liicoiiimo  mandamos  ao  [)rios- 
le  que  lhe  nom  acuda  com  os  IViiclos  tio  suu  heneliçio  oii  hicouimia 
aatee  que  primeiramente  nom  seia  rreconciliado. 

liliiln  das  missas  ih  is  cnjirllas 

.'i-l  liem  niaudamos  ao  piior  e  priosle  da  dicla  igreia  sob  i)ena  de 
excommiliom  (pit;  se  as  missas  das  ca[)ellas  nom  Inrem  cantadas  em 
cada  liuum  anno  per  aijuelles  que  thiudos  sam  atee  dia  de  sam  ioham 
hpatista  (sic)  que  aíjueilas  missas  que  a  cada  huum  ficarem  por  dizer 
(jue  as  dem  a  cantar  aos  que  as  suas  acahadas  teuerem  e  sse  as  es- 
tes nom  poderem  cantai-  antes  do  dicto  dia  de  sam  ioham  que  emtam 
l)us(|ne  outros  ci-eligos  de  fora  que  as  cantem  em  tal  guisa  que  atee 
ho  dicto  dia  de  sam  ioham  h[tatisla  seiam  acahadas  de  cantar. 

dos  harregiieiros 

H4  Item  mandamos  ao  prior  e  capellam  de  cura  da  dieta  igreia 
que  evitem  tbi-a  delia  todollos  harregueyros  puhricos  casados  sse  sse 
do  dicto  pecado  tirar  nom  quiserem  e  hisso  meesmo  os  solteyros  que 
esteiierem  com  as  solteyras  sse  as  nom  uieerem  reçeher  aa  porta  da 
igreia  de  presente  segundo  ITorma  de  seus  mandamentos. 

dos  que  som  casados  callaihmente 

S5  Item  lhe  mandamos  que  se  alguuns  seus  fregueses  teuerem  al- 
guuns  casamentos  clandestinos  de  que  elle.s'  saiham  parte  sse  sse  nom 
quis(!rem  a  porta  da  igreia  rreceber  de  presente  segundo  forma  que 
os  euitem  pello  modo  sobredicto. 

como  o  priosle  nom  deue  de  entregaar  os  fructos  aos  bencfiçiiados. 

HG  Item  porquanto  achamos  per  as  visitações  antiigas  que  muytas 
vezes  mandanam  aos  priostes  que  nom  emtreguassem  certos  fructos  e 
dinheiros  ao  prior  e  beneficiados  das  igreias  atee  seerem  compridas 
algumas  cousas  que  os  diclos  visitadores  mandauam  fazer  em  ellas  e 
por  os  priores  nom  saberem  parte  nem  noticia  de  taaes  defessas  e 
mandados,  entreguauam  lodo  aos  dictos  beneficiados  e  assy  se  não  com- 
priam  as  cousas  das  dietas  visitaçooees,  porem  geerallmente  manda- 
mos a  todollos  priores  e  vigairos  e  beneficiados  do  dicto  nosso  arce- 
bispado que  tanto  que  fezerem  seus  priostes  de  hy  a  oyto  dias  lhe 
leam  esta  nossa  uisitaçam  pêra  saberem  e  seerem  certos  do  que  lhes 
per  nos  he  mandado  ou  per  nossos  visitadores  e  esso  meesmo  lhes 
mandamos  (jue  cada  dia  leam  ante  ssy  huum  capitulo  antre  a  primei- 
ra e  a  terça  e  esto  sob  pena  de  duzentos  rreaes  pêra  a  nossa  chan- 
celaria e  a  oferta  aos  leygos  huum  capitulo  cada  dommgo  começando 
do  primeiro  atee  as  visitaçoões  seer  acai)adas. 

titulo  da  esmolla  de  sam  vicente 

H7  Item  consirando  nos  em  como  em  todallas  igreias  deste  arce- 
bispado sam  postos  mem[)Osteiros  pêra  i)idirem  esmollas  pêra  aal- 
guuns  horagos  recebendoas  daípiellas  persoas  que  per  sua  deuaçam 
lhas  (juerem  dar  sem  alguum  constrangimento  e  veendo  como  ho  cor- 


144  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

po  e  rreliquias  do  glorisimo  (sic)  mártir  sam  vicente  sam  na  ígreia 
melropolilana  da  inuy  nobre  e  senpre  liall  cidade  de  lixboa  com  tanta 
sollemuidade  neuerencia  e  denaçam  (|iie  outros  sse  nom  acham  seme- 
llianles  nas  espanlias  por  lio/n'a  e  lonnor  de  dens  prinçipallmente  por 
seriiiço  e  aiuda  e  pellas  obras  mny  grandes  qne  se  cada  dia  rrecre- 
çem  na  capella  do  dicto  mártir,  mandamos  a  todollos  priores  vigairos 
e  beneficiados  e  persoas  ecclesiasticas  a  (pie  esto  pertencer  qne  cada 
Imnm  em  sua  igreia  líaça  humn  muon[)oslero  que  peça  aos  íiees  xpaãos 
peras  dietas  obras  e  aleem  do  que  elles  merecerem  ante  deus  por 
taaes  esmollas  fazerem  nos  lhe  outorgamos  dos  thesoui"os  que  nos  on- 
torga  a  ssanta  madre  igreia  coreenta  dias  de  perdam  por  cada  ves 
que  taaes  esmollas  fezerdes  aas  quacs  esmollas  recebera  linnm  dos 
abonados  e  boons  homeens  que  ouuer  na  dieta  íreguisia  das  maaos 
dos  dictos  mauposteros  e  escrepnera  todo  o  qne  i-render  o  prior  ou 
capeIJam  qne  seu  carrego  teuer  e  sseram  leuados  os  dictos  dinheiros 
destas  esmollas  aos  recebedores  que  hora  poeemos  nas  villas  dos  di- 
nheiros das  obras  piadosas  e  esciepuello  am  e  emtreguemno  presente 
ho  escripuam. 

os  qne  nom  ieiuarem  a  véspera  de  sam  vicente 

S8  Item  porque  achamos  que  alguuns  por  nam  ieiuarem  as  vés- 
peras a  sam  vicente  andauam  muyto  tempo  escumungados  por  nom 
podeiem  bir  nos  buscar  asoluiçam  e  proueendo  nos  a  ello  cometemos 
aos  priores  e  curas  das  igreias  do  nosso  aiçe bispado  que  possam  ab- 
soluer  os  que  nom  ieiuai-em  as  dietas  festas  dandollies  por  ello  as 
pendençns  acustumadas  que  sam  de  cada  huma  dous  reaes  pêra  o  di- 
cto cepo  as  qnaes  lhe  mandamos  em  virtude  de  obediência  e  sob  pe- 
na de  excumunhom  que  rrecadem  e  mandem  aos  rrecadadores  que 
possermos  nas  vigairias  os  qnaes  teenram  escripuães  do  que  recebe- 
rem pêra  as  cousas  piadosas  pêra  seerem  leuadas  ao  dicto  cepo. 

que  nom  seia  iconimo  ssenom.  creligo  de  missa 

39  Item  geeralmente  mandamos  em  todo  nosse  arcebispado  que 
nom  seia  hicouimo  alguimi  em  igreia  delle  senam  creligo  de  missa 
per  nossa  carta  espiçiall  por  alguuns  embargos  que  achamos  (jue  sse 
fazem  simonias  e  conluyos  em  ellas. 

que  nom  serua  huum  rreligo  ssoomente  dous  benefiçiios 

40  Item  mandamos  a  quail(]uer  qne  for  beneficiado  em  duas  igreias 
que  em  huma  somana  serna  em  huma  conthinur/damente  a  todallas 
horas  e  delia  aia  os  beneses  e  aniuersarios  e  (la(|nella  que  nom  ser- 
uir  os  nom  Iene  e  assy  Iene  a  oulra  (juando  seruir  o  (jual  queremos 
que  se  entenda  geerallmente  em  todo  nosso  aiçebispado. 

(Continm.) 


E  HISTÓRICA  143 


o  PlíJ.MKIKO  A\l('UVrVA'TO  DE  ODIVELLAS 

Diz  fr.  Fr;mci,sco  niniidrio.  íiihiiido  (l,'i  (mIíIícíiçHo  do  mosteiro  de 
S.  Dinis  ou  dl'  Santa  Mana  de  Odicdlas  ((jue  de  atnbas  as  maneiras 
se  etiionlra  nomeado  em  escriplores  e  dociimenlos)  que,  a  folhas  11 
do  Livro  seLfiitido  de  leslamoiilos  c  capellas,  no  cartório  da  Sé  de  Lis- 
boa, acliáia  "iioiiieado  poi-  leslcmiiiilia  da  escritiiia  ónie  o  Cabido  lez 
de  biima  capella  a  IJarhtlaiiicii  Aiines,  (jdadar>  (b;  Lisboa)  Afonso  Mar- 
tins, mestre  da  obia  de  udiveHas»  '.  O  documento  tinha  a  data  de 
i324. 

Na  Lisla  dnhjnns  nrlisfas...  feita  pelo  cardeal  Saraiva  (l\itriar- 
clia  D.  Francisco  de  S.  I^uis)  vem  mencionado  Ailonso  Martins  como 
archileclo  de  Odivellas.  na  íe  da  tianscripla  passagem  de  Brandão;  e 
no  seu  Diclioniiaiir  artisiiqtw  da  1'oinajaL  o  conde  A.  de  liaczynski 
acompanha  o  cardeal  o  por  consequência  Brandão.  O  cardeal  Palriar- 
cba  seguiu  o  consciencioso  chronista:  nem  podia  deixar  de  fazei -o, 
visto  não  se  encontrar  em  outro  escriplor  outra  noticia.  È  natural  (pie 
buscasse  ver  o  (i(jcumento  a  (jiie  Brandão  se  refere;  mas,  não  o  encon- 
trando, acctitou  a  informaçãct  d  elle.  Baczynski,  que  tantos  esclareci- 
mentos colheu,  e  que  tantos  auxilios  obteve  de  itivestigadores  abali- 
sados,  como  Alexandre  Herculano  e  o  Visconde  de  Juiomenha,  nada 
mais  adeaniou.  Elícctivamente.  a  mais  antiga  allusão  ao  ar.^hitecto  de 
Odivellas,  e:n  esciiptor  [)oituguez,  é  a  de  IV.  Francisco  Brandão,  í]ue 
íica  citada.  Delia  deiivam  todas  as  luengões  que  se  fazem  de  Allonso 
Martins. 

Uma  recente  descoberta  vem  levantar,  poiém,  algumas  dúvidas  so- 
bre o  verdadeiro  nome  do  architecto  da  primitiva  fabrica  do  celebrado 
mosteiro. 

Ultimamente  encontrei  eu  alli  um  curioso  capitel  de  colimina  he- 
xagonal,  apeado  e  certamente  muito  afastado  do  seu  primitivo  assen- 
to. É  pena  que  o  capitel  houvesse  sido  deslocado.  Foi-o  de  certo  por 
occasião  do  terremoto  do  primeiro  de  novembro  de  1755,  que  tantos 
prejnizos  causou  no  mosteiro,  como  se  vè  do  documento  que  passo  a 
transcrever  do— Livuodo  oiuro  da  1  s  ueligiozas.  j  1709 — ,  a  fl.  3á  v. 
Ahi  se  lè  0  assento  seguinte: 

«A  í?deNovenbro  (.s/c)  em  a  Era  de  Christo  bem  e  S.*""  Nosso  de  1755 
descancou  (sic)  dos  trabalhos  desta  vida  a  M/'  loaima  de  S.  Fran.""*, 
era  Uelligioza  de  vida  m.'"  ajustada,  e  nesta  mesma  era  e  sempre  me- 
morável dia  p."""  deste  mes,  em  o  qual  celebra  a  Igreja  catholica  a  fes- 
ta de  todos  os  S.*°%  se  exprimenlou  (sic)  aíj.'*"  fromidavel  isic)  e  quasi 
vniversal  lerremotto,  em  q.  acabarão  in.''""  milhares  de  vidas,  nas  rui- 

1  Mon.  Lnsit.  V.  V,  L.  xvu,  c.  2:5,  lom.  v.  pag.  224. 

Rev.  Arch.  e  IIísT.,  I,  N.°  IO  —  Outubro  1887.  IO 


d  46  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

nas  dos  ediíicios.  sendo  o  mayor  extrago  [sic)  o  q  padeceu,  a  cid.''  de 
Lisboa,  essa  celebrada  corte,  e  centro  de  deleytaveis  devertim.*°^  foy 
tornada  em  lui  objecto  de  dezenganos,  e  domicilio  de  borrores;  e  este 
Mostr.**,  cuja  fabrica  era  toda  grandezas,  ficou  toda  a  abatim'*''';  e  do 
Tj  naõ  deyxou  caindo  íicou  taõ  arruinado,  (]  as  llelligiozas,  fugirão  hu- 
mas  p'  o  largo  campo  do  mesmo  Moslr",  e  outras  p.-"*  fora  delle,  naõ 
liaveudo  clauzura  pois  o  temor  a  linha  feylo  nos  coraçoens;  em  o  cam- 
po do  mesmo  l\lostr.°,  fes  a  sua  Jornada  commua  esta  Relligioza,  e 
nos  claustros  e  Igreja  do  mesmo  por  cauza  dos  tremores,  e^lavaõ  ca- 
biiido  as  abobadas,  e  assim  parecia  temerid."  darlhe  sepultuia  claus- 
tral,  por  isso  foy  conduzido  seu  defunto  cadáver,  p.^  iiuã  Igreja  pe- 
quena q  liça  defronte  da  poisaria  do  mesmo  Mosli''',  e  alii  esperaõ 
seus  ossos  a  resurreyciíõ  {sic)  geral. 

(assígnada)  «a  cantora  mor» 

Apezar  da  emphase,  da  ortographia,  e  do  defunto  cadáver,  é  pre- 
cioso este  assento,  por  nos  conservai'  noticia  do  desastre  terrível  sof- 
frido  pelo  famoso  mosteiro. 

KíTectivamente,  o  que  resta,  conhecido,  da  fabrica  primitiva  é  pou- 
(piissimo:  a  capella-inór  e  as  duas  laieraes ;  outra  capella  (talvez),  que 
subsiste  junto  ao  port;d  da  egreja,  e  esse  mesmo  portal:  alguns  frag- 
menlos  de  pedras  com  ornatneutação  variada  e  iuiporlante  (gregas, 
swastikas,  etc);  e  o  capitel  a  que  me  tenho  referido.  Podem  junlar-se 
a  eslas  relíquias,  o  que  existe  ainda  da  antiga  casa  leal  que  D.  Dinis 
deu  ás  freiras  eque  constituiu  a  primeira  habitação  delias,  emquanto  o 
convento  propriamente  dicto  se  construía.  Dessa  casa  ou  paço  restam 
duas  janellas  e  um  escudo  das  ai'mas  leaes  na  parede  que  olha  o 
claustro  velho.  ICste,  cujas  columnas  são  também  da  primitiva,  foi  res- 
taurado com  alguma  grandeza  em  melados  do  século  xvni.  sendo  ab- 
badessa  D.  Luiza  Maria  de  Moira,  pelo  que  as  freiras  o  designavam 
pelo  nome  de  ciaustro  da  Moira.  Também  restam  ainda  dos  piimitivos 
tempos  vastos  casarões  térreos,  piimitivameute  cavallariças  pertencen- 
tes ao  paço,  e  depois  destinadas  a  celleiros  e  casas  de  arrecadação. 

Mas  voltemos  ao  capitel.  Apezar  de  deslocado,  comprehende-se, 
pelas  suas  dimensões  e  caracter,  que  só  podia  pertencer  á  egreja. 
Talhado  num  enorme  canto,  é  elle  polygonal,  tendo  a  parle  superior 
do  ábaco  uma  superíicie  do  (r.Oi  poi'  O'", 74  (Ivst.  xvi,  n.^  I).  Sob  o 
capitel  vè  se  um  f)edaço  do  fuste  hexagonal,  talhado  na  mesma  pedra, 
a  qual  (em  de  altura  O'". 57.  Basta  ver  o  ca|)ilel,  para  se  reconhecer 
ser  uma  das  pouquíssimas  relíquias  que  subsistem  da  fabrica  primi- 
tiva. A  sua  forma  caractcrislica  não  deixa  dúvida  alguma  acerca  da 
epocha  em  que  foi  talhado:  a  [)orção  do  hisle,  as  ligações,  as  escul- 
pturas  dos  ângulos,  o  trabalho  da  pedra,  tudo.  O  ábaco  é  cortado  nos 
ângulos,  estabelecendo  transição  entre  a  sua  forma  rectangular  e  a 
forma  polygonal  do  capitel;  dos  ângulos,  um  é  ornado  com  um  cacho 


E   HISTÓRICA  147 


(riivas,  oiilro  por  iiin;i  siii;4('l;i  rolliri  do  parrn,  os  dois  restantes  cada 
uni  poi"  lima  caberá.  Oiiaiido.  [loróiii.  tudo  isso  não  bastasse  para 
lhe  determinar  a  edade,  oulra  circiimslancia  a  estabeleceria  inconles- 
tavelinente. 

Vau  duas  das  laces  do  ábaco,  em  caracte!"es  onciaes  de  grande  or- 
namcntaijão,  Irem-se  as  seguintes  palavias,  constiluiiidd  um  nome 
nionrio: 


ANTAM     MTINZ 


Depois  do  primeiro  nome  notase  um  sigiial  gravado,  similliante  à 
cifra  mais  geralmente  empregada  na  escriptnra  cbaiiiada  golliica  para 
signilicar  cl  e  ele.  Na  liy[)olliese  de  se  dever  dar  a  esse  signal  uma  si- 
gnilicação  cpigiapliica,  iieuliimia  diilia  se  llie  poderia  alliibiiir  senão 
a  de  i't,  do  que  re^ullarla  a  Icdura  Aidam  cO  Marliiiz,  isto  é,  duas  pes- 
soas. Se  podesse  admiltir  diivida  a  leitura  do  segundo  nome,  e  por 
conseguinte  se  se  podesse  interpretar  Martini,  em  vez  do  palronimico 
C()rre.s|)nudenle,  o  signal  intermediário  leria  ligoiosamenle  signilicação 
copulaliva.  (!  acliar-nos-hianios  naturaliueule  em  presença  de  dois  no- 
mes pro[)iios.  .Mas.  .-endo  incontestável  (|ue  o  segundo  nome  é  Mar- 
tinz,  o  signal  alliidido  nao  pôde  ser  epigrapbico;  não  só  pelo  absurdo 
de  ficar  ligado  pelacopulativa  (C- o  nome  propiio  ao  patronímico,  a  se- 
rem ambos  da  mesma  pessoa,  mas  também  pelo  não  menor  absurdo 
de,  no  caso  de  serem  nomes  de  duas  pessoas,  uma  eslar  indicada  pelo 
nome  prop;io  e  outra  pelo  patronímico.  Demais,  como  é  sabido, 
naíjiiella  ep :)cha  e  ainda  muito  posteriormente,  só  se  designavam  as 
pessoas  pelo  nome  baptismal,  seguido  immedialamenle  em  geral  pelo 
patronímico  e  algumas  vezes  pelo  appellido;  mas  nunca  se  designa- 
vam pelo  palronimico,  o  «lual,  isoladamente,  nada  significava. 

Por  conse(]ueii -ia.  o  signal  mencionado  não  tem,  em  meu  intender 
significação  e[)igra[tliica;  mas  foi  alli  gravado  unicamente  com  o  íim 
de  preencher  um  espaço  que  a  primeira  palavra  deixara  devoluto,  e 
como  que  a  estabelecer  conlmuidade  entre  essa  e  a  seguinte,  depois 
da  qual  nada  se  gravou  end)ora  para  isso  houvesse  espaço. 

Acliaiud-nos,  pois,  em  presença  dum  nome  d"homem,  Antam  Mar- 
tinz,  homem  que  decerto  represeiilou  algum  papel  ua  construcção  do 
mosteiro.  I}em  sei  que  a[)parecem  por  vezes  no  interior  de  algumas 
egrejas,  ca[)ellas,  e  outros  edificios,  inscripções  mais  ou  menos  exten- 
sas gravadas  seguidamente  nas  vaiias  pedras  do  friso;  inscripções  jii 
compostas  de  versículos  da  Hiblia,  já  ex|iressamente  redigidas  com 
alhisão  no  edilicio,  ao  seu  destino,  ou  a  quem  ordenou  a  sua  fabrica. 
No  caso  subjeilo,  porém,  só  se  pode  considerar  aquelle  nome  isolado 
como  uma  assignalura,  e  de  maneira  alguma  como  fragmento  de  in- 


148  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

scripçíío.  E  favorecida  esta  asserção  por  uma  consideração  justa  e  por 
um  argumento,  que,  embora  negativo,  não  deixa  de  ter  algum  peso. 

A  consideração  é  a  seguinte:  se  a  inscripção  Ibsse  de  IViso,  aquelle 
capitel  não  seria  de  columna,  mas  sim  de  pilastra  encostada  á  pare- 
de; e  a  inscripção  conlimiaria,  não  no  friso  propriamente  dicto,  mas 
em  um  pseudo  friso  colíocado  á  altura  do  ábaco  do  capitel.  Mas  este 
é  de  colinnna,  como  evitlentemente  o  provam  o  seu  faceado  regular, 
e  as  escMl[)tiiras  dos  seus  (piatro  ângulos.  Passemos  agora  ao  argu- 
mento negativo.  Porque  conservaram  as  IV('ii"as  de  Odivellas  aquelle  ca- 
pil(>l  (la  cgrcja.  ipieo  terremoto  do  dia  de  Todos  os  Santos  despenhou 
do  alto  da  colinnna  que  encimava?  Naturalmente  porijue,  vendo  nelle 
gravados  alginis  car.icteres  ((jue  talvez  até  não  soubessem  ler),  intende- 
ram dever  gnardal-o  como  memoi'ia  da  antiga  egreja.  Ora,  não  é  crivei 
(jue  os  demais  capiteis  e  todo  o  friso  da  egreja  se  despedaçassem  na 
derrocada;  e,  portanto,  quem  guardou  a(|neile  capitel,  ponpie  tinha 
gravadas  umas  leltras,  conservaria  mais  alginn  capitel  ou  porção  de 
biso,  se  mais  algum  tivesse  epigra|)he.  Além  disso,  embora  os  nossos 
escriptores  nos  não  deixassem  nenhuma  de.^cripção  miiiiu'iosa  da  egre- 
ja, deceito  que  não  deixariam  de  fazer  menção  de  tão  inq)ortante  in- 
scripção como  seria,  por  commemorativa,  a  que  occupasse  o  biso  do 
templo. 

Parece  me  pois  dever  abandonar-se  a  hypothese  d'uma  inscripção 
de  friso;  e  considerar  aipielle  nome  como  a  assignatura  deixada  alli 
[)elo  archilecto,  j)elo  mestre  da  obra.  Considero  desnecessário  de- 
monstrar a(pii,  com  exemplos,  quão  vulgar  era  o  facto  de  os  archite- 
ctos  firmarem  as  suas  obras  com  o  seu  nome  ou  com  o  seu  retrato. 

Se  fr.  Francisco  Brandão  não  dissesse  cliamar-se  Affonso  Mai  tins  o 
architecto  de  Odivellas,  ninguém  hesitaria,  á  vista  da  inscripção  do 
ra[)itel,  em  afíirmar  que  elle  foi'a  Antam  Marlinz.  Estamos,  pois,  em 
[)resença  de  duas  affirmntivas,  ambas  de  grande  peso,  mas  que  mu- 
tuamente se  contradizem.  Estudemos  a  questão,  e  vejamos  se  havemos 
de  necessariamente  reputar  falsa  umj  d^ellas,  ou  se  as  podemos  con- 
siderar ambas  verdadeiras. 

No  primeiro  caso,  isto  é,  dada  a  circumslancia  de  uma  das  aíTu*- 
malivas  ser  falsa,  não  é  licilo  [)i'eferir  a  menção  da  Moiiarcliia  Lusitana 
ao  testemunho  inconcusso  da  uíscripção.  Esta  foi  gravada  pelo  próprio 
Antam  Maitins,  ou  pelo  menos  (mas  com  pouca  pr()bal)ilidade)  por  al- 
gum dos  seus  ofliciaes,  á  sua  ordem  e  sob  a  sua  direcção;  e  neste  caso 
seiia  absurda  a  snpposicão  de  que  o  gravador  errasse  o  nome.  Por 
consequência,  nesta  hypothese,  errou  Brandão.  Este  erro,  que  em  nada 
pode  desautorisal-o,  com(|uanlo  seja  certo  (como  já  Alex.  Herculano  o 
notou  alguresj  que  IJrandão  não  era  um  paleogra[)ho  consumujado, 
seria  um  siin[)les  eipiivoco.  Toilos  aipielles  ipie  se  (Ião  a  trabalhos  de 
investigação  sabiam  com  (juant.i  facilidade  [)ode  deslisar-se  na  escri[)tura 
um  equivoco  de  nome  pro|)tio,  mormente  (piando  ha  a  mencionar 


!•;  iiisTOiíiCA  149 


muitos.  Para  evitar  esses  la|)sos,  convém,  quanto  possível,  conferir  sem- 
pre o  esciipto  com  os  originacs,  de  preferencia  a  fazel-o  com  as  co- 
pias p(»r  mais  conliaiiça  que  se  tenha  nellas. 

Mas  p()(iei'se-lia  (lar  o  segundo  caso?  Será  tão  exacta  a  asserção 
do  célel)i'(i  cliiouista.  como  é  verdadeiro  o  testemuuiio  do  capitel? 

A  obra  de  Odivellas  começou  no  anuo  de  129.").  depois  d(3  tá7  de 
fevereii'o,  pois(|ue  nesta  data  se  lavraram  as  constituições  e  carta  de 
dotação  do  convento,  declarando  se  alii  (pic  o  rei  eslava  paia  lançar  a 
primeira  |)edia  do  edilicio.  Ora.  existindo  já  alli  naípiella  dala.  nas 
casas  doadas  pelo  rei.  algumas  freiras,  tendo  por  abadessa  D.  Elvira 
Fernandes,  e  flizendo  uma  memoiia  aníiga  do  livro  das  calendas  do 
mosteiro  cpie,  no  primeiro  de  março  de  l^Oli,  começou  o  serviço  di- 
vino das  monjas  *,  é  natural  (|ue  a  obi'a  tivesse  já  um  ceito  adeanta- 
mento  a  esse  tempo. 

Huy  de  Pina,  falando  das  obras  que  D.  Dinis  mandou  executai-, 
diz:  «e  fez  ha  rua  nova  de  Lisboa,  e  assi  ho  IMoesteyro  de  Sam  IJiniz 
Dodivellas  em  que  jaas,  ho  ()uaal  logo  ha  pouquos  annos,  que  Ueynou 
mandou  começar,  e  em  sua  vida  s(!  acabou  em  dès  annos '^».  Temos 
pois  (jue  pelos  annos  de  KiOri  estava  concluída  a  obra;  o  que,  se  não 
quer  dizer  precisamente  que  a  fabrica  estava  feita  em  todas  as  suas 
parles,  pelo  menos  deve  referir-se  ao  principal,  quero  dizer,  aos  dor- 
mitórios, e  mais  aposentos,  ás  indispensáveis  oíTicinas,  e  sobretudo  ao 
templo  que  não  podia  ser  preterido  por  nutras  construcções. 

Por  outro  lado  o  docunienlo,  a  (jue  alliide  Brandão,  era  do  anuo  de 
1324.  Hoje  não  restam  vesligios  delle.  Procurei-o  no  Archivo  Nacio- 
nal;  e  foram  baldados  os  esloiços  feitos  |)eIo  meu  excellenle  amigo 
o  sr.  José  Basto,  para  enconlial-o.  e  para  descobrir  qualquer  outra 
indicação  acerca  do  mestre  da  obra  de  Odivellas.  Procurei  o  no  archivo 
de  S.  Vicente  de  Fora,  onde  Monsenhor  Daniel  Ferreiía  de  Mattos  me 
assegurou  não  existu-em  nenhuns  documentos  antigos  da  Sé.  Procurei-o 
no  próprio  cartório  da  Sé  de  Lisboa,  aonde  o  dignissimo  cónego,  sr. 
D.  João  de  Nápoles,  que  superintende  na  fabrica  da  cathedral,  empre- 
gou toda  a  sua  actividade  e  l)oa  vontade,  sem  obter  resultado.  A  es- 
tes três  cavalheiros  dirijo  aqui  sinceros  agradecimentos.  Pode  pois  con- 
siderar-se  perdido  o  Livro  2.'^  de  testamenlos  e  capellas,  do  cartório  da 
Sé  de  Lisboa. 

Ora  entre  1296  e  1324  decorre  um  peiiodo  de  vinte  e  oito  annos. 
Quem  sabe  se  nesse  lapso  de  tempo,  falleceu  Antam  Martins  e,  por 
não  estar  terminada  a  ediíicação  d"alguma  pertença  do  mosteiro  de 
Odivellas,  lhe  succedeu  no  cargo  de  mestre  da  obra  um  individuo  de 
nome  AlTonso  Martins?  O  facto  de  ser  mencionado,  na  escrii)tura  cita- 
da por  Brandão,   Affonso  Martins  como  mestre  da  obra  de  Odivellas, 

»  Mon.  Lmit.,  ibiJ.,  pag.  223. 

2  Pina,  Clir.  dei  Kcy  D.  Diniz,  e.  32. 


150  KE VISTA    ARCIIIÍOLOGICA 

merece  muita  consideração.  Pode  poiíderar-se  (|ne,  sendo  a  obra  mais 
iiiiportaiile  daíiuelle  >íilio  o  mosteiro,  a  essa  allmlia  aquclla  qualilica- 
ção;  mas  o  certo  é  que  aquellas  palavras  não  delinem  piecisamenle 
qual  a  obra  em  que  Aflbnso  Martins  superintendia;  tanto  pode  haver 
referencia  ao  mosteiro  como  a  ontra  (pialquer  obra.  Creio,  [)oréin,  (|ue 
â(pielle  se  releria.  Vimos  ipie  a  egreja,  os  dormitórios  e  as  |)i'iiicipaes 
oliicinas  do  mosteiro,  ficaram  conclnidas  pelos  annos  de  l)H)5  ou  {300. 
Daqui  se  concilie:  ou  qne  Affonso  Martins,  tendo  sido  mestre  da  obra 
desde  o  começo,  se  declarava,  ou  o  diziam  tal;  ou  que,  dirigindo  al- 
guma consti'Ncrão,  a  (]in'  no  mosteiro  se  procedia,  nalnralmente  indi- 
cava a  sna  actual  occu[)açno.  Esla  é,  a  meu  ver,  a  mais  sensata  inter- 
pretação; por  isso  que  não  é  plansivel  que  S(í  consignasse  como  em- 
prego da  testemunha  um  cargo  em  cujo  exei'CÍcio  já  não  estava.  Quando 
se  quizesse,  por  qualíjuer  motivo  extravagante,  indicar  o  contrario,  o 
escrevente  ou  tabellião  teria  i^osto  mcsire  que  foi  etc.  Mas  no  caso 
subjeito  não  ha  dúvida  em  que  Affonso  Martins  exercia  em  13á4  o 
cargo,  que  na  escriptura  era  apontado;  por  isso  que  Brandão  a  pro- 
duz para  demonstrar  que  naquelle  aimo  ainda  havia  obras  em  Odivel- 
las.  O  erudito  monge  de  Alcobaça  não  apresentaria,  sem  reservas, 
aquella  indicação  como  prova,  se  ella  podesse  soffrer  interpretação  di- 
versa da  que  lhe  dá. 

Eu  acceito  a  noticia  que  dá  Brandão  integralmente,  e  por  conse- 
quência não  contesto  de  modo  algum  que  Affonso  Martins  haja  sido 
mestre  da  obra  de  Odivellas.  Apenas  deixo  de  considerar  esse  indivi- 
duo como  o  mestre  da  obra  ou  (por  outras  palavi'as)  o  verdadeiro  ar- 
chitecto  do  mosteiro,  atpielle  (]ue  concebeu,  delineou  e  começou  a  exe- 
cutar a  fabrica.  Pois,  poi'(jue  o  inglez  Ouguet  foi  mestre  da  obra  da 
Batalha,  pode  porventura  negar  se  que  Affonso  Domingues  foi  o  mes- 
tre dessa  maravilhosa  edificação?  Neste  caso  seria  exacta  a  citação  de 
fr.  Francisco  Brandão,  apezar  do  testemunho  da  inscripção  do  capitel. 

Im[)ressiona  verdadeiramente  a  notável  coincidência  de  terem  o 
mesmo  patronímico  Antam  e  Affonso,  mestres  ambos  da  obra  de  Odi- 
vellas, e  cuja  contemporaneidade  é  probabilissima.  Note-se  que  a  data 
de  1206,  é  a  mais  antiga  a  que  se  pode  attribuir  a  execução  do  capi- 
tel de  Antam;  e  que  em  1324  nos  apparece  AíTonso.  Entre  estas  duas 
datas  decorreu  um  periodo  de  vinte  e  oilo  annos.  Era  necessário  que 
Antam  houvesse  fallecido  logo  em  129{)  e  (pie  Affonso  tivesse  apenas 
28  annos  em  132i,  para  que  elles  deixassem  de  ser  coetâneos. 

Affonso  Martins  |)ode  ter  sido  irmão  (mais  novo  com  toda  a  proba- 
bilidade) de  Antam  Martins.  Co.nquanto  o  palronimico  não  possa  ser- 
vir de  confirmação,  não  se  pode  desprezar  esta  hypothcse,  visto  não 
ser  invalidada  por  fado  algum. 

Entre  as  setenta  e  quatro  cifras  ou  marcas  de  canteiro  por  mim 
calcadas  e  copiadas  nos  restos  da  primitiva  labi'ica  de  Odivellas,  ha 
uma,  que  descobri  no  abside  central  ou  capella-mór,  pela  parte  inte- 


E   IIISTOUICA  151 


rior.  a  (|iial  se  compnu  (rum  A  oiicial  encimado  (riiin  o  miiiiisciilo, 
ahievialura  do  Alfonsu  {\ÍA.  xvi.  ii."  "2).  Não  i-epiigiia.  aiil(3s  é  lacil  de 
adinillii"  (jiic  o  ineslre  Aiilaiii  Mailiiis  livusse  por  olíicial  ou  por  eon- 
Iraiiuíslre  um  seu  irmão  uiais  novo,  AlTonso  Martins,  (jne  lhe  suc- 
ced(Mi  no  jogar  de  mestre  da  obra  do  mosteiro,  (jnaiilo  a  AlTonso  Mar- 
tins a[)[)arecer  como  caiileiri),  isso  não  invalida  a  liypnlliese.  vislo  (|ne, 
como  sahem  ainda  os  menos  lidos  em  coisas  aiclieologicas,  os  an- 
tigos mestres  de  obras,  ou  arcliilectos,  não  se  desprezavam  de  lalliai' 
um  canto  ou  facear  un)  sócco,  lalvez  porque  não  tinham  litulos  e  ve- 
neras. 

Na  ahsolnla  íalta  em  (jiie  me  vejo  de  nolas  biographicas  dos  dois 
.Martins,  apezar  de  todos  os  esloiços  em[)regados  [)or  mim  para  des- 
cobiir  mais  noticias  a  elles  i'espeitanles,  parece-me  não  sei*  íòra  de 
razão  apontar  aqui  mna  liypotliese  que  não  e  absolu  amente  extrava- 
gante 

Como  se  sabe.  Odivellas  dista  apenas  uns  Ires  kilometi'os  do  Ln- 
miai'.  Uelativamenle  á  egreja  desla  ultima  localid;ide.  diz  o  citado 
Brandão:  «O  sitio  em  q  a  Igreja  do  l^nmiar  está  edilicada.  era  delílel 
D.  AíTonso  Terceiro,  q  neste  lugar  tinha  bua  (|uinta,  a  qual  por  esta 
causa  chamão  o  Paço.  d-  despois  pola  possuir  Afõso  Sanches  chamarão 
o  Paço  de  Aloso  Sanches,  d- este  nome  de  Paço  retém  ainda  oje.  Oc 
em  escritura  do  anno  de  mil  trezentos  iV  doze,  no  qual  Sancha  Nunes 
Alítíirãa.  Heligit)sa  do  Mosleiío  de  Santos  deu  ao  seu  Mosteiío  hmnas 
casas  em  Lisboa  na  l*e(lreira,  onde  chamão  o  canal,  d-  tinhaõ  sido  de 
loão  Fogaça.  Foraõ  teslenninhas  loão  Longo  de  Odivellas  d-  Martim  Lon- 
go de  Paço  de  Afonso  Sanches»  *. 

Seriam  Anlam  Marlins  e  seu  supposto  irmão  Affonso  íillios  de  Mar- 
tim Longo?  A  [)ro.\imidade  do  i)aço  dAlfonso  Sanches  e  o  valimento 
d"este  para  com  seu  páe^  não  podem  auctorisar  a  hypothese  de  serem 
os  filhos  de  Martim  Longo,  um  o  mestre  outro  olíicial  da  obra  de  Odi- 
vellas? Esta  suspeita  só  poderia  transforma r-se  em  certeza,  no  caso 
da  descoberla  inapreciável  dalgum  documento,  ou  em  informação  fide- 
digna d'algum  escriptor  anligo  que  eu  desconheço. 

0  (]ue,  porém,  creio  não  poder  admittir  dúvida  é  que  o  primeiro 
architecto  de  Odivellas  se  chamou  A.ntam  Maiuinz. 

Lisboa,  14  lie  outubro  de  1887. 

Borges  de  Figui.ihedo. 

1  Mo».  Lusit.,  ibiil.,  pag.  224  v.  e  22o. 


152  REVISTA   ARCHEOLOGICA 


VISITAÇÃO  A  EGREJA  DE  S.  JOÃO  DO  MOCHARRO 

D'OBIDOS 

pni  I).  Joryc  da  Cosia,  cm  li  de  le\ereiio  de  liG7 

(Concluído  de  pag.  144) 

como  sse  acue  de  soterrar  o  cniigo  na  egreia 

41  Item  geerallmeiito  niandainos  e  damos  licença  aos  diclos  be- 
neficiados fjue  sse  morrerem  fora  de  pecado  morlall  notório  e  priuico 
{sic)  e  rreçeberem  os  sacramentos  da  santa  igreia  em  ílim  de  seus 
dias  como  deuem  que  os  enterrem  na  dieta  igreia  ssem  mais  pêra  ello 
avendo  nosso  consinlimento  alenantandollie  se  as  hy  lia  as  sentenças 
de  excumunliom  postas  per  estatutos. 

dos  dias  do  eslatulo  c  dos  que  nom  seniem  sms  benefiçUos 

42  Item  por  quanto  achamos  per  certa  enformaçam  que  alguuns 
creligos  do  nosso  arcebispado  sam  assy  rremissos  e  nigligentes  acer- 
qua  de  rrezarem  suas  oras  que  adiir  acabam  de  as  rezar  perfeita- 
mente como  sam  obrigados  e  sse  as  rezam  nam  as  vaam  rezar  as 
suas  igreias  segundo  deuem  aqiielles  que  sam  beneficiados  e  se  re- 
zam em  suas  igreias  nom  rrezam  com  outros  aas  horas  diuidas,  po- 
rém querendo  nos  por  descarrego  de  nossa  conçiençia  e  saúde  de 
suas  almas  dar  a  ello  remédio  segundo  somos  hobrigado  mandamos 
que  todos  creligos  beneficiados  que  seniem  inter  esenles  seus  benefi- 
cies e  hiconimos  rrezem  todos  iunlamente  em  seus  coros  e  quallíjuer 
que  nom  vier  aas  matinas  ao  menos  atee  a  primeira  gloria  patri  das 
horas  caniiiicas  (sic)  e  per  consiguinte  as  outras,  a  saber,  primeira 
iii*  bi'^  seiallie  descontado  huuni  rreal  e  se  nom  vieer  a  vespei'a  ao 
menos  atee  pi'imeira  gloria  patri  hunm  rreal  e  esta  pena  a  poemos 
assy  determinada  por  o  que  a  constituiçam  está  sobre  ella  mny  con- 
fusa mandamos  aos  sobi'edictos  que  façam  em  cada  huum  anno  per 
sam  ioliam  huum  apontador  per  iuramento  que  bem  e  uerdadeira- 
mente  aponte  a  cada  huum  as  faulas  e  sse  ia  teuer  em  ssy  o  groso  e 
lhe*as  destribuiçijes  nom  abastarem  que  tomem  do  que  ia  em  ssy  le- 
uer  pro  rrata  o  que  asy  fautar  e  pêra  elo  aha  (sic)  remédio  no  ca- 
pitulo em  que  mandamos  por  este  azoo  (jue  lodos  dem  ffianças  em 
outra  maneira  lhes  nom  acudam  os  prinsles  com  seus  ffrutos  segun- 
do no  dicto  capitulo  mais  compridametile  che  (sic)  conliudo  e  por  que 
auemos  per  enformaçam  que  os  l)en('firia(los  antre  sy  por  se  releua- 
rem  huuns  aos  outros  tornam  a  parle  das  faulas  aqueles  que  as  ffa- 
zera  como  sse  as  nom  fezesem  mandamos  que  daqui  em  diante  o  nom 
façam  e  fazendoo  o  apontador  e  prioste  o  contrairo  e  ele  o  con  *  * 

'  Passagem  que  parece  cscripla  com  diversa  lotlra,  mas  do  mesmo  tempo. 


E    IIISTOKICA  lo3 


siiitiii(li)  queremos  que  percam  por  cada  vez  aqiielle  anuo  as  ren- 
das (los  (lidos  bciicCicios  as  (jiiaacs  apricamos  as  fabricas  dessas 
igreias.  a  sal)er.  ainceladc  (.s/n  e  a  niilra  tnclade  pcra  o  niciriíilio  e 
queremos  que  os  beneliçiados  aiam  diíslalulo  por  anuo  r"  {10}  dias  p(!ra 
sua  rrefeyçam  e  nom  sse  emleudam  domingos  nen»  (Testas  prinçipaaes 
por  dia  deslaluto  eos  allernatiuos  aiam  em  cada  igreia  xx  dias  e  cando 
bnum  dos  beneficiados  tomar  o  (ha  ou  dias  outro  nom  possa  tomar 
estatuto  alee  aipiclh;  uom  acabar  por  a  igreia  seer  seruida  e  cada  huum 
seia  Ihiudo  de  o  dizer  ao  poiílador  {sk)  ou  rreytor  cada  vez  que  al- 
guum  dia  tomar  por  nom  cominçidirem  nos  dias  e  a  igreia  nom  pa- 
decera detiimento  e  sse  mais  iuntamenie  pidirem  dias  o  rector  os  d(j 
ao  piimeiro  ou  aaquelles  que  senlir  (pie  teem  mais  neçesidade  e  sse 
hl  nom  ITor  rejMor  ho  poiítadoí'. 
qiw  sse  coiijcsom  os  creliijos 

4S  item  geerahnente  mandamos  e  damos  hçença  e  priuilegio  aos 
beneficiados  secerdoles  que  sse  possam  confessar  lunins  aos  outros 
em  toilollos  casos  poiítihcaaes  absohiendo  delles  em  nas  dietas  confis- 
sooces  sahio  se  Ifnr  seuleu(;a  de  exconuirdiom  nou  frangualur  uermis(6/f) 
ecciesiastiíje  (h(;ipniiie  {sio  em  ho  ipiall  qiiaso  sse  acorram  a  quem  ho 
poder  leiíer  ou  aaquelle  que  pos  a  dieta  sentença  satisfazendo  em  for- 
ma de  directo. 

que  ueiihaiii  os  fregueses  aos  domingos  e  festas  a  igreia 
41  liem  mandamos  aos  [)riores  que  amocstem  lodollos  fregueses 
que  ueuham  aas  festas  (hi  Ihu  x°  e  de  santa  maria  e  dos  apostollos  e 
horagoos  da  freguezia  quando  forem  de  guardar  e  todollos  domingos 
aa  missa  da  terça  e  aquelles  que  ho  ÍTazer  nom  quizercm  proceda  a 
sentença  descumuuhom  e  primeiro  que  a  missa  comece  diga  ho  prior 
ou  aipielle  í|ue  a  missa  diser  que  sse  hy  eslam  algumis  fregueses  dou- 
tra fre.-;uesia  em  a  igreia  que  la  vaão  ouuir  missa  soi)  pena  descumu- 
nhom  nom  estein  hy  aquella  missa  e  depois  que  os  diclos  fregueses 
onuirem  a  dita  missa  emlam  vaão  ouuir  outra  missa  ou  pregaram  on- 
de quiserem  e  mandamos  aos  dictos  ("fregueses  sob  a  dicia  penna 
que  emquanto  lhe  diserem  a  dieta  missa  nom  seiam  (Tora  da  dieta 
igreia. 

que  repartam  os  raçoeiros  as  idas  (sic)  e  trintairos 
4õ  Item  mandamos  a  todollos  capellaaes  que  assy  onuerem  de 
cantar  na  dieta  igreia  paguad(js  os  aministradores  delias  do  que  ham 
dauer  por  fazer  aproueytar  seus  benesses  que  ho  ali  f|ue  nemeneçer 
que  sse  parla  por  todollos  creligos  de  missa  benefiçiaílos  e  capellaaes 
que  couthiuuaí^lamenle  seruem  na  dieta  igreia  aneendo  cada  huum  hi- 
gallmeute  sseu  (juinham  e  esso  meesmo  das  missas  dos  testamentos  e 
dos  triutayros  que  perleençerem  dos  (fregueses  da  dieta  igieia  outrosy 
que  os  beneficiados  e  capellaaes  da  dieta  igreia  dignam  as  missas  dos 
abusentes  [sic]  e  outros  nom  e  esso  meesmo  que  irepartam  todollos 
reçoeeyros  ho  dizimo  das  vinhas  antre  ssy  que  cada  huum  beneficiado 


lo4  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Iroiixer  aaquelles  que  presentes  íTorem  assy  em  dinheiros  como  em 
íTiiiclos  segundo  anlre  ssy  hordenaiem. 
que  nom  digam  missas  nas  hennidas 

46  Item  deleiulemos  e  uiandaiuos  a  todollos  sacerdotes  do  nosso 
arcebispado  (jue  num  dignam  missas  em  ermidas  nem  baptizem  nem 
façam  by  outros  bdfiçiios  nem  leygos  laçam  oratórios  nem  birmidas 
nem  leuanlem  altar  nouamenle  ainda  que  sseia  em  igreia  sob  penna  de 
exLomunbom  a  qiiall  poeemos  em  elles  passados  seis  dias  bo  contrai- 
ro  fazendo  ssem  nossa  carta  de  licença  ou  de  (juem  nosso  lugar  teuer. 

que  ponham  as  conslit/drões  sinodaes. 

47  item  geeralmente  mandamos  em  todo  nosso  arcebispado  que 
ponham  em  cada  liuuma  igreia  as  conslituiçoões  sinodaaes  escritas  pello 
arcebispo  dom  loham  nosso  predeçedor  {sic)  alee  que  outra  vez  a  di- 
eta Igreia  seia  visitada  sob  pena  de  ir  reaes. 

das  penas  do  meirinho 

48  Item  outrossy  porque  em  vaão  sseria  fazermos  as  dietas  visi- 
taçoões  sse  com  efecto  nom  ouuessem  de  seer  compridas  e  dadas  a 
exxecuçani  (sic)  por  hisso  hordenamos  em  muitas  delias  seer  posta 
pena  de  dinheiro  eontra  os  seus  transguesores  {sic)  porem  encarrega- 
mos ao  nosso  meyiinho  (|ue  saiba  parle  daquelles  que  emcorrem  nas 
dietas  penas  por  assy  nom  comprirem  estas  nossas  visilaçoõees  e  as 
constituições  geraaes  segundo  em  tilas  be  contbiudo  e  de  caaeesquer 
que  primeiramente  per  elle  forem  acusados  queremos  que  ameetade 
das  ditas  peniias  {sic)  seiam  pêra  elle  dicto  meyrinho  e  a  outra  meta- 
de pêra  quem  em  as  dietas  visitaçoneos  {sic)  be  expresso. 

cine  nom  empenhem  nenhuuns  hornamenlos  ^ 

49  Item  porque  achamos  (pie  muitas  vezes  sse  apenbam  os  orna- 
mentos e  coussas  das  igreias  em  seu  detrimento  assy  ralleçes  vesti- 
mentas liuros  e  prata  e  outras  cousas  mouees  bo  que  nom  diuiam  de 
fazer  por  seerein  cousas  ao  bofiçiio  dininall  pertencentes  pello  que  sse 
albeaiiam  e  perdiam  mandanmos  [sic]  nos  que  iieiihinnn  seia  tam  ou- 
sado de  callqiier  condiçam  que  sse  antremet;i  a  apenhar  ou  a  uender 
as  dietas  cousas  ou  cada  buma  delias  nem  as  receber  nem  auer  em 
ssy  per  semelhante  titulo  nos  quaaes  ou  em  cada  biiiim  delles  see  bo 
contrayro  fezer  ipso  facto  em  estes  escriplos  poemos  sentença  de 
escumunhom  e  (piereinos  que  o  contracto  que  assy  acerqua  dello  ibr 
feto  seia  neiíhiium  e  a  igreia  possa  tomar  e  auer  onde  quer  que  adia- 
do íTor  sem  alguma  contradicta  que  lhe  a  ello  seia  posta  nem  seendo 
tliiuda  a  pagar  o  por  que  assy  for  vendido  ou  apenhado. 

60  Item  achamos  por  vigairo  perpeluum  {sic)  pedre  annes  da  di- 
eta egreia  e  beneíiciados  aluaro  fernandez,  mestre  fernando.  prior  de 
sam  pedro.  loham  de  frandes.  presentes  loham  afonso  absente.  tem 

1  As  epigraplies  em  itálico  dos  títulos  3-49,  são  de  lettra  dilTerente  da  do  tex- 
to, e  de  epoctia  posterior. 


E  HISTÓRICA 


lon 


ycolinio  (.s/V)  Acliimdo  iii'll;i  olfs  orií.inioiitns  c  cousas  qiie  sse  sse- 

gllClll 

Tiliilo  (l;i  |ii;it;i  * 

r,l  lii>iii  liiiiii:)  ciiiz  í!  (Idiis  ciílczus.  e  liimia  custodia  com  sua  cruz 
I'  liuuin  liiiiulli)  i.s/n  ('  liuni:i  iiaucla. 

Titulo  (las  veslimenlas 

õ-j  Ilcm  Imuia  ilc  lial(l()i]uim  (6?c)  de  passarinhas  verde  com  suas 
alinaíicas  e  outra  de  pano  de  sirgo  (]ue  tem  rrodas  azures.  e  duas 
vollias.  e  duas  alinalicas  velhas    e  Ires  capas  velhas. 

Titulo  d(js  liui'Os 

;Vy  Item  dous  douiiiiííaes  o  Imum  saulal  e  dous  ofiçiaees  e  luium 
pistoleiro  {sk)  e  huuiii  liuro  de  vicloria.  dos  xpaãos  e  dous  salleiros  e 
liuiuu  haulisteiro.  e  huum  liuro  de  missas  priuadas.  e  huum  missal 
mislico  e  hiiuui  enaiigeliorum  e  huuui  liuro  de  tombo. 

õ4  Item  achamos  na  dicla  egreia  muitas  cousas  por  fazer  as  quaes 
por  seruiço  de  deus  e  honrra  delia  diuiamos  mandar  fazer  emmendar 
e  coii-eger  nella  e  poi-que  paieceria  cousa  graue  e  áspera  mandandoas 
compi'iir  e  fazer  todas  em  ho  anuo  presente  [)oiém  mandamos  que 
até  sam  ioham  este  que  vem  ao  cabiido  que  mande  fazer  estas  que 
sse  sseguem. 

õ5  Item  achamos  que  ascada  (sic)  do  coro  da  dicla  igreia  está 
mal  repayrada  mandamos  ao  dicto  cabiido  que  até  o  dicto  tempo  ha 
mande  corregi-r  per  guisa  que  este  bem  forte  sob  pena  de  cem  rreaes 
pêra  nossa  chancellaria. 

ô(j  Item  porquanto  a  egreia  de  sam  silueslre  dos  francos  (stá  mal 
repayrada  asy.acerqua  dos  ornamentos  da  dicla  egreia  como  acerqua 
das  portas  delía  e  outras  cousas  porém  mandamos  que  até  o  dicto 
tempo  ponham  humas  portas  nouas  aa  porta  |)rincipal  e  outras  aa 
porta  traueessa  e  huma  porta  ao  sino  da  dieta  igreia  sob  pena  de  ii° 
rreaes  pêra  dieta  chancellaria. 

57  liem  porque  achamos  a  egreia  de  bombarrall  star  mal  repay- 
rada de  muitas  cousas  mandamos  que  até  o  dicto  tempo  ponham  huum 
bolareo  aa  parede  da  ousia  que  está  contra  o  leuaute  ponjue  está  pêra 
caiir  sob  pena  de  çem  rreaes  perrt  nossa  chancellaria. 

58  Item  em  vertude  de  obediência  e  sob  pena  de  excomunhom 
lhe  mandamos  (]ue  atee  a  páscoa  esta  que  vem  nos  paguem  ou  man- 
dem pagar  esta  nossa  visitaçam  a  ioham  gonçalves  nosso  recebedor. 

^  Esta  epigraplie,  como  as  duas  seguintes,  são  da  leltra  do  escrevente  da  vi- 
sitação. 


156  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

morador  ii;i  dicla  cidade  que  per  as  receber  ordenamos  e  porque  açer- 
(pia  do  que  vos  asy  per  nos  lie  mandado  nom  podessees  alegar  igno- 
i'aiiçia  pêra  vos  sseer  noliíicado  de  todo  mandamos  confazer  esta  nossa 
carta  dada  em  a  nilla  dobidos  sob  nosso  sinal  e  sseello  a  xiiii  dias  do 
mes  de  lenerciío  nieem  rodiiguez  [)or  fei-naiide  annes  scripuam  da 
camará  do  dicto  senhor  a  fez  da  era  de  mil  iiii'  Ixbii  annos. 

(assignado)  G.  An9.  Vlisiponys. 


MONUMENTOS  HISTÓRICOS 
I 

Em  1838,  a  mais  bem  definida  individualidade  que  neste  século 
tem  apparecido  em  Portugal.  Alexandre  Herculano,  erguia  a  sua  voz 
anctorisada  e  ardente  em  defeza  da  conservação  dos  monumentos  na- 
cionaes.  Esculemol-o: 

«É  contra  a  Índole  destruidora  dos  homens  de  hoje  que  a  razão 
6  a  consciência  nos  forçam  a  erguer  a  voz  e  a  chamar,  como  o  antigo 
eremita,  todos  os  ânimos  capazes  de  nobre  esforço  para  nova  cru- 
zada. Ergueremos  um  brado  a  favor  dos  monumentos  da  historia,  da 
arle.  da  gloria  nacional,  que  todos  os  dias  vemos  desabai'  em  1'iiinas. 
Esses  que  chamam  prog!'esso  apagar  ou  transfigurar  os  vestígios  ve- 
nerandos da  antiguidade  que  sorriam  das  nossas  crenças  supersticio- 
sas; nós  sorriremos  lambem,  mas  de  lastima,  e  as  gerações  mais  il- 
lustradas  que  hão  de  vir  decidirão  qual  d'esles  sorrisos  significava  a 
ignorant'ia  e  a  barbaridade,  e  se  não  existe  uma  superstição  do  pre- 
sente como  ha  a  superstição  do  passado. 

«A  mais  recente  quadra  de  destruição  |)ara  os  monumentos,  tanto 
artísticos  como  históricos  de  Portugal,  pode  dividir-se  em  duas  epo- 
chas  bem  distinctas.  Acabou  uma:  a  outra  é  aquella  em  que  vive- 
mos. . . 

«A  decadência,  porém,  na  epocha  em  (pie  vivemos  é  outra,  e  mais 
profunda.  Já  não  ha  a  corrupção  do  gosto,  o  inapplicavel  das  theorias, 
o  erro  do  entendimento.  Agora  é  o  instincto  bárbaro,  a  nialevolencia 
selvagem,  a  philosophia  da  brutalidade.  Dura  ha  poucos  annos;  mas 
esses  poucos  ânuos  darão  maior  numero  de  paginas  negras  á  historia 
da  arte  do  que  lhe  deu  século  e  meio.  O  picão  e  o  camartello  só  ha 
bem  pouco  tempo  que  podem  dizer — «triíimphámos».  Até  então  es- 
caliçavam-se  as  paredes,  roçavam-se  esculpluras,  faziam-se  embrécha- 
dos,  mas  agora  derribam-se  curuchéus,  partem-se  columnas,  derro- 
cam-se  muralhas,  quebram-se  lousas  de  sepultura,  e  vão-se  apagando 


E   IIISTOmCA  if)l 


Iodas  as  provas  da  historia.  Faz-se  o  palimpseslo  do  passado.  Corre 
despelado  o  vandalismo  de  um  a  outro  exlrenio  do  reii)o.  díísharalaiido 

(!  assolando  tudo Alleiito  ao  menor  nnirmurio  dos  tempos  que 

foram,  indignado  pela  mais  iMi^iliva  lembrança  das  líeiMrões  exlinctas, 
iriMta  se  com  Indo  ipie  possa  significar  uma  recordação.  Assim  exci- 
tado, argumenta,  ora,  esbraveja,  esfalfa-se.  O  erclliismo  dos  nervos 
só  pode  afi-oiixar-liro.  como  as  barinonias  melancliolicas  da  harpa  eó- 
lia, o  rnidd  d(;  alginn  moninncnto  (pie  desabe 

«Mas  iníclizmeiílc  para  elle,  o  velho  l*ortngal  eslava  coberto  de 
recordações  do  passado.  Cada  fado  hisloiico  tinha  unia  ogix'j.i.  uma 
casa,  um  mosteiro,  um  castello,  uma  muralha,  um  sepulchro,  rjue  eram 
os  documentos  peieimes  d'esse  fado  e  da  existência  dos  individuos 
(pie  nelie  haviam  intervindo.  iMiconlrando  tantas  injuiias  mudas  á  de- 
cadência presente,  o  vandalismo  iriiton-se.  ergin-ii  se  e  falou  em  feu- 
dos, em  dízimos,  em  corrupções  h^adescas,  em  maninliíuh-gos,  (!m  ser- 
vos de  gleba,  em  direitos  de  osas,  em  superstições;  catou,  em  siim- 
ma,  todas  as  vergonhas  e  deshonras  do  passado  que  poude  e  soube, 
ontresachando-as  com  tentenças  e  Jogares  communs  do  catechismo 
[tolitico  de  liamon  Salas  e.  por  uma  lógica  incomprehensivel,  por  uma 
lógica  sua,  chamou  os  homens  do  alvião  e  da  picareta  e  começou  a 
(h-rribar  victoriado  pelo  povo.  Só  elle,  immovel  no  meio  da  mobilidade 
(h)  nosso  tempo,  no  meio  das  opiniões  encontradas,  das  Inctas  das 
commoções,  tem  apontado  constante  ao  seu  alvo,  a  demolição  indeni- 
minada  do  passado.»  * 

Dizia  isto  e  muito  mais  o  grande  historiador,  e  ainda  trinta  e  sele 
armos  depois  subsistiam  os  mesmos  motivos  de  indignação  e  censnra. 

Em  IS7o,  um  dos  mais  formosos  talentos  artisticos  dos  nossos 
tempos,  o  marquez  de  Sousa  Holstein,  clamava  contra  a  incúria  dos 
poderes  públicos  que  não  fundavam  museus,  (pie  não  pensavam  se- 
(juer  ao  menos  na  conservação  dos  nossos  monumentos  nacionaes, 

«Eslão  estes  (dizia  o  maliogrado  inspector  da  Academia  de  Bellas 
Artes)  inteiramente  descurados  entre  nós,  com  excepção  da  Batalha  e 
do  tem[)lo  romano  eiii  Evoi'a.  O  sudário  das  nossas  misérias  a  este 
respeito  é  tal,  que  nos  envergonha  mesmo  estendel-o  aqui  á  puridade 
e  diante  só  de  olhos  portuguezes.  A  maior  parte  daquellas  veneran- 
das relíquias  do  passado  ou  desappareceiam  para  sempre  ou  estão 
ameaçando  imminente  riiina.  Umas  foram  voluntariamente  destruídas, 
depois  de  voluntariamente  concedidas,  para  darem  logar  a  constru- 
cções  modernas:  outras  foram  successivamente  minadas  pela  implacá- 
vel mão  do  tempo;  outras  estão  barbaramente  deturpadas  pela  mão 

1  A.  Ifeicuíano,  Mímwupntos  Pátrios  (Opúsculos,  t.  ir,  pag.  8-9.  21,  i'2,  23-2't). 


158  EEVISTA   ARCHEOLOGICA 

dos  homens,  que  sob  o  pretexto  de  lestauial-ns,  lhes  tiraram  toda  a 
feição  que  as  caraclerisava.»  * 

Por  esse  tempo,  nomeada  (por  decreto  de  U)  de  novembro  de 
1875)  lima  comniissão  para  traclar  da  reforma  do  ensino  ailistico  e 
organisação  do  serviço  dos  musens,  monumentos  liistoiicos  e  archeo- 
logia,  apresentou  eila  o  seu  relatoiio  e  os  seus  [)rojeclos  com  toda  a 
brevidade  e  sollicilude. 

Passados  doze  annos.  que  tantos  decorreram  desde  187G  até  ao 
presente,  a  reforma  proposta  pela  commissão  não  se  executou;  o  en- 
sino atlistiro  [)ouco  pi'(igrediu;  não  se  organisaram  museus:  os  mo- 
numentos históricos  são  (hvsli  uidos  em  vez  de  serem  conservados  ou 
convenientemente  reparados;  a  aiclieologia  em  geral  é  olhada  com  o 
máximo  indiífeienlismo. 

É  que  em  Portuga!  não  lia  o  gOí-to,  o  amor  pela  arte;  não  ha  a 
comi)i'ehensão  da  utilidade  de  museus  artísticos  e  ai'clieol()gicos;  não 
ha  o  respeito  pelos  mdnumentos  pátrios  que  são  documentos  da  nossa 
hisloiia;  não  se  considera  a  arclicologia  senão  como  uma  simples  cu- 
riosidade lilteraria. 

Mas  para  que  piTcisamos  de  reformar  o  ensino  artístico?  Ide  ao 
Museu  eh'  Uellas  Aries,  e  não  veieis  alli  um  só  aitisla  estudioso  tiran- 
do coi)ia  d  algum  quadro  de  Scijueira  para  se  exercitar.  Mas  vereis 
dois  ou  Ires  basbaípies  em  idiota  pasmaceira  diante  d'algum  painel 
que  o  guarda  lhe  disse  ser  tim,  (supposlo)  Ilapheiel  ou  mii  Durer. 

Percorrei  o  paiz.  e  vereis  ainda  muitos  monumentos  que  chama- 
rão a  vossa  atleiição.  Mas  atleniáe  nelles  e  recuareis  indignados.  En- 
tre cem,  um  só  encontrareis  illeso  de  espantosas  mutilações,  de  tor- 
pes remendos,  de  hediondos  repaios.  Ide  á  Sé  de  Lisboa,  e  lá  ve- 
reis. . .  O  meu  illustre  amigo  Visconde  de  Castilho  vol  o  diz: 

«Os  estuques  então  não  teem  nome.  ('obrem  o  granito  antigo 
d"aquelles  pilares  velhos  com  uma  capa  de  [irosa  amassada  a  colhe- 
rim,  e  na  presença  do  que  é  pedra  teem  a  louca  presiimiição  de  que- 
rer arremedar  pedra. 

«Além  disso,  colnmnas  coiiiithias  despi oporcionadas!  capiteis  de 
estuípie  muito  peralvilhos  a  de>dizerem  do  módulo  do  histe!  uma 
confusão  sem  graça,  sem  ingenuid.ide,  ao  men')s,  (h)  bysantino  ! 

(( .  .  .Uas  altas  colunmas  aggregadas  do  templo  velho,  íizeram  umas 
coisas  que  nada  são.»^ 

BOUGKS   DK  FlGUElhEDO. 


*  Marquoz  de  Sousa  Ilolslciíi.  (Jhsrrríirõrs  soliri'  o  (iclnal  eslddu  du  riisiiio  das  ar- 
tes em  Porlwial .  .  .  p;ig.  41. 

2  Jiilio  lio  Castiltio,  Lisboa  Antiga.  V.  ii,  l.  iii,  pug.  1D2  c  VX\. 


E    HISTÓRICA 


159 


15IHLI0aRAl'IIlA 

Ri:visTA  Lusitana,  Arcliivo  (h;  estudos  pliilologicos  e  (UliFiologicos  re- 
inlivos  a  Porliiiínl.  diiiiiido  por  ,/.  b-iin  df  Vascona-Uos. —  1."  Aiiiio. 
—  N.°'  I,  i2.— Porlo,   1887. 

A  Revista  Liisilatin,  dirigida  por  um  dos  nossos  mais  consciencio- 
sos es('i'iplores  e  ahalisado  lulklorisla.  eslá  destinada  a  occupar  um 
logar  distmi"lo  enire  as  publicaijões  scientiíicas  e  lilteraiias  do  nos- 
so paiz  e  do  eslrangeiío.  Notamos  com  prazer  a  coincidência  de  le- 
rem enceta  o  no  mesmo  amio  a  [)ulj|icação  a  licvisin  Lnsiiana  e  a  [ie- 
cista  Arclmilngiia  e  Histórica:  uma  occupando-se  prolicienlemente  das 
(pieslõcs  pliildlogicas  e  etimológicas:  outra  procmaiido  i'euuir  e  estu- 
(iar  outra  classe  de  materiacs  (]ue  nos  i'estam  (h)S  passados  tempos. 

Nos  dois  números  |)ublicados,  correspondentes  aos  primeiros  tri- 
mestres do  corrente  atmo,  encoiitra-se  grande  copia  e  variedade  de 
artigos  firmados  por  pessoas  competentissimas  nos  assumptos  a  que 
a  licvista  Lusitana  é  destinada.  Por  longos,  não  apreseidamos  aipii  os 
respectivos  smnmarios;  mas,  com  a  devida  vénia,  re|)ioduzu'emos 
(por  pertencerem  ao  objecto  da  liecisla  An-lwoUujim)  cinco  inscripções 
romanas,  encontradas  pelo  sr.  Leile  de  Vasconcellos  na  povoação  de 
Duas-Egrejas  (concelho  de  Miranda-do  Dom'o): 


C •  ANNIO  • 
S  1 1.  V  A  N  O  • 

A  N  L.  •  A  N  N' 

VS  •  RVFINVS 

PATRI 

SII.VIO  •   SII.VANO 

ANN  •  XXV 

Sn.VIVS  •  CAI.VVS 

FRATRI 


■  Caio  Annio  Rufino  elevou  este  monumento  á  me- 
memoria  de  seu  pae  Gaio  Annio  Silvano,  fallecido  de 
cincoenta  annos.» 


"Silvio  Calvo  elevou  este  monumento  já  me- 
moria de  seu  irmão  Silvio  Silvano,  fallecido  de 
vinte  e  cinco  annos.» 


SII.VANO 
APILICI  •   F 


«Á  memoria  de  Silvano  filho  de  Apilico.. .» 


SIL VI AE  C  A  L  V  I 
N  A  E  •  A/  •  X  X  V  I  I  I 
ET  •  G  •  SILVIO  A/N  I 
SILVIVS  GALVINVS 
F I  L  I  .E  ET  i\E  P  O  T I 


"Silvio  Galvino  elevou  este  monumento  á 
memoria  de  sua  hlha,  fallecida  de  vinte  e  oito 
.annos,  e  de  seu  neto  Gaio  Silvio,  de  um 
anno.'> 


160  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

5  ....RIO? 
....ONI? 
anu.  'XXV 


É  curiosa  a  circumslancia  da  allileração  nos  nomes  das  quatro  in- 
scripções.  As  que  estão  sob  os  n.*^*  ^  e  4  pertencem  a  pessoas  da 
mesma  gcns.  A  inscripção  n.°  3  está  evidentemente  mutilada.  Da  do 
n.°  f)  só  ponde  ler  o  sr.  Leite  de  Vasconcellos  o  que  vae  em  letlras 
maiúsculas:  a  divisão  das  luilias  é  miulia. 

Saudamos  cordealmente  o  nosso  estimável  collega;  e  auguramos- 
llie  nma  brilhante  caireira. 

A  assignalura  da  Rcrista  Lusitana  pôde  fazer-se  dirigindo  a  cor- 
respondência aos  srs.  Lopes  tí-  C/\  Rua  do  Almada.  119,  Poito.  O 
preço,  poi'  anno,  é  de  ^?>000  lòis  na  Peiíinsiila;  de  1^  francos  no  resto 
da  Europa;  e  de  Gií>000  léis  fortes  no  Brazil. 


.louNAL  DO  DoMiNc.o,  Lilleraliira,  Sciencia,  Artes,  Thealro. —  2.* 
Série.—  Anno  I. 

Merece  elogios  a  empreza  d"este  jornal  pelos  esforços  que  empre- 
ga para  infundir  no  publico  o  gosto  da  litteralura  e  das  artes,  pro- 
porcionando-lhe  semanalmente  uma  agradável  leitura  acompanhada  de 
formosas  gravuras.  Pena  é  que,  talvez  por  motivos  muito  poderosos, 
esta  publicação,  reproduzindo  largamente  monumentos  e  panoramas 
d'oulros  paizes.  tão  raras  vezos  dè  gravuras  i'epresentando  os  monu- 
mentos nacionaes  c  as  [laizageiís  do  nosso  paiz. 

Assigna-se  na  Rua  da  Vinha,  37.  1.°,  Lisboa.  Preço,  por  anno, 
!2?5500  réis;  avulso  00  réis. 


E   HISTÓRICA  161 


D.  MECIA  LOPES  DE  HARO 

Vou  dizer  d'uma  mulher  que  se  tornou  famosa,  assim  por  sua  ex- 
tremada formosura,  como  pelo  seu  ruim  e  aventureiro  caracter;  mu- 
lher em  quem  se  dava  um  perfeito  contraste  entre  o  physico  e  o  mo- 
ral :  um  rosto  adorável  pela  belleza,  um  coração  abominando  pela  per- 
fídia. 

Não  é  decerto  um  phenomeno  extraordinário  este  notável  ajunta- 
mento ou  concurso  de  dotes  physicos  com  os  defeitos  moraes ;  do  mes- 
mo modo  que  o  contrário  se  dá  também  em  egual  numero:  um  espi- 
rito gentil,  a  intelligencia,  a  virtude,  num  corpo  débil,  imperfeito,  en- 
fezado. Parece  que  é  normalmente  invencivel  para  as  forças  da  natu- 
reza o  produzir  um  ente  absolutamente  perfeito ;  parecendo  por  con- 
seguinte necessária  essa  opposição  de  predicados,  essa  compensação, 
esse  equilíbrio,  para  a  existência. 

Sendo  pois  frequentes  estes  contrastes,  observar-se-ha  que  melhor 
compete  á  physiologia  o  estudar  esses  seres  como  indivíduos  de  es- 
pécie humana,  do  que  á  historia  o  consideral-os  como  membros  so- 
ciaes.  E  assim  é  em  geral.  Mas,  quando  uma  d'essas  singulares  indi- 
vidualidades tem  occupado  sua  alta  posição  na  escala  social,  quando 
ella  pela  concorrência  das  circumstancias  tem  desempenhado  um  pa- 
pel importante,  influindo  poderosamente  nas  modificações  politicas 
d"uma  nação,  neste  caso  é  á  historia  que  principalmente  pertence  o 
exaniinal-a,  apiesdiíiciiníu-.i  cm  toda  a  iiadez  da  verdade. 

Uma  d'essas  individualidndes  é  D.  Mecia  Lopes  de  Ilaro. 

A  formosura  desta  mulher  captivou  quantos  a  conheceram  e  fez 
a  desgraça  de  alguns;  a  sua  ambição  do  poder  fez  com  que  praticasse 
uma  traição  vilissima,  com  que  se  tornasse  culpada  da  mais  abominá- 
vel ingratidão. 

E  esta  mulher  que  apenas  conheceu  no  amor  a  sensualidade,  e  na 
nobreza  o  orgulho;  esta  mulher  para  quem  o  dever  era  somente  a 
obtenção,  para  quem  o  reconhecimento  era  incomprehensivel,  esta 
mulher,  embora  descesse  dum  throno,  foi  viver  abastada  e  respeitada 
na  sua  pátria,  sem  nunca  ter  dado  uma  lagryraa  àquelle  que  ella  ar- 
rojara para  terra  extranha. 

I 

D.  Mecia  foi  filha  do  senhor  de  Biscaya,  D.  Lopo  Dias  de  Haro,  co- 
gnominado o  Cabeça  Brava,  e  de  sua  mulher  D.  Urraca  Affonso.  Por 
seu  pae  descendia  da  mais  illustre  nobreza  vascongada ;  por  sua  mãe 
vinha  de  Affonso  IX  de  Leão  por  bastardia.  Houve  já  (e  mais  d'um  es- 
criptor)  quem  julgasse  que  D.  Mecia  fora  filha  illegitima  de  D.  Lopo. 
Essa  opinião  baseava-se  na  seguinte  phrase  do  Chronicon  Alcobacense 
que  diz  ad  eram  1224:  «...  Sanchium  capelum  qui...  duxit  enim 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N.°  II  —  Novembro  1887.  ii 


162  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

quandara  uxorem  de  uiliore  genere»  ;  e  ainda  se  fundava  em  que  o 
seu  nome  não  apparece  entre  os  filhos  do  senhor  de  Biscaya,  no  titu- 
lo que  a  este  respeita  no  Livro  das  Liiihcujeus  chamado  do  conde  D. 
Pedro.  Mas,  não  só  noutra  passagem  do  mesmo  livro  D.  Mecia  é  men- 
cionada como  íilha  de  D.  Lopo  e  da  mulher  d'este,  senão  que  um  do- 
cumento publicado  por  Gudiel  tira  todas  as  duvidas  a  tal  respeito.  É 
esse  documento  um  recibo,  passado  pela  viuva  do  Cabeça  Brava,  á 
Ordem  de  Sanl'I;igo,  do  pagamento  de  certa  quantia  que  seu  marido 
emprestara  ;  alii  figuram  os  filhos  da  nobre  dama,  entre  os  quaes  se 
encontra  o  nome  de  D.  Mecia  e  o  do  marido  d'esta  D.  Álvaro  Perez 
de  Castro.  Se  D.  Mecia  fosse  filha  illegitima,  certamente  não  seria  ella 
incluida  pela  mulher  de  seu  pac  entre  os  seus  próprios  filhos.  Era  pois 
a  formosa  biscaynha  parente  em  quarto  grau  de  Sancho  II  de  Portu- 
gal, sendo  terceira  neta  de  Affonso  Henriques. 

Dos  primeiros  annos  de  D.  Mecia  nada  se  sabe.  Deve  porém,  conje- 
cturar-se  que  recebeu  uma  educação  adequada  á  nobreza  da  sua  famí- 
lia, uma  das  mais  notáveis  da  Ilispanha.  Se  ella  passou  a  infância  na 
Biscaya,  se  na  corte  do  rei  de  Leão,  não  se  sabe ;  mas  talvez  não  se- 
ja muito  arriscado  suppòr  que  D.  Mecia  assistiu,  durante  a  infância, 
mais  tempo  na  corte  do  que  na  Biscaya. 

As  mais  antigas  noticias,  que  se  encontram  acerca  da  formosa  filha 
do  Cabeça  Brava,  referem-se  ao  seu  primeiro  consorcio^,  deixando-nos 
todavia  entrever  que  teve  uma  mocidade  muito  agitada. 

Conservou-nos  o  Livro  das  Linhagens  como  que  os  preliminares  do 
seu  enlace  com  Álvaro  Perez.  Se  todas  as  peripécias  alli  narradas  são 
inteiramente  exactas,  coisa  é  que  não  ha  meio  de  ser  averiguada;  em- 
bora, porém,  a  tradição  revestisse  com  mais  ou  menos  atavios  o  facto, 
não  é  razoável  negar  de  todo  o  credito  ao  antigo  genealogista. 

D.  Álvaro  Perez  de  Castro,  filho  de  D.  Pedro  Fernandez  de  Castro, 
de  sobrenome  o  Castellão,  e  casado  com  Aurembiax,  condessa  de  Ur- 
gel,  havendo  tido  desavenças  com  o  rei  de  Castella,  passou  ao  campo 
dos  moiros,  facto  este  que  tem  muitos  similares  e  ben:  conhecidos  na 
historia  da  península  medieval,  para  que  me  detenha  a  falar  d'elle.  D. 
Álvaro  Perez  estava  na  villa  de  Paredes  de  Nava,  de  que  era  senhor, 
como  das  de  Cigales,  Mucientes  e  outras,  quando  tropas  do  rei  caste- 
lhano o  foram  cercar,  commandadas  pelo  Caberá  Brava.  O  senhor  de 
Paredes  era  homem  corajoso  e  destemido,  e  conforme  diz  o  Livro  das 
Linhagens  «tam  grande  e  tam  gordo  que  nom  pôde  teer  em  aquella 
lide  (de  Enxarez  de  Sadornini)  senom  luiuma  falifa  delgada  e  huuma 
vara  na  mão».  Fazendo  pouco  ou  nenhum  caso  das  companhas  inimi- 
gas, por  irrisão  poz  em  torno  das  muralhas  barreiras  de  seda,  dizen- 
do :  «que  nunca  outro  muro  meteria  amtre  ssy  e  aquelles  que  a  elle 
quizessem  viir» ;  «e  isto  foy  (prosegue  o  Livro)  porque  era  namorado 
da  rainha  dona  Meçia  Lo[)ez. .  .  com  que  depois  casou». 

D.  Lopo  de  llaro  levara  para  o  campo  sua  (Ilha  D.  Mecia,  a  quem 


E  HISTÓRICA  i63 


lambem  andava  cortejando  D.  Marfim  Sanches,  o  famoso  filho  de  San- 
clio  I  e  de  I).  Maria  Ayres  de  Furnellos.  Não  se  compreliende  muilo 
Ijem  que  I).  Lopo  andasse  acompanhado  da  íillia  duianle  os  combales 
que  linlia  a  ferir ;  mas  o  que  é  certo  é  que,  por  muitos  outros  factos, 
que  tornam  este  probabilissimo,  se  sabe  tei'  U.  Mecia  um  caracter 
essencialmente  aventureiro,  como  algumas  outras  damas  dessas  epo- 
chas  guerreiras,  as  (juaes  eram  dominadas  pelo  espiíilo  do  (empo  e 
que  estão  symbolisadas  no  romance  popular — a  donzdla  (jue  vae  jiara 
a  guerra.  Auctorisa  ainda  esta  apreciação  do  caracter  de  U.  Mecia  um 
facto  que  a  tradição  aponta  como  succedido  alguns  annos  mais  tarde, 
e  de  que  será  feita  menção  em  seu  logar.  Ha  mais,  porém,  a  conside- 
rar que,  achando-se  D.  Álvaro  de  Castro  enamorado  da  biscaynha, 
talvez  esta  lhe  correspondesse  (como  o  seguimento  parece  mostrar),  e 
portanto  empregasse  os  meios  ao  seu  alcance  para  delle  se  approxi- 
mar. 

O  senhor  de  Paredes  havia  com  toda  a  probabilidade  tomado  co- 
nhecimento com  D.  Mecia  na  corte  de  Aífonso  ix,  onde  é  natural  que 
ella  gostasse  mais  de  viver  do  que  no  isolamento  do  senhorio  de  liis- 
caya.  Ainda  quando  não  houvesse  muitos  outros  e  óbvios  motivos  para 
a  residência  de  U.  Mecia  na  corte,  bastava  o  seu  parentesco  com  o  rei 
para  a  justificar  plenamente. 

Entre  os  sitiantes  de  Paredes  achava-se,  como  fica  dicto,  D.  Martira 
Sanches,  que  tão  célebre  se  tornou,  assim  pelos  grandes  haveres  e  in- 
fluencia que  possuiu,  tOmo  pelos  seus  feitos  d  armas.  Os  Livros  de 
Linagens  consagram  a  este  cavaileiro,  que  «era  hoom  e  moilo  honra- 
do» largos  encómios  e  uma  longa  narrativa  de  suas  acções. 

Sabe-se  quaes  os  resultados  que  tiveram  as  generosas  doações 
feitas  por  Sancho  i  a  seus  filhos  assim  legítimos  como  bastardos,  e 
ás  mães  destes  últimos.  O  egoista  e  cioso  Aflonso  ii  recusou  entre- 
gar-lhes  os  legados  paternos ;  houve  longas  e  renhidas  luctas  e  mui- 
tos dos  filhos  de  Sancho  i  tiveram  de  expatriar-se;  só  terminaram  as 
discórdias  com  a  intervenção  do  papa  Innocencio  ni,  que  fulminou  cen- 
suras e  comminações  sobre  o  rei  leproso,  conseguindo  a  final  uma 
composição  entre  as  partes  litigantes,  que  fizeram  mutuas  concessões. 
Digamos  alguma  coisa  do  filho  de  D.  Maria  Ayres,  que,  como  se  verá, 
não  é  extranho  ao  objecto  d'este  estudo. 

Martim  Sanches,  a  quem  o  pae  legara  oito  mil  morabitinos  em  di- 
nheiro de  contado,  como  a  seus  outros  bastardos,  afora  as  suas  partes 
respectivas  nas  deixas  em  bens  immoveis,  Martim  Sanches  leve  de  ir 
procurar  forluna  fora  da  pátria.  Escolheu  o  reino  de  Leão,  onde  rei- 
nava naquella  epocha  Affonso  ix,  que  era  seu  cunhado,  por  isso  que 
havia  casado  em  111)0  com  D.  Theresa,  filha  de  Sancho  i,  a  qual  tão 
pouca  fortuna  teve,  visto  ser  obrigada  a  separar-se  do  marido  por  in- 
timação de  Clemente  ui,  que  declarou  nullo  o  consorcio  por  impedi- 
mento de  consanguinidade.  A  ex-raiuha  professou  em  Lorvão,  faUe- 


-164  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

cendo  cheia  de  annos  em  17  de  junho  de  1250 ;  e  foi  beatificada  por 
Clemente  xi  em  170o. 

Martim  Sanches  passara  pois  ao  reino  leonez,  constituindo-se  vassa- 
lo do  cunhado,  que  o  nomeou  adeantado  em  terra  de  Leão.  AíTonso  ii 
de  Portuga),  sempre  egoista  e  avai-o,  aili  mesmo  mandou  á  Galliza  al- 
gumas companhas  a  fazer-lhe  penhora  na  terra  de  Lima.  Passou-se  isto 
em  occasião  em  que  JNlartim  Sanches  estava  ausente.  Á  sua  volta,  sa- 
bedor do  acontecido,  fez  reclamar  por  duas  vezes  de  seu  irmão  a  pe- 
nhora sem  razão  feita;  mas,  não  obtendo  nem  da  primeira  nem  da 
outra  vez  resultado  algum  satisfatório,  juntou  quanta  gente  poude  das 
terras  de  Lima,  Torítnho  e  de  Valle  de  Baroncelhe,  e  entrou  em  Por- 
tugal até  Ponte  do  Lima.  Alfonso  ii,  avisado  dos  intenções  do  irmão, 
estava-o  já  alli  esperando,  com  Iodas  as  forças  d'Entre-Douro-e-]Minho, 
e  ainda  d'aquem  Douro.  Antes  de  passar  o  rio,  Martim  Sanches  man- 
dou-lhe  dizer  que  se  retirasse,  que  elle  combatei'ia  toda  a  sua  gente 
«ou  se  nom  que  se  tirase  afora  mais  d"huma  legoa  que  nom  parecese 
o  seu  pendom»,  e  que  elle  lidaria  com  todos  que  ahi  tinha.  Aconselhado 
Atibnso  a  retirar-se  para  Gaya,  assim  o  fez,  retrocendo  primeiro  até 
Santo  Thyrso,  donde  os  seus  barões  voltaram  a  esperar  as  tropas  de 
Martim  Sanches,  indo  acampar  junto  do  mosteiro  da  Várzea  de  Riba 
de  Cadavo,  a  distancia  duma  légua  de  liarcellos.  Chegado  Martim  San- 
ches a  esta  villa,  e  faltando-lhe  o  vinho,  mandou  por  elle  a  Várzea, 
d'onde  lh'o  não  quizeram  enviar,  recebendo  apenas  um  desafio  da 
parte  d'alguns  homens  das  forças  reaes,  que  eram,  entre  outros  Mem 
Gonçalves  de  Sousa,  João  Peres  da  Maya,  e  Gil  Vasques  de  Soverosa 
já  áquelle  tempo  casado  com  D.  Maria  Ayres  e  por  conseguinte  pa- 
drasto de  Martim  Sanches.  Este  poz  logo  em  movimento  as  suas  com- 
panhas, indo  encontrar-se  com  as  do  rei  num  campo  apar  da  Várzea. 
A  lucta  foi  renhida,  mas  curta.  Apezar  dos  esforços  das  tropas  reaes, 
foram  ellas  postas  em  fuga.  Indo-lhe  no  encalço,  caminho  de  Braga, 
o  vencedor  alcançou  Gil  Vasques,  que  de  «espada  en  maão»  ia  cami- 
nhando vagarosamente;  e  travando-lhe  do  braço  e  arrancando-lhe  a 
espada,  disse-lhe:  «já,  padre,  já,  ca  asaz  lidastes»,  deixando-o  em  se- 
guida continuar  seu  caminho.  Emprazado  novamente  pelos  realistas 
para  combater  entre  Braga  e  Várzea,  perto  das  Congostas  de  Braga, 
segunda  vez  os  venceu,  recuando  ainda  elles  até  chegarem  á  porta 
Occidental  da  Sé  d'aquella  cidade.  «E  aali  sô  aquel  portal  que  hy  está 
se  derom  moitas  e  boas  feridas,  e  foy  asi  que  os  ouve  dom  Martim 
Sanchez  a  levar  e  pasarpela  portela  do  espinho  contra  Guimaraães  mal 
a  seu  grado».  Terceira  vez  ainda  os  combateu  e  venceu  em  Guima- 
rães, encerrando  os  na  cidade.  Demorando-se  alli  um  dia,  á  espera  de 
novo  ataque  dos  inimigos,  viu  que  elles  se  davam  por  satisfeitos  com 
as  perdas  já  soffridas;  e  então  regressou  á  Galliza  levando  grande 
presa,  e  muitos  prisioneiros,  a  quem  generosamente  deu  liberdade. 
Martim  Sanches,  que  assistiu  á   celebre   lide  de  Telhada,  teve  de 


E   HISTÓRICA  165 


AÍToiíso  IX  (jualro  condados,  um  d'elles  o  de  Traslamara  em  lença  vi- 
lalicia,  6,  como  disse,  o  cargo  de  adeanlado  da  ílalliza  em  quanto  vi- 
veu. Foi  enterrado  em  «('ofinos»,  numa  villa  da  ordem  do  Hospital  em 
terra  de  Campos. 

A  presença  de  Martim  Saiiclics  no  cerco  de  I>aredes  foi  motivada 
pela  de  D.  Mecia,  a  tjuem  cortejava  e  seguia  incessantemente,  ao  que 
parece.  D.  Mecia  não  corriíspondia  decerto  aos  requestos  do  portu- 
guez;  pelo  contrário,  deprehende-se  da  narrativa  do  Livro  das  Linha- 
gens que  ella  lhe  preferia  D.  Álvaro  de  Castro,  o  que  os  acontecimen- 
tos confirmaram.  Mas,  ou  porque  na  sua  garridice  folgava  com  rece- 
ber as  adorações  ardentes  de  D.  Maitim,  ou  poríjue  se  queria  servir 
d'elle  para  melhor  accender  a  paixão  do  outro  (como  julgo  mais  pro- 
vável) ia  aceitando  ostensivamente  os  incensos  do  íilho  de  Sancho  i. 

D.  Mecia,  que  demorava  como  facilmente  se  comprehende  fora  do 
cerco,  eslava  um  dia  na  sua  tenda,  jogando  o  xadrez  com  o  seu  adora- 
dor D.  Martim  Sanches.  Mandara  erguer  o  panno  da  tenda  do  lado  da 
villa,  tomando  como  pretexto  a  calma  ou  o  regosijo  da  vista;  mas  na 
verdade  isto  era  pura  estratégia.  O  xadrez  era  o  pretexto;  o  verda- 
deiro jogo  era  a  fralda  da  tenda  levantada.  Correspondendo  á  paixão 
do  senhor  de  Paredes,  desejosa  de  conseguir  quanto  antes  o  seu  fim, 
talvez  mesmo  já  farta  ou  aborrecida  dos  requestos  e  perseguições  do 
ardente  D.  Martim,  tractava  de  despertar  os  zelos  no  coração  de  D. 
Álvaro.  Se  tal  foi,  como  [)arece,  a  sua  intenção,  o  estratagema  surtiu 
o  pretendido  effeito.  O  senhor  de  Paredes,  acceso  em  amor  e  ciúmes, 
ao  ver  de  longe  aquella,  cuja  belleza  o  captivàra,  conversando  tão  ale- 
gre e  intimamente  com  um  rival,  armou-se  num  momento,  montou  no 
seu  corsel,  e  dum  galope  chegou  á  tenda,  disposto  a  um  recontro 
com  Martim  Sanches."  Este,  que  "estava  apenas  vestido  de  saio  e  manto, 
vendo  repentinamente  approximar-se  o  castelhano,  ergueu-se  rápido 
e,  sem  tempo  de  armar-se,  lançou  mão  d'uma  lança  e  dum  escudo, 
que  estavam  encostados  a  um  dos  esteios  da  tenda ;  e  arremettendo  logo 
contra  D.  Álvaro,  deu-lhe  tão  forte  lançada,  que  o  ferro  atravessou- 
Ihe  o  escudo,  o  porponto  e  a  loriga,  chegando  ainda  a  feril-o.  A  van- 
tagem era  todavia  toda  da  parte  do  Castro,  assim  porque  estava  arma- 
do, como  porque  estava  a  cavallo.  1).  Álvaro,  porém,  soube  conter-se, 
ou  por  não  querer  abusar  da  sua  posição  vantajosa,  ou  porque  lhe  re- 
primiu o  Ímpeto  um  olhar  da  bisca}  nha.  Talvez  mesmo  que,  reconhe- 
cendo o  perigo  que  podia  correr  no  campo  inimigo,  demorando-se  alli, 
desistisse  de  levar  por  deante  naquella  occasião  o  seu  intento.  Como 
quer  que  fosse,  respondeu  á  aggressão,  batendo  fortemente  com  o 
conto  da  lança  no  escudo  do  portuguez,  e,  dando  costas,  regressou  à 
villa. 

A  rivalidade  entre  os  dois  ricos-homens  não  teve  seguimento.  D. 
Álvaro  casou  com  D-  Mecia,  e  D.  Martim  tomou  por  mulher  D.  Elo 
ou  Olalha  (Eulália),  irmã  do  primeiro. 


166  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

O  caso  do  cerco  de  Paredes  combinado  com  esta  phrase  d'uma  an- 
tiga cliroiiica  :  «...  la  reyna  dona  meneia,  que  dizian  de  paredes...», 
da  a  intender  que  a  íilha  de  D.  Lopo  de  llaro  se  tornou  muito  céle- 
bre por  aquelle  successo,  conduzindo  tudo  á  snpposição  de  que  o  seu 
procedimento  não  foi  inteiramente  irreprehensivel,  o  que  factos  pos- 
teriores parecem  coníirmar.  Como  quer  que  fosse,  D.  Mecia  casou 
pouco  depois  do  cerco,  ainda  em  1Í227,  com  D.  Álvaro  Peres,  que 
repudiou  a  sua  primeira  mullier  a  condessa  de  Urgel.  Ignora  se  se  o 
senhor  de  Paredes  eslava  já  ou  não  enamorado  da  biscaynlia,  ao  tempo 
do  repudio ;  mas  é  provável  que  fosse  a  nova  paixão  a  causa  deter- 
minante d'elle.  A  condessa  d'Urgel  casou  no  anno  seguinte  com  o  fa- 
moso D.  Pedro,  filho  de  D.  Sancho  i,  que  chegou  a  ser  rei  das  Ba- 
leares sob  a  suzerania  de  Jayme  i  de  Aragão  (1230-1244). 

BOUGES  DE  FlGUI£II\EDO. 


NUMISMÁTICA  PORTUGUEZA 
D.  Aflonso  V 

(Continuado  do  n."  9 — pag.  1S5) 

No  principio  do  nosso  artigo  publicado  no  n.°  O  da  Revista,  pro- 
mettemos  fallar  de  três  espadins,  mas  depois  de  escripta  aquella  parte 
do  artigo,  obtivemos  outro  de  que  vâmos  íulla."  também. 

Dos  quatro  espadins,  um  é  de  Lisboa  e  três  são  do  Porto. 

A  moeda  espadim,  foi,  segundo  Eannes  de  Azurara,  chronista  de 
D.  Aflonso  V,  cunhada  para  substituir  o  real  branco,  sendo  comtudo 
inferior  a  esta  moeda.  O  espadim  é  ainda  uma  moeda  commemorativa 
da  instituição  da  ordem  da  Torre  e  espada,  creada  por  D.  Aflonso  v, 
para  honrar  os  conquistadores  de  Fez.  É  d 'aqui  que  provavelmente 
tira  origem  o  seu  nome,  a  despeito  da  lenda  do  astrólogo  dos  mouros, 
que  com  a  sua  instituição  liga  Severim  de  Faria. 

Não  fallando  no  pequeno  espadim,  que  com  o  n.°  16  da  est.  xi, 
apresentou  o  sr.  Aragão,  que  mais  parece  pela  simplicidade  do  cunho 
e  pela  reducção  do  pezo  meio  espadim,  ha  três  espadins  citados  por 
este  distincto  numismata,  com  os  quaes  vamos  comparar  os  quatro  que 
DOS  vieram  parar  ás  mãos. 

O  primeiro  que  o  sr.  Aragão  descreve  sob  o  n.°  13  da  est.  xi, 
tom.  I  da  sua  obra,  é,  est.  xvi,  fig.  1 : 

«í<  D  o    I    A  L  F  o  N  S  V  S    i:)  E  I  °  R  A  C  I  E  =  R  E  •  —  No  ceutro 

de  quatro  arcos,  cantonados  por  quatro  pontos,  uma  espada,  com  a 
mão  segnrando-a  pela  folha ;  no  campo,  á  esquerda  entre  ires  pontos, 
um  A  (Alfonsusj. 


E  HISTÓRICA  167 


í^.  ^   V  I  V  T  O  K  1  V  A  :    N  O  N  :    1)  I  F  K  C  1  T  "  —  NoS  mesiDOS 

arcos  como  tem  o  anverso,  o  escudo  com  a  cniz  de  Aviz,  qualro  cas- 
lellos  e  as  quinas.  Pesa  :i9  grãos.  Espadini,  li.—  I,>0(J()  réis.» 

O  espadim  que  vamos  descrever  e  que  nos  pertence,  tem  o  mesmo 
ornato  d'esle,  mas  dilíere  nuiilo  na  legenda,  est.  xvi,  íig.  2: 

>.I<  ALFONSVS  :  Di:i  :  GRACIK  R E G I s •  —  No  centro  de 
qualro  arcos  duplos  ligados  iiileriornieiile  por  (piatro  aiuieis,  e  lendo 
outros  quatro  por  fora  das  ligações,  uma  mão  segurando  uma  espada 
verticalmente  pela  folha,  logo  abaixo  dos  copos;  á  esquerda  no  campo 
um  A  (Alfoíisus)  entre  três  pontos. 

^.  ^  ADJVTORIVM  :  NOSTRVM  :  I N  ;  N  —  Nocentro 
dos  mesmos  (juatro  arcos  du[)los,  mas  sem  os  ainicis  interiores,  o  es- 
cudo com  a  cruz  de  Aviz,  quatro  ca^lellos  e  interiormente  as  quinas. 
Pesa  4^  grãos.  Espadim,  li. 

São  essenciaes  as  dilTerenças  nas  legendas,  para  conhecer  as  quaes 
basta  a  simples  leitura  Estas  moedas,  embora  não  tenham  a  letlra  in- 
dicativa da  fabrica,  podem  considerar-se  de  Lisboa,  onde  havia  o  maior 
fabrico,  deixando-se,  muitas  vezes,  como  se  vè  n'outros  exemplares, 
de  fazer  a  indicação  do  iogar  do  fabrico. 

A  segunda  moeda  do  sr.  Aragão,  n.°  14  da  est.  xi,  tora.  i,  que 
também  reproduzimos  é,  est.  xvi,  fig.  3: 

«•ALFO:  REIS  l^ORTVGAl;  F-  —  No  centro  de  qua- 
tro arcos  cantonados  por  quatro  anneis,  a  mão  segurando  a  espada 
pela  lamina,  de  ponta  para  baixo;  no  campo  á  esquerda  entre  Ires 
pontos  a;  em  baixo  p  (Porto). 

íi.  A I V  T  o  :  R  E  s  =  N  O  s  :  c  V  I  F  E  c  I  •  —  No  ceutro  o  mes- 
mo da  anterior,  que  está  sob  o  n.°  "2.  Pesa  38  Va  grãos.  Espadim,  B. 
—  1:>500  réis.» 

Podemos  comparar  com  este  espadim  do  Porto,  duas  moedas  per- 
tencentes ao  sr.  Júdice  dos  Santos,  que  nas  mesmas  condições  das  figg. 
n."*  1  e  i,  tem  variantes  nas  legendas. 

D'estas  duas,  a  primeira  é,  est.  xvi,  fig.  4: 

>h  A  L  F  o  N  S  V  5  :  DEI  ;  G  R  A  Cl  A  :  RE—  Como  a  figura  n.° 
2,  tendo  a  mais  na  parte  inferior  do  campo,  á  direita  da  espada  a  let- 
tra  p  (Porto),  indicativo  da  fabrica. 

Ê.  ^  ADJVTORIVM  [NOSTRVM  I  ;  D  O  —  Como  na  figu- 
ra n.°  2.  Peza  36  grãos.  Espadim.  B. 

A  segunda,  est.  xvi,  fig.  5  : 

^AFONSUS  GRACIA  RE::  —  Como  na  fig.  n."  2,  mas 
com  um  p  á  direita  da  espada  e  na  parte  inferior  do  campo. 

íí.  ^  A  D  J  V  •  O  R •••  R  :  IN  :  I  N  o  S  T  —  Gomo  O  reverso  da  fi- 
gura n.°  2.  Pesa  2()  grãos.  Espadim.  B. 

O  terceiro  espadim  descripto  pelo  sr.  Aragão  é  o  que  na  legenda 
tem  a  palavra  d  U  Cl  A  S,  e  que  vem  na  est.  xi,  tom.  i  da  sua  obra, 
sob  o  n."  15,  que  nós  reproduzimos  na  est.  xvi,  fig.  6: 


168  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

«ALFON;  RES^PROTUG^DUCIAS—  No  Cenlro  O 
mesmo  da  fig.  n.°  3. 

í^.  O  mesmo.  Pesa  40  grãos.  Espadim,  B. —  II^^OOO  réis.» 

O  nosso  quarto  espadim  é,  est.  xvi,  fig.  n.°  7,  o  seguinte: 

alfon:  res;  protug;  d  u  cias— O  mesmo  que 
as  figuras  n."*'  4  e  5, 

í^.  A  D  j  V  T  o  R  1  V  N  ;  N  o  s  T  R  V  N  :  Q  V  I  ;  F  •  —  Reverso 
lambem  como  as  figuras  n.°^  4  e  5.  Pesa  32  grãos.  Espadim. 

Estas  duas  moedas  são  eguaes  no  anverso  e  só  no  reverso  é  que 
variam  um  pouco  na  legen  la. 

Os  cciíis  de  que  promettemos  também  descrever  alguns  exempla- 
res, são  moedas,  de  pequeno  valor,  e  começadas  a  cunhar  na  dynastia 
de  Aviz. 

D.  João  I  foi  o  monarcha,  que  primeiramente  a  mandou  cunhar, 
segundo  parece,  depois  da  tomada  de  Ceuta,  d'onde  querem  originar 
o  nome  d'esta  moeda,  destinada  a  ter  alli  o  seu  curso. 

Sobre  este  ponto  quem  nos  podia  dizer  alguma  cousa  era  Fernão 
Lopes,  mas  nada  nos  diz  de  positivo. 

O  sr.  Aragão  descreve  onze  variedades  de  ceitis. 

Não  é  esta  uma  moeda,  cuja  raridade  torne  importante  conhecer- 
se  e  estudar-se  cuidadosamente  qualquer  pequena  modificação  de  le- 
genda ou  de  typo,  porque  é  grando  a  varirdailo  de  leuendíis  no  mes- 
mo typo,  e  variam  também  os  typos  com  a  mesma  legenda.  Mas,  foi 
uma  moeda  corrente,  pertence  como  qualquer  outra  á  numária  portu- 
gueza,  e  a  obrigação  do  numismata  é  descrever  e  estudar  a  nioeda, 
por  mais  abundante  que  seja,  por  menos  valor  intrínseco  ou  desesti- 
mação  que  tenha. 

As  proporções  d'esta  publicação  é  que  nos  não  permitte  apresen- 
tar um  detalhado  estudo  sobre  as  variedades  que  lemos.  Ainda  assim 
fallaremos  de  Ires  exemplares  mais  interessantes. 

Variam  muito  os  ceitis  d'este  reinado  na  disposição  e  forma  dos 
castellos,  substituição  feita  ás  letras  do  nome  do  monarcha  como  ti- 
nham os  dos  dois  reinados  anteriores. 

Os  que  tem  a  inicial  do  fabrico  L,  p  ou  c,  mostram  que  estes  fo- 
ram cunhados  em  Ires  logares,  Lisboa,  Porto  e  (talvez)  Ceuta. 

O  primeiro  que  vamos  descrever,  est.  xvi,  fig.  8,  tem  os  castel- 
los semelhantes  ao  ceitil  que  o  sr.  Aragão  descreve  com  o  n.°  29  da 
est.  xn  do  tom.  i,  mas  tem  o  que  não  vimos  em  mais  nenhum,  as 
duas  legendas  começadas  por  ajvtorivm. 

>í4ADJVT0RIVm:  no;  qvi;  feg-—  Escudo  com  as 
quinas  contornadas  por  quatro  castellos  sobre  a  cruz  d'Aviz. 

í^.  ^  A  D  J  V  T  O  R  I  V  M feg—  Tres  toi-res 

n'um  recinto  defendido  por  uma  muralha  que  é  batida  pelo  mar.  Pe- 
sa 28  grãos.  JE,  Ceitil. 

Outro,  est.  xvi,  fig.  9: 


E   HISTÓRICA  i69 


>i<  A  I.  F  O  •  p  O  R  T  u  G  A  1. 1 1-:  R  E  X  —  O  escodo  das  quinas 
conlornado  por  quatro  caslellos  sobre  a  cruz  de  Aviz. 

i"^.  ^  A  I.  F  •  ►í^  D  F  P  O  R  r  •  1)  o  M  I  N  \'  s  —  Tres  torres  es- 
guias, dentro  dum  recinto  cercado  por  muralhas  Itanhadas  pelo  mar. 
Pesa  4<S  grãos.  .¥..  deitil. 

O  ultimo,  est.  xvi,  lig.   10: 

til  A  F  F  :  R  F  X —  Como  na  fig,  H. 

n).  >i<  A  J  V  T  o  R  I  V  M -  Como  o  anverso  da 

fig.  8.  Pesa  'M)  grãos.  .]■].  Ceitil. 

Algumas  dilícrenças  que  existom  ainda  no  fabrico  (Us  moedas  que 
comparámos,  são  de  menos  importância,  e  deixámol  as  á  apreciação 
do  leitor  em  presença  dos  desenhos. 

M.  ALEXANnilK  DR  SorsA. 


VISITAÇÃO  A  EGREJA  DK  S.  JOÃO  DO  M(  )CHARRO 

D'OBIDOS 

por  D.  JOiífl,  bispo  de  Çulim,  em  nome  do  arcebispo  de  Lisboa, 
aos  2  de  jiiiibo  de  1473 


Toniiiiiaila  a  visitação  do  carileai  (rAipcilrinha,  e  em  comprimento  da  promessa 
feita  na  adverteiifia  que  a  prereileu  ípaj,'.  t-íO).  vão  sejriiir-se  os  tiliilos  d"ouh-a  visi- 
tação, feita  por  I).  João.  i)is|)o  de  Çaliiii.  lmii  iioiiie  do  arceliispo  de  Lisboa,  tituios 
que  se  não  encontram  na  do  rardeal,  ou  em  que  ha  taes  variantes  (|ui'  podem  ser 
considerados  como  inteiramente  dilVerenles.  .Ajimtei  a  numeração  dos  tituios,  para 
facilitar  a  consulta  e  as  citações,  mas  não  correspondem  aos  da  visitação  do  car- 
deal. 


B.  de  F. 


Sam  loliam  doobidos 


que  ensinem  o  pater  tioster  e  o  credo  in  deiim  e  os  precepíos  e  os  ar- 
tiigos  da  fe  e  os  bii'^  pecados  mnrtaaes  * 

7 

e  amoestareesos  dictos  freegueses  que  tomem  os  sacramentos  que  sam 
de  neçesidade,  a  saber,  baulismo  pendença  comunbam  crisma  e  estre- 
ma vnçam  e  mandamos  aos  dictos  freegueses  sob  penna  de  escomunham 
que  nom  fazendo  uos  o  que  diclo  lie  que  noilo  façam  saber  ou  a  nos- 
sos visitadores  quando  as  dietas  igreias  forem  visitar  pêra  nos  tornar- 
mos a  ello  com  direito  e  vos  darmos  aquella  penna  que  por  ello  me- 
recerdes e  esto  se  entenda  nos  dias  em  (]ue  nom  ouuer  preegaçam 
em  a  dieta  igreia  ou  alguum  outro  iusto  impedimento  per  que  se  bem 
nom  possa  fazer. 

*  Todas  as  epigraplies,  ate  ao  titulo  'tti  inclusive,  são  de  lettra  dilferente  da  do 
texto,  mas  do  mesmo  tempo. 


170  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 


como  am  de  pontar  os  iconimos  e  os  bcnc/içiados 

38  liem  porquanto  achamos  que  as  igreias  eram  mall  seruidas  por 
causa  dos  beneficiados  e  iconimos  se  acuparem  (sic)  em  outras  cousas 
e  nom  em  as  ser  iiir  mandamos  geeralmente  em  todo  o  dicto  nosso  ar- 
cebispado (pie  [)ellos  reetores  e  beneficiados  de  cada  huma  igreia  seia 
enlejido  hnnm  que  aponte  aquelles  que  nom  ueerem  aas  oras  e  misas 
(sic)  o  quaal  .-ipontará  os  que  nom  sernirem  e  as  missas  e  oras  que 
errarem  o  quaal  apontador  asomará  (sic)  todo  o  que  remderem  os  be- 
nefiçios  da  dieta  igreia  e  aluidrai"á  o  que  vem  a  cada  huum  em  cada 
hunni  dia  e  fará  do  que  montar  em  cada  huum  dia  trres  (sic)  partes 
e  o  beneficiado  que  errar  as  matinas  perderá  huma  das  dietas  partes 
e  se  errar  a  missa  do  dia  perderá  a  outra  parte  e  se  errar  a  uespera 
perderá  a  outra  asy  que  por  cada  huma  destas  oras  que  errar  perde- 
rá a  terça  parte  e  mandamos  ao  dicto  apontador  que  todas  as  dietas 
factas  (sic)  desde  o  dicto  anuo  atee  o  sam  ioham  em  que  elle  acabar 
seu  anno  as  entregue  ao  prioste  que  vier  pêra  o  anno  seguinte  o  qual! 
prioste  reteerá  em  sy  todos  os  fructos  daqnelles  que  mall  seruirem  o 
dicto  anno  e  os  reparta  antre  lodos  segundo  que  cada  huum  seruir  e 
se  os  beneficiados  nom  fezerem  apontador  do  dia  de  sam  ioham  a  quin- 
ze dias  auemollos  por  condanados  (sic)  em  mill  reaes  se  ho  apontador 
nom  fezer  o  que  dicto  he  auemollo  por  condanado  em  quinhentos  reaes 
todo  pêra  nossa  chancelaria  e  se  o  dicto  prioste  nom  reteuer  os  fru- 
ctos que  perca  todo  o  que  lhe  montar  em  o  dicto  priostado  o  dicto  an- 
no de  seu  salairo  e  este  apontamento  mandamos  asy  fazer  no  groso 
(sic)  dos  dictos  benefiçios  sem  embargo  do  que  temos  hordenado  acer- 
ca do  camtar  das  capellas  e  aniversairos. 

que  quando  sse  jinar  alguum  leigo  probe  (sic)  que  todos  os  creligos 
ssejarn  hy  iunlos 

89  Item  Achamos  que  quando  quer  que  alguum  freegues  dalguma 
igreia  pobre  se  fina  que  porquanto  a  oferta  que  se  com  elle  leua  he  pe- 
quena e  aas  vezes  nenhuma  os  beneficiados  das  dietas  igreias  nom 
querem  hir  a  tall  finado  e  asy  nom  acham  quem  no  (siê)  enterre  e 
querendo  nos  a  ello  proueer  mandamos  que  qualquer  beneficiado  que 
sem  legitima  causa  leixar  de  hir  ao  enterramento  de  tall  finado  que 
perca  todo  o  que  em  o  dicto  dia  gaanhar  em  a  dieta  igreia  e  lhe  mon- 
tar dauer  do  beneficio  que  teuer  em  ella. 

como  as  capellas  seiam  ssegundo  cuslumc  da  terra,  a  saber,  huum 
alqueire  de  trigo  por  misa,  e  dous  alqueires  de  ssegnnda  por  misa,  e 
huum  almude  de  vinho  por  misa,  e  meo  alqueire  de  azeite  por  misa 

40  Item  por  darmos  bordem  em  maneira  como  as  capellas  que 
sam  situadas  em  cada  huma  igreia  do  dicto  noso  arcebispado  seiam 
cantadas  conlbrmandonos  com  o  ciistume  antiigoo  delle  mandamos  que 
se  tenha  no  cantar  delias  esta  maneira,  primeiramente  que  todollos 
priostes  das  dietas  igreias  recolham  cm  sy  lodo  o  pam  vinho  azeite 


E  HISTÓRICA  171 


dinheiros  e  foros,  a  saber,  carneiros  porcos  e  aues  e  lodallas  outras 
cousas  e  nicolliido  asy  lodo  asoincin  (jiiainlas  missas  se  podctii  dizer 
pellos  diclos  liiictos  pa-íaudo  por  missa  alipjeire  de  Iriijío  ou  dous  de 
segunda  almude  de  viulio  meo  ah^neiíe  dazeile  e  do  dintieiro  segundo 
costume  do  arçehispado  avaliando  os  diclos  f(-ros  segundo  (jue  valerem 
pelo  estado  da  terra  e  iia  pa^ia  das  dietas  missas  se  teerá  esta  ma- 
neira a(iuelle(|U('  lor  apontador  dds  cousa  (es  (.svV)  screftucia  a(|Uf'llas  mis- 
sas ipiu  se  diserem  (sic)  (!  aípielles  (jue  as  dizem  segundo  iguall  des- 
Iribuiçam  antre  lodollos  heneliçiados  de  cada  liuma  igreia  ípie  forem 
de  missa  e  asy  como  cada  hmim  lener  cantado  asy  lhe  pagará  pcllo 
modo  suso  dicto  e  ante  do  sam  ioliam  huuu)  mes  fará  cnmta  daijucl- 
las  missas  (jue  ficarem  por  dizer  e  se  achar  que  atpielhis  (jue  as  ou- 
uerem  de  dizer  sam  inpedidos  (pie  as  nom  podeiam  acahar  de  dizer 
alee  o  dicto  dia  de  Sam  ioiíam  repartaas  pellos  que  forem  presentes 
e  forem  desacupados  pêra  as  poderem  dizer  em  tall  modo  que  as  di- 
etas missas  seiam  todas  dietas  atee  o  dicto  (ha  de  sauí  ioliam  e  acon- 
tecendo (jue  pasado  (siv)  o  dicto  dia  algumas  ficasem  |)or  cantar  per 
negrigencia  dos  dictos  benefi(;iad()s  mandamos  que  entam  se  tomem 
tantos  creligos  de  fora  que  as  cantem  ataa  huum  mes  despois  de  sam 
ioham  e  alguum  beneficiado  das  dietas  igieias  as  nom  posa  mais  can- 
tar pois  as  nom  cantaram  dentro  no  tempo  (jue  eram  obrigados,  epor- 
quamto  achamos  que  em  algumas  igreias  as  dizimas  dos  beens  das 
capellas  com  os  h-uctos  e  rendas  delias  iuntamente  hiiam  a  Inmm  ce- 
leiro e  se  cantauam  o  que  he  contra  rezam  (sic)  e  direito  porquanto 
as  dietas  dizimas  nom  sam  obrigadas  ao  cantar  das  dietas  capellas 
mandamos  que  daqui  em  diamle  a  dizima  dos  bens  das  dietas  capei- 
las  vaa  ao  celeiro  comum  da  dieta  igreia  pêra  se  re|)artirem  segundo 
se  partem  as  outras  dizimas  e  das  rendas  das  dietas  capellas  se  faça 
o  que  dicto  he. 

que  o  prioste  nom  dem  (sic)  a  benc/iriiado  nem  a  konimo  nenhuma 
cousa  atees  (sic)  rjue  dem  fiança. 

41  Item  mandamos  a  lodollos  os  priostes  das  dietas  igreias  que 
nom  dem  fructos  alguuns  a  benPÍi(;iados  nem  iconimos  que  mereçi(3os 
nom  tenliam  sem  lhe  primeiro  tomar  fiança  abastante  pêra  serviço  de 
todo  lio  anno  das  dietas  igreias  e  morrendo  al2[uum  dos  dictos  bene- 
íiçiados  ou  nom  seruindo  a  dieta  igreia  que  o  dicto  prioste  pague  os 
dictos  fructos  que  asy  der  sem  fiança  de  sua  casa. 

aquelle  que  aleuantar  arroido  no  coro,  o  reetor  tenha  carrego  delia 

42  Item  porque  achamos  que  as  oras  canónicas  eram  mall  camta- 
das  porque  os  beneficiados  falavam  muito  no  coro  e  aleuantavam  mui- 
tos aroidos  (s/c)  dizendohuuns  aos  outros  muitas  palavras  iniuriosas  po- 
rém querendo  nos  a  esto  proueer  mandamos  aos  reetores  das  dietas 
igreias  que  façam  rezar  as  dietas  oras  apontadamente  e  nas  oras  con- 
uenientes  e  quallquer  beneficiado  que  fallar  em  o  dicto  coro  sobeia- 
mente  em  outras  cousas  senom  no  que  pertençeer  ao  rezar  que  per- 


172  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

ca  aqiielle  dia  e  quallquer  que  aleuantar  aroido  de  palauras  desones- 
tas e  iniuriosas  perca  Irres  dias  e  se  vierem  aas  punhadas  ou  maãos 
que  percam  huum  mes  e  se  ho  aroido  lor  tail  per  que  se  outra  penna 
de  iustiça  mereça  aalém  desta  pena  tique  a  nos  ou  a  nossos  olfiçiaecs 
que  lhes  dem  aquella  segundo  o  caso  requerer  e  mandamos  ao  apon- 
tador dos  consates(i'iV)que  per  mandado  do  dicto  reetor  asy  ho  aponte 
e  seendo  negrigentes  os  sobredictos  reetor  e  apontador  em  fazerem 
o  que  dicto  he  que  aiam  a  penna  sobredicta  posta  ao  que  o  dicto  aroi- 
do aleuantar. 

quem  esleuev  aos  annicersairos,  clles  os  aiam 

43  Item  porquanto  achamos  que  muitos  fazíiam  duvida  quem  avia 
dauer  os  aniversairos  o  que  lie  determinado  per  direito  que  os  non 
aiam  senon  aquelles  que  seruiiem  e  forem  a  elies  presentes,  porém 
mandamos  que  em  esto  se  guarde  todo  o  direito  comuum. 

como  seia  hum  beneficiado  ou  iconimo  huum  mes,  solicitando  huum 
mes  pêra  rrequerer  seer,  se  algum  fructo  perder  seia  a  sua  custa  a 
perda. 

44  Item  Achamos  que  muitos  beens  e  cousas  das  igreias  se  per- 
diam por  se  11011  solicitarem  e  requererem  bem  pelos  beneficiados  del- 
ias, porém  mandamos  que  em  cada  huma  igreia  em  cada  um  mes 
seia  enlegido  huum  beneficiado  ou  iconimo  que  seia  solicitador  de  to- 
dollos  fructos  que  a  dieta  igreia  trouuer  e  aquelle  que  solicitador  for 
e  o  mal  fezer  e  na  sua  culpa' se  perder  alguum  fruclo  que  elle  pague 
a  dieta  perda. 

que  non  tomem  benefiçiiado  nem  iconimo  cura  por  o  prioll,  sob  pena 
de  ¥  rreaes,  e  o  prior  (sic)  pague  b''  rreaes  para  a  chancellaria 

4õ  Item  porquanto  achamos  que  alguns  beneficiados  e  iconimos 
tomauam  as  curas  pellos  priores  absemtes  por  muito  tempo  pelo  quall 
as  igreias  nom  sam  seruidas  pellos  sobredictos  como  deuen»  seer 
portanto  defendemos  aos  dictos  beneficiados  e  iconimos  que  non  acep- 
tem  semelhantes  carregos  sob  penna  de  quinhentos  rieaes  e  o  prioll 
que  lha  der  pague  outros  quinhentos  rreaes  todo  pêra  a  nossa  chance- 
laria e  esto  mandamos  que  daqui  em  diamte  geeralmente  se  entenda 
em  todo  o  dicto  nosso  arcebispado. 

que  o  beneficiado  que  nom  souber  leer  e  cantar  atees  hutmi  anno, 
que  non  seia  contado  e  a  sua  rrenda  seia  pêra  a  fabrica  da  egreia. 

4h'  Item  porquanto  achamos  que  em  algumas  igreias  avia  alguuns 
beneficiados  os  qiiaees  nom  sabem  leer  nem  camtar  segundo  que  per 
direito  sam  obrigados  saber  pello  quall  as  igreias  nom  sam  seruidas 
como  deuem  omde  taees  beneficiados  ha,  portanto  mandamos  geral- 
mente em  todo  o  dicto  nosso  arcebispado  que  quallquer  beneficiado 
que  asy  nom  souber  leer  e  cantar  do  dia  que  for  beneficiado  ata  a 
huum  anno  (pie  non  seia  mais  contado  em  o  dicto  beneficio,  e  per 
esta  defendemos  aos  priostes  que  pellos  annos  em  diamte  forem  que 
lhe  nom  acudam  com  nenhuuns  fructos  dos  dictos  seus  benefiçios  sob 


E   HISTÓRICA  173 


penna  de  quinhentos  rreaes  pêra  a  nossa  chançellaria,  e  os  fruclos 
que  os  -lictos  beneliçiatlos  asy  perderem  soiam  pêra  a  ral)rica  da  igreia 
em  que  asy  forem  beneíiçiados  e  o  nosso  visitador  lera  carreguo  de 
os  eixarainar. 

tiue  todallas  visifnrues  pasadas  ssc  pni/nham  (sici  em  liuum  caderno, 
e  as  (/nc  veerevi  ao  diante. 

47  liem  geraltiienlo  mandamos  em  lodollas  igreias  que  se  faça 
huum  caderno  boo  de  todallas  consliluirõees  e  visilaçõees  passadas  em 
o  qual  se  cosam  todallas  visilaçõees  que  se  fezerem  por  se  non  an- 
darem rompendo  e  andarem  espalhadas  o  qual  será  cuberlo  de  pur- 
gaminhíi  com  seus  coiros  detrás  asy  como  huro  de  recadaçõees  delHey 
sob  penna  de  cimquenta  reaes  pêra  o  nosso  meirinho. 

4S  liem  visitando  nos  a  igreia  de  sam  ioh;nn  da  villa  doobidos 
achamo>  em  ella  estas  cousas  e  mandamos  fazer  outras  as  quaes  se 
adiante  seguem. 

Titulo  da  prata 

49  *ltem  huuma  cruz  de  prata  Item  dons  cailezes  Item  huuma  cus- 
loodya  com  ssna  cruz  Item  huum  Iribullo  item  huuma  nauela. 


Titulo  dos  hornamenlos 

50  Item  huma  vestymenta  de  baldoquym  de  passarynhas  verde 
com  suas  ahnaticas  Item  outra  de  velludo  azul  Item  outra  de  pano  de 
ssyrguo  azul  com  roodas  brancas  liem  outra  dooslada  ?  vermelha 
com  huma  cruz  daçendal  amarello  Item  duas  ahnaticas  velhas  Item 
Ires  capas  duas  vsadas  e  outra  milhor  liem  Ires  frontaaes  dous  velhos 
e  huum  milhor  Item  huma  coorlyna  que  eslaa  no  aliar  moor  verde 
e  vermelha. 

Titulo  dos  iiuros 

51  Item  dous  dominguaaes  de  lenda  e  canto  Item  huum  ssantal  de 
lenda  e  canto  Item  dous  oíiçyaaes  Item  dous  ssalteyros  Item  huum 
missal  mistico  do  aliar  Item  huum  evangelliorum  com  ssuas  oraçoões 
Item  huum  pistoleyro  Item  huum  liuro  de  missas  priuadas  Item  huum 
liuro  que  tem  ho  ofiçyo  de  vitoorya  xpyanorum  {chri^tianonnn)  e  ho 
ofyçio  da  conçeyçam  de  ssanta  maria  e  outros  hoflçyos  Item  huma 

í  D'esta  palavra  ciii  diante,  tuda  a  escriptura  é  de  lettra  diíTerenle  da  que  pre- 
cede. 


n4  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

oraçom  do  cooro  Item  huum  caderno  que  tem  ho  hofiçyo  de  bautizar 
Item  hunm  liiiro  do  tonbo  fsic). 

õ-J  Item  Achamos  em  a  dieta  ygreia  estes  liuros  que  sse  sseguera 
mal  emcadertiados  a  saber,  lio  dominguai  e  hos  ofiçyaaes  anbos  (sic) 
e  ho  euaiigelyorum  e  ho  huio  de  missas  priuadas.  Mandamos  ao  ca- 
biido  que  mande  pooer  fsicj  huma  tauoa  ao  dominguai  que  tem  que- 
brada, e  mandem  emcadernar  ho  liuro  de  missas  priuadas  e  mandem 
cobriir  de  burel  todos  hos  ssobredictos  liuros  e  esto  laçam  atees  ho 
natall  primeiro  que  uem  ssob  pena  de  ii'^  reaes  pêra  a  uoossa  chan- 
çellaria. 

5S  Item  Achamos  em  a  vysylaçam  do  anno  passado  que  foy  man- 
dado aos  raçoeiros  do  dicto  cabiido  que  dessem  ao  vigairo  da  dieta 
ygreia  dos  dynheiros  que  avyam  de  dar  ao  dicto  cabiido  mil  e  qui- 
nhentos reaes  pêra  se  comprar  huuma  ymagem  de  ssam  ioham  de  pe- 
dra porquanto  a  que  eslaa  em  a  dieta  ygreia  he  podre  e  velha  e  que  o 
dicto  vigairo  ao  (sic)  compraasse  ssob  pennade  pagar  b^  reaes  pêra  a 
noossa  chancellaria.  Ao  que  dicto  vigairo  nom  ssalisfcz  porém  manda- 
mos ao  dicto  vygairo  que  em  todo  caso  requeyra  os  dictos  dynhey- 
ros  aos  raçoeyros  do  dicto  cabiido  que  diiz  que  os  aynda  em  sseu  po- 
der tem  e  os  aia  aa  ssua  niaão  e  atee  o  natal  primeiro  que  vem  man- 
de poer  a  dieta  ymagem  na  dieta  ygreia  sob  penna  de  mil  reaes  pêra 
noossa  chancellaria,  a  qual  penna  lhe  nom  ssera  quite  por  cousa  ne- 
nhuuma. 

õ4  Item  Achamos  que  a  capella  dos  vydaaes  que  he  da  dieta 
ygreia  estaa  muy  mall  corregiida  assydas  paredes  como  do  telhado  e 
a  ymagem  de  ssanta  marya  cuia  emvocaçam  a  dieta  capella  he  he  toda 
podre  e  posto  que  ia  mandássemos  ao  cabiido  muitas  vezes  que  po- 
sessem  hy  outra  de  peedra  nunca  o  quizeram  fazer  e  também  quoatro 
(sic)  liuros  da  dieta  ygreia,  a  saber,  huum  dominguai  e  huum  ssantal 
e  huum  myssal  e  ho  euangellyorum  ssam  todos  desemeadernados  e  es- 
farrapados e  sse  os  nom  corregem  antes  de  dous  annos  sseram  per- 
diidos  porem  mandamos  ao  dicto  eabiidoo  que  atee  a  primeira  nossa 
visytaçam  mandem  pooer  em  a  dieta  ygreia  huuma  booa  ymagem  de 
peedra  de  ssanta  maria  e  mandem  muy  bem  emcadernar  os  dictos  li- 
uros e  daqui  a  dous  annos  mandem  eorreger  a  dieta  ygreia  muy  bem 
bem  (sic)  das  paredes  e  telhado  de  todo  o  que  lhe  fezer  mester  e  es- 
tas cousas  e  cada  huma  delias  compram  ssob  penna  de  b'^  reaes  pêra 
a  noossa  chançellarya. 

õõ  Item  mandamos  ao  vygairo  da  dieta  ygreia  ssob  penna  de  ex- 
comunhom  que  not^Xique  esta  noossa  vysytaçam  e  mandados  da  dada 
(sic)  delia  a  huum  mees  (sic)  primeiro  sseguinte  por  nom  aleguar 
ygnorançya  do  que  lhe  assy  mandamos  fazer. 

ôO  Item  mandamos  ao  eabiidoo  de  lixboa  em  virtude  dobediençya 
e  ssob  pena  dexcomunhoin  que  da  feylura  desta  a  xb  dias  primeiros 
sseguintes  vaa  ou  mando  paguar  esta  vysytaçam  a  ioham  de  camoões 


E   HISTÓRICA  i75 


noosso  recebedor  em  lixboa  e  assy  lhe  pague  Ixxx  reaes  do  scripuam 
ssob  a  dieta  ponna  perma  (sic)  ao  diclo  lem[)0  o  qual  recebedor  tem 
todo  carregiio  de  lodo  receber. 

57  Dada  em  a  dieta  ygreia  dons  de  iiinho  per  o  senhor  dom 
ioham  bispo  de  çaphy  tpie  per  noosso  si)e(;ial  mandado  vysytou  a  di- 
eta ygreia  leniam  correa  a  fez  por  aluaro  vaaz  noosso  secrelareo  (sic) 
a  qual  visylaram  ho  do  anno  íjne  sse  começou  per  ssam  ioham  baptis- 
ta, de  Ixxiii  e  sse  acabaraa  [)er  esse  mesmo  dia  de  ssam  ioham  de 
Ixxiiii". 


(assignado)  ^^T^^ 


ANTIGUIDADES  PIIENICIAS  NA  PENÍNSULA 

O  nosso  illustre  collaborador  e  amigo,  professor  E.  Iliibner,  infor- 
mou a  Sociedode  Archeologica  de  íierhn,  na  sna  sessão  de  I  de  no- 
vembro, dnm  descobrimento  importante,  o  primeiro  até  hoje  feito  em 
a  nossa  península  dum  resto  aulhentlco  da  arte  phenicia.  Acharam- 
86  casualmenie  no  território  de  Cadix  (a  antiga  Gadir),  perto  da  necro- 
pole  romana,  a  uma  profundidade  de  cinco  melros,  Ires  sepulturas, 
uma  das  quaes  continha  um  sarcophago.  No  tampo  deste  ai:ha-se  a 
figura  dum  homem  multo  semelhante  á  do  celebre  sarcophago  de 
Echmunazar. 


BIBLIOGKAPHTA 

PaLEOETHNOLOGIA.    ÂNTIGUmADF.S    MONUMENTAES    DO    ALGARVE.     TeMPOS 

1'HKmsTOiucos,  por  Sebaafião  Philijips  Martins  Estado  da  Veiga. — 
Lisboa,  1886,  8.**  gr.,  íig.  e  map[).  Volume  i. 

Esta  obra  ha  poucos  mezes  saida  dos  prelos  da  Imprensa  Nacional, 
desde  longo  tempo  era  esperada  com  grande  empenho  por  todos  quantos 
se  interessam  pelos  estudos  archeologicos.  O  sr.  Estado  da  Veiga, 
que  foi  em  lempo  encarregado  pelo  governo  de  estudar  as  antiguida- 
des do  Algaive,  e  que  alli  piocedeu  a  muitas  explorações,  melhor  do 
que  ninguém  deve  ler  accumulado  maleriaes  e  noticias  acerca  dessa 
notabilissima  província.  É  dMsso  já  uma  prova  o  volume  que  lemos 
presente ;  e  que  comprehende  já  muitíssimas  informações  sobre  os 
monumentos  prehistoricos  d'aquella  região. 


176  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

Muilo  desejaríamos  dar  agora,  uma  demorada  noticia  d'esta  obra; 
mas,  porque  não  está  ainda  publicado  o  segundo  volume,  onde  (como 
o  auctor  diz  na  Advertência)  termina  o  estudo  relativo  á  prehistoria, 
julgamos  mais  conveniente  esperar  que  elle  appareça,  para  então,  pe- 
rante o  lodo,  melhor  podermos  dar  uma  apreciação.  O  que,  porém, 
desde  já  alllrmamos  é  que  esta  vasta  elocubração  do  sr.  Estacio  da 
Veiga  está  destinada  a  occupar  um  dos  mais  distinctos  Jogares  entre 
as  modernas  obras  archeologicas,  attentos  os  perseverantes  trabalhos, 
largos  estudos  e  grandes  merecimentos  do  consi)icuo  auctor  das  An- 
íiijuidades  de  Meilola  e  das  Aniiguidades  de  Mafra,  que  tem  desde 
muito  feita  a  sua  reputação  de  archeoiogo  distinctissimo. 

SociKDADE  Carlos  Ribkiho  (Propaganda  das  sciencias  naturaes  em 
Portugal).  I,  O  Musku  municipal  do  Porto  (Historia  Natural), 
por  A.  A.  da  Rocha  Pe/.To/o.— Porto,  1888  — 8.'^ 

É  interessante  a  muitos  respeitos  este  opúsculo  que,  como  se  vè, 
abre  a  série  das  publicações  da  Sociedade  Carlos  Ribeiro,  recentemen- 
te fundada  no  Porto. 

Folgamos  sempre  com  a  fundação  de  sociedades  scienlificas.  Não 
porque  as  consideremos  assembleas  de  sábios,  nem  porque  esperemos 
que  ellas  collectivamente  produzam  muito;  mas,  sim,  porque  no  seio 
de  qualquer  sociedade  desse  género  ha  de  necessariamente  haver  um 
certo  numero  de  sabedores,  estudiosos,  que  trabalharão  por  si  e  pe- 
los seus  collegas.  Sem  esses  poucos  trabalhadores,  as  sociedades  scien- 
lificas 011  passam  a  ser  sociedades  de  dança  e  minuete,  ou  passam  de 
todo.  Mas,  apezar  d'essa  inevitável  desegualdade,  são  as  sociedades 
scienlificas  necessárias,  porque  só  uma  collectividade,  em  consequên- 
cia da  mulliplicidade  de  meios  de  que  dispõe,  pode  conseguir  melho- 
ramentos, que  um  único  homem,  e  mesmo  um  pequeno  grupo  só  ra- 
ríssimas vezes  alcançaria  realisar. 

O  opúsculo  do  sr.  Rocha  Peixoto  mira  á  reorganisação  do  Museu 
Municipal  do  Porto.  Demonstra  qual  seu  estado,  e  indica  o  que  elle 
deve  ser:  aponta  e  particularisa  os  melhoramentos  indispensáveis  para 
que  aquelle  estabelecimento  se  torne  ulil.  O  trabalho  está  bem  feito, 
mostra  muita  proficiência,  e  em  cada  uma  das  suas  paginas  se  revela 
o  ardor  enthusiasta  de  seu  auctor. 


E    HISTÓRICA  477 


MONUMENTOS  HISTÓRICOS 

II 

São  priíicipíilmciile  os  ;iiili<íos  Ifinplos  e  mosteiros  que  mais  sof- 
frem  com  o  vandalismo  ollicial  e  parlicuiar.  Nos  templos,  são  em  geral 
algumas  juntas  de  [)arochia  ignorantes  (jue,  na  preterição  de  restaurar 
e  embelesar  o  ediíicio,  (jue  lhes  está  confiado,  praticam  ou  deixam  pra- 
ticar os  maiores  attentados  contra  o  caracter  de  vetiistez  das  antigas 
egrejas.  Nos  mosteiros,  é  aos  poderes  [)nblicos  que  cabe  a  responsabili- 
dade das  prolanações  nelles  commeltidas.  Quando  ílca  deíinilivamente 
extincto  um  convento,  pelo  rallecimento,  ou  transferencia  para  ou- 
tro, da  ultima  íreua  que  uelle  professou,  toma  o  estado  conta  do  edi- 
fício, inventaria  seus  bens  moveis  e  imrnoveis,  e  tracta  de  dar-Ibe  um 
destino  qualípier,  afim  de  ulilisal-o.  E  isto  perfeitamente  justo,  por 
isso  que  pertencem,  segundo  a  lei.  ao  estado  as  rendas  e  os  objectos 
existentes  nas  casas  religiosas  extinclas  pela  lei  de  iSir».  E  é  justo 
também,  e  direi  até  necessário,  que  esses  edifícios  sejam  aproveitados, 
visto  que  o  deixal-os  sem  applicação  seria  a  sua  completa  ruina,  além 
de  ser  a  negação  dos  principios  económicos,  o  que  vale  o  mesmo  que 
dizer  um  contrasenso.  Mas  não  só  deve  presidir  á  destinação  d"ura 
antigo  mosleir'o  toda  a  cir'Cumspecção.  afrin  de  ser  idónea  a  applicação; 
senão  lambem,  qirando  lia  necessidade  de  apropriar  ao  seu  novo  des- 
tino o  editicio,  proceder  aos  reparos  e  modificações  de  modo  que  se 
se  não  vão  prejudicar  as  partes  d'elle  consideradas  como  monumentos 
históricos.  Um  exemplo  recente  demonstra  esta  asserção. 

Havendo  passado  aos  próprios  nacionaes  o  real  mosteiro  de  S.  Di- 
niz dOdivellas.  que  em  1295  fundara  o  rei  lavrador,  foi  o  edificio  ba 
pouco  cedido  a  urna  instituição  qualquer  para  recolhimento  de  mulheres; 
sendo  talvez  razoável  a  applicação,  que  não  preteridos  discutir.  Para 
que,  porém,  o  antigo  mosteiro  podesse  melbor  adequai--se  ao  seu 
novo  destino,  julgou  se  conveniente  pi'oceder  a  algumas  modificações 
nelle.  Nessas  alter-ações  todavia  não  se  tem  atlendido  ao  que  era  pu- 
ramente necessário  para  a  apr'opriação,  de  modo  que  se  teem  praticado 
alli  alguns  attentados  censuráveis.  Por  exemplo,  a  casa  cbamada  da 
madre  Paula,  que  começou  a  ser  expoliada  (como  em  geral  o  foi  a 
egr-eja  e  o  resto  do  mosteii'o)  pela  abbadessa  Anchieta,  desappareceu 
completamente  para  alli  se  fazer  alguma  casinha  muito  nova.  muito 
estucada,  aonde  talvez  resida  a  superiora  do  recolhimento.  Não  é  po- 
rém desses  e  idênticos  attentados  que  eu  falo;  mas.  sim.  d'outros  que 
alli  se  estão  praticando  e  vão  praticai--se,  segundo  me  consta,  os  quaes 
são  vandalismos  deveras  repugnantes. 

Não  se  supponha  referi r-me  eu  á  projectada  restauração  do  tumulo 
do  fundador,  para  o  que  se  está  procedendo  a  trabalhos  preparató- 
rios. O  tumulo  d'el-rei  D.  Dinis,  que  está  no  abside  lateral  do  lado  do 

Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N.°  12  —  Dezembro  1887.  12 


i78  líEVISTA   ARCHEOLOGICA 

evangelho,  conservava-se  desde  lo?igos  annos  terrivelmente  mutilado, 
quando  a  rainha  D.  Estephania  ordenou  a  sua  reparação.  A  reparação 
foi  um  verdadeii'0  altenlado;  fizeram  ao  rei  D.  Dinis  uma  cabeça  de 
gesso,  com  uma  barba  muito  penteada  e  frizada,  mãos  e  pés  de  ges- 
so, etc;  sem  que  ao  menos  houvessem  prociu^ado  reproduzir  as  fei- 
ções dadas  á  estatua  do  monarclia  pelo  artista  primitivo.  Longe  d'isso 
lançaram  á  margem  um  pedaço  do  rosto  que  ainda  existia. 

Agora,  trata-se  de  restaurar  o  tumulo.  Divergem  muito  as  opiniões 
entre  os  archeologos  sobre  se  se  devem  conservar  as  antigas  estatuas 
no  estado  em  que  os  tempos  noi  as  teem  legado,  ou  se  se  deve  proce- 
der á  sua  restauração  fazendo  desapparecer  as  mutilações  que  teem 
soffrido.  Ambas  essas  opiniões  são  sustentáveis,  e  não  entrarei  aqui 
na  apreciação  das  vantagens  e  dos  inconvenientes  que  uma  e  outra 
proclamam.  Limitar-me-hei  a  dizer  duas  verdades:  uma,  que  nenhum 
artista  se  atreveria  a  restaurar  a  Vénus  de  Milo;  outra,  que  dadas  cer- 
tas e  determinadas  circumslancias  muito  complexas,  se  pode  restaurar 
uma  estatua  até  ao  ponto  de  refazer  muitas  das  suas  mais  insignifican- 
tes particularidades. 

A  estatua  tumular  do  rei  lavrador  é  uma  das  que  pode  ser  res- 
taurada :  a  maior  difllculdade  a  vencer  alli  é  a  representação  do  rosto. 
Se  não  houvesse  fragmento  algum  da  cabeça,  opinaria  d'outro  modo, 
porque  seria  absurdo  apresentar  como  retrato  de  D.  Dinis  uma  mas- 
cara qualquer.  Mas,  pois  que  ultimamente  appareceu  um  pedaço  do 
rosto  da  estatua-retialo  do  rei  (parte  da  face  direita,  comprehendendo 
a  maçã  do  rosto,  metade  dos  beiços,  e  uma  porção  de  barba),  ainda 
um  escuiptor  hábil  e  estudioso  pode  restabelecer  o  semblante  de  D. 
Dinis,  com  grandissimas  presumpções  de  verdade.  Consta-me  que  o 
encarregado  da  restauração  do  tumulo  é  o  sr.  Simões  de  Almeida. 
Espero  que  este  distincto  escuiptor  se  desempenhará  brilhantemente 
d*uma  empreza  cujas  difíiculdades  são  enormes,  e  cuja  responsabili- 
dade só  pode  acceitar  um  artista  consummado. 

Não  trato  pois  do  monumento  sepulchral  do  fundador  de  Odivel- 
las,  visto  haver  motivos  para  espeiar  (pie  a  restauração  d'elle  terá 
bom  êxito.  Tenho  porém  a  mencionar  um  grande  attentado  já  execu- 
tado contra  as  leliquias  d.1  primitiva  egreja  do  mosteiro. 

Contigua  á  abside  onde  está  o  tuuudo  do  fundador,  existe  uma 
capella  (de  que  foi  instituidor  no  secido  xvi  um  cavalleiro  por  nome 
Nicolau  Soares  Kibeiro)  para  a  qual  será  transferido  o  tumulo  real. 
É  nessa  capella  que  se  praticou  o  attentado.  Picolaram  as  paredes  !... 
Que  isto  se  fizesse  numa  aldeia,  longe  da  capital,  ainda  poderia  attri- 
buir-se  o  facto  á  estupidez  d"algum  regedor  ou  sacristão,  ou  coisa  se- 
melhante. Mas  que  em  Odivellas,  a  duas  léguas  de  Lisboa,  num  mo- 
numento como  a  fundação  de  D.  Dinis,  e  por  occasião  d'obras  maiuJa- 
das  executar  pelo  governo,  se  piquem  as  paredes  d'aquella  capella,  é 
o  que  merece  toda  a  censura. 


E    HISTÓRICA  170 


Picolar  as  paredes  d'uma  edificação  do  século  xm! 

Pois  não  é  nnihar  a  um  moiiiimcnlo  todo  o  sen  merecimenio,  o  ti- 
rar llie  a  patina  (pie  os  séculos  depozerani  nas  suas  |)aredes?  Preju- 
dica ao  aceio  a  còr  parda  que  teein  as  pedias  dos  edilicios  e  monu- 
mentos antigos?  Pois  é  mais  magestoso,  mais  sublime,  o  templo  em- 
bianquecido,  brunido  á  moderna,  do  rpie  conservando  em  cada  uma 
das  suas  pedias  o  cunho  da  antiguidade,  a  data  da  sua  construcção "? 

Picolar  as  paredes  d"um  aniigo  edilicio  »"'  uma  falta  de  gosto  artis- 
lico,  é  uma  prolanação,  é  uma  completa  demonslração  de  ignorância 
dos  preceitos,  estabelecidos  pelos  mestres,  do  modo  cítmo  se  deve  pro- 
ceder á  reparação  e  conservação  dos  monumentos  históricos. 

Entre  nós  pouco  se  estuda  em  geral;  mas  menos  que  ninguém  a 
maior  parte  dos  nossos  artistas.  Desde  que  deixam  o  banco  da  escola, 
suppõem-se  mestres,  e  mestres  não  só  na  sua  arte,  mas  em  tudo:  são 
até  litteiatos.  Lêem  (quando  lêem)  novellas,  ou  quando  muilo  alguns 
esciiptos,  que  com  o  nome  de  historias  por  ahi  se  puldicam,  minis- 
trando muitíssimas  vezes  informações  erradas;  mas  não  lêem  os  livros 
que  poderiam  instruil-os  na  arle  a  que  se  dedicaram. 

No  caso  subjeito  —  e  pondo  já  de  parte  a  questão  do  gosto  artís- 
tico e  a  ideia  de  piofanação  ;  a  primeira,  por  ser  geralmente  falta  na- 
tural, a  segunda  por  falta  de  com[)reliensão  d'ella  —  no  caso  subjeito, 
bastaria  o  coniiecimento  dos  preceitos  estabelecidos  pelas  pessoas  com- 
petentes, para  haver  a  abstenção  de  prejudicar  aquella  relíquia  da  fun- 
dação de  U.  Uinis.  Se  quem  ordenou  (pie  picolassem  aquellas  paiedes, 
houvesse  meditado  a  obra  de  Mantalembert  dii  Vanda liínm;  et  du  Ca- 
íholicisme  dans  lArt ;  se  houvesse  lido  o  Mannd  de  farcIíHecte  des  mo- 
numents  religieux  de  Smith,  e  a  obra  do  mesmo  andor  que  tem  por  ti- 
titulo  les  Éfjlises  golhiques,  onde  ha  um  capitulo  inteiro  expressamente 
feito  contra  a  caiação  e  picolagem  das  egrejas  :  se  houvesse  tomado  co- 
nhecimento da  circular  expedida  pelo  governo  francez  em  ;2G  de,  fe- 
vereiro de  1849,  decerto  que,  apezar  da  ausência  do  gosto  artístico 
6  da  ideia  da  profanação,  deixaria  de  ordenar  o  attentado  a  que  me 
tenho  referido. 

Um  dos  mais  notáveis  archeologos  que  teem  havido  em  França, 
Raymundo  Bordeaux,  diz  no  seu  livro  Trailé  de  la  répnration  des  éfjli- 
ses as  seguintes  palavras,  que  transcrevo  fielmente,  e  que  os  restaura- 
dores de  egrejas  devem  pesar  convenientemente  :  «II  ne  faut  pas  croire 
que  le  badigeon  et  le  grattage  appliqinjs  sur  des  surfaces  unies  n'aient 
point  dautre  inconvénient  que  celui  de  changer  la  teinte  des  murail- 
les.  lis  atíèrenl  encore  le  grain  et  les  lailles  des  parements.  L'oulil  de 
Touvrier  dans  les  travaux  soignés  darchitecture  se  fait  sentir  sur  la 
pierre,  comme  le  ciseau  et  la  rape  du  statuaire  sur  le  marbre.  Cha- 
qiie  époque,  chaque  style  portent  la  trace  de  procedes  qui  dilTèrent. 
Les  tailles  antérieures  au  xui°  siècle  sont  faites  assez  grossièremeut 
et  au  taillant  droit;  celles  du  xni''  à  la  grosse  hrelture  et  layées  avec 


i80  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

une  grande  précision  ;  l;i  surface  des  pierres,  converte  le  slries  qui 
se  coiipenl  carrenient,  ressemble  alors  à  du  gros  canevas  et  presente 
iin  grain  aiissi  rúgiilier  (pie  celiii  des  liacluires  dune  gravure.  Les 
tadies  dn  xiv""  siècle  sonl  huii''es  \\  la  hretture  jute  avec  pliis  de  nelleté 
encore ;  celle  du  xv,  à  la  hrcllNn'  et  aii  rúcloir.  Les  retailies,  les 
gratlages  faites  apròs  coup  allèrent  la  physionomie  des  paremenis  et 
la  forme  des  profils.  II  n'est  pas  de  plus  sin-  moyen  de  discerner 
les  parlies  restées  inlacles  de  celles  qui  ont  élé  reslaurées  (}ue  de 
rechercher  les  tailles  primilives  conservées  sur  les  pouils  peu  acces- 
sibles  ou  masques.  Le  grallage,  toléré  quelquefois  sur  les  parlies  unies 
des  égiises,  a  donc  aii  moins  rinconvénienl,  cndoniiant  aux  murailles 
un  aspect  nonveau,  de  leiír  ôler  toul  caractere  d'aullienticilé»  '. 

Fez  semelhantes  ponderações  quem  mandou  picolar  as  paredes  da 
capella  onde  jaz  Soares  Ribeiro?  Não,  Assim  conio  não  considerou  lam- 
bem que  desappareceriam  sob  a  picola  as  cifras  de  canteuos. 

E  as  paredes  d"essa  capella  estavam  pintadas,  não  a  cuspido  ama- 
rello  e  pardo  como  as  freiras  mandaram  fazer  nos  dois  absides  late- 
raes;  mas  com  uma  pintura  de  perto  de  cinco  séculos,  onde  sobre 
fundo  verde  escuro  realçaviuii  flores  de  lys  de  ouro.  E  pensou  nessa 
pintura  quem  ordenoe  a  picagem  das  paredes?  E  não  leflecliu  no  que 
podia  significar  tal  pintura?  Essa  pinlura  não  lhe  trouxe  á  memoria  a 
infanta  D.  Filippa  de  Alencastro,  íillia  da  desditosa  viclima  de  Alfar- 
robeira? Não.  decerto. 

Nas  paredes  interiores  d'esta  cnpella  (como  se  encontram  também 
em  grande  numero  no  interior  e  exterior  dos  absides)  havia  muitas 
cifras  de  canteiros,  esses  signaes  que  os  obreiros  gravavam  nos  can- 
tos que  trabalhavam,  para  serem  reconhecidos  na  contagem.  A  picola 
destruiu,  apagou  inteiramente  essas  cifras,  como  obliterou  a  pinlura 
e  como  fez  desappaiecer  o  trabalhado  da  pedra.  Felizmenle  poude  eu 
conservar,  entre  os  setenta  e  quatro  calcos  que  possuo  d'essas  ci- 
fras ^,  algumas  das  da  mencionada  capella.  Colhi-as  durante  o  tempo 
que  permaneci  no  mosteiro,  para  proceder  á  moldagem  e  copia  dos 
seus  monuajentos  epigraphicos.  Aproveito  gostosamente  a  occasião 
para  agradecer  aqui  a  S.  Ex.^  o  Ministro  da  Fazenda,  sr.  Conselhei- 
ro Marianno  Cyrillo  de  (^larvailio,  o  haver  permillido  que  eu  alli  fosse 
fazer  estudos  e  executar  trabalhos,  de  que  resultou  não  se  perderem 
inteiramente  algumas  memorias  do  famoso  mosteiro. 

Não  é  só  a   capella  mencionada,  que  é  victima   do  vandalismo. 

1  Bordeaux,  Traitij  dt^  la  n-panition  des  rglises.  pag.  15o-irj6  (nlliina  edição). 

2  Yi'j.  a  est.  XIX.  K  quasi  (vi-(o  (|ii((  varias  cilVas  estão  duplicadas,  iiãu  tendo  si- 
do as  mãos  d'algi)ns  obi-f^ros  siiniineiiteriKMile  hábeis  para  executar  o  seu  signa!  sem- 
pre com  uniformidade.  O  leitor,  que  S(í  dér  ao  trabalho  de  lazer  algumas  compara- 
ções, que  a  disposição  das  cifras  já  facilita,  concluirá  o  mesmo.  Lomipianto  eslas  ci- 
fras não  sejam  das  mais  cotnplicadas  ou  ornadas,  nem  por  isso  deixam  de  ser.  na 
maior  parti',  muito  intcressanlf^s.  Cerca  d"umá  quarta  parte  são  evidentemente  lellras 
iniciaes  dos  nomes  dos  canteiros. 


E  HISTÓRICA  IHl 


Na  casa  do  capitulo  entre  as  dezesete  sepulturas  (jue  alli  existem, 
ha  uma,  a  da  terceira  ahljadessa  do  mosteiro,  cuja  lapide  tem  na  orla 
o  epilaphio  o  ao  centro  gravada  a  ligura  da  fallecida.  Ksla  lapide  pre- 
ciosa, por  ser  no  seu  género  uma  raridade  em  Portugal,  está  desti- 
nada a  íicar  no  mesmo^^logar  em  (juo  se  acha,  sendo  todavia  coherta 
pelo  laboado  geral  que  cohrirá  o  chão,  para  adequar  aquelle  logar  a 
dormitório  ou  a  alguma  ollicina.  Se  áquella  lapide  se  desse  a  devida 
importância,  seria  ella  dalli  transferida  para  uma  das  paredes  da 
egreja,  onde  collocada  ao  alto  se  conservasse  convenientemente.  No 
logar  d'ella  por-se-hia  outra  onde  se  copiasse  em  lellra  moderno  a 
epilaphio;  e  no  sócco  em  que  assentasse  a  primitiva,  se  declararia 
qual  o  logar  em  (pie  estivera.  Mas  nada  d'isso  se  íaz;  e  se  o  auctor 
d'estas  linchas  não  houvera  lido  occasião  de  lirar  um  calco  dessa  la- 
pide, d'aqui  a  pouco  ninguém  teria  tido  meio  de  admirar  esse  antigo 
monumento.  E  aquella  p"edra  não  é  notável  só  por  sua  antiguidade. 
Hoje  os  pedreiros  e  outros  operários  que  procedem  á  composição  do 
telhado  da  casa  do  Capitulo,  lirmam  sobre  essa  lapide  sepulchral  as 
pesadíssimas  escadas  de  mão,  arrojam-lhe  em  cima  os  maços,  os  mar- 
tellos  e  as  traves,  as  pedras  caem  do  alto  sobre  ella,  e  a  lapide  assim 
se  váe  lascando,  assim  se  vão  perdendo  a  uma  e  uma  as  lettras  que 
restavam  da  inscripção,  a  segunda  em  antiguidade  que  no  mosteiro 
existe. 

Pára  aqui  o  vandalismo?  Ainda  não. 

No  pórtico  da  egreja,  á  direita  de  quem  nesta  entra,  vè-se  um 
enorme  pelouro  embebido  na  parede  e  por  baixo  delle,  uma  lapide 
com  inscripção  que  refere  tel-o  mandado  alli  offerecer  a  S.  Bernardo 
D.  Álvaro  de  Noronha,  sendo  um  dos  com  que  os  mouros  combate- 
ram em  1552  a  fortaleza  de  Ormuz,  que  eUe  capitaneava. 

Esse  mesmo  pelouro  que  alli  foi  collocado  ha  pelo  menos  trezen- 
tos e  trinta  annos,  váe  dalli  ser  tirado,  para  naquelle  logar,  que  lhe 
pertencia  por  direito  de  posse,  se  abrir  uma  janellal. . . 

Pois  nem  o  ser  a  expressão  de  voto  dum  valoroso  porluguez,  que 
honrou  a  sua  palria,  pois  nem  o  ser  uma  prova  do  que  valeram  os 
nossos  maiores,  pois  nem  o  ser  o  testemunho  da  fé,  da  coragem,  do 
amor  pátrio,  que  os  animava  em  longes  terras  na  defeza  do  Deus  em 
que  criam  e  no  augmento  da  naciona^^lidade  com  que  se  ufanavam,  pois 
nada  disso  é  bastante  para  que  se  deixe  onde  está  essa  memoria,  a 
única  que  hoje  nos  resta  do  nosso  dominio  na  famosa  Ormuz? 

Se  para  comvosco  não  valem  os  monumentos  das  nossas  glorias; 
se  para  vós  é  uma  palavra  vã  o  patriotismo:  se  desconheceis  o  que 
seja  veneração  pelos  documentos  históricos;  não  reconhecereis  ao  me- 
nos que  aquelle  pelouro  tem  direito  á  conservação  naquelle  logar,  por 
uma  posse  de  tresentos  e  trinta  annos  pelo  menos? 

E  para  que  deslocães  d'aqui  o  pelouro;  para  que  ides  affastal-o  do 
logar  que  lhe  assignou  quem  foi  mais  crente  que  vós;  para  que? 


182  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

Para  abrir  uma  janella  d'onde  as  regeneradas  gozem  a  pasmacei- 
ra dos  mandriões  que  demorarem  no  alpendre? 

Rasguem  janellas  não  só  alli,  mas  também  na  capelia-mór,  nos 
absides  e  nessa  capella  que  já  limparam  a  picola.  Façam  entrar  jor- 
ros de  luz  nessa  pequena  capella,  que  era  a  única  pertença  da 
egreja  que  ainda  ha  dois  mezes  conservava  caracter  de  antiguidade. 
Façam  tudo  isso;  mas,  pondo-se  de  parte  a  modéstia,  grave-se  no 
logar  mais  visível  da  capella  o  nome  de  quem  quer  que  ordenou  taes 
obras. 

Borges  de  Figueiredo. 

CONSTITUIÇÕES 

No  primeiro  numero  da  Revista  disse  eu  já  algumas  palavras  acerca  das  «consti- 
tuifões  dos  bispados",  na  breve  advertência  que  prepuz  ás  Constituições  do  arcebis- 
pado de  Lisboa,  decretndas  por  D.  João  Esteves  de  Azamlnija.  Mal  pensava  eu  que 
poderia  aqui  apresentar  aos  leitores  um  documento  imporlantissimo,  em  que  se  tra- 
ta das  constituições  do  mesmo  bispado  no  século  xiv.  É  uma  composição  entre  o 
prelado  de  Lisboa  D.  Gonçalo  d'uma  parte,  o  rei,  a  nobreza  e  o  clero  d'outra  parte, 
acerca  de  certas  moditicações  feitas  pelo  bispo  ás  constituições  decretadas  pelos  seus 
antecessores.  O  instrumento  ascende  a  9  de  setembro  de  1324. 

Poderia  acompanhar  o  original  d'uma  traducção;  mas  creio  isso  desnecessário, 
considerando  que  as  pessoas  a  quem  a  leitura  interessa  inuuediatamente,  não  podem 
desconhecer  a  lingua  latina.  De  mais  a  mais  a  versão  é  facílima. 

Eis  o  documento  :  B.  de  F. 

In  nomine  domini  amen.  Nouerint  vniuersi  presentis  intrumenti 
seriem  inscripturi,  quod  cum  in  presenliam  mei  Dominici  iohannís 
auctoritate  regali  publici  et  generalis  tabellionis  in  regnis  portugalie  et 
algarbii  et  testium  subscriptorum  ad  infra  scripta  audienda  et  uidenda 
specialiler  vocatorum  coratii  illustrissimo  príncipe  domino  Dionísio  dei 
gralia  rege  portugalie  et  algarbii  ex  parte  ipsius  domini  regis  et  ali- 
quorum  clericorum  et  laycorum  ciuitatis  et  diocesis  vlixbonensis  pro- 
ponetur  et  dicetur  quod  reuerendus  pater  dominus  G.  dei  gratia 
vlixbonensis  episcopus  qui  presens  erat  in  sinodo  sua  per  ipsum  cele- 
brata  die  lune  tercia  die  istius  mensis  Septembris  concurrentis  cum 
duobus  sequentibus  diebus,  quasdam  constituciones  per  predecessores 
suos  editas  et  penas  contentas  in  eis  innouaret  ac  alias  suas  constitu- 
ciones nouiter  fecerat  certis  penis  adiectis  quas  idem  dominus  rex  in 
sue  iurisdicionis  derogacionem  et  aliqui  clerici  et  layci  in  suum  preiu- 
dicium  rediHidare  dicebant.  vnum  et  dicebat  dominus  rex  et  alii  sup- 
plicabant  quod  ipse  episcopus  penas  in  predecessorum  suorum  et  suis 
constilucionibus  contentas,  duceret  reuocandas  prefatus  vero  episcopus, 
respondendo  proposuit  quod  innouationes  et  constituciones  per  ipsum 
edite  et  publicate  erant  consone  canonicis  slalutis  per  quas  diuini  cul- 
tus  augmentum  saltem  animarum  et  ecclesiarum  perfeclum,  morura 
honestates,  criminum  et  excessuum  correpciones  ad  fórum  ecclesiasti- 


E    HISTÓRICA  183 


ciim  spectantes  in  meliiis  aiigmentari,  prociiiari  el  ruformari  uolebat 
absqiie  iuris  preiíulirif)  aliciiius  [)tf)iil  in  t3oriiin  IciKirihiis  li(|ii(!re  po- 
teril  eiiideiilLT.  Tandem  posl  aliijiios  liaclaliis  liahilos  liinc,  iii(l(.'.  [)re- 
faliLS  episcopiis  vulcns  duas  consliluciones  doniini  Joliannis  pred(!ces- 
soris  siii  (jLic  secunliir  inferius  cum  punis  siiis  in  suo  roljuro  jiciina- 
nere.  Ad  inslanciani  prefali  domini  regis  et  ad  supplicalionem  cleiico- 
rum  et  laycorum  sn|)er  hoc  siipplicantiuni,  penas  et  s(ínleniias  [x-na- 
les  qne  in  oninil)i.is  aliis  [iredecessorum  suui  lun  el  dnahns  suis  consli- 
tiicionihns  (luaiiini  una  volenles  iurisdicionein  el  noslra  el  noslre  eccle- 
sie  vlixhonensiselcelera  reNíjua  ueio.  liem  i  rohibemnsipjod  nullus  cle- 
ricus  qui  se  grauatumassignat  elcelera.  inci[)iunl,  conlmelur.  suspendit 
et  uoluit  (isi>e  suspensas  quousque  aliler  ducerel  ordiriandum  duahus 
conslilucioniljus  domini  Joliannis  predecessniis  sui  quatiim  una  incipit, 
cumsacerdolalis  etcelera,  reli(]ua  uero  incii)il.  liem  cum  inlelleximus  re- 
dores noslre  diocesis  et  celera  et  aliis  conslilucioniljus  per  ipsum  domi- 
num  episcopum  in  predicla  sua  synodo  editis  et  publicalis  cum  suis 
senleuciis  et  penis  in  eis  contenlis  in  suo  robore  perpetuo  duraluris. 
Dixit   eliam  quod  per  suas  consliluciones  in  predicla  synodo  editas  et 
publicatas.  non  inlendebal  iuri  alicuius  in  aliquo  derogare.  De  (luihus 
omnibus  diclis  dominus  episcopus  mandauil  f)er  me  labellionem  pre- 
dicium  fieri  lioc  publicum  iustrumenlum,  aclum  vlixbone  in  palaciis 
predicli  regis,  nona  die  mensis  Seplembris  sub  era  millesima  irecen- 
tesima  sexagésima  secunda,  presenlibus.   prefato  domino  rege.  Gun- 
saluo  petri  maiordomo  domine  lielisabelbis  regine.  Slephano  de  Gar- 
dia,  Joliaiine  dominici  de  begia,  Laurenlio  menendi  meyrino  maiori, 
Johanne   laurencii,  Slephano  arie,  fernando  roderici  prelore,  jolianne 
fernandi  et  petro  canaual  aluazilibus  ciuilalis  vlixbone,  francisco  domi- 
nici priore  saneie  niarie  de  alcaçeua  Sanctaren  ac  dicti  domini  regis 
cancellario,  magislro  egidio  ihesaurario  vlixbone,  slepliano  marlini  ca- 
nónico visense,  al'"onso  dominici  salgado  canónico  silvense  marlino  al- 
fonsi  reclore  ecciesie  caslri  de  vile  clericis,  petro  iohannis  Uominico 
petri  et  Laurenlio  marlini  labellionibusgeneralibus  prefali  domini  regis 
et  pluribus   aliis.  Et  ego  Dominicus  ioliannis  labellio  supradiclus  de 
peimissis  omnibus  et  singulis  quibus  rogalus  vna  cum  diclis  leslibus 
presens   interfui.  hoc  publicum   inslrumenlum  manu  própria  scripsi, 

signoíjue  meo  consuelo  signani  quod  tale est.    in  lestimoninm 

omnium  premissornm. 


184  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

D.  MECIA  LOPES  DE  HARO 
II 

Durante  doze  aiiiios  esteve  D.  Mecia  casada  com  D.  Álvaro  Peres 
de  Castro  (caso  não  a  tenha  repudiado,  o  que  não  consta),  pois  que 
este,  congraçado  depois  do  cerco  de  Paredes  com  o  rei  de  Casteíla, 
ainda  era  vivo  em  1^10.  Se  sempre  reinou  boa  paz  entre  os  dois  con- 
sortes, não  se  sabe  ao  certo;  ba  todavia  motivo  para  presumir  que  os 
ardentes  eflluvios  do  amor  haviam  de  todo  passado.  Esse  motivo  de- 
prehende-se  do  que  vae  lêr-se. 

Em  1:238  D.  Álvaro  eslava  em  Toledo,  junto  do  rei  Fernando  in, 
ao  passo  que  sua  mulher  se  conservava  no  castello  de  Martos,  próximo 
de  Córdova,  em  companhia  de  um  seu  sobrinho,  de  nome  Tello,  e 
apenas  com  um  pequeníssimo  numero  de  homens  darmas.  Ê  para 
exlranhar  que  D.  Álvaro  deixasse  sua  mulher  tão  pouco  resguardada 
na  fronteira  da  moirama.  Acodem  ao  espirito  dúvidas  sobre  as  boas 
relações  entre  os  dois  esposos;  íicando-se  na  ignorância  das  causas  do 
fado.  I)en-se,  porém,  alguma  das  seguuites  circumstancias,  d"entre  as 
quaes  o  leitor  acceitará  a  que  mais  lhe  agradar:  Talvez  D.  Álvaro  fosse 
a  Toledo  por  breves  dias ;  nesse  caso  commetteu  a  imprudência  de 
deixar  a  mulher  sem  sufficiente  defeza  no  castello.  Talvez,  desgostado 
de  D.  Mecia,  ou,  considerando  perigosa  a  presença  d'ella  na  corte,  a 
quizesse  conservar  aífastada  d'alli.  Talvez,  rotas  as  relações  intimas 
entre  elles,  de  commum  accordo  se  quizessem  conservar  separados. 
Talvez,  finalmente,  que  a  própria  D.  Mecia  por  algum  capricho,  de 
sua  própria  vontade  quizesse  estar  retirada  da  corte.  Não  podendo  eu 
acceitar  a  primeira  circumstancia,  só  considero  prováveis  a  segunda  e 
a  quarta  hypotheses,  opinando  ainda  por  aquella.  O  caso  é  que  o  fa- 
cto se  deu. 

Tello,  o  sobrinho,  mancebo  ardente,  ou  pelo  desejo  de  illustrar-se, 
ou  por  outro  qualquer  motivo,  saiu  em  certa  occasião  do  castello 
com  alguns  homens,  a  fazer  correrias  em  território  moirisco,  deixando 
sua  tia  sem  servidores  bastantes  para  defendel-a  em  caso  de  ataque; 
procedimento  que  só  pôde  explicar-se  e  relevar-se  com  o  estouvamento 
e  imprudência  dos  verdes  annos;  que  não  era  só  a  sua  existência  que 
eile  arriscava  mas  ainda  a  da  sua  parente.  Talvez  infoirnado  de  que 
o  castello  licara  sem  guarnição,  o  wali  de  Arjona,  Al-IIamar,  apre- 
sentou-se  a  assediar  a  praça,  que  não  poderia  oppor  senão  a  fraca 
resistência  das  suas  muialhas.  Nesta  conjunctura  revelou-se  bem  o 
caracter  animoso  e  aventureiro  de  D.  Mecia.  Temendo  o  assalto,  poz 
em  execução  um  estratagema  para  amedrontar  os  moiros :  envergou 
uma  armadura,  ordenou  ás  suas  serviçaes  que  fizessem  outro  tanto,  e 
foi  com  ellas  vaguear  pelas  ameias  do  castello,  para  fazer  crer  aos 
inimigos  que  a  guarnição  era  numerosa.  Ao  mesmo  tempo  conseguiu 


E    HISTÓRICA  185 


enviar  um  emissário  ao  sobrinho,  a  avisnl-odo  perigo  rpie  corria,  para 
que  se  apressasse  a  ir  soccorrel-a.  Kiiiíanados  os  moiros  peio  ardil  da 
biscayntia,  não  se  allreveram  logo  a  dar  o  assalto ;  e  isto  deu  tempo 
a  que  Tello  regressasse  com  a  sua  gente.  Ksla,  amedrontada  pela  su- 
perioridade das  tropas  moi riscas,  sò  pensou  em  retroceder,  e  o  moço 
Telles  não  teve  a  força  suíTiciente  para  contel-a;  felizmente  porém  um 
cavalleiro  de  nome  Diogo  Perez  de  Vargas  mostrou  ler  bastante  au- 
cloridade  para  obrigar  a  tropa  a  cimiprir  o  seu  dever.  Vov  íim  foi  for- 
çada a  moirama  a  levantar  o  assedio. 

Esta  estada  de  D.  Mecia  longe  da  corte,  (juando  o  seu  génio  gar- 
rido e  ambicioso  devia  desejar  um  meio  mais  brilhante  do  que  o  do 
isolado  caslello  de  Martos,  fazem  acreditar  que  seu  marido  linha  mo- 
tivos para  conseival-a  distante  do  bulicio  e  explendor  dos  paços  reaes. 
Pois  d^oiitro  modo  não  se  pôde  comprehender  que  uma  mullier  joven 
e  formosissima,  e  cuja  virtude  tudo  concorre  para  considerar  negativa, 
se  fosse  expontaneamente  estabelecer  na  solidão  d'um  castello,  e  ape- 
nas defendida  por  um  diminuto  numero  de  homens  d'armas. 

Em  1240  ficou  D.  Mecia  viuva.  D.  Álvaro  Perez  de  Castro,  que 
fora  encarregado  de  certa  missão  na  Andaluzia,  morreu  d'uma  curta 
doença  em  Orgaz,  sem  ter  junto  de  si  sua  mulher.  Livre,  e  sem  filhos, 
de  génio  desenvolto,  é  natural  que  D.  Mecia  [)rocurasse,  para  eslabe- 
lecer-se,  esse  meio  por  que  tanto  almejava.  Passou  pois  á  corte  da  rai- 
nha D.  Berengaria,  mãe  de  Fernando  m  de  Castella,  como  dama  de 
honor. 

Borges  de  Figukiredo. 


MONUMENTOS  EPIGRAPHICOS  DE  BEJA 

Registro  hoje  na  Revista  dois  monumentos  epigraphicos  da  antiga 
Pax  Júlia.  Foram-me  clles  communicados  pelo  sr.  João  Tavares  Lan- 
çi,  residente  em  Beja.  a  quem  aqui  dirigo  sinceros  agradecimentos. 

1  — Cippo  fimerario  de  cerca  de  «um  metro  dallo  e  largura  cor- 
respondente». Foi  ha  pouco  tirado  do  lugar  em  que  estava,  que  era 
na  soleira  d'uma  porta  do  paço  episcopal  (jue  dá  para  uma  cerca;... 
por  fortuna  serviu  de  soleira,  mas  de  costas  para  cima»: 

Dr             M              S  ti?  D{iis)  M{anibiis)  S{acrum)   \   Helaeria  \   nus 

H    E    L    A    E   R  I  A  an   \   norimi  XII  \  h{ic)  s{itus)  e{st)  s(it)  t[ibi) 

N     V     S        A     N     N  urna  t{erra)  l{evis). 

O    R    V    M        X    I    I  Aos  deuses  dos  mortos.  Aqui  jaz  Helaeriano, 

HSAESrT^TrL(í?  fallecido  de  doze  annos.  Seja-lhe  leve  a  terra. 

2  —  Numa  «pedra  de  forma  irregular,  que  parece  ter  tido  appli- 


186 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


cação  diversa  da  que  leve  na  primitiva,  está  a  inscripção  e  moldura 
que  a  guarnece  relntraute.  . .  A  moldura  lerá  uds  O™, 50  de  lado» : 


SERAPI    PANTIEO 

SACRWV 
iNHONOREMGrMA 
RI  r  PRISCIANI  ^ 
STEP-ÍA/A  PRISCA 
MATER  FILlI 
INDVLGENTISSIMI 
D  D 


Serapi  Panthco  \  sacriim.  \  In  honorem  Gaii  Ma  \ 
ri[i)  Prisciani  \    Stephana  Prisca  \  mater  filii  \  in- 
didgcntissimi  \  dcdicarunt. 

Consagração  a  Serapis  Pantheo.  Em  honra  de 
Gaio  Mário  Prisciano,  fizeram  a  dedicação  d'este 
monumento  sua  mãe  Stephana  Prisca  e  seus  filhos 
amantissimos. 


Esta  inscripção,  de  que  eu  já  linha  ha  algum  tempo  visto  uma  co- 
pia incorrecta,  mas  da  qual  possuo  um  calco  devido  á  obsequiosidade 
do  sr.  Lança,  creio  estar  (como  a  primeira)  inédita  em  Portugal.  Não 
poude  verificar  se  já  foi  publicada  no  extrangeiro.  Esta  é  sobretudo 
interessante  pela  consagração  a  Serapis  Pantheo,  Sobre  Serapis  pode 
ler-se  com  proveito  a  obra  de  Dupuis,  Origine  de  tons  les  culles,  vol. 
ui,  pag.  508  e  segg. 


Lisboa,  25  de  novembro  de  1887. 


Borges  de  Figueiredo. 


ERRATAS 


Pag. 


4, 
10, 

;)tí, 

o4, 
54. 
õ'í, 
54, 
54, 
54, 
54, 

55, 

57, 

82, 

109, 

109, 


inli.     9  lale  assumptos. 

U     '•    escala  e  descripçSo. 
11  .la  iiis.^ripção  /í^í/c  li  A  S  I  L  E  V  S. 
()  Inle  iTÍova. 

10  ..     Cnrm.  lu,  23. 

11  »     Pliidyle. 
Ití     >»    Episi.  II,  1,  V.  143. 
17     »    Silvanuin. 
20     ..     Faat.  I,  349. 
27    »    depois  de  prenhes,  lede  vista  a  fertilidade,  a  fácil  concepção  o 

a  utilidade  d'oste  animal. 

17   ..   í;ae0. 

29  »  D.  Sancho  ii. 

13  ..  DM-  Ai. 

29  »  IDVS. 

32  .)  Aspice  q{u)ia  q{iio)d  es  fui  et  q(uo)d  su{m)  eris. 


O  amuleto  romano  representado  na  est. 
do  original  em  bronza. 


reproduz  exactamente  as  dimensões 


r/^/ÃM^ciLenist. 


li 


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,Y'^í;^^/^^'lIT^/Anf/^ 


Rev  A^ch.eHisL 


M. 


=7í)  (õ)  "zH^-^  (H)  s5) 


Kev.  Arch.e  Hist. 


Est.IV 


Moruitnefitos  epi^raphuo,':  de  Ti'ii 


;.ví    N. 


•^ 


Rev.  Arch.e  Hist. 


Est. VI 


Monmne^ltos  tfv^ji<iphu<>s  rJc  Tirij 


MecMuíc  âe^D.Àffhns:  I 


Rev.  Arch.  e  Hist. 


Esc.Vlí 


r~" 


í-Rvmio-cu 

TVSCIILIÀMO' 
QiVIllUVSTl 
CIM(-fí[-  Í-MW 

NOR[U-[0KVM 
AMiCl 

AV)0-[TKÍÍLÍVÍO 


:     uic-      ii  SIUV5 
l  •  M*WL-    ívrvcHfs 

T-      n>WL-      IVTYCMIO 

uryii/AfJvs-j^iiiwsivM 


"A 


FOflTVNAE'^VG 

SA  CR' 
ANNIVSPRIM)TIV\/5 
06HON O  K  E  M 

nmrviR-  svi- 

EDITOBARCARVAA 
CERTAMÍNE-  ET 
FVGILVM-SPORTVLÍ  5 
£riA(V\-ClVlSV5 
DATIS- 
DS-PO    D 


TCASIiySCElt 
iBlDIVíiACilFCI 
FEDES"  C- 

tmmmsh 

D  "  D 


]íonunu/it<>.i:  tfi(^raphc<.'.'<  <•''  BaJ^aa 


Rev.  Arch.  e  Hist. 


Est. Vil 


Iiiscnpf/MsesiprihoJ o.s  qraifochhi  em  veflra.s  do.  Citiuvua- 


Rev.Arch.eHist. 


EstiX 


Ara  ivnuuui  de&colMrta  er>i  Ca^slro  Dairc  cm  ]^1] 


m 


PACE  bNlc^^^ 
V"'M4LSEPT[ft 


Dinhu  ro    de  D.  San-cJw   II. 


Inscfipçdo  chri^td  de.  Mertvlcu 


Re V.  Arca e  riist. 


Est.  X 


Amuleto  romana' 


Rev.ArGh.6Hist. 


EsL.  Kí 


D  J-oâxf  I 
Fracriíes  dor&al 


Tijolo dfscohe rto proxi mo  fh  .I/rmtnier. 


Kev.ArckeHist. 


EotXII 


Cipjxi  fiuuJxirio  1 'oman o,  -descoberta) (Jiv  lixuv 


Moexlcis  At  D.  xJoão  I. 


Rev  Arch.eHist. 


EstXni 


^iiJl^^éírffRtmiEET! 


^m^nwi 


Epilaphi-o  <?<9  sr-culo  Xíí 


Rev.Arch.€Hist. 


-"Jt.   A.J 


-^.^ 


A"^^^^^^^-  /  X^  ■-■' ■■■' ^^^' 


D.  Duarte  ~  Bem.í  Br-anro^ 


Kev.Arcli.eHist. 


Est.  XV 


%SSÍ€à, 


d.Jffoivso  V. 
Km£S  arafsos  e  maosrtaes  oiv  chirn/roTis 


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REVISTA 


ARCHEOLOGICA 


ESTUDOS      E      NOTAS 

PUBLICADOS    SOB    A    DIRECÇÃO 
DE 

A.    C.   BORGES   J)  E   FIGUEIREDO 

Bibliotbecario  da  Sociedade  de  Ueograpbia  de  Lisboa 


VOLUME   II 

1888 


LISBOA 

Adolpho,  Modesto  ff  C."  —  Impressores 

Fornecedores  da  Sociedade  de  Geographia 

Rua  Nova  do  Loureiro,  iS  a  43 

1888 


ADVERTÊNCIA 


Todos  os  srs.  collaboradores  e  muitos  dos  srs.  assignanles, 
que  possuem  o  volume  intitulado  Revista  Archeologica  e  histórica 
publicado  no  anno  de  1887,  manifestaram  o  desejo  de  se  dar  ao 
presente  volume  um  numero  de  ordem  que  obviasse  a  qualquer 
futura  confusão  em  referencias  ou  citações.  Attendendo  a  tão  jus- 
to desejo  sáe  o  presente  com  a  numeração  VOLUME  II,  comquan- 
lo  a  Revista  Archeologica  nada  lenha  de  commum  com  a  outra 
publicação  alludida. 


índice 


I  —  Por  matérias 

Pag.  Est. 

A  Feira  da  Ladra lil 

Antiguidades  de  C.arquere 113                VI 

Aiiligiiidades  phoiiicias  e  romanas  na  Península 6,  19 

As  grades  de  Santa-Criiz  de  (Coimbra o8 

As  Laoohrlgas  da  Lusitânia 173 

Aspedras-haloiçantes 1                gr. 

Bibliographia 79,  111,  127,  131,  IW.  185 

Convento  das  Flamengas  etn  Alcântara.  Os  andiitectos  Frias. .  70, 10o.  1 16 

Da  origem  do  estyi(t  gothico 178 

Fecho  de  abobatia,  em  Odivellas 14á              VII 

Inscripções  de  Alcácer  do  Sal 69 

Inseri pçtít^s  de  Lamego  e  de  Quintella  de  Penude 170 

Las  diez  ciudades  bracarenses  nombradas  en  la  inscripcion  de 

Chaves 81        mappa 

Miscellanea: 

Inscripção  de  Aeminiun 109 

»              (^onimbriga 110 

Pax  Júlia". 111 

»              Aeminium 12S 

Myrtylis.. 126 

Tessera  curiosa 181        X  n."  1 

Real  preto  de  D.  Duarte  cunhado  no  Porto 184 

Annei  com  inscripcão 18i 

Monumento  d'uma  lillia  de  D.  Dinis 

Nova  inscripção  christã  de  Mertola 

Numismática  porlugueza.  D.  Duarte 

Pontevedra  monumental 

Sello  antigo  de  Ferreira  do  Alemtejo 

Sepulchrns  antiguos  de  Cadiz 

Sepultura  de  D.  Orraca  Paes,  abbadessa  de  Odivellas 

Sobre  uma  forma  do  sicastika 

Um  monumento  de  Aeminium 66,  123 

Uma  inscripção  lusn-romana  de  Panoias 50,  69 

Una  inscripcion  Cristiana  inédita  de  Málaga 129 

Visitação  do  arcebispado  de  Lisboa  (Século  xv) 8.  22 

II  —  Por  nomes  d^auctores 

Berlanga  (Dr.)  —  Sepulcros  antiguos  de  Cadiz 33 

—  Una  inscripcion  Cristiana  inédita  de  Málaga  129 


18i 

X  n.o  2 

17 

I 

65 

19 

I 

143 

VIII 

78 

V 

33 

II  e  III 

51 

IV 

60 

gr- 

VI  índice 

BoRtíKS  UK  Fuur.iHF.no  —  As  pedras  haloiçantes 1 

—  Mnmiiiifiilo  (liiiiia  lillia  de  1).  Dinis 17 

—  Sepnltuia  lU'  1).  (Mraca  Pai's.  abbadessa  de  Odivellas. .    51 

—  Schrt'  unia  IVnina  do  swasitika 00 

—  Tm  iiionuiiifnto  dt'  AtMiiiiiiiwn 66,  12a 

—  iMsrriprõfs  de  Alcarer  do  Sal 69 

—  Sfllo  :ui(ij:i)  do  Ferreira  do  Alenitejo 78 

—  Fecho  de  altoliada,  em  Odivellas 14á 

—  Iiiscripções  de  Laineijo  e  de  Quintella  de  Penude 170 

—  Biblit-^irapliia .^ 79,  Hl,  127, 131, 143.  18o 

—  Miscellanea 109,  126,  184 

Cloqi'et  (L  )  —  Da  origem  do  esl^lo  gnfliico 178 

Fehnamhíz-Giehha  V  ÓRni:  (D.  Aureliaiio)  —  Las  diez  ciudades  bracarenses 

nombradas  en  ia  inscripciúri  de  Cliaves 81 

tioMKS  DK    Brito  — (lonvenlo  das  Flamengas   em  Alcântara.  Os  architectos 

Frias 79,  105,  116 

IUíhnrr  (E.)  —  Antiguidades  plienicias  e  romanas  na  Península 6 

—  >!()va  inscripção  ebrislâ  de  Mertola 65 

Leite  dk  V-^sconcullos  (J.)  —  Uma  inscripção  luso-romana  dePanoyas...  50,69 

—  Antiguidades  de  Carquere 113 

Hne.HA  Espanca  (J.  J.  da)  —  As  Lafobrigas  da  Lusitânia 173 

Santa  .Mónica  (Visconde  de)  —  A  Feira  da  Ladra 141 

Sousa  Vitkrbo  —  As  grades  de  Santa  (^ruz  de  (loiínlira 58 

ViLLA-AMiL  V  (Iastro  (D.  José)  —  Pontevedra  monumental   143 


CORRECÇÕES  E  ADDITAMENTOS 

Pag. 


5. 

linl 

ha    2  = 

acc 

.  Chamam-lhe  Pedra  da  ]í)'r.i 

17, 

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l  = 

lede  MONUMENTO 

29, 

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33  = 

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lencooes. 

53, 

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18  = 

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LXXVIIII 

54. 

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14  = 

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1760 

67, 

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32  = 

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pttb(licap) 

67. 

» 

35  =- 

a 

pot(estatc) 

73, 

u 

18  = 

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preclaro 

73, 

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21  = 

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ainda  ha  que 

74, 

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6  = 

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conhecida 

75, 

» 

26  = 

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Geneal. 

76, 

» 

10  - 

a 

é  facto 

76, 

» 

ultima  = 

1! 

o  illustram 

77. 

1, 

1 4  da 

mscripção  =  lede  PERPETVO 

REVISTA 


ARCHEOLOGICA 


AS  PEDRAS-BALOIÇANTES 

Entre  todos  os  monumentos  megalithicos  conhecidos  pelos  nomes 
de  mcnhirs  ou  peidvans,  alinhamentos,  cromlechs,  antas  ou  dolmens, 
galerias  cobertas,  e  loghans  ou  pedras-baloiçantes,  são  estes  últimos 
considerados  os  mais  raros. 

Em  França  conhecem-se  algumas  pedras-baloiçantes,  entre  as  quaes 
mencionarei  a  de  Fermanvilíe  (Mancha),  a  de  Livernon  (Lot),  a  de 
Saint-Estèphe  (Gironde),  a  de  Uchon  (perto  de  Aulun)  e  a  de  Perros  Guy- 
rech  (Cote  du  Nord). 

Na  Inglaterra,  é  principalmente  notável  a  pedra-baloiçante  do  cé- 
lebre condado  de  Sussex.  Esta,  cujo  peso  se  avalia  em  quinhentos 
mil  kilogrammas,  é  chamada  pelo  povo  great-upon-little  (o  grande  so- 
bre o  pequeno),  alludindo  ao  facto  de  ser  relativamente  de  muito  me- 
nores dimensões  a  pedra  que  serve  de  supporte. 

Na  Hispanha,  ha,  além  doutras,  a  de  Abra  e  as  de  Boariza  (Piedra 
grande  e  Piedra  chica),  na  província  de  Santander;  duas  nas  ilhas  de 
Bayona,  na  Galliza;  e  outra  perto  da  vilia  de  Luque  (Coruova). 

Em  Portugal  tenho  conhecimento  de  duas:  uma  na  quinta  da  Torre, 
freguezia  de  S.  João  de  Lourosa,  do  concelho  de  Vizeu,  d'onde  distará 
5  kilometros,  e  pertencente  ao  visconde  de  Taveiro»  *;  a  outra  numa 
herdade  de  Carragozella,  freguezia  de  Espariz,  concelho  de  Tábua. 
D'outras  mais  tenho  tido  noticia  por  varias  vezes;  mas  as  indicações 
teem  sido  tão  vagas  que  não  me  atrevo  sequer  a  aponlal-as. 


*  Noticia  no  jornal  O  Conimbricense^  n."  3910,  de  10  de  fevereiro  de  1885. 
Rev.  Arch.,    n."  I  —  Jan.  i888.  i 


REVISTA  ARCHEOLOGICA 


Consiste  o  monumento  chamado  pedra-baloiçaníe  numa  pedra  de 
grandes  dimensões  collocr.da  sobre  outra  em  taes  condições  de  equi- 
líbrio, que  oscilia  levemente  a  um  certo  impulso. 

Quatro  variedades  ha  d'esta  espécie  de  monumentos,  que  importa 
conhecer. 

Ha  pedras-baloiçantes  : 

1)  Que,  assentando  horizontalmente  sobre  outra  vertical,  de  ordi- 
nário menor  e  de  lórnia  cónica,  oscillamjá  para  um  lado  já  para  o 
que  lhe  fica  diametralmente  opposlo; 

2)  Que,  collocadas  lambem  horizontalmente  sobre  outra  vertical, 
gyram  sobre  esta   como  sobre  um  eixo,  com  uma  leve  oscillação; 

3)  Que,  descançando  equilibradamente  sobre  duas  outras  pedras 
inclinam  para  um  ou  para  outro  lado,  onde  teem  por  esperas  ainda 
duas  pequenas  j)edras; 

4)  Que,  poisadas  verticalmente  sobre  outra  horizontal,  oscillam 
quer  para  um  quer  para  outro  lado,  quando  se  lhe  imprime  impulso 
em  certo  logar. 

Em  França,  estes  monumentos  são  designados  de  diversos  modos, 
não  só  segundo  as  localidades,  mas  segundo  a  variedade  a  que  per- 
tencem, e  as  lendas  ou  superstições  que  lhes  estão  ligadas.  Assim,  cha- 
mam-se  :  pierres  roulantes, — i'oiilées, — tournantes, — retoiírnées , — trans- 
portées  (?) — folies,— qui  dansent, — qiii  virent, — branlanles, —tremblan- 
tes, — de  répreuve. 

Sendo  desconhecidas  em  Portugal  outras  pedras-baloiçantes,  além 
da  que  existe  na  quinta  da  Torre,  e  da  de  Cai-ragosella,  não  sei  que 
nomes  tenha  qualquer  outra  que  haja  no  paiz.  Á  de  Carragozella  cha- 
mam a  pedra  que  abana.  O  meu  amigo  professor  Adolpho  Coelho,  apu- 
rou já  *  os  nomes  locativos  de  Falperra  (falsa  pedra)  e  Peravana  (pedra 
abana),  como  indicadores  da  existência  de  pedras-baloiçantes.  Mas  pa- 
rece-me  que  a  essas  se  podem  addiccionar  os  toponímicos  de  Pedra 
Cavalleira,  Pedra  Encavallada,  Pedra  da  Paciência,  Penedo  que  fala, 
Perramedo,  Penedo  da  Mú^.  As  duas  primeiras  designações  provêem  da 
posição  relativa  da  pedra;  e  a  ultima  da  configuração  da  pedra  supe- 
rior. Muitas  das  pedras  que  abundam  no  nosso  paiz  com  os  nomes  de 
Pedra  da  Moira,  Penedo  da  Moira,  e  ainda  com  outras  denomina- 
ções, foram  provavelmente  pedras-baloiçantes  que  perderam  já  a  sua 
qualidade  oscillante. 

lia  quem  seja  de  opinião  que  as  pedras-baloiçantes  não  são  monu- 
mentos devidos  ao  trabalho  do  homem;  mas  simples  curiosidades  na- 
turaes.  «Bizarrerie  de  la  nature  (diz  o  sr.  II.  du  Cleuziou),  ces  blocs, 
quon  rencontre  un  peu  partout,  suspendus  dans  le  vide,  siir  des  bases 


1  Compte-fírndu  de  la  O"  Session  du  Congrès  international  d'Anthropologiú  et  d'Ar- 
chéolorjir  prehisloriqiie,  Lisljonntí,  1880. 

2  Vej.  Notas  sobre  a  loponymia  portugiieza,  na  Rev.  Ardi.  vol.  I,  pag.  lOG. 


REVISTA   AUClIKOLOÍilCA  3 


illusoires,  pierres  absoliilenierit  nalurelles,  qui,  jadis  mème,  peul-èlre, 
noiíl  jamais  oscillé,  ctaienl  bieii  íailes  pour  servir  doiilil  de  dumina- 
tion  a  ces  charlalans,  quon  s'esl  plii  à  grandir  outre  mesure,  et  qu'il 
est  leinps  de  reinettre  en  bonne  piace  (Ivs  dnúdesjo  *. 

E  men  parecer  que  esta  asserção  não  é  exacta  em  absoluto. 

Que  o  primeiro  d'esla  espécie  de  monumentos  não  deve  ser  attri- 
buido  ao  trabalho  do  liumem,  é  também  minha  convicção.  Um  grande 
penedo  errante,  locahsado  accidentahiiente  sobre  uma  rocha  (que  al- 
luviões  cercavam,  e  que  foi  com  o  tempo  por  muitas  causas  desmu- 
dada),  ficando  assente  em  certas  condições  de  equihbrio,  constituiu  a 
primeira  pedrabaloiçante.  O  homem  inteihgente,  que  primeiro  desco- 
briu as  suas  propriedades  de  oscillação,  serviu-se  d"elia  para  donnnar 
aquelles  que  desconheciam  o  segredo  de  movel-a,  e  a  superstição  au- 
xihou-o.  Mas,  como  nem  sempre  uma  pedra-baloiçante  se  encontrava, 
•e  ao  mesmo  tempo  se  tornava  necessário  esse  meio  de  dominio,  foi 
indispensável  preencher  a  faMa  arliíiciahnenle.  Se  um  grande  numero, 
a  maior  parte  até,  de  |)edras  baloiçanles  são  apenas  penedos  errantes, 
que  o  accaso  dispoz  nas  condicções  que  teem  ao  presente,  ou  se  sabe 
tiveram  já,  algumas  evidentemente  ha  devidas  ao  trabalho  do  homem. 
Entre  as  segundas  podem  talvez  collocar-se  as  de  Boariza,  como  a 
de  Abra,  e  sem  duvida  alguma  a  de  Carragozella. 

As  pedras  da  [irimeira  e  segunda  classe  são  vulgares.  Paliarei  das 
outras  unicamente. 

A  descripção  da  pedra  de  Abra,  na  província  de  Santander.  é  feita 
pelo  sr.  Amador  de  los  Rios  da  maneira  seguinte: 

«Sobre  este  campo  se  ergue  uma  grande  rocha  granítica  perpen- 
dicularmente cortada  na  altura  de  cinco  a  vinte  pés,  em  toda  a  cir- 
cumferencia,  e  rodeada  de  outras  menores,  desordenadamente  amon- 
toadas em  estranhas  situações,  bem  como  as  muitas  que  cobrem  o 
terreno.  Não  assim  a  grande,  que  é  quasi  plana  na  face  superior, 
formando  já  de  per  si  um  dolmen^  natural  de  uns  trinta  pés  de  diâ- 
metro. Na  extremidade  meridional  desta  espécie  de  mesa  e  dirigin- 
do-se  á  parte  nordeste,  se  ergue  a  segunda  pedra  com  a  forma  de 
um  grande  cubo  ou  silhar  posto  de  esquina  sobre  quatro  ou  cinco  pe- 
dras applicadas  a  um  e  outro  lado.  porém  de  modo  que  a  superior, 
nellas  suspensa,  não  toca  immediatamente  nenhum  dos  pontos  da 
grande  mesa  uiferior.  Isto  demonstra  alli  palpavelmente  a  mão  do 
homem;  e  tanto  que,  estando  uma  das  pedras  que  susteem  a  supe- 
rior na  posição  diagonal,  para  adaptar-se  ao  lado  da  mesma,  acha-se 
pela  sua  parte  appoiada  por  outra  pedrinha  que  não  tem  mais  de  oito 
pollegadas  de  comprido  e  três  de  grossura ;  isto  não  obstante  não  se 
pôde  arrancar  do  seu  logar,  por  mais  que  por  ella  se  puxe,  e  uia- 

*  H.  (Ju  Cleuziou,  La  Création  de  fitomme,  pag.  o07 
2  Denominação  mal  applicada. — B.  de  F. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


gueni  até  o  ousaria  tentar  com  medo  de  se  desaprumar  o  todo.  A  pe- 
dra superior  tem  vinte  e  dois  pés  de  largura,  dez  de  altura  e  vinte 
de  circumferencia,  cingida  perpendicularmente  pelo  meio.  Basta  indi- 
car taes  dimensões  para  se  conhecer  que  o  seu  peso  deverá  ser  de 
milhares  de  arrobas. 

«Pela  mesa  inferior  póde-se  andar  commodamente,  rodeando  a  de 
cima,  excepto  pela  extremidade  meridional  em  que  estão  ambas  na 
mesma  linha  perpendicular.  Junto  a  esta  extremidade  e  da  parte  de 
sueste,  as  pedras  pequenas  que  susteem  a  superior,  encaixadas  á  ma- 
neira de  cunhas,  servem  de  degraus  para  subir  á  mesma  pedra,  que, 
segundo  já  indicámos,  forma  um  espinhaço  bastante  agudo,  posto  não 
haver  impossibilidade  de  qualquer  se  suster  nos  dois  lados.  Desde  o 
meio  do  espinhaço  corre  por  elle  da  parte  de  nordeste  com  alguma 
inchnação  para  o  lado  de  sueste,  uma  fenda  ou  rego,  chegando  quasi 
até  á  ponta  do  pedregulho :  e  como  por  esta  parte  está  bastante  adel- 
gaçado pela  extremidade  inferior,  segue-se  que  uma  ou  mais  pessoas 
poderiam  collocar-se  por  baixo  d'elle,  para  receber  o  baptismo  de 
sangue,  se  com  effeito  era  esse  e  não  outro  o  fim  do  sulco».  * 

A  pedra-baloiçante  que  ha  no  cemitério  de  Perros  Guyrech,  é  de 
forma  oblonga  e  repousa  em  equilíbrio  pelas  extremidades  sobre  duas 
espécies  de  pilares;  pesa  um  milhão  de  libras,  e  as  suas  dimensões  são 
de  quarenta  pés  de  comprido  por  vinte  de  largo.  «Tem  na  superfície 
uma  bacia  com  desaguadoiro,  e  parece  ser  o  altar,  onde  se  faziam  os 
sacrifícios  pelos  mortos,  cujos  túmulos  a  cercavam» 2. 

Estas  duas  pedras-baloiçantes  pertencem  pois  ao  terceiro  grupo. 

Passo  agora  a  descrever  a  pedra-baloiçante  de  Carragozella,  soc- 
correndo-me  da  memoria  e  dos  breves  apontamentos  que  me  restam  e 
que  foram  tomados  ha  vinte  annos.  A  estampa  que  a  representa  foi 
feita  de  memoria;  se  não  é  d'uma  grande  exactidão,  dá  pelo  menos 
uma  ideia  approximada  da  configuração  do  monumento. 

Perlo  duma  galleria  se  bem  me  recordo  artificial,  sobre  uma  ro- 
cha erguida  a  cerca  de  um  metro  do  nivel  do  solo,  e  cuja  face  supe- 
rior foi  porventura  grosseiramente  desbastada  pela  mão  do  homem, 
se  eleva  um  monolitho  d'uns  Ires  metros  d'a!to,  d'um  e  meio  de  lar- 
go e  de  variável  espessura,  volumoso  na  base  e  adelgaçando  para  a 
parte  superior  pyramidalmente.  O  monolitho  a  uma  branda  pressão 
em  qualquer  das  faces,  inclina  levemente  para  o  lado  opposto;  se  não 
é  precisamente  um  ponto  dado  aquelle  em  que,  para  pôr  a  pedra  em 
movimento,  se  ha  de  fazer  a  pressão,  deve  comtudo  procurar-se  o 
logar  d'ella  na  parte  central  da  pedra  e  a  uma  certa  altura  que  exce- 
da o  centro  de  gravidade.  Recordo  me  de  que,  durante  três  dias  fiz 


1  Transcripto  na  Introdiicrão  á  archeologia  da  peniusula  Ibérica,  por  A.  F.  Simões; 
pag.  79-80. 

2  A.  K.  Simões,  op.  cil.  pag.  80,  citando  Kougemont,  L'ãge  dii  bronze. 


REVISTA   ARCHIiOLOGICA 


5 


tentativas  inúteis  para  mover  a  pedra,  conseguindo-o  finalmente  tanto 
d'um  como  d'outro  lado. 

-  Se  as  pedras-baloiçantes  de  Abra  e  de  Perros  Guyrech  teem  cor- 
tes que  parecem  indicar  que  esses  monumentos  serviram  de  aras  de 
sacrificios,  a  de  Carragozella,  pela  forma,  pela  disposição  e  pela  au- 
zencia  de  quaesquer  cavidades  ou  sulcos,  não  foi  destinada  para  nella 
se  sacrificar. 

Teem  divergido  as  opiniões  sobre  o  Hm  a  que  foram  applicadas  as 
pedras-baloiçantes,  quer  naturaes  quer  artificialmente  dispostas.  Con- 
sideraram-nas  já  como  symbolos  da  divindade,  como  emblemas  do  mun- 
do suspenso  no  espaço  (opinião  de  De  Camby),  como  emblemas  do  li- 
vre arbítrio,  e  finalmente  como  meios  de  reconhecer  a  culpabilidade 
dos  accusados,  uma  prova  judiciaria. 


A  este  respeito  diz  judiciosamente  o  ilhistre  Henri  Martin: 
«Cette  idée  d'interroger  les  forces  secrètes  de  la  nature  sur  les 
secrets  de  la  vie  humaine  a  été  aussi  univ^rselle  que  la  magie  procé- 
dait  du  même  príncipe  ou  de  la  même  illusion;  on  croyait  faire  par- 
ler  dans  la  nature  exlerieure  le  Dieu  qui  ne  parle  que  dans  la  con- 
science  de  Thomme.  Les  accusés  qui  ne  parvenaient  pas  à  mettre  en 
mouvement  la  pierre  étaient  sans  doule  reputes  coupables.  II  n'y  a 
pas  bien  longtemps  encore  que  les  maris  qui  soupçonnaient  la  fidéli- 
té  de  leurs  femmes,  les  obligeaient  à  subir  celte  épreuve.» 

Esta  hypothese  é  plausível  e  de  demais  a  mais  confirmada  pelas 
tradições  que  em  muitas  localidades  andam  ligadas  a  estes  monumen- 
tos. Mas  ella  não  importa  a  negação  de  que  algumas  pedras-baloiçan- 


6  REVISTA    ARCHEOLOGICA 

tes  não  hajam  servido  ao  mesmo  tempo  de  altares  de  sacrifícios,  como 
fica  dicto. 

Em  França,  conforme  diz  o  sr.  H.  du  Cleuzioii,  «on  la  consulte  en- 
core de  nos  jours»  *;  noutras  partes  succederá  o  mesmo.  Mas  esla  con- 
sulta não  é,  nem  foi  talvez  jamais,  unicamente  feita  pelos  juizes  que 
buscavam  conhecer  a  iiuiocencia  ou  culpabilidade  de  alguém.  Se  a  pe- 
dra-baloiçanle  era  prova  judiciaria,  se  ella  era  o  jiiizo  de  Deus,  se  elia 
tinha  a  virtude  de  responder  sobre  o  gravíssimo  facto  de  uma  accu- 
sação,  não  daria  ella  também  resposta  a  quem  a  interrogasse  sobre  ou- 
tros assumptos,  sobre  coisas  futuras?  Interrogavam  o  oráculo  acerca 
do  destino  da  alma  do  morto,  como  o  consultavam  sobre  o  resultado 
d'um  combate.  O  homem  interrogava-o  sobre  a  opportunidade  de  ef- 
fectuar  uma  empreza,  sobre  a  fidelidade  da  sua  companheira,  sobre 
variados  objectos.  A  mulher  perguntava-Ihe  se  o  seu  noivo  correspon- 
dia ao  seu  aHecto,  se  o  ente  concebido  seria  filho  ou  filha,  inquiria-o 
sobre  mil  duvidas. 

O  emprego  da  pedra-baloiçante  como  prova  judiciaria  é,  porém,  o 
mais  importante;  e  algumas  das  denominações  portuguezas,  que  apon- 
tei, parecem  conservar  memoria  do  emprego  do  monumento  e  do  ter- 
ror que  infundia  a  tremenda  prova.  Pedra  da  paciência  é  a  que  gasta 
a  paciência  de  quem  busca  movel-a.  Penedo  que  fala  é  o  que  em  sua 
particular  linguagem,  a  oscillação,  responde  à  pergunta  que  lhe  é  di- 
rigida também  por  um  especial  modo  de  dizer,  a  pressão.  Perrainedo 
(pedra  medo:=a  pedra  que  é  medo,  que  causa  medo)  é  a  que  incute 
receio,  terror,  ao  accusado  que  tem  de  a  fazer  oscillar  para  provar  a 
sua  uinocení-ia.  Peravana  (pedra  abana — ó  pedra,  abana)  exprime  o 
desejo  intimo  e  ardente,  a  invocação  mental  ou  explicita  de  quem  pe- 
dia ao  oráculo  uma  resposta,  de  que  suppunha  depender  a  sua  ventu- 
ra, ou  de  que  de  facto  dependia  a  sua  existência. 

Janeiro,  1888.  Bohges  de  Figueihedo 


ANTIGUIDADES  PHENICIAS  E  ROMANAS 
NA  península 

Devido  á  obsequiosidade  do  meu  amigo  e  collaborador  o  professor 
E.  Hiibner,  posso  ministrar  aos  leitores  uma  exacta  informação  do  que 
o  illuslre  archeologo  communicou  á  Sociedade  Archeologica  de  Ber- 
1ÍD,  na  sessão  de  novembro  ultimo,  acerca  da  descoberta  de  antigui- 
dades phenicias  e  romanas  na  Ilispanha.  Eis  o  que  se  lê  na  acta 
daquella  sessão,  a  qual  vem  |)ul)licada  no  Sonderabdruck  aus  «Wo- 
chenschrift  fiir  Idassische  Philulogiei),  1887: 


1  II.  du  Cleuziou,  loc.  cit. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


«...  Do  noroeste  do  império  romano  o  orador  passou  ao  extremo 
sudoeste  do  mesmo  império.  Por  occasião  de  em  Cadix  se  abrirem  os  fun- 
damentos d'um  ediíicio  destinado  a  uma  exposição  mnriliina,  á  beira- 
mar  e  á  entrada  da  cidade,  situada  numa  peninsula  pouco  elevada,  e 
num  sitio  chamado  Punta  de  la  Vaca  encontraram-se  ã  profundidade 
de  cinco  metros  três  sepulturas  ladeadas  de  paredes,  provavelmente 
os  restos  da  antiga  necropole  dos  phenicios  de  Gades.  Dentro  duma 
d'essas  sepulturas  eslava  um  bem  trabalhado  sarcophago,  do  íino  cal- 
cário que  ha  na(juelles  sitios.  O  sr.  Berlanga,  o  conhecido  archeologo 
de  Málaga,  Icmbrou-se  logo  do  célebre  sarcophago  de  Eschmunezar, 
conservado  no  Louvre.  As  photographias  que  o  orador  poude  mostrar 
confirmam  por  complecto  esta  lembrança.  O  tampo  do  sarcophago 
representa  a  figura  deitada  do  morto,  homem  de  barbas  e  cabellos 
compridos,  uniilLo  bem  conservada  e  trabalhada  no  verdadeiro  eslylo 
antigo  (approximadamente  V  século  a.  Ch.).  O  braço  direito  descança 
estendido  sobre  a  estreita  roupagem;  a  mão  direita  segura  sobre  a 
a  coxa  uma  grande  coroa  de  loiro  que  é  somente  pintada.  O  braço 
esquerdo  está  flobrado  para  o  lado  direito  do  peito;  e  a  mão  respectiva 
segura  um  coração,  segundo  a  relação  diz;  é  também  só  pintado.  A 
photograjihia  faz  suppoi-  que  se  quiz  representar  um  fructo,  talvez 
uma  romã.  As  extremidades  dos  pés  excedem  a  roupagem;  os  dedos 
são  cuidadosamente  trabalhados;  e  tem  pintadas  bonitas  sandálias.  A 
cabeceira,  aos  pés  e  aos  lados  do  tampo  ha  pegas,  destinadas  a  faci- 
litar a  abertura  do  sarcophago;  o  qual,  assim  como  o  tampo,  se  appro- 
xima  da  forma  humana.  Do  caixão  de  madeira,  (jue  se  continha  no 
sarcophago  de  pedra,  existem  apenas  insignificantes  restos.  Os  vesti- 
dos e  os  adornos  do  defunto  parece  terem-se  decomposto  ou  sido  rou- 
bados. Diz-se  que  nesta  sepultura  só  se  achou  um  annel  d'oiro  com 
um  sinete  movei.  Do  lado  do  emblema,  mostra  uma  figura  de  mu- 
lher, de  perfil  do  lado  esquerdo;  ella  tem  na  mão  direita  um  ramo  e 
na  esquerda  uma  coroa.  É  possível  que  este  annel  fosse  trazido  do 
Oriente  ou  d'alli  mandado  vir  pelo  seu  possuidor,  negociante  talvez 
da  opulenta  cidade.  O  esqueleto  está  intacto;  o  craneo  é  um  achado 
de  summa  importância  para  a  anthropologia. 

«Duas  outras  sepulturas,  também  cercadas  de  paredes,  estão  ira- 
mediatamente  contíguas  áquella.  Não  se  encontraram  nellas  sarcopha- 
gos,  mas  somente  dois  esqueletos,  bem  conservados;  um,  d"homem, 
com  armas  de  bronze  e  um  collar  composto  de  vértebras;  outro,  duma 
mulher,  com  dois  braceletes  de  grosso  fio  doiro  e  dois  broches  do 
mesmo  metal.  Suppõe-se  que  elles  pertencem  a  iberos  de  distincção, 
ligados  d'algum  modo  ao  patrono  phenicio.  Outras  escavações,  que 
infelizmente  mal  se  podem  esperar,  dariam  provavelmente  em  resul- 
tado importantes  achados  para  a  historia  da  Gades  phenicia.  Os  que 
ficam  mencionados  são,  além  das  moedas,  os  primeiros  restos  certos 
até  hoje  encontrados  d'uma  colónia  phenicia  era  Hispauha. 


8  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

«Perto  d'eslas  sepiilluras  tão  antigas,  está  uma  necropole  romana, 
a  menor  profundidade,  onde,  na  occasião  das  escavações,  se  encontra- 
ram alguns  objectos  que  não  são  destituídos  de  interesse.  Entre  as 
inscripções  funeraes,  que  são  pequenas,  e  que  íazem  lembrar  os  lel- 
treiros  dos  columbarios,  ha  um  epigramma  que  é  digno  de  menção. 
Está  gravado  em  formosos 'caracteres,  pouco  mais  ou  menos  do  tempo 
dos  augustos.  O  orador  mostrou  um  cabo  d'essa  inscripção,  e  termi- 
nou pela  leitura  dum  curta  e  mimosa  poesia  que  não  é  composta  se- 
gundo os  modelos  ordinários;  o  auctor,  porém,  não  a  poude  levar  ao 
fim  com  a  forma  elegiaca  que  lhe  destinava.  A  poesia,  em  dois  dísticos 
e  um  baxamelro,  que  está  intercalado,  lamenta  a  morte  prematura  de 
duas  creanças.  Eil-a  : 

Contegit  hic  tiimulus  duo  pignora  cara  parentum, 

indicai  et  iilidus,  nomine  quo  fuerinl. 

Sors  prior  in  piiero  cecidit;  sed  flebile  fatum 

(trislior  ecce  dies !)  renovai  mala  volnera  sana, 

el,  modo  quae  fmral  filia,  mine  cinis  esl. 

Festiva  an  ínorumj  XI,  Sodalis  anniculfusj  h(ic)  s(iti)  s(unl). 

Síitj  v(obis)  l(erra)  l(evis).     Rogatus  dal. 


VISITAÇÃO  DO  ARCEBISPADO  DE  LISBOA 
(Século  XV) 


Havendo  eu  já  publicado  umas  constituições  do  arcebispado  de  Lisboa,  redigi- 
das nos  começos  do  século  xv,  c  também  duas  visitações  feitas  á  egreja  de  S.  João 
do  Mocbarro  d'Obidos,  uma  pelo  celebre  Cardeal  d'Alpedrinba  em  14  de  fevereiro  de 
14G7,  outra  pelo  bis|)o  de  Çaíim  (em  nome  do  arcebispo)  aos  2  de  junbo  de  1474  ; 
vou  hoje  encetar  a  publicação  d'uina  visitação  geral  du  mesmo  arcebispado  ao  que 
me  move,  além  do  seu  natural  interesse,  o  incitamento  de  alguns  cavalheiros  aquém 
particularmente  imporia  o  estudo  de  documentos  d'esta  ordem. 

Esta  visitação  é  sobretudo  interessante  por  moslrar  o  estado  do  clero  portuguez 
ao  começar  do  século  xv.  F^alta  a  data  ao  documento,  assim  como  lhe  falta  assigna- 
tura;  mas,  pelo  caracter  da  lettra,  a.scende  elle  certamente  aos  inicios  do  século  xv. 
Pertenceu  ao  mesmo  lombo,  de  que  fizeram  parte  os  (h)cumentos  supracitados,  e  oc- 
cupava  alli  o  primeiro  logar,  facto  que  por  si  só  não  lhe  imputava  maior  anciani- 
dade  do  (jue  aos  outros,  visto  ser  vulgar  a  transposição  de  documentos  em  antigas 
collecções. 

E  natural  que  se  encontrem  nesta  visitação  geral  do  arcebispado  repetidas  al- 
gumas das  determinações  feitas  nos  alludidos  documentos;  resolvi,  |)oréin,  publical-o 
da  integra,  attendendo  a  que  assim  nada  perderá  de  sua  importância,  e  melhor  pode- 
rá ser  estudado. 

Assim  como  pratiquei  já  com  os  documentos  análogos  já  publicados,  precedo  a 
visitação  do  Índice  dos  capítulos,  que  a(jui  vão  numerados  para  facilitar  citações. 

B.   DE   F. 


REVISTA   AliCHEOLOGICA 


índice 

1 — como  noiíideiitMii  de  alisoluer  dos  casos  neste  capitólio  conteúdos. 

2 — domo  som  coiiiitidos  os  casos  aos  priores  e  beneficiados. 

ii — (vomo  os  beneficiados  nem  Iconiraos  nom  deuem  teer  cura  por  |)rioronde 
assy  for  beneficiado. 

4 — í^omo  noiíi  deuem  os  crelij,'os  aleuaiitar  aroydo  nos  coros  em  canto  (sic) 
steuerem  ao  oíieio. 

5  —  Como  os  priores  e  vijíairos   ieiietn  ibj  fazer  rezedenria  em  seus  benefícios. 

6"  —  (>omo  deuem  reipuirer  os  fregueses  ijue  doentes  forem  que  recebam  os  sa- 
cramentos da  sancta  egreia. 

7  —  Csmo  (IfHiem  de  dizer  as  oras  e  missas  cantadas. 

8  —  Como  nom  deuem  fa^er  casamíMilos  sem  banos  (sic). 

O — Como  bc  posta  scntemn  dexconumbom  em  aquelles  que  se  casom  per  ssy. 

10  —  Como  o  crelijjo  d(!tie  dizer  ao  domin;.'o  o  pater  noster  e  aue  maria  e  (js 
preçeptos  e  os  outros  sacramentos  a  oferta. 

11  —  (]omo  deueíu  de  baulizar  .seus  lilbos  a  o.\to  dias. 

12  —  Como  liam  de  sair  aa  ii"  feira  sobre  os  finados. 

13  —  Como  nom  deiK-m  de  arendar  (sir)  os  beneíieios  sen  licença. 

14  —  (]omo  deuem  d(!  |)edir  licença  as  arcebispo  dos  bees  que  se  aforem. 

15  —  Como  o  priostedeue  de  dar  conta. 

10 —  Como  os  fiefíiieses  am  de  receber  os  sacramentos  em  suas  egreias. 

17  —  Como  os  bciieliçiados  ou  iconimos  possam  bautizar. 

18  —  Como  os  creligos  se  podem  confessar  a  quem  qiiizerem. 

19  —  Como  os  priores  deuem  de  mandar  dizer  ao  arcebispo  quaes  som  os  bene- 
ficiados ausentes  e  [tresentes. 

20  —  (]omo  os  priores  beneficiados  deuem  de  tomar  o  tralado  dos  priuilegios 
que  alguuns  beneficiados  trouiierem. 

21  —  Como  08  tesoureiros  deuem  de  tanger  aa  trindade. 

22  —  Gomo  deue  de  seer  prioste  leigo. 

28  —  Como  deuem  de  conqjrir  as  visilaçoões  ante  desta. 

24  —  Como  deuem  dti  teer  as  visitaçoões  de  Jobain  garcia  e  vasco  dominguez  e 
as  que  forom  fetas  per  .lobam  paaez  e  as  constituiçoões  sinodaaes. 

25  —  Como  os  creligos  deuem  de  dar  o  sacramento  da  vnçom  quando  forem  re- 
queridos. 

20  —  Como  os  priores  e  beneficiados  nom  deuem  de  tomar  cousas  que  seiam 
oferecidas  nas  capelas  sofreganbas  aas  dietas  egreias 

27  —  Como  os  leigos  se  deuem  deitar  dentro  na  egreia  se  ia  alguum  seu  diuido 
dotou  a  dieta  egreia. 

28  —  Como  os  beneficiados  deuem  de  visitar  em  cada  buum  anno  os  beens  das 
agrei  as. 

29  —  Como  deuem  poer  lençooes  pretos  nos  altares. 

30  —  Como  as  visitaçoões  e  esta  deuem  de  seer  postas  em  no  coro  da  egreia  em 
huum  liuro. 

31  —  Como  se  alguum  dota  a  egreia  por  se  deitar  em  ella  deue  seer  posto  em 
fabrica  da  egreia. 

32  —  Como  deuem  de  poer  bancos  nas  egreias. 

33  —  Como  o  que  nom  fie  bautizado  como  se  deue  depois  bautizar. 
34 — Como  deuem  depois  de  comer  dar  o  sacramento  da  comunhom. 
35 — Como  ham  de  abstíluer 


iO  REVISTA   ARCHEO  OGICA 

VISITAÇÃO 
1  —  como  nom  deucm  de  absoluer  dos  casos  oeste  capitólio  conteúdos 

Visitando  nos  nosso  arcebispado  achamos  per  certa  noticia  que  al- 
gumas pessoas  ecciesiaslicas  assy  seculares  como  relligiosas  que  car- 
rego teem  de  confessar  absoluerem  dos  casos  pontificaaes  que  a  nos 
per  direito  e  costume  perteençem  sem  lhes  per  nos  nem  per  aquelle 
que  par.i  ello  nosso  poder  tem  seerem  cometidos  em  grande  perigo 
das  suas  almas  e  conçiençias  e  daquelles  que  vaão  confessar,  confes- 
sando seu  peccado  e  nom  seendo  absolutos  delles  e  porém  por  euitar 
tam  grande  erro  e  socorrer  as  almas  dos  fiees  xpaãos  a  que  somos 
Ihendos  por  carrego  que  teemos.  amostamos  os  sobre  dictos  a  primeira 
e  a  segunda  e  a  terceira  uez  dandolhe  por  todas  três  canónicas  amoes- 
taçoões  e  termho  perantorio  que  do  dia  que  lhes  esta  nossa  visitaçom 
for  dada  ou  pobricada  ou  delia  noticia  ouuerem  a  três  dias  primeiros 
seguintes  cessem  e  desistam  desse  tremeterem  de  absoluer  dos  dictos 
casos  que  a  elles  nom  perteençem.  e  fazendo  elles  ou  cada  huum  o 
contrairo  poeinos  em  qualquer  (jue  o  contrairo  fezer  Sentença  desco- 
raunhom  cm  estes  scriptos  resaluando  pêra  nos  absoluçara  e  ainda 
seendo  delo  conuitos  e  seiam  certos  que  aalem  da  pena  spritual  lhe 
seera  dada  tal  pena  corporal  que  a  elles  seia  scaramentofi/(;j  e  a  outros 
exemplo  e  por  nom  poderem  alegar  inorançia.  e  saber  quaaes  som  os 
casos  pontificaaes  de  que  nom  podem  absoluer  mandamos  que  lhe  fos- 
sem aqui  postas  e  declaradas  assy  por  sua  auisança  delles  como 
de  seos  confessados.  Os  quaaes  som  estes  que  se  adeante  seguem,  a 
saber.  Omeçidio  uoUintnrio  cometido  fora  de  gerra  {sk).  Auer  alheo 
soonegado  que  passe  de  çem  réis  acima.  Voto  sinpres.  Sacrilégio.  In- 
cêndio. Percussam  de  cleligo  (s/c)  em  que  nom  haja  enorme  lesom.  Di- 
zimas nom  pagadas  onde  deuem.  Excomunhom  mayor.  Os  quaaes 
casos  speçialmente  reseruamos  pêra  nos  ou  pêra  aquelle  que  pêra  ello 
nosso  logar  teuer  dos  quaaes  e  cada  huum  delles  defendemos  que  nom 
absoluam  posto  que  per  nossa  leçença  seiam  cometidos,  todos  os  ou- 
tros e  sse  alguuus  cayram  ou  cayrem  em  alguuns  dos  dictos  casos  re- 
saruados  pei-a  nos.  uenham  a  nos  ou  aaquelle  que  pêra  eilo  nosso 
speçial  mandado  teuer  e  acharom  remedm  saudauel  pêra  suas  almas  e 
por  se  esto  melhor  comprir  e  e.xucutar  {sic)  e  auitar  (sic)  o  dicto  erro 
mandamos  a  todos  os  priores  e  vigairos  perpetuus  {sic)  e  capellaães  de 
cura  do  dicto  nosso  arcebispado  que  cada  mes  uma  vez  ao  domingo 
pobrifjuem  esta  hordenaçom  em  suas  egreias  e  o  que  o  contrairo  fezer 
pague  mil  reaes  brancos  pêra  as  obras  de  piedade. 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA 


n 


2  —  Como  som  comitidos  os  casos  aos  priores  e  beneliriados 

Item  por  quanto  lodosos  priores  e  vigairos  perpetmis  do  dicto  nosso 
arcebispado  som  llieiidos  em  cada  limim  aiino  viiiirem  (sic)  receber  os 
nossos  casos  ponliílcaaes  e  aiier  nossa  leçença  pêra  ello  e  muitos  som 
negligentes  e  nom  curam  dello  por  scusarem  despesas  e  trabalhos, 
poròin  nos  querendo  as  almas  dos  fiees  xpaãos.  per  esta  presente  lhe 
cometemos  os  ditos  casos  em  (luaiUo  for  nossa  merçee.  reseruando 
pêra  nos  os  conlheudos  no  capitólio  sobre  (belo  e  por  que  muitas  ue- 
zes  acontece  pella  multiplicaçoin  do  poboo  os  sobre  (bctos  [)riores  vi- 
gairos nom  poderem  remediar  a  todo  ou  por  alguum  caso.  Alguuns 
nom  se  querem  confessar  a  elles  seendo  mais  contentes  de  sse  con- 
fessarem alguuns  benfiçiados.  porém  lhes  damos  por  ajudadores  e  lhe 
cometemos  nossas  uezes  e  poder  tam  compridamente  como  o  come- 
temos aos  dictos  priores  e  vigairos.  ora  selam  beneficiados  como  capel- 
laães  e  Iconimos  que  de  missa  forem  e  por  que  poderia  seer  que  huuns 
se  querem  scusar  por  os  outros  e  assy  se  poderá  perlongar  (.s7C)o  ser- 
uiço  de  deus.  e  sseguirsse  alguum  perigoo.  mandamos  a  todos  os  sobre 
dictos  que  quando  quer  que  alguuns  delles  for  (s/c)  requerido  pêra  con- 
fessar ou  comungar  que  seia  logo  prestes  e  deligente  pêra  ello  e  ssem 
poendo  alguma  sensaçom  e  o  que  o  coutrairo  fezer  querremos  (sic) 
que  jaca  seis  meses  no  aljube  fazendo  peendença  da  sua  pouca  obe- 
diência. 

5  — Comi)  os  beneficiados  nem  Iconimos  nom  dciiem  teer  cura 
por  o  prior  onde  assy  for  beneficiado 

Item  achamos  per  certa  emformaçom  que  muitos  beneficiados  do 
dicto  nosso  arcebispado  nom  embargando  em  como  som  obrigados  per 
direito  perssoalmente  seruirem  seus  benefícios  e  fazerem  em  elles  re- 
gedençia  {sic)e  ainda  querem  filhar  os  ofiçiose  carregos  alheos.  tomando 
as  curas,  e  carregos  dos  priores  e  vigairos  donde  assy  som  beneficia- 
dos seendo  em  aa^zo  de  em  emlhear  (sic)  e  tirar  da  seruidoõe  da  egreia 
e  cidiu  diuino  huma  pessoa  o  que  nom  he  justo  nem  onesto  e  ainda  dam 
aazo  aos  priores  e  vigairos  sse  scusarem  de  seus  próprios  carregos. 
indo  em  ello  contra  o  juramento  que  fezerom  em  a  confirmaçom  de 
seus  benefícios  e  por  que  segundo  regra  de  direito  singulla  oficia  sin- 
gullis  perssonis  sunt  comittenda.  porém  por  scusar  o  que  dicto  he  hor- 
denamos  e  mandamos  que  qualquer  beneficiado  ou  Iconimo  que  filhar 
cura  em  egreia  onde  assy  for  beneficiado  ou  Iconimo  que  perca  os 
fructos  daquelle  anno  do  dicto  seu  beneficio  ou  Iconimia  e  o  prior  ou 
vigairo  que  esto  cometer  que  page  (sic)  mil  reaes  brancos  pêra  as 
obras  de  piedade  e  esto  hordenamos  por  cada  huum  se  contentar  de 
seu  oficio  e  as  egreias  seerem  melhor  seruidas  e  oficio  diuino  acre- 
çenlado. 


12  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

4 — Como  nom  doiiem  os  crolÍ!)os  aleuantar  arojdo  nos  coros 
cm  cauto  [sic)  slevercm  ao  oliçio 

liem  por  quanto  achamos  por  certa  noticia  que  aiguuns  beneficia- 
dos do  dicto  nosso  arcebispado  aos  tempos  que  vaãm  as  egreiasestam 
aos  oliçios  diuinos  aleuantam  paiaiu^as  e  aroydos  em  tal  guisa  que  tor- 
uam  os  d ictos  ofícios  e  fazem  scandallo  ao  poboo.  porém  querendo  nos 
a  esto  remedear  com  direito  mandamos  aos  diclos  beneficiados  por  ser- 
uiçode  deus  e  lionrra  das  dietas  egreias  e  bem  de  suas  almas  que  nos 
dictos  tempos  nom  leuantem  os  dictos  aroydos  nem  palauras  e  perfias 
per  qualquer  coussa  que  sela  depois  que  slenerem  ass  dictos  ofiçios.  e 
pacificamente  e  sem  toruaçom  os  comecem  bem  e  acabem  e  qualquer 
que  o  contrairo  fezer  mandamos  ao  nosso  vigairo  que  logo  os  prenda 
e  mande  ao  nosso  aljube  onde  façam  peendença  ataa  nossa  merçee  e 
sse  peruentura  for  em  logar  onde  tal  se  fezer  nom  ouuer  nosso  vigairo 
que  o  prior  ou  beneficiados  que  em  ello  culpados  nom  forem  o  notifi- 
quem logo  ao  nosso  vigairo  da  comarca  e  nom  o  fazendo  elles  ou  cada 
huum  delles  assy  que  paguem  quinhentos  reaes  brancos,  e  sse  o  dicto 
nosso  vigairo  a  que  for  notificado,  esto  nom  exucutar  como  per  nos  he 
mandado  que  pague  mil  reaes  brancos. 

5  —  Como  os  priores  e  vigairos  deiiera  de  fazer  rccjedeuçia  era  seus  benefícios 

Item  por  quanto  achamos  que  muitos  priores  e  vigairos  perpetuus 
do  dicto  nosso  arcebispado  estam  em  perigoo  de  suas  almas  e  dapno 
de  ssuas  conçiençias  e  ainda  nom  notariamente  sem  necessidade  de 
cousa  alguma  ligeu'a  contra  o  juramento  que  fezerom  em  as  confirma- 
çoões  de  seus  benefiçios  onde  jurarom  fazer  regedencias  perssoaaes 
em  as  egreias  onde  assy  som  beneficiados  poendo  em  ellas  capellaães 
e  indo  por  onde  lhes  apraz  sem  em  todo  o  anno  per  algumas  uezes 
viinrem  a  ellas  saluo  quando  vêem  apanharas  rendas  porém  querendo 
nos  a  ello  remedear  segundo  forma  de  dereito  hordenamos  e  manda- 
mos que  daqui  endeante  os  sobre  ditos  vaam  seruir  seus  benefiçios 
perssoalmenle  e  compram  seu  juramento  e  nom  queiram  mais  cair  em 
prejuro  (síc)(\\\q  nom  helicitonem  justo  mais  que  todauia  compram  seus 
juramentos  saluo  se  for  priuilligiado  per  nosso  Senhor  o  papa  ou  nos 
alegar  necessidade  ou  legitima  cousa  per  que  lhe  demos  leçença  que 
em  seu  logar  ponha  creligo  idóneo  que  supra  seus  encarregos  nom 
fazendo  per  este  mandado  perjuizo  aacostituçoinfòíc^sinodal  quedespoõe 
que  cada  huum  vaa  fazer  regedençia  perssoal  na  coreesma  e  o  prior 
ou  uigairo  que  contra  este  nosso  mandado  veer  que  perca  os  fructos 
do  prioriado  ou  uigairia  que  assy  nom  seruir  aquelle  anno. 


RKVISTA   AUCHEOLOGICA  13 

6'  —  Como  (Iciioiii  reiíiKTcr  os  frcjjiiosps  (|ii('  docnlcs  forem 
que  recebam  os  sacramentos  da  saiicla  eyreia 

Item  outrossy  achamos  qiie  algmins  prioros  vigairos  perpetuus  e 
capellaães  (jiie  carrego  toem  de  cura  eram  negligentes  e  remissos  em 
aderem  seus  fregeesses  assy  como  som  Iheudos  e  alguns  dos  dictos 
freegeses  (sicj  morriam  sem  confesso  e  outros  sacramentos  o  que  era 
mui  mal  feio  e  querendo  nos  proueera  tal  perigoo  hordenamos  e  man- 
damos que  quando  (juer  que  alguum  fregees  for  doente  que  os  dictos 
priores  e  vigairos  e  capellaães  logo  sem  alguma  deleença  os  vaam  ni- 
sitar  posto  que  pêra  ello  nom  seiam  reijiieridos  e  lhe  requeiram  da 
parle  de  deus  e  da  saneia  egreia  que  se  menefestem  e  recebam  os 
ecciesiasticos  sacramentos  em  a  egreia  de  deus  por  saluaçam  de  suas 
almas  honlenadas  e  nom  o  querendo  elles  assy  fazer  e  morrendo  em 
sua  contumácia  que  os  nom  soterrem  em  nas  suas  egreias  nem  cimi- 
terios  delias  nem  recebam  por  elles  obraçoões  nem  llie  façam  ofícios 
de  xpaãos  ordenados  por  a  sancta  egreia  e  qualquer  prior  ou  uigairo 
ou  capellam  que  o  assy  nom  fezer  comosuso  dicto  he  e  íTorem  em  ello 
negrigenles  queremos  que  jaca  seis  meses  no  aljube  fazendo  peen- 
dença  de  sua  pouca  obediência. 

7  —  Como  deuem  de  dizer  as  oras  e  missas  cantadas 

Item  por  quanto  achamos  que  antigamente  se  acustumauam  de  sse 
dizerem  as  oras  canónicas  hordenadas  na  nossa  sancta  madre  egreia 
em  algumas  egreias  do  dicto  nosso  arcebispado  cantadas  e  agora  mui- 
tas uezes  se  nom  rezauam  nem  diziam  per  culpa  e  neglegençia  dos 
priores  e  vigairos  e  beneficiados  delias  o  que  nom  he  bem  hordenado 
de  seerem  quebrantados  os  boos  costumes  antigos  instituídos  em  ellas 
por  seruiço  de  deus  e  ainda  se  geera  grande  scandallo  a  seus  freeges- 
ses  e  querendo  nos  a  esto  remedear  de  remédio  oportuno  segundo  so- 
mos obrigado,  e  perteençe  a  nosso  oficio  pastoral  e  por  conseruar  as 
dietas  egreias  em  suas  boas  liberdades  e  custumes  amigos  e  tirar  o 
dicto  scandallo  mandamos  em  virtude  de  obediência  e  sob  pena  dexco- 
munbom  aos  sobrediclos  que  daqui  em  deante  assy  aos  que  ora  som 
como  aos  que  adeante  forem  que  digam  suas  oras  cantadas  segundo 
se  husou  antigamente  aos  tempos  que  se  deuem  de  dizer  e  qualquer 
que  o  contrairo  fezer  mandamss  que  pellas  matinas  pagem  ískj  çem 
reaes  e  por  a  missa  outro  tanto  e  por  a  uespera  e  completa  I.  reaes 
e  esto  se  entenda  por  cada  uez  que  as  assy  nom  cantarem  como  dicto 
he  aaquelles  em  que  for  a  negrigençia. 


14  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

8  —  Como  uoiii  (leuciQ  fazer  casamontos  sem  banos  fsicj 

Item  por  qtianlo  achamos  que  algiiiins  priores  e  vigairos  e  capel- 
laães  de  cura  do  nosso  arcebispado  a  quem  perteen.çe  de  ministrar 
os  ecclesiasticos  sacramentos  nom  sgardando  a  regra  que  os  sanctos  câ- 
nones em  elles  ordenarom  e  precipue  em  os  casamentos  assy  como 
transgressores  delles  e  penas  em  ellas  contheudas  fazem  por  o  con- 
trairo  fazendo  os  dictos  sacramentos  sem  banos  dos  quaees  casamen- 
tos se  sseguem  muitos  perigons  casando  parentes  com  parentes  iifi- 
Ihados  com  madrinhas  compadres  com  comadres  assy  contra  prohibi- 
çom  devina  como  canónica  e  os  filhos  de  taaes  casamentos  neem  som 
inletinios  (sic)  *  porém  por  euitar  a  taaes  perigoos  e  por  que  nom  he 
em  conueniente  que  creçendo  a  contumácia  deue  de  crecer  a  pena  per 
esta  lhe  defendemos  que  nom  façam  taaes  casamentos  e  gardem  em 
elle  a  regra  dos  sanctos  cânones  e  qualquer  que  o  conlrairo  fezer  se 
for  prior  ou  uigairo  alem  da  pena  que  lhe  he  posta  per  direito,  ut, 
quis  timor  diuinus  a  mallo  non  reuocat.  saltym  temporallis  pena  co- 
hibeant  a  peccato.  que  page  quinlios  reaes  brancos  e  sse  for  capellam 
pague  mil  reaes  e  sse  for  raçoeiro  perca  per  aquelle  anno  os  fructos 
de  seu  beneficio  e  porque  muitas  uezes  se  acondoçe  fsicJ  que  dam  lecença 
a  outros  que  os  façam,  e  os  fazem  sem  gardarem  em  ello  a  regra  do 
direito  mandamos  que  aquelle  que  lhe  assy  der  a  dieta  lecença  que  ja- 
çam  VI  mezes  no  aljube  onde  faça  peendença  e  aquelles  que  o  faze- 
rem se  forem  priores  e  vigairos  e  capellaãs  (sicj  ou  outros  quaees 
quer  creligos  que  ajam  as  susso  dietas  penas. 

O  —  Como  hc  posta  sentença  dexcomunliom  em  aquelles  que   se  casom  per  ssy 

Item  achamos  por  a  visitaçom  feta  ante  desta  per  Vasco  domin- 
guez  e  João  garcia  que  forom  nossos  visitadores  que  era  posta  sen- 
tença dexcomunhom  em  os  leigos  que  faziam  alguuns  casamentos  e 
nom  eram  em  a  dieta  visitaçom.  prouendo  acerqua  das  pessoas  prin- 
cipaaes  que  per  ssy  se  casauam.  porém  querendo  nos  por  regra  e 
entender  a  dieta  visitaçom  lhes  defendemos  que  per  ssy  nom  façam 
taaes  casamentos  e  fazeendoos  sob  as  dietas  amoeslaçoões  queremos 
que  encorram  em  sentença  dexcomunhom  assy  como  os  outros  leigos. 

20  _  Como  o  creligo  denc  dizer  ao  domingo  o  pater  noster  e  auc  maria 
e  os  preçcplos  e  os  outros  sacramentos  a  oferta 

Itera  achamos  em  a  dieta  visitaçom  que  foy  mandado  que  aquelles 
que  fezessem  a  confissom  ao  domingo  aa  missa  dissessem  mui  [)assa- 
mente  ísic)  ao  poboo  o  pater  noster  e  aue  maria  e  o  credo  in  deum 


1  Deverá  lér-se  inleliuios  ? 


REVISTA   AKCHEOLOGICA  15 

de  gisa  (sicj  que  os  freegeses  o  podessem  bem  entender  e  aprender  e 
que  outrossy  os  domingos  do  auenlo  e  coreesma  lhes  dissessem  os  dez 
preceptos  da  ley  com  seus  conlrairos  o  melhor  e  mais  chiramente  que 
elles  podessem  e  lhes  deus  ministrasse  e  as  obras  de  misericórdia,  e 
os  vii  peccados  mortaaes  e  os  vii  sacramentos  da  egreia  e  os  doõe 
do  sprilu  sancto  e  as  uertudes  cardeaaes  e  theohcas  fskj  segundo 
mais  compridamenle  em  a  dieta  visitaçom  he  conlheudo  e  achamos  por 
certa  enformaçom  que  se  nom  fazia  e  querendo  nos  a  esto  proueer 
por  salvaçom  das  almas  dos  fiees  xpaãos  e  se  a  dieta  visit;içom  dar  a 
exucuçam  mandamos  aos  sobre  dictos  que  gardem  a  dieta  visitaçom 
segundo  se  em  ella  contem  e  qualquer  que  o  contrairo  fezer  por  cada 
uez  que  fallezer  jaca  xv  dias  na  cadea, 

ii—  Como  deuem  de  bautizar  seus  íilhos  a  ojto  dias 

Item  achamos  em  a  dieta  visitaçom  que  foi  mandado  aaquelles  que 
filhos  ou  filhas  teuessem  que  do  dia  que  lhes  naçe.ssem  a  03  to  dias  os 
veessem  de  bautizar  e  tomassem  compadres  em  as  cosliluçoões  de- 
terminadas, s.  ao  homem  dous  homees  e  huma  molher.  e  a  molher 
duas  mollieres  e  huum  homem  e  por  quanto  ouuemos  por  certa  en- 
formaçom que  viinliam  muitos  homeens  e  molheres  com  as  creaturas 
com  enteençam  corrupta  por  seerem  compadres  e  comadres  posto  que 
digam  que  ueem  em  companhia  e  quando  o  creligo  dizia  as  pallauras 
per  que  a  creatura  he  bautizada  se  chegauam  aa  pia  ouuindoas  e  que 
por  segundo  dispusiçom  de  dereito  fraus  et  dolus  aiicui  patroçinarii 
non  debent :  per  esta  presente  os  amoestamos  em  forma  da  sancta 
egreia  dandolhe  três  momentos  por  todas  três  canónicas  amoestaçoões 
e  termho  precioso  (sicJ  a. que  disistam  da  dieta  temerária  presunçom  e 
nom  sse  acheguem  aa  dieta  pia  saluo  aquelles  ties  que  asiuiados  fo- 
rem pelo  sacerdote  e  fazendo  elles  ou  cada  huum  delles  o  contrairo 
poemos  em  qual  quer  que  o  contrairo  fezer  sentença  descomunhora 
em  estes  scriptos  e  reseruamos  pêra  nos  absoluçam  outrosy  por 
quanto  nouamente  aa  nossa  noticia  ueo  que  alguns  leigos  afirmauam 
e  tiinham  que  o  sacerdote  que  bautizaua  nom  ficaua  compadre  por 
bem  do  dicto  bautismo.  nem  outrossy  quando  o  marido  hia  ao  bautis- 
mo  e  nom  hia  a  molher.  ou  ia  a  molher  e  nom  hia  o  marido  que 
aquelle  que  alio  nom  fosse  nom  era  compadre  porém  por  esta  pre- 
sente lhe  determinamos  que  o  dicto  creligo  que  fezer  o  dito  bautismo 
ora  seia  rogado  ora  nom  que  he  uerdadeiro  compadre  e  assy  meesmo 
determinamos  que  quando  quer  que  o  marido  e  molher  som  uerda- 
deiros  compadres  do  padre  e  madre  do  dicto  bautizado. 


16  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

12 —  Como  liam  dp  sair  aa  ii''  feira  sobre  os  finados 

Item  hordenainos  e  mandamos  por  serniço  de  deus  e  bem  das  al- 
mas dos  liees  xpaãos  que  em  Iodas  as  villas  e  lugares,  sayam  cada 
segunda  feira  sobre  os  íinados  segundo  ordenança  da  saneia  egreia  em 
cada  huma  egreia  saiuo  se  fforem  dias  de  festas  dobrez  e  oragos  prin- 
çipaaes  da  egreia  e  eslo  se  nom  entenda  em  os  logares  onde  sempre 
se  acustumou  de  aos  domingos  sayrem  sobre  os  finados  por  a  coiflre- 
gaçom  da  jente  e  qualquer  ereligo  que  o  contrairo  fezerem  (sic) 
page  (sic)^  1.  reaes  por  cada  uez  que  o  asy  nom  fezerem. 

13  —  Como  nom  deuem  de  arendar  (sic)  os  benefícios  sen  Iccença 

Item  achamos  que  muitos  beneficiados  indiscretamente  como  nom 
deuiam  e  muitas  uezes  a  pessoas  defezas  em  direito  arendauam  seus 
benefícios  e  recebiam  dante  maão  as  rendas  delles  e  sse  hiam  pêra 
onde  Ities  aprazia  e  asy  as  egreias  ficauam  desfraudadas  e  ssem  mi- 
nistros e  ainda  que  algumas  cousas  e  despesas  fossem  necessárias  per 
as  egreias  nom  auia  hi  por  onde  se  fazerem  e  sse  jeeraua  por  ello 
grande  scandallo  ante  o  poboo  e  os  creligos  e  querendo  nos  a  ello  pro- 
uer  com  remédio  de  direito  e  em  acreçentamento  da  constituçam  si- 
nodal que  alguum  tanto  falia  acerca  desto  e  por  euitar  o  que  diclo  he. 
ordenamos  que  qualquer  beneficiado  do  nosso  arcebispado  nom  seia 
tam  ousado  que  areudem  seus  benefiçios  sem  nossa  lecença  pêra  lhe 
darmos  modo  e  maneira  segundo  forma  de  direito  que  em  ello  tenha 
e  qualquer  que  o  contrairo  fezer  se  for  prior  ou  vigairo  page  dous 
mil  reaes  brancos  e  o  raçoeiro  pagev'.  e  nom  uaiha  o  contracto.  ^ 

(Continua.) 


1  Julgo  (lover  advertir  que  esta  visitação  foi  copiada  com  o  maior  cuidado,  e 
que  a  revisão  das  provas  é  íeita  em  presença  do  original.  Não  causem  estranheza  as 
irregularidades  da  orltiograpliia  nem  os  erros  de  syntaxe,  qne  intendi  dever  conser- 
var. Esta  advertência,  dispensa-me  de  repetir  o  (sic)  mais  frequentemente. — B,  de  F. 


REVISTA    AkCHKOLOGICA  17 


MONUMENTO  D'UMA  FILHA  DE  D.  DINIS 


Teve  eirei  D.  Dinis  diins  filluis  b;isl;ir(lns,  nmhas  fio  nome  de  Ma- 
ria: iiin;i  (jue  se  conservou  no  secnio.  oulra  que  foi  recolhiiJa  uo  mos- 
leii(#<le  Odivellas.  A  primeira,  L).  .Maria  Aironso.  leve  por  mãe  D. 
Marinha  Gomes,  mulher  de  qualidade,  riainral  de  Lisboa,  a  qual  de- 
pois casou  no  logar  da  Charneca,  próximo  da  capital.  Descobriu  ou 
tornou  conhecida  esta  maternidade  o  monge  dAlcobaça,  fr.  Francisco 
Brandão.  (]ue  li'anscreve  para  prova  as  passagens  (]e  dois  documentos 
do  cartório  do  mosteiro  de  Santos.  D.  Maria  Aironso  casou,  no  mez 
d"agosto  (segundo  parece)  do  anno  de  1318,  com  D.  João  de  Lacer- 
da, filho  de  D.  Affonso  de  Lacerda  prelensor  dos  reinos  de  Leão  e 
de  Castella  •.  Desta  nada  mais  direi. 

A  outra  D.  Maria  foi  mellida  no  mosteiro  de  Odivellas.  Parece  que 
um  mau  lado  pesou  sempre  sobre  esta  filha  do  rei  lavrador,  poisque, 
havendo  motivo  para  acreditar  que  não  foi  muito  feliz,  a  sua  existên- 
cia se  acha  involla  no  véo  do  mysterio.  As  únicas  noticias,  que  a  respei- 
to delia  lenho  encontrado  em  nossos  antigos  escriptores,  são  as  mes- 
mas que  condensou  o  mencionado  Brandão.  Não  se  sabe  quem  foi  sua 
mãe;  o  chronista  hesita'entre  o  dal-a  como  nascida  d"uma  celebrada 
Mór  AíTonso,  que  tivera  relações  com  D.  Aílonso  111,  e  declaral-a  filha 
de  Branca  Lourenço,  que  suppõe  filha  de  Lourenço  Soares  de  Valla- 
dares,  e  na  qual  o  rei  não  houve  filhos  até  ao  anno  de  1301  -.  Por 
varias  razões  que  não  declaro  agora,  mas  que  expenderei  noutra  oc- 
casião  ao  fallar  da  sepultura  de  D.  Maria,  opto  por  que  sua  mãe  fora 
Branca  Lourenço. 

Vejamos  que  outras  noticias  nos  dá  o  chronista.  Depois  de  allu- 
dir  á  sepultura  de  D.  Dinis,  accrescenta  :  «Alem  deste  deposito  se  vem 
sepultadas  em  Odivellas  algúas  pessoas  de  sãgue  Keal,  a  saber.  O  Infante 
Dõ  loão  neto  delBey  Dom  Dinis,  d-  fdho  delBey  Dom  Afonso  Ouarto, 
o  qual  está  na  Capella  de  S.  Pedro.  A  senhora  Dona  Maria,  lilha  bastar- 
da delBey  Dom  Dinis,  Beligiosa  professa  deste  Conuento  a  sepultura  da 
qual  está  na  parede  do  claustro,  que  responde  á  Capella  de  S.  loão 
Baptista  ^».  Noutro  logar  diz  mais:  «E  pois  tão  conexos  andaõ  nasci- 
mentos^ &  finamentos,  digo  que  o  gosto,  que  ElBey  teve  com  o  nas- 
cimento daqiielle  neto,  foy  pensionado  com  a  morte  de  sua  filha  Dona 
Maria  Beligiosa  no  seu  Convento  de  Odivellas,  da  qual  já  falíamos  no 


1  Mon.  Lusit.  P.  V,  1.  17,  c.  6;  P.  VI,  1.  Í8,  c.  G6. 

2  Mon.  Lusit.,  P.  V,  ].  17,  c.  6  e  69. 

3  Mon.  Lusit.,  P,  V,  1.  17,  c.  24. 
Rev.  Arch.,  n."  2  —  Fev.  i888. 


\s 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


tomo  nnlecedonte,  a  qual  despois  de  gastar  a  vida  cõ  louvável  proce- 
dimento os  annos,  que  ali  viveo,  neste  presente  de  1320  foy  recolher 
o  premio  da  sua  merecida  coroa  :  deixando  naqnelle  Convento  com  o 
deposito  de  seu  corpo,  huma  viva  lembrança  da  santidade  de  sua  vida, 
que  com  esta  opinião  fazem  delia  elogios  nossos  escriplores»  K 

A  isto  se  reduziam  ns  noticias  que  de  D.  Maria  colhera  já,  e  ás 
quaes  outros  esciiptores  nada  acci-escentam,  quando  tive  a  fortuna  de 
ver  descoberta  em  Odivellas  por  uma  pessoa  da  minha  familia  um 
precioso  monumento  da  filha  de  D.  Dinis.  É  esse  monumento  uma  la- 
pide granítica  de  O"',  36  de  alto  por  O'",  20  de  largo,  cujo  exacto  fac- 
simile  se  pode  ver  reproduzido  na  est.  I.  Em  dez  linhas  contêm  elle 
a  seguinte  inscripção  em  caracteres  onciaes  de  O™,  023  d'alto :  ^ 


DNA  :  M  :  FILIA  :  DÕNI  :  Dl 
sic  ONISII  :  REX  :  PORTUG 
sic    ALIE   :   ET   :  ALGARBII   :  JU 

SIT  :  FIERI  :  HOC  :  ALTARE 

5  :  AD  :  HONORfcT  :  DEI  :  ET  : 

sic    :     G  L  O  R  I  O  s  I  b  I  M  I     : 

S"Gl  :  AN 

DREE  :  A 

sic    PPLI  :  Ê  : 

IO  M:CCC:L 

lo.  Era  de  mil  tresentos  cincoenta. . . 


Dfomijna  M(aria),  filia  do(mi)ni 
Di\onisii  rex  Portug\ali[ae\  et  Algar- 
bii  ju(s)\sit  fieri  hoc  altare  \  ad  hono- 
7-efmJ  Dei  et  \  gloriosi(s)simi  \  sfanj- 
cftji  An\dre[ae']  a\  ppfostojli.  E(ra)  \ 
M  CCC  L...  era  1350  =p.C.  1312? 

Dona  Maria,  filha  de  Dom  Dinis  rei 
de  Portugal  e  do  Algarve,  mandou 
fazer  este  altar  em  honra  de  Deus  e 
do  gloriosíssimo  santo  André  aposto- 


Podc  ter  sido  gravada  esta  inscripção  no  anno  de  1312  ;  mas  creio 
antes  que,  com  a  mutilação  da  lapide  na  parte  inferior,  desappareces- 
sem  outras  lettras  pertencentes  á  data.  que  era  necessariamente  um 
dos  annos  que  decorreram  desde  1312  até  1320,  em  que  D.  Mana  fal- 
leceu.  A  lapide  parece  iiaver  sido  destinada  primeiramente  a  outro 
monumento,  visto  que  a  inscripção  foi  gravada  em  sentido  inverso  ao 
do  escudo  das  quinas,  já  aberto  na  pedra,  o  quç  claramente  se  de- 
duz de  o  letreiro  continuar  ao  lado  d'elle,  e  da  disposição  das  lettras 
na  C.'"'  linha. 


1  Mon.  LiiHÍL,  P.  VI.  1.  19.  c.  21. 

2  Dando  o  fac-simile  da  iiiscripçáo,  julgo  desnecessário  reproduzir  (\|)ograpliica- 
mente  as  libações  das  lotlras. 


REVISTA    ARCIIEOLOGICA  li) 

É  impossível  averiguar  hoje  onde  era  o  aliar  ou  capella  de  Santo 
André,  por  causa  da  modificação  que  soíTreu  a  egreja  do  mosteiro  de 
Odivellas  por  occasião  do  dia  I."  de  novembro  do  I7;)0.  As  capellas 
6  altares  actualmente  existentes  não  correspondem  todos  exactamente, 
pelo  menos  no  que  respeita  a  oragos,  ás  capellas  antigas.  Não  ha  ne- 
nhuma capella  dedicada  a  Santo  André.  Nem  mesmo  o  logar  onde  foi 
descoberta  a  lapide  (um  dos  claustros)  poude  esclarecer-me  em  cou- 
sa alguma. 

Este  monumento  epigraphico  é  o  segundo  em  aniiguidade  per- 
tencente a  Odivellas.  O  mais  antigo  já  ficou  descripto  noutro  lo- 
gar *. 


\0  de  fevereiro  de  1888. 


Borges  de  Figueiredo 


ANTIGUIDADES  PHENICIAS  E  ROMANAS 
NA  península 

Por  lapso  se  não  advertiu  na  pag.  O  da  Revista,  ao  transcrever  do 
Sotidembdruch-  aus  «  Wochonschrifl  fur  Klassische  Philologie»  a  noticia 
dada  pelo  meu  prezado  amigo  e  collaborador  E.  íliibner  sobre  o  acha- 
do de  Cadix,  que  as  informações  d'este  sábio  professor,  destinadas 
somente  á  Sociedade  Archeologica  de  Berlin,  não  teem  um  caracter 
definitivo,  e  que  só  depois  da  publicação  dos  alludidos  monumentos, 
pela  academia  de  Madrid,  será  possível  juigal-os  com  inteira  con- 
fiança. 

B.   DE  F. 


NUMISMÁTICA   PORTUGUEZA 

D.  DUARTE 

Apezar  dos  esforços  empregados  por  vários  escriptores,  nomeada- 
mente por  Severim  de  Faria.  Viterbo,  Lopes  Fernandes,  pelos  reunidos 
na  Historia  Genealógica  da  Casa  Real  por  D.  António  Caetano  de  Sou- 
sa, e  mais  modernamente  pelo  sr.  Aragão,  para  resolver  varias  e  im- 
portantes questões  da  numismática  portugueza,  subsistem  ainda  mui- 


1  Revista  Archeologica  e  Histórica,  vol.  I  pag.  147 


20  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

las  duvidas  sobre  o  valor  de  certas  moedas  da  primeira  e  segunda  dy- 
nastias.  O  ultimo  dos  mencionados  auciores,  no  primeiro  volume  do 
seu  vasto  tratado,  procurou  dar  solução  a  esses  diversos  problemas ; 
e  não  se  pode  negar  que  lançou  muita  luz  nas  trevas  que  etivolviam  a 
nossa  numária.  Parece-me,  [)orcm,  que  algumas  vezes  passou  super-» 
ficialmente  sobre  certos  pontos  que  precisavam  e  precisam  discussão; 
e  que  outras  vezes,  porventura  por  motivos  alheios  á  sua  vontade,  foi 
pouco  complecto  na  descripção  e  classificação  de  algumas  espécies. 
Uma  obra  de  tal  grande  importância  como  a  do  sr.  Aragão  é  indispen- 
sável assim  a  quem  se  dedica  ao  estudo  da  nossa  moeda,  como  ao 
simples  colleccionador:  ao  primeiro,  por  lhe  proporcionar  grandes  meios 
de  estudo  nas  noticias  que  dá  e  documentos  que  encerra;  ao  segundo, 
porque  dirige  e  facilita  a  classificação  das  moedas. 

Creio,  porém,  que  será  de  utilidade  publicar  nesta  Revista  breves 
notas  destinadas  a  preencher  algumas  das  lacunas  que  existem  nos 
tratados  numismáticos.  Essas  lacunas  são  devidas  quer  á  falta  de  no- 
ticias, quer  à  falta  de  discussão  de  certos  pontos,  quer  ainda  ás  in- 
exactidões na  descripção  e  classificação  das  moedas. 

Por  agora  fallarei  dos  chamados  ceitis  de  D.  Duarte, 

Entre  as  moedas  de  cobre  cunhadas  no  curto  e  infeliz  reinado  do 
rei  eloquente,  aquella  que  maior  modulo  tem,  e  que  é  caracterisada 
pelo  campo  do  anverso  onde  se  vêem,  sob  uma  coroa,  as  iniciaes  do 
rei,  ED,  é  chamada  dinheiro^  por  Lopes  Fernandes,  e  ceitil^  pelo  sr. 
Aragão.  Não  pretendo  discutir  agora  qual  d'estas  duas  designações  é 
a  mais  exacta;  o  meu  íim  é  apenas  mostrar  que  Fernandes  descreveu 
erradamente  a  moeda  de  que  dá  a  gravura,  e  preencher  a  lacuna  da 
obra  do  sr.  Aragão  que  deixou  de  descrever  a  mesma  moeda. 

A  moeda  é  a  seguinte  (vej.  est.  I,),  que  diverge  da  que  se  vê  gra- 
vada na  obra  de  Fernandes  unicamente  em  ter  p  o  R  T  em  vez  de 
POR: 

4-GDVARDVS*REX*P0R  —  No  campo,  dentro  de  oito  arcos 
duplos  as  lettras  ed,  encimadas  duma  coroa,  e  por  baixo  L. 

^.  A  mesma  inscripção;  no  campo,  as  quinas,  acompanhadas  de 
quatro  castellos. 

Fernandes  apresentando  esta  moeda,  transcreve  a  inscripção  d"es- 
te  modo:  gduardi  rex  port;  dando  em  genitivo  o  nome  que 
na  moeda  apparece  em  nominativo. 


*  L.  Fernandes,  Memoria  das  moedas  correntes  em  Portugal. ..  pag.  80. 
2  Teixeira  d'Aragão,  Descripção  geral  e  histórica  das  moedas  cunliadas  em  » orne  dos 
reis,  regentes,  e  governadores  de  Portugal,  pag.  218,  e  est.  X  n."  5.  Cf.  pag.  221. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


2i 


Por  oulro  Indo,  o  sr,  Aragão  não  menciona  moeda  com  a  inscri- 
pção  (:  D  V  A  R  1)  V  s,  mas  somente  com  a  de  Ci  D  v  A  m)  l . 

Não  é  de  exlranliar  o  erro  cominellido  por  Fernandes,  visto  na 
sua  obra  se  encontrarem  outros  a  cada  passo,  que  demonstram  a  sua 
leviandade. 

OníMio  á  omissão  que  se  riota  na  obra  do  sr.  Aragão,  foi  ella 
devida  (alvez  á  falia  de  noticia  da  moeda  de  que  se  Irada,  bavendo 
cbegado  ao  seu  conliecimenlo  apenas  exemplares  com  a  letlra  euv  A  R  Dl, 
o  que  Ibe  faria  suppôr  que  a  forma  GDVARDVS  tinba  sido  erro  do 
gravador.  Mas  egual  facto  que  se  dá  com  a  gravura  e  descripção  do 
real  prelo  na  mesma  pagina  do  livro  de  Fernandes,  devia  cbamar  a  sua 
attenção. 

Temos  pois  que,  nos  cbamados  ceitis  de  D.  Duarte,  apparece  o  no- 
me do  monarcba  ora  em  nominativo,  ora  em  genitivo,  devendo,  quan- 
to a  mim,  ser  considerados  os  que  teem  a  segunda  forma  menos  vul- 
gares que  os  outros;  por  isso  que,  entre  uns  duzentos  exemplares  que 
tenbo  visto  bem  conservados,  só  em  duas  terças  partes  delles  se  me 
ha  deparado  a  forma  Eduardus. 

Nos  d"este  typo,  que  tenho  examinado  ou  de  que  lenho  noticia,  e 
que  teem  egual  inscripção  no  anverso  e  reverso,  apparecem  apenas 
as  seguintes  differenças : 


+  eD\^ARDVS.REX.POR 

^  +  — 


^ 


+ 


+    G  D  V  A  R  D  I 


PORTV 

- — ~ 

POR 
PORT 

RX    .  PO 

14  de  Fevereiro  de  1888 


Borges  de  Figueiredo 


22  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

VISITAÇÃO  DO  ARCEBISPADO  DE  LISBOA 
(Século  XV) 

(Concluído  da  pag.  16) 

14  —  Como  deuem  de  pedir  leçença  ao  arcebispo  dos  bees  que  se  aforem 

Item  achamos  por  certa  enformaçom  que  muitos  beneficiarmos  do 
(liclo  nosso  arcebispado  fazem  seus  contractos  infitioticus  alguuns  leigos 
dos  bees  ecciesiasticos  e  segundo  ordenaçora  das  sanctos  cânones  per 
seerem  valiosos  deuem  de  seer  per  nos  diocesanos  autorizados,  e  dou- 
tra gisa  som  nenlmuns  per  direito  e  as  dietas  autoridades  deuem  de 
seer  pedidas  pellos  dictos  beneficiados  que  ham  de  jurar  se  som  aas 
dietas  egreias  os  dictos  contractos  proueitosos  o  que  elles  fazem  muito 
pello  eontrairo  fazendo  os  dictos  contractos  sem  pedindo  (sic)  as  dietas  le- 
çenças  e  autoridades  e  os  dictos  leigos  per  bem  das  scripturas  que  lhe 
assy  som  fetas  se  metem  aos  dictos  bees  ecciesiasticos  aproueitandoos 
e  des  que  lhos  vêem  bem  aproueitados  os  trazem  a  juizo  e  lhes  des- 
ffazem  os  ditos  contractos  por  nom  seerem  autorizados  e  assy  ficara 
os  dictos  leigos  perdidosos  e  emganados  o  que  nom  he  justo  e  porém 
por  euitar  o  que  dicto  he  mandamos  jeeralmente  a  todos  os  beneficia- 
dos do  nosso  arcebispado  que  querem  fazer  taaes  contractos  que  os 
façam  segundo  forma  de  direito  e  do  dia  que  os  assy  fezerem  atee 
huum  mes  peçam  ou  mandem  pedir  e  auer  as  autoridades  e  nom  o 
fazendo  elles  assy  o  que  o  eontrairo  fezer  page  mil  reaes  brancos  pêra 
as  obras  de  piedade. 

15  —  Como  o  priosle  deve  de  dar  couta 

Item  porquanto  achamos  per  certa  enformaçom  que  muitos  prios- 
tes  que  foram  e  som  das  egreias  do  nosso  arcebispado  apanhauam  os 
fructos  e  renda  delias  e  faziam  delles  o  que  lhes  aprazia  sem  os  poen- 
do  em  recadaçom  em  tal  gisa  que  igual  repartiçam  se  nom  fazia  aos 
beneficiados  e  aaquelies  a  que  perteençiam.  pella  qual  cousa  naçia  (sic) 
muitas  reixas  e  contendas  antre  os  dictos  priostes  e  aquelles  a  quem 
os  dictos  fructos  perteençiam.  poròm  por  euitar  o  que  dicto  he  manda- 
mos a  qualquer  priosle  que  for  em  algumas  das  egreias  do  nosso  ar- 
cebispado que  em  cada  huum  anno  faça  huum  livro  do  priostado  em 
que  serepuam  todas  as  rendas  e  cousas  que  receber  da  dieta  egreia 


REVISTA    ARCIIEOLOGICA  23 

pello  qual  livro  faça  igual  reparliçam  aos  diclos  beneficiados  e  pessoas 
a  qucMii  perleençer  e  de  conta  segunda  tnanda  a  cosliluçam  sinodal  e 
qualquer  que  o  conlrairo  fezer  page  mil  reaes  brancos  pêra  as  obras 
de  piedade. 

l(j  —  Como  os  freeyeses  am  de  receber  os  sacranieiilos  cm  suas  egreías 

Item  adiamos  per  enforraaçom  certa  que  alguuns  freegeses  dal- 
gumas  egreias  do  nosso  arcebispado  nom  contemples  de  receberem 
os  ecciesiasticos  sacramentos  nas  egreias  onde  som  freegeses  e  per 
dereito  som  obrigados  vaam  baulizar  seus  íillios  a  outras  egreias  onde 
nom  som  theudos  fazendo  esto  por  lhes  tomarem  mais  compadres  do 
que  per  direito  he  ordenado  e  querendo  nos  a  esto  remedear  e  pro- 
ueer  com  dereito  hordenamos  e  mandamos  que  se  compra  a  uisilaçom 
que  ja  sobre  esto  be  ordenada  que  manda  que  cada  huum  seia  bau- 
tizado  em  sua  egreia  e  nom  em  outro  logar  saluo  em  caso  de  neces- 
sidade quando  nom  possa  seer  trazido  aa  dieta  sua  egreia  sem  perigo 
e  queremos  que  prior  e  vigairo  e  campellam  que  lhe  tal  leçença  der 
que  se  em  outra  egreia  bantize  page  quinhentos  reaes  brancos  e  o  quem 
o  bantizar  outros,  v^  ficando  ainda  de  lhe  seer  dada  outra  pena  se  e 
tal  causo  (sic)  couber  saluo  se  pêra  ello  ouner  nossa  leçença  ou  da- 
quello  que  teuer  pêra  ello  nosso  encarrego. 

17 — Como  08  benefiçiiidos  ou  iconimos  possam  bauti/ar 

Item  ouuemos  outrossy  per  certa  enformaçom  que  muitas  uezes  se 
acontece  que  alguuns  freegeses  daignmas  egreias  do  nosso  arcebis- 
pado leixauam  andar  seus  filhos  por  baulizar  alem  do  tempo  orde- 
nado por  lhes  nom  prazer  seerem  bautizados  per  seus  redores  ou 
per  aquelles  que  teem  seu  carrego  e  esto  por  algum  ódio  que  lhe  teem 
ou  scandallo  e  lhe  prazeria  seerem  bautizados  per  alguuns  benefi- 
ciados e  pedem  leçença  aos  diclos  redores  e  seus  logo  leeníes  e  nom 
lha  querem  dar  pêra  ello  e  em  esto  se  aquecem  muitos  perigoos.  po- 
rem querendo  nos  prouueer  a  ello  de  remédio  oporlnno  mandamos 
que  quando  tal  caso  aueer  que  o  dicto  beneficiado  ou  iconimo  de  missa 
ha  possa  baulizar  sem  fazendo  piejuizo  alguuns  dos  diclos  redores  em 
seus  dereitos. 

iS— Como  os  crelijjos  so  podem  confessar  a  quem  quizerem 

Item  porquanto  achamos  nas  visitaçoões  passadas  fetas  per  nos- 
sos uisitadores  que  os  creligos  doordeens  sacras  que  ham  de  celebrar 
oficio  deuino  denem  de  seer  ao  meos  (sicj  em  cada  huum  mes  confessados 
e  nom  despoeem  a  que  pessoas  se  ham  de  confessar,  porém  querendo 
uos  declarar  e  interpelar  (sicj  as  dietas  visitaçoões  posto  que  o  dereito 


24  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

diga  que  cada  liimin  se  deue  confessar  a  sseu  próprio  sacerdote,  e 
porque  poderia  viinr  (sic)  caso  que  o  diclo  seu  próprio  sacerdote  elle 
o  nom  poderia  assy  auer  de  legeiro  e  ilie  seeria  necessário  celebrar  o 
oliçio  deuino.  e  çellebrando  çellebraria  assy  em  peccado  mortal  o  que 
a  elle  seeria  grande  perigou.  ílordenamos  e  mandamos  por  cuilar  o  que 
dicto  he  que  huum  sacerdote  se  possa  menefestar  a  outro  e  lhes  damos 
leçença  |)era  ello  coineíendolhe  todos  os  nossos  casos  poutiíicaaes  que 
a  nos  perleençem  per  dercito  ou  costume  leseruado  pcra  nos  os  que 
acustum.idos  som  de  seruar  dos  quaes  casos  ponlificaaes  que  assy 
reseruamos  [)era  nos  llie  defendemos  que  nom  absoluam  nem  dem 
peendenças  e  os  enviem  a  nos  ou  aaquelie  que  pêra  ello  nosso  poder 
teuer  e  acharom  remédio  pêra  suas  almas. 

i5— Como  os  priores  deiiciii  de  mandar  dizer  ao  arrcltispo  qiiaecs  som 
os  beiíeliçiaiios  ausentes  e  presentes 

liem  adiamos  per  certa  enfnrmaçom  que  em  algumas  egreias  do 
nosso  arcebispado  se  costuman  i  que  os  reitores  e  rfçoeiros  delias 
apropriauam  e  repartiam  antre  ssy  per  sua  auturid.ide  [)ro|iria  os  fru- 
ctos  e  missas  das  capellas  stituadas  (sic)  em  as  dietas  egreias  em  as 
quaees  segundo  voontade  dos  testadores  se  auiam  de  poer  capellaães 
de  fora  e  outrossy  repartiam  as  absençias  dos  beneficiados  ausentes 
onde  era  necessário  de  sse  poerem  iconimos  por  nom  seerem  defrau- 
dadas as  egreias  em  seus  diuinos  ofícios  o  que  de  dereito  nom  poe 
diam  fazer  sen  (sic)  autoridade  do  sancto  padre  ou  nossa  ou  de  nos- 
sos antecessores  e  porque  a  nos  perteençe  taaes  cousas  como  estas 
de  correger  e  emmendar  por  deus  ser  louuado  e  oucullo  (sic)  deuino 
acreçentado  e  as  egreias  bem  seruidas.  Hordenamos  e  mandamos  e 
remedeamos  as  dietas  egreias  se  necessário  for  de  ministros  e  outrossy 
as  almas  dos  finados  e  qualquer  que  o  contrario  fezer.  o  que  assy  fe- 
zer  seia  nenhuum  e  mais  page  mil  reaes  brancos  saluo  se  lhe  per  nos 
for  dada  leçença  pêra  ello  por  alguma  necessidade  ou  legitima  cousa 
6  por  se  melhor  fazer  e  as  egreias  nom  ficarem  desfraudadas  e  em 
seu  debito  e  abriuiar  os  inpedimentos  que  podiau)  viinr  (sic)  manda- 
mos a  todos  os  priores  e  vigairos  perpetuus  ou  logo  teentes  do  nosso 
arcebispado  que  em  cada  huum  anuo  como  ueer  o  ssam  .loham  bau- 
lista  logo  nos  mandem  dizer  per  scripto  quantos  somos  beneficiados 
das  suas  egreias  e  quantos  presentes  e  quantos  absentes  e  quantos  pre- 
uilligiados  e  quaees  e  outrossy  nos  mandem  dizer  quaees  som  as  ca- 
pellas (jiie  tem  capellaTies  e  quaees  nom  e  como  se  cantam  (sic)  e 
quem  ssom  os  ministradores  delias  e  as  rendas  delias  |)era  nos  todo 
veer  e  proueer  com  remédio  oportuno  assy  as  egreias  como  as  almas 
dos  testadores  e  o  que  o  conlrairo  fezer  page  mil  reaes  brancos  pêra 
as  obras  de  piedade. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA  25 

20 — Como  os  iiriores  beiícliçhulos  doiiprn  dr  tomar  o  (nlado 
dos  |iriiiili'!|ios  que  alyuuns  bcnelíciaiios  Iroiiiiercm 

Item  achamos  per  certa  e  iierdadoira  enformaçom  dalguns  redo- 
res e  benofiçiados  do  nosso  arcebispado  que  alguuns  redores  benefi- 
ciados das  suas  egreias  pretctnliauí  per  bctu  d  alguns  priuilIcLiios  dos 
quaees  o  tempo  era  ja  passado  auer  (»s  liuclus  de  seus  benefícios  e 
muitas  uezes  de  facto  os  uexauam  e  scoumungauam  como  uom  deuiam 
e  outros  alguuns  cuios  priuilegios  já  dnrauamper  sua  negligencia  nom 
querriam  (sic)  ir  nem  demandar  aos  tempos  acustumados  da  reparti- 
çom  e  requerer  seus  Irudos  e  muitas  uezes  os  requeriam  a  taaes 
tempos  que  eram  ia  perdidos  per  aguas  ou  per  outros  casos  fortui- 
tos per  cuio  aazo  os  tragiam  em  demandas  perlongadas  tirandnos  das 
egreias  em  detrimento  do  culto  deuino  oliçio  porém  querendo  nos 
proueer  o  que  dicto  lie  de  remédio  oportuno,  mandamos  a  lodollos  prio- 
res e  beneficiados  de  todo  nosso  arcebispado  que  como  alguns  (s/íydos 
seus  beneficiados  j)erteu(ler  auer  os  fructos  de  seu  beneficio  per  uigor 
dalguum  priudegio  que  logo  filhem  o  iralado  do  diclopriuillegioe  o  dia 
que  lhe  foy  apresentado  e  os  tempos  que  já  receberam  per  bem  de 
seus  priuillegios  e  nos  enviem  todo.  pêra  nos  lodo  ueermos  quaido 
dura  seu  efedo  e  lho  fazer  gardar  e  os  beneficiados  seerem  uexados 
contra  dereito  nem  as  egreias  seerem  desílVaudadas  em  seu  debito 
alem  dos  tempos  dos  dictos  seus  priuillegios  cuios  priuillegios  (skj  e  os 
priores  ou  beneficiados  que  o  contrai ro  fezerem  paguem  mil  reaes 
brancos  e  quanto  he  aos  priuilegios  cuios  privilégios  ainda  duram  man- 
damos que  vaam  ou  mandem  aos  tempos  acustumados  da  repartiçam 
requerer  seus  fnilos  ou  ponham  taaes  pessoas  que  lhos  recebam  e  nom 
o  fazendo  elles  assy  em  caso  que  sse  percam  os  priostes  nom  lhe 
seiam  obrigados  por  elles. 

21  —  Como  os  tesoureiros  deuem  de  tanyer  aa  trindade 

Item  achamos  que  &ín  muitas  egreias  do  nosso  arcebispado  per  culpa 
dos  tesoiueiros  nom  se  tangia  a  trindade  quebrantando  os  boos  cos- 
tumes amigos  ecciesiasticos  o  que  no  he  bem  fedo  porém  por  seruiço 
de  deus  e  onrra  e  lounor  da  sanda  trindade  e  bem  das  almas  dos 
fiees  xpaãos  mandamos  aos  sobredictos  tesoureiros  ou  aaquelles  que 
dello  teuerem  carrego  que  da(]ui  endeante  contenuadamente  cada  dia 
a  tangam  (mj  aos  tempos  antigamente  acustumados  e  qualquer  que  o 
contraiio  fezer  page  por  cada  uez  que  assy  leixar  de  tanger.  I.  reaes 
brancos. 

1^1^— Como  deue  de  seer  prioslc  lolgo 

Item  visitando  nos  o  dito  nosso  arcebispado  veerom  a  nos  alguuns 
reitores  e  beneficiados  e  nos  diserom  que  per  nos  fora  mandado  que 


26  REVISTA   ARCHEOLOGICA 


noni  fosse  priosle  leigo  saluo  os  beneficiados  cada  huum  per  seu  anno 
poendo  çerla  pena  a  quem  fezesse  o  contrairo  dizendo  que  desto  se 
ssegia  (5/f)em  algumas  egreias  assy  aos  beneficiados  como  a  ellesperjuizo 
fsic)  \)or  que  muitas  uezes  em  ellas  eram  Iam  poucos  ministros  que  como 
huum  delles  tinlia  o  diclo  carrego  e  andaua  fora  logo  a  dieta  egreia  era 
defraudada  e  em  seu  debito  e  outros  eram  laaes  beneficiados  juctos(6^í(;) 
pêra  o  diclo  oficio  que  dauam  mais  de  perda  as  dietas  egreias  que 
proueito  e  ainda  sse  ssegia  dapno  a  elles  e  scandallo  ao  pouoo  que 
quando  Ibe  pediam  o  sseu  leuantauamsse  em  palavras  e  aroydos  que 
muitas  uezes  onde  eram  juntos  em  as  dietas  egreias  pêra  louuar  deus 
sse  ssegia  muito  pello  contrairo  pedindonos  de  merçee  que  prouees- 
semos  a  esto  e  lhes  déssemos  leçença  que  podessem  filhar  outros  ora 
fossem  creligos  ora  leigos.  E  nos  veendo  o  que  nos  assy  pediam  e  de- 
ziam  e  porque  fomos  alguum  tanto  dello  certificado  mandamos  que 
sem  embargo  do  dicto  nosso  mandado  onde  taaes  casos  aueerem  (sic) 
que  o  filhem  de  conssintimento  de  todos  aquelles  a  quem  perteençe  a  en- 
hçom  (sic)  do  dicto  priostado  e  ffilhem  delles  ante  que  lhes  dem  o  dicto 
oficio  taaes  obligaçooes  ou  permissões  assy  per  sentenças  como  per 
cauçoões  que  compram  a  costiluçam  sinodal  s.  que  fique  a  dar  con- 
tas com  entrega  depois  de  sam  Joham  huum  mes  e  sseerem  constran- 
gidos per  o  juiz  ecclesiastico  e  os  beneficiados  que  o  contrairo  feze- 
rem  conpoeloam  de  suas  casas. 

23 — Como  deuem  de  cotiiprir  as  visitaçoões  ante  desta 

Item  achamos  per  çerla  enformaçom  e  ainda  a  esperiençia  assy  o 
demostra  que  algumas  visitaçoões  que  foram  fedas  per  nossos  visita- 
dores e  mandado  a  alguuns  beneficiados  do  nosso  arcebispado  que  era 
aquelle  tempo  eram  que  fezessem  algumas  cousas  necessárias  em  as 
dietas  suas  egreias  assy  açerqua  do  sprilual  como  do  temporal  por 
orra  fsic)  delles  e  bem  de  suas  almas  e  porque  muitas  uezes  se  aqueeçia 
que  aquelles  a  que  fora  mandado  leixauam  suas  egreias  assy  per  morte 
como  per  renunçiaçom  ou  outio  modo  em  tal  gisa  que  as  auiam  por 
derelilas  sem  fazendo  nem  comprindo  o  que  lhes  assy  fora  mandado 
em  tal  gisa  que  per  bem  do  que  diclo  he  as  egreias  viinham  gran- 
des perdas  e  dapnos  e  aos  freegeses  seus  scandallo.  e  querendo  nos 
eslo  remedear  com  dereito  mandamos  aos  beneficiados  que  os  dictos 
benefiçios  onuerem  como  forem  confirmados  logo  se  trabalhem  de 
auerem  as  visitações  e  as  compram  de  todo  e  nom  alegeni  (sicj  ino- 
rançia  e  sse  peruentura  ao  tempo  que  assy  forem  confirmados  o  tempo 
que  assy  ficar  for  Iam  biene  que  o  nom  possam  comprir  venham  a 
nos  e  darlhemos  a  maneira  que  em  ello  aiam  de  teer  e  assy  como 
elles  som  bem  ddligentes  a  requerer  os  fruclos  e  seus  proueilos  assy 
seiam  diligentes  a  ssoporlar  os  encarregos  e  fazendo  elles  o  contrairo 


REVISTA    AUCIIEOLOGICA  27 

seiain  çerlos  que  cayram  em  as  penas  (jue  em  as  diclas  visilaçoões 
forem  postas  em  as  quaes  nos  querremos  que  elles  emcorram. 

2^— Como  deucm  de  leer  as  visilucoões  de  Joiíain  «jarcia  o.  vasco  domíii()iiez 
e  as  que  forom  feitas  per  Joiíam  paaez  e  as  constítuçoões  siiiodaacs 

liem  adiamos  (pie  muitos  redores  e  beneficiados  das  egreias  do 
dido  nosso  arcebispado  nom  tem  as  visitaçoões  que  forom  fectas  per 
vasco  dominguez  e  joham  garçia  nem  as  que  forom  fectas  per  o  diclo 
vasco  dominguez  e  joham  paaez  que  forom  nosos  (sio  visitadores  nem 
outrosy  as  visilaçoões  sinodaaes  as  (juaees  lhe  som  muito  necessárias 
assy  por  seu  rigimenlo  como  inslruçam  do  pouoo  e  collaçom  dos  sa- 
cramentos e  refeiçam  das  egreias  e  porém  lhes  mandamos  que  man- 
dem por  ellas  atee  três  meses  do  dia  que  lhes  esta  nossa  visitaçom 
for  dada  sob  pena  de.  v'".  reaes  e  as  gardem  e  compram  assy  pella 
gisa  que  em  ellas  lie  coiilheudo  sob  a  pena  de  encori'erem  em  as  pe- 
nas em  ellas  postas  e  outrossy  mandamos  jeeralmenle  a  lodollos  prio- 
res e  beneficiados  e  capellaães  de  cura  do  diclo  nosso  arcebispado  que 
cada  mes  huma  uez  ao  domingo  leeam  e  probiquem  (sicj  ao  pouoo  a 
uisitaçom  jeeral  fecta  per  os  didos  vasco  dominguez  e  joham  garçia  e 
esta  nossa  por  se  anisarem  e  gardarem  das  scomunlioões  e  penas  em 
ellas  postas  e  noin  o  fazendo  elles  assy  paguem  ii'  reaes  brancos  por 
cada  vez  que  o  leixarem  de  fazer. 

25 — Como  os  creliuos  doiiem  de  dar  o  sacramento  da  viiçom 
quaudo  Coreia  requeridos 

Item  achamos  per  enformaçom  dalguuns  leigos  que  quando  alguuns 
creligos  do  nosso  arcebispado  som  requeridos  que  vaam  dar  os  sa- 
cramentos da  vnçom  a  alguuns  enfermos  nom  o  querem  fazer  de  boa 
uontade  a  menos  de  lhes  darem  alguuns  preços  pedindonos  que  lhes 
ouuessemos  alguum  remédio  com  dereito  e  nos  veendo  o  que  nos  assy 
era  diclo  como  tal  cousa  he  defessa  per  dereilo.  lhes  mandamos  em 
uertude  de  obediência  e  sob  pena  dexcomunhom  que  cada  uez  que 
pêra  ello  forem  requeridos  huremente  aminislrem  o  diclo  sacramento 
sem  sobre  ello  poendo  outro  alguum  impedimento  nem  ponto  nem  com 
ueença  (sic)  nem  permissom  de  preço  e  qnahjuer  que  o  contrairo  fe- 
zer  queremos  que  jaca  vi  meses  na  cadea  onde  faça  peendença  de 
sua  maa  corrupta  teençam. 

26  —  Como  os  priores  e  beneliçiados  nom  deuem  de  tomar  cousas  que  selam 
oferecidas  uas  capellas  sofreyaubas  aas  diclas  suas  eyreias 

Item  achamos  per  clamosa  insinuaçom  dalgiimas  pessoas  assy  ec- 
clesiaslicas  como  seculares  que  algumas  egreias  slituadas  em  nosso 


^8  REVISTA    AUCHKOLOGICA 

arcebispado  tem  outras  egreias  assy  sobielas  e  sofraganlias  assy  em 
padroados  como  em  onlros  algiuins  dereilos  as  qiiaees  egreias  sofra- 
ganlias lêem  seus  redores  e  oulros  algnuns  beiíeíiçiados  e  ministros 
e  seus  bornameiílos  deputados  pêra  o  diuiiio  oíiçio  e  sua  nunistraçom 
em  solido  e  as  dietas  egieias  pnucipacs  noin  sguardando  quando  lhes 
apraz  itidislitamente  (sicje  a  sua  booiítade  lilliam  o  que  lhes  apraz  das 
dietas  egreias  assy  subieclas  e  as  leuam  pêra  onde  querem  e  a  seu  li- 
bilo  o  que  nom  parece  seer  bem  oídenado,  pedindonos  de  merçee  que 
perçedessemos  a  esto  e  nos  ueendo  o  que  nos  assy  era  diclo  e  pedido 
querendo  a  ello  remedear  de  lemedio  opoituno  hordenamos  e  man- 
damos que  depois  que  algumas  cousas  forem  dadas  c  oferecidas  aas 
dietas  egreias  assy  sofreganhas  ora  seiam  pellas  egreias  prinçipaees  a 
que  som  sobieclas  como  per  quaaesquer  pessoas,  que  dali  nom  seiam 
tiradas  pêra  seerem  leuadas  e  postas  em  oulios  vsos  doutras  egreias 
ou  dalgumas  outras  pessoas  e  as  leixem  stai'  i)era  vso  das  dietas 
egreias  a  que  assy  forem  oferecidas  (jue  nom  he  cousa  razoada  nem 
o  (lereilo  o  permete  e  por  se  esto  melhor  guardar  e  executar  amoes- 
tamos  e  mandar»!0s  que  nom  seia  nenhuum  tam  ousado  que  filhe  as 
dietas  cousas  ou  algumas  delias  das  que  assy  forem  oferecidas  nem  pri- 
uem  as  dietas  egreias  do  seu  vso  e  dominio  delias  dandoíhes  por  todas 
três  canónicas  amoestaçoões  seis  dias  do  dia  que  lhes  esta  nossa  visi- 
taçom  for  dada  ou  pobricada  ou  delias  noticia  ouuerem  os  quaaes  pas- 
sados fazendo  o  contrairo  poemos  em  elles  ou  em  cada  huum  delles 
sentença  dexcomunhom  em  estes  scriptos  os  nomes  dos  quaaes  aqui 
auemos  por  spressos  e  reseruamos  pêra  nos  absoluçam. 

27  —  Como  os  Jciíjos  se  denerii  deitar  dentro  na  ejjrcia 
se  ia  ahjuuni  seu  divido  duton  a  dieta  ecjreia 

Item  visitando  nos  o  dito  nosso  arcebispado  achamos  algumas  dunidas 
antre  os  creligos  e  os  leigos  acerqua  das  sopolturas  (sic)  que  se  per- 
uentura  alguma  pessoa  emiege  sua  sopoltura  dentro  em  alguma  egreia 
e  dotasse  sse  sse  lança  em  a  dieta  sopoltura  outra  alguma  pessoa  de 
seu  linhagem  se  sse  ha  de  dutar  outra  uez  aa  dieta  egreia  pedindonos 
por  merçee  que  lho  declarássemos  e  nos  veendo  o  que  nos  assy  era 
dicto  achamos  per  certa  enformaçom  (jue  he  uso  antigamente  acustu- 
mado  em  o  dicto  nosso  arcebispado  quando  tal  sopoltura  assy  for  enli- 
gida  dentro  em  liuma  egreia  per  alguma  pessoa  e  dotada  a  dieta  egreia 
que  em  a  dieta  sopoltura  se  podem  lançar  os  do  seu  linhagem  per  li- 
nha dereila  decendente  sem  dotar  mais  a  dieta  egreia  saluo  se  peruen- 
tura  conrronp(!rem  terra  nona  fazendo  outra  coua  o  qual  custume  nos 
parece  boo  e  razoauel  e  mandamos  que  se  guarde. 


REVISTA    ARCIIEOLOGICA  29 

2H  —  Cumu  os  bciicliciaiios  deuem  do  visitar  cm  cada  liiiiim  anuo 
os  beeiís  das  cijicias 

Item  achamos  per  certa  enforinaçotn  e  noliçia  e  ainda  uisilando  ui- 
mos  per  uei^íiadeira  s[)eriençia  (jiic  miiilos  beens  ecclesiasticos  per  al- 
guiiiis  (los  beiíellçiados  do  nosso  arcebispado  fonjin  e  som  dados  algu- 
mas pessoas  assy  ecciesiaslicas  como  seciillares  per  coiilratos  iiililio- 
ticos  e  des  que  os  assy  dam  requerem  bem  as  pessoas  delies  em  cada 
hmim  anrio  e  nom  curam  mais  de  os  requerer  nem  visitar  se  ssom 
deniíicados  (sic)  ou  em  boo  ponto  pella  (jual  razom  os  dictos  beens  se  per- 
dem e  uam  em  cada  huum  dia  a  perdiçom  per  cuia  perdiçain  (sicj  vêem 
as  dietas  egreias  grande  prcjui/o  e  ainda  maximam  (sicj  defecto  em  o 
culto  deuino.  por  que  segundo  desposiçom  de  dereito  nom  se  pode  so- 
portar  o  es|)iilual  em  o  temporal  e  porque  nom  seeria  cousa  razoada 
de  os  dictos  beens  que  assy  forom  dados  aas  dietas  egreias  per  alguuns 
fiees  catliolicos  por  loinior  de  deus  e  acreçentamento  do  culto  deuino 
e  saúde  das  almas  per  negligencia  dos  dictos  benefícios  seerem  [)erdi- 
dos.  Porem  (juerendo  nos  a  esto  remedear  (juanto  com  dereito  pode- 
mos e  por  cuitar  o  que  dicto  lie  mandamos  a  todos  os  priores  e  vi- 
gairos  perpétuos  e  beneficiados  do  dicto  nosso  arcebispado  que  como 
som  diligentes  em  requerer  as  pessoas  que  assy  o  sseiam  em  reque- 
rer e  visitar  as  dietas  propriedades  e  que  aalem  da  uisitaçam  que  de- 
uem  de  fazer  em  cada  huum  anuo  em  elles  segundo  lhes  he  maFidado 
pella  visitaçom  de  Joham  garcia  e  vasco  dominguez  nossos  visitadores 
que  façam  de  guisa  de  constrangam  (]>ic)  os  que  os  dictos  beens  trazem 
danificados  ora  seiam  creligos  ora  leigos  que  corregam  ísicj  e  tornem  a 
boo  stado  ssegundo  per  dereito  e  forma  de  seus  contractos  som  obliga- 
dos.Oiitrossy  lhe  mandamos  que  se  alguuns  beens  das  dietas  egreias  nom 
som  empiezados  a  quem  por  elles  mais  der  e  a  taaes  pessoas  que  nom 
seiam  defesas  em  dereito  e  que  os  tragam  setipre  melhorados  guar- 
dando pêra  ello  a  forma  desta  nossa  visitaçom  açerqua  das  autorida- 
des e  quaees  quer  que  o  contrairo  fezerem  pagem  dous  mil  reaes 
brancos. 

29  —  Como  deuem  poer  ienoçoes  pretos  nos  altares 

Item  visitando  o  dicto  arcebispado  algumas  pessoas  dele  veerom  a 
nos  per  modo  de  prouisom  consselho  e  remédio  dizendo  que  elles  eram 
tanto  priuados  da  uista  dos  seus  olhos  que  quando  hiam  aas  egreias 
pêra  veerem  o  seu  Senhor  deus  per  bem  dos  dictos  factos  e  outrossy 
por  nom  entrarem  nas  capellas  onde  se  assy  faz  o  sancto  sacrifício 
muitas  uezes  o  sacerdote  leuanta  o  corpo  de  deus  sem  per  elles  seer 
visto  e  que  lhes  era  grande  pena  e  despeito  pedindonos  que  a  esto 
lhe  ouuessemos  alguum  remédio  e  nos  veendo  o  que  nos  assy  era  di- 
cto e  pedido  e  porque  a  nosso  oficio  pastoral  perteençe  proueer  as  al- 
mas dos  sobre  dictos  e  outrossy  guardar  e  exucutar  os  sanctos  degre- 
dos e  porque  per  dereito  he  dellesso  que  os  leigos  nom  entrem  em  as 


30  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

dietas  capellas  principaaes  onde  se  faz  o  dicto  sacrefiçio  r*^/cj  porem  por 
remedear  e  proiieer  o  dicto  defeclo  per  esta  presente  mandamos  a 
todollos  benotiçiados  do  nosso  arcebispado  que  em  suas  egreias  po- 
nham em  o  altar  prinijipal  lençooes  pretos  per  tal  gisa  que  quando  o 
ssaçerdote  lenantar  o  corpo  de  deus  per  bem  da  color  do  dicto  pano 
pellos  qne  sleueiem  em  as  dietas  egreias  seia  bem  visto  e  nompoendo 
os  dietos  lençooes  do  dia  que  lhes  esta  visilaçom  for  dada  atee  huura 
mes  paguem,  ii'".  reaes  brancos. 

SO  —  Como  as  visitaroões  e  esta  (leuem  de  seer  postas 
em  110  coro  da  egreia  em  liuum  liiiro 

Item  adiamos  em  fazendo  a  dieta  visitaçom  que  muitas  cousas  das 
que  assy  forom  mandadas  per  nosos  visitadores  que  se  íezemsem  (sic)  nas 
egreias  por  seruiço  de  dens  e  bem  delias  nom  forom  fectas  nem  com- 
pridas e  esto  segundo  a  emformaçam  que  ouiiemos  por  aazo  e  culpa 
dalguuns  priores  e  vigairos  e  outros  alguuns  beneficiados  que  filhara 
as  dietas  visitaçoões  e  as  lenam  pêra  suas  casas  e  pêra  onde  lhes  apra- 
zia en  tal  guisa  que  nunca  mais  pareciam  nas  egreias.  porem  querendo 
nos  a  esto  remedear  euitar  as  dietas  maliçias  e  por  alguum  nom  ale- 
gar inorançia  mandamos  que  as  dietas  visitaçoões  seiam  postas  em 
huiim  liuro  em  nos  coros  das  dietas  egreias  em  tal  guisa  que  cada 
huum  beneficiado  lea  se  quiser  per  ellas  amoestando  pêra  ello  os  so- 
brediclos  era  forma  da  sancta  egreia  que  nora  seia  alguura  tara  ousado 
que  as  dali  tire  e  Iene  dandolhes  terrao  preciso  de  Ires  dias  e  qual- 
quer que  o  contrairo  fezer  poeraos  era  elle  sentença  dexcoraunhora  em 
ertes  seriptos  e  reseruamos  pêra  nos  absoluçara  os  noraes  dos  quaes 
aqui  auemos  por  expressos. 

31 — Como  se  algiumi  dota  a  egreia  por  sse  deitar  em  ella  deue  de  seer 
posto  em  fabrica  da  egreia 

Item  achamos  que  muitas  pessoas  se  emlerrara  e  raandam  enter- 
rar dentro  era  algumas  egreias  do  nosso  arcebispado  e  segundo  cus- 
torae  delle  denera  de  dotar  as  dietas  egreias  era  que  assy  som  se- 
pultadas e  o  que  assy  dom  Csic)  por  dote  deue  de  seer  dado  e  posto  era 
fabrica  da  dieta  egreia  e  ornamentos  do  de  (sic)  culto  deuino  e  segundo 
a  enformaçom  que  nos  foi  dada  os  beneficiados  das  dietas  egreias  ho 
apropriauani  a  ssy  e  conuertyara  em  seus  usos  da  qual  cousa  se  sse- 
guiani  periuizo  aas  egreias  e  a  seus  freegeses  scandallo  e  ainda  he 
inal  feeto  qiiia  quod  semel  deo  dedicatura  est  ad  humanos  usos  anplius 
redire  uon  debet.  porera  querendo  nos  prouer  a  ello  mandaraos  que 
taaes  dotes  seiara  guaidados  pêra  seus  próprios  usos  e  nom  pêra  ou- 
tros stranhos  e  pêra  se  esto  melhor  encaminhar  queremos  que  o 
priosle  que  for  aquelle  anno  daquella  egreia  onde  for  a  sopollura  re- 
cade  e  demande  o  dicto  dote  e  o  entregue  ao  mais  abonado  raçoeiro 


REVISTA   ARCHEOLOGICA  3i 

presente  em  a  dieta  egieia  e  receba  do  diclo  raçoeiro  conhecimento 
como  lho  entrega  e  as  screpiia  o  diclo  priosle  todas  (!m  hunm  rool  e 
noilas  de  per  scriplo  ou  a  nossos  visitadores  ipiaiido  lorinos  visitai' 
pêra  as  nos  mandarmos  destrit)uir  em  aipiellas  cousas  pêra  (jue  assy 
som  dotadas  e  sse  peruetitura  Cor  tal  egreia  que  tii  nom  aia  prioste 
nem  beneíiçiados  em  tal  caso  mandamos  que  o  prior  ou  uigaiio  ou 
seu  logo  teente  as  receba  e  rogamos  aos  freegeses  da  dieta  egreia  por 
seruiço  de  deus  e  onrra  delia  (jue  scolliam  outrossy  liuum  homem  boo 
que  as  screpua  e  noilas  de  em  rool  ou  a  nossos  visitadores  pêra  hor- 
denarmos  delias  o  que  suso  dicto  he  e  fazendo  os  dictos  beneíiçiados 
o  contrairo  do  que  suso  dicto  he  mandamos  tpie  as  tornem  em  dobro. 

3'j — Como  (leiícm  de  poer  bancos  nas  cgreias 

Item  mandamos  a  todolhos  fsic)  priores  vigairos  beneficiados  e  outras 
quaesquer  pessoas  a  que  esto  pertencer  que  ponham  bancos  em  suas 
egreias  hordenadamente  em  que  seiam  os  freegeses  quando  veerem 
aas  dietas  egreias  ouuir  os  deuinos  oíiçios.  do  dia  dada  ísicj  desta  vi- 
sitaçam  atees  (sitj  seis  meses  sob  pena  de  v^  reaes  brancos. 

33 — Como  o  que  nora  he  bautizado  como  se  deue  depois  bautizar 

Porquanto  o  ssancto  sacramento  do  bantismo  segundo  hordenança 
da  nossa  saneia  madre  egreia  he  principio  e  fundamento  de  todollos 
outros  sacramentos  sem  o  qual  alguum  nom  pode  seer  saluo  e  por- 
que visitando  nos  o  dicto  nosso  arcebispado  achamos  per  certa  en- 
formaçom  que  algumas  creaturas  em  tempo  de  necessidade  forom 
bautizadas  em  casa  per  pessoas  leigas  e  por  quanto  he  duuida  se  em 
taaes  baulismos  foy  guardada  a  forma  da  saneia  madie  egreia  a  qual 
he  necessária  e  por  tirar  algumas  openioões  dos  leigos  seguindo  em 
ello  a  regra  dos  sanctos  cânones  e  ordenança  da  sancta  egreia  e  quia 
in  dubiis  Uicior  ísic)  via  est  aligenda/^s/cj. mandamos  a  todos  aquelles  que 
teem  cura  em  nosso  arcebispado  que  quamlo  taaes  casos  veerem  qu3  fa- 
çam perante  sy  viinr  aquelles  que  taaes  baulismos  fezerom  ou  fezerem 
e  lhes  perguntem  per  (pie  modo  os  baulizarom  e  as  palauras  que  lhe 
diserom  se  sse  acharem  que  as  diserom  como  deuiam  nom  os  bauti- 
zem  mais  e  se  as  nom  diserom  como  compria  e  he  ordenado  na  san- 
cta ma'lre  egreia  ou  duuidam  em  tal  caso  as  baulizem  como  deuem 
com  protestaçom  que  se  acostuma  dizendo  se  lu  es  baulizado  eu  le 
nom  bautizo  e  sse  tu  bautizado  nom  es  eu  te  baulizo  em  nome  do 
padre  e  do  filho  e  do  spritu  sancto. 

34 — Como  deuem  depois  de  comer  dar  o  sacramento  da  lomunliom 

Item  achamos  per  certa  emformaçom  e  ainda  veo  a  nos  per  que- 
xume  de  alguuns  leigos  que  muitas  vezes  alguuns  priores  vigairos  per- 


32  REVISTA   ARCHEOLUGICA 


pelGiis  capellaães  de  cura  tio  diclo  nosso  arcebispado  eram  requeri- 
dos (pie  fossem  depois  de  comer  dar  o  saneio  sacramento  da  eiika- 
rislia  algduns  enfermos  e  que  elles  recusauam  de  o  fazer  dando  por 
sua  scusa  que  o  nom  fariam  porquanto  nom  stanam  jeguuns  (sic)e  assy 
se  finauam  sem  o  dicto  sacramento  pedindo-nos  de  merçeeque  a  esto 
llie  ouuessemos  algum  remédio  com  dereito  lhe  onuessemos  algum 
remédio  com  dereito  e  nos  veendo  o  que  nos  assy  era  diclo  e  pedido  e  por 
soccorrer  as  almas  dos  xpaãos  e  amlar  o  diclo  perigoo  (]uerendo  em 
ello  seguir  a  regra  dos  sanclos  cânones  que  somos  obi  igados  que  nos 
ensinam  quod  videlicet  hoc  sacramentum  debetfieri  a  iemno  tamen  non 
perbibelur  fsic)  tempore  necessitas  dar  (siopvdiuvãfsic),  porém  per  esta 
presente  mandamos  a  todollos  prioi'es  vigairos  per[)eluus  e  capelaães 
de  cura  do  dicto  nosso  arcebispado  que  sempre  tenham  o  sacramento 
da  eukarislia  prestes  e  aparelhado  posto  em  logares  pêra  ello  depu- 
tados contenuadamenle  huma  alampada  anle  o  dicto  sacrameeto  se- 
gundo lhe  ia  per  outras  visilaçoões  ante  desta  foy  mandado  e  quando 
taees  casos  veerem  e  forem  requeridos  (jue  logo  muito  honrradamente 
o  leuera  aos  enfermos  e  lho  dem  se  forem  em  tal  disposiçom  (pie  o 
possam  lograr  e  conteer  no  stamago  (sic)  posto  que  tenham  ia  comido  e 
sse  peruentura  forem  tal  disposiçom  que  o  nom  posa  fs/cjlograr  abaste- 
Ihe  de  o  adorar  e  qualquer  dos  sobredictos  que  em  esto  for  negli- 
gente queremos  (pie  iaça  seis  meses  no  aliube  onde  faça  peendeça  da 
sua  pouca  obediência  e  sse  peruentura  por  a  dieta  sua  negligencia 
sse  sseguir  alguum  perigoo  ao  enfermo  seia  certo  que  aalem  da  dieta 
peendença  lhe  seera  dada  tal  pena  que  a  elle  seera  scaramenlo  (sicj 
e  a  outros  emxemplo. 

■Hõ — Como  liam  de  absoluer 

Item  oulrossy  achamos  per  çerla  speriençia  que  muitas  pessoas 
ecciesiasticas  do  dicto  nosso  arcebispado  que  carrego  teem  de  confes- 
sar nom  sabem  bem  a  absoluçom  per  que  acho  penitente  de  absoluer 
o  que  he  muito  mil  feito  (sicj  e  ainda  grande  perigoo  porem  por  eui- 
tar  o  dicto  perigoo  lha  mandamos  aqui  screpuer  a  (jual  he  esta  que  se 
ssegue 

Autoritate  domini  noslri  ihu  xpi  et  apostollo- 
rum  suorum  petri  et  pauli  oficii  mihi  in  hac 
parte  comissi  absoluo  te  ab  iis  peccatis  mihi 
parte  confessis  el  contrictis  et  ab  aliis  de 
quibus  non  recordaris  et  eadem  autorilale.  te 
absoluo  a  sentencia  excomunicalionis  minoris 
si  quara  encorrisli  loqnendo  comendendo  bi- 
benílo  couerssando  com  excomunicatis  et  res- 
tituo te  sacrosanctis  matris  ecclesie  sacramen- 
lis  :  p.  x.  d.  n.  (par  xpi  domini  7iostriJ  amen. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA 


33 


SEPULCROS  ANTIGUOS  DP^  CADIZ 

En  los  primeros  dins  dei  mes  de  Agosto  dei  afio  actual  (1887)  me 
manilestaba  eii  Berlin  mi  auligiio  é  ilustre  amii^o  el  ProCesor  IliUjner 
su  deseo  de  coiiocer  las  inscripcioiícs  romanas,  (]ue  se  decian  encon- 
tradas ultimamente  en  Cadiz,  con  el  íin  de  incluirias  en  el  Suplemento 
ai  segundo  volúmen  dei  Corpus  Inscriplionum  Lalinarwn,  que  eslaba 
para  entregar  á  la  imprenta.  Con  este  motivo  le  ofrecia  que  á  mi  re- 
greso  á  Empana  pasaria  por  diclia  ciudad  y  procuraria  calcar  y  enviarle 
los  traslados  de  los  epígrafes  inéditos,  que  lograse  examinar.  A  este 
propósito  el  Í5  de  Setiembre  sali  de  Sevilla  con  direccion  á  Cadiz  ádonde 
Uegué  con  grandisimo  retraso,  como  de  continuo  acontece  en  los  ferro- 
carriles  espanoles,  (pie  son  de  los  peor  servidos  de  Europa.  Merced  á 
la  atencion  de  las  personas  á  quienes  me  dirigi  pude  aquella  noche 
mismo  sal)er  donde  se  encontraban  reunidos  todos  los  objelos  bailados, 
y  ã  la  manana  seguiente  me  encaminè  desde  luego  y  sin  perdida  de 
liempo  ai  lugar  donde  estaban  custodiados,  que  era  uno  de  los  pa- 
bellones  dei  edifício  levantado  de  nueva  planta  fuera  de  las  murallas 
con  destino  á  la  Esposicion  marítima,  que  á  la  sazon  acababa  de  abrirse 
en  dicha  plaza.  Aunque  la  instalacion  no  eslaba  terminada  encontra- 
banse  ordenados  los  objetos  que  deseaba  ver  de  tal  modo,  que  con  no 
ser  muchos,  podianse  estudiar  comodamente.  Tanto  el  presidente  de 
la  diputacion  provincial,  como  el  arquitecto  de  las  obras  y  el  sobres- 
tante  me  facilitaron  los  médios  de  examinar  y  copiar  cuanto  fue  ne- 
cesario  à  mi  intento,  merced  á  cuya  deferência  y  con  presencia  de 
vários  números  dei  periódico  local  La  Palma  de  Cadiz  ',  que  lie  debido 
mas  tarde  á  la  atencion  de  persona,  que  en  mucbo  estimo,  he  logrado 
fijar  algunos  datos  sobre  tales  ballazgos,  que  son  de  la  mayor  mipor- 
tancia  para  la  arqueologia  nacional. 

Segun  manifestacion  que  me  liizo  el  antes  mencionado  arquitecto, 
director  de  los  trabajos  para  la  instalacion  de  la  referida  Esposiaon 
manlima  nacional,  que  se  inauguro  en  Agosto  de  1887,  [)areLe  que  ai 
allanar  el  terreno,  donde  habia  que  lavantar  los  diversos  departamen- 
tos, de  que  aquella  deberia  componerse,  ai  Este  de  la  poblacion,  en 
la  llamada  Punia  de  la  Vaca,  á  mas  de  un  kilómetro  de  la  Puerta  dei 
Mar.  y  à  unos  trescientos  metros  largos  de  la  mayor  saliente  de  as 
forlificaciones,  se  descubrieron  vários  sepulcros  antiguos.  Examinados 
los  que  aparecieron  casualmente,  se  vió  que  eran  de  mamposteria, 
cubiertos  de  ladrillos,  que  formaban  como  un  tejado,  con  vertientes 


1  12  Marzo,  1."  3  y  31  Mayo,  1."  2  y  3  Junio  1887. 
Rev.  Arch.,  n.o  3  —  Março  i888. 


34  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

á  ambos  lados,  encerrando  luiesos  no  queniados,  conteniendo  cada 
sepullura  un  esqueleto  y  algiinos  objelos  de  cerâmica,  de  los  que  se 
conservaban  vários  restos.  Tambien  se  hallaron  ai  remover  aquel  ter- 
reno dos  lápidas  sepiílcrales  integras  con  leyenda  latina  y  três  frac- 
turadas, varias  monedas  municipdles  y  coloniales  balidas  en  Espana 
y,  segun  alirmabani  diversas  pcrsonas,  algunas  pequenas  joyas  como 
de  nuios.  No  era  necesario,  para  el  objeto  de  las  edificaciones  que 
se  intentaban  levantar,  seguir  descubriendo  aquella,  que  parecia  ba- 
ber  sido  necroi)olis  romano  gaderitana,  y  por  ello  se  dejó  sin  explorar. 
El  pormenor  de  lo  que  he  visto  pertenecienle  á  la  época  de  la 
dominacion  romana  en  la  península  y  encontrado  en  el  lugar  que 
dejo  senalado  puede  fixarse  de  esta  manera  : 

I  —  Cerâmica  descubierta  de  Marzo  á  Mayo  de  1887  : 

A- — Uii  ânfora  roínaiia  grande  de  barro,  Wien  ancha  por  abajo 
P  —  Dos  penueãas  vasijas  tambion  de  barro,  rolas  por  La  pari.e  inferior,  semc- 
jantes  á  las  que  sueien  enconlrarse  en  las  tumbas  romano-hispanas. 

II  —  Monedas  dcscubierlas  de  principio  de  Marzo  á  fia  de  Mayo  de  1887  : 

A  —  Púnicas  de  Africa  : 

Una  de  Lix Miiller,  Numisinahqiie  de  runc.  Afrique,  iii,  n."335 

B  —  Púnicas  de  Espana 

Cuatro  de  Cadiz Delgado,  N.  Mêl.  de  clasif.  Tab.  xxvii,  n."  38 

Una      de    id    Id.  Id.  »     xxvii,  n."  46 

Una      de    id Id.  Id.  »     xxvni,  n."  74 

Três     de    id Id.  Id.  »     xxvni,  n.°7i 

Três     de    id Id.  Id.  »    xxvui,  n."  72 

{]  —  Ibérica  de  la  Tarragonenfc  : 

Una  de  Castulo Id.  Id.  »       r.xiv,  n.^Sl 

D  —  Romano-hispanas  de  la  Bética: 

Una  de  Carmo Id.  Id.  »  xi,  n.°  22 

Una  de  Carteia Id.  Id.  »        xiv,  n."  47 

Una  de  la  colónia  romulense,     Id.  Id.  »      i.xvii,  n."    3 

E  —  Iiiiperiales  romanas  : 

Una  de  TIB.  CLAVDIVS  —  med.  bronce. 

Debese  advertir  sin  embargo  que  en  esta  clasificación  podrá  ha- 
ber  algun  ligero  error  en  las  concordâncias,  que  he  tenido  que  hacer 
de  memoria,  entre  las  piezas  amonedadas,  que  se  han  encontrado  re- 
cientemenle  en  la  Punta  de  la  Vaca  y  los  egemplares  corrcspondien- 
tes,  que  van  senalados  de  la  obra  aludida  de  Don  António  Delgado; 
pêro  por  lo  demas  puedo  afirmar  que  las  diez  y  ocho  monedas  que 
be  examinado  en  el  mismo  lugar  dei  ballazgo  son  en  resúmen  una  de 
Lix,  una  do  Carmo,  una  de  Carteia,  una  de  Castulo,  una  de  la  Coló- 
nia romulense,  doce  de  Cadiz  y  una  dei  emperador  Tibério  Cláudio. 

III  —  Aihajas 

A  —  Dos  brazaletes  pequenos,  annillae,  formados  de  un  grucso  alambre  de 

iiro  onrnsrado  en  espiral 
15 — Cnatrn  pcípicnos  ohjetos  laiiibien  de  oro  que  nie  parecierom  zarcillos, 

iiKiures.  aunquc  los  vi  entre  cristal(!s,  sin  tonerlos  en  la  mano  y  me  (lue- 

dó  la  duda  si  podria  ser  hebillas,  fihulue. 


REVISTA  ARCHEOLOGICA  li") 

Estas  seis  alliaj.is  hk;  nííCííiiiaroii  iniiclios  que  se  liabian  encon- 
contrado  ai  Indo  ó  (iebajo  de  la  lapida  de  los  dos  ninos  Festiva  y  So- 
dal,  de  que  me  ocuparè  en  seguida,  y  su  forma  no  me  pareciú  que 
repugnaba  en  lo  mas  mínimo  ai  estilo  de  la  orfevrería  dei  principio 
dei  império;  pêro  hubo  tambien  quien  me  indico  (|ue  se  liabian  des- 
cubierlo  en  el  mismo  sepulcro  de  que  liablaré  despues,  donde  el  anillo 
y  el  collar  con  cuenlas  de  oro,  lo  cual  no  me  parece  lan  probable. 

111  —  Inscripciones  romanas. 

i.»    conTegit-hic-tvmvlvs-dvo  •  pignora 

CARA  • PARENTVM 
INDICS  •  ET  •  TITVLVS  •  NOIVIINE  •  QVO  •  F\ERKt 
SORS  •  PRIOR  •  IN  •  PVERO  •  GECIDIT  •  SED  •  FLE 

BILE  •  FATVM 
TrISTIOR  •  ECCE  •  DIES  •  RENOVAT-MALA 
VOLNERA  •  SANA 
^^^_   ET^MODO-QVAE  •  FVERS- FILIA-  NVNG-GINIS-EST 
^FESTIVA- AN- XI  -SODALIS  •  ANNICVL'H-S  •  S 


svTl-  ROGATVS-  DAT. 


El  Profesor  Iliibner,  á  quien  hice  conocer  en  seguida  este  inlere- 
sante  texto,  dió  cuenta  en  Noviembre  de  1887  á  la  sociedad  arqueo- 
lógica de  Berlin  de  tan  eslimable  hallazgo  en  estos  términos:  «Entre 
las  pequenas  inscripciones  (las  encontradas  em  Cadiz),  que  recuerdan 
las  tabletas  de  los  columbarios  romanos,  merece  seualarse  un  epi- 
grama, que  está  grabado  eu  fina  letra  mayuscula  como  de  la  época 
de  Augusto»...  «Este  pequeno  y  gracioso  poema  no  está  redaclado 
conforme  ai  modelo  usual,  si  bien  su  autor  no  ba  podido  terminarlo  en 
la  forma  elegíaca,  que  se  proponia.  En  dos  dísticos,  y  un  exametro, 
que  entre  aquellos  sobresale,  se  queja  el  que  lo  redactó  de  la  tem- 
prana  muerle  de  dos  ninos  y  dice  asi:» 


Contegit  hic  tumiilus  duo  pignora  cara  parcntum^ 

indicat  et  titidus^  nomine  qiio  fuerint 

Sor s  prior  in  piiero  cecidit;  sedjlebile  fatinn 

(trislior  ecce  dieslj  renovai  mala  volnera  sana, 

et,  modo  qiiae  fuerat  filia,  niinc  cinis  est. 

Festiva  an(norum)  XI,Sodalis  anniculfus)  hficj  s(iti)  s(iint) 

S(it)  vfobis)  tferraj  Ifevis).        Rogatus  dat. 


36  REVISTA  ARCHEOLOGICA 


Cubre  á  la  vez  este  sepulcro  dos  prendas  queridas  de  sus 
padres;  la  inscripcion  indica  el  nombrc  que  tuvieron. 
Kl  nino  fuo  el  primero  á  quien  toco  el  desaparecer ; 
pcro  he  aqui  que  en  un  dia  de  mayor  tristura  el  hado 
adverso  renueva  la  herida  mal  cicatrizada  y  la  que  poço 
ha  fuera  hija  es  ai  presente  ceniza. 

Aqui  yacen  Festiva  de  once  anos  y  Sodal  de  uno :  que  os 
sea  la  tierra  libera. 


Rogato  lo  regalo. 

La  coleciou  lapidaria  de  Cadiz  es  copiosa,  *  y  entre  las  inscripcio- 
nes  que  la  avaluraii  liny  una  á  la  memoria  de  Quinto  António  Rogato, 
hijo  de  Caijo,  de  la  Iribu  Galeria  y  Deiiinión  ^,  otra  á  la  de  Elia  lio- 
gata,  hija  de  Quinto  ^,  una  tercera  á  la  de  Cago  Anio  (sic)  Rogato  de 
20  anos  S  y  otra  última  á  la  de  Mareia  Rogala  de  cinco,  no  siendo 
posible  íijar  con  precision  si  tales  personajes  pndieron  estar  unidos 
entre  si  por  vinculo  alguno  de  parentesco,  ni  menos  con  el  nnevo 
Rogato,  que  coslea  la  lápida  sepulcral  de  los  ninos  Festiva  y  Sodal. 
Uespeclo  de  la  formula  rogatvs  dat  ,  á  que  acabo  de  aludir  se 
registra  oiro  exemplo  muy  interesante,  lambien  en  las  inscripciones 
de  Cadiz  en  la  piedra  funerária  de  Marco  Emilio  Optato  Longo,  hijo 
de  Marco,  donde  se  lee  que  Suavís, . . .  mernor  amicitiae  hoc  múnus 
suprenuim  dat  ^. 

La  inscripcion  en  verso  de  que  acabo  de  hablar  como  la  de  que 
voy  á  ocuparme  en  seguida  fueron  bailadas  en  el  lugar  ya  indicado  de 
la  Punta  de  la  Vaca  ai  terminar  el  mes  de  Abril  de  1887  por  que  en 
La  Palma  de  Cadiz  de  1."  de  Mayo  se  trata  ya  de  ambas  como  aca- 
badas de  encontrar  en  los  desmontes  de  los  terrenos  contiguos  ai  silio 
de  la  Esposicion. 

Salvia^  cara  siiis.  h(ic)   sfita)  efstj.  Sfit)  t(ibi) 

2."     SALVIA  •  CARA         ,.        m,     ■  ^ 
tf  erra)  lievis). 

SVIS 

u.c.p.c.T-.-r.i  Aqui  yace  Salvia.  querida  de  los  suyos  ;  seale  la 

tierra  lijera. 

La  forma  de  esta  inscripcion  no  puede  ser  mas  sencilla,  siendo 
frecuente  en  Cadiz,  donde  se  encnentran  varias  análogas,  aunque  nin- 
guna  de  otra  mujer  llamada  Sairia. 


í  C.  I.  L.,  n,  172't  á  1922  y  pag.  xmii. 
2  C.  I.  L.,  w,  1729. 
5  C.  L  L.  11,  1747. 
'•  C.  1.  L.,  II,  1784. 
'"  C.  l.L..n,  17S3. 


REVISTA    AUCIIEOLOGICA 


37 


3/ 


ANN  1/ 


En  los  epigrafes  garlitanos  se  dan  á  conocer  varias  Annias  y  di- 
versos Aniiios,  (jue  son  Annia  Linrwa  hija  de  Cíí//o'  y  Annid  Palnuiia 
liija  lambien  de  uii  Can  o-,  Annia  Salniid  ^,  Cai/o  Annio  Feli.r  *.  y 
Sexlo  Annio  Liicano,  Itijo  de  Scitu  ^,  de  modo  que  el  liagmeiílo  Iras- 
crito  bien  puede  liaher  coiimemoiado  á  mi  liombre  ó  à  una  mujer  y 
en  cualqueira  de  los  dos  casos  la  reslilucion  seria  facilisinia,  por(|ue 
su  texlo  debiò  ser  análogo  ai  de  Sairia  y  decir  proxiuiamenle,  si  era 
lieiiibra  la  inhuniada  Anni[di  cara]  /;ar[enlibus  liic  sita  esl,  sil,  libi, 
terra  levis]. 


A  \ 

AJVJV 


Parece  que  debiera  haber  dicho  este  epigrafe  : 

Q,(iniiis)  C[orncliiis]  Av[iliis]  ann{oritm) . . .  [hic  sitiis  csl;  sit.,  tibi^  terra  levis]; 

110  conociendose  entre  las  inscripciones  de  Cadiz  el  iiombre  ni  el 
cognombre  de  Corndio  Anilo. 


Acaso  pudieran  ser  estas  letras  resto  de  la  conocida  formula  iis- 
ES-T-T-L- 

La  fecha  de  los  hallazgos  de  estos  Ires  fragmentos  no  se  conoce 
con  la  precision  que  la  de  las  dos  primeras  inscripciones,  si  bien  me 
ioforrnaron  en  el  lugar  donde  se  encontraron  que  las  cinco  piedras 
se  descubrieron  casi  ai  niismo  liempo. 

Pêro  el  descubrimiento  mas  importante,  que  se  hizo  en  las  indi- 
cadas esplanaciones  fue  como  a  unos  ireinta  metros  de  la  necrópolis 


1  C.  I.  L.,  II,  1757. 

2  C.  I.  L.,  II.  17o8. 

3  C.  /.  L.,  II.  1759. 
í  C.  I.  L..  11.  17G0. 
^  C.I.L,  II.  1761. 


38  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

romana  y  mas  distante  que  esta  de  la  plaza,  en  la  misma  Ptinta  de  la 
Vaca,  como  á  mil  trescientos  metros  de  la  Puerta  dei  Mar  y  á  unos 
trescienlos  cincuenta  de  la  mayor  saliente  de  las  fortiíicaciones,  ha- 
biendo  consistido  en  três  sepulcros  de  fecha  antiquisima  y  de  época 
muclio  mas  remota  que  la  dei  enterramento  alli  imediato  y  de  que 
acabo  de  hablar. 

Segun  me  informo  el  tan  aludido  arquitecto,  parece  que  desmon- 
tando una  pequena  eminência  natural,  de  piedra  caliza,  sobre  Ia  que 
se  habia  construído  un  ventorrillo,  para  allanar  todo  aquel  terreno  de- 
jándolo  á  un  mismo  uivei,  cuando  llevaban  los  trabajadores  rebaja- 
dos  como  unos  cinco  metros,  dieron  con  três  tumbas,  que  estaban  es- 
cabadas  en  la  piedra  misma  de  aquella  colina  y  rellenados  los  huecos 
hasta  la  cumbre  con  arcilla  compacta  impermeable.  Dentro  de  la  es- 
cabacion  praticada  en  la  dicha  piedra  caliza,  se  habian  construído  três 
compartimentos,  con  destino  á  igual  numero  de  sepulturas,  con  sillares, 
que  he  visto  colocados  en  los  escalones  de  la  escalinata  de  uno  de  los 
pabellones  alli  cerca  levantados,  y  que  formaba  parte  de  los  que  com- 
ponian  la  ya  nombrada  Esposicion  marítima  gaditana.  La  principal  que 
era  la  mayor  se  hallaba  situada  mas  ai  oeste,  las  otras  dos  unidas  por 
el  centro  arrancaban  dei  pie  de  la  anterior,  siendo  ambas  mas  cortas 
y  mas  angostas  que  aquella,  sin  coincidir  con  ella  en  su  angulo 
izquierdo  y  leniendo  la  que  fue  de  una  mujer  menos  profundidad  que 
las  dos  restantes,  segun  todo  ello  aparece  en  el  croquis  que  de  la  po- 
sicion  respectiva  de  cada  una  debi  á  la  atencion  dei  mencionado  sefior 
arquitecto.  El  perímetro  de  estos  três  compartimentos  no  sé  que 
haya  sido  medido,  de  modo  que  no  puede  fijarse  con  esactitud  la  su- 
perfície que  ocupaban,  operacion  que  hoy  es  ya  imposible  practicar, 
porque  el  sitio  donde  se  descubrieron  ha  desaparecido  por  completo 
en  razon  á  que  la  rasante  dei  terreno  ha  quedado  por  la  espianacion 
bastante  mas  baja  que  el  lugar  donde  tales  monumentos  se  encontra- 
ban  construídos.  Estaban  tambien  cubierlos  con  sillares,  Io  cual  hizo 
que  ai  destaparse  pudieran  verse  les  restos  humanos,  que  en  ellos 
descansaban  por  tantos  siglos,  tal  como  habian  sido  inhumados  sin 
mescla  alguna  de  cuerpo  estrano  y  solo  con  los  restos  de  las  telas 
que  envolvia  y  de  la  cajá  de  madera  que  encerraba  ai  uno,  con  vá- 
rios fragmentos  de  armas  el  otro  y  con  algunas  alhajas  de  oro  la  ter- 
cera.  Todos  ellos  tenian  los  pies  ai  oriente,  la  cabeza  ai  ocaso,  el  cos- 
tado derecho  ai  norte  y  el  izquierdo  ai  médio  dia. 

Ocupaba  el  sepulcro  mayor,  que  era  como  he  dicho  el  que  estaba 
mas  ai  oeste,  un  arca  de  marmol  hianco,  no  tan  grande  ni  de  tan  fina 
labor,  pêro  afectando  la  misma  forma  que  la  descubierta  cerca  de 
Sayda  en  Enero  de  18;)5  y  conservada  en  el  Louvre,  que  encerraba 
los  despojos  mortales  de  Esmunazar  rey  de  Sydon  *,  de  la  que  se 

1    C.  I.  S.,  I,  t;il)  II  y  III. 


REVISTA   AKCHEOLOGICA  39 

diferencia  siii  embargo  por  carecer  la  cubierla  de  ioda  inscripcion  se- 
pulcral. 

La  lapa  de  esta  arca  funerária  de  picdra  gaderilana  es  inuy  digna 
dei  mas  delenido  exámen.  Sobre  eila  eslaba  esculpida  la  imagen  re- 
presontnliva  dei  difuiilo;  la  cara  mny  hien  Irazada,  la  barba  rizada, 
el  bigole  cuidadusamenle  arreglado.  el  pelo  prornsamenle  colocado 
sobre  la  frenle,  la  boca  y  los  ojos  bien  caracterizados,  presentando 
todo  el  roslro  un  conjunto  tan  armónico  y  natural  á  la  vez,  que  ai 
contemplarlo  no  queda  duda  en  el  ânimo  que  debiò  ser  un  Irasunto 
muy  parecido  ai  original,  tal  es  la  espresion  y  la  movilidad  de 
aquella  mascara  inanimada.  Sigue  luego  todo  el  cuerpo  apenas  perfi- 
lado y  como  envnello  en  nn  sudário,  que  bajando  de  la  cabeza,  solo 
deja  ai  descubierto  los  brazos,  las  manos  y  los  estremos  de  los  pies. 
Dichos  brazos  apareceu  apenas  delineados  en  el  marmol ;  recogido  el 
izquierdo  sobre  el  peclio,  oprime  con  la  siniestra  algo  que  se  ase- 
meja  à  un  corazon  himiano;  estendiendo  el  derecho  á  lo  largo  de 
aquel  costado  y  descansando  sobre  el  mnslo  dei  mismo  lado,  figura 
agarrar  con  la  diestra  una  ancha  corona  de  laurel,  que  no  está  gra- 
vada en  la  piedra,  como  el  que  parece  corazon,  sino  pintada  sobre 
ella,  conservándose  aun  visibles  cuando  examine  el  monumento,  algu- 
nas  hojas  trazadas  á  la  redonda,  que  ni  la  humedad  ni  la  intempérie 
habian  hecho  desaparecer  aun.  Tambien  me  dijeron  que  se  habia  con- 
servado pintado  el  canto  de  la  suela  dei  calzado  con  que  se  quiso 
representar  á  aquel  personage,  annque  por  mi  parte  no  logre  notar 
la  huella  de  tal  pintura,  ni  distinguir  las  correas  que  debieron  figurar 
que  sugetaban  aquella  espécie  de  sandálias  ai  pie,  si  bien  pudieron 
estar  cubiertas  con  el  sudário,  que  solo  dejaba  ver  en  la  escultura  la 
parte  estrema  de  los  pies  desnuda  y  bien  conservada.  No  lo  eslaba 
tanto  la  punta  de  la  nariz  y  algunos  delalles  de  los  ojos,  porque  segun 
me  asseguro  el  arquitecto  â  que  tanto  he  aludido,  los  sillares  que 
cubrian  aquella  sepultura  se  habian  rehundido  algo.  especialmente  el 
que  se  encontraba  sobre  el  roslro  de  piedra.  habiendo  venido  à  en- 
contrar en  la  parte  saliente  de  la  nariz  su  punlo  de  apoyo  por  muchos 
anos  y  aun  por  siglos. 

Dos  cosas  se  notan  en  la  tapa  de  este  sarcófago,  la  una  que  sobre 
ella  ha  venido  el  escultor  marcando  desde  los  hombros  las  ondulacio- 
nes  dei  cuerpo,  los  contornos  de  los  muslos  y  las  lineas  de  las  pier- 
nas,  representando  un  cadáver  envuelto  en  un  sudário  y  no  una  mo- 
mia  liada  con  largas  fajas,  ocultando  los  brazos  y  manos  y  dando  ai 
cuerpo  Ia  rigidez  de  las  lineas  rectas,  como  sucede  en  la  escultura  dei  ci- 
tado sarcófago  de  Esmunazar.  La  otra  que  sobre  la  cabeza,  bajo  los  pies 
y  cerca  de  cada  hombro  presenta  la  misma  tapa  una  saliente  bastante 
grande, (pie  siendo  en  número  de  cualro  debieron  servir  entonces  como 
han  servido  alioia  para  levantar  en  alto  la  dicha  cubierla,  por  médio  de 
un  aparejo.  cuidando  antes  de  sujetar  eo  tales  salientes  los  estremos 


40  REVISTA    AKCIIEOLOGICA 

de  olras  tantas  cuerdas,  para  poderia  izar  mas  facilmente.  En  el  arca  fu- 
nerária de  Esmiinazar  solo  recuerdo  una  saliente  á  los  pies  de  la  cubierta. 

La  descrita  cajá  de  piedra  estaba  compuesla  de  dos  partes,  la  in- 
ferior de  una  sola  piedra.  y  la  tapa  de  otra,  coincidiendo  ambas  per- 
fectaniente  en  sus  lineas  estcrnas  y  niidicndo  de  largo  dos  metros 
quince  cenlimelros,  de  ancho  por  la  parte  mayor  noventa  y  seis  cen- 
tímetros, de  alto  noventa  y  siete,  coando  el  sarcófago  estaba  cubierto, 
siendo  de  sesenta  y  dos  cenlimelros  cuando  no  estaba  cerrado.  Den- 
tro dei  arca  descrita  se  hallaron  reslos  como  de  otra  de  madera,  que 
se  ha  crcido  luese  de  cedro,  fragmentos  como  de  vestidos;  pêro  am- 
bas cosas  muy  desechas,  un  tarro  muy  pequeno  y  roto  de  barro  y  dos 
clavos  de  cobre  como  de  unos  dos  ceniimetros  escasos  y  adernas  el 
esqueleto  dei  difunto,  que  aun  se  conservaba,  cuando  lo  vi,  donde 
mismo  fue  encontrado  y  ai  parecer  en  Ioda  su  inlegridad.  Desgracia- 
damente  en  la  dicha  tumba  no  se  hallaron  monedas  ni  alhajas,  que 
hubieran  podido  contribuir  á  fijar  con  alguna  precision  la  época  en 
que  aquellos  restos  humanos,  que  por  tantos  siglos  ha  guardado  en 
deposito,  fueron  soterrados  en  semejante  sepulcro  de  marmol. 

En  la  sepultura,  que  segun  me  aseguraron  seguia  imediatamente 
á  la  antes  descripta,  formando  parte  de  las  ires  descubiertas,  no  apa- 
reció  arca  alguna  de  piedra  sino  solo  un  esqueleto  de  hombre,  reslos 
de  armas  de  hierro  y  un  largo  collar  de  huesos,  de  los  que  aun  que- 
dan  vários  pequenos  canulos  perforados,  habiendo  desaparecido  otros. 

La  tercera  tumba,  que  como  he  dicho  era  menos  profunda,  tampoco 
encerraba  sarcófago  aíguno  de  piedra,  sino  solo  el  esqueleto  de  una 
mujer,  con  un  collar  que  se  componia  de  unas  cuentas  de  oro,  olras 
de  ágata,  alternando  entre  si  y  con  vários  adornos  ai  parecer  de  mar- 
fil  cada  Ires  cuentas,  teniendo  el  referido  collar  en  la  parte  central 
una  espécie  de  dije  de  oro  redondo,  dividido  por  nueve  espécie  de  bojas 
que  salen  dei  centro,  la  una  de  oro  brunido,  la  otra  de  color  azul  como 
esmaltada  y  la  tercera  de  oiro  color  indefinido.  Tambien  se  descubrió 
en  este  sepulcro  un  anillo,  que  se  asegura  haberse  encontrado  en  la 
falange  de  uno  de  los  dedos  dei  esqueleto  alli  encerrado.  Esta  alliaja 
está  muy  bien  hecha,  consisliendo  en  un  sim[)le  aro  de  oro,  cnyos  es- 
Iremos  sugetan  una  pequena  piedra  negra,  que  giia  con  su  monlura 
ai  rededor  de  dos  pequenos  pernos,  engastados  en  el  aro.  La  piedra 
representa  por  el  lado  convexo  un  escarabajo  y  por  el  opuesto,  que 
es  plano,  una  mujer  de  cuerpo  entero  y  de  peifil,  que  se  dirije  hacia  la 
izquierda  dei  que  mira;  en  la  mano  dereclia  lleva  un  ramo  y  eu  la  opues- 
la  un  jarro.  No  es  difícil  conocer  en  esta  [lequena  joya  una  de  tantas  como 
impnrlaban  d(!l  oriente  los  negociantes  íVmiícíos.  para  cambiarias  por  me- 
lales  preciosos,  sosleniendo  y  facilitando  las  ti'ansaciones  mercanliles. 

(>omo  qniera  que  se  trata  de  un  descubrimiento  arqueológico  de 
la  mayor  imporia ncia  para  nuesti'a  historia  anligua,  no  parecera  fucra 
dei  caso  el  íijar  algunas  fechas  y  vários  detalles  estradados  dei  perio- 


KKVISTA    AUCIlKOLOCilCA  41 


dico  de  la  localidad  ai  principio  citado,  rjuo  acaso  piiedan  ser  de  in- 
teres  para  en  adulaiilc,  [)M(!sIu  (pio  ignoro  que  nadic  eii  Espana  haya 
dedicado  liasía  alioia  un  estúdio  suiio  a  tales  Ijallazgos. 

La  Palma  de  Cadiz,  n.  27.488,  dei  12  Marzo  de  1887: 

«Mas  antignedades.  Ayei'  fiieron  inuclias  las  pei'sonas  (jnc  ('>luvie- 
ron  examinando  las  d''s  sepulturas  de  [)iedia  encontradas  el  dia  an- 
terior en  la  Punta  de  la  Vaca. 

«Al  ser  recogidos  los  liuesos  se  encontro  en  uno  de  los  dedos  nn 
anillo,  ai  parecer  de  oro  con  piedra  de  ágata...  Tambien  liierou  en- 
contradas dos  anillas  de  forma  especial  y  varias  cuenlas  de  oro,  como 
de  liaber  formado  parte  de  un  collar. . .  y  adcmas  una  medalla  que 
correspondia  ai  collar. w 

De  aqui  se  deduce  que  el  10  de  Marzo  de  1887  se  enconlraron 
los  dos  sepulcros  de  piedra,  el  dei  horabre  con  los  restos  de  sus  armas  y 
el  collar  de  hueso  y  el  de  la  muger  con  su  anillo  y  su  collar  de  oro,  de 
que  acabo  de  ocuparme,  y  que  antes  de  diclio  dia  se  liabiam  bailado 
otras  antignedades,  que  no  be  logrado  colegir  cuales  fueian,  por  no 
haber  podido  obtener  el  número  dei  periódico  que  de  ellas  se  ocupaba. 

La  Palma  de  Cadiz,  n.  27.501,  dei  1.°  de  Mayo  de  1887  : 
«Inscripciones  romanas.  Se  ban  encontrado  dos  en  los  desmontes 
de  los   terrenos  contiguos  ai   sitio  de  la  Esposicion.  Una  es  de  una 
muger  llamada  Salvia. . .  La  otra  es  una  inscripcion  mas  estensa,  se 
halla  escrita  en. . .  latin  y  en. . .  verso.» 

De  donde  se  colige  que  las  lápidas  sepulcrales  de  Salvia  y  de  los 
ninos  Festiva  y  Smlal  se  descubiieron  dei  21)  ai  'M)  de  abril  de  1887, 
cerca  dei  lugar  donde  se  encontraron  los  sepulcros  de  piedra;  pêro 
no  en  el  mismo  sitio,  conforme  lo  bemos  ya  dicho. 

La  Palma  de  Cadiz,  n.  27.531.  dei  31  Mayo  de  1887: 
«Hallazgo  curioso,  En  las  escabaciones  que  se  estan  praticando  en 
la  Punta  de  la  Vaca  cerca  dei  Casucbo  que  en  algun  tiempo  fue  ven- 
torrillo  y  que  estan  derrivando  y  acabando  de  desmontar,  se  ha 
encontrado  ayer  una  sepultura  toda  de  marmol  blanco  en  muy  buen 
estado  de  conservacion  de  dos  metros  de  largo  por  uno  de  an- 
cho, en  cuya  tapa  tambien  de  marmol  aparece  una  figura  hecha  a 
cincel,  teniendo  una  mano  sobre  el  pecho  y  la  otra  estendida...  Se 
han  pueslo  guardas  para  evitar  las  imprudências  de  los  curiosos, 
cercándolo  de  una  enipalizada,  dejando  para  hoy  su  apertura.» 

El  sarcófago,  pues,  de  que  ya  be  hablado  se  encontro  el  30  de  mayo 
de  1887,  es  decir  á  los  odienta  y  dos  dias  —  cerca  de  Ires  meses  — 
des[)ues  que  los  ntios  dos  sepulcros  do  piedra  de  que  tambien  me  he 
ocupado,  y  que  resultaron  formando  con  iu\ae\  una  misma  conslruccion 
y  unidos  entre  si  por  los  muros  de  sillares  de  que  se  componian. 


42  UE  VISTA  ARCHEOLOGICA 


La  Pahm  de  Cadiz,  n.  27.5^2,  dei  1."  de  Jiinio  de  1887: 

«Sepulcro.  Segiin  nos  lian  asegurado  en  la  lapa  dei  sepulcro  de 
marniol,  que  aun  no  se  ha  abierto,  liay  una  gran  figura  de  lamafio 
natural  en  relieve,  que  tiene. . .  la  mano  izquierda  sobre  el  pecho  con 
una  llor  y  la  mano  derecha  estendida.  No  la  hemos  visto  y  nosotros 
solo  nos  atenemos  á  informes  de  personas  verídicas. 

«Inscripcion.  Una  lápida  sepulcral  recienlemenle  se  ha  encontrado, 
que  no  hemos  visto  lampoco;  pêro  segun  nos  refieren  dice:  adorIS- 
ANNLXII-HS-C-S-H-S  »  (f^ic). 

No  he  visto  esta  piedra  entre  las  encontradas  en  la  Necrópolis 
romana  gaderitana,  cuya  transcripcion  se  conoce  que  está  deplorable- 
mente  hecha  por  la  foima  exótica  dei  nombre  dei  inhumado  y  por  los 
triviales  errores  de  la  conocidíssima  fórmula  final. 

Lu  Palma  de  Cadiz,  n.  27.533,  dcl  2  de  Junio  de  1887  : 

«Se  ha  descubierto  una  tumba  marmórea  en  perfecto  estado  de 
conservacion  en  el  derribo  de  un  edifício  ai  sitio  Uamado  antiguamente 
Pnnfa  de  las  Vacas  y  hoy  Punia  de  la  Vaca.  Es  como  de  dos  metros 
de  longitud.  Sobre  la  tapa  —  de  marmol  blanco  tambien  como  el  sc- 
l)ulcro  —  hay  una  figura  yacenie  con  la  cabeza  bacia  la  parte  dei 
Oeste,  cual  si  mirase  á  la  de  Levante.  Eslá  con  la  misma  orientacion 
que  dos  sepulcros  aiitiguos  descnbiartos  ha  unos  dos  meses...  Den- 
tro dei  sepulcro  se  hallaron  pequenos  fragmentos  de  una  cajá  de  ce- 
dro, en  que  debió  estar  encerrado  el  cadáver.  Los  huesos  son  como 
de  una  persona  de  sesenta  anos,  segun  la  opinion  de  dos  distinguidos 
profesores  de  medicina.  No  babia  dentro  de  la  tumba  ni  de  la  cajá 
objecto  alguno,  que  acompanase  aquellos  restos,  salvo  un  deteriorado 
basilo  de  barro,  que  debia  conlener  perfumes... 

«En  los  terrenos  de  la  Esposicion.  En  la  manann  de  ayer  con  una 
Iluvia  bastante  inerte  se  procedió  á  levantar  la  lapa  dei  sepulcro  de 
marmol  descubierto  en  los  terrenos  de  Ia  Esposicion...  Despues  de 
levantada  la  tapa  se  estuvo  recogiendo  lodos  los  huesos  con  suma  mi- 
nuciosidad,  siendo  encerrados  en  una  cajá  construída  aí  efeclo.. .  se 
encontraron  dos  pequenos  clavos  de  cobre.» 

La  apertura  dei  sarcófago  se  verifico  pnes  el  1.°  de  Junio  de  1887 
ciiando  aun  no  bacia  dos  dias  de  su  descnbrimiento.  Si  no  se  cono- 
ciera  la  manera  atropellada  con  que  se  confecciona  cierto  género  de 
periódicos,  Mamaria  la  atcncion  qne  en  el  mismo  número  de  la  lan 
cilada  publicacion  diária  de  Cadiz  se  diga  en  la  tercera  columna  de 
la  priínera  plana  que  se  halló  dentro  dei  sarcófago  solo  un  deteriorado 
vasilo  de  barro  y  en  Ia  segunda  cohunna  de  la  tercera  plana  qne  uni- 
camente se  encontraron  dos  pequeíws  clavos  de  cobre,  de  los  que  no  se 
habló  antes,  como  ahora  nada  se  dice  de  ningun  objeto  de  cerâmica, 
y  eso  que  la  aludida  seginida  nota  parece  esti-aciada  dei  acta  de 
apertura  dei  arca  de  marmol.  Conforme  he  dejado  indicado  y  segun 


KEVISTA   ARCHEOLOGICA  43 


mc  reitero  d  arquileclo  director  de  todos  aqiiellos  trabajos,  con 
los  restos  dei  iiiliinnado  eri  el  sarcófaga)  se  encoiilraroti  dos  pequenos 
ciavtjs  de  cobre  y  uii  tarrito  de  barro  algo  roto.  (^oino  aquellos  no 
eran  bastantes  para  armar  la  cajá  de  cedro  que  segun  se  indica  de- 
bió  contener  imediatamente  el  cadáver,  es  de  suponer  que  algunos 
oiros  se  perdiesen  con  el  polvo  á  que  se  liabian  reducido  ia  madera 
y  los  vestidos  dei  difunto. 

La  Palma  de  Cadiz,  n.  27.534,  dei  3  de  Junio  de  1887: 
«Sepulcro.  Se  ha  bailado  uno  en  la  Punta  de  la  Vaca.  No  es  de 
importância.   Estaba  forrado  de  barras  gruesas  de  barro  cocido;  los 
huesos  se  encontraban  en  malisimo  estado.  No  ha  parecido  inscripcion 
alguna.» 

De  este  sepulcro  nadie  me  dió  noticias,  cuando  visite  el  lugar  de 
los  descubrimientos,  apesar  de  la  rareza,  para  mi  desconocida,  de  es- 
tar forrado  de  <j mesas  barras  de  barro  cocido. 

Fijados  los  antecedentes  que  precedeu  con  toda  esactitud  posible 
resta  determinar  á  que  periodo  dei  arte  antiguo  corresponde  el  sar- 
cófago de  Cadiz.  Careciendo  de  todo  epígrafe  que  pudiera  determinar 
su  fecha,  es  fuerza  proceder  à  la  comparacion  con  su  similar  de  Sayda 
y  con  otros  de  igual  procedência  y  tambien  anlropoides,  aunque  sin 
leyendas,  conservados  igualmente  en  el  Louvre.  prescindiendo  de  las 
Gajas  de  iMomias  egipcias  de  que  se  ven  repetidos  egemplares  en  los 
Museos  de  Itália,  de  Áustria,  de  Alemania  y  de  Francia. 

El  ilustre  duque  de  Luynes  ha  publiccdo  hace  mas  de  30  anos  una 
erudita  Memoria  sobre  el  sarcófago  ij  la  inscripcion  funerária  de  Es- 
munazar  reij  de  Sidon,  monumento  que  habia  adquirido  y  destinado 
ai  antes  citado  Museo  dei  Louvre  *.  Describiéudolo  dice  que  es  de 
basalto  negro...  «de  esa  forma  peculiar  á  las  cajás  de  momias,  es 
decir  oblongo,  como  un  cuerpo  envuelto  hasta  el  cuello  con  un  grueso 
bendage,  dejando  solo  ai  descubierto  la  cabeza,  esculpida  con  su  an- 
cho tocado,  su  barba  trenzada  y  recta,  llevando  un  rico  y  ancho  coUar 
en  relieve  á  cada  una  de  cuyas  estremidades  se  encuentra  la  cabeza 
de  un  gavilan  sagrado,  como  se  ven  con  frequência  en  el  cuello  de 
las  momias  egipcias.  El  caracter  de  la  tapa  de  este  ataud  y  su  forma 
general,  ancho  en  proporcion  de  su  longitud  y  de  un  grueso  conside- 
rable,  lo  asemejan  singularmente  á  los  que  se  encuentran  en  Egyplo, 
y  cuyo  uso  fue  adoptado  lo  mas  tarde  bajo  la  dinastia  decima  nona. 
Pêro  en  lugar  de  estar  adornado  de  geroglilicos  lleva  este  sarcófago... 
en  casi  toda  su  cubierta  una  inscripcion  en  veinle  y  dos  renglones  es- 
crita en  caracteres  feniciosos  gravados  en  hueco,  perfelamente  con- 


1  Luynes,  Mémoire  sur  íe  sarcophage  et  Vinscriptioii  funeraire  dEsmunezar  roi 
de  Sidon.  Prefacc,  vi. 


44  RKVISTA   ARCHEOLOGICA 

servados  y  tanto  mas  bellos  ciianto  que  las  letras,  que  tienen  una 
forma  análoga,  apareceu  cuidadosamente  trazadas  para  no  ser  con- 
íundidas. . .  Las  dimensiones  dei  alaud  sou  de  dos  metros  cuarenta  y 
cinco  centimetros  i)or  uu  metro  cuarenta  centimetros.»  ' 

Respeclo  la  íecha  eu  que  debió  ser  esculpida  la  cubierla  de  este 
monumento  sepulcral,  despues  de  examinar  el  sábio  duque  el  estilo  de 
la  inscripcion  '^,  su  paleografia  y  sus  giros  gramaticales  ^  pasa  á  con- 
siderar los  caracteres  de  la  escultura,  indicando  que  para  determinar 
la  época  á  que  peilenecia  «el  documento  mas  cierto  era  Ia  forma  dei 
sarcófago  que  fue  la  misma  adoptada  eu  Egipto  desde  el  íinal  de  la 
dinastia  decima  nona  basta  la  vigésima  sesta  *,»  anadiendo  el  hecbo 
capital  que  «ires  sarcófagos,  encontrados  eu  las  imediacioues  de  las 
grandes  pirâmides  y  que  babian  conteuido  las  momias  de  personas  de 
la  familia  de  Amasis,  eian  exactamente  dei  mismo  estilo  y  de  la  misma 
forma  que  el  de  Esmunazar,  cuya  idenlidad  no  era  casual,  por  mas 
que  los  fenícios  no  imitarau  sino  dentro  de  ciertos  limites  los  usos, 
la  escultura  y  los  rilos  de  los  Egípcios  contemporâneos»,  concluyendo 
por  íijar  en  la  segunda  mitad  dei  siglo  sesto  antes  de  J.  C.  la  fecba 
de  la  tumba  dei  rey  de  Sidon  ^. 

Los  redactores  dei  Cuerpo  de  inscripciones  semiticas,  ai  discurrir 
sobre  la  fecba  probable  de  la  tumba  de  Esmunazar,  sientan  como 
acceplado  ai  presente  por  los  egipliólogos  que  el  sarcófago  de  este  rey 
de  Sidon  fue  labrado  en  Egipto  en  piedra  dei  pais,  de  donde  se  llevó 
á  la  dicba  capital  de  la  Fenicia,  no  faltando  quien  conjecture  que  la 
tapa  en  la  parte  que  corresponde  ai  pecho  tuvo  uu  tiempo  gra- 
vada alguna  leyenda  geroglifica.  Alirman  en  seguida  que  á  no  dudarlo 
la  forma  y  el  género  de  escultura  de  este  sepulcro  son  de  uu  periodo 
no  muy  anterior  á  Alejandro  Magno,  es  decir  de  los  íines  dei  quinto 
á  principies  dei  cuarto  siglo  antes  de  J.  C,  anadiendo  que  no  seria 
de  estrafiar  que  algiin  dia  se  probara  que  Esmunazar  fue  posterior  a 
Alejandro  el  grande  ^.  En  el  mismo  libro  se  hace  referencia  à  otros 
sarcófagos  ávOcr,)7:cct^£í;  bailados  tambien  en  la  Fenicia  y  conservados 
igualmente  eu  el  mismo  IMuseo  dei  Louvre.  sin  inscripcion  alguna  ^,  y 
de  uno  encontiado  eu  la  uecropolis,  donde  apareció  el  tau  citado  de 
Esmunazar,  en  el  que  la  estatua  yacente  re[)resentando  ai  difunlo  le- 
nia esculpido  los  brazos,  siendo  de  fecba  antiquisima  *. 

Distinguidos  arqueólogos  esploradores  de  aquellas  lejanas  regiones 


1  Ibidem.,   ]).    l  \  2. 

2  IJiidnii,    \\.  í)7. 

^  Ihhlem,    p.  GOyCI. 
•''  Ihiflrm,    \).  (52. 
ã  Ibidem,    p.  ()2. 
G  C.I.S.,\.\s.  20. 

7  C./..S.,i,p.    8. 

8  C./.S.,i,p.    8. 


REVISTA    AliCUEOLOGICA  45 

lian  pueslo  de  maiiiíieslo  que  los  mas  anliguos  fenícios  sepullaban  sus 
cadaveies  eii  sarcófagos  aiiiropoidcs,  encerraiidolos  en  liipogros  de  mas 
6  menos  eslension,  de  los  (|ue  se  encuenlr.-in  icpelidos  rtíslos  en  las 
costas  de  ia  Siria  '.  One  las  antifiuisinias  cuidades  de  la  Fenícia  y  los 
mas  viejos  nionunientos  de  aijiiel  puel)lo  eslaban  conslniidos  á  la  ma- 
nera  ciclopea  con  inmensas  i)iedias  sin  iabrar,  que  se  Irocaron  luego 
por  grandisimos  sillares  Irabajados  á  escuadia  -.  Que  los  arquitectos 
fenícios  no  iiicieron  olra  cosa  que  copiar  la  manera  de  construir  de 
los  b^gi[)cios,  levantando  pesados  edifícios  aunque  no  tan  colosalcs  como 
los  de  las  comarcas,  que  fecunda  el  Nilo  ^  y  por  último  que  los  es- 
cultores de  la  Fenícia  crearon  un  arte  híbrido,  que  á  veces  lenia  los 
caracteres  dei  egípcio  \  como  en  vários  monumentos  de  liiblos,  y  otras 
los  dei  Asirío,  como  en  las  últimas  estatuas  descubierlas  en  Chipre  '•'. 

Cuíuido  se  considera  con  detencion  los  hábitos  y  la  manera  de  ser 
de  esos  mismos  Fenícios,  á  qnienes  cupo  el  cumplir  una  mision,  puede 
decirse  providencial,  en  el  mundo  anlíguo,  respecto  de  las  diversas 
razas  que  moraban  en  las  estensas  playas  mediterrâneas,  se  comprende 
muy  luego  como  siendo  esencíalmenle  raarinos  y  negociantes,  ni  la 
literatura  ni  las  artes  los  preocupasen  gran  cosa,  sino  en  tanto  que 
podian  contribuir  á  facílitarles  los  médios  de  hacer  mas  productivo 
su  comercio.  Por  ello  tomaron  de  los  Egípcios  el  alfabeto  hierálico, 
mas  cómodo  que  el  geroglííico  y  que  el  cuneiíbrme  para  redaclar  las 
transacciones  mercantíles,  asi  como  tambien  adoptaron  la  manera  de 
edificar  igualmente  de  los  Egípcios,  que  prestaba  estremada  seguridad 
y  gran  solidez  á  los  almacenes,  donde  guardaban  los  efectos  que  iban 
á  espertar  y  los  que  traian  de  retorno.  Por  semejante  motivo  no  se 
cuídarou  de  crearse  un  arte  escultural  propio  y  peculiar  de  ellos 
mismos,  sino  que  encontraron  mas  cómodo  y  hasta  práctico  el  imitar 
los  modelos  de  sus  vecínos  dei  Egipto  y  de  la  Asiria,  modificándolos 
á  su  talante,  porque  no  fueron  realmente  artistas  de  vocaciou,  sino 
fabricantes  de  objectos  de  arte  para  dentro  y  fnera  de  su  território  ^. 

Los  cartagineses  se  mostraron  aun  menos  dados  ai  estúdio  de  la 
escultura,  ni  de  la  arquitectura,  asi  es  que  ni  erigíeron  estatuas,  que 
fueran  tolerables,  ni  levantaron  edifícios  de  algnna  importância,  ni 
aun  siquiera  snpieron  acufiar  las  monedas  mas  bellas  de  que  se  ser- 
vieron  hasta  que  los  griegos  no  le  revelaron  como  se  esculpian  aqnel- 
las,  de  que  modo  se  construian  estos  y  porque  procedimentos  se  ba- 
tian  las  piezas  amouedadas,  con  tipos  y  símbolos  tan  esbeltos,  en  tanto 


1  De  Voguó,  Vuyaiie  eu  Orieut.  Paris,  l8oo.  p.  i:\,  29  y  33. 

2  Ibidem,  p.  39  á  4o. 
^  Ibidem,  p.  53. 

^  C.  /.  S.,  I,  p.  -2  y  tab  i. 

5  Bayet,  Precis  d'histoire  de  Vart.  Paris,  1886,  p.  38;  Vogue,  Voyage  en  Qrient. 
p.  55  á  59. 

••  Clerinont-Ganneau,  L'magerie  phénicienne.  Paris,  1880. 


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que  la  tal  gente  púnica,  apenas  parando  mientes  en  semejantes  pri- 
mores, solo  atendia  á  estender  sii  comercio  por  tierras  y  por  mares, 
sosteniendo  dilatadas  y  sangrientas  guerras,  por  conservar  la  pose- 
sion  de  las  regiones,  cuyas  riquezas  esplotaban. 

Ahora  bien,  volviendo  á  examinar  detenidamente  el  sarcófago  ga- 
deritano,  es  preciso  ante  todo  tener  en  cuenta  que  la  estatua  yacenle 
esculpida  á  lo  largo  de  su  tapa  no  ap  irece.envuelta  en  anchas  fajas 
de  tela,  que  la  ciueran,  de  modo  que  los  pies.  Ias  manos  y  los  bra- 
zos  quedasen  ocultos,  dando  á  los  contornos  de  la  figura  la  dureza 
de  las  lineas  rectas,  como  á  los  cadáveres  embalzamados  y  transfor- 
mados en  momias  por  el  antiguo  procedimento  egipcio.  Por  el  con- 
trario la  diclia  escultura,  ofrece  á  la  vista,  Irazadas  en  el  marmol  las 
suaves  ondulaciones  de  las  curvas  dei  cuerpo  humano,  que  aparece 
velado  por  una  túnica  ligera,  que  deja  conocer  los  contornos,  y  pre- 
senta  ai  descubierto  parte  de  los  brazos,  las  manos  y  el  estremo  de 
los  pies,  lo  cual  se  aparta  de  los  conocidos  cânones  técnicos  de  la  es- 
tatuária sepulcral  dei  Egipto.  Ni  menos  se  asemeja  esta  obra  de  arte 
à  las  esculturas  asirias,  en  las  que  ademas  de  ia  pesadez  dei  traje, 
aparece  constantemente  un  amaneramiento  tipico  en  el  rizado  de  la 
cabellera  y  de  la  barba  que  cae  simetricamente  en  compactos  lirabu- 
zones  sobre  el  cuello  la  una  y  sobre  el  pecho  la  otra,  formando  un 
conjunto  antieslélico  en  fuerza  de  ser  tan  armònico.  Mas  bien  trae  á 
la  memoria  el  personòge  púnico  que  describe  Silio  Itálico  en  el  tem- 
plo gaditano  de  Hercules  con  túnica  de  Uno,  locado  egipcio,  descefíido, 
y  desnudos  los  pies,  si  bien  no  aparece  con  el  pelo  cortado  *,  sino  cui- 
dadosamente arreglado  sobre  la  frente,  reposando  suavemente  la  barba 
sobre  el  pecho,  no  à  la  manera  que  acostumbraban  á  egecutarlo  los 
artistas  de  los  Pharaones  ni  lo  de  los  monarcas  Ninivitas,  sino  tal 
como  los  griegos  solian  modelar  en  la  piedra  los  tipos  que  escultura- 
ban,  aunque  personificasen  en  ellos  algunos  de  sus  heroes  en  los  mo- 
mentos dei  mas  empenado  combate. 

A  este  propósito  es  preciso  no  perder  de  vista  que  fueron  grava- 
dores griegos  los  que  en  la  Sicilia  y  en  la  Hispânia  modelaron  y  acu- 
naron  las  monedas  de  Cartago  y  los  que  abrieron  los  troqueles  para 
batir  el  mas  antiguo  monedaje  púnico  de  Gadir,  hacia  el  ultimo  ter- 
cio  dei  siglo  tercero  anterior  á  J.  C.  como  á  las  claras  lo  revelan  la 
csbeltez  y  la  elegância  de  las  divinidades  que  en  ellas  aparecen  es- 
culpidas ^,  con  el  perfil  perfectamente  helénico. 

Mucho  antes  de  esta  época  y  â  causa  de  las  Inchas  de  los  africa- 
nos contra  los  griegos  comenzaron  á  estar  en  contacto  Cartago,  Sira- 
cusa y  Gadir,  tanto  mas  cuanto  que  no  bien  perdió  Tyro  su  autono- 


1  Sil.  Ital.,  Punic.  in.  v.  2't  á  28. 

2  Miiller,  Nnmismatique  de  Vuncicnne  Afrique,  ii,  p.  107;  Berlanga,  Los  Bromes 
de  Lascuta  Bonanza  y  Aljustrel,  p.  388. 


REVISTA   ARCllEOLOGICA  47 

mia  en  574  antes  de  J.  C.  los  Turdelaiios,  lai  vez  á  exilacion  dei  ele- 
iiieiiU)  helénico  que  á  juzgar  por  lo  (jue  dice  Slrabon '  de  liempo  alras 
ocupaba  eslas  re{,'iones,  uiovieron  cruda  guerra  á  los  de  (iadir,  (juie- 
nes,  cuando  viciou  agotados  lodos  los  elemenlos  de  defensa,  con  que 
conlabau,  acudierou  eu  demanda  de  auxilio  á  (^arlago,  que  se  lo  olorgó 
pronlanienle,  mandando  en  su  soccorro  un  cuerpo  de  Iropas,  que 
puso  lermino  â  la  lucba  empenada,  acaso  ai  lerminar  el  mismo  siglo 
seslo,  porque  reliere  Oiodoro  Siculo  '^  que  anles  de  mediado  el  se- 
guienle,  en  iOO  anles  de  J.  C.  invadió  Ilamilcar  I  la  Sicilia  ai  íVenle 
de  un  ejercilo  carlagines,  de  que  lormaba  parle  ima  division  com- 
puesla  de  Iberos,  reclulados  en  la  Hispânia.  Por  esle  liempo  es  muy 
posible  que  se  escullurase  el  sarcófago  gaderitano,  segun  opina  el  dis- 
tinguido profesor  Uiibner,  lan  profundo  conocedor  dei  arle  clasico, 
quien  eslima  que  aquella  escultura,  egeculada  en  el  mas  puro  estilo 
arcaico,  puede  ser  como  dei  quinto  siglo  antes  de  J.  C.  ^.  Aceplada  esta 
conjectura  lo  primero  que  se  ocurre  es  la  duda  sobre  la  nacionalidad 
dei  que  labró  la  lapa  de  aquel  sepulcro,  que  desde  luego  puede  afir- 
marse  no  fue  ibero  ni  púnico,  porque  ni  en  lan  remoto  liempo  ni 
muclio  despues  moslraron  aqucllos  ni  estos  grandes  aptitudes  artísti- 
cas à  juzgar  por  las  toscas  piezas  monelales  de  las  prostreras  emi- 
siones  de  Malaca,  vaciadas  en  moldes  abierlos  por  los  indígenas  ai 
mediar  el  primer  siglo  anterior  à  J.  G.  *,  y  por  las  losquisimas  esteias 
votivas  descubierlas  en  el  recinto  de  la  anligua  Cartago,  que  acusan 
un  arle  lan  rudimenlario  como  inmovilizado''.  Como  quiera  que  re- 
fiere  Heródoto*',  que  seis  siglos  antes  de  J.  C.  los  Plioceos  liabian 
venido  á  visitar  el  território  de  Tarteso,  bien  pudo  ser  griego  el  es- 
cultor que  dió  la  vida  que  tiene  semejanle  marmol,  tanto  mas  cuanto 
que  la  manera  como  eslan  representadas  aquellas  facciones  y  sobre 
todo  la  barba  traen  á  la  memoria  numerosas  estatuas  conservadas  en 
los  mas  importantes  Museos  de  Europa,  debidos  ai  cincel  helénico. 
Pêro  nada  se  opoue  lampoco  á  suponer  que  el  artifice  fuera  venido 
el  inhumado,  mas  que  á  los  escasos  restos  que  se  conocen  dei  arte 
de  las  costas  de  la  Siria,  y  como  quiera  que  la  cabeza  que  representa 
fenicio,  se  asemeja  á  los  dei  griego,  debe  suponerse  que  quien  la  es- 
culpió  debió  haber  frecuentado  los  lalleres  de  los  escultores  de  la 
Grécia,  estudiando  sus  modelos  y  procurando  imitarlos. 

Surge  luego  otra  segunda  duda  y  es  la  de  quién  pudo  ser  el  pe- 
sonage  con  tanto  cuidado  encerrado  en  una  cajá  de  cedro  primero, 
metido  luego  en  otra  de  marmol  y  colocado  por  ultimo  dentro  de  un 


1  Strab.,  III,  IV  3. 

2  Diod.  Sicul.,  11,  1. 

3  Woclwischrifl  litr  Klasaiche  Philologie.  Berlin,  1887. 
*  Berloiiíja,  Iludem,  p.  390. 

^  C.  I.  S..  I,  lai).  xLiii  y  siguientes. 
6  Herod.,  i.,  163  à  165. 


48  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

sólido  sepulcro  de  piedra,  y  que  tanto  era  dable  que  fuese  un  opu- 
lento negociante  tirio,  como  \m  egrégio  prócer  cartaginês.  El  ilustrado 
profesor  Iliibner  se  decide  por  lo  primero  mientras  por  mi  parte  me 
inclino  mas  á  lo  segundo  inducido  por  la  corona  de  laurel,  que  lauto 
cuadra  con  ia  vida  liazanosa  de  un  guerrero  púnico,  repugnando  á 
los  hábitos  tranquilos  de  un  comerciante  fenicio.  Desgraciadamente 
la  falta  de  toda  Icyenda  sepulcral  impide  que  se  paeda  conocer  cual  de 
los  dos  está  eu  lo  cierto. 

La  tumba  imediata  cá  la  eu  que  se  ba  descubierto  el  sarcófago  de 
marmol,  de  que  acabo  de  bablar,  á  juzgar  por  los  restos  de  armas 
de  bierro  y  mas  aun  por  el  collar  de  huesos  encontrado  en  ella  y  que 
bubo  de  usarse  como  adorno,  acaso  estuviera  ocupada  por  el  pode- 
roso gefe  de  alguna  banda  ibera,  aliada  de  los  cartagineses. 

La  tercera  sepullui'a,  donde  aparecieron  el  anillo,  de  procedência 
conocidamente  asiática,  y  el  collar  con  cuentas  de  oro  y  de  ágata,  aten- 
dido el  esqueleto  en  ella  conservado,  debió  haber  guardado  los  restos 
de  la  muger  dei  gefe  ibero  antes  aludido,  unidos  ambos  con  grandes 
vínculos  de  afecto  ai  prócer  fenicio  ó  púnico,  encerrado  en  el  arca 
antropoidc  de  marmol  blanco.  Asi  se  esplica  bien  que  solo  se  hayan 
encontrado  estos  trcs  sepulcros  reunidos,  abiertos  en  la  piedra  caliza 
de  aquella  colina  aislada,  lioy  desaparecida,  y  cubiertos  con  el  mismo 
monliculo  de  arcilla  impermeable. 

Por  los  descubrimientos  bechos  parece  probable  que  á  la  distan- 
cia de  treinta  melros  de  estos  sepulcros,  en  direccion  á  la  plaza  y 
donde  aparecieron  las  lápidas  sepulcrales  de  los  ninos  de  que  antes 
me  he  ocupado,  deba  enconlrarse  la  necrópolis  romana  gaderitana, 
sin  que  pueda  conjelurarse  que  estuviesse  tambien  por  alli  la  fenicia, 
ni  la  púnica,  solo  por  el  sarcófago  encontrado;  porque  como  se  ha  re- 
pelido, hallabase  este  aislado  con  los  oiros  dos  delas  Iribules  indígenas, 
en  un  silio  elevado  y  á  mas  altura  que  el  suelo  actual,  sin  que  ai  des- 
montar y  allanar  el  terreno  à  Ia  redonda  se  hubiese  dado  con  alguna 
otra  cosa  análoga  sino  parecida. 

Del  sarcófago  gaderilano  se  ha  sacado  un  modelo  en  lamano  re- 
ducido,  dei  que  se  ha  hecho  un  molde,  sobre  el  que  se  han  vaciado  en 
yeso  vários  ejemplares,  uno  de  los  cuales  he  debido  á  la  amabilidad 
dei  actual  Presidente  de  la  Dipulacion  provincial  de  Cadiz,  á  quien 
agradeci  infinito  obsequio  tau  inesperado  como  espontâneo.  Siento 
vivamente  que  nada  me  autorize  para  rogarle  que  ordenase  bacer 
una  cromolitografia,  que  represente  el  sarcófago  y  los  objetos  en- 
contrados en  aquellas  Ires  tumbas,  es  decir  el  pequeno  tarro  roto  de 
barro  y  los  dos  clavos  de  bronce,  los  restos  de  armas  y  el  collar  de 
hufíso,  el  anillo  //  el  collar  de  oro  y  ágata,  con  escrupulosa  precision 
copiados  y  marcando  sus  verdaderas  dimensiones.  Asi  como  que  hiciera 
publicar  una  descripcion  detallada  dei  hallazgo,  con  planos  dei  ter- 
reno, croquis  de  la  posicion  esacta  de  las  três  tumbas,  las  fechas  íi- 


líEVISTA   AUCIIEOLOGICA  49 

jas  en  quo  se  cnconlriirnn,  la  indic.icion  de  los  materiales  y  de  la 
manera  como  eslabaii  coiislruidas  las  sL'[)ulluras,  coii  la  corres[)on- 
diente  folograíia  de  los  Ires  craneos ;  lodo  ello  redaclado  por  el  ar- 
quitecto (jiiti  dirigiu  las  escabaciones,  qiie  á  sii  competência  técnica 
reúne  el  tener  los  datos  Fiecusarios  ai  efecto.  De  ese  mddo  I(js  an- 
tropólogos, como  ya  ha  notado  lamhien  el  professor  lliibner,  y  los  ar- 
queólogos clásicos  podrian  determinar  con  precision  los  caracteres 
craíiianos  de  las  razas  de  los  inhumados  y  clasiíicar  con  esactitud  la 
cerâmica,  las  armas  y  las  joyas  en  semej antes  tumbas  descubiertas. 
La  rologialia  (pie  se  ha  sacado  dei  sarcófago  dista  mucho  de  cor- 
responder á  la  importância  dei  monumento,  siendo  por  otra  [)arte  im- 
prescindible  olvidar  por  com[)leto  los  primeros  estúdios  que  un  eru- 
dito gaditano  ha  consagrado  ^  á  la  poética  inscripcion  dei  sepulcro  de 
los  dos  nihos.  que  fueron  hermanos.  Festiva  y  Sodal,  que  el  delicado 
humanista  califica  de  csvrilo  cu  mal  latiu  //  pésimns  versos,  asi  como 
los  (jue  ha  dedicado  á  ilustrar  el  sarcófago,  ciiya  estatua  yacente  ase- 
gura  que  es  la  efígie  de  un  arúspice  gaditano,  ahadiendo  que  todo  el 
caracter  de  la  cabeza  pertenece  ai  arte  romano,  y  concluyendo  con  la 
desconsoladora  frase  de  que  no  puede  haber  duda  vi  opiuion  en  el  asun- 
to;  aí  menos  con  razoues  arqueológicas,  que  verdaderameule  lo  sean, 
pnes  cuantas  personas  inteligfutes  e.vamiuen  el  sepulcro  diran  lo  mismo 
que  ha  dicho  tan  benévolo  como  modesto  critico. 

Málaga,  18  Diciembre  1887. 

Dr.  Berlanga. 


Em?,.A.T.A. 


Vá^.  47  la  linea  32  que  empieza — el  iiilmaiado  —  debo  oslar  domlc  la  33  que  co- 
mienza  —  de  las  costas — y  esta  pasar  á  ocupar  el  lugar  de  aquella,  por  haberse  tro- 
cado inadvertidamente  en  la  iniposicion. 


1  La  Palma  de  Cadiz,  de  1."  de  Mayo,  2  y  3  de  Jiinio  de  1887. 
Rev.  Arch.  e  Hist.,  I,  N.°  4— Abril  1888. 


50  REVISTA   ARCHEOLOGICA 


UMA  INSCRIPÇÃO  LUSO-ROMANA  DE  PANOIAS 


Nnma  excursão  que  fiz  em  Tras-os-Montes  em  Janeiro  d'esle  anno, 
encontrei  nas  celebres  ruinas  de  Panoias,  perlo  de  Villa  Real,  uma 
pedra  de  granito,  onde  depois  de  algum  traballio  consegui  ler  a  se- 
guinte inscripção  funerária,  que  julgo  ainda  inédita : 


d    M     S  [-0(í75)]   Mianibiis)  S{acriim). 

/LAVIO         \_F\lavio  Albino  Mcixvmina  vxor 
ALBINO        pi[i\ssima... 
MAXV 
MINA 

VXORPI  Consagração  aos  deuses  dos 

I  3SIMA        mortos.  A  memoria  de   Flávio 
Albino  erigiu  este  monumento 
sua  affectuosissima  mulher  Maximina. 


A  pedra  tem  de  comprimento  uns  5  palmos  e  2  poUegadas,  e  de  lar- 
gura 1  palmo  e  2  pollegadas,  e  eslá  aífeiçoada  para  se  poder  enterrar 
a  pino  até  certa  altura,  tí  possível  que  a  baixo  da  inscripção  transcripla 
houvesse  ainda  algumas  letras,  mas  não  as  pude  ler,  nem  lambem  os 
vestígios  me  pareceram  claros.  A  pedra  havia  apparecido  ha  pouco  ao 
lavrarem  ou  cavarem  um  campo. 

O  texto  não  offerece  nada  digno  de  nota  senão  a  forma  Maxumina 
por  Maximina.  Com  quanto  seja  a  primeira  vez  que  tal  forma  appa- 
rece  numa  inscripção  da  Lusitânia,  todavia  Iliibner  traz  como  da  pe- 
nínsula Maxumiis  e  Maxsumus,  Maxsuma  e  Maxuma,  e  mesmo  Ma- 
xumimist,  exemplos  perfeitamente  comparáveis  a  Septnmns  e  Opíumus 
lambem  das  inscripções  peninsulares.  São  conhecidos  exemplos  seme- 
lhantes noutros  pontos  do  dominio  do  latim. 

Ao  meu  presado  e  intelligente  amigo  o  dr.  Alexandre  Cabral,  muito 
digno  governador  civil  de  Villa  Ueal,  pedi  a  graça  de  mandar  recolher 
aquelle  pequeno  monumento  em  local  onde  se  não  extravie. 

Lisboa,  22—3—88. 

J.  Lkitk  de  Vasconcellos. 


REVISTA  ARCHEOLOGICA  51 


SEPULTURA  DE  D.  ORRACA  PAES 
ABBADESSA  DE  ODIVELLAS 

Fundado  em  120.*;  o  Mosteiro  de  Odivellas,  foi  nomeada  sua  pri- 
meira abbadossa  D.  Klvira  Fernandes,  que  era,  ao  que  parece,  freira 
do  convento  de  S.  Bento  dEvora,  e  cuja  assignatura  se  encontra  nas 
constituições  e  carta  de  dotação  do  mosteiro,  que  teem  a  data  de  127 
de  fevereiro  do  apontado  anno.  \  esta  seguiu-se  a  abbadessa  D.  Con- 
stança Lourenço,  religiosa  de  Arouca,  a  qual  era  (ilha  de  D.  Lourenço 
Soares  de  Valladares  e  de  sua  mulher  U.  Sancha  Nunes  de  Chacim, 
da  melhor  nobreza  de  Portugal  e  Castella.  Parece  que  nestes  princí- 
pios do  mosteiro  houve  ainda  outra  abbadessa,  também  do  nome  de 
Constança,  pertencente  á  familia  de  Porlocarreiro  e  dos  Gedeãos,  con- 
forme diz  o  Livro  das  Liitharjens  '.  Destas  Ires  abbadessas  nada  mais 
se  sabe.  "O  seu  governo  occupou  o  lapso  de  tempo  que  decorreu  desde 
27  de  fevereiro  de   1:295  até  agosto  de  LHO,  como  adiante  se  verá. 

A  quarta  abbadessa  de  Odivellas  (se  é  verdadeira  a  asserção  do 
Livro  das  Linhagens,  quanto  à  segunda  D.  Constança)  foi  D.  Órraca 
Paes,  filha  de  Payo  de  Molles  Corrêa  e  de  sua  mulher,  a  qual  era  fi- 
lha de  Martim  Copeiro,  que  foi  copeiro  de  D.  Alfonso  III.  Por  seu  pae 
descendia  de  D.  Fstevam  Pires  de  Molles  e  de  D.  Orraca  Pires  Cor- 
rêa. Teve  D.  Orraca  Paes  três  irmãs.  De  duas,  cujos  nomes  se  igno- 
ram, sabe-se  apenas  que  foram  abbadessas:  uma  do  mosteiro  de  Vai- 
rão;  a  segunda  do  de  Yilla-Cova.  A  outra,  por  nome  D.  Dordia  Paes, 
foi  commendadeira  de  Santos  da  ordem  de  Santiago.  «No  anno  de 
1309.  (diz  fr.  Francisco  Brandão)  sendo  Comédadeira  do  mosteiro  de 
Santos  D.  Teresa  Annes  Corrêa,  i!t  Abbadessa  de  Loruão  D.  Cõstança 
Soares,  se  íizerão  as  partilhas  entre  D.  Dordia  freira  de  Sãtos,  d  sua 
irmãa  D.  Orraca  mõja  de  Loruão,  a  escriptura  das  quaes  se  cõserua 
no  cartório  desta  casa.  Tinhaõ  parentesco  pelos  Corrèas  cõ  D.  Teresa, 
á  a  este  respeito  tomou  o  habito  em  Santos  D.  Dordia,  A-  foi  depois 
Comendadeira  dos  annos  de  mil  trezètos  à-  vinte  d-  hum  adiante».^ 
Como  se  vê,  D.  Orraca  Paes  era  religiosa  do  antigo  mosteiro  de  Lor- 
vão; dalli  passou  com  outras  companheiras  para  o  de  Odivellas.  Dos 
actos  da  vida  de  D.  Orraca,  pouco  se  sabe;  parece  ter  sido  mulher 
virtuosa,  e  que  procurou  reformar  os  costumes  do  convento  que  regia. 
É  isso  que  se  collige  d'um  instrumento  do  anno  de  1319,  legalisado 
pelo  tabellião  de  Lisboa,  João  Gonsalves.  Nesse  instrumento  obri- 


1  Yej.  Mon.  Liisit.  P.  v,  L.  xvii,  c.  23. 

2  Ibid. 


52  REVISTA  ARCHEOLOGICA 


gam-se  as  religios.is  a  guardar  perpetua  e  voluntária  clausura,  sem 
alheio  conslraiii^iuíeiílo,  liiaiido  todavia  á  abl)adessa  a  faculdade  de 
conceder  entrada  no  niosteiío  a  algumas  damas  de  iiualidade.  Alii 
lambem  declaravam  as  monjas:  «prcimelemos  que  nunca  sayamos 
deste  moesleiro,  nem  liremos  o  pce  pela  porta  da  Igreja,  nem  por 
outra  poria,  nem  por  outro  lugar  tora  do  moesteiri)».  Accrescentavam 
porÍMii:  «E  pedimos  por  mercee  ao  mui  nobre  senhor  dom  denis  pella 
graça  de  deus  Uey  de  porlugal,  d-  do  algarve,  (jue  fondou  c\.-  fez,  ti- 
doulou  este  moesleiro  por  amor  de  diMis,  c\:  por  sa  alma,  d-  abo  ab- 
bade  de  alcobaça,  que  lie  nosso  visitador,  (]ue  elles,  nem  os  que  de- 
pôs delles  veerem.  que  pois  de  nosas  vontades  prouietemos,  &  ou- 
lorgamos  todas  eslas  cousas,  pella  maneira  íjue  diclo  he,  d-  manteello 
assi  peia  sempre,  per  obra  que  elles  nunca  nos  ponham  grade,  nem 
roda,  nem  outro  mayor  encerramento  de  parede,  nem  de  madeiía, 
nem  doutra  cousa  por  que  leixemos  de  ir  aa  egreja,  hu  hade  eslar  o 
moimento  do  dicto  senhor  Rei,  pêra  fazermos  sobr  el  nosas  oraçoões 
e  rogar  a  deus  por  eile».  * 

As  demais  noticias,  que  temos  de  D.  Ori-nca  Paes,  são-nos  mini- 
strada pelo  seu  epilaphio.  de  que  passo  a  occupar-me. 

Exisle  ainda  na  casa  do  (Capitulo  do  mosteiro  de  Odivellas  a  lapide 
sepulchral  de  D.  Orraca.  Ultimamente  as  obras  fei'as  no  edifício,  para 
adaptal-o  a  uma  nova  corporação,  transformaram  em  certo  modo 
aquella  casa,  fazendo  desapparecer  a  porta  de  entrada  que  abria  ao 
centro  da  sua  ala  occidental.  Em  frente  dessa  porta,  hoje  desappare- 
cida,  na  fileira  de  sepulturas  do  lado  opposlo  a  ella,  está  a  de  D.  Or- 
raca. A  lapide  mede  2'", 45  de  comprimento  por  \,^^(i  de  largura,  e 
tem  de  espessura  media  O'", 18.  Vê-se  nella  representada  em  gravado 
a  figura  de  D.  Orraca,  revestida  de  seu  habito,  segurando  com  a  mão 
direita  o  báculo  abbadessal,  insignia  do  seu  cargo,  e  tendo  um  livro 
na  esquerda  que  se  liie  appoia  no  peito.  O  epitaphio  occupa  uma  orla 
da  pedra,  numa  facha  de  O'",06o  de  largo. 

A  figura  da  abbadessa.  que  se  pode  considerar  retrato,  está  per- 
feitamente traçada.  O  rosto  indica  uma  certa  belleza;  a  posição  dos 
braços  e  das  mãos  é  natural;  as  roupagens  estão  bem  dispostas  e  de- 
lineadas, caindo  com  toda  a  naturalidade.  Apenas  a  representação  das 
mãos  deixa  muito  a  desejar:  a  que  segura  o  bacculo  está  mal  contor- 
nada, c  a  que  sustenta  o  livro  apresenta  nm  dedo  indicador  de  ex- 
traordinário comprimento. 

A  inscripção,  que  começa  no  angulo  esquerdo  superior  da  lapide, 
e  vae  acompanhando  os  quatro  lados  d'ella,  como  fica  notado,  diz  o 
seguinte  era  lettras  onciaes  maiúsculas : 


í  L.  11  da  Eslremcuhira,  foi.  582,  no  Arcli.  Nac 


REVISTA    ARCHEOLOGICA  53 

a        a  a  c,  ,     a       a  Efa  1378-p  C.  1*40 

i—\i:  :m  jccc  ;lxxviii  [injvi;-  x  idik;  i\ii:nsis  ;M(AU)Tir: 

2  — OBIITi  VENERAB[1L(IS):]1J(0MI)N[a];0RRA(:A  ;  P1£LA[GI(I)  :• 
(sk)  HEN]EME[r]E(N)S  ;   ABBATISA  ;   MON{ASTERII)  ;   DE  ; 

ODIVELL(IS)  ;  Q(VAE)  Q(V)ID 
(i/c)3  — E(M)  :  ABATISA  ;  ABATISAVIT :  XXIII  :  A[NNIS]  \  ET  \  SE 

(5íc)4— PTEN  ; ME(N)SiB(vs):  IN  DITO  ;mon(ASterio)  íeCtJ;  i[acet ; 
Hi]c  ;SEPVLTA  ;a[n]i[m]a  ;[ei(VS)J  ;  R(EQviescat)  ;• 

IN  :  P(ACE)  ;  AME(N). 

Na  era  de  iSyS,  no  dia  dezeseis  de  março,  falleceu  a 
venerável  Dona  Órraca  Paes,  benemérita  ahbadessa  do 
mosteiro  de  Odivellas;  a  qual  abbadessa  verdadeiramente 
como  tal  governou  durante  vinte  e  três  annos  e  sete  meses 
no  dicto  mosteiro,  e  jaz  aqui  sepultada.  Descance  em  paz  a 
sua  alma.  Assim  seja. 

Na  primeira  linha,  (lesapparei^eram  completamenle  as  leltras  íjiie 
havia  enlro  a  dala  do  atino  e  a  do  mes.  Não  coniiiiuava  alh  a  data  do 
anno  (que,  nesse  caso,  seria  lxx.viii)  porque  no  que  existe  da  pedra 
se  não  vè  vestigio  algum  da  parte  inferior  de  I  única  lettra  numeral 
que  ahi  podia  existir:  iinlandose  pelo  contrario  o  espaço  divisório  de 
palavras.  Por  outro  lado.  não  estava  alli  parte  da  dala  do  dia,  visto 
achar-se  a  dezena  depois  da  unidade.  Do  (|ue  resulta  (jiie  na  parle 
mutilada  da  pedra  houve  a  preposição  in,  de  cujo  emprego  em  casos 
idênticos  se  enconliam  vários  exemplos,  que  considero  desnecessário 
indicar. 

Na  segunda  linha,  tem  ipiatro  lacunas  a  insci-ipção;  os  pequenos 
fragmentos  (jue  restituí  a  seus  lugares,  andavam  dispersos.  Um.  o  de 
DN,  encontrei-o  debaixo  da  metade  superior  da  lapide  no  logar  cor- 
respondente ao  bacculo;  é  sunplicissiina  a  restituição  da  plirase.  O  ou- 
tro, que  tem  em^^,  foi  encontrado  embutido  no  pavimento  do  claustro 
a  três  passos  da  porta  cilada,  deslriiida  hoje.  Creio  (pie  não  pode  ha- 
ver dúvida  (bem  estudada  a  extensão  da  lacuna  e  altendido  o  sentido 
da  inscripção)  em  que  alli  estava  escripto  bencmerens. 

Na  terceira  linha  apparece  o  verbo  abbatisave,  de  pouco  vulgar 
emiirego. 

Falleceu.  pois,  D.  Orraca  Paes,  segundo  o  testemunho  do  seu  epi- 
taphio,  a  Ki  de  março  do  anno  de  Ciiiislo  de  1340,  havendo  gover- 
nado o  mosteiro  durante  vinte  e  três  annos  e  sete  meses;  o  que  de- 
lej^mina  bem  a  epocha  da  sua  eleição  para  abbadessa,  que  assim  deve 
ler-se  eíTeiluado  em  melados  de  agosto  de  1316,  no  dia  10,  se  a  in- 
dicação sete  meses  é  rigorosamente  exacta. 

O  epita[)hio  de  1).  Orraca  é  a  mais  antiga  inscripção  sepulchral  do 
mosteiro  de  Odivellas,  e  sob  lodos  os  pontos  de  vista  a  mais  impor- 
tante de  Iodas. 


54  REVISTA   ARCHEOLOGICA 


Durante  quatrocentos  e  vinte  annos  foi  respeitada  a  sepultura  de 
D.  Orraca  Paes.  isto  é,  até  ao  anno  de  1760.  Mas  nos  vinte  e  nove 
que  decorreram  desde  esta  data  até  178tt,  por  quatro  vezes  foi  er- 
guida a  campa,  para  sob  ella  se  enterrarem  outras  tantas  freiras. 

Em  1700,  faliecendo  a  abbadessa  D.  Theresa  de  Macedo,  as  soro- 
res cistercienses  intenderam  dever  sepultal-a  sob  a  lapide  que  cobria 
as  cinzas  de  D.  Orraca,  e  mandaram  embutir  na  parte  inferior  d'ella 
uma  pequena  lamina  de  mármore  avermelhado,  onde  se  gravou  o  se- 
guinte epitaphio :  * 

Aqui  ias  a  ??2ui7o  relis,\osa  imdre  D.  Teresa  de  Macedo, 
a.quem  a  natvre^a  não  aitara  repartia  pródiga  e  ficov  vfana. 
Falleceo  a  i5  de  ianeiro  de  lyõo. 

No  livro  dos  óbitos  do  mosteiro  diverge  a  data  do  dia,  dizendo  se 
ahi  que  «A  KJ  de  jan."^'^  era  de  1670  Faleceo  iW."  D.  Theresa  de  Ma- 
cedo». Esta  senhora,  cujo  nome  complecto  era  D.  Theresa  Gerarda  Mil- 
les  de  Macedo,  professou  com  sua  irmã  D.  Antónia  no  primeiro  dia  de 
janeiro  de  1724.  Eram  filhas  de  Francisco  Milles  de  Macedo  e  de  D. 
Josepha  Maria  de  Magalhães.  Outras  freiras  houve  em  Odivellas  per- 
tencentes á  mesma  familia. 

Passados  oito  annos  outra  religiosa  alli  foi  sepultada,  em  1708. 
Desta  falarei  adeante  mais  largamente. 

Dez  annos  depois,  outra  abbadessa  foi  enterrada  na  mesma  sepul- 
tura. Foi  D.  Luiza  Antónia  de  Sousa,  filha  de  António  Corrêa  de  Sousa 
e  de  D.  Maria  Rosa  Ayres,  a  qual  havia  professado  em  20  de  março 
de  1710.  O  epitaphio  foi  gravado  no  alto  da  lapide,  á  esquerda  da  figu- 
ra de  D.  Orraca ;  diz  assim  : 

Aqui  ias  a  illustrissima  e  exccWenússlma  senhora  D. 
Liti-fa  Antónia  de  Souja,  abbadessa  que  foi  deste  real  mos- 
teiro 4  annos  2  ine^^es  12  dias.  Falleceo  a  21  de  ianeiro  de 

Finalmente,  passados  onze  annos,  em  1789,  foi  inhumada  naquella 
cova  D.  Luzia  da  Conceição,  filha  do  tenente  coronel  Lourenço  Cor- 
rêa Lisboa  e  de  D.  Maria  dos  Santos,  natural  da  villa  da  Caxoeira, 
comarca  da  Bahia,  a  qual  professou  a  7  de  outubro  de  1730.  Diz  o 
epitaphio,  que  está  gravado,  ao  lado  esquerdo  da  figura  e  no  sentido 
do  comprimento  da  lapide : 


1  Não  se  transcreve  em  fnc-simile  typographico  este  epitaphio,  nem  os  dois  seguin- 
tes, por  se  encontrarem  todos  exactamente  reproduzidos  na  est.  iv. 


REVISTA  ARCHEOLOGICA  55 

Aqvi  ias  a  mui/o  rclif^iozíT  maávc  D.  Liijia  da  Concci- 
cam  cxabbíióci^sa  deste  nioslciro.  Aniov  a  Iodas  com  im\ternal 
caridade;  vivco  com  singular  exemplo  de  ^elo  e  de  santidade, 
e  nela  moreo  aos  23  de  abril  de  /yAVy. 

Não  concorda  lambem  a  cla(a  do  dia  indicado  no  epilaphio  cora  a 
que  se  encontra  no  assento  do  livro  dos  óbitos  ;  neste  se  lè :  lAos 
Dois  de  Abril  de  mil  sete  centos  oiitenta  e  noue,  faleçeo  a  Heli(jiozisima 
M.  e  Snr.''  D.  Luzia  da  Conceição,.  .» 


Vou  agora  occupar-me,  como  promelli,  da  freira  sepnllada  em  1708 
sob  a  campa  de  D.  Orraca  Paes.  Kssa  freira  cliamou-se  U.  Paula  Tlie- 
reza  da  Silva,  geralmente  só  conhecida  pelo  anlonomaslico  de  Madre 
Paula,  e  que  foi  a  amante  favorita  d'el-rei  L).  João  v. 

D.  Paula  Tliereza  da  Silva  nasceu  em  Lisboa,  aos  17  de  junho  de 
•1701,  conforme  consta  do  assento  de  baptismo.  Este  assento  não  é  o 
primitivo,  visto  haverem  ardido  por  occasião  do  terremoto  alguns  li- 
vros do  cartório  da  freguezia  de  Santa  Justa ;  mas  sim  um  assento 
feito  em  17Gá  por  ordem  do  palriarcha,  e  em  presença  duma  certi- 
dão passada  no  mosteiro  de  Odivellas. 

D.  Paula  leve  por  pães  Adrião  d" Almeida  Paulo  e  D.  Josepha  da 
Silva  e  Sousa. 

Pela  linha  paterna,  descendia  d'um  allemão,  como  se  vè  do  seguinte 
quadro  genealógico  elaborado  pelo  sr.  Visconde  de  Sanches  de  Baèna: 

«1  João  Paulo  Brit,  natural  da  Allemanha.  soldado  da  guarda  es- 
trangeira, do  Imperador  Carlos  v;  e  sob  o  titulo  de  Carlos  ni  rei  de 
Hespanha.  Era  filho  de  João  Brit. 

«Depois  de  obter  a  sua  baixa  ficou  residindo  em  Lisboa,  exercendo 
o  oílicio  de  ourives. 

«Casou  em  Lisboa  com  Leonor  d"Âlmeida,  filha  de  Domingos  Ur- 
selo,  natural  de  Nápoles,  de  occupação  embarcadiço,  e  de  sua  mulher 
Domingas  Andrade  Almeida.  Teve 

«2  Adrião  d'Almeida,  que  exerceu  o  oííicio  de  Ourives  do  Ouro, 
como  tmha  feito  seu  pai. 

«Teve  o  habito  de  Christo,  quando  era  maior  de  50  annos,  como 
consta  das  habilitações  em  ordens,  e  livro  2  das  mercês  de  El-Uei  D. 
João  Y. 

«Casou  com  Josefa  da  Silva,  filha  de  Manuel  Mendes. 

«Teve  as  duas  filhas  que  se  seguem : 

«i}  D.  Paula,  freira,  como  já  dissemos  ha  pouco,  e 

«'t  D.  Leocadia  Felícia  de  Assis  de  Almeida,  a  quem  D.  João  v  do- 
tou com  cento  e  oitenta  mil  cruzados  e  três  mil  cruzados  mais  de  juro 


56  UEVIisTA   AKCIIEOLOGICA 

Beal  em  cinco  vidas,  para  casar  com  certo  fidalgo  como  de  facto  casou 
ele.  etc.  etc.  e  teve  numerosa  descendência.»* 

D.  Paula  tomou  a  mantilha  de  professa  em  Odivellas  no  dia  31  de 
janeiro  de  1717,  e  professou  a  22  de  fevereiro  do  anuo  de  1718. 

Não  é  d'este  logar  o  partioularisar  a  vida  da  Madre  Paula;  direi 
somente  de  passagem  que  foi  ella  quem  incutiu  em  D.  João  v  a  mais 
duradora  paixão.  Ainda  ha  poucos  mezes  (setembro  de  1887)  se  viam 
no  mosteiro  de  Odivellas  restos  da  antiga  casa  da  célebre  freira. 

D.  Paula  falleceu  em  1708,  aos  22  de  abril;  e  segundo  o  respe- 
ctivo livro  dos  óbitos  foi  enterrada  no  Capitulo,  onde  procurei  a  sua 
sepultura.  Foi  fadigosa  a  busca,  e  quasi  desesperava  jú  de  a  encon- 
trar, quando  ao  tirar  um  calco  complecto  da  lapide  sepulchral  de  D. 
Orraca  attenlei  mais  nalguns  vestígios  de  lettras,  que  já  notara  entre 
as  duas  primeiras  linhas  do  epitaphio  de  D.  Luzia  da  Conceição,  e  des- 
cobri finalmente  com  grande  satisfação  o  que  até  áquella  data  muitos 
haviam  debalde  procurado. 

O  epitaphio  de  D.  Paula  desperta  varias  observações.  Tendo  falle- 
cido  a  célebre  freira  em  1768,  não  é  natural  que  gravassem  o  lettreiro 
muitos  annos  depois.  Embora  seja  certo  que  naquella  epocha,  a  forma 
da  lettra  em  monumentos  lapidares  foi  extremamente  descurada,  os 
caracteres  da  epigraphe  são  muito  peor  delineados  do  que  os  outros 
da  mesma  epocha.  Accresce  a  isto  que  as  lettras  são  tão  pouco  pro- 
fundas, que  menos  se  podem  dizer  gravadas  do  que  apontadas :  a  maior 
parte  dos  traços  não  chegam  a  ter  um  millimetro  de  profundidade. 
Deve  ser  repudiada  toda  a  ideia  de  haver  sido  raspada  a  pedra,  para 
obliterar  as  lettras,  visto  não  haver  vestígios  d'essa  operação,  e  o  ní- 
vel da  pedra  estar  perfeitamente  egual. 

De  tudo  isto  pode,  pois,  deduzir  se  o  seguinte:  Havendo  D.Paula  fal- 
lecido  na  edade  de  quasi  67  annos,  por  considerações  em  que  não  é 
preciso  insistir  aqui,  e  talvez  por  inllueucias  de  seus  vaidosos  parentes, 
foi  ella  enterrada  no  Capitulo,  local  destinado  ao  eterno  repouso  das  ab- 
badessas,  mas  onde  já  tinham  sido  sepultadas  outras  pessoas  que 
nunca  exerceram  o  primeiro  cargo  da  commuiiidade.  Qualquer  que  foi 
o  motivo  por  que  alli  sepultaram  a  Madre  Paula,  não  deixaram  de  gra- 
var o  seu  nome  na  campa,  que  a  cobria,  embora  contra  a  ordenação 
exarada  na  visita  de  rejorma,  feita  em  172'i  pelo  abbade  de  Alcobaça, 
o  dr.  fr.  Bernardo  de  Castelbranco,  ordenação  que  diz:  «em  nenhuma 
campa  de  Sepultura  se  ponha  escrito  o  nome  da  defunta  senam  tiver 
sido  Abb.^  e  só  se  ponha  por  algarismo  o  anno  em  que  aly  se  sepul- 
tou». Quando  vinte  e  um  annos  mais  tarde  depozeram,  sobre  as  cinzas 
da  célebre  freira,  o  cadáver  de  D.  Luzia  da  Conceição,  não  achando 
na  lapide  para  o  epitaphio  desta  outro  logar  mais  conveniente  do  que 
aquelle  onde  já  eslava  o  nome  de  D.  Paula,  ahi  abriram  profunda- 


1  Folhetim  do  Commerciu  de  Porlugal,  ii."  137,  du  li  de  dezembro  de  1879. 


lii:VlSTA   AK(Ili:OLOGI('A  57 


iiKMile  o  Icllroiro.  K  províivel  alò  que,  a  essõ  (empo  modificndas  as 
razões  (pii;  houvera  [)ar  indicar  o  nome  da  fillia  di;  Adiião  d  Almeida, 
itilencionalmeiíle  sol)re|)Ozés<ein  um  epilaphio  ao  oulro,  para  tornar 
illegivel  ou  menos  appareiite  o  primeiro. 

Ò  epilaphio  da  madre  Paula  consiste  apenas  nas  seguintes  pila- 
vras  : 

h)ARIil.ZAl)l^\\'LATi:Rt-:ZAl)ASA 

E  da  rre/igiof.T  D.  Pavia  1  cre:;a  da  Súva 

Esta  formula,  que  encontrei  dezenas  de  vezes  nas  campas  do  Mos- 
teiro de  Odivellas,  subentende  a  palavra  sepiilnira,  ordinariamente  ex- 
pressa no  epilaphio  da  primeira  pessoa  sepultada  sob  a  lapide. 


A  lapide  sepulchral  de  D,  Orraca  Paes  c,  pois,  duplamente  interes- 
sante:  é-o  como  monumento  arlistico;  é-o  como  monumento  archeo- 
logico-hislorico. 

Como  monumento  arlistico,  é  um  raro  exemplar  das  campas  icono- 
graphicas  gravadas,  em  uso  na  edade  media. 

Como  monumento  arclieologico-hislorico  :  por  um  lado  mostra-uos  o 
habito  ou  o  trajo  clauslral  d"aquelle  tempo ;  por  onlra  parte  conser- 
va-nos  a  imagem  e  paiticularidades  da  vida  da  quarta  abbadessa  de 
Odivellas,  conserva-nos  os  epilai)hios  de  Ires  successoras  suas,  e  o 
duma  nuilher  célebre  por  seus  amores. 

Noutro  pais,  onde  os  monumeníos  arlicos  e  históricos  são  aprecia- 
dss  devidamente,  e  conservados  com  cuidado,  não  ficaria  alli  aquella 
pedra  no  Capitulo  já  hoje  transformado,  ecujo  pavimento,  segundo  me 
foi  alTirmado  por  pessoa  competente,  será  coberto  de  madeira,  occul- 
lando-se  assim  o  monumento.  NY)utro  país  subsliluir-se-hia  aquella  la- 
pide por  outra,  onde  se  transcrevessem  os  epilaphios,  e  onde  se  de- 
clarasse qual  o  novo  local  que  a  antiga  passava  a  occupar.  E  o  monu- 
mento reparado,  mas  não  restaurado  (note  se  bem),  disposto  conve- 
nientemente em  posição  veitical  sobre  um  pequeno  síjcco,  iria  ador- 
nai- não  tiirei  já  mu  museu,  mas  uma  das  paredes  da  capella-mór  da 
egreja  do  mosteiro. 

Se  alguém  hoje  tiver  o  prazer  de  ver  a  lapide  de  D.  Orraca,  en- 
conlral-a-ha  já  mais  danmilicada  do  que  estava  na  ocrasião  em  que  ti- 
rei o  calco,  que  reproduzido  piíotographicamente,  foi  com  lodo  o  es- 
crúpulo gravado. 

Lisboa,  2o  de  março  de  1888. 

Borges  de  Figueiredo. 


58  REVISTA    ARCHEOLOGICA 

AS  GRADES  DE  SANTA-CRUZ 
DE  COIMBRA 

As  obras  de  serralharia  artística  entre  nós  nunca  attingiram  —  ao 
que  se  nos  afigura — a  importância  (jue  tiveram  em  Ilespanha.  É  pos- 
sível, todavia,  que  ainda  existam  alguns  specimens  valiosos  e  que  te- 
nham passado  até  hoje  completamente  desapercebidos  á  falta  d' um 
exame  minucioso  da  parle  d'aquelles  que  se  dedicam  ao  estudo  das 
artes  industriaes.  Desta  deficiência  se  queixa  o  diligente  investigador 
o  sr.  Gabriel  Pereira  na  pequena  noticia  que  sobre  ferragens  inseria 
no  seu  folheto  acerca  das  Bellas  artes  em  Erora,  e  que  faz  parte  da 
sua  valiosa  collecção  d'estudos  sobre  a  historia,  arte  e  archeologia 
d'aquella  cidade.  xVli  verá  o  leitor  a  descripção  de  algumas  obras  de 
serralharia  artística,  (jue  actualmente  se  encontram  em  Évora. 

A  Ilespanha,  apezar  das  guerras  e  commoções  politicas,  apezar 
do  desleixo  e  vandalismo  com  que  tem  sido  tractados  muitos  dos  seus 
monumentos,  ainda  hoje  possue  alguns  exemplares  notabilissimos,  que 
despertam  a  admiração  dos  entendidos.  Poucas  são  as  cathedraes  e 
egrejas  importantes  (fue  não  possuam  grades  ou  rejas  dignas  de  es- 
pecial menção,  merecendo  deslacar-se  em  primeira  plana,  como  mo- 
delo esplendido,  a  reja  decorada  com  figuras  em  alio  relevo  e  outra 
fina  ornamentação  do  periodo  do  renascimento  feita  por  mestre  Bar- 
tholomé  para  a  capella  real  de  Granada  nos  princípios  do  século  xvi. 
Egualmente  admirável  é  a  finissuna  reja  existente  em  Toledo  e  fabri- 
cada em  1518  por  Francisco  Villapando.  Outros  exemplos  se  podiam 
citar  e  o  leitor  que  tiver  desejos  de  conhecer  mais  a  fundo  esta  ma- 
téria recorra  ao  Essai/  on  Spanish  art,  do  sr.  Juan  F.  Riafio,  que  pre- 
cede o  Catalogo  da  exposição  de  arte  ornamental  hespanhola  e  por- 
tugueza  celebrada  em  Londres  em  1881,  no  South  Kensington  Mu- 
seum,  e  ainda  mais  particularmente  ao  livro  do  mesmo  author  The 
industrial  ar  is  in  Spain. 

Dignas  de  rivalisar  com  alguns  d'estes  trabalhos  artísticos,  de  que 
se  ufanam  as  cathedraes  hespanholas,  seriam  por  ventura  as  grades 
monumcntaes,  que,  no  venerando  templo  de  Santa  Cruz,  separavam 
o  cruzeiro  do  restante  da  egreja  e  as  que  vedavam  os  túmulos  dos 
reis.  Hoje  já  não  as  podemos  contemplar,  mas  sabemos  da  sua  exis- 
tência por  alguns  documentos  e  referencias  históricas,  que  mais  ou 
menos  directamente  lhes  dizem  respeito.  Citaremos  em  primeiro  to- 
gar o  trecho  duma  carta  de  19  de  março  de  15:22,  em  que  Gregório 
Lourenço  dá  conta  a  D.  João  III  do  estado  em  que  se  achavam  as 
obras  que  o  seu  antecessor,  D.  Manuel,  mandara  fazer  no  templo  de 
Santa  Cruz.  Um  dos  items  da  carta  é  do  Iheor  seguinte : 

«Item  Senhor,  mandou  que  fezessem  huúa  grade  de  ferro  grande 


REVISTA   AKCHEOLOGICA 


59 


que  atravessa  o  corpo  da  egreja  de  xxv  palmos  d'allo  com  seu  coro:3- 
mento,  e  ao  rrcdor  das  sopidUiras  dos  rreix  a  cada  liua  sua  grade  de 
ferro,  segundo  loiíiia  diuiin  contraio  e  mostra  que  pêra  ysso se  fez.  Eslam 
eslas  grades  feitas  e  asetitadas,  e  pago  tudo  o  í|ue  montou  na  obra 
dos  pillares  e  barras  das  ditas  grades  porque  disto  avia  daver  paga- 
mento a  rrazoui  de  dous  mill  reis  por  quintal  asy  como  fosse  entre- 
gando ha  olira.  E  do  coroamento  das  ditas  grades  que  llie  ade  ser 
pago  per  av;illi;içam  nom  tem  rrecebidos  mais  de  cinquoenta  mill  reis, 
que  ouve  danlc  mão  (piando  começou  a  obia,  que  llie  am  de  ser  des- 
contados no  lim  de  toda  liobra  segundo  mais  compridamenle  vay  em 
huúa  cerlidam  que  antonio  fernandes  mestre  da  dita  obra  diso  levou 
pêra  amostrar  a  V.  A.  E  nom  se  pode  saber  o  que  desta  obra  he  de- 
vido atee  o  dito  coroamento  destas  grades  ser  avalliado.»  ' 

O  trecho  da  carta  de  Gregório  Lourenço  é  parcamente  descri- 
plivo,  mas,  apesar  d'isso,  muito"  agradecido  lhe  devemos  ficar  por  ter 
salvado,  ainda  que  involuntariamente,  o  nome  do  artista  que  fabri- 
cou a  obra,  Antonio  Fernandes. 

Como  se  sabe,  D.  Francisco  de  Mendanha,  prior  do  mosteiro  de 
S.  Vicente  de  Lisboa  {\:')\Ú),  escreveu  uma  descripção  em  italiano  do 
templo  de  Santa  Cruz,  a  qual  D.  João  111  ordenou  se  traduzisse  em 
portuguez,  sendo  impressa  nos  prelos  d"este  ultimo  convento.  De  tão 
curioso  opúsculo  cremos  que  não  se  conhece  hoje  nenhum  exemplar, 
mas  D.  Nicolau  de  Santa  Maria  perpetuou  o,  incluindoo  na  sua  Chro- 
nica,  prestando  assim  um  serviço,  litlerario  e  artístico,  bastante  apre- 
ciável. Mendanha  não  se  esquece  de  fallar  das  grades  e  dedica-lhe  as 
seguintes  linhas : 

«Além  d'este  púlpito  espaço  de  20  palmos  contra  a  Capella  mór 
está  a  grande  e  venusla  grade  de  ferro,  que  atravessa  toda  a  Egreja, 
ficando  dentro  o  Cruzeiro,  e  tem  de  alto  trinta  palmos».  ^ 

O  epitheto  vritusia  synthelisa,  para  assim  dizer,  em  toda  a  sua 
singeleza,  a  formosura  da  grade.  Entre  Mendanha  e  Gregório  Lourenço 
ha  todavia  uma  discrepância  no  que  respeita  ás  dimensões;  Mendanha 
dá  a  grade  >')  palmos  mais  alta.  Outra  dilTerença  notamos  ainda.  O 
prior  de  S.  Vicente  diz  que  as  grades  dos  túmulos  eram  de  cinco  pal- 
mos de  alio,  todas  de  pao  preto  e  bronzeadas  com  ouro:  Gregório  Lou- 
renço claramente  especifica  que  eram  de  ferro. 

Coelho  Gasco  ^  classifica  de  sumptuosas  as  grades  do  cruzeiro  e 
accrescenla  que  nellas  havia  um  epitaphio,  ou  antes  letreiro,  latino, 
em  letras  de  ouro,  que  rezava  da  seguinte  forma: 


1  Esta  carta  de  Gregório  Lourenro  puljlicámol-a  no  Conimbricense  n."'  4188, 
4189,  4191.  419o. 

2  D.  Nicolau  de  Santa  Maria.  Clironica  dos  coneqos  reijrantes,  T.  "2."  pag.  90. 

^  Conquista,  Antiguidade  e  Xobrrsa  da  mui  insigne  e  ínclita  cidade  de  Coimbra, 
pag.  83. 


()0  REVISTA  AUCllEOLOGICA 

Hoc  templiim  ah  Alphnnso  Porlugaliae  primo  rege  instrucluui  ac 
lempure  pene  collapsum,  lU'(/no  siiccesore  cD  actorc  Emmanncle  rcslaii- 
raverit.  Anuo  jSuíalis  Duniini  MDXX.» 

Esla  ilata  I"JiO  reí'ere-se  por  ceito  á  opoca  em  que  fui  assentada 
a  grade  e  collocado  o  seu  respectivo  leti'euo.  A  egreja  já  eslava  re- 
conslruida,  como,  aléui  de  outros  documentos,  o  denioi^slra  o  epila- 
phio  do  bispo  D.  Pedro,  fallecido  a  \'A  dagosto  de  15IG. 

No  prioiado  de  D.  Acúrcio  de  Santo  Agostinho  (eleito  cm  princí- 
pios de  maio  de  1590)  as  grades  foram  piutadas  e  douradas  de  novo. 
Diz  o  cliionista  «...  e  portpie  as  grades  de  ferro  do  cruzeiro  e  capei- 
las  da  mesma  igreja  eslavão  pouco  lusli'ozas,  as  mandou  alimpar,  pin- 
tar e  dourar  em  paites  e  pai-licularmeute  mandou  dourar  as  armas  reaes 
e  folhagens,  em  que  as  ditas  grades  se  rematão  e  tem  as  do  Cruzeiro 
trinta  palmos  de  alto  e  as  das  capellas  quinze  tauibem  de  alto,  e  fi- 
carão (Jepois  de  pintadas  e  douradas  muy  apraziveis  á  vista.»  ^ 

Não  sabemos  até  que  época  diH'assem  as  grades  de  Santa  Cruz. 
Das  que  circumdavam  os  sepulchros  temos  informação  de  IC^O.Ou 
haviam  chegado  a  extrema  mina  ou  foram  substituídas  ineptamente 
por  outras.  Refei'indo-se  ao  governo  de  D.  Miguel  de  Santo  Agostinho, 
que  foi  eleito  pela  segunda  vez  em  30  d'abril  de  1618,  escreve  o  chro- 
nista  da  ordem:  «Nos  últimos  mezes  do  seu  Jriennio  ornou  o  V.  Prior 
geral  as  sepulturas  dos  primeiros  Reys  deste  Keyno,  que  estão  na  ca- 
pella  mór  de  S.  Cruz  com  grandes  grades  de  pao  santo,  marchetadas 
de  bronze  dourado.»  ^ 

Sousa  Viteubo. 

SOBRE  UMA  FORMA  DO  SWASTIKA 

Em  grande  numero  de  cippos  funerários,  e  em  outros  monumentos, 
apparece  na  parte  superior,  quer  isolada  e  de  grandes  dimensões,  quer 
duplicada  e  de  pequeno  tannnanho,  uma  ílgura  cujo  lypo  mais  regular 
é  o  seguinte : 


Esta  figura,  geralmente  considerada  como  um  simples  ornato,  o 
designada  pelo  nome  de  roseta,  em  consequência  da  semelhança  (jue 
se  nota  entre  a  disposição  de  suas  linhas  caracterislicas  e  a  disposição 
das  folhas  d'uma  rosa. 


1  1).  N.  tio  StJ'  iMaria,  Cliromm  dos  C.  R.,  T.  2."  pag.  ;}7G. 

2  Id.  Id.  pag.  407. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA  61 

Creio  iiiexncla  essa  asserção.  Em  meu  parecer,  esse  signal  é  uma 
modilicíirão  do  sirdsiikd. 

Quando  se  observa  que  o  signal  da  cruz  é  simplesmente  a  figura 
resullanle  de  duas  linhas  que  se  Cftrlam  em  angulo  reclo  +.  e  se  con- 
sidera (jue  o  espirito  inventivo  do  hninem  tende  sempre  a  aperfeiçoar 
e  a  einhcllesar  os  objectos  que  [jiodnz.  accode  á  ideia  qn(!  a  repre- 
sentação daipielle  sign  d,  em  mnilos  e  variados  objectos  e  monumentos 
das  mais  remotas  edades,  conslilue  apenas  nm  motivo  de  ornamenta- 
ção, um  dos  primeiros  de  (]ue  o  homem  se  servira  peia  sua  natural 
singeleza,  aquelle  que  mais  lacilmennte  elle  podia  formar  pela  combi- 
nação da  linha  recta,  principal  elemento  do  desenho.  Mas,  ipiatido  se 
rellecle  em  ipie  esse  signal,  além  de  se  nos  deparar  jimtamente  com 
vários  ornatos,  apparece  também  isolado,  umas  vezes  collocado  evi- 
dentemente em  logar  de  preferencia,  outras  na  parte  menos  visível 
do  objecto,  começase  por  se  duvidar  de  que  o  signa!  da  cruz  fosse 
um  mero  ornato  e  termina-se  pelo  convencimento  de  que  seria  absurdo 
considera  1-0  como  tal. 

Por  mais  justas  que  hajam  sido  as  desconfianças  prudentes  do  sá- 
bio, por  maiores  que  hajam  sido  os  esforços  do  christão  em  reivindi- 
car pai-a  o  christainismo  a  oiigem  d"aquelle  symbolo,  uns  e  outros 
não  poderam  deixar  de  ceder  perante  documentos  de  inconteslavel  au- 
thenticidade.  Não  c,  pois,  da  discussão  da  antiguidade  do  signal  da 
cruz  que  eu  vou  tratar;  desde  muitos  annos  eslá  ella  demonstrada,  pe- 
los excedentes  trabalhos  de  G.  de  Mortillet  (Le  signe  de  la  croix  avant 
le  christianisme,  Paris,  1866)  Ludwig  Miiller  {Lemploi  et  la  significa- 
tion  dfins  rantiquité  dii  sir/nc  de  la  croir  f/a}iimí'e,  Copenhague,  1877), 
R.  Ph.  Greg  (Ou  íhc  Mcaning  and  origiii  of  lhe  Fi/lfot  and  Sicastiha, 
In  Archeologia,  London.  188'i.).  Schlieman  illios,  p.  ol7-oi9-.  Traja,  p. 
132-i:]7;  fijrintho,  p.  95-97)  e  outros. '  Não  vou  repetir  a  demonstra- 
ção já  feita,  o  que  seria  ocioso.  Mas,  sendo  meu  propósito  falar  duma 
das  suas  mais  notáveis  modificações,  segundtj  creio,  julgo  dever  dar 
previamente  uma  succinta  indicação  da  origem  da  cruz,  para  elucida- 
ção de  quem  não  tiver  disso  conhecimento. 

A  mais  notável  manifestação  do  naturalismo  é  incontestavelmente 
a  adoração  do  sol,  o  divino  Snrj^a  celebrado  nos  hymnos  do  Hig-Veda, 
ou  do  fogo  Agni  (pron.  Anlii.  Temos  o  portuguez  r/;^/ío=  lat.  agnii^ ; 
cf.  tamuianho=^hl.  lawmagno),  emanação  divina  que  do  céo  cáe  sobre 
a  terra,  ou  que  nesta  produzido  tende  para  o  céo.  O  culto  do  fogo, 
um  dos  mais  antigos,  senão  o  primeiro  de  todos,  foi  o  principal  obje- 
cto de  adoração  entre  todos  os  povos:  os  arianos  e  os  semitas,  os  afri- 
canos, os  azteques,  e  os  povos  da  Oceania,  todos  elles  numa  epocha 


'  Vej.  N.  Joly,  Vhomme  avant  les  métatix:  Burnouf,  Dictionnaire  classique  san- 
skrit-français  s.  v.  e  Science  deu  religions.  Cf.  H.  Gaidoz,  Le  dien  gaulnis  du  Soleil  et  le 
symholisme  do  la  ruue.  Paris,  1885 


62  REVISTA  ARCHEOLOGICA 


determinada  adoravam  o  sol  ou  o  fogo.  Isso  nos  é  revelado:  entre  os 
Parsis,  pelo  nome  de  Mithra;  entre  os  gregos,  pela  fabula  de  Prome- 
Iheu  e  pelo  fogo  sagrado  que  ardia  continuamente  no  Prytaneu;  entre 
os  Egypcios,  pelo  culto  de  Amon-Rah;  entre  os  Latinos,  pelo  culto  de 
Apollo  e  pelo  fogo  de  Vesta;  enire  os  Peruanos,  por  Patchakamac  e 
as  virgens  do  Sol;  entre  os  azteques,  pelo  seu  deus  Xiulileuctli  e  in- 
iiumeraveis  monumentos;  entre  os  clialdeus  por  liaal  ou  Bel;  e  em 
Africa  elle  subsiste  entre  os  Ova-lléréro,  onde  lia  mulheres  destinadas 
a  conservar  o  fogo  sagrado.  O  fogo,  que  ainda  presentemente  em  sab- 
bado  de  alleluia  se  accende,  bem  como  a  lâmpada  que  se  cuida  em 
ter  accesa  deante  do  sacramento,  nos  templos  cbrislãos,  é  simples- 
mente um  resto  do  culto  do  principio  fecundante  e  conservador. 

Quando  os  primeiros  homens  quizeram  representar  esse  objecto 
da  sua  adoração,  conheciam  apenas  a  linha  recta  simples  ou  combi- 
nada, como  meio  de  indicar  as  funcções  do  astro  que,  gyrando  no 
espaço,  irradia  em  todas  as  direcções  seus  ellluvios  fecundantes  de 
luz  e  de  calor,  ou  do  fogo  (pie  igualmente  emitte  estes  em  todos  os 
sentidos.  Assim,  para  representar  os  raios  solares  empregaram  elles 
duas  linhas  rectas  cruzando-se  em  angulo  recto,  rudimentar  expres- 
são dum  symbolo,  que  logo  foi  appendiculada  de  qutro  pequenas  li- 
nhas com  (jue  elles  pretenderam  segniíicar  melhor  a  sua  ideia.  Por 
outro  lado,  muito  cedo  o  homem  descobriu  o  modo  de  produzir  o  fogo 
por  meio  da  fricção  continuada  d'um  pão  {paramautha)  noutro  pão 
(arani);  e  logo  um  primeiro  e  singelo  apparelho  de  duas  peças,  uma 
d'ellas  com  movimento  rotatório,  produzia  pela  fricção  o  calor,  o  fogo,  a 
luz.  É  esse  apparelho  qije  os  povos  australianos  chamam  icintíi-kalk-kalk. 

O  symbolo  do  sol,  e  por  consequência  do  fogo.  foi  pois  a  repre- 
sentação de  sua  força  irradialiva,  representação  idêntica  á  do  appare- 
lho que  produzia  a  chamma.  Swaslika  é  o  nome  por  que  commumente 
se  designa  esse  symbolo,  cuja  forma  é : 


FU 


O  swastika,  impropriamente  chamado  por  alguns  cruz  gammada, 
porque  o  suppunham  formado  de  quatro  gg  gregos  (T),  enconlra-se 
por  toda  a  parte:  nas  necropoles  hallstaltianas  da  Itália,  como  nas  fu- 
saiolas  descobertas  na  Troada  por  Schlieman;  nas  fibulas  da  Grécia 
antiga,  como  nos  menhirs  e  dolmens. 

Uemonta  pois  à  mais  alta  antiguidade  o  symbolo  chamado  cruz,  e 
muito  cedo  começou  a  ser  modificado.  Num  monumento  assyrio,  um 
stello  que  representa  Samas-Vul  ii,  filho  de  Shalmanazar,  vè-se  elle 
sobre  o  peito  da  ligura,  com  a  forma  da  cruz  grega. 

Também  o  vemos  nos  monumentos  egypcios-:  é  esse  symbolo  ca- 


REVISTA    ARCHEOLOGICA  63 

raclerislico  da  vida  divina,  dislinctivo  do  Amon-Hah,  o  espirito  que 
peneira  Iodas  as  coisas,  e  cuja  íorma  é: 


Este  symbolo  é  lambem  ornamento  de  Aclé,  fonte  da  geração  ce- 
leste e  terrestre ;  c  vè-se  na  mão  de  todas  as  deusas  mães,  como 
Neitli  e  Allior. 

O  swaslika  é  ainda  hoje  um  signal  sagrado.  «Ce  signe  (diz  È.  Bur- 
nouf)  est  précisement  ceiui  que  lon  trace  sur  le  front  des  jeunes  bud- 
dhistes  et  qui  êlait  usité  ctiez  les  bràbmanes  de  toule  antiqnilé  :  il 
porte  de  nom  de  stcastilia;  c'est-à-dire,  le  signe  du  salnl,  parce  que 
la  swasti  (en  grec  fj  íttí)  était  dans  Tlnde  analogue  à  la  cérémonie 
du  salut  cliez  les  cliréliens.  Ce  signe  represente  les  deux  pièces  de 
bois  qui  composaient  larani,  dont  les  extrémités,  etaient  recourbées 
ou  renllées,  pour  ètre  solidement  relenues  avec  quatre  clous.  Au  point 
de  jonclion  était  une  fossette:  là  on  plaçait  la  pièce  en  forme  de  lame, 
dont  la  rolalion  violente  produite  par  une  sorte  de  llagellation,  faisait 
appraraitre  Agni»  * 

Apresentando  esta  summula  da  historia  do  swastika,  unicamente 
com  o  intuito  já  apontado,  passo  agora  a  occupar-me  d^aquella  de 
suas  modificações   que  se  viu  figurada  no  começo  d"esle  artigo. 

Ludwig  MiiHer  dá  como  ornamento  derivado  do  swastika  o  signai 


e  outros  mais,  que  diz  encontrarem-se  unicamente  nos  paizes  do  Me 
diterraneo.  Accrescenta  que  se  não  encontram  esses  signaes  nas  moe- 
das, nos  altares,  nos  stellos  funerários,  nem  na  face  dos  rochedos,  e 
que  nenhum  delles  foi  empregado  como  altributo  d'uma  divindade, 
nem  como  amuleto;  que,  pelo  contrario,  elles  se  vêem  por  Ioda  a  parte 
como  ornatos  e  são  frequentemente  collocados  a  par  d'oulros  orna- 
mentos. ^ 

Esta  asserção  do  sábio  archeologo  dinamarquez,  quanto  ao  signal 
acima  trasladado  da  sua  obra,  deve  considerar-se  prejudicada,  em  pre- 
sença do  facto  de  existirem  cippos  funerários  romanos  com  o  signal 
que  originou  este  artigo,  o  qual  é  essencialmente  o  mesmo  que  o 
da  obra  de  Miiller,  cora  a  única  difterença  de  um  ser  formado  de  li- 
nhas quebradas,  outro  composto  de  linhas  curvas. 


^  É.  Biirnouf,  La  scieure  des  religious,  eh,  xiii. 


64  KEVISTA  ARCHEOLOGICA 


O  swaslika  enconlra-se  já  em  toda  a  pureza  da  sua  forma  recti- 
línea, já  com  as  suas  liastes  curvas. 

O  encunlrar-se  o  sigual,  que  forma  o  objecto  d'esta  nota,  em  va- 
ries cippos  funerários  ila  epoclia  romana  (os  principaes  (pie  conheço 
foram  descriplos  no  vol.  i  da  Revista,  a  pag.  90  e  9i),  e  no  iogar 
principal,  por  cima  da  inscripção,  é,  creio  eu,  uma  prova  da  impor- 
tância que  se  lhe  ligava;  quer  (como  diz  Lud.  iMiiller)  o  symbolo  haja 
sido  transformado  eui  ornato,  quer  o  ornato  fosse  usado  porque  com- 
preheiulia  o  syinholo  -;  o  que.  ahnal,  se  reduz  á  mesma  coisa.  Tal- 
vez, e  é  natural,  (jue  os  homens  que  empregaiam  esse  signa!,  já  não 
comprehendessem  o  seu  symolismo ;  mas  que  o  considerassem  como 
um  amuleto.  Como  tal  se  encontra  o  próprio  SAvaslika  em  muitos  mo- 
numentos chiistãos,  i)odendo  ver-se  um  exemplo  no  vol  i  da  lU^vtsta 
(Kst.  VI,  n."  l  e  pag.  i')),  onde  (iz  menção  d  uma  lapide  tumular 
descoberta  nas  pioximidades  de  Tuy,  onde  ao  lado  da  cruz  ed'outros 
symbolos  apparecem  dois  swastik;is  trhastes  arredondadas. 

Como  amuleto  landjem  appaiece  o  swastika,  em  plena  edade  me- 
dia, gravado  nos  muros  de  varias  egrejas.  líncontrei  o  gravado  cm  lo- 
gai'  proeminente,  no  lado  exlerior  do  abside  principal  e  num  dos  la- 
leraes  da  egreja  do  mosteiro  de  Odivellas  (1295-1305). 

Ainda  (juanto  ao  objecto  principal,  direi  mais  que  nalguns  dos  si- 
gnaes  de  (jue  trado,  se  nota  no  centro,  onde  se  juntam  ou  cruzam  as 
hastes,  um  ponto,  que  também  tem  seu  symbolismo.  Eis,  segundo  É. 
Burnouf,  a  explicação  d'esse  ponto:  «Le  symbole  du  cruciíiement  du 
Christ  fut  souvenl  remplacé  par  lagneau.  Le  christianisme  avait  sup- 
primé  rimmolalion  de  cet  animal...  Puisque  la  théorie  d'Agni  est 
idenli(|ue  à  la  théorie  du  Christ  et  que  les  deux  legendes  se  ressem- 
blent  de  toul  poinl,  le  symbole  de  Tagneau  a  pu  devoir  sa  grande  for- 
tune  dans  TÉglise  latine  à  fidentilé  des  deux  noms. 

«II  y  a  des  textes  qui  par  eux-mèines  seraient  à  peu  prós  inin- 
telligibles,  commc  celui :  aCorporis  Agni  margaritam  ingens»  (Forlu- 
nat,  XXV,  3),  reproduction  d'une  formule  sanscrite:  agni-káijamahâ- 
ratnam,  «le  grand  joyau  du  corps  d'Agni».  Ce  joyan  principal  se  pla- 
ca, dans  les  croix  gainmées,  au  poinl  oíi  les  deux  branches  se  croi- 
sent,  là  ou,  dans  les  croix  nues  nous  plaçons  encore  un  foyer  de  rayons 
dores  s'echappant  dans  toutes  les  directions;  c'est  le  point  d"ou  pari 
la  premiére  étincelle  dans  ropéralion  de  arani  ^.y> 

Lisboa,  20  de  Março  de  1888. 

BoRGKS  DE  Figueiredo. 


»  Lud.  Miilior,  np.  nt.,  pag. 
2  Irl..  ihid. 

^  ]•;.  liui-iioiif,  /.  c. 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA 


65 


NOVA   INSCRIPÇilO 


CnRIST7V  DE  MERTOLA 


[Creio  d;ir  prazer  aos  leitores  da  Ihn-isln  apreseiilando  atnii  a  scííiiiiite  noticia 
que,  em  carta  (ii;  .'i  do  corrente  mes.  acalia  de  cummuiiicar-nie  u  illii>lre  i>ru(es- 
sor  da  Universidadíí  de  Herlnii.  dr.  K.  lliihtier. 

Para  ii()s  portiii^uezes  é  triste  (|U(!  os  iiioiuimentos  aiclieolojíicos  descobertos  no 
nosso  país  sejam  enviados  para  o  estran^íciíd.  indo  enri(|uecer  os  museus  doutras 
naçòes,  sem  (pie  nem  ;io  menos  liaja  entre  nos  nnmedialo  conhecimento  da  des- 
col)erta.  Os  poderes  públicos  deviam  prestar  aljíuma  altíTiçàoa  estiís  fados.  Todas 
as  demais  nações  são  enlimsiaslas  por  seus  monumentos  e  ciosas  de  suas  riíjue- 
zas  archeoloi^icas.  l'ortoi,'al  faz  excepçào  a  esta  retira. 

Ao  menos  consida-nos  a  amaíjilidade  (|U(!  teem  para  comnosco  alguns  sábios 
estrangeiros,  niostrando-nos  o  (pie  cru  nosso. 

Eu,  agradeço  a(pii  publicamente,  em  nome  dos  fortuguezes  que  se  interessam 
pelos  nossos  monumentos,  e  reitero  os  meus  próprios  agradecimentos,  ao  sábio 
professor  de  Berlim.— li.  de  F.J 

Eis,  meti  caro  amigo,  a  nova  inscripção  chrislã  de  Merloia.  É  uma 
lamina  de  mármore,  da  altura  de  cerca  de  dois  pés,  da  largura  de 
vinte  pollegadas  (inglezas).  Foi  enviada  de  Mertola  pelo  sr.  Warden  á 
Sociedade  Archeologica  de  Newcaslle-oiiTyne,  na  Inglaterra.  O  meu 
venerável  amigo,  o  Ur.  Bruce,  publicou  a,  nos  Proceedings  of  lhe  Soe. 
of  Ant.  of  Neiccastle,  vol.  Ill,  1888,  n.'^  "2o.  p.  2(3i,  e  daiá  delia  uma 
minuciosa  explicação  no  outro  jornal  da  mesma  Sociedade,  Si  Ârclwolnyia 
Aeliana.  O  lexlo  do  inscri[)ção  diz  assim: 


+  BRITTO    PRESI^ 
VIXIT      AiNiNOS 

fev~irbrQ~virv~rf 

IN  facITUnTI^ 

5  NONAS^ÁGVSTÃS 

ERA   DlxXXlUI 


-\-  Britto  pres(bjterj  \  vixit  annos  \  LXV, 
requievit  |  in  pace  diomi)ni  dfiej  \  uo7iJS 
As^usUs  I  era  DL XXX II II. 


O  nome  Britto  não  é  raro  cm  Hispanlia ;  Agustas  é  a  forma  do 
baixo  latitii  por  Augustas;  o  anuo  da  era  hispanliola  581  corresponde 
ao  54C  p.  C.  A  inscripção  é  notavelmente  bem  escripta. 


E.  HunNER. 


Rev.  Arch.,  I,  N."  5— Maio  ú 


06  REVISTA  ARCHEOLOGICA 


UM  MONUMENTO  DE  AEMINIUM 

Desde  o  século  xvi  foi  objecto  de  controvérsia  entre  archeologos 
porliiguezes  a  situação  do  nppidiim  AemíNium,  mencionado  por  Plinio  \ 
por  Plolemcu  -,  e  no  Itinerário  dicto  de  Antonino  •'.  A  grande  maioria 
dos  auctores  localisou-o  em  Águeda ;  alguns,  muito  poucos,  idenlifica- 
ram-n"o  com  a  actual  Coimbra.  Á  frente  da  maioria  estava  Diogo  Men- 
des de  Yasconcellos  '',  o  infeliz  scholiasta  de  Rezende ;  à  frente  da 
minoria  parece  dever  collocar  se  Gaspar  Barreiros  ^.  Deixando  em 
paz  a  maioria,  mencionarei  apenas  os  principaes  que  opinaram  pela  lo- 
calisação  em  Coimbra.  No  século  passado  apparece  o  académico  Ma- 
nuel (le  Faria " :  e  neste  século.  João  da  Cunha  Neves  e  Carvalho  Por- 
tugal ',  D.  fr.  Francisco  de  S.  Luis  ^,  A.  Filippe  Simões  '\  É  notável 
que,  emquanto  em  Portugal  a  maioria  é  abertamente  contraria  á  locali- 
sação  de  Aeminium  em  Coimbra,  quasi  lodos  os  sábios  estrangeiros,  que 
teem  tratado  o  assumpto,  estão  decididos  por  tal  identificação.  Isto 
prova  que,  em  geral,  os  nossos  archeologos  teem  tratado  as  questões 
sem  critério  algum ;  e  que,  ao  contrario  do  que  por  ahi  se  affirmou 
ultimamente,  os  sábios  estrangeiros  teem  contribuído  muitíssimo  para 
o  adiantamento  da  sciencia  archeologica  em  Portugal ;  e  mais  que  ne- 
nhum outro  o  professor  Emílio  íliibner. 

Depois  dos  auctores  em  derradeiro  logar  nomeados,  ainda  houve 
quem  tratasse  da  situação  do  Aemínio.  Foi  o  auctor  doestas  linhas, 
que  leve  a  fortuna  de  demonstrar  evidentemente  (em  1884)  que  Aemí- 
nio existiu  no  local  da  moderna  Coimbra  "\  Para  essa  demonstração 
serviu-se  dos  argumentos  já  dados  pelos  escríplores  alludidos,  e  d'ou- 
tros  novos  que  conseguiu  deduzir  da  interpretação  critica  dos  textos 
antigos  e  medievaes,  e  dos  monumentos  archeologicos  em  varias 
épocas  descobertos  em  Coimbra.  Esse  estudo,  releve-se-me  o  dizel-o, 
foi  lido  com  interesse  no  estrangeiro,  ao  passo  que  em  Portugal  fi- 
cou desapercebido,  e  só  mereceu  uma  critica,  em  que  seu  auctor  di- 


1  Hist.  Nat.,  L.  IV,  cap.  22. 

2  Geogrophid ,  f."  tábua  da  Europa. 

3  Itin.  (eil.  Paríhcy  e  Piíider),  421,  4. 

4  Scholia  in  qnnUior  Uhros  Resendii. . .  (Eborae,  lo!)!)),  pag.  248-249. 

'  Chorofjraphid  d'al(jHiis  togares...  pag  49  v.  Cf.  Ortolius  Sj/nomjmia  Geogra- 
phica,  s.  V.  Arminiiim. 

6  Acailewia  dn  Historia. 

'  Actas  das  Sessões  dn  Arademia  Real  das  Sciencias  de  Lisboa,  t.  ),  pag.  101  scqq. 

"  Coimlira  e  Eminin  iii  Berisla  Estrangeira  (Lishoa)  pag.  50. 

^  Alguns  /w.sso.s  )i'n)n  lalii/rintlid.  Se  ('niinbra  foi  povoação  romana  e  gitc  nome  teve 
in  Portugal  Vittoreseo  ((]oimÍ)ra,  1879).  e  noulros  joriiaes.' 

'"  Boletim  da  Sociedade  Geographia  de  Lisboa,  5."  serie,  n.°  2. 


REVISTA  ARCHEOLOGICA  G7 

zia :  —«lenho  sustentado  que  a  situação  da  (sic)  Eminium  fora  nas 
myrfíens  do  Águeda. .  .  e,  todavia  não  sei  onde  ella  esteve!»  * 

Havendo  eu  sido  o  ultimo  a  sustentar  a  identiíicação  de  Aeminiutn 
com  Coimbra,  senti  verdadeira  satisfação  ao  saber  (jue  na  cidade  do 
Mondego  se  iiavia  desc(jberto  uma  lapide  onde  se  lè  o  nome  de  cidade 
de  Aeminium  ;  monumento  que,  em  vista  dos  argumentos  e  provas  ex- 
postos na  minha  alhidida  memoria,  se  não  pôde  admittir  fora  trans- 
portado doutra  parte  para  Coindjia. 

A  noticia  do  achado  li-a  eu  no  Correio  da  Noite,  n."  2400,  de  O  de 
abril  lindo.  Ahi  se  diz  que  o  monumento  fui  encontrado  ((^'' um  prédio 
junto  ao  arco  do  Collegio  Noro»,  e  que  «yl  pedra  é  da  qualidade  da  que 
se  exlrae  nas  cercanias  de  Coimbra,  (calcareoj.y) 

Tendo  para  mim  summo  interesse  o  conhecimento  exacto  do  mo- 
numento, procurei  particularmente  primeiro,  e  em  seguida  por  inter- 
venção da  respeitabilissima  Sociedade  de  Geographia  de  Lisboa,  obter 
um  calco  da  inscripção.não  só  para  dar  delia  conhecimento  aos  estudio- 
sos mas  especialmente  para  completar  os  meus  próprios  estudos  sobre 
Aeminium.  Teve  óptimo  resultado  a  intervenção  (como  eu  esperava),  e 
pude  finalmente  ver  por  copia  o  monumento,  que,  segundo  o  calco, 
terá  d'allo  O,"' 91  e  de  largo  O,"' 44. 

A  inscripção,  segundo  o  que  poude  ler  no  calco,  diz : 

i  n       •        h  o  n  o  r  c  m 

ET      AVGMENTVM 

REI  •  PV  B  •  N  AT  O  •  Dí 

LECTO  QVE  •  PRIN 

C  I  P  I  •  D  N   F  L  AV  I  O 

5(6)  VAL  ■  C0N5TANTI0 

PÍO  FELICIINVICTO  •  AV 

GVSTO  •  PONT  •  MAX 

d.C.30õ/6         TRIBPOTP-P-PROGN 

(lo)  CIVITAS  •  AEMINIENSIS 

\_In  honorem  f  e]i  augmentu\jn  re\i  publ{icae)  nato 
{^dil^ectoqiie  prin[ci\pi  d{omino)  n{ostro)  Flávio  [VaJ- 
l{erio)  Constantio,  [pio]^felici,  invicto,  a[iig^it]sto,  pon- 
t{ifici)  max{imo)^  \jr\ib{unitia)potiestate\p[al7-i)  p(a- 
triae),  procon{sulí),  [civ]itas  Aeininiens[is]. 


^  A.  F.  Barata,  num  foltietim  do  Progresso  do  Alemtpjo,  n."  162,  do  18  de  Abril 
de  1885. 


68  REVISTA  ARCIIEOLOGICA 


Esla  leitura  foi  já  por  mim  communicada  (oxcepçlío  feita  da  pri- 
meira linha  c  d"oiitras  minúcias,  que  só  em  presença  do  calco  me  de- 
cidi a  (ieterininai),  om  caria  de  10  de  Al)ril.  ao  meu  prezadissimo  ami- 
go, o  professor  lliibuer,  e  liz  d'ella  cunuiiunicaçâo  á  Sociedade  de  Geo- 
graphia  de  Lisboa  na  sessão  do  mesmo  mes. 

Na  1.*  (2.'')  linha,  a  lettra,  que  precede  avgmentvm pôde  ler  sido 
um  N,  e  nesse  caso  teríamos  a  formula  in  augmentiim  reipnblicae  nato, 
variante  nova  da  frequenlissima  bono  rcip.  unto.  ]\Ias,  pela  comjiara- 
ção  que  fiz  d'essa  leltia  com  o  t  da  pahivra  ijue  se  lhe  segue,  (appa- 
recendo  em  ambas  uma  haste  transversal  luuilo  pequena,  conforme  o 
calco  accusa)  inclino-me  a  crer  que  é  esta  ultima  lettra,  do  que  resulta 
em  meu  intender  a  leitura  ET-  Assim,  falta  uma  parle  da  lapide,  onde 
devia  estar  a  primeira  linha  da  inscripção,  que  eu  com  todas  as  re- 
servas (visto  não  ter  examinado  o  moimmento,  e  o  calco  não  estar 
nalguns  pontos  muito  perfeito)  intendo  poder  completar-se  com  um 
princi[)io  de  foriuula  como  in  honornn,  in  reparationem,  etc.  Esta  for- 
mula seria  inteiramente  nova ;  mas  lambem  o  é  já  a  in  augnientum, 
e  a  existência  na  pedra  d'esta  ultima  palavra  é  indiscutível. 

Na  5.'"^  (G.^)  linha,  vejo  distinctamenle  no  calco  um  L-  antes  de 
CONSTANTlO:  lettra  que  tanto  pôde  ser  a  ultima  de  IVL  como  de 
VAL;  parece-me,  porém,  distinguir  a  parle  inferior  da  segunda  haste 
obliqua  d"um  A,  d'onde  se  conclue  a  leitura  val-,  sendo  por  conse- 
guinte Constâncio  Chloro  o  imperador  em  honra  de  quem  o  monu- 
mento foi  erigido. 

Na  linha  8.^  (9.'"^),  está  claramente  cscripta,  como  acima  fica  tras- 
ladada, a  palavra  procônsul,  e  não  progos,  como  ordinariamente  se 
encontra. 

Proponho  pois,  em  presença  do  calco,  a  indicada  leitura,  que  em 
vulgar  vem  a  dizer  como  se  segue : 


'&' 


«Ao  que  nasceu  para  honra  (?)  e  incremento  da  re- 
publica, e  amado  príncipe,  nosso  senhor  Flávio  Valério 
Constâncio,  pio,  feliz,  invicto,  augusto,  pontífice  má- 
ximo, com  o  tribunicio  poder,  pae  da  pátria,  procôn- 
sul, os  cidadãos  de  Aeminium  (dedicaram  este  monu- 
mento)». 

Temos  pois  finalmente  um  monumento  epigraphico,  testemunha  ir- 
recusável da  existência  de  Aeminium  no  local  da  moderna  Coimbra, 
monumento  que  exprime  um  voto  dos  seus  cidadãos  ao  imperador 
Constâncio  I. 

Lisboa,  20  de  maio  de  1888. 

BOUGKS  DE  FlGUEmEDO. 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA  69 

INSCRIPÇ7V0  LUSO-RO:\rANA  DE  PANOIAS 

(nota) 

Km  appendice  ao  artigo  que  pul)Iiqnol  na  Ufv.  Arch.,  pg.  50,  ciim- 
pre-ino  dizer  (pie  a  pedra  com  a  iiiscripção  luso-romana  de  l'anoias 
está  acliialmeiíle  guardada  no  Museu  da  Sociedade  Martins  Sarmento, 
de  Guimarães,  e  que  o  nicn  amigo  dr.  F.  Martins  Saimento  me  disse 
que,  depois  de  examinar  o  texto  da  inscripção,  distinguiu  nella  mais 
um  C,  de  certo  resto  da  foiínula  F-  C.  Assim  desapparece  a  minha 
duvida,  que  eu  linha  assignalado,  e  o  leitor  deve  substituir  no  meu 
citado  artigo  os  pontos  do  lim  da  inscripção  por  aquellas  duas  lettras. 

J.  Leite  de  Vasconcellos. 


INSCRIPÇOES  DE  ALCÁCER  DO  SAL 

Existem  na  Academia  de  Bellas  Artes  de  Lisboa  duas  inscripções, 
da  época  romana,  que  não  me  consta  hajam  sido  pubhcadas  em  Portu- 
gal, nem  no  estrangeiro. 

Segundo  as  inlormações  que  poude  obter,  foram  encontradas  em 
Alcácer  do  Sal. 

1  — Pedra  granilica,  de  0,'"9I  de  largo,  0,n'i  de  alto  e  0,'";j:{  de 
espessura ;  leltras  bellas  e  profundas. 

LMP  •  CAESARI  •  DWl  ■  F  A VG VSTO  Imp(eratori)  Caesari  Divi  f^  ilio) 

I^ONTlFICI-MAXVMO-COS-Xn  Augusto  \  pontifici  maxumo  co{nJ- 

a.C.749/7ãoTRIB-POTESTATE-XVlíTr  s{ul{)    XII  \  írib{umcia)  potcstate 

VIGANVSBOVTI-F-  XVIIU  \  Vicanus  Bouti(i) /{ilius).  \ 

S                  SACRVM  Sacnnn. 

Ao  imperador  César  Augusto,  íilho  do  Deus  César,  pontífice  máximo,  côn- 
sul pela  duodécima  vez  e  com  o  poder  tribunicio  pela  decima  nona,Vicano  filho 
de  Boutio  consagrou. 

Este  monumento  vem  estabelecer  indubitavelmente  o  cognome  Vi- 
canus, já  presentido  por  Iliiíjiior  numa  inscripção  de  Tacci^^.  Boutius 
é  vulgar  na  Península  -. 


1  C.  1.  L..  ir.  1687. 

2  C.  /.  L.  n,  4U8,  *  458,  620.  744,  7o6,  794,  2786. 


70  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

2  —  Lapide  marmórea  de  \"W)  de  alio,  O.'"00  de  largo,  e  0,"'30  de 
espessura;  lellras  bellas  e  profundas  do  primeiro  ao  segundo  século: 

IVNIA  •  CORII^IA  lunia  Corinthia  \  an{norum)  XVII,h{k)  s{ita) 

AN-XVII-H-S-E-  e{st).  \  S{ii}  t(ilu)  t{erm)  l[cvis).  \  Satiilla  filiae. 

S-T-TL- 

S  AT  VLL  A- FILI '^'''  Junia  Corinthia,    de    dezescpte    annos,   aqui 

está    sepultada.    Seja-te   leve    a   terra.    SatuUa 

(dedicou  este  monumento)  a  sua  filha. 

O  nome  de  Corinthia.  enconlra-se  numa  inscripção  de  Oiisippo  * ; 
e  o  masculino  correspondente,  Corinthius,  apparece  numa  de  Corduba: 
CORINTMIVSSEX-MARIISER  etc.  -  Uma  Licinta  Sandia  é  conhecida 
por  uma  inscripção  de  Tarraco? 

Borges  de  Figueiredo. 


CONVENTO  DAS  FLAMENGAS  EM  ALCÂNTARA. 
OS  ARCHITECTOS  FRIAS 

Está  ainda  por  escrever  a  Historia  Artistica  de  Portugal.  E  não  é 
que  seja  nem  complicada  nem  extensa.  Três  livros,  três  periodos, 
não  mais.  Abrangeria  o  primeuo  tudo  o  que  vem  desde  os  primórdios 
da  monarchia  até  D.  .João  II.  Comporia  sú  por  si  o  seguinte  esse  bri- 
lhante reinado  de  U.  Manuel,  tão  glorioso  para  a  nacionalidade  portu- 
gueza,  quão  funesto  a  seus  ulteriores  destinos.  Compendiaria,  emfim, 
o  ultimo  todo  esse  largo  succeder  de  decadencias  que  o  reinado  hor- 
roroso de  D.  João  m  iniciou,  e  a  que  a  ultima  obra  do  estado  sob  o 
antigo  regimen  o  Ilospilal  da  Mariídui,  tiisle  ironia  da  sorte!  viria  pôr 
seu  natural  remate. 

No  primeiro  dos  dois  primeiros  periodos,  sem  duvida  o  mais 
sympathico,  a  exposição  singela  das  singelas  manifestações  da  Arte, 
no  seio  de  uma  nacionalidade  recem-constiluida;  a  influencia  da  velha 
arte  gothica  desenredando-se  dentre  as  truncadas  amostras  da  sua 
existência  neste  canto  da  peiíinsula.  para  attingir  no  primeiro  monu- 
mento archileclonico  de  Portugal,  no  Monumento  por  excellencia,  na 
B.VTALHA,  toda  a  austera  perfeição  e  toda  a  grandiosa  simplicidade  do 
génio  veraz  que  a  animava. 


2  C.  1.  L.,  ir,  2269. 

3  c.  /.  L.;ii;4'i08. 


REVISTA   ARCIIKOLOGICA  71 

Essencialmente  episódico,  o  segundo  período  constilue,  sem  contes- 
tação o  primor  dessa  historia.  A  arcliilectura  inonumenlal  e  a  pintura 
lêem,  com  eíleilo,  no  reinado  do  venturoso  \).  Manuel  a  sua  grande 
apotlieose.  Os  dois  assumptos  mais  caracterisados  da  Arte  portugueza  ; 
a  existência  e  as  obras  de  (Irão  Vasco,  e  a  questão  do  (lolhico-manuc- 
liito  imprimem  a  esta  parte  da  historia  das  artes  em  l'urtugal  o  cara- 
cter de  originalidade  suíTiciente  para  a  tornar  interessante,  inslrucliva 
e  deleitosa. 

D'ahi  por  diante  começaria  o  terceiro  período. 

Ainda  que  a  partir  denlão  até  o  termo  já  por  nós  designado,  a 
missão  do  historiador-artista  a  pouco  mais  se  reduza  do  que  a  um  in- 
sípido inventario  de  constantes  allentados  contra  a  integridadti  da  Arte, 
conviria  estabelecer,  comtudo,  duas  subdivisões  do  mesmo  fado,  aíim 
de  considerar  o  caracter  essencial  deste  terceiro  período  —  a  decadên- 
cia—  sob  o  duplo  aspecto  que  ella  nos  apresenta. 

Por  muilo  pernicioso  que  fosse  para  a  Arte  o  inlluxo  da  Renas- 
cença, mais  fatal  lhe  foi,  certamente,  entre  nós  o  destino  politico  que 
nos  coube  em  sorte  logo  á  sua  estreia  em  Portugal.  D.  João  III  teve 
apenas  tempo  de  estragar  o  que  a  Renascença  apanhou  por  concluir. 
Vem  depois  D.  Sebastião,  vem  a  sombra  de  um  rei,  na  pessoa  do  car- 
deal seu  tio;  vêem  os  jesuítas,  os  verdadeiros  campeões  da  Renas- 
cença, aquelles  a  (luem  ella  bem  deveras  deveu  o  poder  deixar  no 
solo  portuguez  amostras  completas  da  sua  genuína  íniluencia.  Entra- 
se,  emfmi,  em  plena  decadência  com  os  Philippes.  D'ahi  até  o  fim  do 
reinado  de  D.  Pedro  11,  os  altenlados  contra  a  sombra,  seijuer,  do  que 
fossem  Artes  succedem-se  ininterrupta  e  consecutivamente. 

Bem  sabemos  que  o  terremoto  de  1755,  derruindo  muitos  edifícios, 
mesquinha  e  toscamente  reparados  em  seguida,  foi  causa  de  se  nos  apre- 
sentarem esses  ediíicíos  com  o  aspecto  miserando  que  ahi  lhes  vemos. 

Fazendo^  porém,  a  i)arte  a  essa  circumstancia,  íica-nos  ainda  muito 
com  que  justilicar  as  nossas  asserções. 

A  partir  de  D.  João  V  se  pôde  estabelecer  a  segunda  das  subdivi- 
sões propostas  para  a  historia  d'este  período.  Essa  nos  levaria  até  o 
fim  do  regimen  absoluto. 

A  decadência  do  primeiro  período  é  terrível ;  é  a  da  miséria  andra- 
josa. A  do  segundo,  graças  aos  milhues  de  que  dispoz  o  Salomão  por- 
tuguez, é  a  miséria  dourada,  perdulária,  extravagante,  vasia  de  senti- 
mento no  reinado  do  fundador  de  Mafra;  mesquinha,  fóssil,  utilitária, 
no  seguinte;  parasita,  emfim,  nos  dois  últimos;  é  como  a  decadência 
da  decadência. 

Exhausta  do  ouro  com  que  tríumphára  a  vida,  primeiro,  e  depois 
agiotara,  chegou  a  viver  apenas  do  reflexo  dos  veliios  dobrões  de  D. 
João  V  e  das  reminiscências  do  Erário  do  grande  Pombal. 

Dahi  até  ao  expirar  de  todo  o  movimento  artístico,  até  á  iucta 
armada  pela  liberdade,  tudo  são  allegorias,  a  ultima  expressão  de 


72  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

decadência  na  arte.  Allegoria  em  pintura  com  Vieira  Lusitano,  com 
Cyrillo,  com  Sequeira,  allegoria  em  esculptura  com  Aguiar  e  os  auclo- 
res  de  todas  essas  Virtudes  que  decoram  os  nichos  do  alrio  d' Ajuda ; 
allegoria.  emlim,  na  gravura,  pelas  inirnrõcs  do  melhor  mestre  que 
ainda  tivemos  neste  ramo  das  artes,  o  perilissmio  Joaquim  Carneiro 
da  Silva. 

# 

Nas  cortes  de  15G2,  um  dos  capítulos  apresentados  pelo  braço  po- 
pular pediu  que  «se  não  [)erm!tlisse  o  estabelecimento  de  ?iovos  mos- 
teiroSj  porque  os  existentes  eram  já  de  mais,  e  se  tornavam  nocivos  e 
enfadonhos  com  os  peditórios».  Ora,  desde  os  últimos  annos  do  rei- 
nado de  D.  IManuel  até  o  fim  do  reinado  de  D.  Pedro  II,  excederam 
de  cincoeiíta  as  varias  edificações  religiosas  levadas  a  eífeito  só  em 
Lisboa.  Entre  os  vinte  e  cinco  annos  que  vão  de  lGi7  a  IG72,  isto  é, 
entre  D.  João  IV  e  seu  desgraçado  filho  AíTonso  VI,  se  repartem,  d'es- 
sas  cincoenta  e  tantas  edificações,  doze  conventos  ou  mosteiros. 

E  a  quem  quer  que  passar  da  Esperança  para  Alcântara  azinha  se 
lhe  offerecerá  a  occasião  de  supprir  pelo  seu  só  critério  uma  parte 
d'esse  mesmo  desconsolado  inventario. 

O  mosteiro  da  Esperança,  com  as  misérrimas  memorias  d'esse 
vergonhoso  divorcio  que  tão  repellentes  tornou  as  fragilidades  de  uma 
mulher  rainha;  perspectiva  desenxabida  eenesgada, feita  de  molde  para 
justificar  alguma  vez  a  summaria  alçada  do  camartello  municipal ;  o  das 
Bernardas,  casarão  enorme,  cujo  brutal  aspecto  parece  estar  desafiando 
os  mais  violentos  terramotos,  o  convento  dos  Maiiannos,  com  todas  as 
mar/nificencias  que  d'elle  se  lêem  na  Corogra[)hia  de  Carvalho,  a  hu- 
milde fundação  do  cardeal  Alberto,  tão  pouco  em  harmonia  com  as 
possanças  de  um  governador-archiduqne,  S.  João  de  Deus,  convertido 
em  quartel  d"infanteria,  o  mosteiro  do  Sacramento,  com  aquelle  ele- 
gantissimo  paredão,  séteirado  de  miseráveis  frestas,  que  todos  nós  co- 
nhecemos, os  que  passamos  entre  a  Pampulha  e  a  Praça  dArmas;  o 
da  Quietação,  emfim,  ou  das  Flamengas,  hoje  dentro  da  cidade,  na  or- 
dem das  edificações  do  género,  a  mais  antiga  das  que  temos  nomeado, 
e  não  menos  attestadora  úo  goslo  (\i\e  reinou  em  Portugal,  de  Alcacer- 
Kebir  por  diante. 

Como  amostra  do  que  foi  a  architectura  civil  sumptuosa  em  Lis- 
boa, e,  póde-se  dizer  em  todo  o  reino,  nessa  lobrega  treva  artística 
dos  restos  do  XVI  século  e  de  lodo  o  XVII,  alii  temos  o  i)alacio  Minas, 
adiante  das  Albertas,  do  lado  op[)osto,  e  junto  a  S.  João  de  Deus  o 
solar  dos  condes  de  Óbidos,  casarão  inmienso,  em  que  a  insipidez  do 
todo  e  a  chateza  da  concepção  disputam  [)rimasias,  com  vergonha  da 
arte  e  opprobrio  do  gosto. 

Mas,  comquanto  aborrecida  e  ei'ma  de  interesse  perante  os  mil  ve- 
zes mais  nobres  intuitos  da  arte,  a  enumeração  de  todos  esses  despri- 


RKVISTA    ARCIIKOLOaiCA  73 


mores  e  suas  causas,  se  não  é  absoIíUamenle  indispensável  ijara  a 
coinpreiíensão  do  nosso  profundo  nnarasmo  polilico-arlislico,  ajuda-o 
graiidenionle. 

Kxpicssão  reflexa  da  irremediável  atonia  da  nação,  o  concurso  de 
circiinis(;iiicias  que  orií^iiiaiu  a  coriiplela  auzeiícia  de  gosto  ailistico  em 
Portugal,  a  partir  da  inal  estrelada  intrusão  da  Uenascença,  merece 
ser  amiudado.  Contiibuindo  á  sua  parle  para  completar  o  quadro  ainda 
mal  esboçado  d'essa  parcella  da  aguarentada  vida  da  sociedade  portu- 
gueza,  na  phase  mais  descolorida  e  tiistoiíha  que  ella  ainda  atraves- 
sou, um  transumpto  do  que  foram  entre  nós  os  seiscentistas  das  ar- 
tes, tão  completo  como  o  temos  do  que  foram  os  seiscentistas  das  let- 
tras,  não  seria  decerto  nem  menos  bem  vindo,  nem  menos  bem  acceito. 

Para  satisfazer,  porém,  ao  propósito,  quasi  tudo  está  [)()r  fazer.  Na 
verdade,  mais  de  um  investigador  paciente  tem  illustrado  a  longa  e 
fastidiosa  tarefa  preparatória  com  muitos  e  valiosos  subsidies,  colhi- 
dos nas  chronic^s  e  memorias  que  o  grande  terramoto  e  o  incêndio 
subsequente  respeitaram,  e,  com  summo  gosto  o  confessamos,  é  ainda 
na  esteira  dos  corajosos  pesquizadores  cujo  perclaro  alento  nos  anima, 
que  hoje  nos  empenhamos  no  estudo  que  vae  seguir-se.  A  própria  na- 
tureza d'elle,  porém,  nos  patenteia  a  extensão  enorme  da  senda  que 
ainda  ha  de  percoi"rei',  quer  pela  variedade  dos  assumptos,  quer  pela 
necessária  copia  de  noticias  a  cuja  pesquiza  elles  hão  de  necessaria- 
mente dar  occasião,  (pierendo-se  fazer  alguma  cousa  com  consciência. 

Não  basta,  porém,  aggiomerar  pormenores,  reunir  noticias,  apurar 
datas,  colher  informações,  dar-se  emfim,  constante  e  persistentemente, 
ás  duas  occupações  mais  ingratas  que  um  homem  de  letlras  conhece : 
ler  chronicas  de  frades  e  decifrar  emaranhados  pergaminhos. 

É  preciso  applicar  a  critica  a  todos  esses  elementos,  armando  com 
cila,  e  com  os  dados  obtidos,  curtas  mas  substanciosas  monographias, 
|)or  meio  das  quaes,  e  merco  de  uma  ordem  racional  na  escolha  dos 
assumptos,  se  vão  pouco  e  pouco  soldando  umas  ás  outras,  as  diffe- 
rentes  épocas,  até  formarem  completo  corpo.  E  preciso  mais;— é 
preciso  ter  a  abnegação  precisa  para  não  aspirar  a  ruidosas  nomea- 
das, e  deixar  aos  que  vão  triumphando  a  vida  banal  e  apparatosa- 
mente,  o  pens.irem  que  foi  só  para  gloria  d'elles  (jue  se  fez  o  sol  que 
a  lodos  nos  allumia. 

Os  Frias,  não  só  os  já  conhecidos  e  apontados  no  Diccionario  de 
Raczynski,  mas  os  que  este  estudo  vae  dar  a  conhecer,  estão  bem 
longe,  como  artistas,  de  merecer  altos  conceitos,  embora  o  que  con- 
siderare;nos  como  [»alriarcha  da  fnmilia,  Nicolau  de  Frias,  passasse  á 
posteridaiJo,  pela  penna  do  monge  chronista  d"el-rei  D.  Sebastião  como 
«grande  architeclo».  Fr.  Bernardo  da  Cruz,  mencionando-o  a  par  de 
Philippe  Terzo,  a  ambos  fez  commum  o  encómio.  O  architecto  italia- 
no, porém,  foi  mais  feliz  do  ijue  o  seu  confrade  portuguez ;  deixou 
justificação,  (jue  ainda  hoje  depije  do  seu  mérito  verdadeiro^  tendo 


74  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

allenção  ao  lempn,  á  feijão  da  arte  então  predominante  e  ao  meio  e 
recursoí  em  que  se  produziu  e  de  que  dispòz. 

De  Nicolau  de  Frias  nada  conhecemos,  e  as  obras  que  sabidamente 
dirigiu,  —  as  dos  Paços  da  Uibeira,  subverteu  as  o  terramoto.  Seu  fi- 
lho egnalmente  architecto,  passou  até  agora  ignorado,  e  a  uma  fortuita 
circuuislancia  vae  a  sua  memoria  dever  o  ser  conliccido  pelo  que 
d"elle  temos  a  dizer  no  estudo  que  vae  seguii'-se.  Seu  neto, 
Qieucionado  equivocadamente  como  seu  fillio  pelo  conde  de  Uaczynski, 
ou  antes  pelo  sen  venerando  collaborador,  o  visconde  de  Juromenha, 
do  mesmo  modo  merece  apenas  a  menção  de  existência,  que  lhe  pro- 
veiu  de  lhe  ser  encontrado  o  nome  nas  chancellaiias  philippinas.  De 
um  bisneto,  emtini,  de  Nicolau  de  Frias,  se  é  que  não  erramos,  ape- 
nas agora  apparecerá  menção. 

Não  é  pois  porque,  insignes  pelas  obras  que  deixassem,  credores 
emfim  de  celebrada  memoria,  intentemos  hoje  em  modesta  pagina 
'vingar  os  Frias  do  esquecimento  ingrato  das  gerações.  É  pelo  contra- 
rio, porque  esta  familia  de  architectos  de  pães  a  filhos,  representante 
das  tradições  da  arte,  cúmplice,  certamente,  nas  degenerescências 
d'ella  por  annos  e  annos  de  successiva  decadência^  tem  justamente  na 
tela  da  historia  artística  de  Portugal  o  logar  que  na  historia  lilteraria 
d'elle  occupara  os  gongoristas.  Os  deméritos  de  que  deixaram  altes- 
tado,  e  as  causas  d"elles  não  teem  só,  taes  quaes  são,  o  direito  de  ser 
julgados  à  luz  da  critica  imparcial;  é  mister  mais  alguma  cousa:  é  mis- 
ter que  esse  julgamento  se  dè.  E,  pois  que  nem  o  eloquente  António 
Vieira,  nem  o  illustre  polygrapho  D.  Francisco  Manuel,  com  todo  o 
seu  talento,  podcram  escapar  á  soporifica  e  tantas  vezes  amaneirada 
influencia  da  péssima  corrente  lilteraria  do  seu  tempo,  não  poderão 
achar  indulgência,  acaso,  perante  o  espirito  desprevenido,  os  desacer- 
tos artísticos  d'esses  homens  em  quem  a  arte  passou  em  património 
numa  época  repassada  de  todas  as  desditas  do  captiveiro? 

Digamos,  pois,  dos  Frias  o  que  já  podemos  apurar,  e  fiemos  que, 
se  por  elles  exclusivamente  não  vale,  talvez,  a  pena  entrar  em  gran- 
des pormenores  e  investigações,  não  será  de  todo  inútil  o  trabalho  que 
ellas  representem  para  o  pecúlio  de  informações  e  noticias,  sempre 
curiosas  e  interessantes  sempre,  mesmo  quando  se  referem  a  uma 
época  em  que,  a  respeito  da  arte,  se  pôde  escrever  o  mesmo  que  na 
terra  escreveu  o  morto  de  Goia,  solevantaudo-se  da  sepultura:— A^í/a  / 


Quando  ha  um  anno  nos  occupámos  do  Convento  das  Flamengas, 
em  Alcântara,  nas  quatro  cartas  que  escrevemos  ao  director  do  Com- 
mercio  de  Portugal  *,  era  nossa  intenção  continuar  a  dar  conta  de  algu- 


I  N."'  2259,  2263,  2280  e  2298. 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA  75 


mas  cuiiosidades  mais,  áquelle  exiincto  mosteiro  referentes.  Mas,  não 
tendo  podido  até  agora  dar  seguimento  a  esta  matéria,  volvemos  de 
novo  a  occupar-nos  d"ella  nas  paginas  desta  Ikvista,  especialmente 
dedicada  aos  assumptos  da  ordem  d'este  que  temos  tractado. 

Nas  cartas  alludidas,  não  só  dêmos  noticia  de  se  achar  depositado 
o  coração  d'elrei  D.  Pedro  II  na  capella  mór  da  egreja  das  Flamen- 
gas, conforme  a  inscripção  latina  da  lapide  que  encerra  o  deposito, 
como  summaiiámos  o  Iheor  de  um  livro  raro  que  por  essa  occasiOo  se 
nos  deparou,  livro  de  que  não  sabemos  que  ande  noticia  impressa,  e 
que,  pareccndo-nos,  [)elo  titulo,  dever  conter  espécies  não  conhecidas 
acerca  da  fundação  do  convento,  pouco  mais  adianta  por  fim,  ao  poiíco 
já  sabido  ^ 

Quanto  à  inscripção  da  pedra  que  encerra  o  coração  de  D.  Pedro 
II,  agora  a  transcrevemos  com  a  fidelidade  que  cila  não  poude  obter 
então,  attendendo  a  não  ser  a  folha,  em  que  foi  [)ublicada,  especial  para 
esta  espécie  de  estudos.  A  lapide  mede  (),'"o()  de  largo  por  0,"'4i  de 
alto,  comprehendidos  os  cordões  que  a  enquadram. 


Cor  jacet  híc  Petrí 

Regís  mortale  secundí 

Cor  vivEBAT  vbí 

CONTVMVLATUR     ÍBÍ 


Como  se  acha  o  coração  d"el-rei  D.  Pedro  II  neste  logar?  Eis  o 
que  não  é  possível,  por  ora,  dizer.  O  irmão  de  D.  Affonso  YI  fez  testa- 
mento na  cidade  da  Guarda,  vinte  e  sete  meses,  proximamente,  antes 
de  morrer  (IO  de  setembro  de  ITOi).  Esse  documento,  publicado  na 
Ilist.Geaneal.da  C.ReaV-  não  contem  disposição  alguma  a  tal  respeito  refe- 
rente. «O  meu  corpo  será  sepultado  na  Igreja  de  S.  Vicente  de  Fora, 
junto  do  Tumulo  da  minha  sobre  todas  muito  ainada,  e  prezada  mo- 
Iher  D.  Maria  Sofia  Isabel,  que  está  em  Gloria.»  É  quanto  o  monarclia 
dispoz.  Nada  mais  neste  ponto  dizendo  este  testamento,  será  verosí- 
mil a  supposição  de  que  tal  deposito  se  tenha  effectuado  por  desejo 
verbal,  expresso  pelo  rei  in  articulo  mortis'!  Parece,  cremos;  até  por- 


1  Relacion  de  como  se  ha  frndado  en  Alcântara  de  Pnrtvqal  irntoa  Lisboa,  el 
mu\i  devoto  Monasterio  de  A'.  S.  de  la  Quielacion,  por  la  Calholica  Magestad  dei  Rey 
N.  S.  D.  fhelippe  II  de  gloriosa  memoria,  para  las  monjas  peregrinas  de  S.  Clara 
de  ta  primera  regia,  venidas  de  la  Província  de  Alemania  Baxa,  despues  de  los  he- 
herejes  las  auer  perseguido,  y  desterrado  de  tierras  en  tierras  por  quatro  vezes.  Com- 
puesta  por  la  madre  sor  Catttalina  dei  Spiritu  Sanrto  Monja  dei  inismo  Monasterio. . . 
En  Lisboa,  Por  Pedro  Craesbeeck  Lipressor  dei  Re;/.  Ano  1621. — 8.». 

2  Provas  da  llist.  GeneaL,  vol.  V.  pag.  86-87. 


76  REVISTA   ARCHEOLOGICA 


que  nenluima  outra  explicação  se  nos  afigura  mais  consentânea  com  a 
verdade.  Couio  quer  tjue  seja,  um  tal  acto  não  se  realisou  sem  forma- 
lidades. A  honra  que  as  religiosas  Flauiengas  receberam,  devia  de  ter 
notoriedade,  certamente.  Não  houve  alguma  ceremonia,  não  se  lavrou 
termo  algum  (Testa,  não  se  cobrou  recibo  de  tão  precioso  deposito,  não 
íicou  conuneuiorada  na  escripta,  mais  ou  menos  perfeita,  das  religiosas 
memoria  alguma  de  tal  fado? 

Pela  nossa  paite,  confessamol-o,  com  quanto  nos  parecesse  que  o 
deposito  do  corarão  de  D.  Pedro  11  na  capella  mór  da  egreja  das  Fla- 
mengas de  Alcântara  era  facto  que  havia,  até  que  da  sua  existência 
demos  noticia,  passado  desapercebido,  sempre  esperámos  como  espe- 
ramos ainda,  poder  esclarecel-o  e  explical-o  melhor.  Por  emquanlo, 
porém,  temos  de  nos  contentar  com  estas  sós  considerações. 


Daremos  agora  breve  noticia  das  inscripções  das  campas  que  estan- 
ceiam  ao  centro  do  corpo  da  egreja  e  outras. 

Descendo  do  arco  do  cruzeiro  para  o  corpo  da  egreja,  lè-se  pois 
na  primeira  campa:  S."  de  Simão  Granaet  e  de  sua  molher  e  herdeiros. 
Faleceo  em  12  de  abril  de  1682.  Na  segunda :  S."  de  Manoel  da  Silva 
Louzado  e  de  sua  molher  Isabel  da  Silra  e  de  céus  (sic)  herdeiros,  o  qual 
faleceo  em  17  de  fevereiro  de  1083. 

A  terceira  inscripção  é  a  que  mais  abaixo  vamos  dar. 

Concisa,  mas  eloquente,  se  apresenta  a  quarta  inscripção,  que  nas 
sós  duas  linhas  que  a  compõem  vale  por  um  epitaphio  inteiro,  se  não 
é  um  commcntario  verberante  da  triste  epocn  a  que  se  refere.  Reza 
assim:  S."  de  Pedro  Fernandes  pae  de  três  filhas  religiosas  neste  con- 
vento, F.  a  2  de  Dezembro  de  1640. 

Ha  ainda  uma  sepultura,  que  parece  ser  a  primeira  que  na  egreja 
se  abriu,  de:  Jerónimo  Anriques  e  de  Grocia  da  Veiga  sua  molher  e  de 
seos  herdeiros,  f.  ella  a  20  de  junho  de  1588,  elle  a  2  de  novembro  de 
lõOõ;  o  a  de  João  Antunes  e  de  sua  molher  Domingas  Roiz.  Ha,  final- 
mente, a  sepultura  de:  Duarte  Smite  e  de  Joanna  Galoa  e  de  seus  her- 
deiros, e  d  de  Álvaro  de  Castro  Maqedo,  etc,  ele,  ele. 

Ambas  estas  ultimas  campas  datam  de  IGOi.  A  primeira  está  ar- 
rumada ao  centro  da  |)arede  do  corpo  da  egreja,  á  parte  do  Evange- 
lho; vè  se  a  segunda  encostada  á  parede  do  lado  opposto,  ao  fundo  da 
egreja,  por  de  traz  do  guardavenlo  da  porta  da  entrada,  que  é  lateral, 
e" virada  a  nascente.  Fsla  segunda  campa  está  quebrada;  tem  escudo 
d'armas  bipartido:  seis  arruelas  e  Ires  cruzes  de  Santiago  a  ''lustram. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA  77 

Venlinmos  .igora  á  terceira  inscripção  apontada,  que  oi-igiiiou  o  pre- 
sente estudo. 

A  ionsa  que  a  contém,  é.  como  se  disse,  a  terceira,  descendo  do 
cruzeiro,  no  corpo  da  egreja.  Mede  de  altura  I, '"!)()  e  de  largura  tem 
(),"'S7.  A  inscriprâo  eslá  emoldurada  por  um  duplo  coidão  de  desegual 
grossura,  sendo  as  medidas  lomadas  de  extremo  a  extremo  do  coidão 
externo.  Diz  o  seguinte: 

A 

S    PEFíPETVA    DE     TlIEODOSIO 

E)  FRi.AS  CAVAl!^°  FIDALGO  K)  CA 

SA  D  S  M'^  SEV  ARCHÍTECTO  E 

MESTRE  D  SVAS  OBRAS  E   K)  CÍ 

5     DADE  B  L^^E  ARCEBFDO  ÍVÍS  DA 

sic   BABACA  DA   CASA   DA  iMOEl^^  DIA 

F°  D  NÍCOI  AO  F)  FRÍAS  CAVALR° 

DO  A  BI  TO  DXPO  E   ARCHTE 

CTO   D    O   DITO    SÕR    E   D   SVA 
loMOLHER    D   LIANOR  PREÍRA    sic 

OS  QVAiS  POR  GRÃD  FJVACÃ    sic 

Q    TiVERAÕ    A   ES'ES    CÕSZÍTO    sic 

ESCOLFERAÕ    ES^E   ÍAZÍGVO 

PREPETVO  NELE  E  F ES  AS   RA    sic 
i5  SAS    DO   M0ST''°    novo    POR 

MANDADO    E)    SVA   M^'  Ca   A  ORB 
sic   DO    QVAL     COREO    ÉQVÃTO    VI 

\E0  POR  AMOR  E)   DS  FALECEO 

5ZC    E  L  L  A     A     !  8     D     D  E  Z  E  N  B  R 

2oODÍ627EELLEAÍÍB 

N  O  VENBRO   E)    í  6  24 

Estamos,  pois,  em  presença  da  sepultura  de  um  architecto  de  que 
até  hoje  não  houve  menção  impressa,  e  pelo  decurso  d'este  estudo  se 
verá  que  não  é  só  este  nome  que  ha  de  dora  avante  ir  augmentar  a 
lista  dos  artistas  porluguezes  cuja  memoria  anda  perdida. 

(ConliniiaJ. 

Gomes  de  Brito. 


78  REVISTA  AKCHEOLOGICA 

8ELL0  ANTIGO  DE  FERREIRA  DO  ALEMTEJO 

(est.  v) 

D'nm  mokle  em  gesso,  que  faz  parte  das  collecções  da  Bibliotheca 
Publica,  foi  copiado  este  sello,  de  que  lambem  possue  um  molde  o  sr. 
J.  J.  Júdice  dos  Santos. 

Ferreira  do  Alemtejo  c  muito  antiga.  São  poucas  c  insignificantes 
as  noiicias  a  eiia  relativas,  antes  de  ITJIT,  anno  em  que  D.  Manuel 
lhe  deu  foral. 

Alguns  auclores.  invocando  a  tradição,  comprazem-se  em  referir 
que  esta  povoação  fora  cidade  no  tempo  dos  romanos,  com  o  nome 
de  Siiifjn,  e  que  nella  se  tornara  celebre  uma  matrona  defendendo 
valorosamente  a  porta  do  castello  da  mesma  cidade,  por  occasião  da 
invasão  golliica  e  sueva;  e  que,  para  commemorar  o  feito,  tomáia  a 
povoação  por  armas  uma  figura  de  mulher  com  dois  malhos  nas 
mDos. 

Eu  não  repetiria  esta  lenda,  se  ella  não  tivesse  uma  remota  relação 
com  os  symbolos  representados  no  sello. 

O  sclío,  de  forma  ligeiramente  elíptica,  tem  no  maior  eixo  0"\074 
e  no  menor  0'",071.  Representa  uma  ligura  humana,  de  pé,  de  frente, 
segurando  na  mão  esquerda  um  martello  ou  malho,  e  na  direita  umas 
tenazes;  tem  ao  seu  lado  esquerdo  uma  bigorna.  Á  direita  da  figura 
vè-se  uma  torre  com  suas  ameias;  á  direita  da  torre  uma  espécie  de 
tropheu  composto  do  bordão  e  da  concha  de  peregrino  a  Santiago. 
O  trajo  da  figura  é  um;i  simples  túnica,  apertada  na  cintura,  que  desce 
até  aos  joelhos.  Parece  que  houve  a  intenção  de  representar  nús  os 
braços,  as  pernas  e  os  pés. 

A  inscripção,  que  começa  conforme  o  costume  no  alto  do  sello,  é 
composta  de  lettras  onciaes  e  caracteres  romanos,  predominando  todavia 
o  emprego  d'estes.  Diz  o  seguinte  : 

S{ello)  DE  CONCELHO  D{e)  FERERA  D{e)  BEIA  IB  FABER 
PS  ANNES  JRO  PERUERIDOR 


A  primeira  metade  da  inscripção  não  apresenta  difficuldadc  alguma. 
Não  succede,  porém,  o  mesmo  com  o  resto,  que  é  para  mim  incom- 
prehensivel.  A  divisão  que  dou  das  palavras  é  a  que  me  parece  mais 
plausível.  Accode  ao  espirito  lei':  ib(ij?  fabcr  P(elru)s  Aunes  v(e)ro? 
perveridor  (provedor?);  mas  não  tenho  confiança  alguma  nesta  inter- 
pretação, que  demais  a  mais  não  se  fundamenta  em  exemplo  que  eu 
conheça. 


REVISTA  ARCIIEOLOGICA  79 

Folgarei  com  que  alguém,  mais  hábil  ou  mais  feliz  do  que  eu,  con- 
siga dar  uma  iiilerprelação  mais  sustentável  a  esta  inscripção,  e  ex- 
plicar satisfatoriamente  o  symbolismo  deste  sello,  que  é  deveras  curioso. 

Borges  de  Figukihkdo. 


BIBLIOGRAPHIA. 

(As  publicações,  com  cuja  troca  se  honra  a  Rkvista  AnciiKoi.OGirA.  mo  mmciunadas 

pela  ordem  da  recepção) 

BoLLKTTiNo  PKi  l'i.\ii'i:ri.\lk  Istituto  Ancin:oLO<jico  Germânico.  Sus- 
sione  romana.  Vol.  11.  Uoma,  1887. 

Esta  publicação,  replecta  de  óptimos  artigos  de  archeologos  aba- 
lisadissimos.  e  primorosamente  illuslrada,  é  um  dos  melhores  reposi- 
tórios da  sciencia  aicheologica. 

Basta  enunciar  os  trabalhos  que  compõem  este  volume,  e  os  nomes 
de  seus  auctores,  para  se  conhecer  lodo  o  interesse  que  desperta  e  que 
logar  eminente  occupa  entre  as  publicações  doeste  género.  Eil-os: 

W.  Helbig,  Sopra  nu  rílrallo  di  [Jrin.  —  G.  Ilcnzen.  hrr/zionc  tivvata  pressa 
la  palteria  dei  Fnrlo — Gonte  di  Monale,  Delle  antichità  falisdie  venufe  alia  lace  iii 
Civila  Castellane  e  in  Corckiano  e  delia  vhicazione  di  Fesrennia  —  F.  DííiihiiUt, 
Iscrizione  delia  fibnla  preuestina — H.  Heydeiiiann,  Le  frecce  amorosi  di  Eros  — 
Sitznn(isproloc(dle  —  G.  B.  de  fiossi  e  w.  Hclliiir,  Commemorazioite  di  G.  llenzen 

—  G.  toinmazi-Oudelli,  Aleune  riflessione  sul  liiiita  deWunlicha  Roma — F.  Slu- 
dniczka,  Arrhaisrhe  Urunzestatue  des  Fiirslen  Sciarra  —  \.  Man,  Sravi  di  Pnnipei, 
J885  86  —  G  Liiínnna,  Supra  ilscrizioiíe  delia  fdiula  prenestina  —Misrellanea  epí- 
graphica  —  ^\.  Ilolhig,  Speccliio 'etrusco  —  Sitzuinjsprotocolle — W.  Holliiir,  Scavi  di 
Corneto — 1^.  Ilariwig,  Testa  di  Helios  —  Id.,  Rapporto  su  una  serie  di  tazze  atti- 
clte  a  ftcjure  rosse  con  nomi  di  artisti  e  di  favor iti,  raccolta  in  Uoma — F.  Duetiim- 
ler,  Ueber  cine  Classe  griescliischer  Vasen  niit  sclnrarzen  Fiç/nren  —  P.  Steltiner, 
Considerazione  sulT  Aes  grave  etrusco  —  G.  Lignana,  Iscrizione  fídisrlie —  F.  13ar- 
nal)ei,  Uel  litiello  di  Cerminio  Eutichete — A.  Mau,  Sul  significato  delia  parola  p  e  r- 
gula  neWarchitletura  anlicha  —  G.  F.  Gamurrini,  Deli  arte  antichissima  in  Roma 

—  F.  V.  Dulin,  La  necropidi  di  Suessula — G.  Pauli,  Inscriptione  sclusinae  ineditae 

—  Dessau,  Un  arnica  di  Cicerone  ricorduto  da  un  bollo  di  mallone  di  Preneste  — 
Sitzungsprotocolle. 

Boli:tin  de  la  Institucion  libue  de  Ensenanza.  Madrid.  Tomo 
XU,  n.°^  Í62>20o. 

Órgão  da  justamente  acreditada  Instituição  madrilena,  esta  publi- 
cação quinzenal  occupa-se  de  sciencias,  litteratura,  pedagogia  e  cul- 
tura geral,  e  tem  já  prestado  relevantes  serviços. 


80  REVISTA  ARCIIEOLOGICA 

Traz  o  seguinte  artigo  archeologico : 

N."  260.. .  Sepulcros  de  los  siglas  XIJI  y  XIV,  por  D.  D.  Sulor  (I.  Carácter 
coniun;  ejoiuplos  011  ,i'orliii:al,  Casiilla,  ele.  —  II.  Siglo  XIII:  las  Ilucigas.  —  III. 
Inllticncia  ilaliaiia.  —  IV.  Uso  de  ooluinnas  y  do  rolioves;  iiilkijo  áiahe.  —  V.  Sigio 
XIV;  iiilhifiicias  italiana  y  gcnuáiiica.  —  VI.  Laudas  de  bioiicc.  —  Vil.  Ejenii)los). 


Ri:vrK  AucHKDLOGiQrK,  piibliée  sons  la  direclion  de  MM.  Alex. 
Beiliaiid  el  G.  Penol.  l'aiiá  —  Tiuisiòme  série.  —  Tome  XI;  Janvier- 
l-uvrier  188S. 

Os  nomes  illnstres  dos  srs.  Alex.  Bertrand  e  G.  Perrol  bastara 
para  dar  toda  a  importância  a  esta  publicação,  optimamente  illusliada 
(jue  ha  tantos  annos  se  itnblica  em  l*aris,  e  que  Ião  grandes  serviços 
lem  prestado  á  sciencia  arclieolegica.  Tecer-lhe  aqui  elogios,  pareceiia 
preteução  de  lecommendal-a;  a  sua  recommendarão  está  na  sabia  di- 
recção d"aquelles  grandes  mestres  e  na  excellencia  dos  trabalbos  fuma- 
dos por  arclieologos  dislinclissimos. 

Eis  o  suuuuario  da  licraison  de  janeiro-fevereiro: 

Saloiiioii  l{('inach,  Lllciiiiès  de  Praxitèle  —  E.  Rcnan,  Insci/ption  phénieienne 
et  grccque  déconverte  au  Pirce  —  E.  Muntz.  LAntipape  Clénieitt  17/.  Essai  snr 
riiistoire  des  Aits  á  Avigno)i,  rers  la  fin  du  XVe  siède  —  Salomon  lieinacli.  Sta- 
tuelte  de  fenuiie  ganhme  an  Mnsik'  briUmique  —  Deludic,  Eludes  siir  gnelques  ca- 
cheis et  anneaux  de  féjoche  wérovuigieiuie  (suite)  —  l\.  Cagiiat,  Xule  sur  une  pla- 
que de  brouze  découcerte  à  Crémone  —  Eiigène  líévillout,  Une  coufrérie  égi/pHeune 
—  A.  L.  des  Ortiieauv,  Observation  sur  le  itiode  d'eiiiploi  du  inurs  de  bronze  de 
Mfpriugen  —  Salomon  iieiíiach,  Chroniqne  d'Orient  —  Bullelin  viensuel  de  VAiadé- 
mie  des  iuscriptious  —  Sociíié  naliouale  des  Anliquaires  de  Fríuice  —  ]\.  Cagiiat, 
JSécrolíigie  —  Xoucelles  arcliéologiques  et  co)Trspuiidance  —  Bibliugraphic  —  R.  Ca- 
giiat,  Heiue  des  publications  épígraphiques  relatives  à  lanliquité  roíiiaine. 


13  LETiN  DEL  Centiio  Altistico  DE  GnAx.\r.\,  publicacion  quincenal 
ilustrada.  Granada.  Ano  IIÍ,  Tomo  II,  n.°^  25,  28—32,  34—40. 

Publicação  interessante,  com  excellentes  artigos  sobre  variados  as- 
sumptos artísticos,  arclieologicos  e  lillerarios,  promette  tornar-se  uma 
das  melhores  publicações  hispauholas. 

Entre  outros  artigos,  traz  os  seguintes  trabalhos  de  archeologia: 

N.'-  28  Iliberis  y  Granada  por  Reinaldo  Dozy  (continua  no  n."  29) — La  ense- 
Tianza  de  la  arqueologia  eu  los  Seminários  por  A.  Caro  Riailo  (continua  nos  11.°' 
29  e  .30). 

N.o  30  Elvira  por  M.  Gómoz  Moreno  (continiia  nos  n."'  o2,  34,  3o,  36,  37,  39 
e  40.) 

N."  39  lainistica  espanola,  de  la  cruz,  dei  crucifijo  y  de  la  Virgen  en  los  siglos 
medias,  conferencia  por  F.  Bricva. 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA  81 


LAS  DIEZ  CIUDADES  BRACARENSES 

NOxAÍBRADAS  EN  LA 

INSCRIPCIÓN   DE   CHAVES 

I 

El  ilustre  geógrafo  Senor  Don  António  Cardoso  Borges  de  Figuei- 
redo *  publico  hace  ires  anos  como  parte  de  sus  Ántigiias  Ciudades 
Vorliifjuezas  re.síituidas  d  gloriosa  vida  histórica,  magistral  estúdio 
acerca  dei  Foram  Naebisocuni,  ciudad  mencionada  en  un  monumento 
lapideo  inmedialo  ai  i)uente  de  Chaves;  la  cual  tan  esciaiecido  escritor 
conjelura  íiaber  existido  en  el  monte  Louzado,  junto  á  Ponte  de 
Anliel. 

El  Senor  Borges  es  el  primero  que  por  médio  de  la  prensa  ha 
hecho  pública  la  distracción  inexplicable  de  muchos  escritores  nacio- 
nales  y  extranjeros,  ai  no  reparar  que  las  diez  ciudades  mencionadas 
en  la  famosa  inscripción  van  todas  colocadas  por  orden  alfabético,  y 
que  de  consiguiente  los  epigrafistas  no  habian  leido  bien  el  octavo  de 
los  nombres  geográficos :  allrmación  más  exacta,  de  seguro,  que  la 
de  suponer  fuera  de  su  sitio  en  la  piedra  aquella  oclava  ciudad.  Nues- 
tro  clarisimo  Flórez  lo  mismo  (jue  el  insigne  Iliibuer  habian  dejado 
correr  la  insostenible  lecciún  de  Acbisoci,  en  lugar  de  Nai;bisoci,  que 
es  la  recta  á  muy  poço  que  se  rellexione  sobre  el  particular. 

Más  de  quince  anos  hace  que  tengo  concluídas  mis  monografias 
geográfico-históricas  de  la  Espana  Antigua;  y  en  la  de  Brácara  habia 
íijado  ya  resueltamente  la  lección  Naebisoci.  Sobre  el  particular  llamé 
entonces  y  después  he  llamado  varias  veces  la  atenciòn  de  mis  ami- 
gos y  académicos  más  distinguidos  y  entendidos  en  este  linage  de 
estúdios,  ai  consultarles  si  eslimaban  plausible  mi  conjetura  de  haber 


*  Se  eu  me  pDtlesse  julgar  auctorisado  a  fazer  qual([ucrmoilificaoão  nesta  impor- 
tanlissima  memoria  do  insigne  archeolog(,  e  goograplio  e  meu  dilecto  amigo,  o  sr. 
D.  Aureliano  Fernández-Ciuena  y  Orljo,  certamente  supprimiria  as  lisongeiras  pala- 
vras que  me  dirige.  Xão  me  considerando,  porém,  com  direito  a  fazel-o,  consiíjno 
a(pii  piihlicametUe  o  meu  cordial  agradecimento  ao  iliustre  l)iljliothecario  da  Real 
Academia  Espanola  e  venerando  Antiquário  da  Real  Academia  de  la  Hisloria,  pela 
benevolência  extrema  com  que  trata  a  mim  e  aos  meus  trabalhos.  —  Iíorges  dk  Fi- 

GUlilKEDO. 

Rev.  Arch.,  n.o  6  —  Junho  1888.  6 


REVISTA  AIÍCHEOLOGICA 


podido  occupar  los  Naebisocos  el  território  de  Naballo,  hacia  el  na- 
cimienlo  de  los  rios  Tuela  y  Mente.  Giistoso  es  y  muy  lisonjero  para 
la  ciência  que  dos  personas  amantes  de  ella,  en  lugar  y  tiempos  dife- 
rentes y  sin  noticia  el  uno  dei  oiro,  convengan  puntualisimaniente  en 
una  observación  determinada:  prueba  de  su  exaclitud  apetecible.  Yo 
coníieso  que  caí  en  ello  por  intuición,  y  que  en  mis  apuntamientos  no 
me  deluve  á  justificar  menudamenle  mi  enmienda,  sino  que  la  dí  con 
alirmaciún  decidida.  El  Sefior  IJorges  de  Figueiredo  evidencia  su  feliz 
observación  cun  lii-mes  y  elocuentisimas  pruebas. 

El  docto  português,  y  yo  estamos  perfectamente  de  acuerdo  en  lo 
que  toca  ai  nombre  de  la  ciudad,  por  cierto  no  mencionada  ni  en 
otra  piedra,  ni  en  ningún  antiguo  escritor;  pêro  disentimos  respeclo 
de  la  reducción  á  sitio  lioy  conocido.  La  probidad  literária  nos  fuerza 
á  ser  contrários  en  la  opinión,  siendo  adictísimos  en  la  persona.  Sin- 
embargo,  yo  no  me  hubiera  atrevido  á  publicar  fuera  de  mi  obra  lo 
que  pienso  en  el  particular,  á  no  invitarme  à  ello  el  generoso  y  docto 
bibliotecário  de  la  Sociedad  de  Geografia  de  Lisboa. 

II 

Toda  la  parte  de  mi  monografia  dei  Convénio  juridico  de  Brácara, 
en  lo  concerniente  á  las  diez  ciudades  que  menciona  la  inscripciòn  de 
Chaves,  descansa  en  el  hecho  probabilísimo  para  mi  de  haber  ayudado 
esos  diez  pueblos,  imperando  Vespasiano,  á  la  obra  y  gastos  de  una 
via  pública  entre  los  Lucenses  y  los  Yettones,  desde  el  Padrón  (Iria 
FloviciJ,  por  Caldas  de  Reis  (Aquae  CelenaeJ,  Cusanca  (Cusanca),  Gar- 
ballino,  Orense  (Aóhriga);  San  Pedro,  junto  á  Nocelo  da  Pena  fLimica), 
Yerin,  Chaves  (Aquae  FlaviaeJ;  y  de  aqui  á  la  orilla  dei  Duero,  en  la 
parte  que  media  entre  la  desembocadura  dei  Túa  y  dei  Sabor. 

Yo  me  resisto  á  imaginar  que  la  inscripciòn  donde  se  menciona  á 
Vespasiano,  Tito  y  Domiciano,  ai  Legado  de  la  Tarraconense,  ai  Legado 
de  la  Legiòn  YII,  ai  Procurador  dei  César  en  el  território  de  Asluria 
y  Galicia,  á  la  misma  Séptima  Legión  y  diez  poblaciones,  sea  un  tri- 
buto de  obediência  rendido  á  la  gente  Flavia  por  diez  de  las  veinti- 
cualro  ciudades  que  compoiiian  el  Convento  jurídico  Bracarense.  No 
recuerdo  haber  habido  entonces  ningiin  levantamiento  de  los  gallegos, 
ni  encuenlro  expiicación  para  que  tales  diez  poblaciones  se  viesen 
obligadas  a  perpetuar  en  una  memoria  lapldea  su  obediência  y  lealtad 
á  los  Flavios.  Creo  además  que  si  aquel  lestimonio  público  hubiera 
sido  necesario,  el  monumento  epigráíico  se  habria  colocado  en  Braga 
como  capital  dei  convento  juridico;  ó  en  Tarragona,  como  capitai  de 
la  província. 

Para  mi  no  hay  dudar:  á  la  sazón  que  lenia  en  su  mano  los  des- 
tinos dei  mundo  la  famih'a  de  los  Flavios,  se  abrió  una  carretera  pú- 
blica por  lo  interior  dei  distrito  Bracarense ;  y  luego  en  ella^  bajo  el 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA  83 


império  de  Traja iio,  ei  pueblo  de  Chaves,  á  su  cosia,  labrò  herraoso 
puenltí  solji'e  el  Tâmega. 

La  inscripcióii  que  evidencia  esto  úllimo  dice  asi ': 

IMP- GAES • NERVA 
TRAIANO  •  AVG  •  GER 
DAGICO  •  PONT  •  MAX 
TRIB  •  POT  •  GOS  •  V  •  P  •  P-         p.  Ch.  104 

AQVIFLAVIENSES 

PONTEM    •    LA  PI  DE  VM 

DE  SVO-FG 

«Imperando  el  Gcsar  Nerva  Trajano  Augusto  Ger- 
mânico Dácico,  pontífice  máximo,  con  potestad  tri- 
bunicia,  cônsul  Ia  quinta  vez,  los  Aquiflavienses  cui- 
daron  de  hacer  á  su  costa  el  puente  de  piedra.» 

El  letrero  resallaba  en  una  columna  sobre  ei  mismo  puente. 
Cerca  de  él,  en  unos  iiuertos  y  do  seguro  á  la  vera  dei  camino,  hubo 
Gira  columna,  veinticinco  anos  más  antigua,  con  el  epigrafe  siguiente^: 

IMP-GAES-VESP-AVG-PONT 

MAX  •  TRIB  •  POT  •  X  •  L\P  -XX-PP-GSÍX 
IMP-T-  VESP  •  GAES- AVG -F-  POSTtrIb 

POT- VTII-  -IMP-  Xlíir-  GOS  •  VT/  p  ch79 

//////////////////////////////////////////// 

///////////////////////////////////// 
C   •   CALPETANO   •   RAlTlO  .  QVkNAlí 
VAL   •   FESTO   •    LEG   •  AVG  -PR-PR 
D  •  GORNELIO  •  MAEGIANO  •  LEG  •  AVG 
L  •  ARRVlTlO  •  MÁXIMO  •  PRoG  •  AVG 
LEG  •  VTl  •  GEM  •  FEL 
CIVITATES  •  X 
AQVFLAVIENSES-AOBRIGENS 
BÍBALI     •     COELERrí    •     EQVAESI 
IIsTeRA-VISÍGI     •     LIMICI     •    AE  B  I  S  O  G 
Q  V  A  R  Q  V  E  R  r^í        •       TA  M  A  G  a  n  I 


1  Iliiliiicr,  Inscriptiones  Ilispaniae  Latinae,  2'i78 

2  llubner,  /.  H.  L.,  2177. 


84  REVISTA  ARCHEOLOGICA 


«Imperando  el  Cósar  Vespasiano  Augusto,  pontí- 
lice  máximo,  con  tribunicia  potestad  la  decima  vez, 
cmperador  la  vigésima,  padre  de  la  pátria,  cônsul  la 
nona  vez ;  imperando  asimismo  Tito  Vespasiano  Cé- 
sar, hijo  dei  Augusto,  pontífice,  con  tribunicia  potes- 
tad la  vez  octava,  emperador  la  décima  cuarta,  côn- 
sul la  séptima  ísiguen borrados  elqiiintoy  sextorenglón 
donde  se  nombraba  á  Domiciano^  ciiya  memoria  fiié 
condenada);  siendo  legado  dei  Augusto  (Vespasiano^ 
en  la  provinda  Hispânia  Citcrior  6  Tarraconense)  e! 
propretor  Cayo  Galpetano  Rancio  Quirinal  Valério 
Festo  (que  en  el  ano  71  habia  ejercido  el  consulado); 
y  siendo  legado  dei  Augusto  en  la  Icgión  séptima  De- 
cio  Cornelio  Meciano ;  v  procurador  dei  mismo  Au- 
gusto (por  Astiiria  y  GaliciaJ,  Lúcio  Arruncio  Máxi- 
mo,—  la  Legión  VII  Gemina  Feliz  y  diez  ciudades,  á 
saber  los  Aquitííavienses,  los  Aobrigenses.  Bíbalos, 
Coelernos,  Equaesos,  Interámnicos,  Límicos,  Naebi- 
socos,  Quarquernos  y  Tamaganos  [llevaron  á  cabo  la 
obra  de  esta  via  publica}». 

Reproduzco  el  magistralmente  depurado  texto  latino  dei  benemé- 
rito Hiibner,  con  la  tan  exacta  y  discreta  lección  geográfica  dei  Senor 
Borges  de  Figueiredo.  Y  niego  con  el  doclo  alemán  qne  tales  dos  pie- 
dras  sean  dedicatórias:  escnipiéronse,  en  la  más  anligna,  los  nom- 
bres  de  los  emperadores  cônsules,  ai  objeto  de  significar  solemne- 
mente  el  ano;  y  por  fausto  mayor,  se  mencionaron  las  autoridades 
que  luvieron  inlervención  en  el  mejor  logro  de  la  empresa. 

Ill 

Veamos  aliora  quién  fueron  esas  diez  ciudades  qne  ai  par  de  la 
Séptima  Legión,  con  liombres,  bestias,  carros  y  dinero  abrieron  el 
camino. 

Para  indagar  la  correspondência  de  cada  una  á  sitio  conocido,  es 
fuerza  ante  todo  circunscribir  el  território  donde  bubieron  de  estar 
enclavadas,  presupuestos  el  interés  grande  ó  la  obligaciòn  inexcusable 
que  los  hubo  de  empenar  en  la  obra. 

Durante  el  primcír  siglo  de  nucstra  era.  Ia  región  galaica  formaba 
parle  de  [n  prucincia  Hispânia  Citerior  ò  Tarraconense,  cuya  capital 


KKVISTA    AKCHEULUUICA  85 

fue  Tarragoiia;  y  si;  h.ill.ilja  dividida  cii  los  ú{>s  conventos  jimáicos  de 
IJiaga  y  Kiigo. 

Sidxlividiaso  el  convénio  jiiiidico  de  Uraga  cn  ciialro  importantes 
ai;ru[)aciones,  denominadas  Ineyo  cundados  y  chispados  jnnlamenle;  y 
el  de  Lugo  eii  olias  ciialio,  que  en  ;)G!)  el  rey  suevo  Teodomiro  acre- 
cenló  á  once,  pêro  solo  respeclo  de  los  condados,  sin  aumentar  las 
sillas  epis<,:o|)ales. 

Iban  á  liligai'  á  IJraga  veiíilicuatro  ciudtulcs  6  puehlos ;  y  á  Logo 
diez  y  seis. 

Llamábase  cindtid  6  jnteblo  á  la  reunión  de  lodos  los  liombres  libres 
de  una  circunscripción  determinada,  con  iguales  franqnicias  y  dere- 
chos.  Y  de  semejantes  circnnscripciones  fué  cabccera,  ya  nn  úppido, 
ú  siquier  vecindario  en  silio  foilalecido  por  la  naluraleza  y  el  arte, 
como  oppidtim  Noela,  Noya,  y  oppidiiin  Ahóbrica.  de  que  hablaré  des- 
pués ;  ya  un  loro,  voz  aplicada  tanto  ai  conjunto  de  caserios  indepen- 
dientes  que  formaban  ayuntamiento  con  jurisdición  y  gobierno  propios, 
cuanio  ai  lugar  donde  se  alzaba  su  cúria  6  casas  consistoriales,  como 
Foifun  Bdidíonim  y  Foruui  Limicnnim,  de  que  tambien  luego  be  de 
tratar;  ya  un  rico,  aldeã  importante  y  no  snjeta  á  ninguna  población, 
como  Yicm  Spaconini,  Vigo;  ya  insigne  casiillo  ò  ciudadela,  ensefio- 
reada  de  bravo  território,  como  Cnstdlum  Tyde,  Tuy, 

Yo  me  persuado  de  que  todas  las  diez  ciudadcs  cuyo  nombre  se 
esculpió  en  la  famosa  columna  vial  ya  referida,  correspondeu  á  la  pro- 
vincia  Hispânia  Citcrior  ó  Tarrciconensf,  á  la  región  apellidada  Gal- 
laecia  6  Callaccia,  ai  convento  jurídico  de  Brdcara  Aiigusla;  y  cuatro 
de  ellas,  á  la  demarcación  que  en  su  dia  se  llamó  obispado  de  Orense. 
y  las  otras  seis  poblaciones  á  lo  que  de  igual  suerte  se  dijo  obispado 
de  Chaves. 

Partiendo  de  lo  conocido  á  lo  desconocido,  consultando  con  esme- 
rada ateución  los  documentos  eclesiásticos  de  la  edad  media,  los  geó- 
grafos é  historiadores  griegos  y  iatino*s  y  las  piedras  escritas ;  y, 
cuando  esto  falta,  aceptando  las  razonables  conjeturas,  á  que  inducen 
ya  el  parentesco  de  nombres  geográficos  modernos  con  los  antiguos, 
ya  la  necesidad  de  llevar  á  determinado  punto  una  ciudad  desconocida 
que  en  otro  ningún  lugar  puede  colocarse,  —  lie  intentado  fijar  gráíi- 
caniente  después  de  muchos  anos  de  estúdio  la  autigua  geografia  es- 
pafiola.  Y  en  ella,  con  tales  auxílios,  por  consiguiente,  el  convento 
jurídico  de  líraga. 

Su  território,  desde  remota  edad  y  quizá  para  el  mejor  gobierno 
militar,  judicial  ó  económico,  debió  estar  hecho  cinco  partes;  las  cuales 
fueron  con  el  liempo  oiros  tantos  obispados,  supuesto  que  la  división 
eclesiástica  dei  mundo  romano  se  ajusto  fielmente  á  la  división  civil 
augustea.  Los  obispados  fueron  Braga,  Tuy.  O  Porto,  Orense  y  Chaves. 
De  las  veinticuatro  ciudades  que  formaban  este  convento  jurídico, 
perleneciau  seis  ai  obispado  de  Orense,  y  siete  ai  de  Chaves. 


86  REVISTA   AKCHEOLOGICA 

Dos  de  aquellas,  á  saber  la  de  los  Liibaenos  y  la  de  los  Neméta- 
tas,  no  figuran  en  la  columna  vial  por  no  haber  ayudado  á  la  obra;  y 
si  las  olras  ciiatro,  de  los  contribuyentes  Aobrigenses,  Equaesos,  Ll- 
micos  y  Naebisocos. 

Las  siete  dei  obispado  de  Chaves  eran  las  de  los  Aquiflavienses, 
Bibalos,  Coelcrnos,  Infcrámnicos,  Quarquernos  y  Tamaganos,  lambien 
contribuyentes  los  seis;  y  la  de  los  Gallaecos,  omitida  en  la  piedra, 
por  cuanto  no  lo  fneron. 

Diré  en  que  sitio  veo  yo  á  cada  cual  de  las  diez  ciudades  indicadas. 

IV 

Aquiflavienses.  Los  de  Chaves. 

Se  ignora  el  sobrenombre  primitivo  de  las  Aguas  á  que  debió  ce- 
lebridad  esta  población,  trocado  entre  los  anos  69  y  70,  por  el  de  Fia- 
rias, en  honor  de  Vespasiano. 

El  clarisimo  Flórez  ^  con  Ia  sagacidad  de  su  mucho  ingenio  puso 
aqui  resueltamenle  la  mansión  Ad  Aqiias,  inventariada  en  la  primer 
carretera  de  Braga  á  Astorga  en  el  Itinerário  de  Antonino.  Tuvo  por 
acertada  y  buena  semejante  reducción  y  la  esforzó  inteligente  mi  sábio 
y  querido  companero  Úon  Eduardo  Saavedra  el  ano  de  1862,  ai  tomar 
posesión  de  su  plaza  de  número  en  nuestra  Real  Academia  de  la  His- 
toria, disertando  sobre  las  obras  públicas  de  los  Romanos.  Sinem- 
bargo,  reconociendo  en  Chaves  como  reconozco  yo,  la  mansión  Ad 
Aquas,  entiendo  no  poder  hoy  subsistir  el  trazado  general  que  de  toda 
esta  via  propuso  el  egrégio  Académico  y  perilisimolngenicro  anheloso 
de  no  separarse  por  completo  y  á  diâmetro  de  las  conjeturas  dei  P. 
Contador  de  Argote. 

Mas,  como  sea  conocido  ya,  merced  á  oiro  laureado  ingeniero  (el 
senor  Don  Enrique  Gadea)  que  la  mansión  de  Veniaiia  fué  en  el  des- 
poblado  de  la  Pena  dei  Caslillo,  término  de  Roya,  provinda  de  Zamora, 
poço  antes  dei  paso  de  la  sierra  de  la  Culebra  por  el  portillo  de  San 
Pedro, — he  intentado  proseguir  con  buenos  elementos  el  estúdio  de 
aquella  primera  via.  Me  figuro  haber  obtenido  resultado  lisonjero, 
pues  donde  coinciden  las  distancias  dei  liinerario,  sin  esfuerzo  nin- 
guno  me  han  salido  ai  paso  dos  lugares  modernos  con  nombre  muy 
poço  diferente  dei  antiguo. 

Ofrezco  á  los  doctos  mi  trazado  conjetural  de  este  camino  para 
que  avaloren  los  aciertos,  si  los  hay,  enmendando  los  eiTores  y  descui- 
dos. Advierto  que  eu  ciiatro  de  las  doce  mansiones  elijo  de  entre  las 
variantes  que  ofrecen  las  distancias,  según  los  antiguos  códices,  otras 
distintas  de  las  preferidas  por  los  beneméritos  G.  Parthey  y  M. 
Pinder. 


Espana  Sagrada,  iv,  317. 


REVISTA    ARCHEOLOGICA  87 


lie  aijiii  mi  Irazado  : 


Jlviii  li  Hiiitiiiii  .l>/  /iiK  (111/  iii/<ii/  '<  M  \  II       /iii  iiii  íiiiiiinii  l/l-  Hnii^ii  li  As/orí^a  se  rc- 
(sicj:  loi-rcii  :!'>.'>  kilónictros,  de  esta  inancra  : 

«""-- ■"-- r-vAmnu^::::'::^í^':!?:'^^ 

,  l\s()  da  Ri^rua,  7  kil.  ai  N.  de 
Pracsidio mpm  xxvi J      Lamego,  marg-en  derechu  dei 

(      Duero 41    » 

Caladuno mpm  xxvr Ilacia  Sabrosa 41    » 

Ad  Aquas mpm  xviii Chaves 29    » 

Pinetum  mnm  sxix  !  P'"íit'ro  Velho,  comarca  y  ai 

Roboretum mpm  xxxni El  Robledo,  ai  SE.  de  la  Fuebla 

'  I      de  .Sanabiia íA    » 

CompIeiUiea  (quí/á  xiii)-  mpm  xtx Hacia  el  Oriente  de  Brat:ança  30    »(quizá9) 


\'cnialia mpm  xw 


Despoblado  de  la  Pena  dei  Ca> 
tillo,  término  de  Bo.va(Zamora)  40 


Petavonium mpm  xxvm !  l^^.spoblado  de  Sansuena,  entre 

'  I      V  illayferiz  V  Rosmos 4o    » 

Arírentiolum mpm  xv )  Despoblado  "entre  Villamonlán 

'^  I      yTabuyuclo 24    » 

Astuiica inpm  xiiii Astorffa. 22    » 


LTiS :  sobran  6  40.3  :  sobran  H 


Réslame  advertir  que  ya  en  1790  Cornide  habia  rediicido  á  Pi- 
nheiro Velho  y  ai  Rohiedo  ias  mansioiies  de  Pinclnm  y  Roboretum.  * 

For  el  le.xto  que  he  preferido  resullaii  de  más  0,000  pasos  li  si- 
quier  9,000  metros.  Oiiizá  esta  diferencia  provenga  de  la  inseguridad 
con  que  e.xpresan  los  códices  la  distancia  de  Roboretum  á  Compleulica, 
variátidola  en  19,  25,  20,  29  y  34  millas.  Mny  bien  pudieran  haber 
sido  13,  y  asi  resullarian  exactos  los  247,000  pasos  que  anuncia  el 
titulo  en  esta  parte  dei  Itinerário. 

Queda,  pues,  graficamente  fiiera  de  duda  que  Ia  mansión  Âd  Aguas 
de  tau  precioso  registro  es  la  antigua  ciudad  de  Arjune  Flariae,  aíian- 
zada  en  la  actual  de  Chaves  por  el  irrecusable  teslimonio  de  las  inscrip- 
clones  geográficas. 

En  nuestros  dias  uii  varón  eruditisimoha  sospechado  si  Aguae  Fia- 
viae  pudiera  ser  la  cabecera  de  los  Túrodos,  llamada  por  Tolomeo 
"Yõy-x  Aaia  ó  Aata,  Atjuae  Laeae,  á  los  0'\30';  i3'\2o';  ó  segun  otros 
códices,  43",40'. 

Paréceme  á  mi  que  los  Túrodos  fueron  más  occiden tales  y  se  en- 
senoreaban  de  cuanto  media,  por  cima  de  Areoza,  desde  el  monte 
Dór  (que  aun  retiene  algo  de  la  denominación  de  aquella  gente  primi- 
tiva) hasta  los  airededores  de  Monção;  y  á  esta  villa  precisamente  re- 
duzco  las  Aguas  Leas. 

Su  nombre  ha  de  ocultarse  en  el  de  Aquae  ddeuae  ó  Aquae  Scek- 
7iae,  que  oírece  el  Itinerário  de  Antonino  ai  mencionar  la  via  de  Bra^^a 
à  Aslorga  por  algunos  lugares  marítimos  (per  loca  maritima).  Josefo 


Mapa  corogyófico  de  la  anti<jwi  Galicia,  por  Dou  Josef  (^ornidií,  17!J0. 


88  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

Simler,  ediciòn  de  Basilea  de  1575,  propuso  la  eiimienda  de  Aquae 
Laenae. 

Refiérese  el  vigésimo  primo  camino  espafiol  dei  Itinerário  á  una 
estación  segiiiamento  maiitima  6  fluvial,  de  donde  con  IVecuencia 
salian  naves  para  el  piierlo  dei"  lio  Ulla.  Pêro  á  nadie  sorprenda  no 
ver  en  aquel  registro  oficial  las  dos  estaciones,  por  lo  menos,  que 
antes  faltan,  de  Araáncca  y  Âbúbrica,  junto  á  la  desembocadura  dei 
Lima  y  dei  Mino.  Como  de  estas  omisiones  hay  muclias  en  tan  útil 
documento. 

A  CLXV  estádios  ó  sean  33  kilómetros  de  una  estación  omitida  pone 
el  Itinerário  la  de  Aquis  Scelenis;  pêro  no  es  subsistente  aquel  numero 
pues  algunos  códices  fijan  en  cxlv  los  estádios;  por  manera  que  bien 
pudieran  ser  cxcv  estádios  ó  39  kilómetros.  Esta  distancia  precisa- 
mente viene  á  mediar  entre  A  Iiisua  y  IMonção,  puesta  aquella  islã  y 
fortaleza  á  la  entrada  dei  Mino;  y  la  segunda  pobiación,  en  su  margeu 
izquierda,  frente  por  frente  de  Salvalierra  de  Galicia.  Pues  muy  cerca 
ai  oriente  de  Monção  brota  salutífero  raudal  de  agua  caliente,  y  le 
describe  asi  Carvaíbo  da  Costa:  *  «Tiro  de  mosquete  da  villa  para  o 
Nascente,  perto  do  rio  nasce  bum  olbo  de  agua  quente,  a  que  cliamão 
Caldas,  em  que  la  vão  roupa ;  poucos  se  ajudão  delias  por  baulios, 
tendo-se  experimentado  serem  mui  medicinaes.»  "^ 

He  aqui  en  IMonção.  en  una  estación  íluvial,  las  Aguas  Leas,  y  con- 
cordadas las  noticias  de  Tolomeo  y  dei  Itinerário ;  cuyo  camino  de 
Braga  á  Astorga,  por  algunos  lugares  marítimos,  barían  los  viajeros 
de  este  modo: 


Brácara Braga. 

Araducca Vianna  do  Castello. 

Ahóhrica A  Insua,  á  la  boca  dei  Mino. 

Aqiiae  Laeae Monção. 

Viciis  Spacorum Vigo. 

Aã  Duos  Pontes Pontevedra. 

Grandimiro Grandoiío,  sobre  la  izquierda  dei 

Ulla,  ai  terminar  la  ria  de  Aroza. 


1  ChorograpJiia  Portiirjueza ,  i,  211. 

~  Aquae  Laeae  ('^oy.Tc/.  Av.ia)  encierran  el  si.muficatlo  de  «Aguas  izquicr- 
das»  ó  situadas  á  la  izquierda  dei  expeclador,  n  de  aiguii  paraje  delerrni- 
nado.  No  parece  que  liaya  lenido  otra  siííiiiíicación  el  Yocai)lo  Cclcnae,  Scclc- 
nae  aquae,  porque  se  h;dla  en  todas  las  famílias  de  la  estirpe  céltica:  lo  cual 
arguye  que  á  ellas  no  vino  de  otro  extrafio  idiouia.  La  mano  «izquierda», 
6  ol  adjctivo  «izíiiiierdo»  se  dico  en  irlandês  de,  en  escocês  cli  ó  dith,  en  welsh  ó 
lengua  dei  pais  de  Gales  rlrihl.  y  en  lirelón  Ikiz.  Asi  que  Aatá  (Laeae)  pudo  ser 
Iraducción  griega  dei  céltico  (lelcuae.  Monrào.  sitio  de  Aqwte  l,aeae  ó  Celenae,  se  en- 
cuentra,  precisamente,  cn  la  rihera,  iz(|uierda  dei  Mnlio.  —  F.  Fita. 


REVISTA   AliCHKOLOGICA  89 


De  lo  dicho  hasta  aqui  resiilln  sernos  desconocido  el  nomhre  qiie 
Uivo  Ia  ciudad  de  Chaves  antes  de  Vespasiano;  y  que  enlonces  sus 
naliiinles,  seiiúii  ronsla  de  pieihas  escritas,  se  Ilamaron  Afjfd/lavicnses. 
De  ellns  iii  Hiiiio,  iii  Toloiiieo  se  aciierdaii.  I':i  llineraiio  de  Aiicoiiiuo 
Augusto  designa  anlononiáslicatnenle  la  [)í»l)lación  con  el  solo  nonibre 
dúAfjiiae.  Pêro,  muy  mediada  va  la  centúria  V.  el  insigne  Idacio.  obispo 
de  aíjuella  diocesis.  escribe  que  á  20  de  jnlio  de  40i2,  fué  preso  in 
Aqwjhivieuíii  Kcdesia;  y  que  Ires  meses  después,  por  noviembre,  vol- 
vió  libre  dil  FUivias.  A  la  sazóri,  pnés,  se  ve  que  era  indisliiilo  el  uso 
de  Aunifldriai'  y  de  solo  Flariac.  Ksla  voz  úllinia  corronii)ida  produjo 
la  actual  de  «Cliaves». 

Por  iiltiino.  los  A/piillarieiws,  bacia  la  banda  dei  norte,  eran  veci- 
nos  de  los  liibalos  y  Tamaganos;  bacia  oriente  dividian  lindes  con  los 
Inlorámnicos;  ai  mediodia  con  los  Coelcrnos  y  Gallaecos;  ai  occidente 
con  los  lirácaros. 


Aoimir.iíNSES.  Los  de  la  ciudad  de  Orense. 

IMuiio,  Toiomeo,  el  Ifinerario  de  Antonino  y  el  Ravenate  no  men- 
cionan  esta  población.  Por  priniera  vez  la  cita  el  Cronicón  de  Idacio, 
en  el  indicado  ano  i6:2,  apellidáiidola  Aárcga,  voz  ya  corrupta  de 
Aóbriga.  '  A/fhmja  se  dit  ia  en  tiernpo  de  los  suevos,  y  pronto  Aárcga, 
que  los  documentos  eclesiásticos  y  suscripciones  conciliares  vinieron  à 
latinizar  en  Aurca,  Aiiria  y  Aurisina. 

La  escritura  de  Lugo,  fechada  en  509,  asigna  á  la  cátedra  epis- 
copal de  Orense  estos  diez  arciprestazgos:  Ad  (skdem)  Auiutasem: 
Palia  aurra,  Vernigio,  Bébalos,  Crporos,  fennes,  Pincia,  Cassavio,  Ve- 
récanos,  Senabria,  et  Calapages  maioi-es.  - 

Lo  misino  con  algunas  variantes  repita  la  división  de  obispados  atri- 
buída à  Waniba.  ^ 

Y  en  880  el  magno  príncipe  Don  Alfonso  ni  enumera  esos  arci- 
prestazgos, ai  restaurar  y  dejar  dotada  la  Santa  Ecdesia  Auriensis  se- 
dis  provinciae  Gallacciae.  ^ 

Del  adjelivo  Auriensis  ó  Auremis,  calificativo  de  civitas,  se  derivo 
la  actual  deuominación  de  Orense. 

Céltica  es  á  no  dudar  la  dicción  Aôbriga,  cuyo  segundo  elemento 
briga,  ya  demostre  hace  10  anos  que  vale  «puente»  y  no  ciudad.  ^ 
Con  efecto  en  luicslra  piiiniliva  Espana,  desde  las  antiquisimas  Sego- 


1  Rcmismmuhts  vicina  paritrr  Auregensiwn  loca  et  Lucensis  conventus  marilima  po- 
puhilur. 

-  Exjmiin  S>agrad(i,  iv,  132;  y  dos  copias  dei  siglo  xvii. 

^  Idem.  2.U,  y  los  manuscritos. 

■'»  Idem.  XVII.  "SMi. 

"'  Femández-Guerra,  El  Libro  de  Sanioíia,  2.*  edicción,  pag.  24. 


90  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

briga,  Centóínir/a,  Miróbriga,  Caetóhriga  y  Caelúbriga,  hasta  las  más 
cercanas  Brtitóbriga,  Julióbriga,  Cacsarõbriga,  Auguslúbriga  y  Flavió- 
briga,  y  otras  muclias  de  igual  desinência,  iodas,  con  rarísima  excep- 
ciún,  se  hallan  cerca  de  un  rio,  y  varias  con  rastros  de  uno  ò  más 
puenles.  No  recuerdo  otra  localidad  de  solo  el  nombre  Briga,  «El 
Piienle»,  que  la  que  nos  ofrece  la  escritura  de  dotación  heclia  el  ano 
lOii,  ai  Monaslerio  de  Corias,  eu  Astúrias,  por  el  conde  Pinniolo  y 
Aldonza  su  muger.  * 

La  dicciòn  Briga  responde  ai  escocês  brig  y  ai  gótico  bri/gga;  y 
háceule  consonância  el  anglosajón  bricg,  alemau  brikhe,  holandês 
brug,  el  inglês  bridge  y  el  galo  briva,  palabras  todas  que  signitican 
«puenle»  -. 

Y  siendo  componente  primero  de  la  voz  Aóbriga  la  dicción  ao  que 
nuestro  nniy  docto  académico  de  la  Historia  y  mi  amigo  R.  P.  Fidel 
Fita  •*  iguala  ai  céltico  í//)o,  signilicativo  de  «mananlial,  fuente,  arroyo, 
rio,  agua  corriente»,  ya  bajo  la  forma  Melsh  de  afon,  ya  bajo  la  gaêlica 
de  abhami,  amluum,  amhauin;  en  sanscrilo,  ajmas;  en  lalin,  amnis; 
en  brelon  aien,  —  si  aceptamos  el  sentir  de  lan  afamado  varón,  ten- 
driamos  que  Aóbriga  se  debiera  interpretar  «El  puente  dei  rio». 

Salgamos  ya  dei  campo  de  las  etimologias. 

No  considera  diferente  el  senor  Iliibner  ''  esta  Aóbriga,  dei  óppido 
Abóbrica,  situado  por  Plinio  ^  en  los  Cilenos  y  convento  bracarense. 
Inclinase  á  que  la  forma  genuina  de  tal  nombre  debió  haber  sido  la 
de  Avóbriga,  con  alusión  ai  rio  Avo,  hoy  Ave,  que  corre  bacia  la  banda 
oriental  y  meridional  de  Braga  Y  se  apoya  para  discurrir  así  en  dar- 
nos  escrita  de  esa  manera  la  voz  geográlica  un  monumento  de  Tarra- 
gona,  erigido  por  la  Província  llispani?  Citerior  ai  llamen  Lúcio  Sul- 
picio  Nigro  Gibbiano  Avobrigerise.  ^ 

A  dicho  parecer  se  opone  con  este  otro  el  Senor  Detlef  Detlefsen:  ' 
(íAbobrica.  Equivòcase  lliibner  ai  derivar  dei  nombre  dei  rio  Avo 
aquella  palabra,  en  su  advertência  á  la  inscripción  número  4247 ;  no 
menos  que  en  colocar  semejante  ciudad  en  território  de  los  Kilenes, 
pueblo  que  perleneció  evidentemente  ai  convento  de  Lugo.  Abóbrica 
estaba  á  grau  distancia  dei  rio  Aro;  y  debe  colocarse  en  la  espécie  de 
península,  de  forma  triangular,  que  hay  ai  norte  de  la  embocadura 


'  Espaila  Sfifirnãii.  xxxviii,  2'J2. 
-  Feri)ández-Giierra.  /.  c. 

^  Fita,  Restos  de  la  dechnación  céllici  i/  rcllihrrua  oi  algunas  lápidas  Espnnolas, 
J878,  páuinas  12  y  13. 
'  /.  //.  L.  'i2'i7. 
•^  i\at.  llisl..  IV,  2U.  1 12. 
r>  /.  //.  /..,  fíVí7. 
'  Philologus  de  Gotinga,  j)ág.  658. 


RK VISTA    ARCIIKOLOGICA  01 


dei  Mino.  ^  Ahóhrica  fué  quizá  el  puerto  situado  on  la  costa  septen- 
trional  de  diclio  rio.» 

Uosdo  niiiclios  anos  hace  tengo  consignada  enmi  «Galicia  Antigua», 
una  opiíiiúii,  li;is(;i  cierlo  piiiilo,  no  dcseniejnnln. 

Alli  lijo  cl  sitio  de  Áhnhrini  en  la  islã  forliíicada  que  existe  á  la 
desemhocadura  y  costa  seplentrional  dei  Mino.  Y  da  vigor  à  mi  con- 
jelura  un  testimonio  dei  afio  Ho4,  nada  menos  que  dei  geógrafo 
árabe  Edrisí.  Kslas  vienen  á  ser  sus  palabras:  «Kl  Mino  (j^^  j^) 
es  rio  Ljrande,  caudaloso,  ancho  y  profundo;  y  en  médio  de  él,  á  las 
seis  mi  lias  dei  mar,  liay  una  islã  con  sn  casliílo  sobre  cicrtos  penas- 
cos,  maravilla  de  foitiíicaci(3n  y  dificilisima  de  ganar.  Su  altura  no  es 
iKucha;  y  aqucl  presidio  se  denomina  el  Castillo  de  Abraça  (j^^s^t 

Estrabón,  aun  cuando  no  dice  el  nombre,  menciona  la  islã  que 
descuella  á  la  desembocadura  dei  Mino;  y  liabla  de  dos  valientes  es- 
colleras  que  amparan  y  deíienden  el  puerto  allí  formado.'' 

Plinio,  recorriendo  esta  misma  costa  galaica  de  norte  á  sur,  nos 
liabia  dicho  «que  en  los  Cilenos  (cuya  linde  meridional,  divisória  de 
Braga  y  Lugo,  arrancaba  desde  la  ria  de  Vigo  y  Puente  de  S.  Payo 
bastia  Cusanca)  tenia  principio  el  Convento  jurídico  IJracarense ;  que 
de  los  lugares  próximos  ai  Oceano  eran  moradores  bracarenses  los 
Helenos  y  Gravios;  que  se  alzaba  alli  la  ciudadela  de  Tuy,  siendo 
todos  estos  pueblos  de  gente  griega;  y  que  por  alli  tambien  se  veian 
las  islãs  Cicas  (Cies),  elóppido  Abúbriga  y  el  rio  iMifio,  de  4000  pasos 
en  la  embocadura  •'» 

Concordando  á  Plinio  y  Edrisí,  no  vacilo  cu  identificar  el  oppidum 
Ahôhrigay  iai^l  ^^-a:-'^  El  Castillo  de  Abraça,  y  le  reduzco  á  la  fuerza 
que  tiene  Portugal  en  la  boca  dei  Mino  sobre  unos  penascos  graníticos, 
por  quien  se  divide  la  barra  en  dos,  Mamada  portuguesa  la  una  y 
gallega  la  olra.  Aquel  propugnáculo,  dentro  dei  cual  brota  una  fuentc 


í  Supongo  que  aludo  á  la  que  arrancando  cn  el  puehlo  de  la  Guardiã  termina  en 
la  punta  do  (íi^nete. 

-  Kdi"iíi,  Dciicyipcióude  Espaíw.rWmax.  parte  i. 

A  tal  punto  SC  Iiallan  en  el  Geógrafo  eíjuivocadas  las  distancias,  que  desde  il/^cífca 
á  Tuy  pituc  ()0  millas,  las  ciiales  iiaccn  dos  jornadas;  en  vez  de  IG  millas,  que  es  lo 
correspondiente  á  los  27  kil('iiiielros  ([ue  niedian  entre  la  barra  dei  Mino  y  aquella 
ciudad:  (>  en  lugar  de  los  18  kil()melros  que  liay  de  Tuy  á  la  Í5la  Boega.  Y  adeniás  fija 
una  jornada,  ó  sean  ilO  millas,  de  Tuy  á  Santiago,  cuando  por  lo  menos  se  recorreu  (58. 

Mi  grande  y  sahio  amigo  el  sr.  Sàavedra,  snponiendo  que  Edrisí  pudiera  tener 
razón,  en  cuanto  á  las  ('»  millas  ó  9  kilómelros  de  Alinira  ai  mar,  conjplura  que  este 
castillo  dehe  entonces  colocarse  en  la  islã  Borqa.  entre  la  polilación  espafiola  d(!  Ei- 
ras y  la  portuguesa  de  Novella  de  Cerveira;  y  que  el  Geógrafo  se  distrajo  ai  escribir 
l'é\y}\  (Ahrncn)  por  ia! o!  (Ahocca). — Rev.  Arch.  e  Hist.,  Lisboa,  1887:  i,  4,  pág.  51- 

3  Libro  III.  cap.  iii.  4. 

i  Plinio,  i\at.  llist.,nn,  20,  112. 


92  REVISTA    AlíCHEOLOGICA 

de  biien  agua  potable,  y  donde  hubo  desde  1392  hasta  nuestros  dias 
un  convento  de  Capuchinos  de  la  Concepciúii,  se  halla  situado  ai  oeste 
de  la  villa  lusitana  de  Caminha  y  ai  sudoeste  de  la  es[)ariola  de  Cam- 
posaucos.  Dicenie  hisua  de  SoNfo  Isidro  y  vulgarmente  Forle  da  Iiisua; 
y  los  gallegos  A  Insua.  La  fortaleza  actual  es  obra  dei  rey  Don  Juan 
el  i  en  el  ano  1388. 

Yo  de  ningún  modo  me  atreveria  â  negar  que  á  orillas  dei  Avo 
pudiera  haber  liabiilo  una  Avúbriga,  segun  sospecha  el  sehor  lliibner 
rectamente;  ni  que  fuose  naiural  de  ella  Nigro  Gibbiano;  como  ni 
que  tal  ciudad  recibiese  nombre  de  nn  puente  sol)re  el  rio  Avo.  Muy 
verosimd  y  plausible  me  parece  todo  ello  y  bien  adivinado.  Pêro  estimo 
três  poblaciones  distintas  las  de  Aóbriga,  Abóhfiga  y  Avúbriga:  la  pri- 
mera,  en  la  parle  superior  dei  Mino,  no  demasiado  abajo  de  su  con- 
fluência con  el  Sil ;  la  segunda,  en  la  desembocadura  dei  Mino;  y  la 
tercera,  á  la  margen  dei  Ave.  De  igual  modo  es  diferente^  de  esos 
três  óppidos  el  de  Adróbrica,  hoy  Puente  de  Eume,  en  los  Ártabros, 
que  nos  descubro  Pomponio  Mela  K  Hecho  de  los  três  de  estos  cuatro 
distintos  nombres  uno  solo  y  único,  por  impremeditación  de  algunos 
editores  de  nuestros  siglos  de  oro,  que  se  airojaron  á  enmendar  de 
auloridad  propia  los  textos  de  las  obras  clásicas  griegas  y  latinas, 
viéronse  pronto  los  cultivadores  de  la  Geografia  confusos,  perplejos  y 
embrollados. 

La  identiíicación  de  Aóbriga  y  Orense  no  era  nneva  en  esta  ciudad. 
Sabialo  el  famoso  autor  de  la  Espana  Sagrada  "^;  pêro  aun  cuando 
apunta  la  espécie,  en  ella  no  (piiso  hacer  alto,  ni  consumir  liempo  en 
aclarar  de  caso  pensado  la  matéria.  Habíanle  desorientado  por  com- 
pleto las  equivocadas  opiniones  que  entonces  corrian  por  culpa  de  los 
viciados  textos,  llarduino,  bacia  1(580,  y  Cristobal  Cellario,  bacia  1703, 
colocaron  en  Bayona  como  una  sola  y  única  [)oblación  los  três  óppidos 
que  apareceu  de  Pom[)()nio  Mela,  Plinio  y  el  epigrafe  de  Chaves.  ^ 
Mayans  desatino  llevándola  á  Hivadavia.  ''  Para  Cornide,  enfin,  Abôbrica 
estuvo  entre  el  Grove  y  la  Lanzada;  y  Aóbriga,  en  Orense. 

En  Orense  la  reconozco  yo ;  partiendo  limites,  ai  cierzo^  con  los 
Cáporos  y  Lcinavos,  pueblos  uno  y  oiro  dei  convento  jurídico  de  Lugo; 
á  oriente,  con  los  Tibaros  dei  convento  de  Aslorga.y  con  los  Eqaaesos 
dei  de  Braga;  ai  sur,  con  los  Limicos  y  Quarquernos ;  y  ai  occidente 
con  los  Luaucos. 


1  Choroçiraphia,  cdicJóii  de  1'arllioy,  Herlin,  1867  :  pág.  G'i,  liiica  28. 
~  XVII,  7. 

^  Harduino,  edicióii  pliiiiaii;ip;ira  uso  dei  JJ>clíiii.  1686. —  Cellario,  Nolilia  Orbis 
Antiqni.  pág.  67. 

''  De  Hispana  progénie  voeis  ur^  pág.  92. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA  93 


VI 

RíuALOS.  Arampaban,  de  oriente  á  ocaso,  desde  la  derecha  dei 
Tâmega  y  Monlerrey  hasta  la  sierra  de  Larouco,  província  de  Orense; 
y  de  norte  à  sur,  desde  la  población  gallega  de  Coaledro,  hasta  las 
portuguesas  de  Pedreira  y  Os  Arcos. 

Fertiliza  todo  este  distrito  el  rio  Búbal,  que  se  une  ai  Tâmega  por 
su  margen  derecha,  entre  los  pueblos  gallegos  de  Villaza  y  Quizanes. 

En  manera  ninguna  se  ha  de  confundir  este  rio  con  otro  de  igual 
dominación,  que  hoy  sirve  de  limite  á  las  províncias  de  Orense  y  Lugo, 
y  se  incorpora  ai  Mino  poço  más  abajo  de  habersele  unido  el  Sil. 

Plinio  y  Tolomeo  *  incluyen  los  Bíbalos  en  el  convento  de  Braga, 
sin  diCerir  como  ni  la  inscripción  de  Chaves  cuanto  á  la  identidad  dei 
nombre. 

Los  suevos  los  llamaron  Béhalos,  según  manifiesta  la  escritura  de 
arreglo  de  diócesis  fechada  el  ano  de  509,  ai  distribuir  la  Iglesia  de 
Orense  en  diez  arciprestazgos.  "■^ 

Y  los  godos  vinieron  á  decirlos  Búbalos,  cual  debia  leerse  en  có- 
dices llevados  á  Oviedo  cuando  la  irrupción  de  los  áraltes,  y  cuyos 
da  tos  hizo  valer,  á  fines  de  la  centúria  xi,  el  fabulizador  obispo  ove- 
tense  Don  Pelayo,  cuando  hilvanó  la  llamada  división  de  Wamba.  ^ 

Asolada  Orense  por  los  Agarenos,  y  duehos  estos  de  la  comarca, 
no  hubo  de  revivir  hasta  fines  dei  siglo  ix.  Recobro  sns  despedazadas 
ruínas  Don  Alfonso  ni,  las  pobló,  restauro  la  ciudad  y  su  Iglesia,  y  le 
confirmo  por  agosto  de  880  los  arciprestazgos  que  tuvo,  entre  ellos  el 
de  B('-balos,  escrita  la  palabra  tal  como  la  ofrecia  el  documento  suevo 
ya  citado.  ''*  Pêro  aquellos  naturales  continuaban  seguramente  apelli- 
dândose  Búbalos,  como  hoy  lo  patentiza  el  denominarse  Bfibcil  su  rio. 

Florez,  "'  no  recordando  el  afluente  dei  Tâmega  en  las  fronteras 
de  Espana  y  Portugal,  y  si  el  dei  Mino,  ó  séase  el  arcedianato  de 
Búbal.  bacia  el  seplentrión  de  Orense,  limítrofe  dei  obispado  de  Lugo; 
como  le  repugnara  con  razón  situar  aqui  los  Bibalos  de  la  edad  romana, 
túvolos  por  diversos  de  los  Bébalos  y  Búbalos  de  la  época  visigótica  y 
sueva.  V  dejando  á  estos  el  alfoz  dei  arcedianato,  supuso  á  los  Bíbalos 
cerca  de  Viana  dei  Bollo,  á  la  margen  dei  rio  Bibey. 

Tal  insubsistente  conjetura  desaloja  de  su  propio  território  ai 
arciprestazgo  suevo  de  Cassaria,  hoy  Casayo.  que  se  prolongo  hasta 
Viana  y  el  rio  Bibey,  y  desde  la  villa  dei  Bollo,  puesta  entre  este  rio 


1  Plinio,  ni.  3.  28.— Tolomeo,  ir,  o.  21. 

■'  EsjHiíia  Snijyadu.  iv.  l.'{2,  ppro  con  auxílio  de  muy  (Ipsruiilada  copia. 

^  Expaíia  Sdfirddn,  iv  ;  'iVí.  con  a  errata  (\c  Ruvnle  por  Bubale. 

'  K.-^pafia  Sfuirada,  xvn,  2-!5. 

^  Espana  Sagrada,  xvii,  lo. 


94  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

y  el  Tares,  hasta  la  Pena  Trevinca  y  Sierra  Segundera.  Más,  todavia: 
priva  de  su  antiiiuísima  circunscripción  ((jue  fué  Ia  misma  dei  arci- 
preslazgo)  á  la  ciudad  de  los  Nemétalas,  ciiyo  óppido  Volóbriga  supongo 
eii  Viana  dei  Bolio,  que  liene  un  puente  (briga)  sobre  el  Bibey.  Seme- 
jante  circunstancia  me  impulsa  á  ver  aqui  la  población  tolemaica  más 
bien  que  en  el  Bollo,  como  entiende  Cornide',  aun  cuando  confieso  que 
Bollo  (forma  poço  diversa  de  VoloJ  es  componente  primero  de  la  dic- 
ción  Volóbriga. 

Para  concluir :  el  juicioso  autor  dei  «Alapa  corográfico  de  la  antigua 
Galicia»  no  quiso  admitir  el  parecer  de  Florez  respeclo  ai  território 
que  atribuye  ésle  á  los  Bibalos  (parecer  equivocado  y  seguido,  no 
obstante  por  todos  los  escritores  modernos);  pêro  no  acerto  ai  colo- 
carlos  en  el  arcedianato  de  Biibal,  bacia  el  norte  de  Orense,  ni  ai 
imaginar  su  cúria  ó  casas  consistoriales,  Fortim  Bibalorum,  en  la 
parroquia  de  Alba. 

Yo  creo  saber  donde  fueron  los  Bibalos,  pêro  no  el  Fórum  Biba- 
lorum. Sospecbo,  no  obstante,  que  tal  vez  logren  dar  con  sus  ruinas 
los  sábios  y  diligentes  arqueólogos  portugueses,  buscándolas  bacia  la 
bermita  de  Nuestra  Sefiora  de  la  Salud,  sobre  la  orilla  izquierda  dei 
Búbal,  entre  Solveira,  Villar  de  Perdizes  y  la  frontera  bispano- 
lusitana. 

Tenian  los  Bibalos  por  vecinos  bacia  el  norte  á  los  Quarquernos  y 
Limicos;  por  el  oriente  á  los  Tamaganos;  ai  sur  los  Aquijlavicnses;  y 
ai  occidente  los  Narbasos. 

VII 

CoKLKRNos.  Los  do  Auciães,  nombre  equivalente  á  Villavieja,  por 
sus  grandes  rastros  de  antigiiedad  y  piedras  escritas  en  caracteres 
desconocidos.  Toca  esta  villa  á  la  província  de  Tras-os-Montes,  comarca 
de  Carrazeda  de  Anciães,  y  se  alza  sobre  lugar  elevado  y  fuerte,  à  5  ki- 
lómetros  dei  Duero  y  en  su  margen  derecba,  entre  los  rios  Tiía  y  Sabor. 

Coeleriii,  dicen  sin  discrepar,  tanto  el  monumento  de  Chaves  como 
los  selectos  códices  de  Plinio ;  el  precioso  escurialense,  aun  no  estu- 
diado,  nos  da  la  forma  Cohelerni,  disuelto  el  diptongo  por  interposi- 
ción  de  una  h.  "^ 

Tolomeo  los  llama  Coelerenos  ó  Coelerinos,  y  recuerda  su  óppido 
de  Coeliúbriga.  •* 

Cuanto  ai  sitio  donde  hubo  de  estar,  mucho  se  ha  discorrido  y 
escrito.  Imaginaule  en  Celorico  de  Basto,  por  la  aíinidad  dei  nombre, 
el  dr.  Don  Juan  de  Barros,  el  P.  Jerónimo  Contador  de  Argole  y  el 


^  Mapa  corográfico,  grabado  cii  1790. 
^  Pliiiio,  III,  3.  á8. 
3  Tolomeo^  ii,  o. 


REVISTA   ARCHEOLOGICA  95 

académico  dr.  Dun  Francisco  Javier  de  ia  Sierra.  Vários  geógrafos  y 
de  ellos  Ciisloljal  Cellario  le  conjeluran  eii  Barcellos;  mienlras  que 
el  l'.  Enrique  Flúrcz  y  Don  Gregório  Mayáns  dejan  su  reducciúii  inde- 
lerniiiiada. 

Veainos  como  se  pudiera  adivinar. 

El  afanoso  estúdio  y  colocaciòn  de  las  24  ciiidades  que  resuella- 
mente  afirma  Plinio  componer  la  romana  cliancilleria  de  Braga,  nos 
prcsenla  en  blaiico  un  território  importante,  limitado  de  E.  á  O.  por 
los  rios  Sabor  y  Pinhão  ó  Penlião,  y  ai  sur  por  el  Duero;  cuya  cir- 
cunstancia nos  lleva  á  suponer  muy  cerrado  bosque  todo  aquello  en 
lo  anliguo.  «Bosque»  significa  en  celta  la  voz  coil,  radical  de  Coelerni 
y  Coeliúbriga. 

Y  como  quiera  que  debemos  renunciar  á  imaginar  que  Coeliúbriga 
fuó  la  actual  Barcellos,  porque  su  demarcación  desde  Espozende,  per- 
teneció  á  los  Scurhos  * ;  y  como  ni  lampoco,  sin  arrebatar  anliquisimo 
património  á  los  Gallaecos  propiameníe  dichos,  habrá  de  parecer  en 
los  valles  meridionales  dei  Tâmega,  desde  Arco  de  Baúlhe,  comarca 
de  Celorico  de  Basto,  y  desde  Aroza  hasta  Lomba  y  Eja  ú  Entre- 
ambos-os-rios,  —  estará  resuelto  el  problema  si  reconocemos  á  los 
Coekvnos  y  su  úppido  Coeliúbriga  en  Anciães  y  en  el  coto  cefiido  por 
los  rios  Penhão,  Sabor  y  Duero. 

Siendo  esto  asi,  tendrian  á  los  Interdmnicos  ai  norte;  los  Asfures 
à  oriente;  los  Veltones  y  Lusitanos,  ai  sur;  y  los  Gallaecos,  ai  occidente. 


VIII 

Equaesos.  Los  de  Conso  y  el  rio  de  su  nombre.  Dilatábanse  desde 
la  mitad  superior  dei  Navea,  por  toda  la  margon  izquierda  dei  Camba 
y  un  buen  trecho  dei  Bibey,  hasta  venir  á  los  términos  de  Tribes  y  de 
Mendoya. 

Plinio  -  y  la  columna  de  Chaves  escriben  identicamente  Ecjuaesi; 
y  como  apellido  personal,  y  bajo  la  forma  de  Equesus,  nos  brinda  con 
esta  voz  una  mscripciún  de  Oteyza,  en  Navarra^. 

No  debió  ser  dicción  rara  en  las  antíguas  lenguas  que  por  allí  hu- 
bieron  de  hablarse,  coando  una  parroquia  cercana  y  adscrita  á  Braga 
se  llama,  en  la  escritura  sueva  de  Lugo,  ano  de  5G9,  Eqidsis  ó  Equirie 
ad  Salliim'*. 

La  capital  de  los  Equaesos  debió  nombrarse  Equia;  y  de  Munici- 
pium  Equesum  proviene  quizá  el  actual  de  Conso. 


>  IMiiiio,  N.  H..UU,  20,112. 

-  1'liiiio.  III.  3.  28. 

3  líiihner.  /.  //.  L,  29G8. 

*  Espaíia  Sagrada,  iv,  234  y  132. 


96  REVISTA  ARCIIEOLOGICA 


Partian  lindes,  ai  cicrzo,  con  los  Tiburos  lucenses;  á  oriente,  con 
los  Noitétatas;  ai  sur  con  los  Naebisocos;  y  á  occidcnte,  con  los ,  de 
Aóbriya. 

IX 

Intehámnicos.  Su  òppido  debiò  elevarse  entre  los  rios  Tiiela  y  Túa; 
y  correr  su  jurisdición,  desde  el  Torto,  por  Franco,  Cabeça  de  Mouro, 
Candosa.  Mirandella,  liasta  Letrica  y  Villafranca. 

Ninguno  de  los  escritores  griegos  y  latinos  los  nombra.  En  cambio 
Tolomeo  y  el  Itinerário  de  Antonino  liablan  dei  Intemmnw  de  los  As- 
tures,  que  liubo  entre  el  Esla  y  Bernesga,  cerca  de  Soto ;  y  de 
luteramnio  Flávio,  lambién  de  aquelia  gente,  donde  ahora  el  pueblo 
de  Onámiol,  entre  los  lios  Boeza,  Parada  y  Molina*.  Plinio  recuerda 
â  los  iNtercuniienses  lusitanos,  de  que  liay  memoria  entre  los  municí- 
pios que  costearon  el  famoso  pnente  de  Alcântara"^. 

Siempre  y  en  toda  nación,  ai  pueblo  situado  junto  á  la  confluência 
de  dos  ô  más  rios  ó  no  lejos,  impusieron  los  traginantes  nombre 
apropiado  á  tal  circunstancia  y  por  ello  fácil  de  retener  en  la  memo- 
ria. De  modernas  poblacioiies  espailolas  denominadas  ai  estilo  y  por 
la  misma  causa,  recuerdo  once  Entrainhos-rios,  nueve  Eutrambas-aguas. 
dos  ENtrwnbas-mestas;  é  igual  ó  análoga  combinación  respecto  de 
puentes,  foces,  montes,  vias,  etc. 

De  Portugal  ya  he  mencionado  á  Eja,  que  indistintamente  se  llama 
Entre-ambos-os-rio.>;  pêro  aqui  no  liay  términos  hàbiles  de  colocar  los 
Jnlerámnicos  de  la  piedra  de  Chaves,  por  corresponder  á  los  Bvú- 
caros  aquelia  parte  de  las  máigenes  derechas  dei  Tâmega  y  el  Duero. 

Véanse  los  pueblos  que  rodeaban  á  los  Inlerámnicos  bracarenses. 
Por  el  norte,  los  Tamagaiws:  ai  este,  los  Astures:  ai  sur  los  Coelernos; 
y  ai  oeste,  los  Aquillavienses  y  GaUaecos. 


X 

LíMicos.  Los  dei  valle  de  Li  mia,  província  de  Orense. 

Plinio  y  Tolomeo  los  adscriben  á  la  chancillería  de  Braga;  y  el  mis- 
mo  Tolomeo  recuerda  la  cabecera  dei  distrito,  apellidándola  Fórum 
Limicorum''^ . 

Vivian  dispersos  en  barriadas  y  caserios,  formando  ayunlamiento, 
con  jurisdicción  y  gobierno  propios.  Su  foro,  ó  séase  la  curía  ó  casas 


'  Tolomeo,  n,  .^5,  odíción  áo.  Willjcrt,';  pag.  i22,   1,  10  y  IG.  —  Ilinerario,  edito- 
res Partliííy  y  Piíiflor;  pas.  2i^i  v  21(i;'202  y  20;{. 

2  Plinio,  N.ll..  1111,21,  118.' 

3  Plinio,  JS.  II.  Jii,  ;j,  28.— Tolomeo,  ii,  5,  en  Wilberg  ])ag,  123. 


REVISTA    AKCIIKOLOGICA  97 

consisloriales,  dorniriancJo  variada  llaniira  de  17  kilúmetros,  se  encura- 
braba  sobre  el  (|iie  décimos  aliora  moiile  do  Viso;  el  cual  corre  de 
norie  á  siir.  piieslo  en  lo  más  oriental  de  la  Limia,  ya  muy  cerca  de 
Ia  sierra  de  Haldriz. 

Los  Li  micos  recibieroii  de  los  Griegos  este  nombre,  por  la  voz  Aiu-va 
«Laguna»,  en  considaración  ã  la  que,  insalubre  y  pestilenle,  ancha  de 
norte  á  sui-  una  légua,  y  larga  dei  este  á  oeste  légua  y  cuarto,  se 
hace  â  la  milad  dei  valle.  Fné  en  otro  siglo  mucho  mayor  este  lago, 
y  veiase  rodeado  por  selva  impenetrable  de  zarzas  y  juncos  y  pinos. 
Mas  los  natnrales,  en  remotisima  edad  le  llamaron  Lago  licliõn,  y 
ahora,  con  poça  vaiiedad,  le  denominan  Lago  Beón,  aun  cuando  más 
comúnmente,  Laguna  Antela. 

El  rio  que  de  ella  brota,  y  discorre  por  Galicia  y  Portugal  tuvo  iin 
primitivo  nondjre  de  \hhwy.  y  el  vulgarizado  por  los  griegos,  de  Li- 
mea. 

Reconócele  ambos  Estrabón,  y  adernas  el  de  Lct/ies  ó  dei  Ovido;  enlo 
cual  se  eípiivoca,  pues  tal  rio  dei  Olvido  ò  Lethes  no  fué  otro  que  cl 
Mondego*. 

Pomponio  Mela  cayò  en  descuido  igual;  y  entendió  por  raudal  tan 
afamado,  ai  Limia,  que  los  códices  escriben  Millia'-.  Pêro  Cayo  Plinio 
Secundo,  sin  citar  ni  ai  geógrafo  de  Amasia  ni  ai  Andaluz,  no  deja  de 
censuiarlos  con  estas  palabras:  «Se  ha  cometido  grave  error,  aun  ha- 
blando  de  Ínclitos  rios;  como  dei  Aeminio,  por  ejemplo;  dei  cual  tan- 
tas fábulas  se  divulgaii  y  á  quien  apellidaron  dei  Olvido  nnestros  mayo- 
res.  Pues  no  falta  quien  le  saque  de  su  lugar,  que  es  á  doscientos  mil 
pasos  dei  Mu~io,  y  lo  lleve  á  oiro  sitio  diferente  y  le  imponga  el  nom- 
bre de  Limaea.»^  Ya  antes  el  escritor  naturalista  liabia  mencionado 
bacia  la  marina  á  Eumcnium  oppldum  et  (lúmen.  Aeminio  y  Eumenio 
ténganse  por  la  misma  palabra,  referente  á  la  actual  Coimbra  y  ai  rio 
Mondego  que  la  cine.  Pêro  vuelvo  á  mi  propósito. 

Dista  O  kilóinetros  ESE  de  la  laguna  Antela  el  sitio  donde  se  irguió  el 
Fontm  Limiconnn.  Al  rededor  de  la  cúria  habia  ido  creciendo  acomo- 
dada y  rica  población,  do  que  hoy  se  ven  las  ruinas  tituladas  «La 
Ciudátí»,  à  13  kilometros  E  de  Ginzo.  á  7  NNE  de  Villa  de  Rey.  á 
1800  metros  por  el  septenlrión  de  Nocelo  da  Pena,  de  cuyo  término 
son  i)arle,  y  á  1100  E  de  Lodoselo.  en  el  valle  do  Viso.  Alli,  bacia  el 
ano  13:2,  ó  siguiente,  la  ciudad  de  los  Limicos,  Civitas  Limiconnn,  que 
es  decir  la  reunión  de  los  hombres  libres  dei  partido,  erigió  una  me- 
moria de  alhesión  y  afecto  ai  Emperador  Adriano;  y  en  141  ó    142, 


1  Estrabón,  iii,  3,  4. 

-  Mela,  III,  8. 

3  Plinio,  A',  li  iiii,  115.  Erratum  el  in  amnibm  inchitis.  Ah  Minio  cc.  m.  pass. 
abest  Aeminius,  quem  alibi  qiiiãam  intellectum  et  Limaeain  vocant,  Oblivionis  auliquis 
declus,  multumque  fabulosm. 

Rev.  Arch.,  n."  7  —  Julho  1888.  7 


98  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

otra  ai  biien  Antonino  Pio.  Aun  todavia  doran  ambos  monumentos,  in- 
crustados en  el  frontispicio  de  la  ermita  de  San  Pedro,  único  resto 
que  ha  quedado  en  pio  de  la  famosa  Limka. 

Sábese  con  exactitud  y  puntualidad  es!e  nombre,  merced  ai  tesli- 
monio  eficacisimo  de  Idacio.  obispo  de  Chaves  ('.{90 — 470),  nacido  en 
ella:  llalius  provincioe  Gallaeciae,  natus  in  Lemica  CivitaíeJ 

No  cabe,  pues,  abrigar  la  menor  duda  cuanto  á  la  ubicación  de  la 
ciudad  y  de  su  território;  fronlerizo  ai  seplentrión  con  los  Aobrigenses; 
á  oi'iente,  con  los  Equaesos  y  Naebisocos;  ai  sur,  con  los  Btbalos:  y 
á  occidenle,  con  los  Quarquernos. 


XI 

Naebisocos.  Los  de  Nabeaos  yNaballo  de  Castro  de  Laza,  próximos 
ai  nacimiento  dei  Támeíía. 

Los  antiguos  geógrafos  é  historiadores  entregaron  ai  olvido  estas 
gentes.  Nómbralos  tan  solo  el  monumento  de  Chaves;  pêro  sin  facili- 
tar otra  guia  para  descubrir  donde  habilanm,  que  la  de  haber  leni- 
do vecindad  con  alguna  ó  algunas  de  las  cuidades  conlribuyentes  á  la 
referida  obra  de  un  camino  público. 

Este  debió  cruzar  por  el  território  de  \o's,  Aobrigenses,  Limicos,  Quar- 
quernos. B/halos,  Tmiiúfjanos,  Aqui/lavienses,  Iníeràuinicos  y  Coelrrnos; 
quedando  fuera  de  la  linea  el  de  los  Equaecos  y  JSaebisocos.  No  hay 
manera  de  suponer  á  estas  dos  ciudades  en  la  banda  occidental  delas 
ocho  anteriores,  por  estar  averiguadas  ó  poço  menos  cuantas  de  aquel 
ladoles  eran  comarcanas;  y  hay  que  llevar  el  discurso  á  la  banda  opues- 
ta,  ó  sea  la  que  mira  ai  oriente.  Pues,  aun  aqui,  por  el  motivo  ya  dicho  de 
ser  conocido  lo  nicás  de  la  frontera,  habremos  de  limitamos  á  ia  par- 
te oriental  de  la  moderna  província  de  Orense;  y  de  ella,  ai  único  es- 
pado de  lierra  interpuesto  desde  los  Aobrigenses,  Limicos  y  Bibalos,  á 
los  Nemétatas  y  Lubaenos.  De  ese  espacio  ocupaban  la  mitad  septen- 
trional  los  Equaesos,  y  la  meridional  los  Naheisocos. 

No  vacilo  en  atribuir  á  los  Naebisocos  por  jurisdición  suya  lo  que 
hay  desde  la  sierra  de  Baldriz,  el  nacimento  dei  Navea,  y  dei  Tâmega, 
y  la  plaza  fuerte  de  Monte  Rey,  hasta  Gudifia  y  el  rio  Diabredo;  y 
desde  la  derecha  inferior  dei  Camba,  hasta  Villar  do  Ciervos,  Sierra 
de  Penas  Libres,  Naballo  dei  Rio  Mente  y  Pinheiro  Vellio  {Pmctum); 
qnedándoles  situados  ai  norte  los  Eq?(aesos,  ai  oriente  los  Lubaenos, 
ai  sur  los  Tamaganos,  y  ai  occidente  los  Limicos. 

Del  solo  y  escueto  nombre  gcntilicio  Naebisori  ó  quizâ  Naebisocii, 
mal  podriamos  inferir  si  la  cabeza  dei  partido  se  llamó  Naebia,  JSae- 
his,  Naebisa,  Naehisoqua,  ó  solamente  se  dijo  Fórum  Naebisocum.  Ni 


Espana  Sagrada  iv,  317. 


ItlOVlSTA   AmjJiKULOGICA  09 


tampoco,  si  por  nvenliira  (que  eii  lo  posible  cabe)  se  apellidú  aiiiicl 
disrlilo  "Los  Naottios  asociados»,  Naebii  Socil. 

lí^s  coimiii  la  radical  Nwh  ai  rio  Ni'his  fescrito  asi  en  los  códices 
de  Mela).  Iioy  Neyva,  que  corre  entre  el  Cávado  y  cl  Lima,  y  dividió 
á  los  piieblos  Lcunos  y  Seiírhos  '.  Lo  es  lambieii  á  los  rios  Navea  y  Na- 
via;  eu  los  Nafhisocos,  Equansos,  y  Tihuros  aquél;y  este,  eu  los  Sehur- 
ros  Incenses  y  Paésicos  aslures. 

Con  el  distrito  de  los  Nadiisocos  formaron  los  Suevos,  en  569,  el 
arcipre/lazgo  de  Pincia,  hoy  Pinza,  no  lejos  de  donde  corren  á  jun- 
larse  el  Camba  y  el  liibey. 

Xll 

QuAHorKHNos.  Los  de  Bande.  Se  extendía  su  alfoz  por  ambas  ori- 
llas  dei  rio  Limia.  uesde  San  Lorenzo  de  Cafiòn  (ai  sur  de  Celanovaj 
hasta  la  siérra  de  Larouco;  y  desde  Moimenta  á  Lobera  y  la  poente 
Pedrina. 

Las  célebres  Aqnae  Qmrqmrnae,  donde  baclan  descanso  los  viajeros 
qne  iban  de  Braga  á  Astorga,  fneron  en  San  Juan  de  Banos,  como  á 
s  kilómelros  ai  sur  de  Bande.  Allí  un  poste  miliar  senala  xxxxviiii 
millas,  ó  sean  78  kilúmetros,  á  Braga. 

Semejante  camino  puede  estudiarse  á  niaravilla,  pues  existen  ma- 
chos trozos  de  él  y  no  pequeno  número  de  miliarios,  algnno  quizá  en 
el  mismo  sitio  6  no  mny  distante  de  aíjuel  en  que  se  coloco. 

Dice  Plínio-  que  los  Quenjuernos  tocabau  ai  convento  de  Braga. 
Qaerqueiini  leemos  en  el  importante  códice  escurialense  dei  siglo  xiv; 
y  con  igual  forma  en  el  Itinerário  de  Antonino  Augusto,  según  los 
mejores  textos^. 

Sigue  en  mucbo  á  esta  preciosa  guia  de  viajeros  el  escritor  anó- 
nimo de  Uavenna,  aunque  eslropeando  los  más  de  los  nombres,  si  no 
es  que  estabau  corruptos  ya  en  el  siglo  vn.  Anota  pues,  en  su  índice 
itinerário,  Aqais  Cercenis  ''. 

Tolomeo  pudo  acertar  con  la  forma  genuína  de  la  voz  geògráQca,  á 
no  haber  en  ella  suprimido  la  primera  r,  cuando  cita  la  cindad  y  su 
óppído:  'Yoy.-.y.  K:j y.y.izvúv,  «Las  Aguas  de  los  Ivuakernos»,''  abora  Banos 
de  Bande. 

Eran  vecinos  de  este  pueblo  bacia  el  septentríún  los  Aolnigenscs,  à 
oriente  los  Limicos,  á  medíodia  los  Narhasos;  y  á  occidente  los  que 
tal  vez  se  denominarian  Melgaecos,  ó  más  bien  Caiicenses,  compatrio- 
tas dei  grau  emperador  Teodósio. 


1  Plínio,  N.  II.  nu,  112. 

2  MI,  3.  28. 

3  Eiiicioii  (lo  Parthey  y  Pinder,  pag.  201. 
■*  Edicioii  (ie  Parlliey  "y  Piíuler,  pag.  32U. 
3  Ediciún  de  Wilberj:,  pag,  123. 


100  KEVISTA  ARCHEOLOGICA 


XIII 

Tamaganos,  Á  existir  una  población  dicha  Támaga,  de  quien  hubie- 
se  recibido  nombre  el  famoso  rio,  tá  biieii  seguro  que  de  lai  voz  ha- 
Uariamos  rastros  en  villa  ó  aldeã  próxima  á  sus  fuentes  ó  nacimiento. 
No  de  otra  maiíera  el  Liniia,  nacido  en  la  laguna  Antela  pêro  acre- 
centado  por  afluentes  cercanos  y  superiores  á  este  lago,  debe  su  nom- 
bre á  la  ciudad  Limica  ó  Limia,  colocada  junto  á  las  fuentes  de  uno 
de  ellos.  Asi  también,  el  pliniano  rio  Scuuja  (el  más  oriental  de  los  de  la 
Cantábria,  llamado  actualmente  Sangas  ó  Mayor)  tomo  apelacíón  de 
pueblo  inmediato  á  su  nacimiento,  y  que  aun  hoy  mismo  se  dice  San- 
gas y  San  Bartolomé,  en  el  valle  de  Soba. 

Si  con  el  Támaga,  que  abora  pronunciamos  Tâmega,  sucediese  una 
cosa  parecida,  habria  que  sacar  de  sus  fuentes  á  los  Naehisocos  y  re- 
conocer  en  ellas  á  los  Tamaganos.  Pêro  nada  de  eso.  El  Tâmega  se 
dilata  en  Galicia  por  un  trayecto  quizá  de  40  kilomelros;  y  hasta  los 
30  no  viene  á  salirle  ai  paso  la  feligresia  de  Tamagós,  y  á  los  33  la 
de  Tamaguelos  (ambas  palabras  con  fisonomia  primitiva),  fuera  ya  de 
la  circunscripciòn  meridional  de  los  Naehisocos. 

En  ella  pudiera  arrancar  la  boreal  de  los  Tamaganos:  desde  la  ori- 
11a  izquierda  dei  Tâmega,  por  Tamagós,  Lama  de  Arcos,  sierra  de 
Penas  Libres,  Quiraz,  Pinheiro  Novo  y  Velho,  Cerdedo,  Muimenta  y 
sierra  Gamoneda,  hasta  llegar  á  partir  limites  por  el  raediodia  con  los 
lutercimnicos. 

En  ese  território  quedarían  comprendidos  la  comarca  de  Valle  de 
Paços,  con  Monforte  do  Uio  Livre  y  Lebução,  Vinhaes,  Torre,  Villa- 
franca,  Santa  Comba,  Bragança  y  Penella. 


XIV 

Hasta  aqui  la  investigación  geográfica.  He  procurado  llevarla  acabo 
en  conjunto,  y  desde  un  pimto  de  vista  nuevo  seguramente  y  que, 
en  mi  opinión,  ha  de  dar  fecundos  resultados.  Los  deberemos  en  rea- 
lidad  ai  precioso  monumento  epigráfico  de  Chaves  apreciado  en  to- 
do su  valor. 

Él  nos  muestra  la  forma  genuína  en  diez  nombres  de  ciiidades,  en- 
tre las  24  que  componian  el  convento  jurídico  de  Braga.  Él  nos  ofre- 
ce  cuatro  de  ellas  no  registradas  en  los  escritos  griegos  y  latinos  que 
han  Uegado  á  nosotros.  Y  él  nos  brinda  con  luz  bastante  para  averi- 
guar el  território  que  ocuparon  siete,  de  las  cuales  no  hay  más  noti- 
cias que  el  nombre  solo,  conservado  ya  en  la  «Historia  Natural»  de 
Plinio  ya  en  la  inscripción  llaviense. 


JUNHO— JULHO,   l88X 


MAPA 

ímmn  jiridico  de  Biua 

D.  Aureliano  Femándej- Guerra  y  Orbe 


REVISTA    AHCHEOLOGICA  101 

La  ciial,  por  el  mismo  hecho  de  presentar  diez  ciudades  asociadas 
para  iin  íiii  do  iiUlidad  comini,  nos  (loclara  que  por  necesidad  liabían 
de  teiier  las  imas  rcíspiiclo  de  lasolras  suíí  lerrilotios  veciíios.  F(jrma- 
han,  pnes,  una  espécie  de  cadena;  y  si  ai  intentar  yo  volveria  á  su 
pristino  estado,  lie  cogido  un  eslabon  por  otro,  poniéndole  fuera  de  su 
verdadero  lugar,  ya  vendrá  quién  más  afortunado  y  coo  menos  fatiga, 
le  reslilnya  á  su  pnpio  sitio. 

En  resolución,  la  cohuniia  de  Chaves  nos  demuestra  que  en  el  ano 
7í)  de  la  ei'3  Cristiana  diez  ciudades  dei  convento  jurídico  Hracarense, 
ya  por  iniciativa  propia  ó  ya  por  excitación  dei  Legado  auguslal,  unie- 
ron  sus  esfuerzos  para  construir  una  via  interior  desde  el  Mino  ai 
Duero.  Tralãndnse  de  obra  necesaria  y  conveniente,  no  solo  bajo  el 
aspecto  comercial,  beneíicioso  para  aquellos  habitantes,  sino  de  interés 
nuiitar  para  el  l^iieblo  Romano,  el  Legado  de  la  província  y  á  sus  or- 
denes el  Legado  de  la  legión  vii  Gémma  Feliz,  acampada  en  la  Tarra- 
conense,  hubieron  de  coadyuvar  ai  logro  de  tan  buen  proyecto,  ha- 
ciendo  que  soldados  de  la  Legión  y  sus  ingenieros  à  la  cabeza, 
comparlieseu  con  los  moradores  de  dichas  ciudades  el  gasto  y  la  fa- 
tiga. 

Esto  era  á  la  sazón  frecuentisimo.  Gran  número  de  inscripciones, 
en  las  varias  províncias  dei  Império,  leslifican  de  qué  suerte  las 
legiones,  cohortes,  alas,  destacamentos  aislados,  y  hasta  la  marina 
de  guerra  construyeron  y  re[)araron  alcazáres,  templos,  banos,  ca- 
minos.  poentes,  canales,  acueductos  y  diques. 

Baste  recordai'  la  epistola  dcl  procurador  de  la  Mauretania  Ce- 
sariense  Tito  Vario  Clemente,  grabada  en  mármol  y  dirigida  á  Marco 
Valério  Etrusco,  legado  de  Ia  provinda  de  Numidia  en  132;  docu- 
mento relativo  á  la  obra  de  cierto  canal  que,  á  través  de  montanas 
y  profundos  valles.  labraron  en  Lambese,  comarca  de  Bugia,  los 
soldados  de  la  legión  iii  Augusta.  Pues  otra  inscripción  nos  dice 
que,  médio  destruído  y  abandonado  el  acueducto  por  la  incúria  de 
los  hombres  y  el  trascurso  dei  tiempo,  Io  repararon  y  mejoraron 
valieutemente  los  emperadores  Diocleciano  y  Maximiano,  y  en  su 
represenlación  el  Presidente  de  la  província  numídica,  cuidando  de 
los  Irabajos  un  comisionado  de  la  ciudad  y  un  centurión*. 

Entre  los  anos  de  177  á  180,  imperando  Marco  Aurélio  Antonino 
y  Lúcio  Aurélio  Cómmodo,  una  cohorle  reedifica,  desde  el  suelo, 
soberbio  anfiteatro  en  el  território  de  Argel.  Y  ai  reprodncir  Wíl- 
manns  el  epígrafe  conmemorativo,  no  se  detiene  un  punto  en  asegu- 
rar:  Sacpius  ita  per  legiones,  cohurles  vexillatiouesce  opera  fada  vel 
refecta  inveniuntuf' . 


1  Gustavo  Wilmanns.  Exempla  inscriptionum  lalinariim  in  usum  praecipiie  acade- 
iitiaiui.  IJeiiin,  lH~'^.  Niirneros,  785  y  769  a. 
~  Idem,  Ibidem.  Numero  743. 


102  REVISTA   ARCHEOLOGICA 

El  niismo  docto  epigrafista  alemán  nos  Irae  á  la  memoria  como 
los  soldados  romanos,  estacionados  no  muy  lejos  de  allí  á  fines  dei 
siglo  II  Y  princípios  dei  iii,  levanlaron  en  Lambese  templos  y  eri- 
gieron  unas  termas  y  un  arco  de  triunfo  *.  Pêro,  ^que  más?  En  los 
tiempos  de  Valentiniano,  Valente  y  Gracjano  (371),  cierlo  destaca- 
mento de  caballeria  fabrica  desde  los  cimientos  un  burgo  en  Arábia  ^. 
Y,  finalmente,  sabemos  por  la  inscripción  bailada  en  Coptos  el  ano 
de  188:1.  baber  abierlo  los  soldados  cinco  cisternas,  en  distancia  de 
380  kilômetros,  entre  Coptos  y  Puerto  Berenice-^ 

Siendo  evidente,  pues,  que  el  soldado  romano  lomaba  parle  en  las 
obras  públicas,  veamos  abora  á  cuáles  de  ellas  y  como  babian  de  con- 
tribuir las  ciudades.  Clarísimo  aparece  este  punto  en  el  capítulo  98  de 
la  ley  colonial  de  Osuna;  míMiumento  aun  no  descubierto  cuando  salieron 
á  luz  el  tomo  n  dei  Corpus  Inscriptíonum  Lalinarum  y  el  repertório  de 
Wilmanns.  lie  aqui  el  texto:  «Cuando  los  Decuriones  de  esta  colónia 
Júlia  Genetiva  de  los  Urbanos  dispongan  que  se  emprenda  ó  per- 
feccione  cuaiquier  obra  de  interés  común,  sea  válido  y  ejecutorio 
su  acnerdo  si  se  bubiese  tomado  asisliendo  á  la  junta  la  mayor 
parle  de  los  Decuriones;  y  con  tal  de  que  à  ningún  vecino  se  exijan 
más  de  cinco  dias  de  trabajo  gratuito  ai  afio;  y  solo  três  á  quien 
acuda  con  bestias  de  tiro  y  acarreo.  Los  Ediles  lomen  desde  luego 
la  dirección  de  la  obra.  La  cual  se  ha  de  llevar  á  cabo  tal  y  como 
la  bayan  Irazado  y  aprobado  los  Decuriones;  mas,  por  supuesto,  sin 
obligar  á  que  Irabaje  en  ella,  contra  su  voluntad,  ningún  menor  de 
14  anos  ó  mayor  de  GO.  Cualquier  persona  que,  así  en  esta  colónia 
como  en  su  término,  tenga  domicilio  ó  finca,  sin  gozar  los  derechos 
y  consideración  de  colono,  sea  obligada  no  obstante,  cual  si  lo  fuese, 
á  dar  sus  peonadas  en  tales  obras.''» 

Gravamen  semejante  debió  existir  en  los  demás  pueblos  de  Espana. 
Y,  fuera  de  ello,  muclias  personas  eran  forzadas  á  trabajar  sin  des- 
canso en  las  minas  ó  en  las  obras  de  las  carreteras,  ya  por  castigo  á 
vlrtud  de  sentencia  judicial,  ya  por  tirania  de  algnnos  emperadores. 


1  Wilmanns,  DieRòmische  Lagcrstaclt  Afrilas.Yease  en  Ias  Commentationes  Philo- 
lorjae  in  honorem  Theodori  Mommseni,  Berlin,  1877,  pag.  197. 

^  Wilmiiiiiis,  Exempla,  7(50. 

3  A.  Boiíirlié-Leclercq,  iManuel  des  Institiitions  Romnhips,  Paris,  188G.  pág.  H29. 
— Ocioso  fuera  querer  \o  comproijar  liasta  ia  saciedad  mi  aserto.  acumulando  ins- 
cripciones  sobro  inscripcioiíes  de  diversas  provincias  romanas,  y  disorlando  sin  me- 
dida sobre  lo  que  nadie  ignora.  Todo  ello  se  cncueníra  averiguado  con  diligencia  y 
peregrina  erudición,  ya  por  el  ilustre  Guillermo  líársUir,  en  su  opúsculo  intitulado 
JJie  Bauten  der  rhmkchen  Soldaten  zwn  iilfvntlichen  Nxdzen.  Spira,  187;.{;  ya  por 
nncstro  sábio  catedrático  y  académico  D.  Eduardo  de  Hinojosa  y  Naveros,  en  su  ma- 
gnifica Historia  (jenercd  dei  Dereclio  Espaitol,  Madrid,  1887. 

•''  Lex  adoninc  luliae  Genelivae  Urúanorum  uive  Irsonis,  dei  aíio  710  do  Roma,  44 
antes  de  Cristo:  texto  é  iluslraciones  de  lliibner  y  Monunscn,  en  la  Ephcmeris  Epi- 
fjraphica,  1874. 


REVISTA    AliCIlKOLUGlCA  lOo 

Calígiihi  siípcró  á  todos  eii  prodigar  y  auri  estremar  las  penas  coolra 
persoiias  do  clase  aveiilajada*. 

Vo  creo,  piies,  no  haher  sido  iinicas  las  diez  poblaciones  refeiidas 
en  em[)ltíar  lus  brazos  y  dinero  de  sus  habitantes  para  la  ejecución  de 
nn  grau  camino  el  ano  de  71).  Otras  luuclias,  pertenecientes  á  Uraga  y 
á  Lngo,  estimo  que  iiicieran  lo  propio,  en  los  anos  de  78  á  80,  bajo 
el  poder  dei  mismo  legado  augnstal. 

iJuraiile  esa  época,  y  baciendo  el  Legado  ostenlación  de  su  nombre 
y  dei  de  los  Césares  Flavios,  se  llevó  á  cabo  un  nuevo  camino  de 
liraga  á  la  ciudad  de  Aslorga  (via  nova),  siguiendo  la  cuenca  dei  rio 
Homem,  atravesando  la  sierra  de  Gerez;  y  por  las  comarcas  superio- 
res dei  Limia,  viniendo  á  cruzar  el  Sil.  Oclio  piedras  miliarias,  muy 
eslropeadas  las  más,  subsislen  aún  con  el  nombre  de  dicbo  legado 
Cavo  Calpetano  Rancio  (Juiiinal  Valério  Festo  -;  en  cinco  se  lee  via 
nova  a  lirdcava  ^,  y  la  más  lejana  de  todas  ellas  está  inmediata  á 
Puente  Navea,  en  dirección  de  Valdeorres,  á  media  légua  de  Tribes, 
fuera  dei  convento  Bracarense,  dentro  ya  dei  de  Astorga. 

Abrigo  liiine  convencimieíito  de  perlenecer  á  la  via  labrada  por  la 
ciudad  de  Chaves  y  sus  luieve  hermanas,  los  rastros  y  miliarios  que 
salen  ai  paso  dei  arqueólogo  desde  Chaves  á  Villa-Randelho,  Yaldete- 
Ihas,  y Cossacos;  lan  maltrecha  por  los  temporales  y  quebrantada  en 
sus  pnenles,  después  de  siglo  y  médio,  que  los  emperadores  Macrino 
y  Diadumeniano  tuvieron  que  mandaria  reparar  en  217;  y  en  f-lS, 
Maximino  y  .Máximo;  Numeriano,  en  iSi ;  y  bacia  350  y  353,  Magnen- 
cio.  Asi  lo  publican  los  miliarios  que  han  llegado  hasta  nueslros  dias.  ''• 


XV 

Tales  son  las  conclusionçs  que  me  sugiere  el  estúdio  atento  dei  epi- 
grafe. Debo,  sinembargo,  confesar  que  varones  doctisimos  y  anhelo- 
sos  de  investigar  lo  cierto,  si  bien  todos  ellos  han  alcanzado  á  ver 
parle  de  la  verdad,  sacan  no  obstante  conclusiones  generales  diversas 
de  las  mias. 

Ilubner  y  Momrasen  reconocen  que  la  columna  de  Chaves  se  refiere 
à  una  obra  pública;  mas  no  Ia  especifican.  Ilallan  incongruente  que  se 
interponga  la  mención  dei  Procurador  por  Asturia  y  Galicia  Lúcio 
Arruncio  Máximo  entre  el  Legado  de  ia  legión  vii,  Decio  Gornelio  Me- 


'  Muitos  hoiiesti  crdinis,  dcfonmitos  prius  stlgmatum  notis,  ad  metalla  aut  ad 
viaruin  mimitiones,  aut  ad  hestias  condemnuvit.  Cayo  Suetonio  Tran^iuilo,  Caius  Coe- 

2  H(il)nei-,  /.  //.  L.  2177,  4799,  iSOS,  4803,  4814,  4838,  4847,  485i. 
^  ilul)iier,  0.  c,  4802,  ^.4814?,  1838.  4847.  48o4. 
'  Ilubner,  o.  c,  4789.  4788,  4793,  479 L 


10 i  REVISTA   ARCIIEOLOGICA 

ciano,  y  el  nombre  de  esta  misnia  legión  vii  Gemina  Feliz.  Y  aun 
cuando  no  rediazan  como  inadmisible  que  la  legión  pudiera  haber  tra- 
bajado  en  la  obra  pública,  sea  cual  fiiere  (con  Io  cual  desapareceria 
desde  luego  Ioda  incongruência),  prefieren  entender  que  la  legión  está 
citada  eponímicamente,  en  ablativo,  para  fijar  aún  más  la  fecba  de  la 
erección  dei  monumento^ 

Gustavo  Wilmanns^  en  el  número  803  de  sus  «Ejemplos  epigráficos» 
se  aliene  á  lo  dicho  por  IMommsen  y  Húbner  respecto  de  esta  inscrip- 
ción :  diliriendo  de  llúbner,  solo  en  imaginar  que  ba  de  correspon- 
der ai  puente  de  una  via  piiblica,  distinto  dei  puente  municipal  labrado 
ei  ano  IO'!  sobre  el  Tâmega  por  los  Agniflarierises. 

Y  comentando  en  seguida  los  anliguos  letreros  dei  puente  de  Al- 
cântara, sosliene  contra  llúbner  que  los  municípios  no  ponian  su  di- 
nero  y  brazos,  smnptiim  et  opera,  unicamente  en  las  obras  de  cami- 
nos  vecinales,  sino  que  á  veces  solían  unirse  para  la  construcción  de 
vias,  puentes  y  demás  empresas  de  interés  común,  alegando  para  afir- 
mar esta  doclrina,  el  conocido  texto  de  Siculo  Flacco  y  una  iuscripción 
de  Dalmácia^. 

Entre  los  distinguidos  alemanes  ilustradores  de  la  iuscripción  aqui- 
ílaviense,  íignra  también  el  profesor  de  la  Universidad  de  Berlin  Senor 
Olón  Hirscbfeid,  con  ocasión  de  su  escrito  en  honor  de  IMommsen  ^. 

Este  erudito  niega  bien  que  en  la  columna  de  Chaves  se  cite  epo- 
nímicamente la  Legión,  esto  es,  para  fechar  el  monumento,  y  que  el 
LEGÃõr-GEM-FEL  se  haya  de  descifrar  en  ablativo.  Peio  yerra  cuando 
atribuye  à  desapoderado  amor  dei  cuadratario  ó  marmolista  á  la  sime- 
tria, el  haber  trastrocado  los  renglones  y  querido  enlazar  en  caso 
genitivo  el  nombre  de  la  legión  con  el  cíel  legado  de  ella,  Cornelio 
Meciano,  ingiriendo  á  deshora  en  médio  el  dei  procurador  Lúcio  Arrun- 
cio  Máximo.  Y,  por  lo  que  hace  á  este  personaje,  observa  acertada- 
mente el  sr.  Ilirschfeld,  que  no  es  un  simple  procurador  de  Hacienda, 
sino  presidiai  ú  siquier  gobernador  politico  y  económico;  dependiente, 
por  supuesto,  dei  legado  de  la  Tarraconense. 

Á  todos  los  sábios  mencionados  les  choca  en  el  epígrafe  la  inlerca- 
lación  dei  Procurador,  entre  el  Legado  de  la  Legión  y  el  nombre  de 
ella.  Todos  lo  caliíican  de  inusitado  é  inexplicable;  y  todos  no  obs- 
tante, cuando  se  trata  de  inscripción  tan  solemne  y  de  tan  buena  edad, 
prefieren  echar  toda  la  culpa  sobre  el  grabador,  á  leer  en  caso  pri- 
mero  (en  nominativo)  el  nombre  de  la  Legión  vii  Gemina  Feliz,  que  es 
lo  razonable  y  congruente. 

Pêro  antes  de  proseguir,  debo  hacer  constar  que  á  la  persona  re- 


1  Hiibner,  o.  c,  2477. 

2  Wilnianns,  80't,  80o. 

3  Die  Vcricalhinçj  dor  Bhrhigrrnze  m  den  ersíp))  (hrl  Jalirinnidrrten  der  rimischeu 
Kaiserzeii.Vág^Mil ,n(Aa.  IH útí  las  llommentationes  J^hilologae  in  lionarcm  Th.Mommsen 


KEVISTA    AKCllEOLOOICA  lOo 

dadora  dei  c'pii,M-afe  no  se  le  perdoriará  minca  la  falia  de  liaberie 
heclio  osciiro,  siii  necesidad.  por  ie|)iignaii(;ia  á  escribir  dos  veces 
Ll-lG-vilGEM-Fi:!.:  uiia,  abreviadas  y  eiilendidas  eri  genilivo  las  cnatro 
diccioiies,  despiiós  de  las  de  (:oi<NKLioMAi:(:iANOLi-:GAVG;  yotra, 
110  abreviado  el  primer  vacablo  sino  entero  y  en  renglón  aparte, 
Lb:GlOVU(}i:MKi:i.,  precediendo  á  la  linea  qne  ocupa  el  lilnio  civi- 
TATESX.  Candidamente  supuso  el  redactor  que,  no  liabiendo  quien 
ignorase  entonces,  por  Astnria  y  Galicia^  ser  Cornelio  Meciano  el  le- 
gado de  la  legiòn  yii:  y  urgiendo  mencionar  luego  á  esta,  y  nada  menos 
que  en  aventajado  lugar,  alendido  lo  que  liubo  de  contribuir  á  la  em- 
presa,— era  suliciente  é  ingenioso  poner  abreviada  la  palabra  Legiòn 
alli  donde  bacia  más  falta.  Vino  á  imaginar,  sin  duda,  que  en  cual- 
quiera  tiempo  la  abreviatura  leg  podria  atender  á  los  dos  conceplos 
diferentes:  enmarafiado  y  antigramalical  arbilrio.  Mas,  de  toda  época 
se  regislran  paiecidos  absurdos  é  ingeniosidades. 

Soslengo  que  la  Legión  se  lia  de  leer  en  nominativo,  por  lial)er  con- 
tribuído con  sus  biazos  á  la  obra,  cual  los  diez  pueblos  dei  convento 
de  Braga:  interpretación  la  más  plausible,  pues  obvia  todas  las  dificul- 
lades;  y  que  no  pueden  menos  de  confesar  bien  encaminada  Mommsen 
y  Iliibner,  aún  cuando  opten  porotra.  Finalmente,  corrobora  ítií  aserto 
el  introducirse  en  esta  memoria  vial,  para  fecbarla,  el  nombre  dei 
legado  de  la  Legión :  lo  cual  seria  fuera  de  estilo,  á  no  baber  ella  tra- 
bajado  corporalmente  en  la  obra.  Eu  oiro  caso,  para  datar  la  inscrip- 
ción  bastaban  y  sobraban  los  Emperadores  cônsules,  el  Gobernador  ge- 
neral de  la  Tarraconense  y  el  Subgobernador  de  Asluria  y  Galicia. 

Somelo  dócil  mis  apreciaciones  todas  ai  verdadero  saber  y  probi- 
dad  literária  de  cuautos  lian  consumido  sii  vida  con  entusiasta  y  acen- 
drado  amor  en  tan  peregrino  linage  de  estúdios.  Quien  asi  los  cultiva 
acertará  á  poner  en  su  punto  el  ceio  por  la  verdad  que  me  aguija  y 
que  ba  llevado  á  mis  manos  la  pluma. 

Madrid,  2  de  Abril  de  1888. 

AURELIANO    FkRNÁNDEZ-GuEHHA  Y  OkBE 


CONVENTO  DAS  FLAMENGAS  EM  ALCANTAEA. 
OS  ARCHITECTOS  FRIAS 

(Continuado  de  pag.  77) 

De  cinco  indivíduos  de  appellido  Frias  nos  dá  noticia  o  Dicciona- 
rio  Anistico  do  conde  de  Raczynski.  Recordemos: 

Valeriano  dk  Frias  de  Castilho, —  tbcsoureiro  do  arcebispo  de 
Braga,   primaz  das  Ilespanlias.  «Pessoa  intelligenie  em  Arquitectu- 


106  REVISTA  ARCIIEOLOGICA 

ra»  *,  e  como  tal  enviado  por  D.  fr.  Agostinho  de  Castro  aos  do- 
minicanos de  Yianna,  ás  vesporas  da  trasladação  do  corpo  do  Santo 
Arcebispo  D.  Frei  Bartholomeu  dos  Marlyres,  para  armar  a  eça  sobre 
a  qual  haveria  de  repousar  o  caixão,  em  quanto  durassem  os  officios 
e  absolvições,  tiabalho  que  «sahiu  baslantemente  apparaloso  e  magni- 
íico»,  conforme  diz  Frei  Luiz  de  Sousa  -. 

EuGKMO  DE  Fkias,  imagiimrio,  debiuador,  pintor  minialurista  e  or- 
namentista  dos  códices  e  pergaminhos  do  tempo.  Auclor  do  frontespi- 
cio  do  Compromisso  da  irmandade  de  S.  Lucas,  executado  em  ICOO,  e 
que  o  diplomata  prussiano,  entendedor  pouco  fácil  de  contentar,  achou 
«de  boa  execução  e  de  satisfactorio  elfeito.» 

Luiz  DE  Fm  AS,  que  o  conde  de  Uaczynski,  por  informação  do  vis- 
conde de  Juromenha,  dá  como  «architecto, /(7Ao  de  Nicolau  de  Frias.» 
Das  restantes  informações,  que  se  lèem  apoz  esta,  mais  para  diante 
nos  occuparemos. 

Nicolau  dic  Frias,  aarchitecto,  citado  por  Barbosa  Machado  co- 
mo artista  que  honra  o  seu  paiz» — expressões  do  auctor  do  Diccio- 
nario. 

Seguem-se  a  este  preambulo  informações  do  visconde  de  Jurome- 
nha, como  se  sabe,  um  dos  mais  assíduos,  mais  zelosos  e  também 
mais  competentes  collaboradores  de  Uaczynski,  colhidas,  como  as  an- 
teriores, nas  chancellarias  dos  Philippes.  Vêem  em  seguida  a  menção 
de  Cyrillo  e  as  referencias  á  lista  do  cardeal  Saraiva. 

pEDiio  DE  Frias,  7narceneiro.  O  conde  copia,  traduzindo-o,  o  que  se 
lè  na  Lista  acima  citada,  acerca  do  famoso  samblador  d'esse  nome.  S. 
Luiz  accrescenlára  ao  que  o  conde  traduziu:  «llé  fcila  (a  obra  do  re- 
tábulo da  capella-mór  da  igreja  do  Carmo)  de  semblagem  com  cohim- 
nas,  diz  a  chrouica  do  Carmo,  tom.  \.°  pag.  580»  ^. 

São  estes,  pois,  os  cinco  Frias  conhecidos,  parentes,  porventura, 
todos  entre  si,  por  descendência  e  aííinidade,  como  o  terceiro  e  o  quar- 
to são  avô  e  veto,  e  não  páe  e  fdho  como  se  lê  em  Uaczynski. 

Foi  a  transcrita  inscripção  sepulchral  da  igreja  das  Flamengas  de 
Alcântara,  que,  pelas  averiguações  a  que  deu  margem,  nos  habilitou 
a  assentar  este  ponto  de  um  modo  positivo.  Ora,  essas  averiguações, 
partindo  da  existência  de  mais  um  Frias,  de  mais  um  ignorado  aichi- 
tecto  d"este  appellido,  levaram-nos  ao  conhecimento  da  existência  de 
de  mais  outro  Frias  ainda  egualmente  architecto  e  também  ao  serviço 
da  Casa  dEl-rei  de  Portugal. 

Assim,  o  quadro  dos  architectos  Frias  seria  fixado  na  seguinte  no- 
ta, na  qual  se  inclue  a  rectificação  que  tem  de  fazer-se  no  tocante  á 
filiação  de  Luiz  de  Frias 


1  Vida  (lo  Arcebispo,  L.  VI,  cap.  V.  in  fíiie. 

~  Esta  Irasladagão  verilicou-sn  a  24  de  iiuiio  dí^  tfiOO. 

^  Obras  completas  do  Cardeal  Saraiva,  T.  VI — 187G. 


REVISTA    AUCIIEOLOGICA  107 

Nicolau  de  Fiuas.  pae  de 
T/ii'0(losio  de  Frias,  pac  de 

Luiz  he  Fiuas  (o  do  l)ia\  AnisL),  pae  de 
T/l  coei  os  i  o  de  Frias  Pereira  (?) 

Por  tuiiiseííiiiiito:  T/teodosio  de  Frias  Pereira  d  neto  de  Theodosio  de 
Frias  (o  das  Flamengas),  como  Luiz  de  Fiuas  é  nela,  e  não  fd/io,  de 
Nicolau  de  Fiuas? 

Gomo  se  vè,  liça  por  esta  nota  elevada  desde  já  a  lista  de  todos 
os  artistas  Fiuas  a  sete,  e  augmeiítada  a  dos  architectos  desse  appe- 
lido,  descendentes  do  primeiro.  Nicolau  de  Frias,  com  mais  dois.  i»es- 
ta  poj-ém  uma  dúvida  :—Tlieodosio  de  Frias  Pereira  é  com  elíeito  neto 
de  Tlieodosio  de  Frias  sepultado  nas  Flamengas?  Ha  aqui  uma  questão 
de  datas  a  destrinçar.  Posteriormente  a  exporemos.  Por  agora,  sejam- 
nos  permiltidas  ainda  mais  algumas  linhas  consagradas  ao  exame  da 
inscripg.ão  sepulchral  das  Flamengas, 

Em  quatro  partes  ou  ramos  se  pôde  dividir  a  inscripção  sepulchral 
de  Theodosio  de  Frias.  Na  primeira  parte,  declara-se  cuja  seja  a  se- 
pultura, tilulos,  empregos  e  filiação  do  sepultado,  bem  como  o  nome 
da  esposa.  Na  segunda,  expõe-se  o  motivo  que  moveu  os  cônjuges  a 
fundarem  o  seu  jazigo  neste  mosteiro.  Na  terceira  parte  da  inscripção 
diz-se:  «e  fez  as  rasas  do  mosteiro  novo  por  mandado  de  sua  mages- 
tade  com  a  ordem  do  qual  coreo  (sic)  emquanlo  vivèo  por  amor  de 
Deus.»  Pondo  de  parte  o  que  ha  de  obscuro  e  confuso  na  redacção 
d"este  trecho,  a  primeira  pergunta  que  occorre  fazer  é: — O  que  são 
as  rasas?  Essa  pergunta,  porém,  é  de  fácil  resposta;  pois  se  deve 
intender  que  o  artista  que  abriu  a  inscripção  se  esqueceu  de  gravar 
uma  haste  horisontal  junta  á  haste  vertical  do  r,  de  modo  a  figurar 
um  T  e  um  r  conjuncios,  d'onde  resultaria  a  palavra  "RASAS  (traças), 
ficando  perfeitamente  intelligivel  a  phrase ', 

Assim  (juiz-se  aífirmar  que  Theodosio  de  Frias  dera  o  risco  ún  mos- 
teiro novo.  Em  documento  que  lhe  diz  respeito  veremos  mais  adeante 
inserta  essa  palavra;— íyacízs.  O  emprego  do  s  por  ç  não  é  circumstau- 
cia  que  embarace,  altendendo  á  imperfeição  ortographica  da  inscripção. 

Mas  o  mosteiro  novo  de  que  Theodosio  de  Frias  fez  as  traças  ó  esse 
em  cuja  egreja  elle  se  acha  sepultado? 

Na  mencionada  Relacion  feita  pela  madre  Calharina  do  Espirito  Santo 
nem  se  menciona  o  nome  do  architecto  do  convento  nem  a  data  precisa  do 
seu  acabamento,  ou,  ao  menos,  a  da  entrada  das  religiosas  na  sua  nova 
casa;  apenas  ahi  lemos  a  summaria  novidade  de  que  a  transferencia  d'ellas 
das  casas  onde  se  achavam  alojadas  para  a  sua  nova  e  definitiva  habitação 
se  effectuara  «jwr  ser  o  sitio  de  Nossa  Senliora  da  Gloria  muito  doentio.  i> 

Ora,  segundo  as  expressões  de  J.  B.  de  Castro,  menos  omisso  neste 


1  Na  quarta  partp  ila  inscripção  são  indicadas,  conforme  o  uso,  as  datas  do  fal- 
lecimento  dos  st,'puUados. 


108  REVISTA    ARCHEOLOGICA 

ponlo  que  O  P. Carvalho,  as  religiosas  Flamengas  que  primeiro  povoaram 
o  mosteiro  da  visitação,  leiído  entrado  em  Lisboa  em  ITiSií,  foram  man- 
dadas transferir  para  elle  pelo  piedoso  monarclia  seu  protector  quatro 
aniios  depois,  1580,  «em  cujo  tempo  (o  mosteiro)  se  tinha  acabado  de 
edilicar.»  ' 

Siippondo  que  o  rei  intruso  fizesse  proceder  a  essa  edificação  nos 
primeiros  meses  do  anno  seguinte  ao  da  chegada  das  Flamengas,  isto 
é,  no  correr  de  1583.  nenhuma  duvida  se  oppõe  a  que  Theodosio  de 
Frias  estivesse  já  no  caso  de  traçar  os  planos  da  obra.  Dado  que  seu 
pae  fosse  da  geração  de  1540,  como  computámos^  conjecturando  que 
em  1()10,  data  provável  da  sua  morte,  fosse  já  margeando  os  setenta 
e  podendo  acaso  ter  casado  aos  vinte  cinco,  se  Theodosio  viesse  ao 
mundo  um  anno  depois,  pertenceria  aos  nascidos  de  1566,  o  que  lhe 
daria  a  edade  de  dezesete  ânuos  á  data  em  que  se  suppuzéram  co- 
meçadas as  obras  do  mosteiro  philhpino.  l*recoces  como  ainda  então 
eram  as  aptidões,  acompanhando  o  desenvolvimento  iutellecluni  o  phy- 
sico,  não  custa  a  crer  que,  ou  por  ajudar  seu  pae,  talvez  o  verdadei- 
ro mestre  das  obras,  e  ir  assim  practicando  a  arte,  ou  por  ser  já 
servidor  da  casa  real,  o  que  não  é  provável,  dirigisse  de  facto  a  planta 
do  mosteiro,  que,  aliás,  nada  tem  de  recommendavel. 

As  expressões:  —  «e  fez  as  rasas  (traças)  do  mosteiro  novO'»  pare- 
cem indicar  a  existência  de  outro.  É  natural,  com  elfeito,  que  se 
Theodosio  de  Frias,  ou  o  gravador  da  inscripção  por  elle,  se  quizesse 
referir  a  esse  mesmo  mosteiro  onde  o  architecto  e  sua  mulher  haviam 
escolhido  sepultura,  dissesse  antes:  —  e  fez  as  traças  deste  mosteiro.)) 
Onde  ha  um  mosteiro  novo,  pode  haver,  ou  ler  havido,  um  mosteiro 
vel/io.  Ora,  o  mosteiro  do  Calvário,  de  religiosas  observantes  Fran- 
ciscanas, ^  que  ficava  fronteiro  ao  da  Quietação,  foi  fundado  em  1617; 
isto  é,  trinta  e  um  annos  após  aquelle.  Não  será  acceitavel  a  presum- 
pção  de  que  haja  sido  Theodosio  de  Frias  o  architecto  da  obra,  ou  de 
paile  delia,  e  assim  haja  feito  as  f7'aras  d'este  mosteiro,  noro  em  re- 
lação ao  das  Flamengas,  que  em  1624  já  contava  trinta  e  nove  annos, 
emianto  que  o  do  Calvário  apenas  linha  sete? 

O  sepultado  das  Flamengas  adquirira  a  obrigação  de  residir,  des- 
de abril  de  1605,  no  palácio  fronteiro  ao  novo  convento;  palácio  re- 
centemente adquirido  para  a  coroa,  outra  noticia  que  as  pesíjuisas  a 
que  esta  sepultura  deu  matéria,  nos  habilitam  a  dai-  com  certa  indi- 
viduação. JMorando  fronteiro  á  obra  mais  fácil  se  lhe  tornava  a  sua  vigilân- 
cia. Fssa  coincidência  levou  acaso  as  piedosas  fundadoras  a  propor-lhe 
a  direcção  das  conslrucções  de  que  haviam  mister. 

Apezar  de  nos  não  ter  o  chronista  da  ordem,  fr.  Fernando  daSo- 


^  Hoje,  i.°  de  março  (1(^  1888,  dia  oin  (pio  oslos  apontamentos  estão  sondo  coor- 
dpnados,  complctam-sn  exactamente  3U7  annos  cjiio  as  primeiras  qiiatríj  religiosas 
(latiieníías  elieiraram  Xa  ha  regas. 

^  Hoje  a  Escola  Normal. 


RKVISTA   ARCIIEOLOGICA  109 


ledade,  deixado  esclarecimentos  alguns  a  esse  respeilo,  u  que  não  é 
de  cxtranhar,  crrrnos  que  Iodas  as  circunislancias  nanadasna  Ciiionica 
Serapliica  no  locanle  á  edilicacão  do  (Calvário  nada  IoIIiímu  a  tjue  nella 
lenha  intervindo  este  iMÍas.  Kinalinenle,  a  algum  arcliileclo  devem  as 
duas  noLtres  damas  íundadoras  ler  encarregado  o  afeiçoar  a  anliga 
estancia  do  velho  judeu  que  ahi  morava  ao  seu  novo  deslino,  cons- 
truido  no  lerreno  da  anliga  <niiiila  do  Parlo  o  dormitório  que  um  ven- 
daval destruiu  logo  ao  ler-se  acabado,  levantado  a  egreja,  e  levado  a 
cabo  as  mais  ollicinas  do  mosteiro, 

(CoNtiNm)  Gomes  de  Biuto 


MISCELLANEA 

I  —  ínscripção  de  Aeminium 

Existe  no  Museu  do  Instituto  de  Coimbra  um  cippo  descoberto  em 
177)]  junto  ao  terreiío  do  antigo  (^astello,  que  vem  descripto  a  pag. 
i)  do  respectivo  Catalogo  do  modo  seguinte:  «Outra  lapide  sepulchral, 
de  O.^^HO  de  largo  por  0,"'3Í)  de  alto,  com  uma  cavidade  oblonga  na 
face  superior.  Falia  a  pedra,  que  cobria  a  dieta  cavidade,  e  na  qual 
devia  estar  aberta  a  piimeira  linha  da  inscripção. . .  Na  noticia,  que 
d  ella  escreveram. . .  J.  da  S.  I*ereira  e  L.  de  S.  Heis,  um  e  outro  co- 
piaram tambern  a  primeira  linha  da  inscripção,  cuja  pedra  desappareceu 
depois,  lendo  Pereira  i.  p  v.  D.  A.  e  g.  c  ciVT,  e  Heis  IPVDACS  ^  EIVT. 
É  facil,  porém,  de  conhecer  que  ambas  estas  leituras  são  deficientes 
e  obscuras,  não  sendo  já  agora  possível  inlerpretal-as  e  acertal-as  pe- 
los traços  mutilados  que  na  pedra  existente  apenas  se  entreveem  das 
extremidades  inferiores  das  leltras  i.  v.  D.  c.  s.  C.  I.VN...» 

Ilúbner  transcreve  a  inscripção  (C.  I.  L.,  u,  n.*^  394)  sem  propor 
restauração  da  primeira  linha. 

Devido  á  obsequiosidade  do  meu  antigo  mestre  e  amigo  o  sr.  dr. 
J.  A.  Henriques,  poude  obter  um  calco  da  pedra,  onde  consegui  fazer 
uma  leitura  quasi  completa  da  1.-''  linha.  É  a  seguinte: 

[ I  ann{oriim) . . .  . 

ann Ji.  s.  e.  h{ic)    s{ita)    c(sí).  ]    | 

de  C  PVBLíCIsS  G1£NT  [Dec{imus)?]Piiblicius  Gent  \ 

ianiis  /VXORI  »■  ETv  iMODES  [iamts?]  uxori,et  Modes  [tina?] 

tina?    F  ▼  MATRl  ▼  F  ▼  C  f^Hia)   malri  /{aciendum)  c{u- 

S  ^T^T  ■»■  I.  ravcrunt).  \  S[it)    t{ibi)   Hen-j) 

l{evis). 

. . .,  de  tantos  annos, aqui  está  sepultada. Decimo?  Publicio  Gen- 
ciano   e  sua  filha  Modestina,  mandaram  elevar  este  monumento» 


110  REVISTA  AUCHEOLOGICA 


elle  á  memoria  de  sua  esposa,  ella  á  memoria  de  sua  mãe.  Seja-te 
leve  a  terra. 

A  leitura  da  l.'^  linha  c  evidente;  apenas  é  muito  duvidosa  a  lei- 
tura da  primeira  leltra.  Parece-me  vèr  vestígios  dum  c:  pois  que  a 
haste  vertical,  que  tem  sido  tomada  por  i,  é  certamente  falha  da  pe- 
dra. Em  tal  caso,  intendo  que  essa  leltra  fazia  parte  do  praenome,  pro- 
vavelmente Decimo.  Mutilada  a  inscripção  pela  parte  esquerda  (segun- 
do o  calco  accusa,  e  claramente  se  deduz  do  excesso  das  Irez  pri- 
meiras linhas  sobre  a  ultima  (juasi  todas  alinhadas  no  começo),  creio 
que  alli  estaria  o  final  do  cognome,  provavelmente  Genliamis.  Prefiro 
Moilesliiia  a  Modesta,  em  attençãoao  espaço. 

Por  cima  das  linhas  existentes  havia,  em  meu  parecer,  mais  uma 
ou  duas,  onde  se  lia  o  nome  da  fallecida,  acompanhado  naturalmente 
da  indicação  da  sua  edade  e  da  formula  aqui  jaz  ele.  Kste  modo  de 
ver  fnndamenta-se  em  ser  absurdo  suppur  que  alli  faltasse  o  nome  da 
fallecida,  sendo  inadmissível  o  pretender  vel-o  no  íinal  da  primeira  li- 
nha e  no  começo  da  segunda. 

II  —  Inscripção  de  Conimbriga 

No  Museu  do  Instituto  de  Coimbra  estão  também  duas  lapides  mu- 
tiladas, mencionadas  no  Catalogo  (\)-a§.  IO  e  II),  descobertas  em  Con- 
deixa-a-velha. 

I— Uma  d"ellas,  segundo  o  calco,  com  que  me  obsequiou  o  sr.  dr. 
J.  A.  Henriques,  diz : 

/////7/S  •  SII.V\NV«;  [Iitliii]s?    Silvanii[s    \    ol\isipo- 

0/ISIPONENSI5  nensi[s      \      Sa]turniuo   f{ilio)     \ 

5  a  T  V  R  N  I N  O  -F  [piiissimo)  /[acicwhnn)  c(uravit)? 

p;;?  f?  c?  s.  t.  t.  l  s{it)  t{ibi)  i{erm)  l{cvis)] 

. .  .  s  Silvano  natural  de  Olisipo  fez  erigir  este  monumento  á  me- 
moria de  seu  amantissimo  lilho  Saturnino.  Seja-te  leve  a  terra. 

Numa  inscripção  descoberta  em  Lisboa  (C.  1. 1..  11,  n.°  2i27)  appare- 
ce  um  Q.  lulius  M.  F.  Gal.  Sibanus,  e  noutra  de  Chellas  {C.  I.  L.,  u, 
n.°291)  encontra-se  um  C.  Tulius  Si[oanus\  Temos  pois  provavelmente 
na  inscripção  de  Conimbrií^a  um  d'aquelles  indivíduos  ou  um  seu  parente. 

^ — Na  outra  inscripção^  segundo  se  diz  no  Catalogo,  apenas  se  le: 

lllllllllllíll^    '  [d{ns)]M{anibus)[s{acnim)\? 

//Il/I/U  FRON  1  .  .  .//:^    Froii  \  [to]  an{noriitn) 

ío  •  AN  •  ÍJC  LX\  [h{ic)  s{itiis)  e[st.]   S{ií) 

li.  s.  c.  s.  t.  t.  l.  t{ibi)  t{erra)  l[evis)\ 


REVISTA   ARCIILOLOGICA  111 

Consaqração  aos  deuses  manes.  . .  .li?  Frontão,  de  se- 
ssenta annos,  aqui  jaz  sepultado.  Seja-te  leve  a  terra. 

Talvez  na  segunda  linha  deva  lòr-se  l  [f].  Mas  também  pode  ter 
havido  na  pedra  . . .//  Fron[ioiii]  an.  LX,  e  segnir-se  a  dedicação  feita 
por  outrem. 

III  —  Inscriprão  de  Pax  J/dia 

A  seguinte  inscripção  está  numa  lapide  «metida  na  parede  ao  rez 
do  chão  no  tardoz  da  casa  do  despacho  antigo  da  egreja  de  S.  Thia- 
go,»  em  lieja  (calco  enviado  pelo  sr.  J.  Tavares  Lança*): 

C  A  N  D  I  l.  A  Candila\la  an[norum  XXII  |  h{ic) 

LA    •    ANXX"        s{iíci)  e{st).S{it)  t{ibi)  í{en-a)l{evis). 

H  S  E-STTI. 

Aqui  jaz   CanJilala,  fallecida  aos 
vinte  e  dois  annos.  Seja-te  leve  a  terra. 

A  lapide  está  mutilada  na  parle  superior.  A  inscripção  foi  já  pu- 
blicada no  C.  I.  L.,  II,  n.*^  58,  segundo  uma  copia  de  Acinla  com  a 
leitura  de  gandia  na  ■1/''  linha.  Iliibner  propõe  na  2.^  linlia  l-  [f]. 
Não  deverá  considerar-se  Candilala  como  o  nome  da  pessoa  fallecida? 

Lisboa,  25  junho  1888  Borges  de  Figueiredo 


BIBLIOGRAPHIA 

ÍAs  publicações,  com  cuja  Irocn  se  honra  a  Revista  Ahcheologica,.  suo  mencionadas 

pela  ordem  da  recepção) 

BriJ-F/niNO  DELí/I.MiM^niALK  IsTiTiiTO  Ancui:oí.OGico  Germânico.  Ses- 
sione  romana.  Vol.  ni.  Fase.  1.  iloma  1888. 

F.  Barnabei,  Di  alcune  iscrizioni  dei  território  di  Iladria  nel  Piceno  scoperle  in 
monte  Giovc.  nel  comwte  di  Cermiípiano.  —  A.  Mau.  La  hasilica  di  Pompei.  —  P.  Wol- 
tcrs,  Das  Clialcidicum.  der  Pompejanisclien  Basilica.  —  O.  Hossbach,  Tcller  des  Sika- 
nos.  —  V.  irartwig.  Nereide  im  Vatican.  —  T.  Moiiiinseii,  Tre  iscrizioni  Puteolane. — 
Ch.  Huelsen,  Miscellanea  epirjraphica  —  Sitzungsprotocolle. 

AcADÉMiE  DES  I.NsciupTioNs  ET  Belles-Lettres.  Comptes  rcndus 
des  séances  de  Tannée  1888.  Quatrième  Série,  Tome  xvi.  Bulletin  de 
Janvier-Février. 


1  O  sr.  íjauça,  resi(lf>nte  em  Beja,  tem-me  obsequiado  com  muitas  notas  e  apon- 
tamentos, uns  quo  já  tive  occaçião  do  publicar,  outros  que  apparecerão  opportuna- 
mentp.  Aqui  lhe  reilLU-o  sinceros  agradecimentos. 

O  mesmo  sr.  Lança  possue  grande  ([uantidade  de  moedas  portuguezas  e  roma- 
nas, que  me  consta  deseja  ceder.  As  moedas  portuguezas  passam  de  3.000;  as  roma- 
nas são  perto  de  400. 


112  REVISTA    AUCIIEOLOGICA 

Nas  aclas  das  sessões  desta  célebre  Academia  encoulram-se  pre- 
ciosíssimas noticias  sobre  todos  os  ramos  da  arctieologia,  frequente- 
mente acompanhadas  de  estampas.  Eis  o  snmmario  deste  boletim: 

Séances  de  Janvior-Février  —  Coinmunieatiuns:  I  Leilre  do  M.  Eiliii.  le  Blaiit, 
Direetuur  de  TEeole  de  l\on\o  (sobre  dois  iuteressdiítissimos  satropluigos  clirislãos,  pro- 
venientes (los  jardins  da  rilla  Lndovisi,  e  tona  capsa  de  prata  oval.  descoberta  em  Ain 
Séidd.  perto  de  Tchessa).  II  Lettre  du  méiiie  (sobre  escavações  executadas  nas  cníacum- 
lias  e  sobre  diversas  inscripções  latinas  de  Honia  e  do  Grande- São- Bernardo).  III  Lettre 
du  luèiiu'  (sobre  um  sarcopliatjo  christão  do  IV"  século,  encontrado  nos  fundamentos 
d'uma  capellíi  arruinada,  em  Tliêsan).  IV  Qnntriême  note  sur  ies  fouiUes  de  Clierchel.píLr 
yi.  Victor  Waille.  V  Lettre  de  ^l.  Edm.  le  Hlant  (sobre  uma  serie  de  barros  cosidos,  acha- 
dos em  Homa  ;  sobre  uma  estatua  colo!<sal  d'Apollo  Ciliiaréde,  achada  na  margem  direita 
do  Tihre.  em  (rente  do  porto  de  liipettn:  sobre  fraçinentos  de  baixos  relevos  e  de  inscri- 
pções provenientes  de  Carthago).  VI  Lettre  dii  mtMiie  (sobre  as  ultimas  descobertas  fei- 
tas nas  catacumbas  pelo  com.  ./.  B.  de  liossi,  Wilpert  c  Ubalilo  Giordanij. — A[)pentlice 
Rapport  du  Secrétaire  perpetuei  de  l' Académie  des  inscriptions  et  belles-leltres  sur  les 
travuiix  des  commissions  de  piddication. . .  —  Livres  olFerts. 

Ukvtk  dh  i/Aht  ciMiLTiE.N,  pubHóe  sons  la  direction  il'nn  comité 
d"Arlisles  et  dArchéologiies.  :]|""'  Année.  4.''  série.  Tome  vi,  1.''''''  et 
2."*''  livraisons  yanvier  à  jiiin.  1888). 

Esta  Revista,  piimoiosamente  illustrada,  è  redigida  por  dislinctos 
archeologos  e  artistas  francezes,  allemães.  inglezes,  belgas,  italianos, 
etc.  Ella  constitiie  o  melhor  repositório  periódico  da  arte  christã.  pres- 
tando relevantissimos  serviços  á  sciencia.  Dos  summarios,  que  seguem, 
dos  íasciculos  correspondentes  aos  dois  primeiros  triaiesties  deste  an- 
no,  ver-se-ha  a  importância  e  variedade  dos  assumptos  que  encerra. 

1 Z"  1  i  V  r. :  L'art  de  la  fonderie  des  mélaux  en  Allemarpie  à  la  fin  du  moijenà>jíe,  pai-  F.Fes- 
ting — La  legende  de  la  Licorne  ou  du  Monocéros.  par  le  Dr.  Ki'('d.  Scimeiílcr,  por  Jides 
Helbig — Iconograpliie  de  S-iinte  Cécde  d'aprés  les  monumentos  de  Borne  (2""=  et  dernier 
article),  par  Mgr.  X.  B^rbicr  de  Montault — De  (fuelques  injUiences  auvergnates  at  péri- 
gourdines  dans  les  égiises  romanes  du  Poitou  et  de  Saintonge.  par  .los.  Hertlielé —  Ele- 
mentos d'iconographie  chrélienne.  Ti/pes  sipnboligues  (3.""-"  artic-lo),  par  L.  (iioqiiet  — 
Église  de  Mont-derant-Sassey.  Iconographie  duportait,  par  Lt'oii  Gerniain — Les  émaux 
à  lamelles.  par  Mgr.  X.  íi.  de  Montault  —  Statues  dela  Vierge  et  de  Saint  Jean  à 
réglise  de  Saint-Cyr-snr-Loire.  par  L.  de  Farcy  —  La  nouvelle  façade  de  Véglise  cathé- 
drale  de  Santa  Maria  dei  Fiore  à  Florence,  par  le  prof.  V.  Aiubrosiani  —  La  Chdsse 
de  Sainte  Waudre,  p.  .1.  H. 

2.""^  livr.:  Dr  la  place  d  donner  aux  imageset  aux  ohjets  d'art  religieux,  dans  la  dé- 
coration  extêrieure  et  intérieure  des  mnisons,  p;ir  le  elian.  (].  Dehaisiies —  In  discours  sur 
les  beaux-arts  et  les  écoles  professionelles,  par.lules  ilelliig — Deux  réUcpiaires  de  Téglise 
Saint-Sernin  à  Toulouse,  par  C.  Douais — Les  croisades  et  les  inventaires  de  nos  églises, 
par  le  Dr.  Fréd.  Scliiieider  —  Deux  chapes  en  broderie  du  A7F"-  siecle  (1."''  art.),  par 
L.  de  Farcy  — De  1'origine  du  sti/lr  gothiípte,  par  L.  (]loquot  —  Impressions  d'un  pélé- 
rin  sur  les  monuments  de  Bome  et  les  oeuvres  de  la  Benaissance,  par  A.  L'h('réteyre  — 
Le  trêsor  de  rabbaye  de  Cluny.  par  A.  iienet — Les  drapa  mortuaires  des  róis  de  Fran- 
ce  :  Brotraits  de  César  Horgia  ;  Note  de  Dom  Calmet  sur  le  surhumêral ;  La  Vierge 
d'apri'S  les  monuments  de  Borne ;  Relitiues  et  Souveuirs  de  la  Passio)i  de  N.  N.,  á  Rome, 
par  Mgr.  X.  IJ.  de  Montault  —  La  nouvelle  façade  de  Véglise  de  Santa  Maria  dei  Fiore 
d  Florence,  par  le  prof.  V.  Andirosiani. 

Em  cada  livr.  encontrani-se  mais  as  .seguintes  secções:  Travaux  des  Sociêtés  sa- 
vantes  —  Bdjliographie  —  Index  bibliographique —  Chronique ;  etc. 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA  113 


ANTIGUIDADES  DE  CARQUERE 

A  egreja  de  Carí|iiere  c.  de  Uézende,  na  Beira-AIta)  fica  situada 
jiinlo  de  um  mono  chamado  pelo  povo  (se  bem  me  lembioj  mcdtjrro 
ou  medòvra  de  N.  Senhora  de  Can/uere.  Esle  morro  é  uui  castro,  co- 
mo se  reconliece  pelas  muralhas  (}ue  ainda  se  lá  avistam.  Tanto  alli 
como  perto  tem  apparccido  muitos  vestígios  da  civilisação  romana, 
taes  como  telhas  e  oulios  barros,  moedas  e  iuscripções. 

Algumas  iiiscrii)çr>es  são  dilliceis  de  lei':  e,  como  na  occasião  em 
que  eu  lá  fui,  Janeiro  de  1888,  me  não  [)ude  demorar,  deixei  de  tirar 
os  respectivos  calcos.  Apresento-as  pois  fragmentadas  e  ainda  assim  liy- 
potheticamenle  em  parte.  São  ellas: 

A  entrada  da  porta  de  uma  corte: 

N 

NN L 

P-F-G 

Km  um  muro  da  casa  da  residência  parochial,  defronte  da  egreja: 

ADA 

vc 

R  ....IIV 

I-  M-  X 

H-  S-  E-  S-  T- 

P-  F-  C 

Numa  parede  da  cosinha  da  mesma  casa  ha  outra,  lambem  dene- 
grida, onde  se  lè  um  numero,  de  certo  uma  idade. 

Vè-se,  ainda  assim,  (jue  erão  iuscripções  funerárias. 

Mais  importantes  porém  são  as  seguintes,  que  estão  em  poder  de 
uieu  primo  Manoel  Nicolau  Osório  Pereira  Negrão  na  sua  quinta  de 
Mosteiro,  e  já  tinham  sido  lidas  por  elle  e  pelo  seu  e  meu  amigo  o 
Ex.""'  Sr.  Dr.  João  de  Vasconcellos,  do  Marco  de  Canavezes,  um  e 
ourto  grandes  entlmsiastas  pela  archeologia  e  intelligenles  cultoies 
d"ella: 

oVNVA 

CASABI  F      . 

AN  LX 
Rev.  Arch.,  n."  S — Agosto  iSSS.  S 


•H4  REVISTA  ARCHEOLOGICA 

A  primeira  lellra  parece  mais  ser  S  do  que  iim  O  ;  alem  d'isso  o 
nomo  SVNVA  appnrece  nas  inscripções  liiso-romanas  da  Lusitânia  pu- 
bli.-adas  pelo  Sr.  l)r.  E.  líiibner.  Eu  leio  pois  a  inscnpção  assim: 
Sunua,  /ilha  de  Casabo,  viveu  GO  oimos. 

ME  LIA 

TOCETA 

A.  XXV.  F. 

M.  C.  T. 

Parecc-mc  que  se  pude  interpretar  assim:  Melia  Tnceta  annorum 
XXV;  fieri  momimcntiim  curavit  íesíamento. 

Estas  duas  agora  actiam-se  gravadas  em  duas  pedras  que  repre- 
sentam toscamente  duas  figuras  Immanas,  como  se  vè  no  esboço  (lado 
na  est.  VI  (n.  1  e  2)  e  que  se  devem  comparar  com  o  esboço  de  outra 
(n.  4)  que  existe  no  museu  Martins-Sarmento  de  Guimarães  e  teve 
a  mesma   proveniência  que  estas: 

D  M 
SAFA 
AMA 
LXXV 

Adeante  do  M  da  primeira  linlia  lia  um  espaço  limpo,  onde  podia 
caber  um  S;  vé-se  pois  que  o  S  da  S.-"^  linha  não  é  SACKViM,  mas 
se  liga  com  as  outras  leltras  d'essa  linha  para  constituir  um  nome. 
Temos  pois:  Aos  Deuses  Manes.  Safa  Ama,  de  7õ  annos. 

D  M  S  F 
AMA 
XXCII 

O  F  da  1.^  linha  é  por  si  uma  inicial,  e  não  se  liga  com  as  letlras 
da  2.''  linha,  pois  que  AMA  se  encontra  na  inscripção  precedente.  Na 
3.^^  linha  podia  haver  mais  um  X  ou  um  A  no  principio,  e  mais  um  I 
no  fim,  porque  a  pedra  está  safada:  mas  isto  é  sem  importância.  A 
leitura  é  pois,  adoptando  o  que  está:  Diis  manibus  sacrum.  F(ulvia? 
Flavin?)  Ama,  de  S2  (annos). 

Comparando  estas  duas  inscripções  com  a  de  Guimarães  já  referi- 
da, e  que  é  D.  M.  S.  F.  AMEN\.  LXV  ^ ,  achamo-nos  em  presença 
de  dois  nomes,  Ama  (repetido)  e  Amena,  que  com  certeza  se  ligam 


1  Cfr.  Rev.  de  GuimarãcSj  (;irt.  do  Sr.  F.  i\l.  Sariiicjitn). 


REVISTA   ARCIIEOLOGICA  U5 

grammalicalmenle.  Também  é  interessante  pertencerem  á  mesma  lo- 
calidade. 

Km  (]arquere  appareceu  ainda  ontra  inscripçãn,  muito  interessante, 
e  lanihcin  em  poder  de  hi(3u  primo  .Manoel  Negrão,  que  tem  já  uma 
bella  cullecção  arclieologica;  esta  inscripção  eslá  numa  pedra,  de  uns 
iá8  cenl.  de  comprido  e  uns  40  de  largo,  em  cuja  parle  superior  ha 
um  nicho  com  duas  liguras  escul|)idas  toscamente  e  que  representam 
as  duas  pessoas  lallecidas  a  (jue  a  pedra  servia  de  monumento, 
(Est.  VI,  n.  :J.)  Lè-se  bem  L)  .M  e  na  linha  terceira  ANXX,  mas  tudo 
o  mais  se  acha  gasto.  A  pedra  é  de  granito  grosseiro.  * 

Linguistameule  ha  por  tanto  que  colher  nas  inscripções  transcri- 
ptas  os  seguintes  nomes  indígenas:  Ama,  Amena,  Casabus,  Melia, 
Safa,  Sunua  (já  conhecido  cá),  e  Tocda. 

Ouvi  dizer  (jue  em  C.ai'(juere  appareceu  um  touro  de  ouro,  peque- 
no; não  o  vi,  mas  é  provável  que  seja  egual  a  algumas  eslatnelas  que 
se  guardam  nos  Museus  do  reino  e  se  relacionam  com  as  ideias  reli- 
giosas dos  nossos  maiores,  os  Lusitanos. 

No  morro  de  Carijuere,  de  que  fallei  no  principio  d'este  artigo, 
ha  um  grande  rochedo  chamado  O  penedo  da  tíenhora,  com  algumas 
cavidades  feitas  pelos  devolos  que  lhe  vão  extraliir  pó  de  pedra  que 
depois  tomam,  cuidando  que  assim  se  livram  das  sesões.  É  uma 
crença  análoga  a  tantas  outras  que  correm  pelo  pais;  no  logar  da 
Sobrena,  concelho  do  Ervedal  (Extremadura),  existe  por  exemplo  uma 
semelhante  com  um  santo  de  pedra. 

Ao  alto  do  morro  ergue-se  um  nicho  onde,  segundo  a  tradição,  ia 
resar  a  mulher  de  Egas  Moniz,  aio  do  nosso  primeiro  rei  (sec.  xii); 
neste  nicho  está  uma  imagem  da  Virgem  com  que  se  liga  uma  lenda 
de  um  jacaré  e  de  uns  novelos,  como  succede  com  a  Senhora  da  Lapa, 
na  mesma  província.  Na  igreja  mostra-se  ainda  o  jacaré. 

Resumindo  tudo  quanto  íica  dito,  nota-se  o  seguinte:  que  em  Car- 
quere  ha  um  grande  elemento  pagão,  que  nem  o  Christianismo  nem 
o  tempo  poderam  ainda  apagar.  A  Senhora  de  Carquere,  com  aquelle 
penedo  tão  significativo  e  aquella  lenda,  deve,  quanto  a  mim,  lepre- 
sentar  uma  divindade  pagã;  de  mais  a  mais  o  penedo  está  ainda  alíei- 
çoado  de  modo  (pie  parece  ter  servido  de  base  a  algum  idolo  ou  cousa 
semelhante.  Nada  disto  deve  causar  estranheza,  porque  é  sabido  o 
modo  pelo  qual  a  religião  christã  se  implanta  nos  povos  pagãos;  as 
crenças  e  os  costumes  não  Ibrão  destruídas,  mas  adaptadas  ás  novas 
ideias;  as  divindades  forão  substituídas  pelos  santos,  pela  Virgem, 
etc,  e  até  ás  vezes  se  aproveitaram  as  próprias  imagens  e  os  nomes, 


1  Podem  ver-se.  somelhanleineiite  a  este,  vários  cippps  funerários  que  cntèrn  ni- 
chos com  persunap;cns  em  relevo, —  por  exemplo  na  Epirjrdphie  (jallo-romuine  de  la 
MoS)'llc.  Paris.  1888.  eslainpi  ix  e  x.  Alguns  cPesses  cippos  gallo-romanos  são  termi- 
nados em  angulo;  os  nichos  também  ás  vezes  são  arredondados  como  este  nosso. 


il6  REVISTA   AKCDEOLOGICA 

como  siicceden  com  Santa  Felicidade  e  SaMo  Perpeluo  f=  Felicitas 
Perpelio  (l;i  Romana),  a  Senhora  da  Saiide,  Senhora  da  Esperança, 
Senhora  da  Virtude,  etc,  que  tinham  os  seus  correspondentfis  nas 
deificaçõos  de  Salas,  Spes,  Yirfiis,  e  assim  por  deante.  Carquere  por 
tanlo  é  apenas  um  caso  entre  mil. 
Lisboa,  20  de  Agosto  de  1888. 

J.  Leite  de  Vasconcellos. 


CONVENTO  DAS  FLAMENGAS  EM  ALCÂNTARA. 
OS  ARCHITECTOS  FRIAS 

(Continuado  de  pag.  109) 

Aventurámos  a  supposição  de  que  que  todos  os  cinco  Frias  até 
agora  conliecidos  fossem  parenles.  Foi  uma  tentação  a  que  as  circum- 
slancias.  aliás,  nos  estavam  convidando,  e  que  ainda  cremos  não  ser 
de  todo  iiijnslificada. 

Que  improbalidade,  com  effeilo,  poderá  liaver  em  que  esse  sam- 
hlador  célebre,  esse  Pedro  de  Frias  que  já  em  I50I  iliustrava  o  appe- 
lido,  distinguindo-se  na  samblagem  e  na  talha,  quem  sabe  se  elle  mes- 
mo, filho  já  de  algum  outro  artista,  será  o  patriarcba  d"esta  família 
que  parece  ter  tomado  para  si  o  exclusivo,  nos  fins  do  decimo  sexto 
século  e  primórdios  do  século  seguinte,  de  uma  das  manifestações 
mais  nobres  da  Arte —  a  sciencia  da  architectura,  fazendo  condigna 
continuação  aos  Alvares  e  aos  Arrudas? 

Quem  nos  diz  que  esse  Valeriano  de  Frias  de  Castilho,  entendido 
cm  architectura,  que  em  KíOO  dava  em  Vianna  provas  do  seu  préstimo 
na  Arte,  não  era  parente,  pela  linha  materna,  acaso,  d'estes  Frias  lodos 
já  nossos  conhecidos? 

Esse  mesmo  Eugénio  de  Frias,  que  no  próprio  anno  em  que  o 
Ihesoureiro  do  Arcebispo  de  Braga  dirigia  os  trabalhos  para  a  con- 
slrucção  da  eça  do  Santo  Arcebispo,  executava  o  frontespicio  do  Com- 
promisso da  Irmandade  de  S.  Lucas,  não  poderá  ser  irmão,  ou  lilho 
mesmo,  do  primeiro  Theodosio,  não  poderá  ser  outro  filho  de  Nico- 
lau de  Frias,  ou  outro  seu  neto? 

Emquanio  uma  paciente  e  aturada  leitura  dos  livros  das  chan- 
cellarias  dos  lieis  de  Portugal  e  correlativo  exame  nos  documentos  de 
que  essa  leitura  nos  apontar  a  proficuidade  não  i)uder,  ou  por  nós  ou 
por  outrem,  sêr  levada  a  effeito,  procuremos  condensar  nesta  modesta 
Icnialiva  não  só  Itido  (jnaiito  anda  apurado  acerca  dos  Frias  já  co- 
nhecidos, como  tudo  quanto  agora  {ludémos  ai)iu'ar,  em  rápido  bos- 


líEVISTA  ARCHKOLOGICA  11" 


qiiej;ir,  íicltc.i  dos  Frins  iiõvainijiiU;  .'ippiírecidos.  Servirá,  assim,  csle 
estudo,  se  não  é  demasiada  pretensão  nossa,  de  ponto  de  pailida  |)ara 
mais  completo  e  mais  profundo  trahallio. 

Comecemos  pelo  patriarcha  da  lamilia,  Nicolau  de  Parias.  Mediante 
(IS  esclaiecimenlos  «pie  nos  niinisliam  os  livros  da  cliancellaria  de  Fi- 
lippe  11  de  Portugal,  custam  pouco  a  seguir  os  marcos  (pie  assigna- 
lain  a  actividade  artislica  de  Tlieodosio  de  Frias;  pcjde  dizer-se  que  é 
mais  fácil  acompanhar  o  filho,  ainda  lionlem  desconhecido,  do  que  se- 
guir o  pac  já  mais  familiar  aos  scienles  d*estas  matérias. 

Não  sabemos  de  Tlieodosio  du  Frias  onde  e  (juando  nasceu,  mas 
sabemos  de  certo  (juando  morreu,  e  onde,  muito  mais  (jue  provavel- 
mente. Sabemos  também  (juando  começou  a  sua  carreira  o(fkinL  as 
cmnmissõcs  que  exerceu,  e  o  sabemos  de  modo  tão  positivo  que,  [)elos 
documentos  que  existem  somos  levados  a  suppôr  que  o  filho  de  Nico- 
lau de  Frias  não  só  exerceu  a  sua  actividade  artística  em  Lisboa,  mas 
em  Madrid  lambem,  se  é  (pie  ahi  não  foi  só  por  sollicilar  uma  collo- 
cação  otíicial  na  pátria. 

De  Nicolau  de  Frias,  porijm.  tudo  o  que  sabemos,  é  que  teve  dois 
irmãos  clérigos  e  duas  irmãas  freiras.  D"um  dos  clérigos,  não  dos  diz 
o  nome  Fr.  Luiz  de  Souza,  de  quem  apuramos  estes  esclarecimtínlos; 
outro,  foi  o  F."  António  de  Frias,  prior  em  Unhos  «Igreja  de  grossa 
renda»,  diz  o  chronista,  e  «em  cujo  serviço,  foi  bom  imitador  das  vir- 
tudes de  sua  ii-mãa».  Fsta  irmã  dos  Frias,  Sor  Felipa  do  Espirito  San 
to,  professou  em  Chellas  a  pouco  mais  dos  dezeseis  annos.  Setenta  ves- 
tiu o  habito,  morrendo  aos  oitenta  e  cinco,   no  delCl".  * 

A  outra  irmã  de  Nicolau  de  Frias  foi  Sor  Ignes  de  Jesus,  domini- 
cana em  o  mosteiro  de  Abrantes. 

Dos  parentes  de  Nicolau  de  Frias,  é  quanto  está  sabido.  Da  famí- 
lia que  elle  procreou,  apenas  conhecemos  agora  o  seu  lilho  Theodosio. 
Era  Eugénio  de  Frias,  o  imaginário,  seu  filho  também,  seu  sobrinho, 
seu  neto?  Muito  conjunclo  seu  parente  deve  ter  sido,  vista  a  sua 
contemporaneidade.  Nada  mais  potlendo,  por  agora,  adiantar,  venha- 
mos á  actividade  artislica  do  nosso  architecto. 

O  primeiro  acto  conhecido  em  que  Nicolau  de  Frias  averiguada- 
mente  interveio  é  o  da  primeira  medição  das  aguas  de  Relias,  a  que 
elle  procedeu  em  1573,  por  ordem  do  presidente  e  vereadores  da  ca- 
mará de  Lisboa,  e  na  qualidade  de  Mestre  dobras  da  cidade.  O  fa- 
do certificou-o  o  próprio  architeclo  no  documento  (]iie  se  lê  a  pag. 
287  do  vol,  3.°  do  Panorama;  a  data  colhe-se  da  carta  regia  de  á  de 
março  de  1573,  na  qual  D.  Sebastião  «folga  de  saber  as  diligencias 
que  a  camará  tem  feito  sobre  a  agua  livre,  por  ser  cousa  tão  neces- 
sária para  a  prouisão  e  armamento  da  cidade^»  Nicolau  de  Frias,  em  vez 


1  Hist.  de  S.  Domingos  L.  I,  cap.  27. 

-  Sr.  Frciío  iroiivcira,  EleinentoSy  pag.  o&8. 


•118  REVISTA    ARCHEOT-.OGICA 

íle  designar  precisamente  o  anno  em  qne  procedera  a  essa  primeira  me- 
dição, diz  que  fora  feita  «em  tempo  do  sr.  rei  D.  Sebastião  que  Deus  tem.» 
Vem  em  seguida  o  nefasto  anno  de  1578,  e  com  elie  a  nomenção  de  Nico- 
lau de  Frias  para  siíiador  do  campo,  em  Africa,  em  companhia  de  Filippe 
Terzo,  egualmente  nomeado  para  cargo  idêntico.  Mais  feliz  do  que  o 
seu  camarada,  Nicolau  voltou  ao  reino,  sem  haver  mister  de  ser  res- 
gatado, ^  continuando,  ao  que  parece,  simples  mestre  de  obras,  sem 
emprego  na  Casa  Real.  O  documento  a  que  anteriormente  nos  referi- 
mos, e  que  é  uma  certidão  das  duas  medições  feitas  por  elle,  é  assl- 
gnado  em  Lisboa,  a  25  de  junho  de  1588,  e  appareceu  no  processo 
de  uma  demanda  sobre  aguas  entre  os  frades  de  S.  Francisco  e  os  de 
Santo  Eloy  do  Porto,  como  se  relata  em  a  noticia  que  antecede  a  pu- 
blicação do  documento. 

Neile  se  dá  Nicolau  de  Frias  modestamente  como  amestre  de 
obras  das  igrejas  d'csle  arcebispado  de  Lisboa,  e  obras  da  cidade.»  Pa- 
rece curial  suppôr  que,  se  fora  architecto  d'el-rei  e  fidalgo  da  sua  ca- 
sa, preeminência  que  parece  andar  inherente  a  este  cargo,  Nicolau  de 
Frias  não  deixaria  de  mencionar  esses  tilulos  e  em  piimeira  linha. 
Como  quer  que  seja,  a  sua  nomeação  de  ^rmestre  de  minhas  obrasy> 
segundo  grão  hierarchico  das  funcções  de  architecto  real,  data  de  1507, 
e  essa  circumstancia  nos  leva  a  suppôr  uma  de  duas  cousas: — ou  que 
Nicolau  de  Frias  era  já  considerado  architecto  régio  desde  a  sua  no- 
meação de  siíiador  do  campo  na  expedição  de  Alcacer-Kibir,  ou  que 
foi  nomeado  para  aquelle  cargo  de  fins  de  1588  em  diante. 

No  primeiro  caso,  talvez  Nicolau  Frias  não  ousasse  invocar  a 
sua  qualidade  de  architecto  régio,  ignorando  acaso  se  Filippe  lhe  con- 
firmaria a  nomeação.  Este  ponto  não  pôde,  por  agora  ser  suííicienle- 
mente  esclarecido^,  porque  a  piimeira  revisão  a  que  se  procedeu  nas 
chancellarias  de  D.  Sebastião  não  nos  deu  cousa  alguma  acerca  de 
Nicolau  de  Frias,  o  que  se  explicaria  pela  precipitação  e  desordem 
com  que  o  infeliz  monarcha  fez  os  aprestos  daquella  funesta  jornada. 
É  certo  que  Filippe  II  vindo  a  Lisboa,  occupou  logo  Nicolau  de 
Frias.  Observando  a  grande  falta  de  agua  de  que  a  cidade  continuava 
a  padecer,  mandou-lhe  repetir  as  meoições  que  elle  já  havia  feito  por 
ordem  da  camará.  O  rei  intruso  approvou  estas  medições,  bem  como 
os  seus  architeclos,  diz  Nicolau  de  Frias  na  certidão  já  citada,  sem 
declarar,  todavia,  o  anno  em  que  essa  nova  medição  se  eííectuou,  e 
limitando-sc  ao  caso  enunciado:  c vindo  el  rey  nosso  senhoi-  á  coroa 
d'estes  reinos».  Este  serviço  mandou-o  Filippe  fazer  a  Nicolau  de 
Frias,  ou  como  servidor  da  sua  casa,  implicitamente  considerado  tal 
pela  nomeação  d'el-rei  D.  Sebastião,  ou  porque,  lendo  noticia  de  que 
fora  Nicolau  quem,  na  sua  qualidade  de  mestre  de  obras  da  cidade, 


'  Terzo,  como  já  rnmicionarain  S.  Luiz,  Piíiczyiiski  o  o  sr.  Visconde  de  r.astilho,  foi 
resgatado  pelo  Cardeal-líei. 


ItKVISTA    AliCllEOLOGICA  MO 


fixara  as  iinMlirões  alguns  aDiios  antes,  enlendeu  que  melhor  se  iiavia 
de  (lt.'sein[)enliar  do  urdenado  este  artista,  do  qne  outro  qualipier, 
alheio  ao  objecto  de  (jiie  se  tratava.  Talvez  por  ambas  estas  razões. 
Emtaiito,  Filippe  11  no  ultimo  amio  do  seu  domínio  (a  1 1  de  junho  de 
1597)  elevou,  como  dissemos,  o  antigo  mestre  de  obras  da  cidade, 
seu  arcliitccto,  a  mestre  das  obras  dos  seus  paços  da  Ribeira,  <ida  ma- 
neira tjiii'  o  linha  e  servia  Filipix'  Tercio,  por  cujo  fallecimeiito  o  dito 
caryo  vatjou».  É  natural  (jue  esta  nomeação  se  não  íizesse  esperar 
após  a  morte  do  architeclo  italiano,  da  qual  não  ponde  ainda  avei'iguar 
a  data.  Filippe  Terzo  projectava,  e  acaso  começara  a  construir  o  tor- 
reão chamado  depois  da  Casa  da  índia,  e  então  conhecido  pelo  — 
forte—;  espécie  de  construcção  fortificada  á  beirario  com  que  Filippe 
determinava  assegurar  a  immtiuidade  dos  paços  de  U.  Manoel  contra 
algum  golpe  de  mão  tentado  por  mar,  senão  contra  elle,  contra  a  le- 
gencia  que  o  representava. 

Acaso  foi  na  prosecução  d'essa  obra  que  a  morte  veiu  siirprehen- 
der  o  seu  auctor. 

Nicolau  de  Frias,  nomeado  mestre  das  obras  de  paços  da  Ribeira 
immediatamente  a  esse  succésso,  teria  por  missão  acabar  a  obra  do 
seu  antecessor. 

Dois  annos  depois  d'esta  nomeação,  o  successor  de  Filippe  II  co- 
meça o  rol  das  liberalidades  com  que  regalou  os  Frias,  arbitrando  ao 
successor  de  Filippe  Terzo  o  ordenado  de  (J0;>000  rs.  (alvará  de  10  de 
fevereiro  de  1599). 

Em  todo  o  movimento  artístico  do  ramo  —  architectura  —  que  des- 
cende desde  D.  João  111  até  D.  João  IV,  parece-nos  ver,  mais  ou  me- 
nos caracterisadas,  certas  regras  de  administração  que  a  este  ponto 
respeitam.  Assim  como  á  situação  de  architecto  régio  vemos  ligada  a 
qualidade  de  cavalleiro  da  casa  real,  do  mesmo  modo  se  vè  lambeín 
inalteravelmente  observada  a  praxe  que  consistia  em  tirar  os  mestres 
das  obras  dos  paços  reaes  da  classe  dos  artistas  que  já  eram  archite- 
ctos  régios.  Por  outro  lado  parece  que,  independentemente  da  classe 
de  architectos  régios  se  davam  nomeações  de  architec.tos  militares, 
persistindo  através  todos  os  reinados,  que  medeiam  entre  D.  João  111 
e  D.  João  IV,  um  como  vislumbre  de  separação  de  attribuições,  um 
rudimento  da  dislinçcão  entre  engenheiros  militares,  propriamente 
taes  e  architectos  civis.  Ás  vezes  acontece  que  os  architectos  régios 
são  empregados  pelo  reinante  em  assumptos  militares,  em  forliíicações; 
outras,  é  o  contrario  que  se  observa;  e  ambos  os  casos  com  frequên- 
cia. 

Filippe  Terzo  foi,  naturalmente,  conlractado  para  o  ramo  de  enge- 
nharia e  construcção  de  praças.  No  emtanto,  como  naque/les  tempos 
a  engenharia  propriamente  dieta  não  excluia  os  estudos  de  architectura 
ornamental  ou  civil,  os  artistas  constructores  achavam-se  egualmente 
habilitados  para  ambos  os  empregos,  e  em  ambos  indistiuctamente 


iO  REVISTA    ARCHEOLOGICA 


eram  occupados,  consoante  ao  mérito  ou  aos  talentos  que  em  qual- 
quer das  duas  especialidades  desenvolveriam. 

Assim,  Terzo^  que  construiu  pragas,  fontes  e  aqueduclos  em  Por- 
tugal, riscou  e  edificou  o  remodelado  utosteiro  de  S.  Vicente  e  acaso 
daria  a  traça  para  o  tecto  de  S.  Roque,  porque  architecto  da  obra, 
auctor  de  toda  ella.  não  nos  parece  que  fosse.  Affonso  Alvares,  que 
era  mestre  de  fortificações  no  reinado  de  D.  Sebastião,  era  por  este 
monarcha  enviado  á  camará  de  Lisboa  para  se  entender  com  ella  a 
respeito  da  edificação  da  egreja  de  S.  Sebastião  da  Mouraria,  visto 
que  o  monarcba  resolvera  que  elle  fosse  o  mestre  dessa  obra.  A 
Theodosio  de  Frias  emfim,  ao  filho  de  Nicolau  de  Frias,  era  iniciada 
a  carreira  em  ICOO,  mandaudo-o  el-rei  servir  «nas  cousas  de  fortifica- 
ção do  Reino  e  nas  praças  d 'elle,  e  mais  cousas  que  o  meu  engenheiro 
mór  lhe  ordenar».  (Alv.  de  !24  de  marco  de  ICOO), 

Ora  Filippe  Terzo,  engenheiro  mi